segunda-feira, 30 de março de 2009

Elvis Presley - Elvis as Recorded at Madison Square Garden (1972)

Esse disco foi lançado para celebrar a passagem de Elvis Presley por Nova Iorque em 1972. Na ocasião o cantor se apresentou em quatro concertos no Madison Square Garden, um dos locais mais prestigiados dos EUA, onde apenas grandes astros se apresentavam. Por essa época a carreira de Elvis se concentrava em suas temporadas na cidade de Las Vegas e nas extensas turnês que realizava, atravessando o país de costa a costa. Os shows em NYC nada mais eram do que a abertura de uma série de apresentações que Elvis realizaria no meio do ano. Em pouco mais de um mês Elvis cumpriria uma apertada agenda que incluiria ainda aparições em várias outras cidades, com destaque para uma outra série de concorridos concertos em outra grande metrópole americana, Chicago.

O que deveria ser apenas uma passagem por Nova Iorque acabou se tornando um evento da mídia, pois os jornais não deixaram por menos e fizeram uma extensa cobertura dos concertos de Elvis na Big Apple. Não era para menos, Elvis era um notório ausente no circuito de shows da cidade. Dificilmente se conseguia entender como um astro do porte de Elvis Presley nunca havia antes se apresentado numa das mais importantes cidades do mundo. As turnês eram visivelmente agendadas em cidades do interior, em locais muitas vezes nada condizentes com a fama e o status que Elvis ostentava. De qualquer forma agora Elvis estava na cidade e isso definitivamente causou um grande rebuliço entre os meios de comunicação. Até mesmo uma entrevista coletiva foi agendada para o cantor, algo que era extremamente raro para Elvis e sua equipe. Bem humorado, Presley não se fez de rogado e no meio das brincadeiras falou sobre sua carreira, a volta aos palcos e tentou explicar a razão de ter demorado tanto tempo para realizar shows na cidade. "Estávamos procurando um local adequado" - brincou.

O disco retrata bem o bom momento em que Elvis vinha atravessando. Existe consenso entre os biógrafos e estudiosos sobre o assunto que um dos períodos mais ricos e férteis da carreira de Elvis Presley vai justamente de sua volta aos palcos em 1969 até mais ou menos 1973, no Aloha. Nesses anos Elvis realizou ótimos concertos, gravou excelentes canções e voltou aos primeiros postos das paradas de sucesso. No Madison Square Garden temos um dos picos de criatividade de Elvis nos palcos. O repertório, bastante coeso e diversificado; a banda, extremamente entrosada e Elvis, com pleno domínio vocal, constituíram uma forte base no qual se fundou o enorme sucesso das apresentações do astro em Nova Iorque. Elvis lotou o Madison Square por quatro vezes seguidas e foi prestigiado na plateia com as presenças de grandes mitos da música como John Lennon e George Harrison, que não perderam a oportunidade de conferir o concerto de seu grande ídolo.

Tão boa foi a repercussão de uma maneira geral que mudou até mesmo os planos da RCA Victor. Inicialmente a gravadora havia posicionado seus equipamentos para gravar o concerto e aproveitar apenas algumas músicas para serem encaixadas na trilha sonora do filme Elvis On Tour. O sucesso porém foi tão positivo que os executivos resolveram cancelar a trilha e lançar o mais rapidamente possível o LP com a apresentação. A ideia deu certo e Elvis conseguiu uma excelente vendagem, se tornando o disco um dos mais representativos de sua carreira. A decisão foi acertada sem dúvida, principalmente em relação aos fãs que não puderam comparecer ao evento, além de trazer para os fãs internacionais a chance de ouvir pela primeira vez várias faixas inéditas dentro da discografia de Elvis, como por exemplo The Impossible Dream, For The Good Times e até mesmo An American Trilogy (cujo single não havia sido lançado em todos os países ao redor do mundo).

Recentemente uma séria de fotos inéditas desses concertos foram encontradas, gerando novamente um grande interesse pelo fato na mídia mundial. Nelas podemos perceber como o evento foi grandioso. Infelizmente nenhum registro fílmico oficial foi realizado, nessa que foi uma das decisões mais infelizes da carreira de Elvis pois os realizadores decidiram que o show não seria filmado profissionalmente. O que existe atualmente são apenas imagens amadoras ou semi amadoras que nos dão apenas uma pálida ideia da performance de Elvis. Nem mesmo as pretensas imagens feitas pelas emissoras de TV de Nova Iorque conseguem reparar o estrago feito de não ter se realizado um plano profissional de filmagem dos concertos. De qualquer forma o disco oficial está aí e nos deixou a música realizada nesse dia como um testemunho do grande astro que Elvis foi. Certamente nem mesmo a Big Apple resistiu ao seu grande talento.

Elvis Presley - Elvis as Recorded at Madison Square Garden (1972)
01. Also Sprach Zarathustra
02. That's All Right
03. Proud Mary
04. Never Been To Spain
05. You Don't Have To Say You Love Me
06. You've Lost That Lovin' Feelin'
07. Polk Salad Annie
08. Love Me
09. All Shook Up
10. Heartbreak Hotel
11. Teddy Bear/Don't Be Cruel
12. Love Me Tender
13. The Impossible Dream
14. Introductions by Elvis
15. Hound Dog
16. Suspicious Minds
17. For The Good Times
18. American Trilogy
19. Funny How Time Slips Away
20. I Can't Stop Loving You
21. Can't Help Falling In Love
22. Closing Vamp

Elvis Presley - Elvis as Recorded at Madison Square Garden (1972): Elvis Presley (voz e violão) / James Burton (guitarra) / John Wilknson (guitarra) / Charlie Hodge (violão e vocais) / Jerry Scheff (baixo) / Ronnie Tutt (bateria) / Glen Hardin (piano) / J.D.Summer and the Stamps (vocais) / The Sweet Inspirations (vocais) / Kathy Westmoreland (vocais) / Joe Guercio Orquestra / Harry Jenkins e Joan Deary (produção e arranjo) / Data de Gravação: 10 de junho de 1972, 8:30 pm / Local de Gravação: Madison Square Garden, Nova Iorque / Data de Lançamento: junho de 1972 / Melhor posição nas charts: #11 (EUA) e #3 (UK).

Pablo Aluísio.

domingo, 29 de março de 2009

Elvis Presley - He Touched Me (1972)

He Touched Me foi o terceiro e último álbum gospel da carreira de Elvis Presley. Lançado em 1972 o disco foi premiado com o prêmio Grammy na categoria "Melhor Interpretação Inspirativa" ainda naquele ano. Apesar de laureado pela academia musical He Touched Me não se tornou uma unanimidade entre os especialistas. Ao contrário dos discos evangélicos anteriores de Elvis esse não foi gravado em uma sessão exclusiva mas sim no meio da maratona de maio de 1971, sendo completado meio às pressas no mês seguinte em Nashville. Tanta correria e rapidez de certa forma acabaram prejudicando em parte o desenvolvimento do disco, cujo projeto deveria ter sido melhor trabalhado.

Um reflexo disso acabou aparecendo depois quando todos o ouviram pela primeira vez. Por causa da correria em finalizar o LP o produtor Felton Jarvis não conseguiu providenciar um arranjo mais original para as faixas do disco. Dessa forma quando surgiu nas lojas os principais críticos de música dos EUA foram quase unânimes em acusar o disco de simplesmente copiar linha a linha o arranjo e as harmonias das gravações originais. De certa forma havia razão por parte dos jornalistas e da crítica em geral. He Touched Me sofre bastante nesse aspecto. A impressão que nos passa é que realmente tudo foi gravado na pressa de finalizar o número de canções planejadas a tempo. Também pudera, Elvis vinha cumprindo uma extensa e apertada agenda de shows e temporadas ao vivo que acabavam sendo incompatíveis com as chamadas maratonas de gravação, como essa de 1971, praticamente a última grande sessão em estúdio da carreira de Elvis.

O álbum é puxado pela faixa título, na realidade um sucesso gospel de Bill Gaither, famoso compositor, músico e pregador americano. A canção é um spiritual ideal para o grupo The Imperials brilhar. O cantor por sua vez deve ter se sentido muito bem gravando essa faixa pois ela foi escrita  especificamente para ser executada por um quarteto gospel e não é segredo para ninguém que um dos maiores sonhos de Elvis era justamente esse, participar como vocalista de um grupo como o The Imperials (aqui brilhantemente o acompanhando). I´ve Got a Confidence, a faixa seguinte, demonstra a falta de um trabalho mais consistente de arranjo. A música mais parece uma jam session descompromissada.

Os grandes destaques do álbum realmente são as faixas Amazing Grace (clássico absoluto do repertório gospel americano, aqui muito bem executado por Elvis e seu grupo feminino de apoio), Bossom Of Abraham (com seu balanço que não deixa margens de dúvidas de onde proveio o Rock n Roll) e I, John (que acabou ganhando uma divertida cena no documentário Elvis On Tour). Enfim, He Touched Me é um disco que tem belos méritos e se peca por não ter sido muito original em seus arranjos se redime pela intensa dedicação de Elvis em dar o melhor de si nas músicas. No saldo final acaba sendo salvo do inferno de discos ruins da carreira de Elvis, o que por si só já é um grande milagre, amém.

Elvis Presley - He Touched Me (1972)
01. He Touched Me
02. I've Got Confidence
03. Amazing Grace
04. Seeing Is Believing
05. He is My Everything
06. Bosom of Abraham
07. An Evening Prayer
08. Lead Me, Guide Me
09. There Is No God But God
10. A Thing Called Love
11. I, John
12. Reach Out to Jesus

Pablo Aluísio.

sábado, 28 de março de 2009

Elvis Presley - Elvis On Tour The Rehearsals

Quando esse CD foi lançado eu escrevi aqui mesmo em nosso site o seguinte: "Todos sabem que Elvis On Tour possui um rico acervo de material inédito, não só de imagens gravadas para o filme e que nunca foram utilizadas, mas também de músicas e versões que estão arquivadas há anos pela gravadora de Elvis. Esse é só um exemplo do que nunca foi mostrado antes. São ensaios feitos por Elvis dentro do projeto Standing Room Only, que depois foi renomeado para Elvis On Tour. Mas é sempre bom ressaltar que isso é apenas uma pálida amostra do que está por vir nos próximos anos. Esperamos que o tão aguardado e prometido DVD venha com grande parte desses arquivos perdidos. Só nos resta esperar e torcer!" Um ano depois ainda estamos em compasso de espera. De qualquer forma esse CD é a prova viva de que muito material de excelente qualidade ainda está por aí, ou efetivamente arquivado pela EPE e pela BMG ou então esquecido em algum depósito da MGM, apenas esperando para finalmente sair à tona!

Porém isso não é tudo, fora essas duas hipóteses, existe uma terceira via que cada vez mais tem se destacado na divulgação dessas imagens e registros. Enquanto as empresas oficiais que cuidam do acervo de Elvis não lançam quase nada de forma legal, vai o mercado paralelo ficando cada vez mais organizado e sofisticado e com o auxílio da Internet temos tido acesso a várias imagens desse projeto, cenas essas que muitos nem sequer sabem como surgiram ou como apareceram na web! Quem são essas pessoas que, pela primeira vez, resolveram colocar essas imagens na net? Certamente, temendo um processo por violação de direitos autorais, muitos colecionadores procuram o anonimato e disponibilizam apenas alguns trechos desse filme. Apesar de muitos que apenas distribuem esse material assumirem uma posição de terem sido os que primeiro colocaram esses tapes pela net, sabemos muito bem que são apenas os atravessadores disso. Os verdadeiros colecionadores, aqueles que conseguiram os originais, as masters dos fotogramas no mercado negro, nunca irão aparecer de forma ostensiva. É a velha história, quando as pessoas que deveriam promover esse tipo de lançamento se omitem ou escondem esse material dos fãs em geral, acabam na verdade, com essa atitude, promovendo e abrindo espaço para que outros entrem nesse vácuo deixado e lancem eles mesmos, fragmentos desse acervo de forma ilícita.

Processo muito semelhante aconteceu com o especial "Elvis In Concert" de 1977. Desde o começo, a empresa que cuida dos direitos de Elvis, tentou varrer para debaixo do tapete esse programa de TV. A razão absurda apresentada seria a de que o especial iria macular a imagem de Elvis! Isso só vem demonstrar a imensa futilidade e falta de percepção da obra de Elvis por parte daqueles que hoje controlam o acervo do cantor. Como se pode ignorar um material desses e de tamanha importância histórica apenas porque Elvis não apresentava um bom aspecto físico? Esse tipo de atitude e de postura sempre me deixou bastante atônito! Os efeitos dessa omissão proposital da EPE são conhecidos de todos, pois o especial não deixou de chegar nas mãos dos fãs, a verdade é que ele chegou sim, porém de forma ilegal em cópias piratas. O que foi pior no final das contas? Com a tecnologia de nosso tempo não há como negar ou ignorar a existência de um projeto como esse, que repito, é muito importante, pois traz Elvis em seus últimos shows pelos EUA. Com "Elvis On Tour" temos uma situação parecida. Lançar o filme tal como foi apresentado nos cinemas em 1972 não irá trazer grandes novidades, principalmente para aqueles que sempre se empenharam em enriquecer suas coleções particulares.

Para esse tipo de público um DVD apenas com o filme seria banal demais. Por quê não resgatar todos os momentos perdidos que fizeram parte desse filme? O próprio diretor Martin Scorsese, que participou da montagem do documentário, sempre deixou claro em entrevistas que muito material foi descartado e não entrou na montagem final. Não estou falando de pequenos trechos, de filmagens rápidas de ensaios, nada disso, o que ele quis deixar claro é que existem shows inteiros filmados! Mas afinal aonde foi parar todo esse material? Talvez a péssima situação financeira da MGM nos últimos anos tenha colaborado para agravar esse quadro. Talvez a existência de grande parte desse material seja simplesmente ignorada pela própria empresa, ou ainda que muito provavelmente a MGM tenha um arquivo em más condições, podendo até mesmo grande parte desses registros ter se deteriorado pela passagem do tempo, quem sabe toda a verdade? Uma das hipóteses mais comentadas seria aquela em que afirma que os próprios funcionários dessa companhia teriam repassado a colecionadores esses trechos arquivados. Muito do que se vê e se conhece hoje desse projeto pode ter sido adquirido justamente dessa forma. Afinal espera-se de tudo de funcionários em uma empresa à beira da falência. Mesmo que grande parte dos direitos da MGM tenham sido repassados à frente para pagar suas contas, temos que entender que o que foi negociado foi a versão oficial do filme e não seus trechos não utilizados. Esses continuaram perdidos nos labirintos que formam os arquivos de uma companhia com quase 100 anos de existência! Imagine só a imensidão, o mar de películas fechadas e arquivadas em seus imensos depósitos! São exatamente essas cenas, que não entraram no corte final do filme, que possuem importância hoje para os fãs de Elvis. Outra coisa muito comentada: todo projeto de Elvis, após sua conclusão, era repassado para o Coronel Parker. O empresário então arquivava todo o material.

