quinta-feira, 25 de março de 2010

Nirvana - Nevermind

O tempo passa rápido demais. Parece que foi ontem que "Nevermind" chegou nas lojas mas lá se vão 20 anos desde o seu lançamento. A data comemorativa não poderia passar em branco por aqui. O Rock na época vinha em longo declínio, sem inovação, com o cenário musical lotado das chamadas bandas farofas - ou seja, muita pose, muito laquê no cabelo e pouca relevância sonora. Era um ambiente tão medíocre que o jovem que gostava de rock no começo dos anos 90 tinha mesmo que buscar no passado cantores e grupos de qualidade para ouvir. Era exatamente o que eu mesmo fazia naquela época pois ouvia não só os grandes clássicos (Elvis, Beatles, etc) como os chamados dinossauros do rock, grupos dos anos 60 e 70 como Pink Floyd e The Doors. E então no meio dessa pasmaceira eis que surgiu um novo grupo, realmente inovador e com um som forte, de pegada genuinamente roqueira, o Nirvana.

Na época o grupo foi relacionado ao chamado som de Seattle, uma feia, cinza e chuvosa cidade americana que nunca antes tinha se destacado mundialmente do ponto de vista cultural. Até um termo foi criado, Grunge (a imprensa adora mesmo rótulos). O mais curioso de tudo é que a maioria dessas informações eram equivocadas. O Nirvana não era de Seattle, mas sim de uma cidadezinha chamada Aberdeen e não fazia parte de movimento nenhum. Kurt Cobain, o vocalista, compositor e líder do grupo, não era e nunca foi parte de qualquer movimento cultural. Ele fazia uma música muito pessoal, refletindo aspectos de sua vida, sem se importar em fazer parte de qualquer tipo de rótulo inventado pela imprensa americana. "Nevermind" é a obra prima desse grupo que queiram ou não marcou época. Embora a frase possa causar polêmica o fato é que o Nirvana em essência foi uma banda de um disco só, já que o primeiro CD do grupo, "Bleach" nada mais era do que uma demo um pouquinho mais bem produzida. Da mesma forma seu último trabalho, "In Utero", foi severamente prejudicado pela decadência física e psicológica de seu mentor, já naquela altura totalmente corroído pelo forte vicio em heroína.

"Nevermind" por sua vez passa por cima de qualquer tipo de crítica que tente desvalorizar seu impacto na cultura roqueira dos anos 90. É um CD com faixas viscerais que a despeito de sua crueza rude e primitiva (como convém a um bom trabalho de punk rock) ainda mantém uma produção de excelente nível técnico, mérito é claro para o excelente produtor Butch Vig, um verdadeiro craque no setor. Kurt Cobain mostra ao longo da seleção que não bastava apenas posar de rebelde e usar roupas ridículas como os grupos que estavam na parada naquela época mas sim colocar sua alma em cada verso, em cada refrão. Nesse aspecto o cantor e compositor era realmente genial. Em suas músicas Kurt injetava aspectos reais de sua vida, sem pose, sem falsidades. Produtos culturais com tanta alma assim acabam virando ícones ou marcas e "Nevermind" de certa forma cumpre a regra que tanto conhecemos. Um disco que resume o melhor do que foi produzido na década de 1990. Quem viveu sabe perfeitamente do que estou falando.

Nirvana - Nevermind (1991)
1. Smells Like Teen Spirit
2. In Bloom
3. Come as You Are
4. Breed
5. Lithium
6. Polly
7. Territorial Pissings
8. Drain You
9. Lounge Act
10. Stay Away
11. On A Plain
12. Something in the Way

Pablo Aluísio.

quarta-feira, 24 de março de 2010

Stereophonics - Pull The Pin

A história é praticamente a mesma em quase todas as bandas da história. Um grupo de amigos se reúnem, formam um conjunto de Rock, chegam ao sucesso, alcançam as paradas mas então... sem muita explicação as coisas começam a ficar diferentes, rixas surgem, brigas internas pipocam em todos os lugares, o stress das viagens e das gravações se tornam insuportáveis e um belo dia a banda simplesmente explode... ou implode. Desde que o Rock foi inventado não dá outra coisa...

O Stereophonics vive algo parecido. O grupo, formado por amigos do País de Gales, conseguiu a proeza de lançar cinco excelentes CDs, desde que despontou para o sucesso nos anos 90 mas aí... A banda quase acabou em 2005 quando Kelly Jones se desentendeu com o batera Stuart Cable, o que acabou resultando em sua expulsão do grupo. Stuart acusou Kelly de tentar dominar a todos e impor sua opinião pessoal sobre os demais. O clima nervoso e tenso acabou passando para o novo CD do grupo, Language. Sex. Violence. Other? - um dos mais pesados e ruidosos trabalhos do Phonics.

Depois da saída de Stuart, Kelly trouxe ao grupo o guitarrista do The Manvils, Mark Parry. Com nova formação o grupo saiu em turnê e demonstrou, pelo menos no palco, que tantas confusões internas não tinham ainda afetado a banda. Isso na realidade só seria mesmo percebido com o lançamento desse CD, Pull The Pin, que chegou nas lojas no final de 2007. Apesar do sucesso (primeiro lugar na Inglaterra), a sonoridade do grupo soou de certa forma cansada para o público. Muitas críticas foram feitas ao Stereophonics pelos principais órgãos de imprensa britânicos. Será que Kelly Jones, depois de tantas brigas e desentendimentos havia perdido o toque de Midas?

Não é para tanto. Pull The Pin certamente não é o melhor álbum do Stereophonics mas conseguiu manter uma certa consistência. Claro que não existem aqui grandes hits ou maravilhosas canções como nos álbuns anteriores. Isso de certa forma causou estranheza entre os admiradores da banda galesa. Mas analisando agora, com mais calma e sem o rebuliço de seu lançamento, Pull The Pin me soa bem melhor. Talvez a primeira audição não tenha sido das melhores mas agora podemos apreciar melhor o som do grupo, que não está pior, simplesmente está diferente.

Entre os destaques podemos citar a canção que virou single antes do lançamento do CD, It Means Nothing, balada deliciosa que lembra muito os melhores momentos do Stereophonics como Have a Nice Day e o excelente arranjo de guitarras de My Friends, que tocou bastante nas rádios quando visitei Londres no final de 2007, mostrando que o grupo continuava com a mesma pegada de sucesso que sempre os caracterizou. É isso, Pull The Pin merece uma segunda audição e uma segunda avaliação. Em breve certamente o Stereophonics estará com CD novo nas lojas e esperamos que dessa vez o grupo de Kelly Jones acerte totalmente no tom.

Stereophonics - Pull The Pin (2007)
1. Soldiers Make Good Targets
2. Pass the Buck
3. It Means Nothing
4. Bank Holiday Monday
5. Daisy Lane
6. Stone
7. My Friends
8. I Could Lose Ya
9. Bright Red Star
10. Ladyluck
11. Crush
12. Drowning

Pablo Aluísio.

terça-feira, 23 de março de 2010

O Diário de Um Jornalista Bêbado

Jornalista americano freelancer (Johnny Depp) vai até Porto Rico atrás de um emprego em um decadente jornal local. Lá se torna amigo do empresario Sanderson, que deseja construir um grande império de turismo na Ilha após o governo americano colocar à venda as terras e as praias caribenhas da região. Enquanto a situação não se resolve o tal jornalista bêbado bebe, se mete em confusões e paquera a sra Sanderson (Amber Heart). Tudo muito frouxo e sem graça. O filme é muito chato. Só indico a quem gosta de ver dois marmanjos completamente bêbados durante as quase duas horas de filme (um exagero, já que em essência nada de muito importante acontece). O Johhny Depp está travado, o que é um absurdo para quem está interpretando uma personagem alcoolizado. Há cenas constrangedoras de sua canastrice e ele não conseguiu em momento algum dar algum tipo de carisma ao seu jornalista bêbado. Além disso os momentos de humor se resumem a acompanhar esse jornalista bebum passeando por Porto Rico, assistindo rinhas da galo e dando em cima da mulher do empresário Sanderson. Piadas de bêbados tem duração curta mas o filme se alonga desnecessariamente, tentando criar em vão algum vínculo com o espectador (que se não for outro bêbado vai acabar se cansando do roteiro repetitivo).

O filme foi um mega fracasso de bilheteria. Tomando as dores da produção o ator Johnny Depp partiu para a ofensa dizendo que o público americano não gostou do filme porque é "burro"! Sinceramente, além de não ter trabalhado de forma bem no filme ele ainda tentou enfiar goela abaixo do público um produto que em suma é muito chato e fraco. Deveria reconhecer a bomba e ficar calado. Além disso burro será mesmo quem pagar para ver esse monte de bebuns xaropes. Tem graça ver alguém enchendo a cara e falando uma besteira atrás do outra? Eu não vejo graça nenhuma, aliás bêbados são chatos por natureza e o filme comprova isso. Enfim, o filme é literalmente um porre. Merece ter sido o fracasso que foi.

Diário de um Jornalista Bêbado (The Rum Diary, EUA, 2011) Direção e roteiro de Bruce Robinson. / Elenco: Johnny Depp, Aaron Eckhart, Giovanni Ribisi / Sinopse: Jornalista americano vai até a Costa Rica atrás de emprego em um pequeno jornal local, se envolvendo em diversas confusões, tudo regado a muita bebida e drogas.

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.

segunda-feira, 22 de março de 2010

Jane Eyre

Jane Eyre é um clássico da literatura inglesa então obviamente o texto do roteiro tem muito pedigree. No fundo é uma estória bem romântica com várias reviravoltas, amores impossíveis, romantismo exacerbado e heróis galantes. Aqui acompanhamos a triste saga de Jane Eyre. Bem nascida tem o azar de ver seus dois pais mortos. Nas mãos de uma parenta megera logo é internada em um colégio interno, daqueles de dar arrepios, com quartos escuros e professoras violentas. Castigo físico é rotina além de muitas horas de estudo e trabalho. Jane então se torna uma moça adulta e ao sair da escola procura um emprego como governanta numa luxuosa propriedade campestre britânica (aqueles casarões que estamos acostumados a ver em filmes e séries britânicas como Downtown Abbey). Aí nesse local ela viverá emoções, paixões e tudo o mais que não convém contar mais para não estragar.

A produção é da BBC Films, então bom gosto e classe refinados é o mínimo a se esperar. A direção é meio burocrática, sem grandes arroubos autorais o que é de se compreender pois o diretor Cary Fukunaga (que apesar do nome é americano) quis apenas contar a estória do livro sem tirar nem colocar nada. Quis ser eficiente e correto. Se não atrapalha também não emociona. Percebi que diante de tanto zelo pela obra original o filme acabou soando frio, gélido, sem grandes emoções. Até mesmo o romance central (que deveria ser um arroubo de paixões descontroladas) se torna morno. De qualquer forma ainda recomendo por causa da bonita produção, dos belos jardins e da chance de conhecer, nem que seja pela tela, a obra da escritora inglesa Charlotte Bront.

