segunda-feira, 30 de outubro de 2006

A Volta dos Homens Maus

Mais um bom western estrelado por Randolph Scott. Ele interpreta um rancheiro que decide vender seu gado, sua propriedade, para ir embora, para outra cidade, onde está prestes a acontecer uma nova corrida ao ouro. Antes disso porém uma quadrilha de assaltantes a banco invade uma pequena cidade. No grupo se encontra até mesmo uma mulher, Cheyenne (Anne Jeffreys), que durante uma fuga acaba sendo baleada, indo parar no rancho de Scott.

Ele decide ajudá-la. Não apenas a escondendo da patrulha que a persegue, como também pedindo ajuda ao médico local. Curada, ela decide finalmente se redimir daquela vida. Outro personagem interessante do filme - e o alívio cômico - vem do personagem interpretado pelo ator George 'Gabby' Hayes. Ele fez muitos filmes ao lado de John Wayne e John Ford, sempre interpretando velhinhos matutos e bons de briga. Aqui ele esbanja a mesma linha de humor que o tornou conhecido nos filmes de faroeste daquela época.

Outro ponto que vai chamar a atenção dos fãs de western vem da quadrilha de assaltantes a banco. Ela é formada por lendas do velho oeste como Billy The Kid, Sundance Kid, os irmãos Dalton. Clato que os roteiristas desse filme fizeram uma salada geral, juntando personagens históricos reais em um mesmo bando. Na realidade eles viveram em épocas e lugares diferentes e nunca se conheceram de fato. Porém para esse filme todos foram reunidos em prol da diversão do público. De maneira em geral gostei muito dessa produção. É bem realizado, tem um bom roteiro e um desfecho que segue a tradição de muitos filmes de western, com direito a um duelo bem no meio de uma cidade fantasma localizada no deserto.

A Volta dos Homens Maus (Return of the Bad Men, Estados Unidos, 1948) Direção: Ray Enright / Roteiro: Charles O'Neal, Jack Natteford / Elenco: Randolph Scott, Robert Ryan, Anne Jeffreys, George 'Gabby' Hayes, Jacqueline White / Sinopse: Quadrilha de pistoleiros e foras-da-lei se reúne em uma pequena cidadezinha do velho oeste para roubar o banco local. Enquanto isso um rancheiro decide vender tudo para entrar na corrida ao ouro que está sendo organizada rumo ao novo estado da Califórnia.

Pablo Aluísio. 

Anne Jeffreys

A atriz que interpretou a bandoleira Cheyenne no filme "A Volta dos Homens Maus" teve uma longa e bem produtiva carreira no cinema. Também foi uma mulher longeva, só vindo a falecer aos 97 anos de idade, em 2017. Ao longo de toda a vida atuou em mais de 80 filmes, muitos deles considerados verdadeiros clássicos da sétima arte.

Também foi uma atriz atuante em séries de TV, principalmente após ter chegado numa certa idade, onde as personagens para filmes de cinema foram rareando. Sim, Hollywood sempre foi bem preconceituosa nesse aspecto, principalmente entre as mulheres. Atrizes mais velhas acabam ficando sem trabalho nos grandes estúdios de cinema. Uma triste realidade.

Em 1973 foi indicada ao Globo de Ouro na categoria de melhor atriz em série - drama. O programa se chamava "The Delphi Bureau". Entre as séries memoráveis em que trabalhou vale a pena citar "Cavalcade of America", "Caravana", "Bonanza", "O Agente da UNCLE", "Tarzan", "Os Novos Centuriões", "Galactica: Astronave de Combate", "Vega$", "Buck Rogers" e "Ilha da Fantasia". Foram muitos anos de trabalho em emissoras americanas e muitas dessas séries também fizeram bastante sucesso de audiência no Brasil.

Já no cinema é importante citar alguns filmes clássicos em que ela atuou, com destaque para  "Emboscada para Billy the Kid", "Tarzan Contra o Mundo", "Bandoleiros da Fronteira", "O Vale dos Bandidos", "Dick Tracy", "O Punhal Sangrento", "O Passo do Ódio" e o já citado "A Volta dos Homens Maus" onde fez par romântico ao lado de Randolph Scott. Em suma, ela foi também uma autêntica cowgirl dos filmes clássicos de faroeste em sua era de ouro, entre as décadas de 1940 a 1960.

Pablo Aluísio.

domingo, 29 de outubro de 2006

Perfil: John Wayne

Durante grande parte da história do cinema americano no século XX, um ator encarnou como ninguém o herói máximo do gênero western, sendo muitas vezes considerado ele próprio, o seu nome, um sinônimo do faroeste, pois para a geração que cresceu assistindo a suas películas, "filmes de bandido e mocinho" eram praticamente a mesma coisa que "filmes de John Wayne". Símbolo do machismo e um dos maiores campeões de bilheteria de Hollywood, John Wayne não era considerado um grande ator pela crítica, que o achava apenas "um tipo", principalmente de faroestes. Era o que bastava para que sua figura corpulenta e seu olhar ambíguo – ora doce e ingênuo, ora irascível – criasse a mitologia do durão que muitas vezes fazia justiça com as próprias mãos. Mario Michel Morrison nasceu em Winterset (Iowa) em 25-05-1907. Começou como dublê de faroestes, em 1928, até ser lançado por Raoul Walsh em "A Grande Jornada" (1930). Demorou nove anos e cerca de cinqüenta filmes classe B antes de John Ford o escalasse para o filme "No Tempo das Diligências". John Wayne foi o favorito dos diretores John Ford e Howard Hawks, que dele arrancaram performances inesquecíveis em clássicos como nesse sucesso absoluto, O filme juntou pela primeira vez John Ford e John Wayne num grande filme - dois heróis e símbolos do próprio cinema americano daqueles tempos - e seria o pontapé inicial definitivo do mais americano dos gêneros - ou do único gênero genuinamente americano, já que ele somente se desenvolverá em território americano em sua premissa básica - o desbravamento do oeste daquele país.

As paisagens do Monument Valley apareciam esplendorosas para contar a mais clássica das histórias do gênero - a carruagem que atravessa o deserto e sofre um violento ataque de índios. As bases para o gênero foram lançadas. O público aprovou. Uma era se iniciava na terra de Tio Sam. O sucesso seguinte de John veio com “Depois do Vendaval” – arrastando Maurren O'Hara pelos cabelos diante dos habitantes de uma cidade irlandesa, Sendo seguido por “Rio Vermelho”, que lançou Montgomery Clift. A famosa crítica de cinema Pauline Kael chamou o filme de "ópera a cavalo". Na opinião de John Wayne, somente "Rastros de Ódio" o superava. Era um de seus preferidos. O astro americano gostava de personagens fortes. Em "Rastros de Ódio" ele compôs o mais perfeito retrato da amargura com seu personagem Ethan. Aqui, ele compõe igualmente um tipo forte, - o pai, vaqueiro, que leva o gado embora do sul após a guerra com uma série de incidentes. Seu maior entrave, no entanto, é o relacionamento com o filho - Montgomery Clift. Narrada através das páginas de um diário, é um exemplo do estilo "macho" de cinema de Hawks, tecnicamente impecável, com brilhante trilha sonora de Dmitri Tiomkim.

A virada definitiva na carreira de John Wayne se deu com "Rastros de Ódio", este não é apenas o melhor filme do mestre John Ford. Foi incluído em várias listas como um dos melhores de todos os tempos em todos os gêneros. Poucos filmes têm a densidade psicológica deste drama das pradarias que narra a busca obstinada de Ethan, um homem duro e insensível, que luta por vingança. Índios incendiaram a casa de seu irmão e de sua cunhada, mataram toda a família e raptaram suas duas sobrinhas. Uma delas é encontrada morta, e a outra, na visão de Ethan, está perdida para sempre e deve morrer... assim que ele a encontrar. Sua busca atravessa os anos como seu único objetivo de vida, atravessa as estações e nada pode perturbá-lo. Poucos personagens incorporaram a imagem da solidão e da obstinação que este interpretado por outra lenda do cinema, John Wayne. Pelo que representa e por tudo que tem atrás de si, "Rastros de Ódio" é um dos maiores filmes da história do cinema.

Na vida pessoal John Wayne também tinha suas "obsessões". Com acentuada preferência por mulheres latinas, John Wayne foi casado com duas mexicanas: Josephine Saenz (33/44) de quem teve os filhos Melinda, Michael (que se tornou produtor) e Patrick (ator) e Esperanza Baur (46/53). Em 1954 casou-se com a peruana Pilar Palette, que lhe deu os filhos Aissa, Marisa e Ethan (nome de seu personagem em “Rastros de Ódio”). Divorciaram-se em 1973.

O ator continuou sua carreira com uma grande lista de sucessos, entre eles “Onde Começa o Inferno” (1959), “O Homem Que Matou o Facínora” (1962) e “El Dorado” (1967). Mas foi sob a direção de Henry Hathaway que John Wayne conseguiu o Oscar de melhor ator por “Bravura Indômita”, aqui temos a estória de uma garota de 14 anos que decide se vingar do bandido que roubou e assassinou seu pai e só consegue ajuda de um xerife bêbado e caolho. Para atrapalha-los um jovem texano resolve ajudá-los porque quer matar o bandido primeiro e receber uma recompensa. A Academia jamais se lembrou de John Wayne antes como candidato para o Oscar - apesar de seus bons desempenhos em “Rastros de Ódio”, por exemplo - e acabou lhe dando o primeiro por este faroeste outonal, em que o ator aparece como uma ruína de si mesmo, velho e gordo, mas com muita garra e seu habitual carisma. O profissionalismo do diretor Hathaway, o ótimo elenco, a boa música do especialista Elmer Bernstein e a caprichosa fotografia de Lucien Ballard valorizam ainda mais o espetáculo. Baseado no romance de Charles Portis. O filme teve uma continuação em 1975: "Justiceiro Implacável" com o próprio Wayne e Katherine Hepburn. "Se eu soubesse, teria adotado o tapa olho há 35 anos" brincou John Wayne ao ganhar seu primeiro Oscar pelo filme. Antes, tentando provar que levava muito a sério sua profissão dirigiu “O Álamo” (1959) e “Os Boinas Verdes” (1968) constrangedora tentativa de defender a guerra do Vietnã – na política ele sempre foi conservador.