Teria a parte inédita, não utilizada, desse filme, também sido repassado a Parker? Ou será que simplesmente lhe foi dada pela produtora a versão oficial do filme e nada mais? Parker sabia certamente do valor desse tipo de coisa, principalmente após a morte de Elvis. Teria ele guardado algo a sete chaves do "Elvis On Tour"? O Coronel sempre estava fazendo insinuações sobre coisas inéditas que tinha sobre a carreira de Elvis. Infelizmente ele nunca resolveu provar suas afirmações. Quando morreu ficou a dúvida: O Coronel realmente tinha seu próprio tesouro de coisas inéditas ou só estava querendo fazer média com a EPE? Com sua morte tudo ficou em aberto e sem resposta. Vamos supor que tudo seja verdade, que o Coronel realmente possuía o que sempre afirmou ter em suas mãos, caso isso seja verdadeiro o que teria acontecido com esse "tesouro perdido" que foi arquivado pelo Coronel por anos e anos? Há uma corrente de autores que afirma que Parker guardou tudo para depois ter uma "carta na manga" e a utilizar como uma eventual garantia futura contra o espólio de Elvis, principalmente depois que ele perdeu grande parte dos direitos autorais sobre a obra do cantor, após aquele processo movido contra ele por Priscilla e a EPE! Jogador inveterado como era, Parker realmente nunca iria ficar sem um coringa escondido na manga para utilizar contra Priscilla ou quem quer que seja. Afinal estamos falando de Tom Parker, uma das pessoas mais astutas que já viveram no show business. E o que aconteceu com todo esse suposto material inédito guardado pelo Coronel após sua morte? Teria alguma pessoa envolvida com o espólio do Coronel passado trechos inéditos à frente?

Essas cenas inéditas de "Elvis On Tour" estariam vindo também dos arquivos de Tom Parker? Tudo entra no campo das especulações. Toda essa exposição serve para demonstrar ao fã como é complexo e vasto falar sobre o material inédito do projeto "Elvis on Tour". Isso dá margem a muita especulação, muitas teorias de conspiração! Para falar a verdade o "Elvis On Tour" acabou se tornando mesmo o "Santo Graal" da carreira de Elvis. Isso só vai acabar quando a EPE resolver colocar no mercado um DVD com tudo o que se especula existir e com tudo o que já é bem conhecido por todos! Até lá as visões, cada vez mais especulativas e contraditórias, irão prosperar. Não seria aqui o momento também para dissertar sobre o que já é ou não conhecido pelos fãs, o que já vazou ou não. Esse assunto é por demais extenso e fugiria ao tema proposto nessa análise. Sem dúvida posso até mesmo tratar com maiores detalhes sobre isso em artigos futuros, mas não nesse momento.

Temos agora que nos concentrar e nos focar especificamente no CD Elvis On Tour The Rehearsals, sem dúvida um ótimo lançamento do selo FTD (Follow That Dream). Comecemos pela Direção de Arte do CD. A capa traz um close do rosto de Elvis durante as sessões de gravação que deram origem ao disco. Sem dúvida é uma escolha interessante pois não deixa de ser tecnicamente simples, mas que de qualquer forma demonstra a inequívoca escolha por algo mais simplório e direto, sem superproduções. Qualquer fã irá associar rapidamente o conteúdo do disco com essa foto, pois certamente todos irão lembrar em poucos segundos das cenas de "Elvis On Tour", quando Elvis aparece cantando "Separate Ways". Não tem a virtuosidade de uma capa feita por Klaus Voorman e nem muito menos o classicismo de um Pietro Alfieri, responsável por tantas capas interessantes, inclusive da própria carreira de Elvis. É uma capa direta, sem maiores retoques ou firulas. Obviamente foi produzida para deixar claro para o consumidor do que se trata. Aliás esse direcionismo é encontrado também no título do disco, "Elvis On Tour - Os ensaios". Direto, simples, rápido e o mais importante, eficiente. Aliás vou aproveitar para abrir um parêntese aqui. Certamente um dos grandes pecados dentro da discografia de Elvis, principalmente durante os anos 70, reside justamente na fraca direção de arte de seus álbuns. São capas derivativas, sem grande cuidado técnico. Aliás, a bem da verdade, é até mesmo muito fácil de explicar porque as capas de Elvis durante os anos 70 são tão fracas do ponto artístico. O Coronel Parker impôs um regime de austeridade incrível. Nas capas de Elvis dos anos 60, principalmente de trilhas sonoras, logo notamos muitas fotos, ótimas contracapas, muita cor e alegria. Nos anos 70 as capas são simplíssimas, impessoais, burocráticas e tristes e as contracapas são, muitas vezes, pateticamente pobres do ponto de vista artístico. Veja o caso de dois discos de 1975, "Promised Land" e "Elvis Today".

Nada de maiores detalhes, apenas a lista seca das músicas sem nem ao menos a confecção de um design interessante. Muitas vezes a capa produzida para um projeto era aproveitado para outro e o pior, nada tinha a ver com o disco original para a qual elas foram confeccionadas. O caso mais conhecido é a do disco gravado no Madison Square Garden, cuja capa foi reaproveitada da nunca lançada trilha sonora do filme "Elvis On Tour". Veja a que ponto chegava o pão durismo de Tom Parker! Outro exemplo é a capa do disco "Elvis" de 1973, que nada mais era do que a capa não utilizada para o "Aloha From Hawaii". Esse último disco aliás possui uma capa original medonha, com um Elvis balofo e um satélite pessimamente montado sobre uma foto do planeta terra! Para piorar a ideia apelativa e fora de contexto ainda ousaram utilizar uma das mais infelizes fotos de Elvis já tiradas! A capa original do álbum duplo "Aloha" era tão feia que quando o disco foi relançado em CD resolveram fazer uma melhor, mais bonita. Um terrível atentado estético, certamente. Além de capas feias e pobres o Coronel Parker às vezes decidia que nem era preciso desenhar uma contracapa! Então ele simplesmente mandava aproveitar a capa para repeti-la na contracapa, como em "Raised On Rock". Enfim, a velha questão de se cortar os custos onde não se deveria. Enquanto outros grupos e cantores da época contratavam artistas plásticos renomados para elaborarem e criarem verdadeiras obras de arte para seus discos, Parker economizava seus níqueis. Passada essa análise inicial vamos agora nos ater às faixas do CD. Uma primeira constatação:

A Qualidade de Som é das melhores. Não poderia ser diferente, até mesmo em razão das circunstâncias em que o CD foi gravado. Os registros foram feitos por Elvis e banda no estúdio C da RCA e por essa razão aqui o ouvinte não vai encontrar muitos dos problemas de qualidade de áudio que ocorrem em outros títulos do selo Follow That Dream. São gravações profissionais, cercadas de todos os cuidados técnicos que se encontram nos grandes estúdios. Na verdade as existências dessas 19 canções se devem única e exclusivamente ao filme documentário "Elvis On Tour". Se não fosse pela necessidade que os diretores do filme sentiram em mostrar Elvis dentro dos estúdios ou ter material extra para uma eventual trilha sonora dificilmente Elvis teria participado dessa "sessão". Até mesmo porque todos sabem que Elvis odiava ensaiar! O repertório é o mesmo que ele utilizava nos palcos, sem grandes novidades. Um dos grandes interesses desse título talvez seja justamente esse, ouvir músicas exaustivamente tocadas por Elvis nas turnês sendo executadas dentro dos estúdios. Praticamente todas elas entraram no repertório de shows de Elvis nas primeiras apresentações em Las Vegas e nunca mais deixaram a set list dos concertos do cantor.

É o caso de Proud Mary, See See Rider, Polk Salad Annie, A Big Hunk O'Love ou até mesmo Johnny B. Goode. Muitos especialistas inclusive afirmam, com certa dose de razão, que praticamente todas as apresentações de Elvis durante os anos 70 derivariam insistentemente desses primeiros shows em Vegas. Realmente, se formos analisar bem, as temporadas de 69, 70, 71, e no mais tardar 72, iriam imperar de forma definitiva no que Elvis iria apresentar até o final de sua vida, com ocasionais e pontuais exceções. Por essa razão muitos autores afirmam que Elvis estacionou em seus últimos anos. Os shows eram praticamente iguais, as músicas muito raramente variavam e sem mudanças significativas Elvis ficou nos anos seguintes repetindo o mesmo repertório de seus primeiros shows no International Hotel (depois mudado para Hilton). E dentro dessa repetição insistente, poucas canções são mais representativas desse estado de coisas do que as acima citadas. Depois que surgiram, nunca mais foram descartadas por Elvis. Algumas ficaram fora dos concertos em determinadas épocas mas não tardavam a voltar depois. Várias são as razões que levavam Elvis a repetir ano após ano a mesma seleção musical. Além da facilidade que isso trazia para ele, sempre preocupado em não esquecer as letras das novas músicas, o próprio público também pouco colaborava para incentivar Elvis e banda a tomar novos rumos, produzir coisas diferentes. Preso dentro dessa situação Elvis pouco inovou em seus anos finais. Como o CD foi gravado em 1972 podemos perceber ainda algumas novidades de repertório, mesmo notando que Elvis começava, mesmo nesse ano, a se repetir, como podemos perceber na lista das canções presentes aqui.

A primeira faixa do CD, Proud Mary, por exemplo, pouco difere das versões ao vivo de que tanto conhecemos. Elvis está bem empenhado e o grupo a toca corretamente, mas é só. Praticamente igual à versão do disco "On Stage, February 1970", sem nenhuma novidade. Uma pena que Elvis não tenha aproveitado para trazer algo novo, diferente. Certamente se tivesse agido assim o interesse por essa faixa seria maior. Infelizmente ao invés de inovar, muitas vezes ele ficava entediado facilmente, como podemos perceber logo após. Polk Salad Annie já traz Elvis um pouco desligado e desinteressado de tudo à sua volta. Sutilmente Elvis vai levando ela meio que no controle remoto. Nas partes em que seu tédio é mais visível Elvis vai murmurando a letra. Nem no final eletrizante Elvis se empolga e termina a canção com um indisfarçável ar de preguiça ao bocejar "blablablablablabla...." Difícil segurar o riso ao perceber como Elvis estava de saco cheio nessa gravação! A seguinte, See See Rider, é tecnicamente semelhante também às primeiras versões da temporada de 1970. Fico admirado em perceber como Elvis não se cansou dessa música! Foram anos e anos cantando "See See Rider", em centenas de shows, praticamente sem interrupção! Em 1972 ele já teria interpretado exaustivamente essa canção dezenas e dezenas de vezes e mesmo assim continuou com ela nos anos seguintes, muitas vezes sem demonstrar sinais de aborrecimento. Talvez ela tenha sido ideal para abrir os shows por ser empolgante, contagiante e o mais importante para Elvis, ter uma letra de fácil assimilação, até porque ninguém quer começar um concerto errando a letra da música de abertura, logo de cara! Enfim, essa versão de "See See Rider" é perfeita e impecável. Vale muito ouvi-la em estúdio.

Então chegamos em Johnny B. Goode. Sinceramente, muitos críticos crucificam Elvis Presley e afirmam que ele teria tomado um rumo fácil em seus anos finais, vivendo basicamente da nostalgia de seus fãs! E o que dizer de um artista como Chuck Berry? (autor dessa canção). Posso afirmar, sem medo de ser injusto, que Berry, apesar de ser um talento inigualável, vive praticamente de suas canções dos anos 50 até hoje! Se isso não for estagnação não sei mais o que poderia ser! Vamos ser corretos em um ponto: pode até ser que Elvis realmente tenha ficado parado no tempo em seus shows, sem grandes inovações, vivendo realmente basicamente de suas velhas canções. Mas esse estado de coisas nem sempre pode ser transferida para sua carreira nos estúdios. Em seus discos Elvis procurou trazer muito material inédito, tanto que muitas vezes era criticado por confundir qualidade com quantidade! Os discos de Elvis em estúdio dos anos 70 registram um cantor antenado com novos compositores e novas tendências musicais (claro que restritas em sua área de atuação e estilo). Elvis e seu produtor Felton Jarvis procuraram andar em uma tênue linha que não separasse os novos sons e o legado do passado glorioso do próprio Elvis. Seguir em frente sem esquecer o caminho já percorrido.

E se todas essas músicas anteriores representam uma certa falta de renovação por parte de Elvis, as que vêm a seguir demonstram exatamente o contrário, pois são as novidades, as faixas inéditas que Elvis tinha para apresentar em sua carreira naquele momento. Burning Love era a primeira preciosidade. Muitos afirmam que Elvis tinha um certo pé atrás em relação à música. Em um primeiro momento realmente Elvis não a quis gravar. Achou a canção um pouco fora do contexto do material que ele vinha gravando na época. Mas ele acabou sendo incentivado não só por seu produtor como também pelos outros músicos presentes. No final a música acabou se tornando seu grande hit nos 70's. Essa versão que ouvimos no "Elvis On Tour - Rehearsals" é mais contida, com menos energia por parte não só de Elvis como da banda também. Naquela ocasião a canção era recentíssima dentro do repertório de Elvis e ele obviamente estava ainda se acertando durante os ensaios. A única singularidade dessa versão surge no finalzinho da faixa: Elvis tira uma pequena brincadeira com a vocalização feminina.

Always On My Mind vem logo a seguir. Essa música foi o melhor e maior exemplo de sucesso póstumo da carreira de Elvis. Burning Love foi o single mais vendido de Elvis durante os anos 70 e Always on My Mind? Não chegou nem ao Top 100 da Billboard. Como explicar tamanho sucesso nos dias de hoje? O caminho de Always on My Mind foi muito curioso. Inicialmente ela foi gravada para fazer parte do disco Standind Room Only, trilha sonora do segundo documentário feito por Elvis nos anos 70. Depois de gravar cenas de Elvis gravando essa e Separate Ways para o filme, a trilha foi cancelada por Felton Jarvis. O nome do filme foi mudado para Elvis On Tour e Always on My Mind foi renegada a um lado B de um single do Rei nos anos 70. O Lado A, Separate Ways, conseguiu entrar no Top 20 da Billboard mas "Always" foi totalmente ignorada pelo público. O Coronel ainda a utilizou para lançar um disco de preço promocional de mesmo nome do single e depois disso Always on My Mind foi completamente esquecida. Detalhe mais do que curioso: Nunca foi lançada no Brasil durante a carreira de Elvis. O tempo passa, Elvis morre e a música continua completamente obscura e perdida dentro da vasta discografia de Elvis. Só os fãs mais conceituados a conhecem, não por sua falta de qualidade, nada disso, muito pelo contrário, mas por ter sido tão mal lançada na época. Hoje muitas pessoas que assistem Elvis On Tour em sua versão original estranham muito o fato de aparecer Elvis cantando Separate Ways e não Always on My Mind. Isso demonstra que ela nunca foi uma música de ponta durante a carreira de Elvis. Aliás sequer foi utilizada por ele durante os shows dos anos 70!