Jane Eyre (EUA, 2011) Direção: Cary Fukunaga / Roteiro: Moira Buffini / Elenco: Mia Wasikowska, Jamie Bell e Sally Hawkins / Sinopse: Jane Eyre (Mia Wasikowska) morava com sua tia, e ao ficar órfã é levada para morar em um internato. Quando adulta, ela vai trabalhar como governanta na casa de Edward Rochester (Michael Fassbender) mas em breve o destino mudará completamente sua vida.

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.

domingo, 21 de março de 2010

Half Nelson

Professor do chamado High School (equivalente ao ensino médio no Brasil) dá aula numa escola pública de Nova Iorque cuja maioria dos alunos é negra. Além dos problemas com uma antiga namorada que está prestes a se casar ele tem que lidar com seu vício em drogas. Quando descobre o crack começa a ter problemas até para se concentrar nas aulas. A partir daí sua vida entra em parafuso. Assisti esse Half Nelson sem maiores expectativas, para falar a verdade pensei que fosse apenas mais um filme clichê do tipo "Ao Mestre com Carinho" mas estava completamente enganado. Half Nelson é um soco no estômago, um tapa na cara da sociedade que ainda não conseguiu entender o tamanho do problema das drogas em todos os setores sociais. O filme bem demonstra isso. Na sala de aula o problema já começa com o mestre, que adora cocaína e quase sempre chega em classe chapado. Os jovens alunos estão com a criminalidade em suas portas, muitos deles inclusive sendo aliciados de forma ostensiva por traficantes locais. Caberia a escola mostrar o caminho correto para essa juventude mas como fazer isso se até o professor usa crack no banheiro feminino do colégio?!

Ryan Gosling está se firmando rapidamente como um dos melhores talentos jovens do cinema americano. Seu papel aqui lhe cai como uma luva. Seu olhar perdido, meio abestalhado, noiado, é totalmente adequado ao personagem do professor chapadão. Além disso ele está perfeito nas cenas de abuso de drogas. A mais marcante acontece no final quando ele encontra sua aluna numa festa de junkies. Seu olhar de fracasso completo é um dos grandes momentos do filme. Enfim, "Half Nelson" é excelente, atual e lida de forma muito consciente com o avanço das drogas pesadas como o crack dentro da sociedade. Pelo andar da carruagem caminhamos rapidamente para isso - quebra total das regras sociais, dos valores morais e avanço indiscriminado da nova e poderosa droga! Será que um dia resolveremos esse problema?!

Half Nelson (Idem, EUA, 2006) / Diretor: Ryan Fleck / Roteiro: Ryan Fleck, Anna Boden / Trilha Sonora: Broken Social Scene / Elenco: Ryan Gosling, Anthony Mackie, Karen Chilton, Nathan Corbett, Nicole Vicius, Tristan Wilds, Christopher Williamson / Sinopse: Professor do chamado High School (equivalente ao ensino médio no Brasil) dá aula numa escola pública de Nova Iorque cuja maioria dos alunos é negra. Além dos problemas com uma antiga namorada que está prestes a se casar ele tem que lidar com seu vício em drogas. Quando descobre o crack começa a ter problemas até para se concentrar nas aulas. A partir daí sua vida entra em parafuso

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.

sábado, 20 de março de 2010

My Week With Marilyn

Hoje tive a grata surpresa de conferir esse "My Week With Marilyn". Quando o projeto foi anunciado eu realmente torci o nariz. Geralmente grandes ídolos do passado não ganham filmes à altura (vide as diversas bobagens feitas sobre Elvis Presley até hoje). Depois quando Michelle Williams foi anunciada fiquei ainda mais receoso. Inicialmente a achei meio inadequada, embora tenha adorado sua atuação em "Blue Valentine" (um excelente filme baseado em atuações maravilhosas sobre as dificuldades de um relacionamento adulto). Será que ela saberia lidar com a complexidade da personalidade de Marilyn Monroe?

Felizmente respirei aliviado quando "My Week With Marilyn" terminou.. Tudo é de muito bom gosto, o roteiro é bem escrito e as atuações são ótimas. Na minha forma de ver essa estrutura do argumento em que é valorizado apenas algum evento especifico da vida do biografado costuma dar muito mais certo do que quando tentam em um só filme retratar toda a história de vida da pessoa enfocada. Isso aconteceu recentemente com "A Dama de Ferro" em que tentaram dar um passo maior do que a perna e contar toda a história de Margaret Thatcher em apenas um filme - algo simplesmente impossível e que geralmente resulta em produções vazias e incompletas (apesar da ótima atuação de Meryl Streep considerei seu filme muito superficial).

Aqui acompanhamos a complicada gravação do filme "O Príncipe Encantado" que Marilyn Monroe (Michelle Williams) filmou na Inglaterra (fato único em sua carreira). Não deixa de ser cômico acompanhar o britânico Sir Laurence Olivier (Keneth Branagh) com toda sua organização e pontualidade arrancando os cabelos da cabeça com os constantes problemas de Marilyn durante as filmagens (sempre atrasada, sempre errando o texto do filme, tendo crises matrimoniais e depressivas, etc). O curioso é que o filme conseguiu retratar esse lado nada lisonjeiro do mito de forma não agressiva ou desrespeitosa. Seria muito fácil colocar uma Marilyn caindo pelo set, obviamente drogada ou bêbada. Felizmente o bom senso falou mais alto e aqui acompanhamos ela tal como realmente aconteceu - a atriz com muitos problemas pessoais, porém sem cair no sensacionalismo barato.

O foco do filme se concentra na aproximação de Marilyn com o terceiro assistente de direção, o jovem Collin Clarke (Eddie Redmayne). No meio do caos ela acaba se aproximando desse garoto que dentro da equipe não tinha nenhuma importância mas que acaba ganhado sua amizade e afeto. O curioso é que tudo que vemos na tela foi inspirado no próprio relato de Collin Clarke que por uma sorte do destino estava lá, no lugar e no tempo certos! Uma dessas coisas que só acontecem mesmo uma vez na vida de qualquer pessoa! Existe até hoje uma certa dúvida sobre a veracidade ou não de seu livro mas de certa forma isso não tem tanta importância pois não seria o primeiro livro a misturar fatos reais com toques de ficção! O texto é divertido e se for apenas uma lorota temos que reconhecer que é tudo muito bem escrito (e descrito). Infelizmente o autor faleceu em 2002 e não teve a oportunidade de ver sua obra adaptada tão bem para a tela de cinema.

Como já era esperado Michelle Williams só tinha dois caminhos ao interpretar Marilyn: ou atuar de forma convincente ou cair na caricatura! Muitos atores que interpretam mitos do passado como Elvis ou Marilyn inevitavelmente caem na caricatura pura e simples! Viram palhaços de forma inconsciente! Embora não seja muito parecida fisicamente com Monroe a atriz Michelle surpreende. Ela está doce, delicada (e complicada) em cena, tal como a Norma Jean da vida real. Concorrendo ao Oscar contra Meryl Streep por "A Dama de Honra" realmente ficarei chateado se perder pois considero seu trabalho muito superior à da colega. Sem grande uso de maquiagem pesada (como Streep), Michelle Williams conseguiu sumir dentro da personagem, o que prova seu fenomenal trabalho de atuação. O fato é que Marilyn era uma pessoa com sonhos, sentimentos e pensamentos que a distanciavam do estereotipo de "loira burra" que seus personagens acabaram criando na mente do público. Captar a essência dessa pessoa é o grande trunfo desse filme.

O diretor Simon Curtis tem uma das melhores séries da BBC no currículo, chamada Cranford (que acompanhei e fiquei maravilhado). Aqui ele repete integralmente seu bom gosto e finesse em cena. Tudo é encenado e recriado com uma delicadeza cuidadosa que foge sempre do lugar comum. A reconstituição de época também me agradou bastante, assim como os pequenos detalhes da produção (que contam muito no saldo final). A única crítica maior que teria a fazer ao filme seria a pouco relevância dada pelo roteiro a outro mito da história do cinema presente na história: Vivien Leigh, esposa de Laurence Olivier. No filme sua figura surge apagada e sem grande atrativo. Uma pena, mas tudo bem, "My Week With Marilyn" não deixa de ser brilhante por esse pequeno tropeço. Do jeito que está o filme me agradou bastante e recomendo aos fãs da eterna Marilyn Monroe, uma mulher tão linda quanto complexa, uma combinação totalmente explosiva vamos convir. Assistam sem susto, pois o filme é acima de tudo uma bela homenagem ao maior mito sexual da história do cinema.

Pablo Aluísio.

sexta-feira, 19 de março de 2010

Sete Dias Com Marilyn

Gostei bastante do filme. A Michelle Williams está sobrenatural na pele de Marilyn Monroe. Sabe eu tinha receios que sua interpretação fosse cair no exagero ou no clichê mas isso não acontece. Ela captou muito bem a verdadeira Norma Jean. Complexa, de convivência turbulenta, fora de controle, terna e ao mesmo tempo irresponsável, dada a impulsos fora de hora. O ator Kenneth Branagh defende seu Sir Laurence Olivier com dignidade mas achei fraca sua interpretação. O Laurence era um sujeito de presença até mesmo intimidadora mas firme - no filme Branagh se limita a dar chiliques em cena, gritando com todos ao redor, algo impensável para o classudo ator original. Dois personagens centrais foram negligenciados no roteiro ao meu ver: Arthur Miller e Vivien Leigh. Miller é uma sombra, mal aparece, mal fala. Vivien Leigh também está quase sumida, me recordo agora de apenas duas cenas com ela - certamente os fãs de "E O Vento Levou" vão reclamar.

Mas nada disso tira os grandes méritos do filme. No fundo é a reconstituição totalmente curiosa do que aconteceu com aquele rapaz, Collin Clark (Eddie Redmayne), um mero terceiro assistente de direção, que acabou tirando a sorte grande ao se tornar próximo da estrela no set de filmagens. Michelle Williams captou perfeitamente a persona do mito: um quê de delicada, doce mas ao mesmo tempo totalmente imprevisível e incontrolável. Eu me senti recordando do que vi da atriz real em "Os últimos dias de Marilyn Monroe". Ela era assim na vida real, quase uma garotinha, sem muita noção das coisas que aconteciam ao redor ou do que ela representava na época (considerada a mulher mais famosa do mundo). Enfim, eu mais do que recomendo. A Michelle Williams na minha opinião foi mais sutil do que a Meryl Streep e merece levar o Oscar; A delicadeza de sua interpretação faz toda a diferença do mundo! Happy Birthday Mr President!