Nos anos 70, John Wayne tentou se adaptar aos novos tempos, tentando novos gêneros como seu personagem em "McQ, um Detetive Fora da Lei ", aqui Wayne faz o papel de um policial que após a morte de um companheiro, investiga um caso de tráfico de drogas cujas pistas acabam indicando uma conexão com a própria polícia. O diretor Struges deixa aqui os espaços amplos do faroeste - estilo que o consagrou. Transpõe para o ambiente urbano o herói ético, durão e honesto criado por John Wayne em inúmeros outros filmes, sem perder a noção de ritmo e ação, que esbanjou em seus melhores westerns. Apesar da tentativa de mudança, seu lar era mesmo o western e o ator acabou retornando ao personagem que o fez ganhar o Oscar, assim Wayne estrelou "Justiceiro Implacável" onde a filha de um pastor conta com a ajuda de um pistoleiro para tentar encontrar os homens que mataram seu pai. Continuação de “Bravura Indômita”, com roteiro que lembra o famoso "Uma Aventura na África". Produção que foi valorizada pela presença de John Wayne e Katherine Hepburn. Este foi o penúltimo filme do Duke.

O peso da idade finalmente chegou ao velho cowboy na década de 70. Mesmo doente nunca pensou em se aposentar: "A única que sei fazer é trabalhar. A aposentadoria vai me matar". Lutou bravamente contra o câncer que se abateu sobre ele e sempre afirmava quando perguntado sobre seu estado de saúde: "Liquidei-o. Comigo não há câncer que agüente. Para o inferno com o Big C!". No final de sua carreira, já velho e cansado, Wayne deu uma entrevista para a revista de cinema Variety e afirmou: "É possível que não se interessem mais pelos serviços deste cavalo velho e o larguem no pasto, mas trabalharei até isso acontecer" Também brincou com o fato de algumas revistas afirmarem que estava ficando sem cabelos: "Não tenho vergonha da minha careca, mas não vejo por que obrigar as pessoas a vê-la".

Em 1976, Wayne se despediu das telas e fez seu último filme, "O Último Pistoleiro", com Lauren Bacall, no papel de um velho cowboy morrendo de câncer mas ainda lutando. O roteiro, que tinha muito a ver com a própria vida do ator trazia a estória de um velho e lendário pistoleiro que sofria de câncer e procurava um local onde pudesse morrer em paz. Mas não conseguia escapar de sua reputação. Era baseado em um romance de Glendon Swarthout. John Wayne, perfeito em seu último papel, também já sofria da mesma doença, que o matou em 1979. Este foi o último filme da carreira de John Wayne. No total havia participado de 172 filmes ao longo da carreira!

Em 11 de junho de 1979, o homem que melhor se identificou com os heróis da colonização americana morreu vítima de câncer nos pulmões, mas entrou para sempre no Olimpo dos deuses da sétima arte.

Pablo Aluísio

Audrey Hepburn

Audrey Hepburn
A atriz foi durante décadas sinônimo de elegância, sofisticação e glamour. Em uma carreira tão marcante, de tantos filmes inesquecíveis, se destacam dentre outros “Bonequinha de Luxo”, “Sabrina”, “A Princesa e o Plebeu”, “Uma Cruz à Beira do Abismo”, "Infâmia" e “Minha Bela Dama”. Em todos esses seus clássicos foi bastante elogiada pela crítica. Foi um caso até raro de atriz que conseguia agradar igualmente ao público e aos críticos de cinema. Tinha praticamente unanimidade nesse aspecto. Todos pareciam gostar dela.

Sua filmografia não é longa. Comparada com os demais astros e estrelas de sua época ela realmente fez poucos filmes. Foram apenas 34 filmes como atriz. A estreia se deu na TV, em 1949, um filme simples. Era uma garotinha. Seu primeiro filme mesmo, considerada por ela mesma, foi "O Mistério da Torre", lançado em 1951.

 Ela foi indicada seis vezes ao Oscar! Por anos ela se considerou azarada pois nunca conseguia ser premiada. Já caminhava para o rol de grandes nomes da história de Hollywood que tinham sido injustiçados pela Academia quando sua sorte mudou. Finalmente em 1953 ela finalmente foi premiada por seu trabalho no filme "A Princesa e o Plebeu" onde contracenava com o ótimo Gregoy Peck. Reconhecendo o excelente trabalho dos demais envolvidos no filme dedicou o prêmio ao colega de cena e ao diretor William Wyler. Era considerada uma profissional disciplinada, amiga e humilde dentro do set de filmagens. Sua gratidão com quem havia lhe ajudado estava em toda parte por onde atuava.

Sua última aparição no cinema se deu pelas mãos de Steven Spielberg. Ela apareceu pela última vez em "Além da Eternidade" de 1989. Fazia anos que estava afastada do trabalho de atriz. Apenas após muita insistência de Spielberg ela finalmente aceitou voltar para uma despedida final do cinema. E foi um belo gesto de adeus.  Após a aposentadoria no cinema se destacou por seu empenho em causas humanitárias e de ajuda aos países mais pobres. Ela faleceu no dia 20 de janeiro de 1993 em sua casa na Suíça. Ela havia deixado os Estados Unidos em busca de um lugar mais tranquilo para viver. Tinha apenas 63 anos de idade quando partiu. Deixou saudades em todos os cinéfilos mundo afora. Audrey Hepburn foi um mito eterno da sétima arte.

Pablo Aluísio.

sábado, 28 de outubro de 2006

Perfil: Lee Marvin

Um dos mais famosos vilões de filmes de western. Foi assim que Lee Marvin se notabilizou no gênero ao longo de várias décadas de atuação em Hollywood. Marvin que era natural de Nova Iorque (nasceu em 1924) começou tarde na carreira. Após servir um período como fuzileiro naval decidiu que queria atuar pelo resto de sua vida. Estreou inicialmente na televisão na série “Escape” em 1950.

Sua primeira chance no cinema veio com “Agora Estamos na Marinha”, um filme de guerra realizado um ano depois onde Marvin aproveitava de seus anos de experiência como militar para dar maior veracidade em seu pequeno papel. Após cinco anos atuando como coadjuvante Marvin teve seu primeiro papel de destaque em “O Laço do Carrasco” (1952) ao lado de Randolph Scott. Seu jeito durão, de poucos amigos, caiu muito bem ao interpretar personagens bandoleiros, assassinos, ladrões e facínoras de toda ordem.

Depois do sucesso vieram várias produções, entre elas outro western também ao lado de Randolph Scott, “O Pistoleiro” (1953). Com Marlon Brando se destacou no mesmo ano no famoso “O Selvagem” onde interpretava um motoqueiro rival ao personagem do famoso ator.

A partir daí a carreira ficou consolidada e não mais faltaram papéis em filmes interessantes. Ao lado de Rock Hudson rodou “Seminole”, participou do clássico “A Nave da Revolta”, voltou a trabalhar com o amigo Randolph Scott em “Sete Homens Sem Destino” (1956) e em “Pilastras do Céu” encarnou um personagem atípico em um western com roteiro religioso. Em 1961 trabalhou ao lado de John Wayne no último filme do grande diretor Michael Curtiz, “Os Comancheros”.

Um ano depois voltou a trabalhar com Wayne naquele que é considerado um dos maiores clássicos do western de todos os tempos: “O Homem que Matou o Facínora”. Depois de muitos anos vivendo na sombra de grandes astros Lee Marvin teve finalmente seu talento reconhecido em “Dívida de Sangue” quando finalmente ganhou o Oscar. Depois disso o ator ainda participaria de uma série de sucessos de bilheteria como “Os Doze Condenados”, “Inferno no Pacífico” e filmes que se tornaram cult como o famoso drama de guerra “Agonia e Glória”.

Sua última aparição no cinema se deu ao lado de Chuck Norris no filme “Comando Delta” de 1986. No total participou de 111 filmes em 40 anos de carreira. No final de sua vida o nova-iorquino Marvin trocou o agito das grandes cidades pela tranqüilidade do campo, indo morar em Tucson no Arizona, onde veio a falecer em agosto de 1987. Tinha 63 anos de idade.

Pablo Aluísio.

Cine Western

 

quinta-feira, 26 de outubro de 2006

Marlon Brando e o Western

Ator de muitos recursos, Marlon Brando foi um dos mais cultuados e famosos atores americanos. Curiosamente sua carreira, desenvolvida bem no auge dos filmes de faroeste, contou com relativamente poucos filmes do gênero. Brando, um sujeito tipicamente urbano, se sentia melhor em dramas do que em westerns. Sua primeira incursão no gênero se deu de forma quase indireta. Em 1952 ele foi contratado para atuar como o revolucionário Emiliano Zapata no clássico "Viva Zapata!", dirigido por Elia Kazan. Embora não fosse um western tradicional o filme tinha elementos que lembravam bastante o gênero. Com uma mensagem fortemente ideológica o filme não agradou inteiramente o ator. Além de não se considerar fisicamente parecido com o Zapata da vida real ele teve inúmeros problemas com o produtor Darryl F. Zanuck. Na verdade estava mais empenhado em levar para a cama a estrelinha Jean Peters do que qualquer outra coisa. Não deu muito certo. Peters já estava comprometida e não conseguia levar à sério as cantadas do astro. Ele então ficou literalmente comendo poeira no meio do deserto mexicano.

Depois desse filme Brando recusou inúmeros roteiros de Western. Ele não gostava de filmar no deserto e não confiava em cavalos, como disse de forma bem sincera em sua autobiografia. Mesmo assim, quase dez anos depois de Zapata, o ator voltou ao set de filmagens de um western, "A Face Oculta". Inicialmente Brando só iria atuar nessa produção, mas problemas com o diretor original, Stanley Kubrick, tumultuaram o projeto. Para que o filme não fosse cancelado e não surgisse um prejuízo de milhões de dólares no orçamento da  Pennebaker Productions (que pertencia ao próprio ator) ele resolveu assumir a direção. O problema é que Brando nunca havia dirigido um filme em sua vida e tampouco tinha qualificações técnicas para tanto. Afirmando que iria aprender enquanto filmava o ator topou o desafio. O resultado, para alguém tão sem experiência, pode ser até mesmo considerado excepcional, haja visto os inúmeros problemas que foram surgindo durante as filmagens. Para se ter uma ideia Marlon não conhecia sequer as lentes certas para as tomadas de cena. Foi realmente um aprendizado na prática do dia a dia.