Pois bem, passam-se muitos anos até que o grupo Pet Shop Boys lança uma versão de Always on My Mind que estoura em todas as rádios do mundo todo. A música fica conhecidíssima e sua melodia se torna muito, mas muito popular. Em uma entrevista na BBC de Londres um dos vocalistas do Pet afirma que a música é na realidade uma versão de uma antiga canção de Elvis Presley. Mas ninguém a conhecia, pois muitas pessoas, no máximo, se lembravam da versão de Brenda Lee. Os radialistas ingleses começam a procurar a tal versão de Elvis e começam tocar a Always on My Mind do Rei do Rock nas rádios, muitas vezes em dobradinha com a versão do Pet Shop Boys. A RCA corre e relança a canção dessa vez com toda a campanha de marketing a que ela tem direito. Nasce o maior de todos os hits póstumos de Elvis Presley. Para terminar a consagração Priscilla Presley escolhe a canção como tema da minissérie "Elvis e Eu". A metamorfose estava completa. "Always on My Mind" se tornava assim a canção super popular que todos conhecem nos dias de hoje. Como diria Paul McCartney essa música teve que percorrer um longo e suntuoso caminho (The Long and Winding Road, título de uma das mais belas canções dos Beatles) para se tornar o que ela hoje é. Essa versão que está nesse CD é de excelente nível.

Separate Ways que vem para fechar o disco demonstra a grande qualidade do material gravado por Elvis na época. Com um arranjo fabuloso e uma grande performance do cantor, ela é certamente uma das mais biográficas canções já interpretadas por Elvis. A letra caiu como uma luva e retrata fielmente os problemas pessoais dele em seu casamento. Como todos sabemos, o divórcio de sua esposa Priscilla colocou Elvis em um caminho sem volta de autodestruição. O intérprete estava se separando de Priscilla, dando início a um período extremamente conturbado de sua vida. O grande momento desse CD, porém, não vem dessas novas canções de Elvis, como "Always On My Mind" ou "Separate Ways", mas sim de um antigo clássico, um tanto esquecido, mas de uma beleza ímpar, que ganha uma nova leitura. Quem já ouviu o CD sabe do que estou falando.

Trata-se de uma versão de Young and Beautifull, balada dos anos 50, mais especificamente do filme "Jailhouse Rock", que ganha um tratamento todo especial por parte de Elvis e banda. Antes de mais nada é bom deixar claro que se trata de um ensaio, como o próprio nome do disco deixa claro, isso é até óbvio, mas a despeito disso não podemos ficar menos do que surpresos com a qualidade final da faixa. A canção começa meio sem querer, Elvis cantarola suavemente a introdução da música e o resto da TCB começa o acompanhamento. Após um pequeno deslize, em que Elvis se confunde com a letra, ele vai muito bem na execução até seu final. Infelizmente Elvis não a incluiu efetivamente em seu repertório de shows nos anos 70. Ao invés disso ele continuava a preferir incluir pela centésima vez nos concertos músicas como Love Me, Hound Dog ou Lawdy Miss Clawdy, todas presentes no disco também. Sinceramente, tem coisa mais chata que esse arranjo de "Hound Dog"?! A música perde seu sentido original, seu arranjo marcante, e se torna uma paródia de si mesma, que inclusive foi até mesmo usada em shows a exaustão, chegando a aparecer em discos oficiais ao vivo. É mais uma versão medíocre de seus antigos clássicos, daquelas que mal ultrapassavam mais do que um minuto de duração. Elvis certamente poderia passar sem essa. "Lawdy, Miss Clawdy" tem mais dignidade, sendo muito mais fiel à gravação dos anos 50, mas mesmo assim não traz nenhuma novidade mais digna de nota! Por fim "Love Me" é totalmente de rotina. Você já ouviu esse arranjo e essa execução um milhão de vezes antes em milhões de discos diversos de Elvis ao vivo. Por essa razão pode pular essa faixa sem problemas.

As demais faixas do CD não trazem grande novidade. For The Good Times e Funny How Times Slips Away são apenas interessantes. A segunda, pela própria beleza da melodia é muito superior à primeira, que também é rotineira e sem surpresas. El Paso que está creditada entre as duas nem sequer merecia essa distinção. Aqui é um arremedo de ensaio, Elvis só canta o comecinho e o resto da faixa fica no lenga lenga dos músicos tentando acertar seus instrumentos. Desculpe mas isso não deveria ter sido creditado no CD, isso nem sequer é um faixa de verdade, é um arremedo sem importância. Soa até mesmo como pegadinha, o consumidor lê no encarte "El Paso" e pensa que é algo inédito, uma música que ele não tem em sua coleção e por isso decide comprar o CD. Imagine a cara de decepção do sujeito quando coloca o CD para tocar e ouve isso. A FTD aqui pisou na bola feio. Chamem urgentemente o Procon! Resumindo: um minuto e seis segundos de enrolação e nada mais!

Com Help Me Make it Through The Night e Release Me acontece uma coisa interessante: as versões são superiores às oficiais. Com o clássico de Kris Kristoferson isso é até fácil de entender o porquê! Existe o consenso de que a versão do disco "Elvis Now" é muito mal gravada e interpretada. Qualquer outra versão com o mínimo de fluidez e desenvolvimento iria superá-la facilmente. Basta ouvir os primeiros acordes para todos entenderem a razão dessa minha afirmação. Essa versão desse CD é muito mais interessante, mais leve, com Elvis mais à vontade. Na versão oficial Elvis soa cansado (e cansativo), a faixa tem uma sonorização esquisita e abafada demais e o grupo apenas se arrasta lentamente e tediosamente ao lado de Elvis. Uma pena que o cantor não tenha naquela ocasião gravado uma levada bem mais leve e menos chata como aquela que ouvimos. Já com "Release Me" a razão é diferente, diversa. Não que a faixa ao vivo, oficial, do disco "On Stage" não seja boa, nada disso. Ela é excelente. O que acontece é que como essa é gravada em estúdio tem muito mais qualidade sonora e de arranjo. Ouçam como ela é muito mais suave, tem muito mais ritmo, enfim como ela é agradável. Nas gravações ao vivo existe toda aquela produção inerente aos concertos para causar impacto no público. Todos aqueles arranjos de metais, muitas vezes super exagerados! Mas ouça essa versão. Nada disso está presente. Elvis, a banda TCB e os vocalistas de apoio estão totalmente entrosados, estão ótimos. Repare como até mesmo o grupo vocal de Elvis está bem mais discreto e oportuno.

Já em relação aos tapes de The First Time I Saw Your Face e Never Been To Spain acontece justamente o contrário pois elas são bem piores do que às versões oficiais. O caso de "The First Time" é bem exemplificativo disso. A versão original é irretocável e perfeita. Tentar chegar perto de sua grande qualidade seria muito complicado para Elvis e seus músicos. Extremamente bem produzida a canção era de difícil reprodução, não só em estúdio mas também e principalmente nas versões ao vivo. O próprio início da canção já começa de forma esquisita com uma introdução que inexiste na master definitiva. Depois dessa derrapagem inicial a música se normaliza mas em nenhum momento consegue se igualar à versão oficial que saiu em single. Sua velocidade original está acelerada, com isso a música perde algumas de suas características mais conhecidas como a suavidade e a melodia sutil. Do jeito que está fica mais para uma boa marcha do que para sua linda linha melódica original. Se "First" está rápida demais, "Never Been To Spain" está excessivamente lenta. Talvez isso nem seja um ponto totalmente negativo porque assim ela estará fazendo jus ao seu ritmo que é o blues. De qualquer forma fica a sensação de que ela poderia ser bem melhor. Talvez por ser apenas um ensaio Elvis fique no piloto automático. É compreensível.

Enfim, o CD FTD Elvis On Tour The Rehearsals é bastante interessante. Ele certamente não é o melhor lançamento desse selo e nem tampouco fica entre os piores. Seus pontos fortes se concentram na boa qualidade sonora, na coesão contextual e histórica das faixas, da seleção em si, e no bom trabalho de resgate que ele nos proporciona. Além disso é muito interessante para quem já não aguenta mais ouvir músicas como See See Rider ou Proud Mary ao vivo. Apesar de tudo não deixa de ser prazeroso ouvir todos esses momentos em estúdio. Seu principal ponto negativo talvez provenha da falta de grandes novidades, da ausência de versões que nos surpreendam mais. Ele passa longe de ser totalmente burocrático como outros lançamentos desse selo como por exemplo "Summer Festival" e nem tampouco é tão revelador como outros da série, mas certamente marca pontos interessantes principalmente por fazer parte de um projeto que tem muito ainda a revelar. Não é ainda o que todos esperamos, mas é, como o próprio título do CD sugere, um ensaio do que ainda está por vir. Quem viver verá!

Pablo Aluísio.

sexta-feira, 27 de março de 2009

Elvis Presley - Separate Ways / Always On My Mind

Em 1972 Elvis lançou em single uma das canções que se tornariam símbolo de sua carreira: Always On My Mind. Essa música foi o melhor e maior exemplo de sucesso póstumo da carreira de Elvis. Isso porque quando ela foi lançada originalmente em 1972 como lado B de Separate Ways passou em brancas nuvens. Burning Love, por exemplo, foi o single mais vendido de Elvis durante os anos 70 e Always on My Mind? Não chegou nem ao Top 100 da Billboard. Como explicar tamanho sucesso nos dias de hoje? O caminho de Always on My Mind foi muito curioso. Inicialmente ela foi gravada para fazer parte do disco Standind Room Only, trilha sonora do segundo documentário feito por Elvis nos anos 70.

Depois de gravar cenas de Elvis gravando essa e Separate Ways para o filme, a trilha foi cancelada por Felton Jarvis. O nome do filme foi mudado para Elvis On Tour e Always on My Mind foi renegada a um lado B de um single do Rei nos anos 70. O Lado A, Separate Ways, conseguiu entrar no Top 20 da Billboard. O coronel ainda a utilizou para lançar um disco de preço promocional de mesmo nome e depois disso Always on My Mind foi completamente esquecida. Detalhe mais do que curioso: Nunca foi lançada no Brasil durante a carreira de Elvis. O tempo passa, Elvis morre e a música continua completamente obscura e perdida dentro da vasta discografia de Elvis. Só os fãs mais conceituados a conhecem, não por sua falta de qualidade, nada disso, muito pelo contrário, mas por ter sido tão mal lançada na época.

Muitas pessoas que assistem Elvis On Tour em sua versão original estranham muito o fato de aparecer Elvis cantando Separate Ways e não Always on My Mind. Isso demonstra que ela nunca foi uma música de ponta durante a carreira de Elvis. Passaram-se muitos anos até que o grupo Pet Shop Boys lançou uma versão de Always on My Mind que estourou em todas as rádios do mundo todo. A música ficou então conhecidíssima e sua melodia se tornou muito, mas muito popular. Em uma entrevista na BBC de Londres um dos vocalistas do Pet afirmou então que a música era na realidade uma versão de uma antiga canção de Elvis Presley. Mas ninguém a conhecia. Os radialistas ingleses começaram a procurar a tal versão de Elvis e então promoveram a Always on My Mind do Rei do Rock nas rádios, muitas vezes em dobradinha com a versão do Pet Shop Boys.

Não tardou para a RCA aproveitar o momento e relançar a canção dessa vez com toda a campanha de marketing a que ela tinha direito. Assim nasceu o maior de todos os hits póstumos de Elvis Presley. Para terminar a consagração Priscilla Presley ainda a escolheu como tema da minissérie "Elvis e Eu". A metamorfose então estava completa. "Always on My Mind" se tornava assim a canção super popular que todos conhecem nos dias de hoje. O fato da canção só ter se tornado o hit que conhecemos muitos anos depois da morte de Elvis explica o porquê do cantor nunca tê-la cantado ao vivo. Para Elvis a música passou completamente despercebida e não teve qualquer repercussão em sua carreira, muito embora sua letra diga muito sobre o problema pelo qual ele estava passando (com o fim de seu casamento com Priscilla). O tempo porém lhe fez justiça.

Pablo Aluísio.

quinta-feira, 26 de março de 2009

Elvis On Tour (1972)

No verão de 1972 Elvis foi informado pelo coronel Parker que a MGM estava interessada em filmar um documentário que mostrasse suas concorridas turnês pelas cidades dos Estados Unidos. A direção seria entregue a um dos maiores documentaristas em atividade e o aclamado diretor de cinema Martin Scorsese iria coordenar parte dos trabalhos de edição e montagem. Em Las Vegas, nesse mesmo mês, Elvis se encontrou pessoalmente com os produtores Pierre Adidge e Bob Abel. A conversa foi muito franca, tanto do lado de Elvis como dos produtores que lhe disseram abertamente: "Depois do sucesso do filme Woodstock entendemos Ter chegado o momento de filmar um documentário mostrando a origem de tudo isso, desse movimento social: você! Não gostamos de That's The Way It Is e seus filmes dos anos 60 foram tão ruins que ficamos até surpresos em como a MGM conseguiu comercializá-los. Apreciamos seu trabalho atual, mas preferimos as músicas que você cantava nos anos 50" Elvis, por sua vez, disse que não se sentiu muito à vontade nos estúdios da MGM durante as gravações de "That's The Way It Is" por causa das enormes câmeras de cinema que foram instaladas durante as filmagens, atrapalhando o movimento e a espontaneidade dele e do seu grupo de apoio.

A conversa se prolongou e foi muito produtiva, os realizadores prometeram a Elvis que ele seria filmado por câmeras especiais, do tipo portátil e que seu raio de ação não seria limitado por falta de espaço como no caso de "That's The Way It Is". Pierre Adidge disse a Elvis, com seu forte sotaque francês, que esse filme seria produzido com a utilização do que havia de mais moderno em termos de edição de filmagem. Tudo seria de primeira linha. Elvis deveria se mostrar de forma autêntica, agir de maneira habitual e espontânea, e não se importar com a equipe de filmagem que iria acompanhá-lo para todos os lugares. A intenção era filmar Elvis não só no palco, mas também nos camarins, no contato com os fãs, interagindo com os músicos, sem roteiros ou scripts pré determinados, tudo o que se queria captar era a verdadeira essência do mito Elvis Presley. Para tanto a equipe da MGM já começaria a gravar algumas cenas como teste nos seus próximos shows e iria acompanhá-lo nos estúdios da RCA em sua próxima sessão de gravação onde ele iria registrar novas músicas - entre elas uma tal de "Always On My Mind" e outra de um novo compositor, uma canção que Elvis tinha ouvido e que não tinha muita certeza se deveria gravá-la: "Burning Love"!

