quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Discografia Americana - A Date With Elvis

A Date With Elvis (1959)
BLUE MOON OF KENTUCKY
YOUNG AND BEAUTIFUL
(YOU'RE SO SQUARE) BABY I DON'T CARE
MILKCOW BLUES BOOGIE
BABY LET'S PLAY HOUSE
GOOD ROCKIN' TONIGHT
IS IT SO STRANGE
WE'RE GONNA MOVE
 I WANT TO BE FREE
I FORGOT TO REMEMBER TO FORGET




Singles que deram origem a este disco:
That's All Right / Blue Moon of Kentucky (1954)
Good Rockin Tonight / If I Don't Care if the Sun Don't Shine (1954)
Milkcow Blues Boogie / You're a Heartbreaker (1955)
Baby Let's Play House / I'm Left, You're Right, She's Gone (1955)
I Forgot to Remember to Forget / Mystery Train (1955)

A Date With Elvis: Não houve mudanças significativas na capa de “A Date With Elvis” ao longo dos anos. Com direção de arte simples e agradável, com Elvis em um carro olhando para trás e três fotos adicionados na parte inferior, o design seguiu em futuras reedições do disco, seja no vinil, seja no CD. A última edição em vinil no Brasil ocorreu em 1982 na série “Pure Gold” da RCA. Na era do CD houve poucas reedições, nos EUA apenas duas, fato fácil de explicar pois “A Date With Elvis” nada mais é do que uma coletânea e esse tipo de lançamento fica logo ultrapassado sendo superado por coletâneas posteriores mais completas.

Pablo Aluísio.

Little Richard - Here´s Little Richard

Olhem bem essa capa ao lado. Agora imaginem seu impacto na sociedade racista dos Estados Unidos da década de 1950. Um negro, nada discreto, com a boca escancarada, cheia de dentes, gritando de forma estridente! Mais “Little Richard” do que isso impossível! A capa de “Here´s Little Richard” é certamente uma das mais ousadas e provocadoras da história do Rock! E vai bem de acordo com a trajetória dessa figura fantástica da primeira geração de roqueiros americanos. Poucos artistas viveram de forma tão intensa o espírito do Rock quanto Little Richard. Ele por si só já era um poço de escândalos e contradições! Negro, desafiava a sociedade da época com roupas luxuosas, espalhafatosas e berrantes! Alucinado, gritava a plenos pulmões sua música despudorada, embora na época os negros fossem tão reprimidos que mal podiam abrir a boca sem autorização dos brancos. Profundamente religioso conseguia ser ao mesmo tempo um homossexual sem pudores, escandalizando a todos por onde passava. Cristão agia de forma pouco modesta e humilde, se auto intitulando o “maior roqueiro da América”!  No fundo Little Richard era mesmo uma figuraça!
   
Esse foi o primeiro álbum da carreira do roqueiro e só tem clássicos! É incrível mas basta ler a lista das músicas para se ter uma noção da quantidade de grandes clássicos da história do rock presentes aqui: “Tutti Frutti”, “Ready Teddy”,  "Slippin' and Slidin', Long Tall Sally", "Rip It Up", “Jenny, Jenny” entre outras. É muito standart para um álbum só! E o mais incrível de tudo é saber que a grande maioria dessas canções foram compostas pelo próprio Richard Penniman (o nome real do cantor). Realmente impressionante. Como não era dado a modéstias, Little Richard trabalhou ao lado de uma super banda com mais de 20 músicos ao longo de todos aqueles anos. O selo era pequeno, uma pequena gravadora especializada em música negra chamada Specialty Records, mas isso não impediu o disco de vender muito naquele mesmo ano. Claro que muitas das canções já tinham chegado antes no mercado no formato single mas isso não retira o impacto desse primeiro álbum de Little Richard. Era de certa forma uma apoteose de tudo o que ele vinha produzindo até então. Um retrato perfeito de um artista marcante que se tornou um ícone naqueles anos pioneiros do Rock americano. “Here´s Little Richard” é de fato um item obrigatório na coleção de qualquer roqueiro que se preze!

Here´s Little Richard (1957)
Tutti Frutti
True Fine Mama
Can't Believe You Wanna Leave
Ready Teddy   
Baby
Slippin' and Slidin'
Long Tall Sally
Miss Ann
Oh Why?
Rip It Up
Jenny, Jenny
She's Got It

Pablo Aluísio e Erick “Little” Steve.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

A Fera do Rock

Jerry Lee Lewis tinha vocação para piromaníaco. Ele gostava mesmo era de tocar fogo nas coisas. Quando não estava no palco colocando fogo em seu piano, estava fora dele jogando gasolina nas chamas de sua carreira. Foi o mais incendiário artista da primeira geração do Rock ´n´ Roll. Lewis surgiu na Sun Records, a mesma pequenina gravadora de Memphis que revelou Elvis Presley. Tinha talento, ótima perfomance de palco e uma postura que reunia rebeldia, arrogância e ousadia. Seu sonho era um dia se tornar maior que o próprio Elvis! Após emplacar vários sucessos partiu para uma viagem à Inglaterra naquela que seria sua turnê de consagração. O futuro parecia promissor e brilhante. Infelizmente a imprensa britânica acabou com seus sonhos. Um jornalista descobriu meio que ao acaso que ele havia se casado com sua prima de apenas 14 anos. Isso bastou para que tudo viesse abaixo em pouco tempo. Lewis foi banido das rádios, seus shows foram cancelados e em pouco tempo ele viu tudo o que restava de sua outrora carreira virar literalmente cinzas. A vida do chamado “The Killer” é certamente das mais interessantes e curiosas da música americana e por isso em 1989 virou filme sob direção de Jim McBride, com Dennis Quaid no papel principal. Embora historicamente incorreto em alguns aspectos “A Fera do Rock”  é até hoje lembrado com carinho pelos fãs de musicais em geral.

A estética que foi escolhida foi bem technicolor, exagerada, vibrante, com linguagem das comédias românticas dos anos 50. A trilha sonora é uma delícia e reúne todos os grandes sucessos de Lewis no auge de sua carreira como Great Balls Of Fire, Whole Lotta Shakin’ Goin’ On, Crazy Arms e High School Confidential. É certo que Dennis Quaid está muito afetado na pele de Jerry Lee Lewis mas isso não tira o charme da produção. Uma jovem e talentosa Winona Ryder dá brilho ao elenco ao interpretar Myra Gale Brown, a prima adolescente de Lewis que acabaria sendo sua ruína. O elenco aliás está muito bem, com todos à vontade em seus respectivos personagens. O próprio Jerry Lee Lewis resolveu participar do clipe promocional do filme, cantando e tocando piano ao lado de Dennis Quaid. Tirando esse lado mais colorido da película a verdade pura e simples é que a vida de Lewis estaria mais para um drama pesado do que para uma comédia musical como essa. Eu entendo que os produtores não quiseram fazer nada baixo astral e ao invés disso optaram por celebrar o artista. Nada há de errado nisso. Só que se deve registrar que o que fizeram a Lewis durante muitos anos foi de uma crueldade imensa. Arrasaram com um artista talentoso apenas por uma questão de falso moralismo extremo. Ainda bem que Jerry Lee Lewis é acima de tudo um grande sobrevivente. Enfrentou todas as barras e conseguiu em vida ver sua estrela renascer novamente. Palmas para ele. O que fica é a certeza que Jerry Lee Lewis foi certamente um grande nome do Rock americano que merece todo o respeito e reverência. Um verdadeiro The Killer que marcou para sempre a música do nosso tempo.

A Fera do Rock (Great Balls of Fire!, EUA, 1989) Direção: Jim McBride / Roteiro: Jack Baran, Jim McBride baseados no livro de Myra Lewis e Murray Silver Jr./ Elenco: Dennis Quaid, Winona Ryder, Stephen Tobolowsky, Trey Wilson, Alec Baldwin / Sinopse: Cinebiografia do cantor de rock dos anos 50 Jerry Lee Lewis. Revelado pela Sun Records de Sam Phillips acaba tendo sua carreira destruída por ter se casado com sua prima menor de idade.

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.

The Wonders

Não precisa entender muito de música para compreender que The Wonders é na realidade um filme que parodia a primeira fase dos Beatles. Isso mesmo. A banda, seus conflitos internos e até o empresário são releituras bem humoradas do famoso quarteto de Liverpool. O projeto aliás é fruto do empenho pessoal de Tom Hanks. Como ele mesmo explicou em entrevistas sempre foi muito fã dos Beatles, mas de sua primeira fase quando cantavam inocentes canções de amor, geralmente retratando as paixões adolescentes, os primeiros namoros e os sentimentos de decepção quando ainda somos bem jovens e inexperientes com a vida. Em certo momento Tom Hanks pensou em filmar esses primeiros momentos do sucesso mundial dos Beatles mas depois mudou de idéia pois havia muitos problemas relativos a direitos autorais envolvendo a imagem e a música do grupo. O filme sairia muito caro e não era certeza ter a aprovação de todas as pessoas que detém de alguma forma direitos sobre a obra do grupo. A própria Yoko Ono não era uma pessoa fácil de se convencer nesse sentido.

Assim Tom Hanks resolveu arregaçar as mangas e decidiu escrever o roteiro ele mesmo. Ao invés dos Beatles o roteiro mostraria uma daquelas bandas de um sucesso só. Grupos descartáveis que faziam grande sucesso com uma só canção e depois desapareciam tão rapidamente como surgiam. Além de escrever o argumento e o texto do filme, Tom Hanks resolveu ir mais além, produzindo, atuando e por fim dirigindo The Wonders. Ao custo muito razoável de apenas 26 milhões de dólares o ator colocou o projeto em frente. O resultado é muito agradável com roteiro redondinho e bem escrito. Muitos reclamaram que o filme era por demais inofensivo, que sua dramaticidade era muito pueril e adolescente. Eu não vejo esse aspecto do filme como demérito.

A produção retrata um período bem específico da música americana, na primeira metade dos anos 60 e essa época é realmente muito leve, romântica e pueril ao extremo. Arrisco a dizer que muito pouco se produziu de verdadeiro rock n roll nesses anos pois os grupos musicais (incluindo Beatles em sua primeira fase) eram muito chegados a um pop mais inofensivo, sem a garra revolucionária e pulsante da primeira geração de roqueiros da década de 50. Era um som muito açucarado para falar a verdade e o grupo The Wonders do filme é a síntese de todo esse quadro cultural daqueles anos. Por isso todas as críticas que foram feitas contra o filme não procedem. Não é que ele seja meloso ou bobinho demais, a época que ele retrata era assim e não se pode mudar muito isso. Deixando isso de lado encerro o texto elogiando a trilha sonora do filme. Incrível como músicas atuais conseguiram reproduzir o estilo e a cadência do som da época. A própria “That Thing You Do!” é saborosa! Assim não deixe de ver The Wonders, um filme sobre um tempo quando a música americana mais parecia um chiclete colorido! Assista para entender.