De uma maneira ou outra Brando só voltaria ao velho oeste alguns anos depois em "Sangue em Sonora". Sua carreira estava em baixa, fruto de bilheterias ruins e problemas com vários estúdios de Hollywood. Brando não era um sujeito fácil de lidar e de vez em quando os convites rareavam e ele tinha que aceitar o que lhe surgia pela frente. O roteiro desse faroeste passava longe de ser excepcional, mas Brando confiava na capacidade do cineasta Sidney J. Furie de realizar um bom filme, que não desse prejuízo nas bilheterias (afinal de contas mais um fracasso iria piorar ainda mais a situação de Brando dentro da indústria cinematográfica). O resultado final se revelou bom, mas nada excepcional. O filme tem cenas fortes e um realismo cru que até hoje impressiona. Para Brando foi bom voltar a participar de um filme lucrativo, mesmo tendo que atuar em um dos lugares mais secos do mundo, no deserto de Utah.

As dificuldades de se trabalhar em uma região tão seca como aquela fez com que Brando se distanciasse novamente de faroestes. Só retornaria em meados da década seguinte no excêntrico "Duelo de Gigantes". Ao contrário da época em que rodou o filme anterior, quando estava em decadência, em "The Missouri Breaks" ele estava de novo no auge por causa do sucesso de "O Poderoso Chefão". Consagrado por público e crítica, todos queriam conferir o novo filme do ator. O que ninguém esperava era que Brando iria reverter completamente o mito do pistoleiro do velho oeste, dando vida a um personagem surreal, que usava roupas extravagantes, se vestindo de mulher em determinadas situações. Todas sugestões do próprio Brando que foram aceitas pelo diretor Arthur Penn, afinal de contas ele jamais iria perder a chance de dirigir dois monstros sagrados do cinema em um mesmo filme já que o elenco também contava com o grande Jack Nicholson (vizinho e amigo de longa data do próprio Marlon). Esse filme marcou a despedida de Brando dos faroestes. De certa maneira foi realmente um pena o ator não ter realizado mais filmes do gênero. De consolo fica a constatação de que se fez poucos, pelo menos realizou atuações marcantes dentro da mitologia do velho oeste.

Pablo Aluísio.

Cine Western


 Cartaz do filme de faroeste spaghetti "Gringo" de 1967, de Damiano Damiani. 

quarta-feira, 25 de outubro de 2006

Brigite Bardot - Shalako

Poucos ainda se lembram desse western chamado "Shalako". O que mais chama atenção aqui é o seu elenco. Sean Connery jamais se notabilizou ao longo de sua carreira por ter atuado em faroestes. Na verdade ele fez apenas um western em toda a sua longa carreira e foi justamente esse "Shalako". Por essa razão ele sempre parece deslocado naquela ambientação. Era mesmo complicado dissociar sua imagem da de James Bond, algo que ele vinha tentando fazer naqueles tempos. Outra que parece fora de seu habitat natural é a atriz Brigitte Bardot. Apesar de ser um mito de beleza, moda e cinema na época, ela não tinha ainda se firmado no mercado americano (algo que nunca iria acontecer, diga-se de passagem). BB tinha problemas de aprendizado com a língua inglesa, o que era de se admirar, pois o inglês é uma língua bem simples, diria até mesmo básica, bem longe da riqueza das línguas latinas históricas tradicionais como o francês e até mesmo o nosso português. Geralmente é bem mais fácil uma pessoa de língua latina aprender o inglês do que o contrário. Americanos em geral apresentam uma grande dificuldade em aprender português e francês, por exemplo, justamente por causa da riqueza linguística desses idiomas europeus milenares. Bardot porém não levava jeito e isso acabou de certa forma com sua carreira na América. Nesse filme ela faz um esforço e tanto para declamar bem seu texto na língua inglesa, mas sinceramente falando ela não se sai bem. Muito provavelmente Bardot tenha tido consciência disso ao assistir ao seu próprio filme e nunca mais trabalhou em outra produção que não fosse rodada em sua língua natal.

Ela interpreta uma condessa que vai até o oeste americano para caçar e viajar. Acredite, muitos nobres europeus fizeram essa viagem no século XIX. O oeste dos Estados Unidos era considerado um mundo selvagem, uma terra sem lei, ótima para caçar animais selvagens nas distantes pradarias sem fim. Muitos membros da realeza da Europa ansiavam por aventuras e histórias pitorescas para contar nas cortes mais sofisticadas do velho continente e por isso faziam essa estafante viagem rumo ao novo mundo. Aliás é importante salientar que a América do Norte naqueles tempos ainda era considerado um ambiente rústico, primitivo, sem qualquer tipo de sofisticação. Assim os europeus iam para lá com o mesmo espírito que os animavam a viajar até os confins da África. Ambos os continentes eram subdesenvolvidos, com quadro político e social bem turbulento. Os Estados Unidos, acredite, era considerado uma nação de segunda ou até mesmo terceira categoria para um francês ou inglês de sangue azul. Para um europeu a Califórnia era considerada tão atrasada quanto qualquer região da África subsaariana. Isso é bem explorado no filme quando um grupo de viajantes da distante e esnobe Europa invade sem saber uma reserva dos nativos Apaches. Quando eles são ameaçados a deixarem a região o sentimento de todos no grupo é de ironia e até mesmo escárnio - imagine ser chantageado por aqueles povos primitivos! Um absurdo!

Sean Connery, o astro principal do filme, interpreta Moses "Shalako" Carlin, um ex- Coronel do Exército da União que participou ativamente dos tratados de paz firmados com aqueles nativos. Quando ele percebe que algo muito sério está prestes a acontecer por causa daqueles europeus desavisados e insensatos terem invadido território Apache, ele tenta de todas as formas evitar um banho de sangue. Ele já havia salvado a vida da Condessa interpretada por BB e agora tinha que usar de todo jogo de cintura para evitar uma nova guerra entre os Apaches e os homens brancos. Afinal para os nativos não importava que aquele grupo fosse europeu e não americano, o que tinha relevância era o fato de que eles eram invasores e estavam ali rompendo tratados firmados com o exército americano.

Por fim um fato relevante a se falar sobre essa produção "Shalako". Muitos gostam de afirmar que a globalização é algo recente. Ledo engano. Aqui temos uma produção anglo-alemã, estrelada por uma francesa (Brigite Bardot) e um escocês (Sean Connery), com direção de um cineasta americano (Edward Dmytryk) e filmado nos desertos da Espanha (Almería, Andalucía). Quer algo mais globalizado do que isso? Pois então. Esse filme foi realizado em uma época em que os investidores mundo todo começaram a ver o cinema como um belo caminho para se ter um bom retorno lucrativo. Ao invés dos grandes estúdios americanos monopolizando a produção de filmes como esse, começou-se a ir atrás de investidores privados, pessoas que queriam apenas alcançar um bom lucro de suas reservas investidas na produção de filmes. Esse sempre foi um aspecto subestimado de mudança dentro da indústria cinematográfica que poucos prestaram atenção. Com o rompimento dos laços com as majors americanas houve também uma explosão de criatividade entre os diretores e roteiristas que começavam a chamar a atenção naquela época, para a felicidade dos cinéfilos de todo o mundo. De fato o cinema nunca mais seria o mesmo depois da década de 1960. Era um novo mundo na sétima arte que começava a nascer.

Pablo Aluísio.

Cine Western

 

terça-feira, 24 de outubro de 2006

Tombstone

 

Sangue de Heróis (1948)

Sangue de Heróis (Fort Apache, EUA, 1948) é considerado um dos grandes filmes de cavalaria da história do cinema americano. Estrelado pelos astros John Wayne e Henry Fonda e dirigido pelo mestre John Ford, a fita é considerada um patrimônio cultural dos Estados Unidos pelo congresso. Aqui vão algumas curiosidades sobre esse clássico absoluto do western:

1. John Ford não se deu bem com a estrelinha Shirley Temple. Na época em que o filme foi realizado ela já tinha 19 anos de idade. Acontece que Temple foi a maior estrela mirim da história de Hollywood. Conforme foi ficando mais velha seus filmes foram fazendo menos sucesso a cada ano. Ela foi imposta pelo estúdio a Ford que se aborreceu com isso.

2. John Ford usou descendentes nativos Navajos para interpretar Apaches. Em sua visão esses indígenas eram mais profissionais para se trabalhar. Ele também descartou completamente a possibilidade de usar figurantes brancos pintados como índios. Para Ford isso era absurdo e não parecia convincente nas telas. Mais de 200 Navajos foram contratados para trabalharem como guerreiros e outro 100 para atuarem como crianças e mulheres da tribo.

3. Henry Fonda trabalhou nove vezes ao lado de John Ford durante sua carreira. Apesar disso jamais se acostumou com a maneira truculenta do diretor que muitas vezes usava de linguagem rude para dirigir seus atores. Isso se mostrava adequado para John Wayne que costumava responder de forma igualmente rude às provocações e xingamentos de Ford, mas para Fonda, que tinha uma educação mais elegante e refinada, tudo gerava apenas mal estar. Segundo algumas testemunhas Fonda chegava a tecer lágrimas após mais uma sessão de desaforos de Ford durante as filmagens.

4. John Ford mandou que o roteiro fosse o mais fiel possível aos fatos históricos. O enredo girava em torno dos erros cometidos pelo General Custer que levou ao massacre da Sétima Cavalaria do exército americano que estava sob seu comando. Inicialmente Ford queria filmar tudo na mesma região onde os fatos aconteceram - um lugar conhecido como Little Big Horn, mas depois foi convencido pelo estúdio que essa não seria uma boa ideia.

5. O forte construído para o filme ficou de pé por anos. Ele foi inclusive reutilizado para a série de TV "As Aventuras de Rin Tin Tin". Localizado na cidade de Simi Valley na Califórnia o local atrai turistas até os dias de hoje.

6. John Ford proibia a presença de filhos e esposas dos atores durante as filmagens, mas acabou deixando John Wayne trazer seu filho Michael Wayne para o set de filmagens no Monument Valley. Anos depois Michael lembraria como era duro trabalhar naquele lugar onde só havia deserto. Para ele não havia outra opção no lugar a não ser o trabalho e isso deixava Ford muito satisfeito.