Sete Dias Com Marilyn (My Week With Marilyn, EUA, 2012) / Direção: Simon Curtis / Roteiro: Adrian Hodges baseado no livro de Colin Clark / Elenco: Michelle Williams, Kenneth Branagh, Eddie Redmayne, Julia Ormond / Sinopse: Marilyn Monroe (Michelle Williams) chega à Inglaterra para filmar seu novo filme, "O Principe Encantado" com Laurence Olivier (Kenneth Branagh). As filmagens logo se tornam tensas por causa dos constantes atrasos e problemas da famosa atriz americana.

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.

quinta-feira, 18 de março de 2010

Jovens Adultos

Para algumas pessoas os anos no colégio representam o ponto alto de suas vidas. Principalmente para os populares, os bonitos, os "reis do high school". Quando os anos chegam e se vêem em dificuldades emocionais e financeiras sentem enorme saudades daquele período - incluindo aí os antigos amores do passado. É justamente essa situação que vive Mavis Gary (Charlize Theron). Rainha da beleza no colégio de sua cidade, popular ao extremo, ela chega aos 37 anos sem muito o que comemorar. Divorciada, fazendo sexo casual com desconhecidos, sem conseguir se firmar na carreira de escritora, ela acaba surtando quando recebe um Email de seu antigo namorado de escola anunciando com muita alegria o nascimento de seu filho! Sem pensar muito ela decide voltar à pequena cidade de Mercury para tentar reconquistar o namoradinho dos tempos de escola. O roteiro de "Jovens Adultos" é de Diablo Cody, ex stripper que acabou ficando famosa depois do sucesso de "Juno", uma pequena obra prima que causou impacto em seu lançamento.

Depois de se envolver com algumas bobagens como "Garota Infernal" finalmente Diablo reencontra o caminho dos bons roteiros. "Jovens Adultos" não é um filme excepcional mas dentro de sua proposta é muito bem realizado e escrito. E o mérito não cabe apenas a Diablo Cody mas também a ótima atriz Charlize Theron. Sua personagem não é nenhuma heroína romântica, pela contrário, ela mente, age mal e tenta de todas as formas roubar o antigo namorado de sua atual esposa. Em nenhum momento tem alguma crise de consciência por agir assim e nem está preocupada com os fatores morais de sua decisão. Em outras palavras é uma personagem muito próxima do que efetivamente acontece na maioria da vida das pessoas. Eu particularmente gostei bastante do resultado final justamente por isso, de sua veracidade. Enfim "Jovens Adultos" é uma boa pedida, espero que daqui em diante Diablo Cody realize mais projetos como esse e "Juno" e deixa as bobagens definitivamente de lado.

Jovens Adultos (Young Adult, EUA, 2011) Direção de Jason Reitman / Roteiro: Diablo Cody / Com: Charlize Theron, Patrick Wilson e Patton Oswalt / Sinopse: Charlize Theron interpreta Mavis Gary, uma escritora de livros infantis que retorna para sua pequena cidade natal para recuperar seus dias de glória do tempo em que era a rainha da beleza em sua escola.

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.

quarta-feira, 17 de março de 2010

Toda Forma de Amor

Jovem cartunista (Ewan McGregor) relembra dois períodos distintos de sua vida. No primeiro recorda dos últimos momentos da vida de seu pai (Christopher Plummer). Diagnosticado com um cãncer agressivo seu velho resolve finalmente, aos 75 anos, assumir sua homossexualidade para espanto de todos. Na outra linha temporal ele recorda o começo de seu relacionamento com uma jovem francesa (Melanie Laurent). Após conhecer a charmosa garota numa festa ele finalmente sente que encontrou sua cara metade. Será mesmo? Lida assim a sinopse podemos ficar com a impressão que o filme "Toda Forma de Amor" é no fundo um dramalhão com ares de comédia romântica. Nada mais longe da realidade. O roteiro com muita inteligência e sutileza dribla essa armadilha e constrói um filme muito bem amarrado, cativante, com muito bom humor e inteligência. O fato do personagem ser cartunista ajuda muito nesse aspecto. Ao longo da estória vamos acompanhando com muito charme as intervenções do personagem principal, ao mesclar seu trabalho com os eventos que vai vivenciando em sua vida pessoal.

O elenco está excepcionalmente bem. Também pudera, essa é um produção fundada em diálogos e boas atuações eram mais do que necessárias para dar tudo certo. Após um hiato de alguns anos aparecendo em filmes apenas medianos o ator Ewan McGregor finalmente volta à boa forma. O personagem que interpreta, Oliver, sem dúvida é um presente para qualquer intérprete. Irônico, levemente deprimido, ele vê o mundo pelos olhos da arte que produz e isso faz toda a diferença no resultado final. Já Christopher Plummer parece também ter tirado a sorte grande. Interpretando o velho Hal ele simplesmente dá show em cena. Ao dar vida a uma pessoa que não precisa mais provar nada à ninguém ele brilha em cena. Não me admira em nada o fato dele ter sido o vencedor do Oscar e ter ganho vários prêmios nas útlimas semanas. Merece. Enfim, "Toda Forma de Amor" é simpático, agradável e muito bem atuado. Nos tempos atuais em que o cinema cada vez mais demonstra sinais de escassez dessas qualidades o filme é mais do que recomendado.

Toda Forma de Amor (Beginners, EUA, 2011) / Direção: Mike Mills / Roteiro: Mike Mills / Elenco: Ewan McGregor, Christopher Plummer e Mélanie Laurent / Sinopse: Oliver (Ewan McGregor) conhece a irreverente e imprevisível Anna (Mélanie Laurent), alguns meses após seu pai Hal Campos (Christopher Plummer) ter falecido. Este novo amor preenche a memória de Oliver com recordações de seu pai, que saiu do armário aos 75 anos, após a morte de sua esposa de 45 anos, para viver uma vida completa.

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.

terça-feira, 16 de março de 2010

O Despertar de Uma Paixão

Jovem médico inglês (Edward Norton) resolve se voluntariar para ir até a distante China onde está ocorrendo uma epidemia de cólera. A viagem tem dois objetivos: estudar o vírus da doença e levar sua esposa (Naomi Watts) para bem longe de Londres onde ele tem um caso extra conjugal com um influente político. "O Despertar de uma Paixão" me lembrou muito de outro filme que segue basicamente a mesma linha: "Entre Dois Amores". Em ambos acompanhamos os problemas de relacionamento entre duas pessoas em uma região exótica ou distante dos grandes centros. Esse tipo de produção atual com estilo de filmes antigos me atrai muito. O fato do roteiro ser baseado em famosa obra literária (de autoria de W. Somerset Maugham) só ajuda a engrandecer ainda mais o resultado final. Gostei de basicamente tudo, do enredo, da trilha sonora e claro da melhor coisa da produção: sua fotografia deslumbrante. O elenco está muito bem. Edward Norton compõe um personagem muito tímido, um cientista que não se dá muito bem com relacionamentos humanos. Sua aproximação com sua futura esposa no começo do filme é complicada pois ele não leva o menor jeito com galanteios. Essa aliás só se casa com ele por pura falta de opção após ser pressionada por seus pais (que abominam a idéia dela continuar solteirona).

O filme foi dirigido pelo cineasta John Curran que não tem nada de muito relevante em sua filmografia. De qualquer forma eu gostei de seu "Homens em Fúria" que apesar de não ter sido um sucesso de público e crítica demonstrou que Curran sabe acima de tudo contar uma boa estória. Se for passada em lugares remotos, com ótimas paisagens de fundo, ainda melhor. Aqui também há um subtexto muito interessante ao mostrar um homem da ciência tentando vencer preconceitos e tradições arcaicas em um lugar distante de tudo e de todos. Em suma, vale a pena assistir esse "O Despertar de Uma Paixão" um filme com jeitão de produção antiga, daquelas que não se fazem mais como antigamente.

O Despertar de uma Paixão (The Painted Veil, EUA, 2006) / Direção: John Curran / Roteiro:Ron Nyswaner, baseado em livro de W. Somerset Maugham / Elenco: Edward Norton, Naomi Watts, Liev Schreiber e Toby Jones / Sinopse: Na década de 1920. Walter Fane (Edward Norton), um médico de classe média alta se casa com Kitty (Naomi Watts). Logo após se mudam para a China onde o marido pretende relaizar pequisas médicas.

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.

segunda-feira, 15 de março de 2010

Nova York Sitiada

Título no Brasil: Nova York Sitiada
Título Original: The Siege
Ano de Produção: 1998
País: Estados Unidos
Estúdio: Twentieth Century Fox
Direção: Edward Zwick
Roteiro: Lawrence Wright
Elenco: Denzel Washington, Bruce Willis, Annette Bening

Sinopse:
Após o rapto pelos militares dos EUA de um líder religioso islâmico, a cidade de Nova Iorque se torna o alvo de crescentes ataques terroristas. Anthony Hubbard (Denzel Washington), o chefe da Força-Tarefa de Combate ao Terrorismo do FBI em Nova York e a agente da CIA Elise Kraft (Annette Bening) se unem para caçar as células terroristas responsáveis ​​pelos ataques. Como os ataques continuam, o governo dos EUA decide declarar a lei marcial, enviando tropas norte-americanas, lideradas pelo general Devereaux (Bruce Willis), para as ruas de Nova York

Comentários:
Rever esse filme hoje em dia chega a ser assustador pois o roteiro de certa forma antecipa muito do que viria a acontecer em Nova Iorque em 2001. A cidade sendo alvo de vários atentados terroristas de proporções inimagináveis. Além do roteiro ter sido profético nesse ponto ainda temos um bom elenco, com atores perfeitamente inseridos em seus personagens. Um exemplo é Denzel Washington, como sempre muito competente em sua caracterização mais intelectual. Como contraponto a ele surge o personagem brutamontes de Bruce Willis, um militar linha dura que não está muito preocupado com agir com cautela, pelo contrário, o que ele pretende mesmo é usar da força e violência de forma irrestrita. Um ótimo filme de ação, muito bem escrito e realizado, que mostrou um cenário de caos para os americanos. Pena que eles próprios não levaram tudo muito a sério, se tivessem previsto aquilo como algo real provavelmente 11 de setembro jamais teria acontecido.