The Wonders (That Thing You Do!, EUA, 1996) Direção: Tom Hanks / Roteiro: Tom Hanks / Elenco: Tom Hanks, Liv Tyler, Charlize Theron, Tom Everett Scott,  Steve Zahn,   Rita Wilson,  Chris Isaak  / Sinopse: Em 1964 um empresário astuto conhecido como  Mr. White (Tom Hanks) resolve acreditar e investor numa nova banda formada por jovens desconhecidos. Após estourarem nas paradas com o sucesso “That Thing You Do!” o grupo começa a desmoronar internamente por causa de brigas de egos e desavenças sobre o futuro do conjunto musical.

Pablo Aluísio e Erick Steve.

The Doors

Uma das melhores cinebiografias já feitas sobre um astro de Rock. Além de contar com o genial Oliver Stone na direção o filme traz a melhor interpretação de toda a carreira de Val Kilmer. É impressionante, só quem conhece e assistiu as cenas do verdadeiro Jim Morrison entende como Kilmer foi simplesmente perfeito em sua encarnação do King Lizard, o mais alucinado dos cantores que já pisou na face da terra. Sua entrega ao personagem é comovente e sendo muito sincero Kilmer deveria ter levado o Oscar por sua personificação. O filme só não é nota 10 no quesito atuação por causa de Meg Ryan. O problema principal é que ela continuou fazendo novamente o seu eterno papel de namoradinha da América, caracterização completamente inadequada de Pamela, a namorada de Jim. O que vemos em cena com Ryan é um personagem totalmente diferente da verdadeira namorada de Morrison.. Na vida real ela era uma mulher de sua época, que usava muitas drogas, praticava sexo livre e tinha problemas com sua família. No filme nada disso é mostrado e ela virou uma menininha boazinha. Oliver Stone com medo de ser processado pelos pais da Pamela real suavizou demais a figura. Assim até não culpo muito Oliver Stone. Um processo nos EUA é coisa séria. Quando o filme começou a ser rodado a família dela se reuniu com o estúdio e deixou claro que qualquer "afronta" à memória de sua filha resultaria em um pesado processo judicial. Com receio eles recuaram e Meg Ryan interpretou mais uma de suas inúmeras "garotas boazinhas". O interessante é que Morrison foi retratado com veracidade, mesmo sendo seu pai um militar linha dura da Marinha. A produção não teve problemas nesse aspecto com a família Morrison.

Ray Manzareck, o tecladista dos Doors, também criticou o filme em relação ao próprio Jim Morrison. Ele disse que sua caracterização no filme saiu muito soturna e fechada. Para Manzareck Jim também era uma pessoa bem humorada, divertida e alegre (quando estava sóbrio, é claro). Oliver Stone respondeu a crítica e disse que Manzareck estava apenas chateado pois ele é que gostaria de ter dirigido o filme (o músico também é formado em cinema pela UCLA). O roteiro não se preocupa em avançar além da morte de Jim. Como se sabe existe toda uma teoria da conspiração afirmando que ele não teria realmente morrido como alega a versão oficial. O problema é que Jim morreu em Paris e foi enterrado rapidamente. Em pouco tempo surgiram inúmeros boatos de que ele não teria morrido (pelo jeito não é apenas Elvis que não morreu). Mas analisando bem percebemos que é tudo uma grande bobagem. O cantor era um junkie extremo, usou em excesso todos os tipos de drogas imagináveis. Esse é o grande pecado da geração anos 60: em busca de total liberdade acabaram presos no mundo dos narcóticos e afins.. Jim Morrison realmente morreu no dia 3 de julho de 1971 - em Paris. Sua namorada Pamela morreu três anos depois, também por overdose de drogas. O filme não cita essa última informação. No saldo geral não há como não gostar de The Doors, mesmo com todos esses pequenos deslizes. É um excelente retrato de um dos mais carismáticos artistas da história do rock americano.

The Doors (The Doors, EUA, 1991) Direção: Oliver Stone / Roteiro: Randall Jahnson, Oliver Stone / Elenco: Val Kilmer, Meg Ryan, Kyle MacLachlan, Frank Whaley e Kevin Dillon / Sinopse: Durante a década de 1960 um grupo de amigos da faculdade resolvem formar uma banda de rock psicodélico. Inspirada na famosa obra sobre as portas da percepção resolvem denominar o novo grupo de "The Doors". Cineobiografia do cantor e compositor Jim Morrison (Val Kilmer), vocalista da banda que mudou a face do rock americano na segunda metade dos anos 60.

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

A Caçada ao Outubro Vermelho

Durante a Guerra Fria dois impérios disputaram a hegemonia mundial. De um lado os Estados Unidos, líder do mundo ocidental, empunhando a bandeira do capitalismo e do livre mercado. No outro a União Soviética, líder dos países do bloco comunista que defendia o modelo de Estado autoritário, centralizador e dono de todos os meios de produção. Essa guerra ideológica obviamente foi transposta também para o campo militar. Americanos e soviéticos entraram em uma terrível corrida armamentista onde a busca pelas armas nucleares mais modernas acabou se tornando política oficial de Estado. E entre esse vasto arsenal nuclear se destacavam os submarinos nucleares, capazes de cruzarem os oceanos para atacar os países inimigos com rara precisão. Tanto Estados Unidos como União Soviética construíram incríveis máquinas como essas e a luta por uma delas é justamente o centro da trama desse excelente “A Caçada ao Outubro Vermelho”. A trama se passa em 1984 quando o capitão Marko Ramius (Sean Connery) do submarino soviético “Outubro Vermelho” decide sem justificativa aparente desviar a rota de navegação para os Estados Unidos. Isso obviamente traria enorme repercussão tanto do lado do comando soviético, que não havia autorizado tal manobra, como do lado americano, pois afinal de contas ter em plena guerra fria um submarino nuclear inimigo em rota de colisão com seu país era no mínimo temerário.

“Caçada ao Outubro Vermelho” se destaca pelo excelente roteiro que joga o tempo todo com as reais intenções do capitão soviético e os efeitos que surgem de sua decisão inesperada. Afinal qual seria seu real objetivo: Uma deserção ou um ataque insano ao capitalismo americano? Sean Connery está perfeito em sua caracterização de militar premiado e veterano que começa a pensar por conta própria sem se importar com as conseqüências de seus atos impensados. Na época de seu lançamento o filme também despertou debate sobre o perigo de um conflito nuclear por acidente. Afinal até que ponto os governos de Estados Unidos e União Soviética tinham efetivo controle sobre seu espetacular arsenal de guerra? O desespero causado em razão  de um submarino nuclear sem controle das autoridades soviéticas refletia bem isso. O curioso de tudo é que o perigo persiste até os dias atuais. Depois do fim da guerra fria com o desmoronamento do bloco soviético a antes incrível armada daquele país entrou em completo colapso. O que se vê hoje em dia na Rússia é um total sucateamento de armas e artefatos de guerra que apodrecem literalmente nos cais do país. Recentemente vi uma reportagem sobre o estado atual da Marinha russa. Submarinos como esse mostrado no filme nem conseguem mais ir para o alto mar por falta de verbas. O orgulho da outrora esquadra vermelha nunca esteve tão em baixa. Quem diria que um dia esse arsenal tenha sido tão respeitado e temido pelo ocidente? De qualquer modo fica a dica: “A Caçada ao Outubro Vermelho”, um excelente filme de suspense e guerra que realmente consegue mexer muito bem com os nervos do espectador. Não deixe de assistir.

A Caçada ao Outubro Vermelho (The Hunt for Red October, EUA, 1989) Direção:  John McTiernan / Roteiro: Larry Ferguson, Donald Stewart / Elenco: Sean Connery, Alec Baldwin, Scott Glenn, Sam Neill, James Earl Jones / Sinopse: A trama se passa em 1984 quando o capitão Marko Ramius (Sean Connery) do submarino soviético “Outubro Vermelho” decide sem justificativa aparente desviar a rota de navegação para os Estados Unidos. Seria um ato de deserção do oficial soviético ou uma impensada e insana manobra de ataque contra a América?

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.

Elvis Presley - FTD King Creole

Infelizmente pouca coisa restou das sessões de gravação de “King Creole”. Por isso quando foi anunciado o lançamento do FTD King Creole não me empolguei nem um pouco. É de se lamentar pois a trilha sonora de King Creole teve uma gravação particularmente complicada com Elvis tendo que trabalhar com o maior número de músicos de sua carreira até aquele momento. A sonoridade de New Orleans exigia um arranjo de metais com vários instrumentistas ao mesmo tempo no estúdio e colocar aquele monte de gente em sincronia realmente não deve ter sido nada fácil. Mas Elvis sabia lidar muito bem com esse tipo de situação. Como sempre Elvis usava o bom humor e a descontração dentro dos estúdios para aliviar a tensão e a ansiedade do grupo. Contando piadas aqui e acolá, puxando conversa com os demais músicos o clima logo foi ficando do jeito que ele gostava, leve, animado. Em “King Creole” ele surgiu com um chapéu ao estilo Frank Sinatra que logo virou piada entre todos os que estavam ali. Alguns afirmam até que pouco antes das sessões começarem pra valer Elvis deu uma canja com alguns clássicos de Sinatra. Infelizmente esses registros não chegaram até nós! Obviamente Elvis cantou aquilo para criar um clima de camaradagem, onde nada era levado à sério mas mesmo assim seria muito bom ouvir Elvis tirando uma casquinha de seu eterno rival Sinatra.

E o que sobreviveu das sessões de King Creole? Pouca coisa realmente. As sessões foram longas e exaustivas e era de se supor que muita coisa fosse realmente gravada mas grande parte das fitas originais foram simplesmente perdidas ou apagadas, não se sabe ao certo. Assim além das versões oficiais que conhecemos sobrou pouca coisa e esse FTD King Creole retrata bem isso. Para compensar a falta de material o selo resolveu apostar numa edição caprichada com um livro recheado de fotos (algumas inéditas) e muitas informações impressas. Direção de arte muito caprichada e bonita. Claro que nada disso vai preencher a lacuna do que se perdeu mas dentro do possível é realmente o que podemos contar. Até mesmo “Danny”, a famosa música não usada na trilha, surge tímida. Aliás até hoje a exclusão de “Danny” do disco oficial causa debate. A canção não pode ser considerada uma das melhores coisas da trilha sonora mas tem seus méritos, principalmente na vocalização do grupo de apoio de Elvis. Já da versão do filme de “As Long As I Have You” que ouvimos aqui simpatizo bastante.

A voz de Elvis praticamente sussurrada é um ponto alto, assim como “Lover Doll”, em versão bem simples, apenas com violão. De uma simplicidade cativante. Dois casos em que a simplicidade é tudo! Se as anteriores são caracterizadas pela singeleza o take 3 de King Creole peca pelo excesso. Há um exagero nos arranjos de metais ao fundo que torna a sonoridade estranha, pouco atrativa. Ainda bem que os produtores e Elvis perceberam isso e cortaram alguns instrumentos na versão oficial. E o que dizer do take 18 de King Creole? Parece outra canção tal a mudança em sua velocidade. Os Jordanaires estão mais presentes e Elvis parece não levar nada muito a sério – lá pela metade da gravação ele percebe que aquela melodia certamente não tinha nada a ver mesmo. Esse registro é curioso mas foi descartado logo. É um take alternativo que definitivamente não deu certo. O CD se encerra com a “Alma Mater” Steadfast, Loyal And True. Muita gente não gosta dessa música mas em minha opinião ela foi salva pela ternura e inocência típicas da década de 50. Enfim, é isso. Quem sabe um dia a sessão completa não venha a surgir por aí. Possa ser que os tais registros perdidos ainda existam. Aqui vale a máxima: “A esperança é a última que morre!”.