Pablo Aluísio.

Anne Jeffreys

A atriz que interpretou a bandoleira Cheyenne no filme "A Volta dos Homens Maus" teve uma longa e bem produtiva carreira no cinema. Também foi uma mulher longeva, só vindo a falecer aos 97 anos de idade, em 2017. Ao longo de toda a vida atuou em mais de 80 filmes, muitos deles considerados verdadeiros clássicos da sétima arte.

Também foi uma atriz atuante em séries de TV, principalmente após ter chegado numa certa idade, onde as personagens para filmes de cinema foram rareando. Sim, Hollywood sempre foi bem preconceituosa nesse aspecto, principalmente entre as mulheres. Atrizes mais velhas acabam ficando sem trabalho nos grandes estúdios de cinema. Uma triste realidade.

Em 1973 foi indicada ao Globo de Ouro na categoria de melhor atriz em série - drama. O programa se chamava "The Delphi Bureau". Entre as séries memoráveis em que trabalhou vale a pena citar "Cavalcade of America", "Caravana", "Bonanza", "O Agente da UNCLE", "Tarzan", "Os Novos Centuriões", "Galactica: Astronave de Combate", "Vega$", "Buck Rogers" e "Ilha da Fantasia". Foram muitos anos de trabalho em emissoras americanas e muitas dessas séries também fizeram bastante sucesso de audiência no Brasil.

Já no cinema é importante citar alguns filmes clássicos em que ela atuou, com destaque para  "Emboscada para Billy the Kid", "Tarzan Contra o Mundo", "Bandoleiros da Fronteira", "O Vale dos Bandidos", "Dick Tracy", "O Punhal Sangrento", "O Passo do Ódio" e o já citado "A Volta dos Homens Maus" onde fez par romântico ao lado de Randolph Scott. Em suma, ela foi também uma autêntica cowgirl dos filmes clássicos de faroeste em sua era de ouro, entre as décadas de 1940 a 1960.

Pablo Aluísio.

segunda-feira, 23 de outubro de 2006

John Wayne e John Ford

Sem dúvida dentro da mitologia do western americano não podemos deixar de lado uma das duplas mais significativas da história do cinema americano: John Wayne e John Ford. Quando Ford começou a trabalhar com Wayne esse já era de certa maneira um ator popular e conhecido do público das grandes matinês. John Wayne tinha estrelado inúmeros filmes de bang bang antes de encontrar John Ford. Essas produções eram populares, tinham ótimas bilheterias, porém não contavam com o respaldo da crítica que as consideravam apenas entretenimento comum, sem qualquer tipo de status de grande arte. Apenas ao lado de John Ford o mito John Wayne seria alçado rumo ao panteão dos grandes ídolos do cinema americano. O curioso é que Ford tinha uma relação de amor e ódio com o ator. Quase sempre demonstrava ter pouca paciência com Wayne, principalmente por ele não ser considerado naquela altura de sua vida um grande ator.

"Quantas expressões faciais você tem seu hipopótamo?" - Desafiava John Ford durante as filmagens. Wayne não deixava barato e respondia: "Mais do que você pensa seu caolho desgraçado!". Isso pode soar rude e grosseiro para muitas pessoas, porém quem já teve uma amizade masculina sincera fundada em pequenas rusgas como essas saberá e entenderá que tudo não passava de uma nada delicada brincadeira entre os dois. É natural entre homens esse tipo de tratamento que nunca pode ser encarado como uma ofensa legítima, mas sim como uma forma íntima de tratar alguém que você tem intimidade suficiente para provocar e instigar. Nos filmes John Ford e John Wayne funcionavam em perfeita harmonia.

Ford procurava pelo resgate do homem íntegro e honesto que desbravou o velho oeste não apenas no aspecto puramente territorial, mas também psicológico. O americano que ia rumo ao oeste o fazia com o espírito de lá fundar suas raízes, criar sua família, viver muitas vezes da terra. Para Ford esse era o verdadeiro herói nacional. Um homem duro como rocha que encarava todos os desafios, como a aridez da região, o ataque de selvagens e a hostilidade da natureza para se firmar ali e criar uma civilização, baseada principalmente em seus valores de trabalho, ética e honestidade.

Em John Wayne o diretor enxergava o tipo ideal para personificar esse pioneiro. John Wayne era muito querido dentro da indústria, principalmente por ser considerado um profissional correto e digno de confiança. Além disso tinha uma reputação impecável, como homem honesto e cumpridor de suas obrigações. Em tantos anos de carreira jamais havia se envolvido em qualquer escândalo seja de que natureza fosse. Ao contrário de outros ídolos seu nome era respeitado dentro da comunidade cinematográfica. Além disso seu visual, mais velho, com sobrepeso, mas expressão firme e decidida, caía como uma luva nos personagens dos filmes de Ford. Os pioneiros dos século XVIII e XIX eram mesmo a cara de John Wayne. Dessa feliz fusão de ator e diretor nasceram alguns dos maiores clássicos do faroeste norte-americano que iremos tratar em uma série de textos nas próximas semanas. Até lá...

Pablo Aluísio.

Embrutecido Pela Violência

Ontem assisti a mais um clássico western americano. Esse ainda era inédito para mim. É uma produção de 1951 estrelada por Kirk Douglas e dirigida pelo mestre Raoul Walsh chamada "Embrutecido Pela Violência". Acabei inclusive de publicar uma resenha no blog Cine Western que pode ser facilmente acessada clicando aqui. Além do já tradicional roteiro, típico de faroestes da época, esse filme me intrigou porque tocou em um ponto que acho crucial: as falhas do sistema judiciário (seja ele de que país for). Douglas interpreta um agente federal obcecado em seguir a lei ao pé da letra, em seus menores detalhes. Nada de pensar em fazer justiça pelas próprias mãos. Assim quando encontra um grupo de homens prontos para pendurarem numa árvore um velho acusado de ter roubado gado e matado o querido filho de um rancheiro da região, ele nem pensa duas vezes e saca suas armas para deter o ato de pura vingança (e não justiça, em sua particular forma de entender a situação). Ele consegue salvar a vida do sujeito, mas ao mesmo tempo se coloca em perigo já que o grupo não se contenta com o que aconteceu e passa a caçá-lo pelo deserto californiano. Acontece que o seu prisioneiro também tem uma filha, interpretada pela beldade Virginia Mayo, que também está disposta a fazer de tudo para que seu pai não seja condenado. Na jornada pelo deserto o Marshal conta apenas com a ajuda de dois assistentes; Já do outro lado e em seu encalço vai um verdadeiro bando de foras-da-lei, prontos para acabarem com sua vida e a de seu prisioneiro.

O veterano Kirk Douglas ainda vive e é um verdadeiro sobrevivente. Provavelmente seja o último grande astro da era de ouro do cinema americano ainda vivo. Aos 99 anos de idade, Kirk é mais durão do que todos os cowboys juntos que interpretou ao longo de sua vida. Com 92 filmes no currículo, em mais de 60 anos de carreira, ele foi um verdadeiro workaholic em seus tempos de glória. O curioso na carreira dele é que jamais se limitou a apenas um gênero cinematográfico, abraçando todo tipo de projeto que lhe parecesse interessante. Também foi um artista corajoso e independente que enfrentou de frente grupos poderosos da época. Em plena era das caças às bruxas da paranóia anticomunista ele foi o único em Hollywood que teve coragem de empregar profissionais que estavam na lista negra do Macartismo, entre eles o genial roteirista Dalton Trumbo que havia sido impedido de trabalhar nos grandes estúdios por ter sido acusado de ser membro do partido comunista. Douglas topou a briga e o contratou mesmo sob diversas ameaças de boicote. No final o filme se tornou um grande clássico e Kirk Douglas se tornou um dos responsáveis pelo fim daquela loucura que se espalhava na indústria cultural americana.

Já a atriz Virginia Mayo era outra profissional de muita garra na luta por sua carreira. Ela nasceu em St. Louis, Missouri, no ano de 1920. Desde cedo quis ser atriz de cinema, mas isso exigia um esforço e tanto para conseguir. Considerada uma rainha da beleza ela começou sua vida profissional atuando como modelo (linda como era, não houve maiores problemas sobre isso). Como também era dançarina teve sua primeira oportunidade de aparecer no musical "Follies Girl" de 1939. Aos pouquinhos foi subindo os degraus da fama. Quando atuou ao lado de Kirk Douglas em "Embrutecido Pela Violência" já era uma estrela de renome, capa de revistas e badalada dentro da indústria cinematográfica. Quando o filme foi lançado boatos de que estaria namorando Kirk surgiram na imprensa. No filme inclusive podemos notar seus esforços em se destacar apenas pelo talento dramático e não apenas pelo seu bonito rosto. Ela está com cabelos curtinhos, estilo Joãozinho, em roupas simples, rurais, e modos rudes e rústicos. Isso em nada tirou seu brilho pessoal, pelo contrário, só a deixou mais charmosa - mesmo que estivesse com um rifle nas mãos! Ela tinha um olhar muito expressivo que foi perfeitamente captado pelas lentes do cineasta Raoul Walsh. No roteiro do filme ela quer de todo custo salvar seu pai que caminha rapidamente para a morte (seja pelas mãos da justiça, seja pelos rancheiros que o acusam de vários crimes). Para isso vale tudo, até mesmo se enamorar pelo xerife durão Douglas - o que convenhamos não era nada fácil. Enfim, coisas de Hollywood...

Pablo Aluísio.

domingo, 22 de outubro de 2006

John Wayne - Rio Lobo

"Rio Lobo" foi rodado em 1970. Por essa época John Wayne entrava na sua sexta década de carreira! Sessenta anos dedicado ao cinema! Muitos ainda se espantavam pelo fato dele ainda ter apelo de público, mas isso só comprovava que John Wayne era um sobrevivente e um mito. A maioria dos atores de sua geração já tinham morrido ou então estavam esquecidos, mas Wayne mantinha uma regularidade incrível, realizando de dois a três filmes ao ano. E o mais surpreendente era que essas produções eram muito bem sucedidas nas bilheterias, sempre lucrativas. Seu nome não tinha perdido o brilho.

