quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Agnus Dei

Alguns filmes baseados em histórias reais trazem alguns acontecimentos históricos de cortar o coração. Esse é o caso desse filme francês que realmente me deixou impressionado (diria mais, chocado e entristecido) por contar uma história que desconhecia. Tudo se passa em dezembro de 1945. O cenário é a fria e desoladora Polônia. A guerra acabou. Os alemães foram vencidos. Agora o país está sendo ocupado pelos russos sob a bandeira da União Soviética, naquele momento histórico o baluarte do comunismo internacional.

Um pequeno convento católico, com algumas freiras, é invadido por essas tropas comunistas de Moscou. Como se sabe muitos abusos e crimes foram cometidos por soldados russos durante as invasões de países da Europa ocidental. Com a Polônia não foi diferente. As freiras então acabam nas mãos desses criminosos de guerra e são coletivamente estupradas por eles. Algo realmente terrível e indescritível. Depois de alguns meses as religiosas do mosteiro começam a dar à luz aos seus filhos, frutos desses estupros. Como contornar uma situação como essa? Essa é certamente uma das histórias mais terríveis de uma guerra que por si só já foi tão farta em acontecimentos absurdos, alguns deles que nos fazem até mesmo duvidar da própria humanidade (como o Holocausto).

Sofrendo constantes ameaças de novos abusos as freiras encontram então uma aliada na médica francesa Mathilde Beaulieu (Lou de Laâge). Ela entra na vida das religiosas meio ao acaso após atender os pedidos de socorro de uma jovem freira rezando no meio da neve, desesperada (numa tocante cena que inclusive foi usada como poster do filme). A partir daí a doutora, mesmo sendo muito jovem, começa a fazer de tudo que lhe era possível para ajudar as freiras. Ela faz parte da cruz vermelha e usa de todos os seus conhecimentos médicos para trazer algum conforto para aquelas mulheres, completamente vulneráveis e desassistidas de tudo.

Embora tenha sido uma experiência até mesmo um pouco traumatizante (pelo forte teor de sua história) esse certamente foi um dos melhores filmes que assisti nesses últimos meses. Um bom filme precisa nos tocar de alguma forma, seja pela força de seu enredo, seja pela grande lição de vida que nos ensina. Nesse aspecto essa produção realmente foi extremamente marcante. No começo, quando tinha poucas informações sobre essa obra, até pensei se tratar de uma nova versão para o conhecido filme "Agnes de Deus" (com Jane Fonda), mas as diferenças são bem acentuadas. Ouso dizer que esse aqui é bem superior pela forma como conta sua edificante história. Seguramente não é uma obra cinematográfica para pessoas mais impressionáveis. Por outro lado se você estiver em busca de um filme que traga uma grande mensagem de fé em Deus, esse é certamente um dos mais indicados. Desde já uma pequena obra prima.

Agnus Dei (Les innocentes, França, Polônia, 2016) Direção: Anne Fontaine / Roteiro: Pascal Bonitzer / Elenco: Lou de Laâge, Agata Buzek, Agata Kulesza / Sinopse: Baseado em fatos reais o filme narra a história de um grupo de freiras que se tornam vítimas de estupro por parte de soldados soviéticos durante a II Guerra Mundial. Grávidas de seus algozes, elas agora precisam lidar com a maternidade e os problemas decorrentes dessa situação aflitiva. Filme participante da seleção do Sundance Festival 2016.

Pablo Aluísio.

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

À Beira Mar

Um dos assuntos mais comentados nas últimas semanas foi o fim do casamento entre Brad Pitt e Angelina Jolie. Como era de se esperar em casos assim, de divórcio, sobraram farpas e acusações para todos os lados, fora a imensa briga nos tribunais que está por vir. Todo fim de casamento passa por algo parecido, algumas vezes de forma mais amena, em outras de maneira mais violenta, mas quase nunca pacífica. Pois bem, se você estiver em busca de respostas sobre as razões que levaram ao fim da união entre eles uma boa dica é assistir a esse último filme que fizeram juntos.

"By the Sea" é um drama depressivo que se passa em uma pequena vila à beira mar na costa da França. Brad Pitt interpreta um escritor americano em crise de criatividade chamado Roland. Há muito tempo ele não escreve nada de bom. Sem ideias e paralisado pela falta de inspiração, ele resolve ir com sua esposa Vanessa (Jolie) para esse lugar bucólico, tentando assim escrever finalmente seu novo romance.

Eles se hospedam em um hotel e Roland começa as tentativas para escrever seu livro. O problema é que o casal também está em crise. O casamento de longos anos já não é mais o mesmo. Ao invés da felicidade de estarem juntos, tudo o que sobrou foi o aborrecimento de ter que aturar um ao outro. Algo que vai se tornando cada vez mais penoso com o passar do tempo. Para piorar o que já por si só era bem ruim, no quarto ao lado está hospedado um jovem casal recém casado em plena lua de mel. O contraste entre a felicidade deles e a infelicidade do casal veterano começa a tornar tudo ainda mais insuportável. Para sufocar suas mágoas o escritor de Brad Pitt se esconde na bebida. Já sua esposa descobre que há um buraco na parede de seu quarto que lhe dá a oportunidade de bisbilhotar o casalzinho ao lado. Assim ela começa a ter crises de voyeurismo, vendo a felicidade alheia que já  não encontra mais em seu matrimônio praticamente falido.