FTD King Creole
Original Album
1 King Creole – take 13
2 As Long As I Have You – take 10
3 Hard Headed Woman – take 10
4 Trouble – take 5
5 Dixieland Rock – take 14
6 Don't Ask Me Why – take 12
7 Lover Doll - take 7
8 Crawfish – take 7
9 Young Dreams – take 8
10 Steadfast, Loyal And True
11 New Orleans – take 5
     Material Bonus:
12 Danny – take 10
13 As Long As I Have You – (movie version) – take 4
14 Lover Doll (undubbed EP master) – take 7
15 King Creole (First version) - take 3 –
16 Steadfast, Loyal And True (First version) – take 6
17 As Long As I Have You (unused movie version) – take 8
18 King Creole (First version) – take 18
19 Steadfast, Loyal And True (undubbed version)

Pablo Aluísio.

Elvis Presley e Sophia Loren


Elvis Presley e Sophia Loren se encontraram no set de filmagens de "King Creole" em janeiro de 1958. Foi um encontro casual nos estúdios da Paramount. Ela adorou o jeito simpático e carinhoso dele. Ambos se deram muito bem. Anos depois Sophia Loren diria em uma revista francesa de cinema que Elvis havia sido o homem mais bonito que tinha conhecido em seus anos de Hollywood.

Pablo Aluísio.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Oscar 2013

Foi uma cerimônia bem realizada mas também sem maiores surpresas. De fato todas as previsões que rondaram na semana anterior do prêmio se confirmaram. Não precisava ser vidente para acertar a maioria dos prêmios pois tudo já estava previamente esperado.  Inicialmente “Lincoln” era o mais cotado para vencer o Oscar de Melhor filme mas depois do Globo de Ouro a situação se inverteu e Argo virou o queridinho dos membros da Academia. Muitas pessoas ficaram indignadas pelo fato de Ben Affleck não ter sido indicado ao Oscar de Direção e essa situação acabou se revertendo a favor de “Argo”, um filme que já comentei aqui no blog, bem feito, bem roteirizado mas que ainda não considero melhor do que “Lincoln”. Aliás atribuo a derrota do filme de Spielberg ao seu resultado considerado pesado e enfadonho para quem não gosta particularmente nem de história e nem de política. Assim venceu o filme mais acessível aos membros da Academia. Some-se a isso também a campanha nos bastidores promovida por George Clooney, produtor do filme e muito bem relacionado no meio. Assim a vitória de “Argo” pode ser atribuída aos votos de protesto por causa de Affleck e aos votos de amizade captados por Clooney.

Nas demais categorias também não houve muitas surpresas. Os prêmios foram até que muito bem distribuídos entre todos os filmes principais, sendo que nenhum deles saiu de mãos vazias da noite. Jennifer Lawrence confirmou seu favoritismo e ganhou o Oscar de Melhor atriz por “O Lado Bom da Vida”. Ela levou uma tremenda queda quando subia para receber o prêmio mas isso até que era previsível já que é apenas uma jovem. Nervosa e com aquele vestido absurdo não era de se esperar outra coisa. Seu discurso de agradecimento foi atropelado e ansioso. O filme infelizmente não conseguiu levar mais nenhum prêmio mas diante da vitória da categoria atriz isso até que passou despercebido. Outro favorito absoluto que confirmou o que já se falava há tempos foi Daniel Day-Lewis. Em um discurso bem humorado (coisa que não é típico dele) o ator agradeceu a todos e dedicou o prêmio especialmente para a mãe. Infelizmente nas demais categorias “Lincoln” ficou a ver navios, só conseguindo mesmo apenas mais um Oscar por Direção de Arte (mais do que merecido).

Tarantino por outro lado ficou bastante satisfeito com o resultado de seu “Django Livre”. Além de faturar o Oscar por Roteiro Original (o que já era esperado) ainda abocanhou mais um prêmio de melhor ator coadjuvante para Christoph Waltz que assim repete o feito que havia conseguido no filme anterior de Tarantino, “Bastardos Inglórios”. Só não concordo com sua categoria coadjuvante pois em minha opinião o personagem interpretado por Waltz é um dos protagonistas do filme. Melhor para ele pois se tivesse sido indicado a ator não teria mesmo vencido Daniel Day-Lewis. No mais é sempre bom ver um western ganhando prêmios desse porte pois quem sabe assim a indústria se anime a realizar mais filmes do gênero. Os fãs do bom e velho faroeste agradecem. Como Ben Affleck não foi indicado ao Oscar de Melhor direção (uma aberração pois o filme levou o principal prêmio da noite) sobrou a Ang Lee levar o Oscar para casa por seu bonito “As Aventuras de Pi”. Nada mal para um sujeito que outro dia estava sendo considerado “carta fora do baralho” dentro da indústria americana. A produtora de Pi inclusive fechou as portas, falindo justamente no momento em que o filme recebia tantos reconhecimentos (também foi premiado por trilha sonora e efeitos visuais).

Na categoria animação talvez a maior surpresa de toda a noite pois “Valente” não era considerado um favorito. Animação caretinha conseguiu vencer o principal prêmio para espanto de todos. “Os Miseráveis” apesar do tema difícil venceu três estatuetas (atriz coadjuvante, maquiagem e mixagem de som). Um bom resultado sem dúvida. Anne Hathaway está muito bem no filme, embora não a considere uma boa cantora. De qualquer forma é sempre um prazer ver um musical sendo reconhecido pelo Oscar nos dias atuais. Por fim, nos 50 anos da franquia James Bond a Academia resolveu dar uma colher de chá ao agente premiando Skyfall nas categorias canção original e Edição de Som (onde ocorreu um raro empate entre os vencedores). Atribuo esses prêmios mais a uma homenagem e a um pedido de desculpas tardio do que qualquer outra coisa uma vez que Bond sempre foi desprezado pelo Oscar.

Agora bem decepcionante mesmo foi a fraca performance de Seth MacFarlane como apresentador. Esperava-se que fosse bem mais ácido e picante nas piadas mas nada disso aconteceu, soltou algumas farpinhas inocentes e tentou agradar mas sem ousar. Qualquer episódio de “Family Guy” é bem mais engraçado e irônico do que aquilo. No fundo ele quer mesmo é ser escalado novamente no ano que vem (o que acho complicado acontecer). Enfim, esse foi o Oscar 2013. Não houve nada de muito marcante ou surpreendente. O show como não poderia deixar de ser foi muito bem realizado mas também não conseguiu encher os olhos de ninguém. No fundo foi apenas uma premiação de rotina e nada mais. Parabéns aos vencedores e até ano que vem!

Oscar 2013 – Os vencedores da noite:
Filme: "Argo"
Direção: Ang Lee, por "As Aventuras de Pi"
Ator: Daniel Day-Lewis, "Lincoln"
Atriz: Jennifer Lawrence, "O Lado Bom da Vida"
Ator coadjuvante: Christoph Waltz, "Django Livre"
Atriz coadjuvante: Anne Hathaway, "Os Miseráveis"
Roteiro original:  "Django Livre"
Roteiro adaptado: "Argo"
Animação: "Valente"
Filme estrangeiro: "Amor" (Áustria)
Trilha sonora: "As Aventuras de Pi"
Canção original: "Skyfall", de Adele, "007 - Operação Skyfall"
Fotografia: "As Aventuras de Pi"
Figurino: "Anna Karenina"
Documentário:  "Searching for Sugar Man"
Curta de documentário: "Inocente"
Edição: "Argo"
Maquiagem: "Os Miseráveis"
Direção de arte: "Lincoln"
Curta de animação: "Paperman"
Curta-metragem: "Curfew"
Edição de som: empate entre "A Hora Mais Escura" e "007 - Operação Skyfall"
Mixagem de som: "Os Miseráveis"
Efeitos visuais: "As Aventuras de Pi"

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.

domingo, 24 de fevereiro de 2013

Ratatouille

Mais uma animação com o selo Pixar. E o que significa isso? Significa que é ele já chega sob a expectativa de um produto de excelente nível técnico. A Pixar durante todos esses anos simplesmente revolucionou o mundo da animação para o cinema com vários filmes que hoje em dia podem ser considerados até mesmo clássicos modernos do gênero. Esse “Ratatouille” já chegou com as expectativas extremamente altas por essa razão. Infelizmente não cumpriu tudo aquilo que se esperava dele. Apesar de ter sido extremamente premiado (ganhou o Oscar, o Bafta e o Globo de Ouro de melhor animação do ano) ainda considero um longa menor dentro da vasta galeria de preciosidades da Pixar. Isso não significa que seja ruim, muito longe disso, mas perde se o compararmos com os outros produtos do estúdio. O diretor Brad Bird é o mesmo de “Os Incríveis”. Pois bem, considero “Ratatouille” bem abaixo do charme da animação anterior desse cineasta. Eu atribuo parte disso ao fato da Pixar ter sido comprada pela Disney. Cansada de concorrer com a genialidade dos animadores do estúdio Pixar o império de Mickey Mouse resolveu simplesmente comprar o concorrente. Se não se pode vencê-los, junte-se a eles.  Ou como no caso aqui, os compre logo de uma vez.

A Disney como se sabe tem um padrão de qualidade em seus produtos, tirando qualquer tipo de conteúdo mais ousado ou ofensivo. Assim após adquirir a Pixar os animadores do pequeno estúdio tiveram que se adaptar na nova realidade. “Ratatouille” mostra bem isso. A própria imagem dos personagens segue muito mais o padrão Disney do que o que estávamos acostumados a ver na Pixar. E nem precisa lembrar que o protagonista é um ratinho (alô? Mickey?). Assim temos uma animação boa, não restam dúvidas, mas também muito caretinha, certinha e sem os vôos ousados que estávamos acostumados em ver em algumas animações do tempo em que a Pixar era completamente independente em seu setor de criação. O enredo também é do tipo fofinho – bem ao estilo Disney de ser. Na estória acompanhamos o ratinho Remy que tem o sonho de se tornar um grande chef de cozinha na mais sofisticada de todas as cidades do mundo em termos de gastronomia, Paris. O problema é que ele é um rato e provavelmente por isso jamais realizará seu sonho. Para colocar em prática seus dotes culinários ele precisará de um ser humano e esse lhe aparece finalmente pela frente, o desastrado Linguini. Aspirante a se tornar um grande mestre com as panelas ele não tem o talento do ratinho Remy. Assim ambos resolvem se unir – ajudando um ao outro eles começam a subir na carreira mas não sem antes despertar a inveja e a cobiça de um rival. Como se vê é um enredo tradicional, sem maiores surpresas. Para finalizar cabem aqui duas observações finais. Primeiro, “Ratatouille” é mais indicado para crianças bem pequenas – com menos de dez anos de idade. Segundo, o roteiro é completamente limpo e inofensivo e por essa razão os pais podem deixar seus filhos assistirem ao longa sem nenhum tipo de preocupação com seu conteúdo.