Quando perguntado em que momento iria se aposentar, Wayne respondia: "Enquanto houver trabalho para esse velho pangaré, estarei trabalhando. Quem sabe algum dia ninguém mais queira me ver pela frente e me joguem no pasto, mas até esse dia acontecer irei fazer filmes". Ele cumpriu sua promessa pois trabalhou até o fim da vida. O termo aposentadoria não se aplicava no que dizia respeito a John Wayne. Assim mesmo em uma nova década lá estava o velho cowboy de volta ao mundo do faroeste para divertir e entreter seu leal público.

O primeiro grande diferencial de "Rio Lobo" vem do fato dele ter sido dirigido por Howard Hawks. Nem cabe aqui o estafante trabalho de citar suas obras primas na história do cinema pois elas são muitas. Hawks foi um verdadeiro gênio da sétima arte. Tal como Wayne ele também era um sobrevivente e um veterano quando esse filme foi rodado. Eles queriam provar que ainda havia espaço para esses dois antigos ídolos do cinema americano. O resultado acabou comprovando que nem o tempo lhes tirou a majestade. Em um tempo em que já havia outra mentalidade entre a população, os dois conseguiram fazer sucesso revitalizando os mesmos valores morais e éticos de quando eram jovens. O conservadorismo de suas obras acabavam sendo o seu maior charme.

O contexto histórico onde se passa a história de "Rio Lobo" é o período que se desenvolveu logo após o fim da Guerra Civil americana. Ianques e confederados ainda acertavam as mágoas de um conflito sangrento quando o Coronel McNally (John Wayne) parte no encalço de veteranos sulistas que teriam roubado um carregamento de ouro da União. A missão de encontrar os criminosos tem para o velho militar um aspecto também bem pessoal. Essa mesma quadrilha passou informações vitais para o inimigo que resultaram na morte de um jovem oficial da União que era considerado um verdadeiro filho por McNally. Assim o dever de achá-los se mesclou com o desejo de vingança do Coronel. Como bem John Wayne sabia esse sempre tinha sido um tema recorrente em filmes de western, o que em "Rio Lobo" não era também exceção.

Pablo Aluísio.

O Passado Não Perdoa

Esse fim de semana aproveitei o tempo livre para assistir a dois clássicos que seguiam inéditos até o momento. Dois excelentes filmes, é bom frisar. O primeiro foi "A Tortura do Silêncio". É um thriller de suspense com um enredo que me lembrou muito os filmes de Alfred Hitchcock. O mitológico Gary Cooper interpreta um empregado de uma empresa em Londres que acaba supostamente testemunhando um assassinato. Seu próprio patrão é esfaqueado e 60 mil libras são roubadas. Mesmo na escuridão o personagem de Cooper acusa um outro funcionário do crime. O sujeito é preso e condenado à prisão perpétua.

Pouco tempo depois o próprio George (Cooper) surge com dinheiro suficiente para abrir sua própria empresa de navegação. O negócio prospera e ele fica rico. Sua esposa Martha (interpretada pela ótima Debora Kerr) começa a ficar desconfiada de tudo. Afinal o dinheiro roubado na empresa jamais fora encontrado. Teria sido ele o real assassino? O roteiro assim aproveita essa situação limite para desenvolver toda a sua trama. Um aspecto interessante é que até a cena final o espectador fica na dúvida sobre ser o personagem de Cooper inocente ou culpado. Extremamente bem escrito, é um ótimo momento da filmografia do ator. Infelizmente Cooper morreria naquele mesmo ano, sendo esse seu último filme.

O outro belo clássico que assisti foi "O Passado Não Perdoa". Esse é um faroeste dirigido por John Huston. Todo cinéfilo sabe que Huston foi um mestre da sétima arte. Ele nunca realizava filmes banais ou que caíssem no lugar comum. Era um cineasta dos mais constantes na realização de obras primas. Esse filme é uma delas. O roteiro começa mostrando o dia a dia de um clã familiar no velho oeste. Eles vivem em um rancho situado no deserto, em pleno território Kiowa. De tempos em temos os nativos guerreiros promovem massacres de colonos brancos na região. O patriarca da família Zachary foi morto em um desses ataques. Agora quem lidera o clã é Ben Zachary (Burt Lancaster), o irmão mais velho. Ele vive de transportar e vender gado pela região. A rotina familiar segue tranquila e feliz até que os Kiowas retornam.

Eles querem que Ben lhes dê a sua própria irmã, a jovem Rachel (interpretada por Audrey Hepburn, maravilhosa como sempre), para que ela seja levada para as montanhas onde vive a tribo. Para os Kiowas ela teria sido raptada de sua aldeia no passado. Um ataque feito pelo próprio patriarca Zachary. Claro que Ben (Lancaster) recusa de forma veemente a possibilidade de Rachel ser entregue de volta aos índios, o que acaba dando origem a uma verdadeira guerra entre brancos e indígenas. Huston mostra maestria na condução do filme. Ele não tem pressa, desenvolvendo cada personagem de forma bem caprichada. O elenco conta ainda com dois outros coadjuvantes bem interessantes para os cinéfilos: a presença da diva do cinema mudo Lilian Gish, como a velha matriarca e Audie Murphy, como o irmão do meio da família Zachary, uma pessoa que ainda não conseguiu superar seus preconceitos de natureza racial. Em suma, um belíssimo trabalho do mestre John Huston, um diretor que jamais me decepcionou.

Pablo Aluísio.

sábado, 21 de outubro de 2006

Natalie Portman - Jane Got a Gun

Natalie Portman havia dado um tempo na carreira pois ela teve um filho, estava se organizando em sua vida pessoal e por essa razão deixou um pouco o cinema de lado. Também convenhamos depois da chuva de prêmios do consagrado "Cisne Negro" era mesmo de se esperar que algo assim viesse a acontecer. Tirando algumas participações (quase) especiais em filmes e até videoclips (ela está em "My Valentine", clip de Paul McCartney, por exemplo) a atriz não fez nada de muito relevante. Parecia estar numa boa, curtindo merecidas férias, aproveitando todo o dinheiro e prestigio de uma carreira bem sucedida.

Agora em 2016 ela ressurge nesse faroeste! Quando estava assistindo a esse filme chamado "Jane Got a Gun" fiquei pensando que ela nunca havia feito nada parecido na carreira. Havia me esquecido que Natalie participou de outro western, em 2003, chamado "Cold Mountain". O esquecimento foi justificado pois ela ainda era bem jovem e seu papel não era de destaque - na verdade duas outras atrizes estrelaram aquele filme, Nicole Kidman e Renée Zellweger. Pois é, o tempo passou, ela ficou muito marcada como a princesa Padmé da segunda trilogia de "Star Wars" (filmes de que sinceramente nunca gostei muito) e depois de 13 anos voltou ao velho oeste.

Mais do que atuar Portman também produziu esse novo filme ao lado dos irmãos Weinstein, antigos fundadores e donos do estúdio Miramax. O resultado é muito bom. É curioso porque assim que vi Portman no elenco logo pensei que viria algo diferente, um faroeste com toques mais inovadores, indo para o lado do cinema de arte, cult. Estava enganado. Esse roteiro é bem tradicional, na verdade poderia até mesmo ser estrelado por John Wayne em seus bons anos. O tema da vingança é um dos mais caros e usados em faroestes dos anos 50 e 60. A única novidade que realmente vale citar é o fato de que o roteiro não traz a estória mastigada para o espectador. A narrativa foge um pouquinho do estilo mais linear, usando como ferramenta de narração o velho e bom flashback (uso de cenas do passado dos personagens).

Outro aspecto que me chamou a atenção é que a personagem de Portman, chamada Jane, não é uma mocinha tradicional de filmes desse tipo. Ela não é uma garota amedrontada, que não consegue se defender. Pelo contrário. Numa das melhores cenas do filme ela é encurralada em um beco por um pistoleiro, antigo desafeto, que não apenas a ameaça como pensa em estuprá-la. Ao invés de gritar ou ficar em desespero Jane saga seu colt e manda o criminoso para o inferno. Aliás a Jane do filme precisa mesmo ser muito forte e decidida. Com o marido baleado, agonizante em seu rancho, e um grupo de bandoleiros indo até lá para matar os dois ela precisa ser uma mulher mais do que forte. É necessário mostrar confiança e personalidade. Assim deixo a dica desse novo faroeste. Tanto os fãs mais tradicionais do gênero como os admiradores de Portman certamente vão gostar do resultado.

Pablo Aluísio.

Clnt Eastwood - O Estranho Sem Nome

Poster promocional do filme "O Estranho Sem Nome" (High Plains Drifter, EUA, 1973). Um aspecto bem curioso sobre esse western é que Clint tinha intenção de chamar o veterano John Wayne para atuar ao seu lado. Para isso Eastwood resolveu escrever uma carta de próprio punho a Wayne o convidando para trabalhar com ele na produção. Era um velho sonho que Clint tinha e ele achava que agora chegara o momento de realiza-lo. Em anexo enviou o roteiro que já estava pronto. Uma semana depois John Wayne respondeu. Agradeceu a gentileza do convite e se desculpou dizendo que não poderia fazer o filme pois sua agenda não o permitiria. Mesmo veterano John Wayne já havia se comprometido com três novos filmes na Paramount e não haveria como rodar um quarto! 

Depois teceu algumas críticas ao roteiro dizendo que ele de certa forma desvirtuava o faroeste tradicional a qual estava acostumado a trabalhar. Para Wayne os filmes de western deveriam seguir uma certa linha, uma certa tradição, ao estilo John Ford e não precisavam se desvirtuar desse caminho, se mesclando outros gêneros cinematográficos, como havia lido no roteiro do filme. Clint obviamente ficou decepcionado com a carta e a forma de pensar de seu ídolo, mas respeitou sua decisão. Promessas mútuas de que um dia iriam trabalhar juntos no futuro ficou no ar, mas nunca se concretizaram. Assim, infelizmente, dois dos maiores ícones do faroeste americano jamais trabalharam juntos em suas carreiras, algo a se lamentar até hoje.