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.

domingo, 14 de março de 2010

O Justiceiro

Título no Brasil: O Justiceiro
Título Original: The Punisher
Ano de Produção: 2004
País: Estados Unidos
Estúdio: Lions Gate Films, Marvel Enterprises
Direção: Jonathan Hensleigh
Roteiro: Jonathan Hensleigh, Michael France
Elenco: Thomas Jane, John Travolta, Ben Foster, Samantha Mathis

Sinopse:
Frank Castel (Thomas Jane) acaba tendo que lidar com a morte de sua esposa e filha. Inconformado pela falta de resultados por parte das autoridades resolve ele mesmo trazer justiça para as ruas da América. Disposto a varrer o crime da sociedade assume a identidade do Justiceiro, para isso porém terá que passar por cima de vilões ricos e poderosos, como o infame Howard Saint (John Travolta), que apesar do nome não tem nada de santo.

Comentários:
Esse personagem de segundo escalão da Marvel ainda não encontrou seu filme definitivo e olha que não foi por falta de tentativas. Embora muitos não gostem devo admitir que até gosto da versão realizada em 1998 com Dolph Lundgren no papel do justiceiro Frank Castle. O problema é que naquela época ainda não havia a moda da transposição dos personagens Marvel para o mundo do cinema. O filme é modesto mas bom, temos que admitir. Já esse aqui contou com um orçamento bem mais generoso, a ponto inclusive de ter um elenco de apoio de luxo com John Travolta brincando de vilão e Ben Foster, ótimo ator, dando uma canja com seu talento. Até achei acertado a escolha de Thomas Jane como o Justiceiro. Ele até pode não ser muito forte fisicamente mas tem cara de durão e poucos amigos, algo conveniente para seu personagem. O filme certamente poderia ter sido bem melhor, com um roteiro mais caprichado e menos apelações em relação aos clichês do gênero mas do jeito que ficou até que não está tão mal, vale a pena dar uma espiada.

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.

sábado, 13 de março de 2010

Quando os Jovens se Tornam Adultos

Assisti Diner há muitos anos. Hoje resolvi assistir de novo. Engraçado mas muitas vezes esquecemos os filmes, mesmo quando gostamos deles. É mais ou menos o que aconteceu comigo em relação a esse filme. Nada como uma revisão para refrescar a memória. O elenco é muito bom com vários atores que estavam quase "chegando lá" (todos eles acabariam fazendo uma ou outra coisa marcante em suas carreiras nos anos que viriam). Dentre eles Steve Gutemberg (creditado como o principal ator do elenco e que estrelaria duas franquias de sucesso, Loucademia de Policia e Cocoon), Kevin Bacon (antes de estourar nas bilheterias com Footloose) e até Paul Reisner (que iria fazer sucesso anos depois na série de TV "Louco por Você").

Embora todos eles sejam talentosos o destaque principal do elenco é mesmo Mickey Rourke. Fazendo um jovem que se mete em apuros por dever a um apostador, Mickey rouba literalmente todas as cenas em que aparece. Com nuances à la James Dean, Rourke (na época apenas um jovem promissor vindo do Actors Studio) faz jus ao seu talento de bom ator. O roteiro é centrado em diálogos bem bolados do grupo de amigos que estão numa fase em que não são mais jovens demais e devem decidir o rumo de suas vidas (o título nacional resume bem a situação). Além disso é semi biográfico por parte do diretor Barry Levinson, que aqui narra histórias de sua juventude na sua querida Baltimore. Enfim, é um filme excelente para quem quiser conferir boas atuações, tudo com leveza e um fino bom humor

Quando os Jovens se Tornam Adultos (Diner, EUA, 1982) / Diretor: Barry Levinson / Produção: Jerry Weintraub / Roteiro: Barry Levinson / Fotografia: Peter Sova / Trilha Sonora: Bruce Brody, Ivan Kral / Elenco: Steve Guttenberg, Daniel Stern, Mickey Rourke, Kevin Bacon, Tim Daly, Ellen Barkin, Paul Reiser, Kathryn Dowling, Michael Tucker / Sinopse: Cinco amigos na década de 50 em Baltimore passam pelas dificuldades e dramas típicos de suas idades.

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.

sexta-feira, 12 de março de 2010

Tiros na Broadway

Título no Brasil: Tiros na Broadway
Título Original: Bullets Over Broadway
Ano de Produção: 1994
País: Estados Unidos
Estúdio: Miramax Films
Direção: Woody Allen
Roteiro: Woody Allen, Douglas McGrath
Elenco: John Cusack, Dianne Wiest, Jack Warden, Chazz Palminteri, Joe Viterelli, Jennifer Tilly, Rob Reiner, Mary-Louise Parker.

Sinopse:
Nova Iorque, década de 1920. O dramaturgo e escritor David Shayne (John Cusack) é um idealista que não aceita vender a dignidade de sua arte. Sem trabalho e passando por dificuldades acaba porém aceitando o financiamento de um gângster valentão para a produção de uma de suas peças. Para isso há uma condição que o escritor terá que aceitar, a escalação da namorada pouco talentosa do chefe criminoso, Olive (Jennifer Tilly), que terá que ganhar um destaque dentro da encenação.

Comentários:
Arranjar um lugar numa peça para alguém sem qualquer talento. Como se isso não fosse um problema e tanto Shayne ainda tem que lidar com o complicado temperamento de sua estrela principal, Helen Sinclair (Dianne Wiest). No meio de tanta confusão todos são surpreendidos ainda pelo improvável talento para a dramaturgia do grandalhão capanga do chefe mafioso, o truculento Cheech (Chazz Palminteri). Um filme muito querido do diretor por seus fãs. Por essa época Woody Allen pareceu ter flertado com o cinemão americano mais comercial. Seus roteiros mais intelectuais, intimistas, interiores, que discutiam questões existenciais foram deixados de lado para dar mais espaço ao humor, aos figurinos luxuosos e à uma produção bem mais trabalhada. Mesmo assim o diretor conseguiu fazer tudo isso sem deixar de lado sua inteligência, além da fina ironia que sempre o caracterizou. Um Allen excelente!.

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.

quinta-feira, 11 de março de 2010

O Selvagem da Motocicleta

Um dos melhores filmes já feitos sobre delinquência juvenil e isso não é pouco já que existem clássicos absolutos sobre o tema (vide O Selvagem, Juventude Transviada e Vidas Amargas, entre outros). Coppola novamente dá show de direção com imagens inovadoras em cada cena (o filme tem tiradas ótimas como os peixes coloridos em um filme totalmente preto e branco e as nuvens marcando a passagem do tempo etc). Embora seja estrelado pelo ídolo dos anos 80, Matt Dillon, quem se destaca mesmo, com uma interpretação a la Actors Studio, é Mickey Rourke.

Interpretando um personagem chamado apenas de "Motorcycle Boy", Rourke desfila todo seu talento, mostrando um jovem sem perspectivas, melancólico, introspectivo e completamente cool. Na época de lançamento do filme foi comparado aos grandes ídolos do passado como Marlon Brando e James Dean. Outro destaque fica com Dennis Hooper, fazendo um pai ausente, com problemas de alcoolismo e totalmente fracassado. Diane Lane, muito jovem e linda, e Nicolas Cage (com vasta cabeleira) completam o talentoso grupo de atores e de quebra demonstram como o tempo muda as pessoas. A trilha sonora é de Stewart Copeland, do The Police, o que traz uma ótima atmosfera própria para o filme.

O Selvagem da Motocicleta (Rumble Fish, EUA, 1983) Diretor: Francis Ford Coppola / Roteiro: Francis Ford Coppola, S. E. Hinton / Trilha Sonora: Stewart Copeland / Elenco: Matt Dillon, Mickey Rourke, Diane Lane, Dennis Hopper, Diana Scarwid, Vincent Spano, William Smith, S. E. Hinton, Sofia Coppola, Chris Penn, Michael Higgins, Nicolas Cage, Tom Waits, Laurence Fishburne / Sinopse: Jovem motoqueiro desiludido (Mickey Rourke) tenta ajudar seu irmão e seu pai após se tornar um ícone dos jovens moradores do local.

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.

quarta-feira, 10 de março de 2010

Cantores do Passado: Dean Martin

Muita gente só conhece Dean Martin de seus filmes ao lado do comediante Jerry Lewis. Certo, esse foi um dos aspectos mais populares da carreira de Dino mas é apenas parte de um todo bem mais especial. O fato é que Dean Martin foi um maravilhoso cantor que gravou canções eternas - que até hoje tocam e são reverenciadas. Martin fez parte de um seleto grupo de intérpretes que marcou época na música americana. Se apresentando ao lado de Frank Sinatra e do Rat Pack (formado ainda por Sammy Davis Jr) o cantor ator fez muito sucesso em Las Vegas sempre se apresentando em temporadas de enorme sucesso. Ele tinha um timbre vocal poderoso mas agradável (algo que sempre me lembrou de Elvis Presley). Ambos eram barítonos talentosos e se destacaram não apenas por suas gravações mas também pela persona que desfilavam fora dos estúdios.

Dean Martin é o que se chamava de um bon vivant nos anos 50 e 60. Amigo do barman nunca largava seu copo de whisky e tinha uma postura relaxada e descontraída que lhe valeu inclusive o carinhoso título de "Mr Cool". Era aquele tipo de pessoa que parecia conquistar seus objetivos sem maior esforço pessoal, tudo na base do "ok, isso pode ser interessante, vamos ver se dá certo". Teve uma carreira vitoriosa não apenas no mundo do disco mas no cinema também. Mesmo após romper sua parceria com Jerry Lewis seguiu em frente estrelando boas produções, seja ao lado do Rat Pack, seja em carreira solo (onde fez ótimos westerns). Musicalmente conseguiu grandes feitos mesmo depois que seu estilo musical ficou rotulado de "careta" pela geração da contra cultura dos anos 60. Um exemplo de sua força foi o maior hit de sua carreira: Em pleno auge da Beatlemania ele conseguiu um feito e tanto tirando os Beatles do primeiro lugar das paradas para ocupar a mesma posição com sua imortal "Everybody Loves Somebody". E depois ainda tirou onda enviando um telegrama para Elvis perguntando ao Rei do Rock: "Viu como se faz?"

Dean Martin sempre foi citado como um amigo de todos do show business. Também era extremamente solidário aos amigos mais próximos. Quando John Kennedy venceu as eleições presidenciais (inclusive com sua ajuda, cantando de graça no palanque de JFK) ele se decepcionou com a atitude de recém eleito presidente que não convidou seu amigo negro, Sammy Davis Jr, para a posse. (Davis era casado com uma branca e por isso Kennedy temia a reação dos sulistas racistas na festa). Em solidariedade ao amigo barrado resolveu também não ir, em protesto. Atitudes como essa demonstravam bem seu caráter pessoal. Seguiu em frente, inclusive com um programa de tv próprio onde quase nunca aparecia para ensaiar (que ele obviamente achava uma perda de tempo!), o que é fácil de entender pois afinal ele era a própria personificação do jeito cool de ser.