Ratatouille (Ratatouille, EUA, 2007) Direção: Brad Bird / Roteiro: Brad Bird, Jim Capobianco, Emily Cook, Kathy Greenberg, Jan Pinkava, Bob Peterson / Elenco (vozes): Patton Oswalt, Ian Holm, Lou Romano, Brian Dennehy, Peter Sohn, Peter O'Toole, Brad Garrett, Janeane Garofalo / Sinopse: Ratinho que sonha ser um grande chef de cozinha se une a um desastrado aspirante a cozinheiro para fazer sucesso em um restaurante na cidade de Paris.

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.

sábado, 23 de fevereiro de 2013

Batman: The Dark Knight Returns, Part 2

Sempre que posso estou recomendando essas animações da DC Comics que estão sendo lançadas nos Estados Unidos no mercado de venda direta ao consumidor. São todas produções extremamente bem realizadas, com ótimos roteiros e tecnicamente perfeitas. Sobre esse “Batman: The Dark Knight Returns” já tive a oportunidade de tecer comentários aqui em nosso blog na ocasião do lançamento do primeiro DVD. Agora chega sua conclusão, a parte 2, e para alegria dos fãs de Batman tudo continua no mesmo nível, ou seja, tudo continua excelente. Aliás o enredo dessa segunda parte consegue ser até mesmo mais interessante e marcante do que o primeiro, uma vez que dois personagens ícones da DC surgem na trama: o Coringa e o Superman. O maior vilão do universo de Batman tenta convencer a todos que está finalmente reabilitado e pronto para voltar para a sociedade. Ao lado de seu psiquiatra (que vê nele um modelo de cura) o Coringa aceita participar de um programa de entrevistas popular na TV. Obviamente que tudo terminará numa grande tragédia até porque seu lado psicótico e insano logo volta a se manifestar com mais intensidade do que nunca.

Já o Superman vem como um super-herói do sistema, um joguete do governo americano que não hesita em utilizar seus poderes em prol de seus interesses imperialistas. Logo no começo da trama vemos o homem de aço completamente envolvido em uma guerra de colonialismo em um país perdido no meio do nada. É obviamente uma crítica – e muito bem feita – ao jogo político que os Estados Unidos patrocinam mundo afora. Outro fato curioso é que o Presidente surge como a figura de Ronald Reagan que era o líder da nação na época do lançamento da Graphic Novel original. Presidente de linha ultra-direita, intervencionista e republicano, o político acabou virando uma caricatura nada lisonjeira nas mãos de Frank Miller. E o Batman? Bom, ele é um sujeito envelhecido, doente e recluso que vê, deprimido, sua cidade virar um caos completo, dominada por crimes e convulsões sociais de todos os tipos. Para piorar a antiga gangue dos Mutantes o venera e o segue com fervor por causa de seu ideal de se fazer justiça pelas próprias mãos. Após resolver retornar às ruas para capturar novamente o Coringa, Batman se vê envolvido em um luta mortal com seu antigo colega Superman. Ambos estão em lados opostos e certamente vão se enfrentar para defender aquilo que acreditam ser o certo no meio daquele caos reinante. As cenas de luta entre os dois super-heróis acabam se tornando a melhor coisa da animação que é toda muito boa – realmente diferenciada e obrigatória para os fãs desse universo. Assim “Batman: The Dark Knight Returns, Part 2” está mais do que recomendado, não deixe de assistir. 

Batman: The Dark Knight Returns, Part 2 (Idem, EUA, 2013) Direção: Jay Oliva / Roteiro: Bob Goodman baseado na obra de Fank Miller / Elenco (Vozes): Peter Weller, Ariel Winter, Michael Emerson / Sinopse: Para capturar novamente seu antigo inimigo, o Coringa, um envelhecido Batman volta às ruas. Sua presença porém passa a incomodar as autoridades americanas que pedem ajuda ao Superman, o único que poderá encarcerar definitivamente o Homem Morcego.

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.

Ação Violenta

Steven Seagal está de volta – ou quase isso! Esse “Ação Violenta” acaba de chegar nas locadoras brasileiras mas na realidade não se trata de um novo filme do ator. Trata-se sim da junção de dois episódios da nova série estrelada por Seagal chamada “True Justice”. Assim como aconteceu com seu colega de filmes de ação, Chuck Norris, Seagal encontrou um novo espaço na TV após sua carreira no cinema chegar em um impasse. “True Justice” é a segunda incursão do ator em séries, a primeira foi “Steven Seagal: Lawman” que chegou a ter uma certa repercussão. Ambas são bem parecidas, com o ator interpretando policiais durões em cidades infestadas por criminosos. A ação de “True Justice” se passa na sempre chuvosa Seattle. É lá que um grupo de bandidos encurralam um carregamento da máfia mexicana e roubam toda a carga – alguns milhões de dólares. Esse roubo acaba desencadeando uma série de retaliações por diversas organizações criminosas e apenas Elijah Kane (Seagal) pode conter a violência.

A série e o personagem Elijah foram criados pelo próprio Seagal que apostou em um seriado policial que não se limitasse apenas ao velho esquema bandidos versus tiras. O papel de Seagal é bem representativo disso pois ele é também um ex-agente da CIA e por isso todas as tramas começam de certa forma banais para depois se desenrolarem em organizações criminosas maiores envolvendo lavagem de dinheiro internacional, tráfico de drogas e terrorismo. Essa fórmula é repetida aqui nesses dois episódios. Steven Seagal continua o mesmo. Agora mais velho e um pouco fora de forma (que esconde usando um figurino escuro) o ator certamente vai agradar aos fãs de seu estilo “poucas palavras e muitas porradas”. São várias as seqüências de lutas marciais, tiroteios e ação. Ele já não tem a velha velocidade e habilidade dos anos de juventude mas até que não faz feio nas lutas de que participa. A boa notícia é que a série é bem produzida, dentro dos padrões das séries americanas e não chega a aborrecer. Acompanhando Seagal há toda uma equipe de tiras treinados por ele mas nem se preocupe muito com esses personagens pois nenhum deles chega a ser devidamente desenvolvido. No final das contas o que vale mesmo para os fãs do ator é realmente matar as saudades de seu velho ídolo.

Ação Violenta (True Justice, EUA, 2012) Direção: Lauro Chartrand / Roteiro: Richard Beattie, Keoni Waxman / Elenco: Steven Seagal, Priscilla Faia, Adrian Holmes, Jesse Hutch, Nelson Leis, Lochlyn Munro, Zak Santiago, Darren Shahlavi, Bradley Stryker / Sinopse: Após um roubo de dinheiro da máfia mexicana, um policial de um grupo de elite da polícia de Seattle tenta desvendar o que há por trás do crime. Não tarda para que uma grande conspiração surja envolvendo lavagem de dinheiro e tráfico de drogas internacional.

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.

Dois é Bom, Três é Demais

Comédia romântica de costumes. Esse estilo de filme era muito popular na década de 1960 e teve seu auge nas produções estreladas pelo casal “modelo” Rock Hudson e Doris Day. Aqui em “Dois é Bom, Três é Demais” temos uma fórmula requentada desses antigos filmes. No enredo um casal de caretinhas, interpretado pela atriz Kate Hudson e pelo ator Matt Dillon, acaba tendo que lidar com uma situação no mínimo constrangedora. Após o casamento o padrinho e grande amigo do marido, o cabeça fria Dupree (Owen Wilson), perde o emprego e sem ter onde morar acaba ficando morando na casa com o casal de pombinhos. No começo Dupree deixa claro que sua estadia ali será temporária, até ele arranjar um novo emprego, mas ele simplesmente não consegue trabalho mais! Na verdade o personagem adota um estilo de vida simplório, sem ligar muito para coisas materiais, o que acaba lhe atrapalhando pois sem formação e sem profissão fica mais do que complicado achar um emprego que se encaixe ao seu perfil. A situação completamente constrangedora então se cria pois a presença de Dupree na casa tira a intimidade do casal que também não pode simplesmente expulsar o sujeito pois ele invariavelmente iria parar na rua.

O roteiro não traz absolutamente nada demais. Como se trata de um texto de costumes as situações engraçadas surgem da complicada convivência de Dupree com o casal. A boa notícia é que o texto surge “limpo” sem as baixarias costumeiras que andam invadindo as comédias americanas nos últimos tempos. Como não poderia deixar de ser o filme se apóia quase que completamente na presença carismática de Owen Wilson, que construiu toda a sua carreira em cima de apenas um tipo de personagem, a do adolescente tardio, um sujeito que passa da idade, se torna trintão, mas segue se comportando como um adolescente qualquer, levando a vida na flauta. Kate Hudson segue também na mesma, fazendo a eterna “namoradinha da América” de sempre. Em termos de curiosidade temos em cena um Michael Douglas completamente deslocado, aqui representando uma espécie de símbolo da ganância do americano médio. Dupree, ao contrário disso, não tem grandes ambições na vida, apenas ser feliz da melhor maneira que puder. Deixando um pouco de lado o filme em si é interessante relembrar o terrível acontecimento que se abateu sobre o ator Owen Wilson nos bastidores. Após seu rompimento com Kate Hudson (eles sempre tiveram um relacionamento amoroso dos mais complicados), Owen parece ter perdido todo o seu bom humor ao tentar se suicidar! Quando soube da notícia fiquei perplexo porque afinal de contas o ator sempre cultivou aquela imagem de sujeito boa praça e cabeça fria nas telas. De repente vê-lo ali no noticiário, entre a vida e a morte, realmente me surpreendeu. Nesse caso a arte não imitou a vida.

Dois é Bom, Três é Demais (You, Me and Dupree, EUA, 2006) Direção: Anthony Russo, Joe Russo / Roteiro: Mike LeSieur / Elenco: Owen Wilson, Matt Dillon, Kate Hudson, Michael Douglas, Seth Rogen, Amanda Detmer / Sinopse: Após seu casamento um casal se vê numa situação complicada: o amigo e padrinho do noivo, sem emprego e sem dinheiro, começa a morar com eles.

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.

Minhas Adoráveis Ex-Namoradas

O cinemão americano geralmente não perde a chance de emplacar roteiros de fundo extremamente moralistas. Um exemplo perfeito disso é essa produção “Minhas Adoráveis Ex-Namoradas”, uma comédia romântica que em um só cadeirão junta aspectos de clássicos do passado, contos de natal e estórias moralizantes apenas para defender um ponto de vista ultrapassado sobre a vida sentimental do homem moderno. Na trama acompanhamos a rotina de Connor Mead (Matthew McConaughey), um fotografo que vive de clicar modelos famosas em lugares maravilhosos. Bem sucedido, solteirão convicto, ele não quer nem ouvir falar de compromisso sério. Prefere levar sua vida mansa de forma tranqüila. Casamento? Nem pensar! Na verdade Connor segue os passos e os conselhos de seu falecido tio Wayne (Michael Douglas) que tinha o mesmo estilo de vida. Tudo corre muito bem em sua vida até que Connor é convidado para o casamento do irmão. Chegando lá tenta convencer o mano de todas as formas do erro que está prestes a cometer. Até porque casamento é simplesmente o fim da picada em seu modo de pensar. Para sua surpresa seu tio falecido surge a ele em uma alucinação para tentar demonstrar que apesar dos prazeres que esse tipo de solteirice pode prover há também o lado negativo. Para isso três fantasmas o levarão para o passado, o futuro e o presente para realidades paralelas onde Connor finalmente entenderá os perigos da vida que leva.