Pablo Aluísio.

sexta-feira, 20 de outubro de 2006

Cine Western


 

O conservador John Wayne

Durante toda a vida o ator John Wayne foi um conservador de direita na política. Ele votou em todos os candidatos republicanos de sua época e fez até campanha por grande parte deles. A agenda política de John Wayne tinha muito a ver com seus personagens nas telas de cinema. Ele valorizava os valores patrióticos e morais de seu passado. Isso significava torcer o nariz para o feminismo, para o controle de armas de fogo e para os ideias liberais. Nem vou citar o pensamento da esquerda socialista pois esse tipo de ideologia para John Wayne significava simplesmente uma traição à pátria. Na época um slogan popular entre os conservadores americanos pregava: "Comunista bom é comunista morto!". Certamente o republicano Wayne assinaria embaixo dessa frase.

Um fato aliás marcou profundamente o ator durante a década de 1960. Quando os Estados Unidos começaram a afundar pra valer na Guerra do Vietnã, com milhares de jovens americanos sendo mortos nas florestas daquele país, Wayne nadou corajosamente contra a corrente da opinião popular. Protestos contra a guerra começaram a eclodir por toda a América, mas Wayne novamente fincou posição e se declarou a favor da guerra. Para John Wayne aquela era uma guerra contra o avanço do comunismo na Ásia e por isso seria uma guerra justa, que deveria ser vencida a todo custo pelas forças armadas de seu país. Duramente criticado pela imprensa Wayne não se intimidou. Fez propaganda para a compra de bônus de guerra e até produziu do próprio bolso um filme ideologicamente alinhado com seu pensamento chamado "Os Boinas Verdes". Era uma propaganda nada sutil de apoio à guerra.

Bem no meio da polêmica estudantes da Universidade de Harvard (um dos centros liberais nos Estados Unidos) resolveram enfrentar o ator em um debate público. Eles o convidaram pensando que Wayne não iria jamais. Ledo engano. O ator não apenas compareceu para enfrentar face a face todos os críticos da academia como fez mais: indo ao encontro dentro de um tanque de guerra! Claro que isso tudo despertou uma grande repercussão na imprensa da época. No final sua presença carismática encantou os estudantes presentes no debate, muito embora eles, como era de se esperar, não mudassem de lado. Aliás John Wayne também não recuou também nem um centímetro de suas convicções políticas.

Essa sua forma de pensar o levou também a ter sérios atritos em Hollywood com um liberal de carteirinha: Marlon Brando. Esse era o extremo oposto de Wayne. Defendia o direito dos índios, dos homossexuais, dos negros e de todos aqueles que fizessem parte de algum tipo de minoria oprimida. Não que John Wayne fosse racista (seus casamentos com mulheres latinas provava isso), mas os posicionamentos de Brando, sempre causando polêmica na imprensa, o irritava profundamente. A suprema ofensa de Brando para Wayne foi a recusa em receber o seu Oscar de melhor ator por "O Poderoso Chefão". Quem Marlon Brando pensava ser, desrespeitando a Academia de cinema? Tal foi sua irritação que chegou a dizer publicamente que daria um soco na cara de Brando caso o visse pela frente. Eram como água e vinho. Jamais poderiam se misturar.

Pablo Aluísio.  

quinta-feira, 19 de outubro de 2006

Rio Vermelho (1948)

1. Red River (no Brasil, "Rio Vermelho") é considerado um dos grandes clássicos do western americano. Dirigido pelo mestre Howard Hawks e estrelado pelos mitos  John Wayne e Montgomery Clift, , o filme é considerado o épico definitivo sobre a figura do cowboy dos Estados Unidos, no auge de sua atividade no século XIX.

2. A interpretação de Montgomery Clift no filme surpreendeu John Wayne que chegou a confessar numa entrevista que jamais poderia supor que ele fosse tão bom atuando. Na verdade Wayne não conhecia muito Clift e sua capacidade dramática. Pensando que se tratava de mais um ator de Nova Iorque ele ficou realmente surpreso com as qualidades do jovem Clift, a tal ponto que chegou a dizer que precisava melhorar mais por causa da "nova concorrência" que surgia no mercado.

3. O filme foi realizado em 1946, mas só chegou nas telas em 1948. A demora se deu por dois motivos básicos. Primeiro o diretor Howard Hawks foi extremamente criterioso na edição da versão final. Ele não queria um filme longo e também não desejava que faltasse algo importante na estória. Por essa razão teve que se empenhar em chegar em um ponto meio termo. O outro problema foi legal. O milionário excêntrico Howard Hughes entendeu que havia semelhanças demais com outro clássico "O Proscrito", o que fez atrasar ainda mais seu lançamento nos cinemas.

4. Pode-se dizer que John Wayne ficou um pouco intimidado pela presença de Clift. Ele tinha receios, segundo o roteirista Borden Chase, de que o filme lhe fosse roubado por Monty. Por essa razão Wayne tentou interferir na edição final da fita, algo que foi impedido por Hawks, o que acabou criando um mal estar entre ambos.

5. Houve um certo receio do estúdio de que John Wayne e Montgomery Clift não se dessem bem trabalhando juntos. Eles tinham posições políticas bem diferentes, com Wayne sendo um conservador e Clift um liberal, e não tinham medo de expor suas ideias para a imprensa. Isso fez com que o diretor Howard Hawks proibisse discussões sobre esses temas no set de filmagens. De uma forma ou outra essa censura e a tensão causada por ela fez com que Clift se recusasse a trabalhar novamente com Wayne quando foi convidado a atuar em "Onde Começa o Inferno".

6. Para parecer mais convincente na tela o ator Montgomery Clift resolveu se empenhar em um curso intensivo de equitação antes das filmagens começarem. Ele já havia montado antes, mas morando em Nova Iorque, ficou sem a experiência necessária. Durante três meses ele praticou equitação em um rancho perto de Los Angeles, sob supervisão do professor Noah Beery Jr. Quando começaram as filmagens Monty demonstrou ter intimidade com montarias, o que fez com que arrancasse um elogio de John Wayne ao dizer: "Você monta muito bem rapaz!".

Pablo Aluísio.

Pistoleiros do Entardecer (1962)

1. Esse foi o filme final da carreira de Randolph Scott. Ele se aposentou afirmando que esse era o filme ideal para marcar sua despedida. Gostou tanto do resultado que acreditava que não faria algo melhor para se despedir das telas. Ele tinha razão, o filme ainda hoje é considerado um dos melhores faroestes dos anos 60.

2. Inicialmente Randolph Scott foi contratado para atuar como Judd e Joel McCrea como Westrum, mas assim que as filmagens começaram eles perceberam que estavam nos personagens errados. Depois de debaterem o assunto com o diretor os papéis foram finalmente trocados.

3. Os planos iniciais do estúdio contavam com John Wayne e Gary Cooper como os astros do filme, mas antes das filmagens começarem o astro Cooper foi internado com sérios problemas de saúde (ele tinha câncer). Depois de meses de adiamento finalmente veio a terrível notícia: o ator havia falecido. Com isso Wayne pediu para sair do projeto e a MGM precisou escalar dois outros atores para o filme. Randolph Scott e Joel McCrea então foram finalmente contratados.

4. Esse roteiro era tão bom que em meados dos anos 80 o ator Charlton Heston comprou os direitos autorais para realizar um remake. Ele queria Clint Eastwood como seu parceiro em cena, mas infelizmente o projeto não foi adiante. Não por causa de Eastwood, que até considerou o convite muito bom, mas sim por Heston que enfrentava problemas de saúde.

5. A intenção de Joel McCrea também era a de se aposentar após esse filme, mas ao contrário de Randolph Scott, que realmente nunca mais atuou, ele resolveu voltar em 1976 para uma despedida definitiva no bom filme "Mustang Selvagem". Para muitos McCrea teve que deixar a aposentadoria de lado por problemas financeiros. 

6. Randolph Scott queria Budd Boetticher, seu velho amigo, como diretor do filme. Esse porém não poderia aceitar por já estar comprometido com outro filme, rodado no México. Assim o estúdio se voltou para Sam Peckinpah que prontamente aceitou o convite. Seu trabalho foi considerado essencial para que o filme se tornasse um dos grandes clássicos da história do western americano.

Pablo Aluísio.

quarta-feira, 18 de outubro de 2006

Kirk Douglas e o Western

Embrutecido Pela Violência (1951)
Len Merrick (Kirk Douglas) é um orgulhoso Marshal federal que evita um enforcamento numa cidade do velho oeste. O acusado, Timothy 'Pop' Keith (Walter Brennan), está para ser enforcado por supostamente ter roubado gado e assassinado o filho de um rico e influente rancheiro da região. Para Len sua execução é completamente ilegal e por essa razão ele se compromete a levar Keith até um tribunal do júri na cidade de Santa Loma onde finalmente será devidamente julgado, perante um juiz de direito e um corpo de jurados, tudo como manda a lei. A jornada até lá porém não será tranquila e nem pacífica pois a família Roden está disposta a vingar a morte de um de seus membros. Esse western dirigido pelo mestre Raoul Walsh tem um argumento muito mais sofisticado do que pode parecer à primeira vista. A história não foge muito do que vemos na tela, com um obcecado homem da lei tentando seguir os trâmites legais a todo custo, mesmo sendo ameaçado e perseguido por um bando de justiceiros pelo deserto afora. A questão é que uma vez em Santa Loma - para onde está levando um acusado - ele descobre que nem sempre a justiça é devidamente feita pelos tribunais. Há uma série de influências econômicas, sociais e extra jurídicas que determinam se alguém é considerado culpado ou não. Durante a jornada até lá ele vai colhendo impressões e verdades sobre o homem que tem sob custódia e descobre que seu próprio julgamento pessoal, criado na convivência com o suposto criminoso, tem mais validade do que um apressado e mal feito julgamento na calada da noite. Só esse aspecto já tornaria o filme bem acima da média dos demais faroestes da época, mas há outras qualidades dignas de nota. Walsh rodou um filme enxuto, diria até econômico, porém muito bonito, em bela fotografia em preto e branco. Rodado no deserto da Califórnia, em belas locações com penhascos e rochas enormes, o filme se valoriza enormemente por causa desse cenário natural rico em bonitas paisagens. O elenco também é outro ponto forte. Kirk Douglas está de certo modo em seu tipo habitual, a do xerife durão, até insensível que carrega velhos traumas do passado, em especial uma certa culpa pelo que aconteceu ao seu pai anos atrás (ele também era um homem da lei íntegro que acabou sendo linchado por tentar cumprir o que dizia a letra fria do devido processo legal). Agora, firme em suas convicções, ele precisa levar o acusado perante um juiz para que seja devidamente julgado. A questão é que a filha do homem preso, interpretada pela linda atriz Virginia Mayo, também quer justiça, mas ao seu modo. Douglas e Mayo inclusive soltam faíscas de atração no meio do deserto. Uma dupla que deu muito certo e que trouxe muita paixão reprimida para a tela. Com cabelos curtinhos e jeito até bem rude, Mayo acaba roubando todas as atenções por causa de sua personalidade ao mesmo tempo geniosa e sensual. Então é isso. "Embrutecidos Pela Violência" é muito mais do que aparenta ser. Um bom argumento, bem sólido e coerente, apoiado por um enredo que não nega os mais tradicionais cânones do western americano. / Embrutecido Pela Violência (Along the Great Divide, EUA, 1951) Direção: Raoul Walsh / Roteiro: Walter Doniger, Lewis Meltzer / Elenco: Kirk Douglas, Virginia Mayo, John Agar, Walter Brennan.