A parte da direção musical ficaria inteiramente sob controle de Elvis e de seu produtor Felton Jarvis, sem intervenção do pessoal da MGM. Três dias depois Elvis se reuniu com a TCB Band e os avisou que sua próxima turnê seria filmada para o cinema. Elvis resolveu providenciar uma mudança no repertório com a introdução de novas canções nos shows. Trabalho duro pela frente!. Enquanto a RCA lançava o single "American Trilogy" - com "The First Time Ever I Saw Your Face" no lado B - Elvis começava sua turnê no leste do país, com a MGM gravando tudo o que acontecia nessa primeira rodada de shows. Elvis foi filmado dentro do avião, antes dos shows, conversando com fãs, enfim, todo o delírio que acontecia ao redor de uma turnê do rei do rock foi registrado pelo pessoal do estúdio. Mais de 250 pessoas da equipe de filmagem acompanharam Elvis e banda nesses quinze shows realizados em várias cidades, como Buffalo, Indianapolis, Detroit, Dayton, Hampton Roads, Knoxville, Charlotte, Macon e Jacksonville. Segundo alguns membros da equipe que participaram do time da MGM mais de 40 horas de material foram filmados para "Standing Room Only" – o nome original do filme, depois mudado para "Elvis On Tour" (Elvis Triunfal no Brasil) – mas que nunca foram mostrados ao público. Shows inteiros foram filmados e não aproveitados, ficando no chão da sala de edição de Martin Scorsese.

Esse precioso material pode um dia ser lançado, mas atualmente jaz nos arquivos dos estúdios MGM em Hollywood. Sem dúvida muita coisa foi gravada, mas a principal apresentação de Elvis nessa turnê ficou de fora!!! Talvez o pior erro cometido pelos produtores de "Elvis On Tour" foi não Ter filmado os shows de Elvis no Madison Square Garden em Nova Iorque. Até hoje a MGM não consegue dar uma resposta satisfatória por ter deixado passar essa apresentação – uma das mais importantes da carreira de Elvis – em branco. Como é que cometeram uma bobeada dessas? Durante a coletiva à imprensa em NY os jornalistas perguntaram a Elvis e ao Coronel porque não iriam ser filmados seus shows no MSQ? Os dois saíram pela tangente e não souberam responder a pergunta!!! – até mesmo porque essa era uma decisão da Metro e não de Elvis e nem do Coronel Tom Parker. Ninguém sabe ao certo porque essa infeliz decisão de não filmar em Nova Iorque foi tomada.

A última coisa a ser gravada para esse documentário foi uma entrevista particular que Elvis deu nos estúdios da MGM para os realizadores da película. A intenção era usar esses trechos falados entre as imagens com cenas dos shows, mas essa ideia foi abandonada depois. Essa entrevista que continua em grande parte inédita até hoje é um raro registro onde Elvis falou sobre tudo: a origem de sua música, seus ídolos de infância, sobre sua vida pessoal etc. Desse rico material só foi aproveitado um pequeno trecho em áudio, de alguns segundos, que foi utilizado durante as cenas de Elvis na TV americana nos anos 50.

A revista Rolling Stone não poupou elogios e afirmou que "Finalmente havia sido lançado o primeiro filme de Elvis Presley". O coronel Parker já estava por essa época em negociações com a TV para a realização de um grande especial com Elvis, que iria ser transmitido via satélite para o mundo. Por isso pressionou os produtores para lançarem "Elvis On Tour" logo, pois caso contrário o filme iria acabar se transformando em concorrência para o especial de TV. O pior aconteceu com a trilha sonora do filme. Parker simplesmente resolveu cancelar seu lançamento, pois ele estava mesmo apostando em dois outros projetos de discos gravados ao vivo – um no Madison Square Garden e outro do especial via satélite – e por essa razão se tornava inviável o lançamento de mais um disco ao vivo. Três discos iguais, com apresentações ao vivo de Elvis, seriam demais para o mercado! Mas uma coisa é certa: todo esse trabalho acabou valendo muito a pena. Quando foram anunciados os nomes dos filmes que iriam concorrer ao Globo de Ouro - o segundo mais prestigiado prêmio da indústria cinematográfica dos Estados Unidos, atrás apenas do Oscar - "Elvis On Tour" estava presente na lista, disputando na categoria de "melhor documentário do ano".

Elvis, bastante nervoso, acompanhou a noite de premiação de sua suíte no Las Vegas Hilton. Quando o mestre de cerimônias finalmente leu o nome do ganhador de melhor documentário do ano de 1972 – "Elvis On Tour" de Pierre Adidge e Bob Abel – Elvis deu um pulo da poltrona e simplesmente explodiu de felicidade! Não havia espaço dentro da suíte para tamanha comemoração por parte de Elvis e dos caras da Máfia de Memphis! O Rei também não deixou barato e nessa mesma noite deu uma das maiores festas que Las Vegas já presenciou! Todos correram para cumprimentá-lo e lhes dar os parabéns. Elvis não se conteve de tanta alegria e entre abraços, lágrimas e risos anunciou com muito orgulho que finalmente havia vencido o Globo de Ouro. Era a primeira vez que um filme de Elvis Presley ganhava um prêmio dessa importância. Foi uma das maiores glórias de sua já tão gloriosa carreira. Elvis estava mais do que nunca... Triunfal!

Pablo Aluísio.

quarta-feira, 25 de março de 2009

Elvis Presley - Elvis Now (1972)

Elvis Now - 1972 foi um ano de grande correria para Elvis. Além de lançar vários LPs e Singles o cantor ainda gravou um filme registrando seus Shows, "Elvis On Tour" (Elvis triunfal, 1972) e também cruzou os Estados Unidos de costa a costa, sem contar ainda com suas temporadas anuais em Las Vegas. Tudo isso aliado a diversos outros problemas que ocorriam em sua vida pessoal como a separação definitiva de sua esposa Priscilla. Este Disco foi gravado em meio a este turbilhão de acontecimentos e registra de certa forma o cansaço físico e emocional de Presley. Deve-se ressaltar porém que mesmo em momentos difíceis Elvis conseguia produzir grandes momentos que sem dúvida estão presentes neste disco. A vida de Elvis Presley nesta época se resumia a viajar de cidade em cidade, um show a cada noite, em um ritmo tão frenético, que às vezes, o cantor nem sabia direito aonde se encontrava. Nos anos 70 Elvis fez mais de mil shows, nos cinquenta Estados da federação americana. A rotina do Rei do Rock era sempre a mesma: viagem, hotel, show, viagem, hotel, show... Muita correria, o que fazia muitas vezes Elvis perder o controle do que estava acontecendo. O crítico do jornal Los Angeles Times escreveu na edição de 25 de fevereiro de 1972: "O novo disco de Elvis Presley é bom, na realidade é muito melhor do que alguns outros lançamentos deste mês, mas Elvis está ficando intimista demais, romântico demais, country demais, a hora é de Presley lançar um disco de Rock 'n' Roll e sustentar o título que ele sempre ostentou". De qualquer forma o disco "Elvis Now" (LSP 4671) apresenta as seguintes canções:

HELP ME MAKE IT THROUGHT THE NIGHT (Kris Kristofferson) - Sucesso do cantor e ator Kristofferson lançado pelo selo Columbia em 1971. Foi lançada ainda nas vozes de Sammi Smith e Joe Simon. Elvis abre o disco com esta música country bem ao estilo "Nashville". Elvis Presley e seu produtor Felton Jarvis não foram fiéis a versão original acelerando seu ritmo um pouco para dar mais consistência musical à canção.

MIRACLE OF THE ROSARY (Lee Denson) - Como quase todos os discos de Presley nos anos 70 este também traz em seu repertório uma música Gospel. Elvis simplesmente adorava estas canções que traziam em suas letras o sentimento religioso típico das famílias cristãs, do sul dos EUA. Neste mesmo ano Presley iria gravar mais um LP só com canções Gospel que se intitularia "He Touched Me". Mais um trabalho musical de Elvis Presley no estilo Gospel.

HEY JUDE (Lennon/McCartney) - Um dos maiores sucessos dos Beatles. Música símbolo do final dos anos 60. Foi lançada no primeiro single dos Fab-four pela sua recém criada gravadora, a Apple. Elvis a gravou em janeiro de 1969 em Memphis, no American Studios, naquela sessão que foi considerada a melhor de sua carreira durante os anos 60. Finalmente depois de 10 anos estrelando filmes musicais fracos, o Rei voltava a gravar canções de alto nível artístico, como esta que marcou a época do "Flower Power".

PUT YOUR HAND IN THE HAND (Gene McLellan) - Sucesso de Anne Murray. Elvis gravou esta canção no dia 08 de junho de 1971, nos Estúdios B, da RCA, em Nashville. Esta sessão é histórica, porque se tornou a última de Presley em Nashville, a capital mundial da música country. Sem dúvida nesta cidade Elvis gravou algumas das músicas mais populares do século XX. A partir desse momento, Elvis iria gravar seus LPs somente em Memphis, seja em estúdios localizados na cidade ou em sua casa, Graceland.

UNTIL IT'S TIME FOR YOU TO GO (Marie) - Sucesso na voz de Neil Diamond em 1971, mas lançada antes por Buffy Sainte-Marie, pelo selo Vanguard no mesmo ano. A Versão de Elvis foi lançada como lado principal de um single em Janeiro de 1972, com "We Can Make the Morning" no lado B. Elvis resolveu regravá-la, pois achou a sua primeira versão ruim. Mas no final a nova versão ficou pior e Felton Jarvis, seu produtor, resolveu usar a original mesmo.

WE CAN MAKE THE MORNING (Jay Ramsem) - Canção que fez parte do single lançado no começo de 1972, junto com "Until It's Time For You To Go". Nestas sessões de gravações, que deram origem a este disco, o cantor gravou mais de trinta músicas, que posteriormente seriam lançadas em vários outros trabalhos importantes de sua carreira, como por exemplo: "Elvis Now", "Elvis", "He Touched Me" e "Elvis sings the Wonderfull World of Christmas". Sem dúvida nos anos 70 Elvis Presley foi o maior "Hit Maker" da Indústria fonográfica.

EARLY MORNING RAIN (Gordon Lightfood) - Sucesso country de Peter, Paul and Mary nos anos 60. A Versão de Elvis Presley foi gravada no dia 15 de março de 1971. Era uma de suas preferidas, estando sempre presente em seus shows, como pode-se constatar nos discos "Elvis in Concert" e "Alternate Aloha". Vale salientar que ela foi utilizada e gravada em uma versão de estúdio para o "Aloha From Hawaii" em 1973.

SYLVIA (Geoff Stephens/Les Reed) - Grande sucesso de Elvis Presley no Brasil. Assim como "Kiss me Quick" esta música somente alcançou todo este sucesso em terras Brasileiras. Tamanho foi seu sucesso por aqui que a RCA Brasileira a colocou abrindo o Lado 2 do Disco. Foi gravada em junho de 1970 junto com as canções do disco "That's The Way It Is".

FOOLS RUSH IN (Rube Bloom/Johnny Mercer) - Lançada originalmente por Johnny Mercer nos anos 30. Posteriormente foi gravada por Glenn Miller e Frank Sinatra. A Versão de Elvis porém copia os arranjos da versão de Rick Nelson, que foi lançada em 1963 pelo selo Decca. Inclusive o guitarrista James Burton participou de ambas as versões. Rick Nelson considerava Burton como seu músico exclusivo e ficou muito magoado quando este o deixou, para trabalhar com Presley no lugar de Scotty Moore, como o guitarrista oficial do Rei.

I WAS BORN ABOUT TEN THOUSAND YEARS AGO (Arranjos: Elvis Presley) - Esta música é a mesma que foi "picotada" entre as faixas do LP "Elvis Country". Aqui ela aparece completa da forma como foi gravada em meados de 1970. Essa canção acabou servindo de inspiração para outro roqueiro famoso: Raul Seixas. Fã confesso de Elvis Presley sua "versão" Eu Nasci Há Dez Mil Anos Atrás acabou se tornando um de seus maiores sucessos. Durante anos pairou a dúvida entre a música de Elvis e a música de Raul até que tudo foi esclarecido por Paulo Coelho durante uma entrevista para o programa Fantástico da Rede Globo onde ele declarou: "Realmente, a letra foi inspirada na música do Elvis. Era uma maneira de Raul prestar sua homenagem ao seu maior ídolo". "Elvis Now" foi lançado em fevereiro de 1972 e foi criticado por um cronista que afirmou que o título do disco era exagerado pois Elvis tinha gravado estas músicas já há algum tempo. Coisas do Coronel Tom Parker.

Elvis Presley - Elvis Now (1972): Elvis Presley (voz, violão e piano) / James Burton (guitarra) / Chip Young (guitarra) / Charlie Hodge (violão) / Norbert Putnam (baixo) / Jerry Carrigan (percussão e bateria) / Kenneth Buttrey (bateria) / David Briggs (piano) / Joe Moscheo (piano) / Glen Spreen (orgão) / Charlie McCoy (orgão, harmônica e percussão) / The Imperials (vocais) / June Page, Millie Kirkham, Temple Riser e Ginger Holladay (vocais) / Al Pachucki (engenheiro de som) / Arranjado e produzido por Felton Jarvis / Data de Gravação:6 e 8 de junho de 1970, 15 de março, 15 a 21 de maio e 8 a 10 de junho de 1971 nos Estúdios B da RCA em Nashville / Data de Lançamento: fevereiro de 1972.

Pablo Aluísio.

terça-feira, 24 de março de 2009

Elvis Presley - Elvis Sings The Wonderfull World of Christmas (1971)

Elvis estava relaxando e se recuperando em seu camarim, durante o período que antecedia o midnight show em Las Vegas durante o mês de fevereiro de 1971, quando recebeu um telegrama da RCA Victor assinado pelo executivo Harry Jenkins informando-o que os estúdios em Nashville estavam prontos para recebê-lo entre os dias 15 a 20 do mês seguinte para uma nova maratona de gravações. Assim que terminasse sua agenda de shows em Vegas Elvis teria que voar imediatamente para Nashville para gravar novas canções de estúdio para seu novo álbum. O texto também informava que a direção da RCA havia decidido que Elvis deveria gravar um novo disco com músicas natalinas e que para isso lhe seria enviado uma série de demos e discos de demonstração com canções desse estilo, entre as quais ele poderia escolher suas preferidas para compor esse seu novo trabalho. Elvis, sentado em sua cadeira em frente ao espelho do luxuoso camarim estendeu a mão e deu o telegrama para Joe Esposito ler: "Dê só uma olhada nisso, Joe!" – disse balançando a cabeça em sinal de desaprovação. O desânimo era visível no semblante do cantor. Joe leu o teor da mensagem e compreendeu o motivo do desapontamento por parte de Elvis. "Bem Elvis, talvez eles saibam o que estão fazendo!" – disse Joe tentando amenizar a situação. "Duvido muito Joe! Sempre quando esses caras da RCA interferem em minha música eu sofro as consequências, recebo todas as críticas negativas, no final sempre pago o preço desse tipo de coisa sozinho!", desabafou o cantor.