Sinceramente, que bobagem é esse filme! O argumento tenta vender a idéia equivocada de que apenas o casamento traz felicidade, fato que os números cada vez maiores de divórcios na sociedade, a cada ano, provam ser justamente o contrário. Usar da famosa obra de Charles Dickens como forma de tentar defender esse tipo de ponto de vista é outro equívoco do roteiro. Além disso a total reviravolta no modo de pensar do personagem de Matthew McConaughey, que de solteirão mulherengo passa a ser um cordeirinho apaixonado  louco para se casar, soa não apenas inverossímil como completamente sem noção. O próprio Matthew McConaughey parece até mesmo brincar com a falta de nexo do roteiro pois mesmo quando surge o “novo eu” de seu personagem ele segue com o mesmo estilo de interpretação, agora com  um sorrisinho cínico nos lábios. Era como se quisesse passar ao espectador a idéia de que ele continuava o mesmo, apesar das besteiras do roteiro do filme. Por fim temos Michael Douglas em um papel ingrato. Eu sou particularmente fã do ator e não gostei nem um pouco em vê-lo nesse personagem, a de um playboy arrependido das escolhas que fez em sua vida. O próprio Douglas parece não acreditar muito no que prega em cena, dando inclusive em cima de uma das “fantasmas”. Para quem conhece a história pessoal de vida do ator o argumento só poderá soar mesmo como uma grande piada. Enfim, esqueça, há comédias românticas bem melhores por aí – e bem mais inteligentes. “Minhas Adoráveis Ex-Namoradas” com seu argumento cafona é completamente dispensável.

Minhas Adoráveis Ex-Namoradas (The Ghosts of Girlfriends Past, 2009) Direção: Mark Waters / Roteiro: Jon Lucas, Scott Moore / Elenco: Matthew Mcconaughey, Michael Douglas, Jennifer Garner, Lacey Chabert, Emma Stone / Sinopse: Solteirão mulherengo recebe a “visita” de seu tio falecido que tentará lhe convencer de mudar de vida, arranjando uma esposa para se casar.

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.

Elvis Presley - Hard Headed Woman / Don't Ask Me Why

É complicado entender porque a RCA resolveu lançar “Hard Headed Woman” como a principal música desse único single extraído da trilha sonora de “Balada Sangrenta”. É fato notório e conhecido que a música que tinha vocação natural para ser o single de sucesso do filme era “Trouble” (com “King Creole” ou até mesmo “As Long As I Have You” no lado B).

Tanto isso é verdade que os dois compactos duplos que tinham justamente “Trouble” e “King Creole” como músicas principais acabaram se tornando grandes êxitos de vendas, chegando ao primeiro lugar nas paradas enquanto o single “Hard Headed Woman” não conseguia o mesmo sucesso, chegando apenas ao segundo lugar nas paradas. Singles (ou compactos simples como eram chamados no Brasil) eram produtos considerados essenciais para o sucesso ou fracasso de um projeto. Eram usados como “pontas de lança” no mercado, chegando inicialmente nas lojas para promover as demais músicas do álbum que viriam depois com o lançamento do chamado LP

Definitivamente “Hard Headed Woman” e nem “Don´t Ask Me Why” tinham essa força. Eram boas canções sim mas não a ponto de se destacaram ou virarem grandes hits. Já “Trouble” tinha letra bem escrita e uma performance marcante por parte de Elvis (tanto que foi utilizada novamente dez anos depois no NBC Special). Outra curiosidade que sempre me chamou a atenção sobre “Hard Headed Woman” é o fato de que no filme “Balada Sangrenta” ela é pessimamente utilizada em cena. Veja, Elvis canta praticamente todas as canções do álbum no filme mas “Hard Headed Woman” surge incompleta, timidamente, pela metade. A letra também não ajuda muito sendo bem vazia (e até ofensiva para as mulheres de uma maneira em geral). Assim não dá mesmo para entender porque ele foi alçada como música título desse compacto. Também implico com sua sonoridade que mistura rock com jazz com resultados bem abaixo do que ouvimos em “Trouble”, por exemplo. Enfim, em minha opinião o single foi mal pensado e mal composto. Mais um ponto negativo para ser debitado na conta da RCA Victor.

Pablo Aluísio.

Chuck Berry - Too Much Monkey Business (1956)

Chuck Berry - Too Much Monkey Business (1956)
É uma pena que o mito e pioneiro do rock Chuck Berry tenha nos deixado. Ele morreu no dia 18 de março de 2017. Estamos sempre comentando sobre Berry aqui no blog, pois sua música, seus discos e suas gravações estão sempre vivas nesse espaço, na ordem do dia. Pois bem, para homenagear esse grande roqueiro, um dos verdadeiros pais do rock ´n´ roll, nada melhor do que falar sobre sua arte.

Em 1956, em pleno auge da explosão do rock, Berry lançou mais esse single pela Chess. O compacto era extraído de seu álbum "After School Session" (um dos ícones da primeira geração de roqueiros americanos) e trazia dois clássicos absolutos, com "Too Much Monkey Business" no lado A e "Brown Eyed Handsome Man" no lado B.

A letra, como convinha a Berry nessa época, usava de gírias da época, pois a expressão "Monkey Business" era muito utilizada entre os jovens. A música fez bastante sucesso, chegando ao quarto lugar da Billboard e entrou definitivamente no panteão de grandes clássicos do rock ´n´ roll, ganhando versões posteriores de grandes astros da música como os Beatles e Elvis Presley. Algum tempo depois um outro single seria lançado com a canção "Let It Rock" no lado A, mostrando como essa faixa era popular na carreira de Chuck Berry. /

Too Much Monkey Business / Brown Eyed Handsome Man (1956) Álbum: After School SessionSelo: Chess Records / Data de Lançamento: Setembro de 1956 / Produção: Leonard Chess, Phil Chess / Músicos: Chuck Berry (vocais e guitarra), Johnnie Johnson (piano), Willie Dixon (baixo), Fred Below (bateria).

Pablo Aluísio. 

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Sempre ao Seu Lado

Richard Gere foi por décadas um grande astro, chamariz de bilheteria. Uma estrela realmente. Infelizmente a profissão de ator não é muito diferente das demais, a idade chega e o mercado muda. Assim o antigo status também se vai. Um exemplo é esse “Sempre ao Seu Lado”. Não que o filme seja ruim, muito longe disso, mas sim que é uma produção modesta, simples, algo que seria impensável para Gere estrelar em seus dias de glória e sucesso. Nos Estados Unidos o filme foi direto para o mercado de vídeo e não ganhou espaço nos cinemas o que é uma pena pois a película tem seus méritos. Uma velha máxima em Hollywood afirma que um ator inteligente nunca deve fazer um filme com crianças ou cães porque invariavelmente eles acabam roubando o show. É verdade. Um exemplo perfeito temos aqui. A estória narra a singela amizade que nasce entre um professor de música e um cão sem dono que ele encontra na rua. Os dois simpatizam e como acontece há milênios na história da humanidade, o cão e seu dono se tornam os melhores amigos. Infelizmente após vários anos juntos o professor vem a falecer, o que não impede o cão de ir todos os dias à estação de trem para esperar por ele – ano após ano, sob chuva, sob neve ou embaixo de sol forte. É a materialização da chamada fidelidade canina.

É óbvio que as pessoas que gostam de cachorros vão gostar muito mais da produção. Realmente o roteiro é muito tocante, ainda mais quando sabemos que foi baseado em uma história real ocorrida no outro lado do planeta, no Japão. Lá a história ganhou os jornais e ficou conhecida de norte a sul do país. O cão Hachiko verdadeiro ganhou inclusive uma estatua na estação onde ficou por anos a fio esperando por seu querido dono. Depois virou um filme muito sensível chamado de “Hachiko Monogataria” (A  história de Hachiko) que foi dirigido pelo talentoso Seijiro Koyama. Assim “Sempre ao Seu Lado” nada mais é do que um remake americano onde a ação sai de uma pequena cidade japonesa para uma comunidade no interior dos EUA. O professor original era um senhor de idade avançada que ia até a estação para pegar um trem até a cidade mais próxima onde ensinava música a jovens talentos. No filme americano a profissão de professor do personagem principal foi mantida mas o roteiro foi modificado para encaixar Richard Gere no papel, surgindo assim um músico bem mais jovem (o professor real tinha 80 anos quando veio a falecer). Apesar das modificações e do fato de ser um remake, “Sempre ao Seu Lado” não deixa de ser um belo filme. Vai tocar especialmente os que já tiveram um grande amigo canino que partiu e funciona muito bem para contar essa bela história de amizade e dedicação entre um homem e seu animal de estimação. Ah e não se esqueça dos lencinhos pois algumas lágrimas serão inevitáveis.

Sempre ao Seu Lado (Hachiko: a Dog´s Story, EUA, 2009) Direção de Lasse Hallstrom / Roteiro: Stephen P. Lindsey baseado no texto de Kaneto Shindô do filme original "Hachiko Monogatari"  / Elenco: Richard  Gere, Joan Allen, Jason Alexander, Cary Hirouki Tagawa, Sarah Roemer, Erick Avari / Sinopse: O filme narra a emocionante história de amizade entre um homem e seu cão Hachiko.

Pablo Aluísio e Júlio Abreu. 

Amelia

Nos primórdios da aviação muitos heróis foram formados, geralmente quando conseguiam realizar grandes feitos, como ir da Europa aos Estados Unidos atravessando o Oceano Atlântico ou então quando conseguiam dar a volta ao mundo. É o caso de Amelia Earthart (1897- 1937) que se tornou notória ao tentar ser a primeira mulher a dar a volta ao mundo em seu pequeno avião. Em uma época em que as mulheres lutavam pelos direitos mais básicos de igualdade, Amelia conseguia se sobressair ao tentar provar com seus feitos que não havia grandes diferenças entre homens e mulheres no final das contas. Sua celebridade foi tão marcante nas décadas de 1920 e 1930 que chegou inclusive a ser tema de um filme clássico, sendo interpretada nas telas por outro mito, Katherine Hepburn. Eram tempos mais românticos e a aviadora despertava admiração por ser destemida e aventureira, não recuando nem diante dos maiores desafios. Infelizmente quem se propõe a viver uma vida de aventuras como Amelia também se propõe a viver eternamente em riscos. A tragédia pode estar inclusive na próxima curva. É justamente a vida dessa mulher muito especial que esse “Amelia” se propõe a contar. Embora esteja um tanto esquecida (o que é de certa forma natural por causa do longo tempo em que morreu) a heroína despertou o interesse da Fox que já andava atrás de um bom roteiro de aventuras há algum tempo. O fato de sua história ser conhecida talvez atrapalhasse um pouco mas os executivos entenderam que fazia tanto tempo que ela havia morrido que as novas gerações provavelmente nem sequer a conheciam de fato. Infelizmente é verdade. Tão esquecida que inclusive não despertou o interesse do público.