A Floresta Maldita (1952)

Jim Fallon (Kirk Douglas) é um madeireiro astuto e falastrão que após ter vários problemas na costa leste resolve ir até as fronteiras do oeste selvagem em busca de novas florestas para devastar e fazer fortuna. Chegando na Califórnia ele encontra uma rica reserva natural mas encontra obstáculos para colocar as mãos em toda a matéria prima pois a terra é disputada por madeireiros rivais e um grupo religioso que pretende preservar as milenares árvores do local. Se fazendo passar por um rico milionário que quer apenas preservar a rica floresta ele acaba conseguindo finalmente a posse da mata. Agora terá que escolher entre explorar comercialmente a madeira do local ou ouvir sua consciência deixando intacta a floresta e suas árvores suntuosas e majestosas. Esse “A Floresta Maldita” tem um roteiro ecológico, e isso muitas décadas antes da ecologia virar moda. Claro que a consciência de se preservar as florestas não tem a mesma abrangência do que atualmente se vê mas mesmo assim o roteiro tenta de todas as formas mostrar que também é importante preservar a riqueza natural por sua importância para as futuras gerações. Embora seja um filme muito bem intencionado nesse aspecto “A Floresta Maldita” também apresenta problemas. Em vários momentos a estória se torna truncada e mal desenvolvida, há um excesso de detalhes jurídicos envolvendo a trama que só a torna cansativa e arrastada. O roteiro perde muito potencial discutindo quem seria o verdadeiro possuidor da floresta e quem teria o direito de explorar toda aquela madeira. O personagem de Kirk Douglas, por exemplo, passa quase todo o tempo tentando driblar a lei, forjando documentos falsos ou então elaborando novas fraudes para tomar conta de tudo. Isso acaba deixando o ritmo enfadonho e pouco atraente. As coisas de fato só melhoram mesmo quando o filme finalmente vai se aproximando de seu final. A questão jurídica é deixada de lado para apostar em boas cenas de ação. Na melhor delas o personagem de Kirk Douglas, tal como um Indiana Jones do faroeste, pula em cima de um trem em movimento que caminha para o abismo. Sua intenção é salvar a mocinha, separar o vagão onde ela está do restante da locomotiva e parar o mesmo antes que atravesse uma ponte de madeira sabotada!  Ufa! Cenas como essas literalmente salvam o filme da primeira parte mais arrastada e chata. No saldo final poderia realmente ser bem melhor mas do jeito que está até que diverte, apesar de alguns erros. Fica então a recomendação para os cinéfilos fãs do bom e velho Kirk Douglas. / A Floresta Maldita (The Big Trees, EUA, 1952) Direção: Felix E. Feist / Roteiro: John Twist, James R. Webb / Elenco: Kirk Douglas, Eve Miller, Patrice Wymore / Sinopse: Inescrupuloso e ganancioso madeireiro vai até a Califórnia com o objetivo de devastar uma rica floresta local. A tarefa porém não será nada fácil pois ele terá que enfrentar um grupo religioso que luta pela preservação da natureza e comerciantes de madeira rivais.

A Um Passo da Morte (1955)

Johnny Hawks (Kirk Douglas) lidera uma caravana de pioneiros no meio de um território indígena. Embora pacificadas as tribos do local vivem em tensão com os brancos por causa de minas de ouro recentemente descobertas. Um dos membros da caravana, Wes Todd (Walter Matthau), está particularmente interessado em descobrir o exato local dessas ricas minas. Para isso usará de todos os meios para ter em mãos a localização dessa imensa riqueza mineral. "A Um Passo da Morte" é uma produção de encher os olhos do espectador. O filme foi todo rodado na maravilhosa reserva natural de Bend, no Estado norte-americano do Oregon. Isso trouxe ao filme uma das mais belas fotografias que já vi em um faroeste dos anos 50. Rios de águas límpidas, montanhas e muito verde desfilam pela tela como um verdadeiro brinde aos espectadores. Junte-se a isso um bom roteiro, socialmente consciente, mostrando o profundo respeito dos índios em relação às riquezas naturais da região e você terá um belo western como resultado final. O filme é curto, menos de 80 minutos, mas muito eficiente. Um dos destaques é a ótima cena de ataque dos guerreiros Sioux contra o forte do exército americano. Usando de cavalos, flechas e lanças de fogo os indígenas demonstram ter bastante conhecimento de táticas de guerra e combate. A cena é excepcionalmente bem filmada e o próprio forte construído na locação impressiona pelo tamanho e realismo. Certamente não foi uma produção barata o que era bem do feitio do astro Kirk Douglas que sempre procurou o melhor em termos de produção para seus filmes. Aqui obviamente não seria diferente. Curiosamente o filme foi dirigido pelo húngaro André de Toth, um cineasta versátil que se saía bem dirigindo os mais diversos tipos de filmes, de faroestes a dramas, passando por alguns clássicos do terror (como "Museu de Cera" ao lado do amigo Vincent Price). Em conclusão recomendo sem hesitação esse excelente western bucólico, com lindas locações naturais, um belo romance ao fundo e muitas cenas de ação e conflitos. Está mais do que recomendado. / A Um Passo da Morte (The Indian Fighter, EUA, 1955) Direção: André de Toth / Roteiro: Frank Davis, Robert L. Richards / Elenco: Kirk Douglas, Walter Matthau, Elsa Martinelli, Lon Chaney Jr / Sinopse: Johnny Hawks (Kirk Douglas) lidera uma caravana de pioneiros no meio de um território indígena. Embora pacificados as tribos do local vivem em tensão com os brancos por causa de minas de ouro recentemente descobertas. Um dos membros da caravana, Wes Todd (Walter Matthau), está particularmente interessado em descobrir o exato local dessas ricas minas. Para isso usará de todos os meios para ter em mãos a localização dessa imensa riqueza mineral.

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em Lei e Sem Alma (1957)
Entre tantas histórias que ficaram célebres no velho oeste poucas conseguiram alcançar a fama do tiroteio ocorrido no Ok Corral em Tombstone, Arizona. De um lado o lendário xerife Wyatt Earp (Burt Lancaster), seus irmãos e Doc Holliday (Kirk Douglas), do outro lado o bando dos irmãos Clanton. Ambos se enfrentaram face a face, cada um a poucos metros do outro, armas em punho, um duelo que entrou para a história e que foi fartamente explorado no cinema durante todos esses anos. Esse "Sem Lei e Sem Alma" é até hoje considerado uma das melhores versões já feitas sobre o evento. O roteiro é extremamente bem trabalhado, nitidamente dividido em dois atos que se fecham e se complementam de forma perfeita. No primeiro ato acompanhamos a chegada de Wyatt Earp numa pequena cidade do velho oeste. Ele vem no encalço de Johnny Ringo (John Ireland) e seu bando. Lá se aproxima do pistoleiro e jogador inveterado Doc Holliday e acaba salvando sua vida ao ajudá-lo a fugir de seu próprio linchamento. No segundo ato encontramos os personagens já em Tombstone, a lendária cidade, onde nos 15 minutos finais do filme ocorrerá o famoso confronto no O.K. Corral. Burt Lancaster e Kirk Douglas estão perfeitos em seus papéis. Kirk Douglas em especial encontrou grande afinidade entre sua própria personalidade expansiva e extrovertida e a figura do lendário Doc Holliday. Esse como já tive a oportunidade de escrever é realmente um personagem à prova de falhas. Um dentista corroído pela tuberculose que ocupava todo seu tempo jogando cartas e se envolvendo em confusões pelas cidadezinhas por onde passava. O que fazia de Doc um ótimo pistoleiro é que seu instinto de preservação já não era tão acentuado pois sempre se via no limite, à beira da morte, por isso para ele tanto fazia morrer em um tiroteio ou escapar vivo para mais um duelo à frente. Sua frieza e pontaria certeira o transformaram em uma lenda do velho oeste. Já Wyatt Earp também encontrou um ator ideal em Burt Lancaster. Íntegro, honesto e temido, procurava manter a lei em uma região infestada de facínoras e bandoleiros. O duelo no O.K. Curral foi apenas uma das inúmeras histórias envolvendo esse famoso homem da lei. Para finalizar é bom salientar que a despeito de sua imensa qualidade cinematográfica, "Sem Lei e Sem Alma" não é completamente fiel aos fatos históricos. O próprio duelo final, razão de existência do filme, não ocorreu da forma mostrada no filme. De fato os eventos reais foram bem mais simples, pois os dois grupos rivais estavam frente a frente, a poucos metros uns dos outros. No filme há toda uma sequência de cenas que não existiram como a queima da carroça, por exemplo. Johnny Ringo, o famoso pistoleiro, também não estava no confronto do O.K. Ele foi morto tempos depois no meio do deserto. Suspeita-se que foi morto por Doc Holliday pois ambos tinham uma rivalidade antiga que só seria resolvida com armas em punho. De qualquer forma esses detalhes em nada diminuem a extrema qualidade de "Sem Lei e Sem Alma", que hoje é considerado merecidamente um dos melhores westerns já realizados. Uma obra prima certamente. / Sem Lei e Sem Alma (Gunfight at the O.K. Corral, EUA, 1957) Direção: John Sturges / Roteiro: Leon Uris baseado no artigo escrito por George Scullin / Elenco: Burt Lancaster, Kirk Douglas, Rhonda Fleming, Jo Van Fleet, John Ireland, Frank Faylen, Ted de Corsia, Dennis Hopper, DeForest Kelley, Martin Milner / Sinopse: Wyatt Earp (Burt Lancaster), seus irmãos e Doc Holliday (Kirk Douglas) resolvem enfrentar cara a cara um bando de ladrões de gado no O.K. Corral em Tombstone, Arizona.