No fundo Elvis sabia que o velho fantasma de suas trilhas sonoras ridículas e impostas pelos estúdios durante os anos 60 sempre iriam macular seu status de artista e interprete relevante e receava que tudo voltasse agora, com um novo projeto totalmente fabricado pelos executivos de Nova Iorque. Pessoas que, segundo a visão de Elvis, não sabiam nada de música! Gravar todos aqueles discos de filmes tinha sido um tremendo erro em sua passado e agora ser levado novamente a embarcar em um projeto do qual não acreditava trazia imediatamente à sua lembrança aquele período negro de sua carreira. Gravar um novo disco de natal, justamente agora que ele procurava produzir bons álbuns e apresentar bom material e de qualidade era um tremendo retrocesso em sua visão. Naquele momento Elvis estava disposto a não embarcar nesse projeto, a rejeitar a ideia dos executivos da RCA (afinal ele nem tinha sido consultado sobre isso!) e comunicar sua decisão ao Coronel Parker após o show. Não foi preciso. Em poucos minutos Parker entrava nos camarins para verificar se tudo estava bem com sua "propriedade". Encontrou um Elvis abatido e cabisbaixo, sem o ânimo necessário para alguém que iria enfrentar um show em poucos minutos. Parker mandou os membros da Máfia de Memphis saírem para deixá-lo a sós com o deprimido superstar. "O que está havendo Elvis?"- disparou Parker sabendo muito bem que o cantor não se encontrava em um bom estado emocional naquele momento. "A velha história se repete Coronel...Os caras da RCA querem que eu grave um novo disco de natal. Eu não quero gravar mais canções de natal, simplesmente não dá mais para gravar esse tipo de coisa. Por que não editam novamente o disco dos anos 50?" – perguntou Elvis. Tom Parker sentou-se ao lado de Elvis e vendo que a situação poderia lhe fugir ao controle começou a expor seus argumentos ao seu pupilo: "Elvis, isso não é uma coisa tão séria assim para você se preocupar, sabe? Eles estão com a razão. Não há mais como relançar novamente o Elvis Christmas Album depois de todos esses anos. A direção da RCA tomou essa atitude por uma razão bem simples: suas músicas natalinas sempre venderam muito bem no final de ano, durante as festas, e já é hora de apresentar material novo nesse estilo. Seus fãs querem isso, não os chefões da RCA, entende meu ponto de vista? São seus fãs que querem ouvi-lo novamente cantando canções de natal!".

Elvis ficou em silêncio ouvindo os argumentos do Coronel, fitando e mexendo seus diversos anéis. Parecia antes de tudo distante e desapontado. Durante a conversa Elvis não olhou para o Coronel, que ficou o tempo todo ao seu lado tentando convencê-lo a se submeter aos desígnios da grande multinacional. Mesmo com seu esforço de persuasão os argumentos pareciam não fazer efeito. Elvis não parecia nada convencido e por fim disparou: "Gravar essas músicas não me interessa, além do mais elas não se parecem em nada com o tipo de trabalho que venho mostrando atualmente para meus fãs, não quero fazer o disco!". Tom Parker entendeu que não adiantava pressionar naquele momento, pois não queria impor uma decisão ou passar a imagem para Elvis de alguém que estava forçando uma situação. Calejado pela vida e profundo conhecedor da personalidade facilmente irritável do artista, preferiu jogar panos quentes no assunto, pelo menos por enquanto. Então a velha raposa simplesmente disse ao Rei, que agora estava de pé, em frente ao grande espelho, verificando se tudo estava em ordem para sua entrada no palco: "Vamos fazer o seguinte: não fique abatido por isso, prometa apenas ouvir as músicas que a RCA vai enviar a você, depois iremos discutir sobre a gravação desse disco, ok? Faça o show tranquilamente e depois resolveremos esse problema, certo assim?". Elvis timidamente balançou a cabeça e se dirigiu para fora de seu recinto privativo para encontrar seu staff pessoal que iria conduzi-lo até o palco, para que ele assim finalmente fizesse seu concerto. Não parecia nada animado, sua melancolia era agora cada vez mais aparente. A temporada em Vegas transcorreu normalmente e o assunto não foi mais mencionado entre Elvis e o Coronel Parker. Então no dia 15 de março Elvis chegou à Nashville para o início de suas sessões de gravação.

Ele havia feito péssimo vôo, estava se sentindo mal, tinha enjoado durante o percurso, se queixava de fortes dores de cabeça acrescida de uma pressão incomum sentida sobre seu globo ocular e para falar a verdade não estava com a mínima vontade de gravar. Mesmo assim tentou seguir em frente. Quando chegou aos estúdios estava com péssima aparência: olheiras visíveis demonstrando que não tinha dormido bem nas últimas semanas, cabelo despenteado, barba por fazer e com expressão de dor. Teve inclusive que ser amparado por seu homens para poder sair do carro em que estava. Depois de realizar tantos shows em Las Vegas Elvis estava simplesmente muito estressado e exausto para cumprir uma maratona de gravações em Nashville. Além disso estava sentido dores cada vez mais agudas e latentes em seu olho esquerdo. Felton Jarvis ficou um pouco assustado com a aparência abatida de Elvis, mas mesmo assim resolveu dar prosseguimento aos trabalhos. Começou a tocar alguns demos natalinos para Elvis, para que ele finalmente decidisse quais canções iria gravar. O cantor ficou o tempo todo sentado em uma cadeira ao lado de uma caixa de som, mostrando total desinteresse pelas canções. A aversão de Elvis foi aumentando a cada música demonstrada a ele, até que finalmente pediu a Jarvis que parasse com as execuções. Elvis olhou ao seu lado e disse à sua banda: "Bom, vamos gravar alguma coisa por enquanto, depois a gente volta para esse material de natal, ok?". Dito e feito. Com a mudança de direção Elvis até mesmo se animou e conseguiu se empolgar um pouco. Pediu uma garrafa de água e começou a conversar com os caras da banda. Sugeriu ótimas músicas para salvar a sessão como "The First Time Ever I Saw Your Face", "Early Morning Rain", "For Loving Me" e a sua preferida na noite: o Gospel "Amazing Grace", que o levou a praticamente renascer dentro do estúdio. Novamente ligado no que estava acontecendo à sua volta, Elvis resolveu escrever ele mesmo um novo arranjo para a famosa música religiosa, depois discutiu com os caras da banda a melhor forma de gravá-la, enfim, era o Elvis Presley dos bons tempos que todos conheciam. As músicas natalinas ficariam para depois, até mesmo porque Elvis não tinha o menor interesse pelo material apresentado por Felton Jarvis. Ele não conseguiu se conectar com as músicas de natal. Na verdade ele havia até mesmo comentado com James Burton dentro da sala de gravação: "...essas músicas de natal são ruins demais, puxa vida!". Todos riram, o que foi ótimo, pois levou a amenizar bastante o clima de tensão que pairava no ar. Depois de algumas horas ali gravando as músicas não natalinas escolhidas por ele, Elvis chamou todos os presentes e os reuniu em uma sala adjacente ao estúdio principal: "Eu quero comunicar a vocês que estou cancelando o restante das sessões, vou hoje mesmo para Graceland. Não estou me sentido bem, sinto dores, estou cansado, indisposto e minha voz está no limite. Não quero gravar nada nesse estado. O pessoal de Los Angeles está dispensado e o de Memphis segue comigo hoje mesmo para casa. Vejo vocês depois! Estão todos livres! Obrigado e fiquem com Deus!" Poucos minutos depois Elvis embarcava de volta para Graceland.

Ao chegar foi imediatamente atendido por uma junta médica que constatou que ele tinha uma séria lesão no globo ocular esquerdo (provavelmente causada pelos fortes holofotes em seus shows) e que deveria se internar imediatamente para novos exames. Nenhuma luminosidade seria suportada pelo olho lesionado e assim o cantor adotou, por orientação médica, um tapa olho preto que logo virou piada entre os caras da máfia de Memphis. O Coronel Parker também logo foi informado que Elvis estava de licença médica por dois meses e que todos os seus compromissos deveriam ser cancelados. Elvis respirou aliviado e se trancou em seus aposentos para tratar de sua saúde e principalmente descansar. Agora o objetivo principal para ele era dormir o máximo que pudesse para se recuperar das longas noites mal dormidas em Las Vegas. Duas semanas depois o Coronel ligou de Los Angeles para ele em Graceland: "Elvis, você ouviu as músicas natalinas? A direção da RCA está me cobrando uma posição de sua parte!" do outro lado da linha cheia de interferência o Coronel conseguiu perceber o estado emocional deprimido do cantor que ao falar, apenas disse de forma melancólica: "Ouvi as músicas...são horríveis...não me interessa..." - então fez-se uma longa pausa, com Elvis em total silêncio - finalmente ele disse: "...depois lhe retorno com alguma decisão, não estou com estado de espírito hoje para esse tipo de conversa..." e desligou. O Coronel ficou preocupado. Parker não tinha costume em encontrar tanta resistência assim por parte de Elvis. Tudo levava a crer que depois de tanto material medíocre imposto por ele e pela RCA ao cantor ao longo dos anos, finalmente Elvis parecia agora encontrar disposição em dizer não a projetos nos quais ele não acreditava mais. O Coronel Parker então decidiu abrir um espaço para Elvis se refazer e depois partiu para o ataque. Um mês depois o Coronel chegou à Memphis para ver como Elvis estava e intensificou sua propaganda do disco de natal, sempre passando a idéia de que ele seria um grande sucesso, que com esse LP Elvis iria novamente alcançar as primeiras posições, que tudo seria ótimo para sua carreira e blá, blá, blá... Elvis começou a se encher daquela conversa.

Em uma noite particularmente agitada em sua suíte, visivelmente alterado pelo uso de drogas, Elvis explodiu com o empresário após esse lhe sugerir pela milionésima vez a gravações das malditas músicas de natal: "Não aguento mais!!! Eu não vou gravar essas merdas!!! Essa porcarias da RCA, eu não vou gravar esse lixo!!! Me deixe me paz, pelo amor de Deus!!!" e bateu a porta na cara do Coronel. Sabendo do terrível temperamento de Elvis Tom Parker simplesmente se retirou de Graceland e orientou Joe Esposito a ficar de olho no cantor. No dia seguinte já estava pronto para telefonar para Felton Jarvis, produtor de Elvis na RCA, para lhe comunicar da decisão de Elvis em não gravar músicas natalinas em suas próximas sessões, quando foi surpreendido por um telefonema do próprio Elvis: "Coronel...sobre as músicas de natal..." – O Coronel nem deixou o cantor completar a frase e lhe disse: "Elvis, não se preocupe, vou entrar em contato hoje com o pessoal da RCA, não se preocupe.." – Elvis então lhe disse: "Não é isso... eu tomei uma decisão...eu vou gravar o disco de natal......no dia que vocês quiserem voarei para Nashville e farei o álbum.... Não quero mais me aborrecer por esse tipo de coisa. Eu o farei". Não havia nenhum sinal de animação ou contentamento na voz de Elvis, apenas de resignação mesmo. O Coronel ficou estupefato! Quem afinal poderia entender uma mudança tão brusca de decisão em menos de 24 horas? Elvis era assim mesmo, mudanças repentinas de decisão e de temperamento faziam parte de sua personalidade. O Coronel ficou muito contente e garantiu a Elvis que ele tinha tomado uma "ótima decisão" do qual "não iria se arrepender!". E assim foi feito. Elvis entrou novamente em estúdio no dia 15 de maio (exatamente dois meses após sua primeira tentativa frustrada de gravar as canções do disco de natal).

Ainda sem acreditar no disco e com uma certa má vontade Elvis começou a gravar as músicas. Para tornar um pouco menos penosa a tarefa de cantar tanto material horrível, Elvis também intercalava as gravações natalinas com várias jam sessions de canções Gospel, que no futuro iriam acabar sendo reunidas no premiado disco "He Touched Me". No fundo o cantor procurou antes de tudo ter uma postura eminentemente profissional. Se ele era um artista contratado pela RCA Victor, então cumpriria as determinações da sua gravadora. Como era muito eficiente em estúdio, desde seus primeiros anos, conseguiu finalizar o álbum em apenas duas noites. Alguns músicos que estiveram ao seu lado naquelas desanimadas sessões iniciais pensam que o fator predominante nem foi tanto a intenção de ser eficiente, mas sim de ser rápido o bastante para se livrar desse disco de uma vez por todas. Elvis queria antes de tudo gravar o material, evitar novos atritos com o Coronel e a direção da RCA e seguir em frente na sua carreira, esquecendo essa má experiência da forma mais indolor e célere possível. Em suma, ele seria profissional e completaria as músicas. Infelizmente porém o gosto amargo ficaria na boca por mais alguns meses. Ele sabia que todo o material era um desperdício de tempo e dinheiro e que não tinha o menor valor artístico. Mesmo querendo se livrar do disco logo, Elvis percebeu rapidamente que o famigerado LP iria persegui-lo por mais algum tempo ainda. O Projeto iria continuar, em um futuro não muito distante, a trazer vários aborrecimentos pessoais a ele. Definitivamente as coisas não melhoraram muito nos meses seguintes, principalmente quando Felton Jarvis comunicou a Elvis o nome do novo disco: "Elvis Sings The Wonderfull World of Christmas" (Elvis canta o maravilhoso mundo do natal). O Rei simplesmente odiou o título, que para ele era "completamente estúpido!", mas resolveu novamente se calar, só manifestando sua opinião pessoal para os mais próximos.