O filme tinha pretensões de ser ao menos indicado ao Oscar mas sua má repercussão de público e crítica atrapalhou os planos da Fox. E o que há de errado com o filme? A direção de Mira Nair perdeu o foco. Ao invés de se concentrar nos feitos mais heróicos e aventureiros da vida da aviadora (o que era de se esperar) a diretora preferiu mostrar muito mais seu relacionamento com o marido (Richard Gere, em papel coadjuvante de luxo). O que era um filme de aventuras virou um romance açucarado demais. Some-se a isso o fato da atriz Hilary Swank não estar bem no papel. Vacilante, não consegue convencer ao espectador que é uma mulher á frente de seu tempo (no máximo ela passa a impressão de que é uma criadora de casos, uma encrenqueira). Tecnicamente não há o que se criticar – o filme é muito bem realizado, com efeitos digitais que se encaixam perfeitamente na proposta da história. O problema é que infelizmente o tempo é o senhor de tudo e Amelia Eckhart e seus feitos parecem datados demais para os dias altamente tecnológicos em que vivemos. Mesmo com esses problemas pontuais recomendo Amelia, não só em respeito a essa mulher que perdeu sua vida por uma boa causa como também pelo fato de ser um filme de memória, que visa resgatar sua figura, a tirando da obscuridade das páginas amareladas do tempo.

Amelia (Amelia, EUA, 2009) Direção de Mira Nair / Roteiro: Ronald Bass,  Anna Hamilton Phelan baseados nos livros "East To The Dawn: The Life of Amelia Earhart" de Susan Butler e "The Sound of Wings: The Life of Amelia Earhart" de Mary S. Lovell / Elenco: Hilary Swank, Ewan McGregor, Richard Gere, Christopher Eccleston, Joe Anderson, Cherry Jones, Mia Wasiwoska / Sinopse: O filme narra a história de Amelia Earhart, aviadora pioneira que tinha um sonho: ser a primeira mulher a dar a volta ao mundo em um avião.

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Rocky, Um Lutador

Sylvester Stallone era apenas um jovem aspirante a ator, desempregado e em sérias dificuldades financeiras quando criou seu mais célebre personagem, o boxeador Rocky Balboa. Na época Sly estava casado, com filho pequeno em casa, mas sem nenhuma perspectiva de crescer na carreira e na profissão. Muitos estúdios tinham simplesmente batido a porta em sua cara, afirmando que ele definitivamente não tinha boa aparência e nem vocação para ser um astro de primeira linha. Foi nessa fase difícil de sua vida que casualmente Stallone viu um fato que lhe trouxe inspiração imediata. Naquele mês Nova Iorque não comentava outra coisa: no fim de semana haveria uma luta entre o campeão mundial de pesos pesados e um boxeador de segunda linha, completamente desconhecido e sem expressão. Na vida real o campeão colocou o novato a nocaute logo nos primeiros minutos de luta, mas Stallone pensou diferente. Que tal escrever um roteiro onde o pequeno lutador saísse consagrado ao derrotar o arrogante e vaidoso campeão do mundo? Nasceu assim Rocky Balboa. Foi certamente uma idéia genial. Não é surpresa para ninguém que Stallone tenha levado ao seu texto vários aspectos de sua própria vida pessoal. As humilhações, as negativas, as piadinhas debochando de seu velho sonho de se tornar um ator de sucesso, tudo está lá na estória de seu personagem mais famoso. Misturando fatos reais com ficção Stallone realmente criou um personagem muito humano, cuja estória tocava fundo na vida de muitas pessoas. Era um grande script e certamente alguém se interessaria em produzi-lo.

De fato muitos mostraram interesse. Os estúdios viram ali uma excelente estória mas queriam realizar o filme com um astro famoso e não com Stallone no papel principal, afinal ele era naquele momento um perfeito Zé Ninguém. Passando necessidades financeiras o ator teve que ter muita personalidade para bater de frente com os estúdios. Ou ele faria Rocky Balboa ou ninguém mais teria os direitos de filmagem daquele roteiro. Após uma verdadeira queda de braço, Stallone conseguiu vencer e foi escalado para interpretar o próprio personagem que criara. Foi a virada definitiva de sua carreira artística. Assim que chegou aos cinemas o filme estourou nas bilheterias. A estória muito tocante da vida de um boxeador desconhecido que conseguia vencer o grande campeão mundial de pesos pesados caiu no gosto de público e crítica. A própria vida de Stallone, aquele ator que ninguém conhecia, também serviu para abrilhantar ainda mais a promoção do filme. Todos queriam saber a história de sua vida pessoal. De certa forma o filme era também a história de sua vida, adaptada para o mundo dos esportes com um personagem de ficção. “Rocky, Um Lutador” se tornou um campeão de bilheteria em seu ano de lançamento e aclamado pela crítica conseguiu abocanhar os principais Oscars da Academia. Venceu nas categorias Melhor Filme, Melhor Diretor (John G. Avidsen) e Melhor Edição. O próprio Sylvester Stallone foi indicado ao Oscar de Melhor Ator mas não venceu (foi sua única indicação na carreira). No saldo final “Rocky,  um Lutador” se tornou aquele tipo de filme onde fatos reais e ficção se misturam maravilhosamente bem, tudo resultando em um filme inesquecível na história do cinema. 

Rocky, Um Lutador (Rocky, EUA, 1976) Direção: John G. Avildsen / Roteiro: Sylvester Stallone / Elenco: Sylvester Stallone, Talia Shire, Burt Young, Carl Weathers, Burgess Meredith, Thayer David, Joe Spinelli, Jimmy Gambina / Sinopse: Rocky Balboa (Sylvester Stallone) é um boxeador desconhecido que ganha a grande chance de sua vida ao enfrentar o campeão mundial de pesos pesados, Apollo Creed (Carl Weathers).

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.

Em Busca da Terra do Nunca

Peter Pan é um dos personagens mais famosos do universo infantil. Ele foi criado originalmente em uma peça de teatro escrita pelo dramaturgo James Mathew Barrie (1860 – 1937) que vivia um momento particularmente complicado de sua vida. O autor vinha de um grande fracasso de público e crítica com sua última peça e precisava urgentemente de um novo sucesso para se redimir. Em busca de novas idéias resolveu certa tarde ir passear em um parque próximo de sua casa. Ao ver um grupo de crianças brincando de forma despreocupada pensou em como seria bom viver eternamente na infância, sem pressões, sem obrigações, apenas brincando e vivendo sem preocupações. Diante desses pensamentos J.M. Barrie acabaria criando “Peter Pan”, um garoto que se recusava a crescer e deixar seus anos de criança para trás. É justamente a história da criação desse personagem imortal que acompanhamos no filme “Em Busca da Terra do Nunca”. O criador de Peter Pan é interpretado pelo astro Johnny Depp, aqui despido de maquiagem pesada, sempre presente em seus maiores sucessos. O ator fez pesquisa sobre Barrie mas de uma forma em geral não se destaca em sua atuação, se mostrando bem mais contido do que o habitual.
 
Interpretando o produtor teatral Charles Frohman o elenco ainda traz o grande Dustin Hoffman. Para quem não se lembra uma de suas atuações mais famosas foi justamente em “Hook”, uma versão de Peter Pan sob as lentes de Steven Spielberg. Lá ele fazia um Capitão Gancho afetado e histriônico. Mas sua presença não ajuda muito. Até a sempre marcante Kate Winslet está apagada. Em termos de elenco o grande destaque mesmo é a presença de Julie Christie, atriz de “Dr Jivago” que marcou época por causa de sua beleza nórdica. Apesar dos anos não perdeu a elegância e o estilo. Assim em termos gerais podemos dizer que o filme é muito bem realizado, com excelente reconstituição histórica e direção de arte caprichada e bonita mas é aquele tipo de produção que não tem um enredo dramaticamente forte o suficiente para se tornar interessante. O dramaturgo era, apesar de seu talento inegável para escrever, uma pessoa praticamente comum, sem grandes dramas a contar em sua vida pessoal. Ele acaba se tornando próximo a uma viúva e seus quatro filhos (que serviriam como fonte de inspiração para Peter Pan) mas fora isso nada de muito marcante acontece deixando o filme em muitos momentos arrastado, por não ter uma história melhor para contar. Vale como curiosidade histórica para se conhecer um pouco mais da vida do criador de Peter Pan e é só.

Em Busca da Terra do Nunca (Finding Neverland, EUA,  2003) Direção: Marc Forster / Roteiro: Allan Knee, David Magee / Elenco: Johnny Depp, Kate Winslet, Radha Mitchell, Julie Christie, Dustin Hoffman / Sinopse: Dramaturgo em crise após o fracasso de sua última peça de teatro resolve escrever algo completamente diferente. Seu novo texto era a estória infantil de um grupo de crianças que se recusam a crescer. O nome da peça? Peter Pan.

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.

A Fúria de Simuroc

Um grupo de jovens decide fazer turismo no interior da Irlanda durante as férias escolares. Após alugarem um veículo adequado para esse tipo de jornada colocam o pé na estrada. Tudo corre muito bem, com brincadeiras e paqueras, até que decidem parar para abastecer em um posto no meio do nada. Lá encontram alguns tipos esquisitos, moradores locais completamente estranhos, que os avisam que é perigoso transitar sozinhos por aquela região. Após se desentenderem com alguns caipiras no local eles tentam sair rapidamente do posto mas na pressa atropelam uma velha cigana que em seus últimos momentos de vida os amaldiçoam com a “fúria de Simuroc” – algo que inicialmente não entendem mas que depois vão compreender perfeitamente quando passam a ser caçados e atacados por uma ave de rapina monstruosa e gigante que não parece desistir do objetivo de devorar  cada um dos jovens turistas.

Bom, pela sinopse já deu para perceber do que se trata esse filme. Aliás você sabe o que Criptozoologia? O nome é complicado mas a definição é simples, pois se trata do estudo de seres mitológicos, folclóricos e místicos. O tal monstro alado desse filme se enquadra bem nisso. Nada contra filmes de monstros e tudo mais. O problema é quando eles não se tornam divertidos e nem assustadores. É o caso desse “A Fúria de Simuroc”. No começo você até fica interessado em saber quando o tal bicho vai começar a atacar e tudo mais. Infelizmente as expectativas vão logo para o ralo. O tal Simuroc é um monstrengo digital muito desengonçado e desarticulado que mais causa risos do que medo. Além de mal feito o filme faz mal uso dele. Seus ataques são em plena luz do dia, sem clima de terror nenhum e completamente risíveis.  O roteiro é puro clichê com todos aqueles jovens sendo mortos um a um sem qualquer traço de criatividade em suas mortes. O elenco é todo desconhecido do grande público com exceção de Stephen Rea que deve estar passando por alguma dificuldade financeira para aceitar trabalhar numa coisa dessas. A produção é do canal Syfy que tem realizado cada coisa ruim que vou te contar. Enfim, se ainda não viu não perca seu tempo com isso. Melhor rever “Os Pássaros” do velho e bom Hitchcock, aquele sim era um filme de verdade.