Mas como a vida nem sempre é uma festa eterna os anos finais de Mr Cool foram difíceis. Seu adorado filho, que venerava, morreu em um trágico acidente. A tragédia atingiu em cheio o artista que entrou em um processo irreversível de depressão e angústia. Em seus anos finais foi ficando cada vez mais isolado e distante dos amigos. O casamento também acabou depois de longos anos. Martin abandonou a carreira musical e de ator e preferiu uma vida longe dos holofotes. Em seus últimos momentos se limitava a ir em sua cantina preferida comer o mesmo jantar noite após noite. Também não abriu mão do fumo e da bebida que acabaram o levando à morte em 1995. Não importa, o mais precioso em Dean Martin foi preservado: sua ótima voz interpretando lindos standarts da música norte-americana. Isso bastou para o Mr Cool entrar na história.

Pablo Aluísio.

terça-feira, 9 de março de 2010

O Veredito

O Veredito é um dos filmes mais humanos que já assisti. Isso porque ele não é apenas um filme sobre um julgamento que coloca de um lado uma pessoa vitima de negligência médica e do outro instituições ricas e poderosas. Ele é muito mais. O argumento toca em valores como dignidade e respeito ao próximo, mostrando toda a hipocrisia existente em certos setores que deveriam lutar por eles e não combatê-los. A dignidade do advogado vivido brilhantemente por Paul Newman é um dos destaques do roteiro. Todos o rebaixam, todos o humilham, tudo porque ele é um profissional em um momento complicado de sua vida, sem clientes e com problemas de alcoolismo. A postura dele lutando contra tudo e contra todos (mesmo mostrando sua própria fraqueza como ser humano) é uma das coisas mais dignas que já vi no cinema.

Por fim temos a direção de Sidney Lumet, que é maravilhosa. O diretor não apenas mostra mas sugere, insinua. Um exemplo é mostrada numa cena em plena rua onde Newman vem a saber de um fato perturbador através de seu amigo e assistente. Veja que o diálogo não é mostrado na tela, a cena é captada por uma visão do alto, que mostra como somos pequenos diante de situações limites como essa, que afinal podem acontecer com qualquer um de nós. Simplesmente brilhante. Eu sinto falta de filmes assim, que foquem em temas sérios e consistentes e que não vivem de escapismos bobos. Nesse aspecto "O Veredito" é simplesmente uma grande obra prima da história do cinema.

O Veredito (The Veredict, EUA, 1982) / Diretor: Sidney Lumet / Elenco: Paul Newman, James Mason, Charlotte Rampling, Jack Warden / Sinopse: Frank Galvin (Paul Newman), advogado alcoólatra e decadente, vê a chance de recuperar a sua auto-estima quando lhe é dado um caso sobre um erro médico. Mesmo quando uma quantia razoável é oferecida para se chegar a um acordo e o caso não ir a julgamento, ele não concorda e decide enfrentar um poderoso grupo, que é defendido por um renomado e ardiloso advogado.

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.

segunda-feira, 8 de março de 2010

Palavras ao Vento

Muito interessante esse filme. Douglas Sirk tinha fama de dirigir seus filmes com a mão pesada, transformando muitos deles em tremendos dramalhões. Bem, isso não acontece tanto aqui - pelo menos não é dos seus trabalhos mais melodramáticos. O roteiro obviamente traz uma série de intrigas envolvendo traições, amores impossíveis e relações familiares escandalosas. Mesmo com tantos ingredientes pesados achei o resultado final muito bom, nada martirizante. Embora seja estrelado por Rock Hudson no auge de sua popularidade, é fácil constatar que aqui ele levou uma rasteira em cena.

Isso porque ninguém consegue brilhar mais no filme do que o ator Robert Stack. Além de seu personagem ser muito bom (um playboy com problemas de alcoolismo e irresponsável), Stack dá show em todos os momentos em que aparece, ofuscando completamente a estrela de Hudson. Em segundos ele vai da fúria ao arrependimento, da infantilidade à maldade. Confesso que nunca tinha assistido nada dele nesse nível. Aliás o conhecia mais pelo papel de Eliot Ness no seriado televisivo "Os Intocáveis" (que passou há muitos anos nos domingos à noite na Globo). Aqui Stack mostra que realmente era ótimo em cena, pois seu personagem em nada lembra o famoso policial que o tornou famoso. Por fim mais uma coisa me fez gostar muito de "Palavras ao Vento": seu maravilhoso clima vintage. Filmado em plenos anos 50 (minha década preferida), o filme desfila em sua bela produção grandes carrões, ótimos figurinos e até jukeboxes que são a cara dos 50´s, tudo o que eu definitivamente adoro. Então é isso, para quem gosta de clássicos dramáticos "Palavras ao Vento" é uma ótima opção.

Palavras ao Vento (Written on the Wind, EUA, 1956) Direção: Douglas Sirk / Elenco: Rock Hudson, Robert Stack, Lauren Bacall, Dorothy Malone / Sinopse: Em “Palavras ao Vento”, o cineasta Douglas Sirk tece um quadrado amoroso entre quatro pessoas ligadas a uma família milionária do ramo do petróleo. Dois são integrantes da família Hadley: Kyle (Robert Stack) é um playboy alcoólatra, e Marylee (Dorothy Malone), uma ninfomaníaca. Marylee ama Mitch Wayne (Rock Hudson), espécie de filho adotivo da família, e o homem que toca os negócios da empresa. Ele é o protótipo do homem perfeito: bonito, respeitoso, inteligente e sincero.

Texas, década de 1950. Uma poderosa família, dona de poços de petróleo da região, enfrenta todos os tipos de problemas familiares. Kyle Hadley (Robert Stack) é um sujeito irresponsável, com problemas de alcoolismo, sempre se envolvendo em situações constrangedoras para sua família. Lucy Moore Hadley (Lauren Bacall) é uma mulher indecisa, com muitos problemas emocionais. Já Mitch Wayne (Rock Hudson) é um jovem comprometido com seu trabalho, desejando subir na vida. Filme vencedor do Oscar na categoria de Melhor Atriz Coadjuvante (Dorothy Malone). Também indicado na categoria de Melhor Ator Coadjuvante (Robert Stack) e Melhor Música ("Written on the Wind" de Victor Young).

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.

domingo, 7 de março de 2010

O Mercador de Almas

Em "O Mercador de Almas" temos várias características que fizeram o cinema americano se tornar o melhor do mundo durante a década de 1950 . O elenco é fenomenal. Além de Paul Newman em ótima forma (tanto do ponto de vista de talento como de presença) temos um personagem à prova de falhas interpretado pelo, ora vejam só, mito do cinema Orson Welles. Nem precisa dizer que ele é realmente a alma de todo o filme. Gorducho, malvado, esbanjando rabugice em cada cena, Welles toma conta de tudo, literalmente. Com filmes como esse percebemos que além de grande cineasta ele também era um ator fantástico. Sua voz de trovão ecoa em cada cena, fazendo os atores que contracenaram com ele sumirem lentamente.

Em termos de roteiro e argumento o filme se parece bastante com outro clássico da filmografia de Newman, "Gata em Teto de Zinco Quente". Esse, assim como aquele, também é ambientado numa típica fazenda do Sul dos EUA. O enredo também gira em torno dos filhos de um rico fazendeiro, seus problemas familiares e as complicações cotidianas dessas famílias. Para completar o "Mercador de Almas" também é inspirado na obra de um grande autor, a novela "The Hamlet" de William Faulkner. A única diferença mais nítida é que "Gata em Teto de Zinco Quente" é bem mais teatral do que esse, mas fora isso são extremamente parecidos. De qualquer forma uma coisa é certa: Ambos os filmes são fundados em excelentes diálogos e interpretações inspiradas. Por essa época Paul Newman havia se tornado um dos grandes atores do cinema, mostrando de forma excepcional que passava muito longe do rótulo vazio de galã, muito pelo contrário, Newman estava sempre se arriscando em personagens com muita profundidade psicológica, complexos, muitas vezes anti-heróis, crápulas, sem o menor remorso moral. Nesse "Mercador de Almas" ele novamente encontra um papel à sua altura. Uma obra cinematográfica do mais alto nível que merece ser redescoberta.

O Mercador de Almas (The Long Hot Summer, EUA, 1958) / Direção: Martin Ritt / Elenco: Paul Newman, Joanne Woodward, Anthony Franciosa, Orson Welles, Lee Remick / Sinopse: Ben Quick (Paul Newman) deixa uma cidade após suspeitarem, sem provas, que é um incendiário. Ele põe o pé na estrada e consegue carona com Eula Varner (Lee Remick) e Clara Varner (Joanne Woodward). Eula é casada com Jody Varner (Anthony Franciosa), cujo pai, Will Varner (Orson Welles), é "dono" de Frenchman's Bend, uma pequena cidade do Mississipi. Já Clara, a filha solteira de Will, trabalha como professora. Ben se estabelece lá e logo consegue uma ascensão meteórica, indo morar na casa do seu patrão, Will. Ele se torna um sério candidato para casar-se com Clara, pois Will não tolera a idéia que ela não lhe deixe herdeiros.

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.

sábado, 6 de março de 2010

Almas Maculadas

Jornalista (Rock Hudson) resolve escrever uma matéria sobre um veterano da II Guerra Mundial, piloto condecorado (Robert Stack) que para sobreviver no pós guerra tem que se apresentar em parques de diversões em exibições aéreas onde faz acrobacias e disputa acirradas corridas com outros aviadores. "Almas Maculadas" é baseado em famoso livro do consagrado William Faulkner. Quem conhece a obra desse famoso escritor sabe o que encontrará em suas estórias: personagens marginais, à margem dos ricos e bem sucedidos, tentando sobreviver dentro do selvagem capitalismo americano. São seres que vivem um dia após o outro, sem grandes esperanças de que algo realmente vá melhorar em suas vidas. Isso se repete na trupe que vive ao lado do veterano aviador, sua esposa, a sensual e bonita LaVern Shummann (interpretada pela linda Dorothy Malone) e o fiel mecânico Jiggs (feito pelo bom ator Jack Carson).

A produção é estrelada por Rock Hudson, naquela altura já com status de super astro (tinha feito há pouco o grande sucesso "Assim Caminha a Humanidade"). Ele comparece com sua habitual boa presença em cena mas aos poucos vê seu personagem perdendo espaço para LaVern, a esposa do piloto veterano. Curioso mas a estrutura do livro foi realmente criada em torno dessa mulher, seus dramas, sua paixão não correspondida e a luta pela sobrevivência no dia a dia. Robert Stack que havia estado tão bem em "Palavras ao Vento" aqui perde espaço até porque seu personagem é antipático e nada carismático. A direção do grande Douglas Sirk se revela novamente bem sucedida ao lado de seu galã preferido, Rock Hudson. Aliás esse filme seria o último ao lado de Rock, o que realmente é de se lamentar. No saldo final adorei o resultado pois a melancolia e a desesperanças que vemos em cena é bastante fiel ao texto de Faulkner. Em essência é mais uma boa produção da filmografia do ator Rock Hudson.