Depois outro aborrecimento surgiu quando a arte final da capa chegou em suas mãos: Elvis odiou muito a foto montagem feita com sua imagem, aonde colocaram a foto de sua face acoplada a um desenho de um Papai Noel balofo. Para quem lutava diariamente contra a balança, se deparar agora com um desenho que o retratava como um Papai Noel roliço não era das experiências mais agradáveis e o pior: o desenho iria sair na capa de um de seus próprios discos! Aquilo já era demais! Resolveu reclamar dessa vez. Chegou a comentar com Joe Esposito: "Aonde será que esses caras querem chegar??!! Meu Deus, não há limites para tanta mediocridade!!!" Tentou até mesmo impedir a reprodução da capa, mas o Coronel lhe informou que seria impossível pois todas já estavam impressas! Como não havia mais o que fazer, Elvis resolveu não se estressar mais e tomou a decisão de se divertir com o disco, fazendo piadas em cima de sua capa, de seu título, etc. Era um humor misturado com angústia e melancolia, pois apesar de rir do LP, Elvis sabia que os outros iriam criticá-lo por ter gravado tal material. Mas ele já tinha problemas demais e aquilo parecia ser o menor deles. Além do mais pensou: Quem sabe ele não estaria errado e os caras da RCA certos, não é mesmo? Podia ser até mesmo que "aquilo" fizesse sucesso! Quem sabe... O LP, finalmente, depois de sofrer muitas modificações promovidas pelo produtor de Elvis, foi lançado em outubro de 1971. A crítica caiu em cima, malhou impiedosamente o trabalho e culpou Elvis, o Coronel e o produtor Felton Jarvis pelo lançamento. Pelo menos dessa vez Elvis não levou a culpa toda sozinho como ele temia. De sua parte Elvis até mesmo se divertiu com alguns artigos e no final deu de ombros, declarando: "Eu tinha razão, esses caras da RCA não entendem nada mesmo de música!"...

Pablo Aluísio.

segunda-feira, 23 de março de 2009

Elvis Presley - FTD I Sing All Kinds

Devo confessar que recebi a notícia sobre esse lançamento sem muito entusiasmo. Não quero com isso afirmar que esse novo CD do selo Follow That Dream seria destituído de valor, nada disso, aliás muito longe desse tipo de afirmação. Recebi sem grande empolgação porque realmente não considero as sessões que Elvis realizou em Nashville em 1971 entre as mais inspiradas de sua carreira. Aliás devo ir além. Considero essas sessões limitadas, restritas e para dar voz aos setores mais críticos um verdadeiro desperdício de tempo por parte de Elvis e seu grupo.

Agora me explico. Esse set list por si só é extremamente limitado e restrito. Ao fazer uma análise sobre o conteúdo dessas sessões chegamos facilmente à conclusão que canções temáticas como as de natureza religiosa ou de temas natalinos por si só já ficariam restritas naqueles grupos que seguissem tal fé religiosa. Para ilustrar o que tento passar ao leitor vou me utilizar de um exemplo simples, para não dizer até mesmo simplório. Em um país essencialmente católico como o nosso o simples fato de algumas canções de Elvis Presley serem catalogadas nesse gênero já era por si limitante, tanto que nenhum de seus álbuns gospel conseguiu sequer ser lançado oficialmente em nosso país durante sua carreira. Não quero com isso desmerecer a importância das faixas religiosas, absolutamente não. Apenas quero ilustrar como, para alguém que procurava se firmar novamente na carreira após um período de crise artística, esse talvez não fosse o momento ideal para dar ao mercado de discos um novo LP com esse tipo de sonoridade. Outro problema se refere ao material natalino. Praticamente poucos países, fora os EUA, cultivam ou levam a sério esse estilo musical. Mesmo assim temos que convir que músicas de natal estavam bem fora de moda nos anos 70, mesmo naquele país.

Gravar músicas natalinas naquela altura era, para ser bem sincero, uma grande perda de tempo e dinheiro que traria muito pouco retorno para Elvis em termos de prestigio artístico. Em resumo, gravar músicas religiosas evangélicas eram limitantes e perder tempo registrando faixas de natal eram acima de tudo se limitar como cantor. Depois dessa rápida exposição sobram apenas um terço das sessões que poderiam ser dedicadas a material realmente relevante. Pouco, muito pouco. E mesmo assim, ao analisarmos essa terça parte final, verificamos facilmente que o resultado final não é muito positivo, que realmente as sessões em seu conjunto deixam muito a desejar. Ao se debruçar sobre o restante do material gravado por Elvis nessa ocasião, não posso deixar de ficar insatisfeito. As canções que compõem a parte, digamos assim, convencional, não temática, passam muito longe de nos presentear com algo que seja classificado como histórico ou lendário e ao invés disso nos deixa um sabor amargo de algo comum, ordinário (não no sentido pejorativo da palavra), vindo de um artista que pode ser denominado sem medo de errar com esses mesmos adjetivos a que citei no começo da frase. Em termos de comparação a situação só se agrava se formos comparar essas sessões de 1971 com as do ano anterior. Nada mesmo foi gravado de forma tão relevante aqui e nem muitos menos temos canções de porte como Bridge Over Troubled Water, a música que definiu de forma tão completa as sessões anteriores. O que nos resta então? Canções medianas e com toques da genialidade de Elvis em um ou outro momento. Talvez o FTD I Sing All Kinds tenha seu valor mais concretizado em seu ineditismo. Mas mesmo pensando sob esse ponto de vista não posso deixar de perceber que um CD apenas para resumir uma sessão que por si só deu origem a discos diversos da carreira de Elvis Presley vem apenas confirmar que em si essa sessão deixa e muito a desejar. Suas qualidades tiveram necessariamente de ser somadas para sustentar um único CD e não diversos específicos a cada álbum que conhecemos de sua discografia oficial. Eis aqui sua fragilidade definida em um fato do qual não podemos ignorar.

De qualquer forma vamos agora produzir pequenas pinceladas sobre cada faixa presente no CD, em nosso já conhecido método de se analisar faixa a faixa todos os registros deixados a nós pelo grande artista que Elvis Presley foi.

BOSOM OF ABRAHAM (William Johnson - George McFadden - Ted Brooks) - O CD abre com essa faixa gospel que foi gravada pela primeira vez pelo grupo The Golden Gate Quartet em 1938. Anos depois ainda ganharia uma releitura pelo mais que obscuro grupo The Trumpeteers no pós guerra. Embora todos saibamos que Elvis era um grande conhecedor da música religiosa norte americana, tanto que possuía vasta coleção desse gênero em sua casa, posso arriscar que sem dúvida o que o levou a gravar essa faixa em 1971 foi a versão produzida pelos Jordanaires em 1954. Esse tipo de conclusão chegamos ao ouvir as três versões originais citadas. Polida ao longo dos anos Bossom Of Abraham foi aos poucos deixando o som mais puro dos spirituals para flertar perigosamente com os novos ritmos que chegavam embalando a sociedade americana nos anos 50. Tanto isso é verdade que seu ritmo em muito lembra os primeiros registros desse novo idioma musical chamado Rock´n´Roll, produzindo uma curiosa aproximação entre o sagrado e o profano, o espiritual e o carnal. Temos aqui o take 4. Praticamente igual a todas as outras que conhecemos. Cercado por um grupo vocal gospel afinadíssimo, com músicos que conheciam muito bem a melodia em si, Elvis não teve muito com o que se preocupar. O take é praticamente perfeito do começo ao fim e poderia ter entrado em qualquer disco oficial de Elvis sem maiores problemas.

I'VE GOT CONFIDENCE (Andrea Crouch) - Andrea Crouch era um popular ministro religioso nas décadas de 1960 e 1970. Era um novo talento, alguém que ainda lutava para abrir caminho em sua trajetória artística, apesar de já naquela altura, 1971, ser bem reconhecido dentro da comunidade religiosa dos EUA. Para quem conhecia música gospel como a palma da mão Elvis logo tomou conhecimento de seus discos religiosos e se tornou grande admirador do trabalho desse pastor negro que, com sua música, deu um novo sopro de vida ao gênero durante aquele período. Era questão apenas de tempo Elvis vir a gravar alguma de suas canções e assim o fez finalmente nessas sessões de Nashville. A música escolhida foi justamente essa, que foi gravada pela primeira vez em 1969 por seu próprio autor. Aqui temos o take 1, a primeira tentativa de Elvis em gravar a canção. Bem mais rápida e acelerada que a versão original ainda temos um Elvis se acostumando com a canção. Mesmo assim podemos perceber que Elvis já a tinha ouvido tantas vezes na voz de Andrea que ela, apesar do compasso diferenciado, estava a poucos minutos de encontrar seu ponto ideal e se chegar ao take oficial.

AN EVENING PRAYER (C.M.Battersby - Charles H.Gabriel) - Depois de I´ve Got Confidence, faixa relativamente recente naquela época, Elvis mergulha fundo na história da música gospel e traz de volta uma canção que foi originalmente escrita em 1911! Esse fato tem explicação e não precisamos retroceder tanto para se saber em que momento essa canção religiosa capturou o gosto musical de Elvis Presley. Certamente a influência vital aqui é a versão do grupo Blackwood Brothers, um dos preferidos de Elvis. Embora músicos e cantores importantes como Jim Reeves e Mahalia Jackson tenham feito grandes gravações dessa música, foi a versão dos Blackwood Brothers que fisgou definitivamente Elvis Presley. Todos sabemos que um dos sonhos de Elvis em seu começo era cantar em um quarteto gospel. Esse sonho foi ainda mais acentuado por esses fantásticos cantores que resolveram se mudar para Memphis em 1950 dando inicio a uma longa e produtiva carreira, deixando profunda influência sobre o próprio som que Elvis iria desenvolver a partir de seu surgimento anos depois. Esse tipo de afirmação é facilmente perceptível logo nas primeiras notas ao piano da canção. O coro invade o ambiente e Elvis assume a música a levando em um ritmo cadenciado e terno para tudo terminar em final apoteótico de vozes em perfeita harmonia. Ao se ouvir esse take, de número 5, podemos facilmente chegar na conclusão que ele é praticamente definitivo.

FOR LOVIN' ME (Gordon Lightfoot) - Canção country que se destacou nas vozes dos componentes do grupo Peter, Paul and Mary nos anos sessenta. Interessante que muitos autores sempre gostam de frisar que nos anos 60 Elvis se isolou do cenário musical ao seu redor e se fechou em um casulo de canções fabricadas determinadas pelos estúdios de cinema. Sem dúvida em parte isso foi um fato verdadeiro. Porém se formos analisar a gravação de canções como essa nos anos 70 vamos perceber que Elvis não estava fora de sintonia com o que acontecia na música americana, apenas estava amordaçado por contratos leoninos a que tinha assinado. Aqui temos a versão que todos já conhecemos, a única novidade mesmo foi a introdução em que o grupo erra e volta para mais uma tentativa. Nesse aspecto acho que a inclusão aqui nesse CD foi puro desperdício.

EARLY MORNING RAIN (Gordon Lightfood) - Sucesso country de Peter, Paul and Mary nos anos 60. A versão oficial de Presley, que foi lançada no LP Elvis Now em 1972, foi gravada no dia 15 de março de 1971 nessas mesmas sessões de Nashville que estamos aqui analisando. Era uma de suas preferidas, estando bastante presente em suas apresentações, principalmente em seus últimos concertos realizados no período entre 1976 e 1977, onde Elvis realmente a cantou regularmente em muitas de suas turnês. Vale lembrar também que ela seria ainda gravada mais uma vez para o "Aloha From Hawaii" em 1973. "Early Morning Rain" é aquele tipo de canção que muito dificilmente você não irá apreciar. A música tem uma boa levada, melodia suave e relaxante e traz Elvis bem inspirado e envolvido. Acredito que mesmo aqueles que torcem o nariz para o gênero country vão apreciar sua melodia. Aqui temos o take 11, sem nenhuma grande diferença significativa em relação à versão oficial que conhecemos - exceto pela ausência de alguns instrumentos de sopro e da falta mais marcante do vocal de apoio.

FOOLS RUSH IN (Rube Bloom / Johnny Mercer) - Uma canção apenas mediana que a despeito de suas duvidosas qualidades melódicas alcançou uma incrível marca de regravações famosas desde que Johnny Mercer a lançou na década de 1930. Entre outros grandes nomes que fizeram suas próprias versões estão os consagrados Glenn Miller e Frank Sinatra. Porém nada dessa longa tradição foi reaproveitada por Elvis pois ele preferiu seguir quase que fielmente os arranjos da versão de Rick Nelson, que foi lançada em 1963 pelo selo Decca. Talvez o fato do guitarrista James Burton ter participado dessa versão de Nelson tenha colaborado decisivamente para a gravação sem grandes novidades por parte de Elvis Presley. Nesse CD temos o take de número 14, o que por si só já é uma surpresa, haja visto que nenhuma mudança significativa existe. Nos admira muito o fato de Elvis levar tantos takes para se chegar em um resultado significativo; como disse antes, a canção é simples, tanto no aspecto de arranjos quanto de vocalização por parte de Elvis Presley. Infelizmente aqui não ouvimos praticamente nada dos bastidores da gravação, sendo o corte mais adequado para um lançamento oficial do que para um CD de takes alternativos como esse.

HELP ME MAKE IT THROUGHT THE NIGHT (Kris Kristofferson) - Essa canção escrita pelo cantor e ator Kristofferson surgiu nas paradas em 1971 cantada por Joe Simon. Fez um belo sucesso sendo considerada uma boa representante naquela que, para muitos, foi uma época de pleno renascimento do gênero country com cantores de grande expressão como Willie Nelson, Johnny Cash, Wayllon Jennings e Merle Haggard, grupo que ficou conhecido como símbolo do movimento "outlaw". Obviamente que em Nashville Elvis não poderia ficar à margem do que acontecia ao seu redor em termos de movimentos culturais e isso se refletiu muito em sua própria música nesse período. Essa influência é facilmente perceptível quando nos debruçamos sobre o teor das canções que Elvis gravou aqui nessas sessões. Tirando o material temático (gospel e natalino) o que basicamente temos são várias gravações, que se não são assumidamente do gênero country, bebem diretamente de sua fonte. Voltando a canção aqui temos dois takes, os de número seis e sete. O primeiro é uma mera introdução por parte de Elvis que acaba entrando com o vocal no momento errado, se enrola um pouco e apesar da banda seguir em frente logo é interrompida pelo cantor ao perceber suas próprias falhas. O take sete por sua vez já é uma versão completa. Elvis ainda erra levemente em alguns trechos mas no balanço final até que é um bom take, apesar de também ser sem grandes novidades importantes...