A Fúria de Simuroc (Roadkill, EUA, Irlanda, 2011) Direção: Johannes Roberts / Roteiro: Rick Suvalle / Elenco: Stephen Rea, Oliver James, Eliza Bennett  / Sinopse: Grupo de jovens começam a ser atacados por um monstro alado durante uma viagem de turismo pela interior da Irlanda.

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

Rasputin

Grigori Yefimovich Rasputin (1869 – 1916) foi uma das figuras mais marcantes da Rússia czarista. De origem camponesa caiu nas graças da nobreza ao se tornar próximo da família Romanov. Acontece que o filho herdeiro do Czar Nicolau II sofria de hemofilia, o que colocava em risco o futuro da dinastia. O menor ferimento poderia levar o garoto à morte. Além disso sofria enormes dores que deixavam sua mãe, Alexandra, em completo desespero. Foi nesse momento de agonia e aflição que Rasputin surge no palácio imperial. Dono de uma imagem marcante (barbas longas, roupa de monge religioso e olhar vidrado) ele acabou impressionando Alexandra que, sem saber o que fazer, deixou Rasputin fazer uma oração aos pés da cama do pequeno Alexei. De um jeito ou outro o fato foi que o garoto realmente se recuperou da crise pela qual passava. Alexandra era uma mulher mística que acreditava em poderes sobrenaturais e esotéricos. Logo avisou a Nicolau que não deixasse mais Rasputin ir muito longe pois o jovem herdeiro Alexei precisava de sua presença para superar seus problemas de saúde. Após ganhar a confiança da família Romanov, o estranho Rasputin passou a ser cortejado por diversos nobres ansiosos para gozarem de favores da monarquia. Não tardou para o antes anônimo e sinistro religioso da Sibéria começasse a desfrutar de um prestigio e influência sem precedentes na corte do Czar.

Entendendo completamente sua nova posição o “religioso” Rasputin começou a abusar de sua posição dentro da nobreza. Participava de orgias, festas mundanas e todo tipo de extravagância. No fundo muito provavelmente não passava de um charlatão mas sabia muito bem vender sua imagem messiânica para aquela nobreza decadente e obtusa. Obviamente começou também a colecionar muitos inimigos, reais e imaginários, até que nas vésperas da revolução comunista Russa sofreu um atentado a tiros, punhaladas e facadas. Era um homem tão robusto e forte que mesmo assim não conseguiu ser morto. Foi preciso que seus assassinos o jogassem em um rio congelado para que finalmente morresse afogado e de hipotermia. Como se pode se perceber a história de Rasputin tem todos os elementos para gerar um grande filme. Há intrigas palacianas, escândalos envolvendo a alta nobreza e fanatismo religioso, tudo em doses fartas. Esse filme “Rasputin” conta tudo isso mas infelizmente passou bem despercebido em seu lançamento (no Brasil o filme foi direto para o mercado de vídeo e não passou nos cinemas). É uma pena porque embora não seja em nenhum momento brilhante é uma produção muito eficiente e competente em contar a história do monge louco da Sibéria. Alan Rickman foi bem escolhido para viver Rasputin. Ele naturalmente já tem aquele tipo de olhar doentio e fanatizado que marcou tanto o personagem histórico. Além disso consegue ser plenamente convincente em sua atuação. O único problema é que o verdadeiro Rasputin era um gigante com quase dois metros de altura e Rickman tem um porte bem mais franzino. Não faz mal. Não deixarei de recomendar o filme por causa desses detalhes. Fica então a dica, “Rasputin”, a história que a dinastia Romanov gostaria que não fosse contada. 

Rasputin (Rasputin, EUA, 1996) Direção: Uli Edel / Roteiro: Peter Pruce / Elenco: Alan Rickman, Greta Scacchi, Ian McKellen / Sinopse: O filme narra a história do monge místico Rasputin (Alan Rickman) que na Rússia Czarista ganhou a confiança da família Romanov após amenizar o sofrimento do pequeno Alexei, herdeiro do trono.

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.

A Hospedeira

Atenção fãs da saga “Crepúsculo” chega agora aos cinemas mais um filme baseado na obra da escritora Stephenie Meyer. Saem os vampiros adolescentes e entra em cena um mundo futurista, nada animador para a humanidade em geral. A terra está sob o domínio de uma raça de alienígenas parasitas, que dominam os seres humanos de corpo e mente. Nesse ambiente hostil Melanie (Saoirse Ronan) e Jared (Max Irons) vivem uma história de amor improvável que logo entra em choque com os interesses dos ETs invasores. O casal faz parte de um movimento de resistência que combate os seres provenientes de outro planeta. Tudo começa a mudar quando Melanie é capturada por Peregrina (Diane Kruger), que pretende usar as lembranças de sua prisioneira para localizar os demais rebeldes mas o tiro acaba saindo pela culatra pois ela própria acaba se apaixonando por Jared também!

Bom, pela sinopse já deu para perceber que lógica não é o forte desse novo filme baseado em livro de Stephenie Meyer. Na verdade todo o mundo futurista, todos os problemas provenientes da invasão alienígena na Terra, todo esse contexto é mera desculpa para Meyer desfilar mais uma estória de amor que lembra bastante o romance que imperou em “Crepúsculo”. Aqui a adaptação se mostra mais complicada porque verdade seja dita, nem tudo que funciona na literatura se sai bem na tela de cinema. O enredo se desenvolve aos trancos e barrancos, com um contexto confuso, muitas vezes sem sentido nenhum, que acaba cansando o espectador na sua vã tentativa de entender tudo que se passa naquele universo. O roteiro também não explica praticamente coisa nenhuma – de onde veio os alienígenas, como foi a conquista do nosso planeta, o que de fato aconteceu – nada é explicado! Tudo é meio que jogado para o espectador e ele fica no dilema se compra ou não a estranha idéia. Na verdade pouca coisa é original, com idéias copiadas de vários e vários outros filmes do passado, entre eles “Invasores de Corpos”, “Vampiros de Almas”, “Eles Vivem” e produções semelhantes. Mas esqueça tudo isso, “A Hospedeira” nem é uma ficção de verdade, está mais para romance adolescente (como sempre em se tratando de Stephenie Meyer). Se faz seu estilo assista, caso contrário é melhor deixar pra lá.

A Hospedeira (The Host, EUA, 2013) Direção: Andrew Niccol / Roteiro: Andrew Niccol baseado na obra de Stephenie Meyer / Elenco: Diane Kruger, Saoirse Ronan, Frances Fisher, Max Irons, Jake Abel, William Hurt / Sinopse: Em um mundo dominado por uma estranha raça alienígena parasita um casal de namorados ousa viver uma grande estória de amor.

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.

King Kong

O personagem King Kong é um dos mais famosos da história do cinema. Surgiu pela primeira vez nas telas na década de 1930 em um filme dos estúdios RKO. Na sociedade americana imperava a grande depressão e o filme investia em um mundo de realismo fantástico, com muita aventura e ação, pautada por efeitos especiais de encher os olhos. Era a forma de trazer um alívio para aqueles anos de muito desemprego e falta de esperanças. A fórmula se tornou certeira e o gorilão caiu imediatamente no gosto do grande público que encheu as salas de cinemas. Muitas décadas depois King Kong voltaria às telas, com nova roupagem e efeitos especiais. Era a década de 70, quando os filmes de ficção e fantasia estavam em alta. Era um bom filme mas não escapou das criticas por causa da tentativa de modernizar demais a estória. Peter Jackson era apenas um jovem quando assistiu a esse segundo King Kong nas telas e por muitos anos cultivou o sonho de um dia dirigir algo realmente definitivo sobre o monstro. A chance finalmente lhe caiu nas mãos após o imenso sucesso de bilheteria da trilogia “O Senhor dos Anéis”.  Com carta branca e orçamento literalmente monstruoso (mais de 200 milhões de dólares), Jackson finalmente começou a tornar realidade seu velho sonho de trazer o rei Kong de volta à sua merecida grandiosidade.

O resultado final mostra um filme muito bom mas que não consegue ser excelente por causa de alguns equívocos do roteiro. É certo que há muitas coisas boas no texto como, por exemplo, trazer a estória do filme de volta à década de 30 (na mesma época em que o King Kong original foi lançado). Outro ponto positivo foi resguardar a aparição de Kong o máximo possível criando assim uma expectativa no público.  O problema porém surge logo após King Kong surgir em cena. A overdose de efeitos digitais (principalmente nas cenas em que o gorila entra em uma briga épica contra dinossauros) acaba desviando o foco principal do que é o mais importante nesse filme, a relação de amizade entre o enorme monstro e a delicada e bela heroína que acaba ganhando a afeição do gigante. Peter Jackson parece vacilar na direção, se garantindo numa série de cenas com muitos efeitos digitais que podem impressionar o público mais jovem mas que acabam soando desnecessários e gratuitos para os cinéfilos com mais bagagem. O saldo final é bom, não há como negar, mas perdeu-se a chance de realmente produzir a obra definitiva com King Kong. Claro que nada poderá superar o charme e o carisma do primeiro filme, o original. Poderiam ter realizado algo mais equilibrado e focado nas principais características da estória original mas isso infelizmente não ocorreu aqui nesse remake.

King Kong (King Kong, EUA, 2005) Direção: Peter Jackson / Roteiro: Peter Jackson, Fran Walsh, Philippa Boyens / Elenco: Naomi Watts, Jack Black, Adrien Brody, Thomas Kretschmann, Colin Hanks, Andy Serkis, Evan Parke, Jamie Bell, Lobo Chan, John Sumner, Craig Hall, Kyle Chandler, William Johnson / Sinopse: O diretor Carl Dehnam (Jack Black) lidera uma expedição até uma ilha remota perdida no meio do oceano para verificar se uma antiga lenda sobre um gorila gigante realmente tem algum fundo de verdade. Chegando lá ele finalmente consegue ver o monstro mitológico. Não satisfeito resolve capturar King Kong para levá-lo até os EUA onde pretende explorar comercialmente o animal, uma decisão de que ele se arrependerá amargamente depois.

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.