Almas Maculadas (The Tarnished Angels, EUA, 1958) / Diretor: Douglas Sirk / Escritores: William Faulkner (romance) e George Zuckerman (roteiro) / Com Rock Hudson, Robert Stack, Doroth Malone e Jack Carson / Sinopse: Jornalista (Rock Hudson) resolve escrever uma matéria sobre um veterano da II Guerra Mundial, piloto condecorado (Robert Stack) que para sobreviver no pós guerra tem que se apresentar em parques de diversões em exibições aéreas onde faz acrobacias e disputa acirradas corridas com outros aviadores.

Pablo Aluísio e Júlio Abreu. 

sexta-feira, 5 de março de 2010

O Que Terá Acontecido a Baby Jane?

O que se pode dizer ainda desse clássico absoluto? Pouca coisa. O fato é que o filme recebeu esse título de obra prima merecidamente. A dupla central de atrizes literalmente levam o filme nas costas. Embora Joan Crawford esteja muito bem, principalmente nas cenas em que relembra seu passado glorioso há muito perdido, é Bette Davis quem brilha. Levando sua atuação a um novo patamar Davis literalmente encarna a estranha personagem Baby Jane Hudson, uma antiga atriz fracassada corroída pela inveja de sua irmã Blanche. Interessante notar que vem de longe a tragédia que envolve astros mirins como vemos no argumento desse filme.

Em ternos de elenco de apoio quem está muito bem é o ator Victor Buono. Fazendo o papel de um adulto com mentalidade de guri que ainda mora com a mãe, o obeso personagem dá um toque a mais de melancolia a um argumento já bem servido disso. Por fim a direção de Robert Aldrich é de excelente nível técnico pois ele nem transforma o filme em um teatro filmado e nem tampouco deixa toda a situação cair na monotonia. Isso fica bem claro pois embora seja um pouco acima da média em sua metragem o filme não deixa a peteca cair deixando o espectador sempre interessado no desenlace das situações. Enfim, um belo clássico que merece sempre ser revisto.

O Que Terá Acontecido a Baby Jane? (What Ever Happened to Baby Jane?, EUA, 1962) / Direção: Robert Aldrich / Elenco: Bette Davis, Joan Crawford, Victor Buono, Maidie Norman / Sinopse: Baby Jane Hudson era uma criança-prodígio que fazia o maior sucesso cantando e dançando mas, ao crescer, foi esquecida e sua irmã Blanche se tornou mais famosa que ela. Contudo, Blanche sofre um acidente , fica paraplégica e vai morar com a irmã que cuidará dela.

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.

quinta-feira, 4 de março de 2010

Quem Tem Medo de Virginia Woolf?

Casal de meia idade decide receber um casal amigo em sua casa. A esposa interpretada por Elizabeth Taylor (em ótima caracterização) logo se excede na bebida. Em pouco tempo começa a ofender e destruir a imagem e auto estima de seu marido (Richard Burton, soberbo) o qualificando como um miserável, um derrotado e fracassado na vida. Logo a briga matrimonial foge totalmente do controle. O que posso dizer? Belo filme. Aqui o que importa mesmo é atuação do grande casal Elizabeth Taylor e Richard Burton. Basicamente tudo se passa em apenas uma noite, sendo explorada apenas uma situação. O problema básico é que os personagens em cena estão completamente embriagados e como sabemos quando a bebida sobe à cabeça as amarras sociais descem ladeira abaixo. Assim o que parecia ser apenas um tedioso encontro social vira uma verdadeira carnificina psicológica entre os presentes. Tudo é passado a limpo, desde segredos reveladoras a frustrações pessoais e profissionais. O argumento forte capta o momento de falência de um casamento quando a esposa transforma o marido em mero saco de pancadas, jogando todas as suas raivas reprimidas em cima dele de uma só vez.

Do elenco o destaque absoluto é mesmo Elizabeth Taylor como Martha. Muita gente não dá o devido valor a Liz Taylor e geralmente usa seu estigma de estrela de Hollywood para rebaixar seu talento. Sempre fui contra essa visão preconceituosa em relação a ela, pois a considero uma das melhores atrizes da história do cinema americano (sendo estrela ou não). Aqui nesse filme provavelmente ela entrega sua melhor interpretação ao lado do maridão Burton (que vira quase uma escada para ela mas é salvo por outra brilhante atuação). Liz é intensa, visceral e não mede consequências. Engordou e se enfeou propositalmente para tornar sua personagem (uma dona de casa frustrada) mais verossímil. Richard Burton também se despiu de sua vaidade natural e imagem de galã viril para encarnar um pobre diabo que não consegue mais lidar com o inferno que sua vida se tornou. O mais curioso é que o casal real também se envolvia em bebedeiras homéricas e brigas públicas, o que provavelmente facilitou e muito em cena. Mas isso não tira seus méritos. Virginia Woolf é isso, excessivo, pesado, com cara de teatro filmado, mas que no final das contas se revela um filme simplesmente brilhante. Para quem gosta de grandes atuações é um prato cheio! Sirva-se à vontade.

Quem Tem Medo de Virginia Woolf? (Who's Afraid of Virginia Woolf?, EUA, 1966) / Direção: Mike Nichols / Roteiro: Ernest Lehman / Elenco: Elizabeth Taylor, Richard Burton, George Segal e Sandy Denni / Sinopse: Casal se envolve em séria briga matrimonial durante uma noite de bebedeiras e desaforos. Ela o culpa pelo fracasso financeiro e social do casal. Ele tenta sair da situação de qualquer maneira. Como diria Sartre "O Inferno Somos Nós". Filme vencedor do Oscar nas categorias de Melhor Atriz (Elizabeth Taylor), Melhor Atriz Coadjuvante (Sandy Dennis), Melhor Fotografia - preto e branco (Haskell Wexler), Melhor Direção de Arte (Richard Sylbert e George James Hopkins) e Melhor Figurino (Irene Sharaff). Também indicado ao Oscar de Melhor Filme, Direção, Ator (Richard Burton), Ator Coadjuvante (George Segal), Roteiro Adaptado (Ernest Lehman), Som, Edição e Música. Filme vencedor do BAFTA Awards nas categorias de Melhor Atriz (Elizabeth Taylor), Ator (Richard Burton) e Direção (Mike Nichols).

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.

quarta-feira, 3 de março de 2010

O Doce Pássaro da Juventude

Mais uma brilhante adaptação de um texto de Tennessee Williams. Aqui somos apresentados ao casal formado por Chance Wayne (Paul Newman) e Alexandra Del Lago (Geraldine Page). Eles chegam numa pequena cidade chamada St Cloud e se hospedam num hotel barato. Ela está totalmente embriagada e ele a trata publicamente como uma princesa estrangeira. No decorrer do filme vamos entendendo aos poucos quem realmente são e porque estão ali. A trama é tecida gradativamente, em camadas, com uso extremamente inteligente de flashbacks contando todo o passado deles - que serve para situar o espectador. Nem é preciso dizer que o roteiro tem excelentes diálogos e é excepcionalmente bem interpretado por Newman (em grande forma) e Page (maravilhosa em cena, conseguindo imprimir em sua personagem doses exatas de sensibilidade, humanidade e crueldade psicológica).

Na realidade o texto tem um tema central: A extrema dificuldade que certas pessoas possuem em lidar com o fim da juventude e de encarar os fracassos pessoais. Alexandra Del Lago (Page) retrata muito bem isso. Uma antiga diva do cinema que vê seu mundo desmoronar após perder o encanto e a jovialidade. Já Chance (Newman) é muito mais interessante. Correndo atrás de um sonho que jamais se realizará ele vê seus anos (e sua juventude) passarem em branco, sem conseguir tornar realidade os objetivos que ele próprio determinou a si mesmo. O texto é um dos melhores de Williams, embora não seja tão pesado como o que vimos em outras obras dele como "Gata em Teto de Zinco Quente". Além disso "O Doce Pássaro da Juventude" tem mais clima de cinema, deixando o aspecto teatral da obra original em segundo plano. Enfim, gostei muito e recomendo bastante. Obra prima.

O Doce Pássaro da Juventude (Sweet Bird of Youth, EUA, 1963) / Direção: Richard Brooks / Com: Paul Newman, Geraldine Page, Shirley Knight e Ed Begley./ Sinopse: Chance Wayne (Paul Newman) volta à sua cidade-natal, após muitos anos tentando fazer filmes. Com ele está uma decadente estrela de cinema, Alexandra Del Lago (Geraldine Page). Enquanto tenta obter ajuda para fazer um teste de cinema, Chance acha tempo para rever sua ex-namorada, Heavenly (Shirley Knight), a filha do político Tom Finley (Ed Begley), que mais ou menos o forçou a deixar a cidade há muitos anos atrás. Filme vencedor do Oscar na categoria de Melhor Ator Coadjuvante (Ed Begley). Também vencedor do Globo de Ouro na categoria de Melhor Atriz - Drama (Geraldine Page).

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.

terça-feira, 2 de março de 2010

Filmografia Comentada: Errol Flynn

Errol Flynn foi um dos grandes astros da Warner na década de 30 e 40. Estrelou grandes produções e sucessos absolutos de bilheteria como "Robin Hood", "Capitão Blood" e "Carga da Brigada Ligeira". Flynn também foi uma das primeiras celebridades envolvidas em escândalos e confusões em Hollywood. Farrista, exagerava nas festas cheias de mulheres, drogas e excessos de todos os tipos. Aventureiro na vida real (era marinheiro antes de virar estrela de cinema) Flynn entrou na história do cinema. Segue comentários de filmes abaixo.

A Estrada de Santa Fé
Esse filme me deixou de orelhas em pé. Depois de assistir fiquei com sérias dúvidas sobre quais seriam suas verdadeiras intenções. O roteiro é muito dúbio e pra falar a verdade mal intencionado. Para começo de conversa os vilões do filme são todos abolicionistas. Isso mesmo, John Brown (líder abolicionista da história americana) é retratado aqui como um maníaco, fanático religioso e surtado! Os que lutam ao seu lado pelo fim da escravidão nos EUA são todos assassinos sanguinários! Enquanto isso os mocinhos são representados pelos personagens de Errol Flynn (fazendo o papel do jovem cadete sulista de nome Jeb Stuart) e por Ronald Reagan, isso mesmo o futuro presidente dos EUA, no papel de ora vejam só, George Custer! Ele mesmo o famoso general americano da sétima cavalaria que foi morto por Touro Sentado anos depois! Talvez Jack Warner, o produtor, fosse racista. Só isso explica diálogos que me deixaram abismados como quando o personagem de Errol Flynn briga com outro cadete por este estar lendo um manifesto pelo fim da escravidão! Em outra cena um casal de negros dizem que "não querem a liberdade de John Brown" e preferem voltar para sua antiga casa, no sul dos EUA! Ora, lá na sul os negros ainda eram escravos e viviam acorrentados! Quem em sã consciência vai acreditar em uma coisa dessas?! É claro que soa absurdo. Agora, deixando tudo isso de lado, não há como negar que é uma excelente produção com muita ação e cenas de batalhas bem feitas. Pena que o roteiro seja tão maniqueísta e escroto. Detalhe: A morte de John Brown, o abolicionista, acabou sendo o estopim da guerra civil americana! Quem diria...