IT'S STILL HERE (Hunter) - Canção escrita por Ivory Joe Hunter, grande nome da música negra norte americana, compositor, pianista e consagrado cantor de R&B. A admiração de Elvis pela obra de Hunter não ficou apenas restrita as músicas ("My Wish Came True", "Ain't That Loving You, Baby" e "I Will Be True") que o cantor efetivamente gravou. Foi além. Nos anos 50 Elvis, em raro momento de verdadeiro fã de outro artista, convidou Ivory a Graceland para que ambos se conhecessem e trocassem ideias sobre música em geral. O jantar oferecido por Elvis foi um grande sucesso e Ivory relembraria anos depois do grande anfitrião que o cantor foi naquela ocasião. O ponto alto desse encontro, segundo as lembranças do próprio Ivory, foi cantar junto a Elvis o sucesso "I Almost Lost My Mind", escrito pelo autor e imortalizado em gravação com Pat Boone. Voltando ao CD que estamos analisando, aqui temos o take praticamente único de It´s Still Here. A história da gravação dessa música de Hunter por Elvis já é, de certa forma, bem conhecida pelos fãs do cantor. Aqui temos o astro em raro momento solo ao piano. O momento foi a manhã do dia 19 de fevereiro de 1971 nos estúdios de Nashville. Os músicos presentes a esta sessão lembram que Elvis chegou muito inspirado na manhã deste dia e gravou três canções de uma só vez ao piano, sozinho, sem acompanhamento. O interessante é que o horário preferido de Elvis para gravar era durante as madrugadas adentro e esta gravação, feita logo pela manhã, foi uma verdadeira quebra de seu "Modus Operandi". Aliás a novidade não se restringe apenas ao horário da gravação, mas também pelo fato do Elvis instrumentista aparecer depois de tantos anos esquecido.

I WILL BE TRUE (Hunter) - Essa é a terceira música registrada por Elvis na manhã do dia 19. Como já escrevi antes, essa canção e "It's Still Here" são algumas das versões de Presley para velhas e conhecidas canções do talentoso Ivory Joe Hunter. Aqui podemos notar o grande conhecimento musical de Elvis pois é fato que ele sempre usava desse artifício, ou seja, sempre estava revisionando canções antigas e lhes dando um novo tratamento, tentando trazê-las de volta para que novas gerações tivessem a oportunidade de conhecer toda essa vasta tradição musical. E isso que escrevi está bem nítido no fato de seus arranjos terem sido creditadas inteiramente a Elvis e não a Felton Jarvis, que nesse caso se resumiu a acrescentar overdubs para dar mais consistência ao resultado final. Detalhe curioso: Durante sua execução ouvimos nitidamente, segundo alguns, o som de manuseio de folhas, certamente de partituras e letras presentes na sessão. Mais curioso ainda é o fato de alguns autores creditarem esse pequeno erro de gravação ao próprio Elvis!!! Só não conseguiram mesmo explicar como Elvis, que estava tocando piano com as duas mãos, conseguiu ainda manusear as tais "folhas" ao mesmo tempo!!!

UNTIL IT'S TIME FOR YOU TO GO (Marie) - Essa é uma música que nunca encontrou uma versão ideal na voz de Elvis, opinião que era compartilhada pelo próprio cantor que sempre mostrava insatisfação ao ouvir os diversos takes produzidos em estúdio. Talvez por essa razão a música tenha sido arquivada por um bom tempo pelo produtor Felton Jarvis, pois muito provavelmente ele e Elvis ainda esperavam chegar no chamado "take perfeito", coisa que aliás nunca aconteceu, pois a versão que saiu no LP "Elvis Now" é bem mais fraca que essa versão que ouvimos nesse CD. O mais interessante nesse caso foi que, apesar de não ter ficado boa em estúdio na opinião de Elvis, ele resolveu levá-la para a estrada e a incorporou praticamente em definitivo em seu repertório. Os resultados dessas versões ao vivo foram irregulares, pois como sempre temos bons momentos ao lado de interpretações medíocres de Elvis para essa música. Em vista disso esse recente sucesso na voz de Neil Diamond (pois foi gravada no mesmo ano da versão de Elvis), foi lançado como lado principal de um single em janeiro de 1972, com "We Can Make the Morning" no lado B. O single, feito para divulgar o LP "Elvis Now", não encontrou boa repercussão nas paradas, chegando a um desolador 40º lugar. Nesse CD temos dois takes, de números 5 e 6. Essas são versões de junho e nada trazem de muito relevante. No aspecto fluidez essa versão ganha se comparada a versão oficial pois é sabido que a última é bastante prejudicada em seu andamento. Elvis, mais solto e relaxado, produziu aqui um melhor material. Fora isso, apesar de seus inegáveis méritos, só podemos constatar que mesmo sendo boa ainda certamente não é a ideal, o que confirma que Elvis e Felton tinham mesmo razão nesse ponto pois a versão perfeita jamais foi de encontro a voz do cantor.

IT´S ONLY LOVE (James / Tyrell) - A versão oficial dessa canção foi lançada em setembro de 1971 em um single juntamente com "The Sound of Your Cry" no lado B. As vendas foram desanimadoras, chegando apenas na 51ª posição entre os mais vendidos. Aliás é bom frisar que todos os singles lançados por Elvis em 1971 se deram mal, em maior ou menor grau, nas principais paradas musicais. Isso demonstra claramente como a carreira de Elvis vinha sendo mal administrada. Músicas sem muito apelo comercial eram colocadas em posições de destaque nos singles, que em razão disso não chamavam atenção do público que simplesmente o ignoravam. O excesso de lançamentos também era prejudicial. Em 1971 Elvis lançou um single novo praticamente a cada dois meses. Esses singles e álbuns em demasia (foram dez LPs de Elvis lançados somente entre 1970 e 1971) saturavam completamente o mercado, fazendo com que muitos deles encalhassem nas lojas. Além disso como eram muitos os lançamentos, nenhum deles acabava tendo a publicidade adequada e necessária para que se destacassem nessas mesmas paradas. It´s Only Love é o exemplo perfeito do que estou escrevendo. Essa realmente era a música errada no lugar errado. Não estou querendo com isso dizer que ela seja desprovida de méritos, nada disso, apenas quero deixar claro que jamais deveria ter sido lançada como foi, sendo título de um single de Elvis Presley. O resultado desse erro de estratégia veio em números que apenas demonstrava o grande fracasso de vendas em que o single se tornou. A versão oficial é apenas mediana. Com belo arranjo de cordas, com Burton fazendo pequenos solos ao longo da melodia, a música em si até tem refrão agradável, mas passa longe de ser aquele tipo de música que irá grudar na mente das pessoas, fazendo em consequência a canção se transformar em um hit em potencial. O take presente nesse CD já traz algumas pequenas novidades, nada demais, mas que ao menos devem ser citadas. Os pequenos dedilhados de guitarra ganham mais evidência e o ritmo da canção está mais lento e calmo, ganhando com isso maior qualidade técnica. Elvis também se mostra superior nos vocais, com as palavras cantadas de forma mais suave, trazendo nitidez ao conjunto final. De qualquer forma parece que Elvis sabia que faltava de certa forma pique ao take e talvez por isso resolveu no finalzinho inutilizar totalmente a tentativa ao trocar "it´s Only Love" por "It´s Only Sex", pequeno trocadilho que se torna apenas curioso e que nada acrescenta ao resultado final que ouvimos.

I'M LEAVIN´ (Jarret / Charles) - Dando prosseguimento a análise do FTD I Sing All Kinds abro um espaço para escrever sobre as injustiças que foram cometidas durante a carreira de Elvis. Entre elas temos uma série de canções que jamais tiveram o espaço merecido e foram, de uma forma ou outra, negligenciadas pelos produtores e pelo empresário de Elvis. A lista é enorme, porém se fôssemos eleger uma série candidata a mais injustiçada certamente teríamos I´m Leavin entre elas. Melodia das mais lindas entre todas as que Elvis Presley teve oportunidade de interpretar, foi severamente prejudicada pelas decisões equivocadas tomadas entre aqueles que comandavam os rumos fonográficos da carreira discográfica do Rei do Rock. Lançada sem quase nenhuma publicidade em junho de 1971 a canção foi injustamente ignorada na parada norte-americana, sem conseguir sequer ameaçar os líderes da lista de singles da Billboard, alcançando em seu melhor momento um fraco trigésimo terceiro lugar entre os mais vendidos. Uma lástima, sem dúvida. Pior aconteceu no Brasil onde ela sequer foi lançada, permanecendo inédita durante longos anos, não dando oportunidade ao consumidor nacional de sequer conhecer sua qualidade melódica extrema. Aliás os lançamentos de Elvis no Brasil durante os anos 70 eram mal direcionados, mal administrados e mal conduzidos. Para se ter uma pequena ideia do caos que reinava em nosso país basta apenas citar que apenas um compacto nacional inédito de Elvis foi lançado por aqui em 1971. Se isso era ruim o que dizer do fato de que nenhum de seus álbuns com canções inéditas foi lançado em solo pátrio em 1971? Os únicos LPs a chegarem nas lojas brasileiras foram Almost In Love e That´s The Way It Is, ambos com um ano de atraso!!! Realmente o colecionador da época era solenemente ignorado pelos executivos da RCA Brasil. Antes de me adentrar no take aqui presente nesse CD (o de número 3) quero fazer pequenas pinceladas sobre a versão oficial. A música possui uma levada única na carreira de Elvis. Começa suave, basicamente uma introdução vocal que evoca o lamento pela situação em que o autor se encontra. A letra, simples mas profundamente emocional, retrata a falência de um relacionamento, o ocaso de uma história de amor. Estaria Elvis se antecipando ao que iria acontecer com ele e Priscilla no ano que viria? Não sabemos e ir além disso seria mera especulação, porém a canção e sua letra nos remete exatamente a isso, Elvis realmente estaria cantando sobre um fato que lhe era também essencialmente pessoal: o iminente fim de seu casamento. O take 3 presente aqui nesse lançamento ainda traz um grupo e um cantor tentando achar a sonoridade ideal, o ritmo mais adequado e condizente com a versão que lhes foi passada. Elvis está ainda vacilante em certos pontos, tentando se encaixar totalmente na melodia. A despeito disso a versão é bem correta e está a poucos passos daquilo que conhecemos de sua versão oficial. Sem a menor sombra de dúvidas esse registro é um dos mais relevantes já lançados por essa coleção FTD.

LOVE ME, LOVE THE LIFE I LEAD (Macauley / Greenaway) - Esta música foi gravada em maio de 1971 em Nashville e arquivada pelo produtor Felton Jarvis por longos dois anos. Aliás ela foi a última canção gravada por Elvis nessas exaustivas sessões. De sua safra surgiram discos diversos da carreira de Elvis, entre eles o premiado "He Touched Me" (vencedor do Grammy), o popularesco "Elvis Now" (um de seus discos mais populares no Brasil durante os anos 70) e os equivocados "Elvis Sings the Wonderfull World Of Christmas" (tentativa mal sucedida da RCA de reviver seu clássico disco natalino dos anos 50) e "Elvis" (uma das maiores colchas de retalhos da carreira de Elvis Presley). No meio de tanta diversidade, para não dizer desorganização, essa canção ficou perdida em um limbo até encontrar um papel deveras coadjuvante nesse último LP citado. Afinal essa música possui algo que a destaque no meio de tantas outras que frequentavam o repertório de Elvis por essa época? Alguma característica que a remova do incômodo título de mera figurante, mero "tapa buraco"? No meio de tantos lançamentos a música só poderia ficar perdida mesmo, até porque quem prestaria atenção em seus méritos no meio de tal avalanche de lançamentos? Mas como não estamos mais nos anos 70 podemos analisar tudo com mais calma e ponderação certamente. Particularmente acho a canção em si lindíssima. Obviamente seu arranjo se coloca na média, com belo acompanhamento vocal, boa sonorização e um belo e discreto quarteto de cordas ao fundo. O que mais enobrece esse momento perdido de Elvis sem dúvida é a interpretação do próprio cantor. Vejam como Elvis vai, em poucos segundos, de uma vocalização sóbria e contida para uma explosão emocional logo nos primeiros segundos da canção. Ele facilmente passa de uma postura ressentida para passional ao extremo, seu vocal na versão oficial é simplesmente brilhante, uma verdadeira montanha russa de emoções e posturas conflitantes - não me admira que alguns o tenham como uma pessoa que sofria de transtorno bipolar!!! Maior exemplo de um artista trabalhando com material apenas razoável e o transformando em pequenos momentos de brilhantismo natural. Aqui nesse CD temos o take de número quatro de Love Me, Love The Life I Lead. Primeira constatação: a voz de Elvis e a parte instrumental de seu grupo estão bem mais nítidos e presentes nessa faixa. Fazendo uma analogia visual seria como se alguém tivesse tirado os músicos de dentro de uma caixa e os trazido para mais perto dos equipamentos de gravação. Na versão oficial temos um registro mais apagado pois certamente Felton ao fazer a mixagem com o arranjo orquestral ao fundo teve que contrabalancear os músicos de estúdio com o arranjo que foi gravado posteriormente e nesse processo o som da gravação de Elvis e grupo foi nitidamente ofuscado. Não chega a ser um problema mas tira um pouco do brilho da versão oficial. No aspecto puramente restrito à performance de Elvis notamos que ele ainda tenta encontrar o caminho correto dentro da faixa. Sua tão citada explosão emocional aqui é bem mais contida e menos robusta. Elvis ainda não havia se entregado completamente à interpretação e assim notamos que o "algo mais" ainda não está presente aqui nesse registro. De qualquer forma temos ao menos a gênesis de um pequeno grande momento de Elvis prestes a surgir. Sem dúvida um registro precioso desse CD.

PADRE (LaRue / Webster / Romans) - A letra de Padre foi escrita por Paul Francis Webster, um famoso compositor que desde a década de 1930 já fazia canções para a grande estrela infantil da época: Shirley Temple. Embora isso o qualificasse como um compositor de estúdios, no auge do Star Sistem, ele aos poucos foi se aproximando de outras importantes vertentes da música daquela época, chegando a compor para nomes consagrados como Duke Ellington. Uma década depois ganharia dois prêmios Oscar por composições escritas especialmente para filmes de Hollywood, sendo duas delas conhecidissimas dos amantes da sétima arte: "Secret Love" que se tornou imortal na voz de Doris Day em 1953 e "Love is a Many-Splendored Thing" do grande clássico romântico "Suplício de uma saudade". Já a parte instrumental dessa música foi composta pelo famoso pianista clássico francês Jacques La Rue. Em vista de tudo isso chegamos facilmente à conclusão que "pedigree" não lhe faltava. A canção que havia se tornado sucesso em 1958 pelo jeito cativou realmente Elvis, tanto que era reconhecidamente uma de suas favoritas. Pode-se inclusive notar a extrema empolgação do cantor na versão oficial que saiu no LP Elvis de 1973, pegando o embalo dessa vez do sucesso da música em plenos anos 70 na voz de Marty Robbins. Embora a versão de Elvis tenha sido gravada no dia 15 de maio de 1971 em Nashville ela só ganhou mercado anos depois quando Jarvis reuniu uma série de canções arquivadas de Presley para compor o já citado álbum, que no fundo não passava de uma grande colcha de retalhos organizada pelo produtor do cantor. A versão que aqui ouvimos nesse CD I Sing All Kinds é a segunda tentativa de Elvis em gravar a música. Padre (take 2) é apenas um embrião do que viria a ser a versão oficial que todos conhecemos. Aqui a música está em um ritmo bem mais cadenciado. Elvis e seu grupo ainda estão um tanto quanto "amarrados", para não dizer tensos e pouco espontâneos. Elvis certamente ainda tenta seguir milimetricamente as notas o que torna a versão demasiadamente mecânica e pouco espontânea, duas características que certamente não existem na versão original cuja maior particularidade é a empolgação incontida e contagiante de sua interpretação.