Balada Sangrenta

É considerado o melhor filme da carreira de Elvis Presley. Não é para menos, realmente “King Creole” é cinema de altíssima qualidade. Do roteiro às atuações, do argumento à trilha sonora, tudo é muito bem realizado, caprichado, de primeiríssima linha. Isso era de se esperar, pois se trata de uma direção assinada por Michael Curtiz, o diretor de “Casablanca” e tantos outros clássicos (como os filmes que dirigiu com o mito Errol Flynn, por exemplo). Então não é nenhuma surpresa o excelente nível técnico do filme como um todo. A trama se passa numa New Orleans com muita música no ar mas também com muita criminalidade pelos becos escuros da cidade. É nesse cenário que vive o jovem Danny Fisher (Elvis Presley). Após a morte de sua mãe em um acidente automobilístico a outrora feliz família de Danny entra em colapso. Seu pai (Dean Jagger), um homem honesto e digno, não consegue mais se firmar em nenhum emprego. Já sua irmã Mimi (Jan Shepard) tenta de alguma forma ajudar em casa, ocupando a posição que era exercida por sua mãe falecida. Uma pessoa que logo se torna o equilíbrio emocional da família Fisher. O sonho de todos eles é que Danny se forme, construa assim um futuro melhor para si e venha a ter um dia uma profissão que lhe dê segurança e estabilidade na vida. A escola se torna a esperança de toda a família. E é justamente no último dia de aula, quando está prestes a receber seu diploma, que Danny acaba se envolvendo em uma confusão que irá alterar todo o seu destino. Ele briga com alguns colegas na porta da escola e por isso não consegue mais se formar. Desiludido decide ir atrás de algum trabalho melhor na Bourbon Street, a principal e mais famosa rua de New Orleans. Cheia de boates e cabarets a Bourbon é uma opção para quem não tem um diploma como Danny. É lá que Maxie Fields (Walter Matthau) impera, controlando tudo menos a pequena casa noturna chamada “King Creole”, onde Danny acaba encontrando um emprego como cantor fixo. E justamente nesse meio cheio de violência e crimes, disputas e concorrências desleais que Danny irá tentar finalmente abrir os caminhos de sua vida.

“Balada Sangrenta” é um primor. Apesar das músicas suavizarem um pouco o clima barra pesada da estória, Michael Curtiz conseguiu manter a densidade dramática dos acontecimentos. O Danny Fisher de Elvis é um cara durão, tenaz, que não aceita desaforos, bem ao contrário de seu pai que muitas vezes se coloca em situações humilhantes apenas para garantir um suado e minguado salário em um emprego como assistente numa farmácia local. Isso é tudo o que Danny não deseja em seu futuro. Para piorar ele começa a andar com a turma de Shark (Vic Morrow de “Sementes da Violência”). Por falar nisso o elenco coadjuvante de “Balada Sangrenta” é realmente excepcional. O personagem de Elvis fica dividido entre o amor inocente e puro de Nellie (interpretada por Dolores Hart, mais uma vez contracenando com Elvis) e a paixão pela desiludida Ronnie (Carolyn Jones), uma garota de boate e amante casual do gangster Maxie. E por falar nesse personagem não deixa de ser muito interessante ver Walter Matthau interpretando um gangster que tenta controlar a tudo e a todos com violência, chantagens e poder econômico. Suas cenas ao lado de Elvis são excelentes. E o Rei do Rock, como se sai com tanta responsabilidade ao ter que atuar no meio de tantos atores talentosos? Muito bem. A crítica da época elogiou Presley por sua capacidade de segurar um filme desse porte! Embora não fosse um ator com formação dramática não há como deixar de elogiar o cantor em sua caracterização aqui. Obviamente que sua atuação não pode ser comparada aos grandes atores da época mas dentro de suas possibilidades Elvis se saiu excepcionalmente bem. E ele tem muitas cenas complicadas ao longo do filme, seja sofrendo ao saber que seu pai foi apunhalado, seja tentando transmitir a dor pela perda de uma pessoa querida.

Embora tivesse a opção de realizar o filme em cores, Curtiz se decidiu pelo Preto e Branco. A decisão foi baseada no próprio enredo do filme que pedia por um clima mais sórdido, sombrio, ideal para o P&B. Outra decisão do diretor foi filmar praticamente tudo nos estúdios da Paramount em Los Angeles. Apenas poucas cenas seriam realizadas em locação na cidade de New Orleans (como a seqüência final no píer). Dentro dos confortáveis estúdios era bem mais fácil controlar as filmagens. Assim uma Bourbon Street foi recriada dentro do estúdio, o mesmo acontecendo com as boates de Maxie Fields e o próprio King Creole. Em suma, “Balada Sangrenta” é um pequeno clássico da década de 50 que merecia inclusive ter mais reconhecimento. Há uma mistura de elementos e gêneros que vão do drama ao suspense, do musical ao romance, que não pode ser subestimada. Pena que Michael Curtiz já estava com a idade muito avançada, perto de se aposentar definitivamente e nunca mais trabalharia com Elvis. A lamentar também os rumos que a vida do próprio Elvis tomou após terminar o filme, ao ser convocado para o exército americano, interrompendo sua carreira em Hollywood logo no melhor momento e na melhor fase de toda a sua vida artistica. De qualquer modo ficou para a posteridade essa obra cinematográfica, que resistiu excepcionalmente bem ao tempo. Uma preciosidade que merece ser redescoberta não apenas por fãs de Elvis Presley ou admirados de Michael Curtiz mas principalmente pelos cinéfilos em geral. “Balada Sangrenta” é sem dúvida um exemplo de cinema classe A.
 

Balada Sangrenta (King Creole, EUA, 1958) Direção: Michael Curtiz / Roteiro: Herbert Baker, Michael V. Gazzo baseados na obra "A Stone for Danny Fisher" de Harold Robbins / Elenco: Elvis Presley, Carolyn Jones, Walter Matthau, Dolores Hart, Dean Jagger, Vic Morrow, Paul Stewart, Jan Shepard, Liliane Montevecchi / Sinopse: Danny Fisher se vira como é possível para ajudar sua família. Após as aulas ganha uns trocados limpando mesas e arrumando os salões de bares e casas noturnas em New Orleans. É justamente aí que descobre ter um talento especial, o de cantar e encantar o público. Disputado por duas casas noturnas da Bourbon Street ele terá que ser forte para sobreviver ao jogo de gangsters e criminosos de todos os tipos.

Pablo Aluísio e Erick Steve.

Django Vem Para Matar

Título no Brasil: Django Vem Para Matar
Título Original: Se Sei Vivo Spara
Ano de Produção: 1967
País: Itália
Estúdio: Elios Studios
Direção: Giulio Questi
Roteiro: Franco Arcalli, Benedetto Benedetti
Elenco: Tomas Milian, Ray Lovelock, Piero Lulli

Sinopse: 
Django (Tomas Milian) é um bandoleiro, assaltante e assassino que vaga pelo velho oeste em busca de novos bancos para cometer seus crimes. Após assaltar uma carruagem carregada de ouro ele é traído por seus comparsas que o enterram vivo no meio do deserto inóspito. Desesperado e com sede de vingança consegue finalmente sair de sua cova, partindo para um acerto de contas brutal e violento contra seus antigos companheiros do mundo do crime.

Comentários:
Mais um western spaghetti com o personagem Django. Esse aqui está sendo lançado no Brasil agora como parte do box "Western - Os Heróis do Velho Oeste". São cinco filmes em uma caixa de DVDs muito interessante para colecionadores. Além dessa produção com Django o fã de faroestes italianos ainda levará para casa as seguintes produções: "Mato Hoje, Morro Amanhã", "O Filho de Django", "Três Balas Para Ringo" e "Adios Gringo". Como se sabe muitos fãs de western, principalmente brasileiros, reclamam da dificuldade de se encontrar com facilidade certos filmes em DVD do nosso querido gênero. Pois bem, procurando bem o consumidor vai acabar encontrando coisas interessantes como esse recente box. São filmes para os amantes do chamado western Spaghetti. Em alguns sites você pode ter acesso ao material por menos de R$ 40 reais - é ou não é uma boa pedida? Certamente sim. O enfoque aqui vai para filmes estrelados pelos atores Giuliano Gemma, Tomas Milian, Bud Spencer e Guy Madson, entre outros. Vale a pena ter em sua coleção. Mas voltemos ao filme. É um faroeste que investe até mesmo em uma linguagem meio surreal, quase psicodélica, com pitadas de terror (por mais estranho que isso possa parecer!). A produção não é das melhores e o filme para muitos especialistas é apenas uma tentativa oportunista de faturar em cima do nome comercial Django. Mesmo assim vale ao menos uma sessão para matar a curiosidade. No Brasil dos anos 60 ele também foi exibido nos cinemas de bairro com dois outros títulos, a saber: "O Pistoleiro das Balas de Ouro" e "Matar para Viver e Viver para Matar". Se você gosta do faroeste com macarronada não deixe de conferir.

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Harper, O Caçador de Aventuras

“Harper, o Caçador de Aventuras” é um filme da década de 60 com o sabor das antigas produções dos anos 40. O enredo é recheado de mulheres fatais, personagens dúbios, complexos e tramas praticamente indecifráveis. Como sempre acontecia naqueles antigos filmes o começo é relativamente simples mas conforme vai avançando a estória e as questões vão se revelando tudo começa a se tornar mais complicado. Seguir o fio da meada sem se perder é um desafio para os espectadores. Aqui Paul Newman interpreta um detetive particular cínico que é contratado pela esposa de um milionário desaparecido para encontrá-lo. Como sempre acontecia nos antigos roteiros da década de 40 aqui também temos muitas reviravoltas, muitas surpresas. Nenhum personagem é totalmente bom ou mal. Todos têm algo a esconder e a solução final desvenda todos os mistérios, não sem antes deixar muitas pistas falsas pelo caminho. O personagem Harper veio da literatura. Baseado no livro de “The Moving Target” do autor Ross Macdonald seu nome foi alterado para o filme por razões comerciais. De certa forma foi a solução encontrada pelo estúdio Warner para escalar seu astro Paul Newman em um filme que apesar de ser inspirado nos antigas produções noir bebia também da fonte da imensa popularidade da franquia James Bond.
 
Paul Newman está muito à vontade no papel de Harper. Mascando um chiclete atrás do outro ele se mostra bem cool e parece se divertir no papel. O bom resultado comercial do filme garantiria a ele um retorno ao mesmo personagem em “A Piscina Mortal” alguns anos depois. O elenco de apoio é todo bom. Lauren Bacall que interpreta a esposa do milionário desaparecido está especialmente cínica e mordaz. Viúva do mito Humphrey Bogart ela já tinha muita experiência nesse tipo de papel fatal. A personificação que me causou mais surpresa porém foi a da atriz Shelley Winters. Antigo sex symbol da década de 40 e 50 ela aqui se despe de sua vaidade para surgir como uma atriz decadente e deprimida, cujos tempos de fama há muito foram deixados para trás. Frustrada e sem esperança ela apenas existe, tentando viver um dia de cada vez. Winters está maravilhosa em sua atuação, muito marcante, digna de aplausos. Enfim, “Harper, o Caçador de Aventuras” é bem interessante e bem desenvolvido. É um tipo de filme onde a ação é mais intelectual (fica-se o tempo todo tentando descobrir o paradeiro do desaparecido) mas que vale a pena assistir, principalmente para quem gosta de desvendar charadas nesse tipo de roteiro.

Harper, O Caçador de Aventuras (Harper, EUA, 1966) Direção: Jack Smight / Roteiro: William Goldman baseado no livro de Ross Macdonald / Elenco: Paul Newman, Lauren Bacall, Julie Harris, Janet Leigh,  Robert Wagner,  Shelley Winters / Sinopse: Harper (Paul Newman) é um detetive contratado por uma mulher (Lauren Bacall) para encontrar seu marido desaparecido. O que parece ser algo simples acaba se revelando uma trama complexa e de difícil solução.

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.