A Carga da Brigada Ligeira
Produção da década de 1930 que mostra com muita eficência um dos fatos mais marcantes da história militar inglesa. O filme é de 1936 mas tem um roteiro tão bom, uma produção tão bem feita que nem parece que tem mais de sete décadas de existência. O argumento é baseado em fatos históricos: a história do regimento 27 de lanceiros do exército britânico na Índia. Durante uma invasão a um forte guarnecido pela companhia, um líder tribal local promoveu uma verdadeira chacina matando mulheres e crianças. Em represália o jovem Major Geoffrey Vickers (Errol Flynn) resolve por conta própria e em desrespeito a uma ordem direta atacar as tropas russas e do Khan para vingar a morte daquelas pessoas. A história real foi trágica e culminou na morte de vários soldados mas o roteiro, como era de se esperar, não trata do assunto como um erro de guerra mas como um ato de bravura desses militares. O debate sobre o valor ou desvalor desse ato segue em discussão até os dias de hoje. Até que ponto um oficial pode ignorar ordens superiores mesmo que baseado em um correto senso de justiça? O elenco é liderado pelo astro da época, Errol Flynn. Lembrando certos momentos de filmes anteriores seus o ator consegue trazer credibilidade ao papel. Como era um galã o roteiro traz o seu inevitável interesse romântico contando novamente com Olivia de Havilland. O diferencial é que aqui ela é disputada por Flynn e seu irmão, um agente da diplomacia inglesa. David Niven também está no filme mas em um papel tão apagado que fiquei com pena pois o seu personagem é totalmente secundário e coadjuvante. Em suma, "A Carga da Brigada Ligeira" ainda é um excelente filme e mostra que é possível mesclar eventos reais históricos com ficção sem perder a qualidade e o interesse. Recomendo com certeza!

O Intrépido General Custer
Quando resolvi assistir esse filme fui com o pensamento de que veria uma produção muito bem realizada, historicamente incorreta mas que no final das contas tinha tudo para ser um bom western estrelado pelo ídolo Errol Flynn. Acertei bem no alvo! O título em inglês é uma expressão popular no exército que se refere aos soldados mortos em serviço, no campo de batalha - em suas botas (They Died with Their Boots On). Pois bem, a primeira parte do filme é um pouco melosa e com toques de humor em excesso, algo que eu realmente não esperava nesse tipo de produção. Essa parte inicial tem muito mais a ver com o estilo bonachão do Flynn do que com a biografia do general Custer. Já dos sessenta minutos em diante o filme cresce muito (são duas horas e meia de duração). Custer se torna um general e vai para o oeste lutar nas chamadas guerras indígenas. O filme aqui se torna mais sério, com roteiro muito bem estruturado e com um final muito bem realizado, inclusive do ponto de vista histórico (os tropeços em termos de história ocorrem quase todos na primeira parte do filme). O elenco de apoio traz a gordinha Olivia de Havilland fazendo mais uma vez o interesse romântico de Flynn e Charley Grapewin no papel de "California Joe", um dos melhores personagens do filme, aqui na pele de um excepcional ator, ótimo mesmo. De resto o filme faz jus à fama do diretor Raoul Walsh, sempre muito competente.

Capitão Blood
O Médico Peter Blood (Errol Flynn) é confundido com rebeldes durante o reinado de Jaime II da Inglaterra. Como punição é enviado como escravo para trabalhos forçados na nova colônia britânica de Port Royal na América. Chegando lá lidera uma revolta de cativos como ele e juntos acabam tomando posse de um navio de guerra imperial. Em pouco tempo Blood e sua tripulação se transformam nos mais famosos piratas do Caribe de sua época. "Capitão Blood" foi o filme que transformou Errol Flynn em astro. Na época ele era apenas um promissor ator que a Warner apostava suas fichas. Com histórico de muitas aventuras em seu passado, Flynn havia sido marinheiro e veio da Austrália cruzando os sete mares como seu personagem. Tinha bom visual, pose de galã e sabia lutar bem de espada. Com tantos requisitos era óbvio que Blood parecia ter sido escrito especialmente para ele. Além de ser seu primeiro filme de repercussão "Capitão Blood" acabou definindo de forma definitiva a persona de Errol Flynn pelo resto de sua carreira. O pirata boa praça, sempre com um sorriso nos lábios, galante e aventureiro iria ser repetido em praticamente todas as atuações de Errol em sua filmografia dali pra frente. De fato virou sua marca registrada. A produção foi a menina dos olhos dos estúdios Warner na época de seu lançamento. Enormes sets de filmagens foram construídos, figurinos de luxo e um dos melhores diretores do mercado, o veterano Michael Curtiz, foi especialmente contratado para levar o pirata aventureiro para as telas. Tudo foi planejado e concebido para que "Capitão Blood" fosse não apenas um filme mas um evento cinematográfico. O resultado até hoje impressiona, mesmo após tantos anos de sua conclusão. Os cenários que simulam as antigas naus do século XVII são extremamente bem feitos - em ótima reconstituição histórica. O curioso é que "Capitão Blood" foi idealizado para reviver os antigos filmes de Douglas Fairbanks Jr, mas ao mesmo tempo em que foi influenciado acabou sendo uma das obras mais influenciadores da história do cinema uma vez que até hoje seu estilo é imitado à exaustão - vide a extremamente bem sucedida franquia "Piratas do Caribe" que bebe diretamente de sua fonte. Enfim é isso, um dos marcos do cinema de ação e aventura de Hollywood que conseguiu resistir até mesmo ao mais implacável inimigo das telas, o tempo.

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.

segunda-feira, 1 de março de 2010

Filmografia Comentada: Tony Curtis

Tony Curtis surgiu na Universal. Da mesma safra de atores como Rock Hudson e Jeffrey Chandler. De origem humilde o ator logo alcançou sucesso em comédias leves e sofisticadas. Seu jeito de baby face se mostrou irresistível para o público feminino. Ao lado de Marilyn Monroe estrelou "Quanto Mais Quente Melhor", considerado por muitos a melhor comédia de todos os tempos. Como todo galã sentiu o peso da idade. Conforme foi ficando mais velho os personagens também foram rareando. Nunca foi reconhecido com prêmios da Academia mas é inegável o fato de que seu carisma marcou bastante o cinema americano dos anos 50 e 60. Segue comentários sobre alguns de seus filmes.

A Embriaguez do Sucesso
É incrível descobrir que um filme como esse foi feito em 1957. Isso porque não era tão comum ver um roteiro assim, tão ácido e mórbido naquela época. Os dois atores principais em cena, Tony Curtis e Burt Lancaster, dão show de interpretação. Curtis, visto apenas como um galã da Universal pelos críticos, aqui apresenta um de seus melhores trabalhos. Está literalmente fantástico como o crápula, mentiroso, cafetão, escroque e 171 Sidney Falco. Confesso que nunca vi uma atuação dele tão boa como essa. É uma pena que Curtis não tenha se desenvolvido mais como ator dramático. Ele de certa forma se acomodou em sua imagem de galã de comédias românticas, principalmente a partir do começo da década de 60 e com vários problemas que foram surgindo ao longo dos anos (como vício em drogas) simplesmente deixou a carreira em segundo plano. Se tivesse procurado se desenvolver melhor na arte da atuação teria sido um grande nome na história de Hollywood. Já Lancaster também está excelente fazendo um verdadeiro psicopata frio, cheio de si e com uma indisfarçável paixão incestuosa por sua irmã (na pela de uma atriz fraquinha mas bonita, Susan Harrison). Muitos criticam Lancaster afirmando que ele era um ator de uma nota só (sempre atlético e com um sorriso montado no rosto). Eu não concordo inteiramente com essa opinião. Realmente em algumas produções Lancaster se apoiou em sua imagem como muleta mas nem sempre isso aconteceu. Basta lembrar do famoso (e ótimo) "O Homem de Alcatraz". Nesse "A Embriaguez do Sucesso" o ator tem uma de suas melhores interpretações. A persona que tanto utilizou em outros filmes aqui está ausente, felizmente. Outro destaque de "Sweet Smell Of Sucess" é a forma que o diretor encontrou para contar sua estória. São ótimas tomadas de cena feitas em locação na cidade de Nova Iorque. Nos anos 50 era comum que os filmes fossem feitos em Hollywood dentro dos estúdios, geralmente com o uso de back projection (os atores atuavam na frente de uma grande tela onde o cenário da locação da cena previamente filmado era exibido). Aqui não, é fácil ver que tudo foi realmente filmado nas ruas da cidade, sem uso e artifícios como esse. Tudo combina, a sordidez da trama, a direção segura, a ótima fotografia em preto e branco e os diálogos (alguns dos melhores que já vi). Para quem gosta de filmes clássicos, com tramas envolventes e clima noir, "Embriaguez do Sucesso" é uma ótima opção.

Anáguas a Bordo
Oficial da Marinha Americana (Cary Grant) é designado para comandar velho submarino precisando de reparos. Como o sistema de provisões da marinha americana não funciona de forma adequada ele tem que contar com os inúmeros cambalachos do tenente Holden (Tony Curtis) que providencia tudo que a velha lata de sardinha do mar precisa para voltar a funcionar de forma eficiente. É uma comédia típica do final dos anos 50, tudo muito inofensivo e sem maiores consequências. O roteiro ainda aproveita para explorar o fato do submarino resgatar várias mulheres da Marinha que se encontravam à deriva numa ilha do pacífico. Obviamente que existem muitas e muitas piadinhas que envolvem a chamada guerra dos sexos (os marinheiros há muito tempo sozinhos no mar não perdem a chance de dar em cima das garotas). Cary Grant é o comandante do navio que chega inclusive a ser pintado de cor de rosa por falta de uma tinta de cor adequada. Já Tony Curtis desfila seu papel típico - o sujeito boa pinta, levemente cafajeste que dá em cima de todas e nas horas vagas surrupia algum objeto de propriedade da Marinha americana para consertar o submarino Sea Tiger. "Anáguas a Bordo" não é uma comédia de dar gargalhadas. Claro que o bom humor está presente em várias cenas mas de maneira em geral nada desbanca para o pastelão ou algo parecido. O diretor Blake Edwards está bem contido e muito longe de alguns de seus futuros trabalhos onde ele assumidamente adotaria uma postura exagerada, cartunesca mesmo. Aqui o humor é de pequenos sorrisinhos e não de tortas na cara dos personagens (como ele inclusive faria em futuras parcerias com Tony Curtis). Enfim, vale a pena conhecer esse que foi um dos maiores clássicos da "Sessão da Tarde" nos anos 70 e 80.