SEEING IS BELIEVING (West / Spreen) - Sempre achei a versão oficial bem fraca, para dizer a mais pura verdade acho bem equivocado o tom escolhido por Elvis para cantar essa música gospel. Além disso o master escolhido por Jarvis sempre me pareceu gravado às pressas, sem muito rigor técnico. Agora que temos acesso a esse take alternativo desse CD podemos nos concentrar melhor sobre as eventuais falhas da gravação dessa canção. Assim chegamos em Seeing Is Believing (take 7). Interessante. Esse é o que sempre procurei em relação a essa música. Extremamente bem gravada, com o ritmo certo, acompanhamento mais do que correto e o vocal de Elvis que deixa a versão oficial a milhas de distância em termos de qualidade. Chego a me perguntar o que diabos se passava na cabeça de Felton Jarvis para escolher aquela versão fraquíssima do disco oficial? Esse é um dos grandes exemplos de um take alternativo que foi descartado pelo produtor de Elvis por causa de uma escolha bastante infeliz mas que é infinitamente superior ao que chegou ao mercado. E se esse foi um erro de seu produtor logo o cantor sofreria novamente por outro erro e outra decisão errada tomada, mas dessa vez por seu empresário Tom Parker. Foi durante as sessões de Nashville em 1971 que Presley sofreu a primeira baixa significativa em seu grupo de apoio. Essas foram as últimas gravações em que o grupo vocal The Imperials trabalhou ao lado do cantor. Como sempre acontecia na relação "Parker x músicos de Elvis" esses talentosos vocalistas estavam insatisfeitos com o que vinham recebendo do manager de Elvis. Assim como aconteceu com os músicos de Presley nos anos 50 eles também acabaram deixando o cantor por não serem atendidos em suas reivindicações salariais. Nesse aspecto Parker era intransigente e seu lema era simples: "Não estão satisfeitos com o que ganham? Podem ir embora então". E eles foram mesmo. Depois que deixaram o lugar vago, o grupo de JD Sumner assumiu o posto, sendo que anos depois Elvis resolveu ele mesmo formar um grupo vocal ao qual deu o nome de Voice.

A THING CALLED LOVE (Hubbard) - Jerry Reed Hubbard, autor dessa música, é um conhecido cantor veterano de música country nos EUA. Por lá ele desfrutava de grande prestígio desde os anos 60 e quando a versão de Elvis de sua música chegou nas lojas ele estava no auge de sua carreira musical. Para se ter uma idéia foi justamente em 1972 que Jerry venceu o Grammy de Best Male Country Vocal Performance. Jerry Reed era velho conhecido de Elvis. Desde o final dos anos 60 o caminho de ambos havia se cruzado. Em 1967 ele recebeu um telefonema de Felton Jarvis dizendo que Elvis estava muito interessado em gravar algumas de suas canções, entre elas as maravilhosas "Guitar Man," e "U.S. Male". Sem dúvida esse primeiro contato foi extremamente importante para Elvis e Jerry, justamente no momento em que Presley procurava material de qualidade para superar a fase de suas trilhas sonoras sem grande expressão. Mas essa bela parceria não terminaria por ai. Após gravar pela primeira vez "A Thing Called Love" Jerry cedeu os direitos para uma versão de grande sucesso na voz de ninguém menos do que o outsider Johnny Cash. Foi a partir desse momento que Elvis realmente percebeu que poderia gravar ele também mais uma bela versão para a música. Particularmente sempre achei "A Thing Called Love" uma das melhores coisas do álbum gospel He Touched Me e bem ao contrário de Seeing Is Believing sempre achei seu master muito bom, bem acima da média. A canção tem uma melodia relaxante e a vocalização, praticamente sussurrada por Presley e seu grupo vocal, é certamente um dos pontos altos do disco. Uma coisa logo chama atenção nessa música para os mais atentos. Elvis está mergulhado na vocalização ao lado de seu grupo. Ele procura sempre fazer parte do coro vocal e sua voz está no mesmo patamar dos cantores ao seu redor. Para quem sempre almejou fazer parte de um quarteto gospel vocal nada seria mais adequado. Elvis conscientemente e propositalmente se coloca como apenas mais uma voz de apoio. Sempre achei essa característica fascinante nesse registro. O take 1 que encontramos nesse cd nos chama atenção por algumas peculiaridades. A primeira é notar que Elvis já sabia muito bem desde o começo o que procurava fazer nessa gravação. Dessa forma não há nenhuma mudança mais visível entre as duas performances que conhecemos. Elvis está obviamente no controle da situação e podemos sentir nitidamente sua grande satisfação em, afinal de contas, ser apenas mais um dos rapazes de um belo quarteto gospel. Finalmente o velho sonho de infância do astro ganhava ares de realidade, para felicidade de todos os envolvidos.

PUT YOUR HAND IN THE HAND (Gene McLellan) - Quem disse que country canadense não existe ou não tem valor? Pois é, apesar dessa ser uma mistura mais do que implausível, aqui temos Elvis cantando mais uma música que foi grande sucesso na voz da cantora canadense Anne Murray. Ao lado de seu parceiro Gene MacLellan na Capitol Records ela conseguiu fazer uma carreira de sucesso, principalmente durante os anos 70 onde emplacou vários hits, entre eles a nossa tão conhecida "Snowbird", que também havia sido sucesso em sua voz após ser escrita pelo ótimo MacLellan. Apesar de terem legado duas excelentes canções que posteriormente foram gravados por Elvis em estúdio, a dupla chegou ao final após o trágico suicídio de Gene. Não importa, felizmente Elvis teve a chance de produzir esses dois belos registros em sua voz. O cantor entrou decidido a registrar essa canção, que afinal era uma de suas preferidas, e chegou na versão oficial no dia 08 de junho de 1971, nos Estúdios B, da RCA, em Nashville. Esta sessão tem um aspecto histórico que poucos se lembram ou então passam despercebidos quando a analisam: ela foi a última de Elvis Presley em Nashville, a capital mundial da música country. Sem dúvida nesta cidade Elvis gravou algumas das músicas mais populares do século XX. Desde seu primeiro grande sucesso nacional e mundial, passando por muitos de seus mais lembrados e famosos discos, Elvis estava dizendo adeus a cidade onde produziu algumas de suas verdadeiras obras primas. A partir desse momento, Elvis, envolvido em muitos problemas de ordem pessoal e profissional, iria preferir não fazer mais essas viagens a Nashville e iria ficar gravando seus últimos LPs somente em Memphis, seja em estúdios localizados na cidade (como o Stax) ou então em sua própria casa, Graceland. A mais pura verdade era que Elvis não tinha mais paciência para viagens após tantos deslocamentos para a realização de suas turnês e temporadas em Las Vegas. Agora voltando para a análise da gravação do master original de "Put Your Hand in The Hand" logo percebemos que ela não é tecnicamente perfeita, apenas ficando na média. De qualquer forma não deixa de ser um belo momento, apesar de achar que Elvis deveria se envolver um pouco mais. Outro destaque da gravação são os solos de Burton em momentos distintos da faixa (aliás um solo encerra a canção, um fato até mesmo raro na discografia oficial de Elvis). O take um não apresenta maiores novidades. Elvis está mais pontuado na dicção das frases, seguindo mais milimetricamente a ordem da letra original, mas é só. Ganha em tecnicismo porém perde ainda mais em emoção, pois Elvis está visivelmente apenas lendo a letra, sem maiores envolvimentos novamente. Como é apenas uma primeira tentativa Elvis fica mais à vontade no final do registro, que ainda não conta com o característico solo final de Burton da versão oficial que tanto conhecemos. Infelizmente essa é a última música relevante do ponto de vista artístico do CD. A partir desse ponto a qualidade cai assustadoramente. Um exemplo é a faixa que vem logo depois,

JOHNNY B. GOOD (Chuck Berry), uma versão sem nenhum interesse e que só serve para demonstrar como Elvis estava drogado nessa ocasião. Isso é facilmente percebido ao ouvir Elvis totalmente "alto", sem concentração, sem conseguir conectar nenhum nexo em suas ideias em um humor tipicamente artificial e fazendo com que todos os presentes ficassem embaraçados com seu estado mental. Totalmente desnecessário a inclusão desse momento constrangedor no CD. Logo após esse verdadeiro desastre entramos no material natalino. Só posso lamentar ao ouvir essas faixas. Isso é o mais próximo que Elvis chegou nos anos 70 de voltar ao esquema das trilhas sonoras dos anos 60. A analogia é fácil de entender. Aqui temos novamente Elvis sendo levado a gravar, sem a menor vontade, um material totalmente imposto por Parker e RCA. Faixas artificiais feitas com único propósito mercantilista, sem nenhuma preocupação com qualidade ou valor musical. Um material anacrônico, fora de moda, totalmente contrário ao que Elvis vinha tentando mostrar desde seu retorno aos palcos em 1969 e aos belos trabalhos de estúdio que vinha apresentando. O material natalino de 1971 é, e desculpem a minha sinceridade, destituído de qualquer importância musical. Quando chegamos no final do CD temos a sensação de que caímos dentro de mais um daqueles projetos horríveis que Elvis se envolveu na década de 60. São cinco faixas que jogam a qualidade do CD lá para baixo. Se as sessões de 1971 são tão criticadas a razão não é muito complicada de se entender. Essas canções são fraquíssimas, mal gravadas, com Elvis em total controle remoto, desinteressado, rezando para as sessões terminarem logo. Aqui Elvis e banda fracassaram duplamente: primeira artisticamente pois a qualidade desse material natalino é nulo e depois comercialmente pois o disco foi um tremendo, um grande fracasso de vendas, totalmente ignorado pelo público na ocasião de seu lançamento. Um desastre completo.

I´LL BE HOME ON CHRISTMAS DAY (Jarret) é a primeira delas. Ela é um prelúdio até adequado do que seria esse disco de natal de Elvis dos anos 70. Nem há muito o que comentar. A canção é assumidamente tediosa, bocejante e Elvis está desabando de tanto tédio. Na parte final da faixa Elvis erra pavorosamente o arranjo, perdendo o tempo certo da música. Mortificante e aborrecida, para dizer o mínimo, com Elvis tentando disfarçar a falta de envolvimento com malabarismos vocais primários que certamente não irão convencer ou impressionar os ouvintes mais atentos e criteriosos. Em resumo a música é apenas muito chata e enfadonha. O pior vem depois.

HOLLY LEAVES AND CHRISTMAS TREES (West / Spreen) Existe arranjo mais ultrapassado (até mesmo para a época) do que esse escrito para música? Duvido muito. Esses sininhos extremamente bregas e ridículos já estavam fora de moda desde a década de 1940. Que coisa mais fora de propósito. Totalmente embaraçoso, Elvis Presley, após tudo o que passou para ressuscitar sua carreira após 1968 ter que ficar cantando em cima de sininhos de natal. Simplesmente decepcionante e completamente embaraçoso, sem dúvida tudo muito, mas muito, embaraçoso. De fazer corar. Tudo bem que Elvis a gravou como um favor a seu amigo de longa data Red West, mas ele poderia ter muito bem passado sem esse vexame. Vou resumir esse arranjo e essa música com uma palavra simples: patético.

O pouco humor e paciência que você conseguiu reunir para ouvir essas últimas faixas começam a sumir quando as primeiras notas de IF I GET HOME ON CHRISTMAS DAY (Macaulay) começam a soar. Além de ser outra bobagem, que Elvis tenta cantar até o fim de forma profissional, somos levados a ouvir uma rara desafinada do cantor lá no começo da terça parte da canção. Simplesmente horrível. Sério, ao ouvir esse tipo de coisa só posso mesmo me sentir solidário com Elvis. Ficar preso a um material medíocre desses e ainda ter que se envolver com material tão obtuso não deve ter sido fácil para ele. Simplesmente pavoroso. Mas o espanto vem depois, se você é daquelas pessoas que achavam que tudo não poderia piorar vai certamente se surpreender com o que vem depois. Se sininhos já eram ridículos o que achar de uma introdução de caixinha de música? Seria engraçado se não fosse trágico.

IT WONT SEEM LIKE CHRISTMAS (Balthrop) é a pá de cal que faltava para enterrar todo o material ridículo de natal. Que lástima, logo Elvis que havia feito um belo álbum natalino nos anos 50 (Elvis Christmas Album) se afundar num pântano de canções ruins como essa de novo? Elvis lamentou e até mesmo se indispôs com a ideia de Parker e RCA de voltar a gravar músicas de natal mas infelizmente ele perdeu essa parada e... não há o que dizer, afundou mais uma vez em um álbum medíocre.

A última música do CD é uma outra versão de I´LL BE HOME ON CHRISTMAS DAY. Nada a acrescentar. Sendo bem sincero essa parte final desse, que em seu conjunto ainda consegue ser um bom CD do selo FTD, é completamente melancólica e desanimadora. Na minha forma de ver as coisas Ernst deveria ter feito um título exclusivo apenas com essas canções natalinas, assim seria mais fácil ignorar todo o CD ou então tentar descobrir algo de interessante no conjunto da obra, até mesmo porque existem pelo menos dois registros que ainda conseguem prender, mesmo de forma precária, nossa atenção. No álbum oficial "The Wonderfull World of Christmas" pelo menos ainda existe uma canção razoável com vocalização inspirada (O Come, All Ye Faithful) e um excelente blues de Chuck Berry (Merry Christmas Baby). Infelizmente aqui Ernst parece que selecionou apenas as piores para fazer parte do CD. Do jeito que está essa seleção aqui no I Sing All Kinds não há mais salvação. Ponto final. E com essas palavras encerro meu último texto inédito de 2007 e que venha agora 2008, ano que estaremos comemorando nove anos on line! Para celebrar tão importante data iremos trazer ainda mais material inédito e de nossa própria autoria. No mais quero agradecer todos os nossos leitores, que acompanharam nosso trabalho durante esse ano que chega ao fim e desejar um Feliz Natal e um Próspero Ano Novo. Até 2008 e Viva Elvis!

Pablo Aluísio.