Sua Última Façanha (1962)

Um grande filme! Resolvi assistir depois de tomar conhecimento de que esse era o filme preferido do próprio Kirk Douglas. Depois de conferir devo dizer que concordo com o ator em gênero, número e grau. Embora tenha estrelado vários e vários clássicos ao longo de uma das carreiras mais produtivas e bem sucedidas em Hollywood não há em sua extensa filmografia nenhum filme que tenha tanto coração e sentimento como esse. Um roteiro que lida de maneira primorosa com o fim de um amado estilo de vida que definiu vários dos grandes heróis da história dos EUA. O grande mérito aqui é que Douglas, o diretor David Miller e principalmente o roteirista Dalton Trumbo conseguiram reunir vários gêneros em um só filme, com resultado bem acima da média. Se pode pensar que "Lonely Are The Brave" é apenas um western temporão, de um estilo que já estava se tornando fora de moda, mas isso é uma visão simplista. O filme passeia tranquilamente por vários estilos e gêneros, tangenciando os filmes policiais, on the road e até mesmo os dramas românticos, isso sem perder a direção em momento algum. Passado no moderno oeste americano somos apresentados ao personagem John W. "Jack" Burns (Kirk Douglas). Ele é um velho cowboy que tenta manter vivo seu estilo de vida em um mundo que definitivamente nada mais tem a ver com o passado. No meio de auto estradas, aviões a jato e carros modernos, Burns tenta manter de alguma forma intacta a figura mitológica do cowboy do velho oeste. Claro que agindo assim ele logo encontra problemas com a lei, com a sociedade e com a mentalidade moderna. Os jovens o acham uma peça de museu mas ele insiste em manter sua dignidade intacta. Duas coisas impressionam no filme: O lirismo subliminar do roteiro e a eficiente caçada final a Burns em uma montanha rochosa íngreme. Algumas cenas são as melhores que já vi. Fiquei imaginando como devem ter sido complicadas as filmagens em loco, até porque subir com um cavalo em um ambiente daqueles é quase impossível (em muitos momentos fiquei realmente receoso do cavalo e do dublê de Douglas caírem montanha abaixo, tal o perigo das tomadas feitas). Em conclusão podemos afirmar que "Sua Última Façanha" é uma excelente crônica sobre a mudança de costumes que se sucedem de uma época histórica para outra. O velho mito que se depara com os desafios da modernidade. Em vista de tudo isso certamente vai agradar aos fãs de western e também aos que querem conhecer melhor essa fase de mudanças profundas no modo de viver dos mitos do passado. Vale muito a pena conhecer, certamente. / Sua Última Façanha (Lonely Are the Brave, EUA, 1962) / Diretor: David Miller / Roteiro: Dalton Trumbo / Elenco: Kirk Douglas, Gena Rowlands, Walter Matthau / Sinopse: Para libertar Bondi (Gena Rowlins), sua melhor amiga, Jack Burns (Kirk Douglas) deixa-se prender. Depois de saber que Bondi não quer sair de lá, Burns é tido como fugitivo e passa a ser perseguido pela polícia. Baseado no livro de Edward Abbey, The Brave Cowboy.

Gigantes em Luta (1967)
Terceira e última parceria entre os grandes astros John Wayne e Kirk Douglas. No filme Wayne interpreta Taw Jackson que resolve se unir ao pistoleiro e ladrão Lomax (Kirk Douglas) para colocar em prática um plano mais do que ousado: roubar um carregamento de ouro no valor de 500 mil dólares. O grande desafio deles é além de enfrentar a forte segurança que acompanha a fortuna, conseguir vencer a própria carroça que transporta o ouro pois essa é fortemente armada com um potente metralhadora, além de ser blindada, se tornando praticamente inexpugnável. “Gigantes em Luta” é um western de pura ação, com muitas cenas de conflitos e tiroteios. Durante as filmagens Kirk Douglas teve uma surpresa que o impactou. John Wayne havia perdido o pulmão em uma complicada operação três anos antes contra o câncer e estava bem debilitado fisicamente, precisando recorrer regularmente a uma bolsa de oxigênio para dar conta das complicadas filmagens (que lhe exigiam muito do ponto de vista físico). Douglas assim passou todo o tempo muito preocupado com o estado de Wayne, tendo que conciliar sua preocupação em atuar bem com a saúde do colega. Uma das “estrelas” do filme era a própria carroça blindada que levava o carregamento de ouro, chamada “War Wagon”. Durante anos ela foi exposta no parque temático da Universal ao lado de vários outros artefatos famosos de filmes clássicos. O curioso é que a “War Wagon” era na realidade feita de madeira pintada para parecer aço e ferro. Com o uso de efeitos sonoros (para recriar o som característico dos metais) completou-se a ilusão de que se estava na presença de uma carroça realmente blindada. O diretor de “Gigantes em Luta” era Burt Kennedy, que se deu tão bem com o astro Wayne que esse o trouxe de volta para dirigir “Chacais do Oeste” cinco anos depois. O diferencial é que Kennedy sempre procurava respeitar os limites que a saúde de John Wayne exigia. Assim ele procurava filmar as cenas com o ator de forma concentrada, para evitar deixar Wayne por longas horas à espera de trabalhar em suas cenas. Também sempre deixava o ator à vontade, sem aquele clima de tensão no set, algo bem típico de Hollywood. O resultado de tudo é mais um belo western na filmografia de John Wayne, aqui ao lado de outro mito do cinema americano, Kirk Douglas. Simplesmente imperdível para os fãs do gênero. / Gigantes em Luta (The War Wagon, EUA, 1967) Direção: Burt Kennedy / Roteiro: Clair Huffaker, baseado em sua novela, The War Wagon / Elenco: John Wayne, Kirk Douglas, Howard Keel, Robert Walker Jr, Keenan Wynn / Sinopse:  Dois ladrões se unem para roubar uma carroça blindada que transporta um grande carregamento de ouro no valor de 500 mil dólares.

Ambição Acima da Lei (1975)
Howard Nightingale (Kirk Douglas) é um delegado do Texas com grande ambição política. Pomposo e vaidoso transforma cada prisão que realiza em propaganda para sua campanha. Seu grande objetivo é ser eleito senador do Texas no congresso americano. Para isso viaja de cidade em cidade em sua própria locomotiva ao lado de seu grupo de auxiliares, todos impecavelmente bem vestidos. A grande chance de conquistar muitos votos surge na captura do bandido mais procurado do estado, o ladrão de trens Jack Strawhorn (Bruce Dern). Após eliminar todo o seu bando, Nightingale consegue encurralar o bandido perto de uma cidadezinha do velho oeste. Após a captura o leva para lá e realiza um verdadeiro comício com o evento, com direito a banda de música e tudo. Depois decide levar o criminoso para Austin onde pretende literalmente exibi-lo como troféu pelas ruas da grande cidade, obviamente tentando com isso angariar o maior número possível de votos para sua eleição ao senado. No caminho porém as coisas saem do controle e agora Nightingale terá que provar que não é apenas um político falastrão mas um delegado de verdade. “Ambição Acima da Lei” foi um projeto muito pessoal do ator Kirk Douglas. Aqui ele atua, dirige e produz um western dos mais interessantes, uma verdadeira crítica à classe política de seu país, onde homens públicos utilizam aspectos inerentes aos seus deveres para única e exclusivamente se auto promoverem. O delegado interpretado por Douglas é um sujeito que se torna extremamente ambicioso em alcançar uma carreira política de sucesso e se distrai de suas verdadeiras obrigações como homem da lei. O roteiro se aproveita para no final o colocar como vítima da ambição de seus homens, o fazendo saborear do próprio veneno. Aliás o clímax de “Ambição Acima da Lei” é um dos mais inteligentes do cinema americano. Muito ácido e corrosivo, expõe as vísceras dos homens públicos de lá. Outro aspecto a chamar a atenção é que o filme foi realizado em 1975, já no ocaso do gênero, com Kirk Douglas bem veterano, mas tentando manter a chama do faroeste acessa. O resultado não poderia ser melhor, um filme inteligente, intrigante e com um raro sabor de crítica social. / Ambição Acima da Lei (Posse, EUA, 1975) Direção: Kirk Douglas / Roteiro: Christopher Knopf, William Roberts / Elenco: Kirk Douglas, Bruce Dern, Bo Hopkins / Sinopse: Delegado do Texas (Kirk Douglas) não perde a chance de fazer campanha política por onde passa. Nem quando prende o mais perigoso bandido do estado deixa de se auto promover visando ser eleito ao senado dos Estados Unidos. Sua subida ao poder porém sofrerá uma série de problemas.

Cactus Jack - O Vilão (1979)
Um xerife do velho oeste que mais parece uma montanha de músculos chamado Handsome Stranger (Arnold Schwarzenegger) serve como escolta para a bela Charming Jones (Ann-Margret) mas ambos correrão grande perigo pois um perigoso vilão chamado Cactus Jack (Kirk Douglas) pretende colocar as mãos no dinheiro que ela carrega na viagem. Na década de 80 essa comédia passada no velho oeste ganhou várias reprises na TV aberta brasileira. È um tipo de estilo que certamente não agradará a todos. Se você é um fã de filmes de western então tudo ficará muito mais complicado pois o roteiro brinca bastante com os clichês do gênero. Para os fãs do astro brutamontes Arnold Schwarzenegger a produção vai servir como uma grande curiosidade uma vez que ele na época ainda não era o campeão de bilheteria dos anos que viriam. Seu papel é simpático e o fortão procura não estragar o estilo cômico da produção. Kirk Douglas e Ann-Marget da era clássica de Hollywood também não parecem se importar muito. Desligue o cérebro e tente se divertir. / Cactus Jack - O Vilão (EUA, 1979) Direção: Hal Needham / Roteiro: Robert G. Kane / Elenco: Kirk Douglas, Ann-Margret, Arnold Schwarzenegger, Footer Brooks.

Pablo Aluísio.