O Homem que Odiava as Mulheres
O interessante nesse "O Homem que Odiava as Mulheres" é que ele foi feito ainda no calor dos acontecimentos, o serial killer tinha acabado de ser preso e ainda nem havia ido a julgamento. Havia todo um debate se ele era ou não mentalmente capaz de ir para o tribunal do juri por seus crimes. Curioso é que assisti também um filme feito recentemente sobre o mesmo caso. Hoje, por exemplo, há sérias dúvidas se o homem que foi preso pela policia era o verdadeiro assassino. Muito se especula e grande parte dos especialistas entendem que Albert de Salvo foi apenas um bode expiatório arranjado pelo departamento de policia para aliviar a pressão popular sobre ela. No filme isso não aparece. Ele é mostrado como o serial killer, indiscutivelmente. Na verdade o verdadeiro assassino se beneficiou diretamente desse filme pois ganhou muito com os lucros do uso de sua história. Isso indignou tanto os familiares que foi aprovada uma lei depois proibindo esse tipo de comercialização sobre crimes violentos. Deixando esses detalhes de lado é bom deixar claro que apesar de ser estrelado por Tony Curtis o filme é todo de Henry Fonda, trazendo uma dignidade enorme ao seu papel (ele faz o chefe da operação de caça ao criminoso). Grande ator prova todo seu grande talento. Nas cenas de interrogatório fica claro a diferença de grandeza entre ele e Tony Curtis, que apesar do esforço não consegue ficar à altura do papel. Nas cenas em que aparece perturbado mentalmente sua falta de preparo aparece nitidamente. Sinceramente não deu para o Curtis. Nas mãos de um grande ator roubaria o filme de Fonda, como isso não acontece só resta ao veterano ator dominar completamente a cena.

Boeing Boeing
Muito divertida essa comédia "Boeing Boeing". Fiquei curioso em assistir após ler uma entrevista do Quentin Tarantino em que ele dizia que esse era um de seus filmes preferidos. Realmente vendo o filme dá para entender o porquê. "Boeing Boeing" é totalmente apoiado em diálogos e em situações inusitadas. Não há como negar também sua origem teatral. O filme é quase todo passado dentro do apartamento de Bernard (Tony Curtis) um jornalista que é noivo ao mesmo tempo de três aeromoças (uma francesa, uma inglesa e uma alemã). Assim ele tenta organizar sua agenda de forma que quando está com uma delas as outras estejam viajando pelo mundo. Não é difícil descobrir que o filme vai se apoiar na confusão que surge quando as 3 chegam ao mesmo tempo em seu apartamento. Uma das coisas mais curiosas desse filme é a presença de Jerry Lewis. Aqui ele deixa seus personagens amalucados de lado para interpretar um jornalista amigo de Curtis que sem querer acaba parando no meio da confusão ao se hospedar no apartamento do amigo. Então está armada a confusão com muitos encontros e desencontros entre todos. Outro destaque do elenco que não poderia deixar passar em branco é a presença muito carismática de Thelma Ritter no papel de Bertha, a empregada de Tony Curtis que se vê quase enlouquecida no troca troca de noivas, pois quando uma vai, a outra vem. O filme poderia até ser mais enxuto (um corte de uns bons 20 minutos ajudaria muito em seu ritmo) mas do jeito que está não ficou mal. O roteiro é esperto e ágil e não decepciona aos que gostam de peças teatrais de humor. Arrisque e veja "Boeing Boeing", você pode até mesmo se divertir como eu me diverti.

Kansas Raiders
O Audie Murphy foi o soldado americano mais condecorado da II Guerra Mundial. Quando a guerra acabou ele voltou para os EUA e começou uma carreira como ator. Aproveitando a onda de patriotismo ele foi estrelando um western atrás do outro. Os filmes de faroeste do Audie Murphy eram quase sempre produções B da Universal. Ele próprio nunca se levou muito à sério e quando encerrou sua carreira disse em tom de brincadeira: "Fiz dezenas de faroestes em Hollywood e eles eram todos iguais, só mudavam os cavalos". Na época não se dava muita bola para seus filmes, é verdade, mas ultimamente os fãs de western tem reconhecido melhor essas produções. Um exemplo é esse Kansas Raiders (que no Brasil ganhou o péssimo título de "Os Cavaleiros da Bandeira Negra"). O filme é um típico produto de Audie Murphy. Produção modesta, roteiro simples e tramas ligeiras - para se passar nas matinês para a garotada. Dificilmente os filmes tinham mais de 70 minutos. O curioso é que mesmo quando ele interpretava bandidos lendários do velho oeste, como Jesse James, Audie soava como o mocinho. Eu pessoalmente nunca fui muito fá dele, devo confessar, pois sempre o achei um ator muito limitado, com um rosto muito comum e além do mais pouco masculino (ele tinha cara de babyface pra falar a verdade). Ele também nunca criou um estilo próprio de caracterização- falando a verdade ele apenas enganava bem em cena. Além disso muitos de seus filmes eram adaptações de livros de bolso que eram muito populares nos anos 50. Nesses livrinhos todos os personagens eram bem romantizados, como bem se percebe aqui nesse filme. Apesar disso, pelo sucesso que alcançou e pela longa filmografia que acabou estrelando, os faroestes com Audie Murphy merecem passar por uma revisão. Não são de todos ruins e no fundo divertem, com clima de nostalgia. PS: Esse filme tem uma curiosidade, interpretando um dos bandidos do bando de Jesse James temos Tony Curtis, bem jovem, e com duas linhas de diálogos para falar. rs.

Winchester 73
Roteiro e argumento: Uma das melhores coisas de Winchester 73. Sem exagero posso dizer que o roteiro desse filme lembra muito os roteiros de Robert Altman. Várias histórias vão sendo mostradas e aos poucos todas convergem para o mesmo local. O roteiro na verdade segue o rifle Winchester 73 que vai passando de mão em mão ao longo do filme. Ganha por James Stewart em um concurso em Dodge City (onde até Wyatt Earp aparece como coadjuvante) o rifle acaba sendo roubado indo parar nas mãos de um grupo Sioux, da cavalaria, de um covarde etc. Tudo muito bem escrito, me deixou surpreso. / Produção: A Universal era conhecida por realizar vários faroestes B mas aqui caprichou um pouco mais na produção. Isso porque contava com o astro James Stewart como estrela do filme (ele tinha rompido com seu estúdio anterior e tinha virado ator freelancer). Assim tendo em vista o potencial das bilheterias com sua presença a Universal investiu bem mais resultando numa produção caprichada. / Direção: Anthony Mann foi para James Stewart o que John Ford foi para John Wayne, ou seja, uma bela parceria se firmou entre ambos ao longo dos anos. Aqui a sintonia da dupla funciona novamente. Mann, com mão firme, não deixa o filme em nenhum momento cair na banalidade. Excelente trabalho de direção. / Elenco: James Stewart repete seu tradicional papel de homem íntegro e honesto. Para falar a verdade ele não precisava de muito mais do que isso. Sempre carismático e correto, Stewart lidera um elenco acima da média. O mais curioso aqui é a presença de dois jovens atores que iriam virar grandes astros nos anos que viriam: Rock Hudson e Tony Curtis. O primeiro está quase irreconhecível como um chefe Sioux (de peruca e pintado quase não reconheci Rock). Já Curtis, muito muito jovem faz um soldado da cavalaria no meio de um cerco indígena. Muito legal ver esses atores novatos tentando um lugar ao sol.

Trapézio
Em 1956 Tony Curtis era apenas mais um galã de segunda linha que não conseguia emplacar em bons papéis. Geralmente estrelava os chamados filmes B das mil e uma noites dos estúdios Universal - filmes de capa e espada que eram feitos especialmente para as matinês dos cinemas. Já estava com oito anos de carreira nas costas quando a primeira oportunidade real bateu à sua porta. O ator Burt Lancaster estava procurando um partner para filmar ao seu lado uma adaptação da novela Trapézio. O filme contaria a estória de dois trapezistas em Paris que tentam executar o maior de todos os números dessa arte: o saldo triplo mortal. Também procurava uma atriz europeia que funcionasse como pivô do triângulo amoroso que iria ser mostrado nas telas. O interesse de Lancaster sobre esse filme era fácil de entender. Ele começou sua carreira no circo (a sua primeira esposa era trapezista) e apesar de ter alcançado o sucesso como ator jamais esqueceu o período em que viveu no mundo circense. Após alguns testes Burt sugeriu ao diretor Carol Reed que contratasse Tony Curtis. Ele tinha os atributos certos para o papel. Além de ser jovem tinha também habilidades atléticas que iram ajudar muito nas filmagens. Como estrelava vários filmes de capa e espada Tony foi logo considerado ágil o suficiente para se sair bem nas cenas de picadeiro. Já a escolhida para o principal papel feminino foi a atriz italiana Gina Lollobrigida. Embora tivesse uma extensa filmografia em seu país estrelaria pela primeira vez uma produção norte-americana. O filme Trapézio acabou se tornando um grande sucesso de bilheteria. Também pudera, tinha todos os ingredientes para se tornar um êxito nos anos 50: um cenário exótico, uma beldade estrangeira, um romance à flor da pele, um astro de primeira linha e um coadjuvante que despontava para o estrelado. Pela primeira vez em sua carreira Curtis finalmente era levado à sério. Seu papel nem era tão destacado mas ele fez o suficiente para não fazer feio. O argumento do filme também ajudava já que não se tratava de um dramalhão onde fosse exigido muito dos atores, no fundo era um passatempo leve, com boas cenas coreografadas de trapézio, filmadas com profissionais do ramo (muito embora os atores também tenham filmado cenas menos perigosas). A parceria com Burt Lancaster ainda renderia mais um bom filme a Tony Curtis no ano seguinte: A Embriaguez do Sucesso, onde seria extremamente bem elogiado pela crítica. Com tudo isso hoje Tony pode dizer que esse filme foi na realidade o verdadeiro trampolim para os seus melhores anos, que iriam atravessar o restante da década de 50 e 60, graças especialmente ao grande astro e estrela de primeira grandeza na constelação de Hollywood, Burt Lancaster.

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.