Esse filme que foi escrito e dirigido pela própria Angelina Jolie é claramente inspirado no cinema europeu da década de 1960. O problema é que existe uma clara diferença entre um filme original feito na Europa e uma mera imitação. Jolie tenta demonstrar, por exemplo, uma certa sofisticação, mas no final só consegue ser apenas bem chata. Ela confundiu classe genuína com ser pedante (que são duas coisas bem diferentes). Sua personagem também não acrescenta muito e Jolie está particularmente ruim em cena. A longa duração (desnecessária) também fará muita gente abandonar o filme pelo meio, até porque se formos pensar bem o roteiro muitas vezes se apresenta bem vazio e sem profundidade.

À Beira Mar (By the Sea, Estados Unidos, França, Malta 2015) Direção: Angelina Jolie / Roteiro: Angelina Jolie / Elenco: Brad Pitt, Angelina Jolie, Mélanie Laurent, Melvil Poupaud, Niels Arestrup / Sinopse: Casal americano em crise viaja para a costa da França. O marido quer escrever seu novo livro e a esposa tenta superar o abismo conjugal em que vive. Eles se hospedam em um hotel e descobrem que o casal do quarto ao lado está curtindo sua lua de mel, em plena felicidade e romantismo. A situação (que leva a comparação entre a infelicidade própria e a felicidade alheia) começa a incomodar ao veterano casal, agravando ainda mais sua crise de relacionamento.

Pablo Aluísio.

domingo, 25 de setembro de 2016

Trumbo - Lista Negra

Esse filme resgata a figura do roteirista americano Dalton Trumbo. O roteiro, baseado na biografia escrita por Bruce Cook, tenta desvendar a trajetória desse escritor que acabou virando um símbolo da paranoia da perseguição do Macartismo durante as décadas de 1940 e 1950 nos Estados Unidos. Trumbo foi um dos mais talentosos roteiristas de Hollywood em sua fase de ouro, mas acabou vendo sua carreira ruir após ser acusado de ser comunista (o que era verdade, já que ele era membro do Partido Comunista daquele país). A questão é que depois disso e de ter se recusado a responder as perguntas do Congresso ele foi preso por desacato, ficando alguns anos na prisão.

Após voltar para a liberdade viu todas as portas dos grandes estúdios fechadas para ele. Sem emprego, estigmatizado e perseguido politicamente, Trumbo precisou fazer o que era preciso para sobreviver, escrevendo seus roteiros com pseudônimos, trabalhando para pequenos estúdios especializados em filmes ruins, fazendo o que estava à mão para sobreviver. Um dos aspectos mais interessantes que o cinéfilo vai encontrar nesse filme é a presença de grandes astros do passado que passaram pela vida de Trumbo. Estão lá o conservador John Wayne, o delator Edward G. Robinson e o corajoso Kirk Douglas, que resolveu enfrentar a todos, contratando Trumbo  para trabalhar no grande épico "Spartacus". Sob esse ponto de vista o filme é uma delícia para os que gostam de cinema clássico, pois vemos os bastidores daquela época de uma forma ímpar.

Pelo que vemos no filme, Dalton Trumbo era um daqueles comunistas românticos (e bastante inocentes) que lutavam por uma ideologia sem saber muito bem o que ela significava. Enquanto tentava angariar simpatizantes para sua causa nos Estados Unidos, ele parecia ignorar os genocídios que Stálin promovia na União Soviética. Era de certa maneira um ingênuo e pagou um preço caro por isso. O filme não entra muito a fundo sobre esse ponto, sobre a essência do pensamento de Trumbo sobre a esquerda mundial e suas ditaduras sanguinárias, porém dá pistas importantes quando, por exemplo, ele reencontra o ator Edward G. Robinson e confessa que eles não tinham qualquer ligação com movimentos comunistas no exterior, provando que eram apenas boas pessoas ingênuas iludidas por uma ideologia realmente danosa.

Já sobre o filme em si não podemos deixar de elogiar o grande (e essa expressão não está sendo usada em vão) Bryan Cranston. Recentemente assisti um filme em que ele interpretava o presidente americano Lyndon Johnson e escrevi que Bryan havia conseguido desaparecer em seu personagem, algo que apenas os grandes atores conseguem fazer. O mesmo se repete aqui. Provavelmente Bryan Cranston seja um dos grandes atores de sua geração, pena que só veio se revelar ao grande público com a série "Breaking Bad". Não faz mal, mesmo tardiamente ele tem se revelado um maravilhoso ator. Então é isso. "Trumbo - Lista Negra" é de fato um ótimo filme, valorizado pela lição histórica que passa. Um retorno a um passado realmente sombrio da história americana. Certamente merece ser visto.

Trumbo - Lista Negra (Trumbo, Estados Unidos, 2015) Direção: Jay Roach / Roteiro: John McNamara, baseado no livro escrito por Bruce Cook / Elenco: Bryan Cranston, Diane Lane, Helen Mirren, Elle Fanning, Michael Stuhlbarg / Sinopse: Durante os anos 1940 o roteirista de Hollywood Dalton Trumbo é acusado de ser um comunista. Preso, perseguido e impedido de trabalhar novamente ele faz de tudo para sobreviver em um clima de profunda paranoia política. Filme baseado em fatos reais. Filme indicado ao Oscar e ao Globo de Ouro na categoria de Melhor Ator (Bryan Cranston).

Pablo Aluísio.

sexta-feira, 23 de setembro de 2016

Últimos Dias no Deserto

O Evangelho nos revela que Jesus foi para o deserto e por lá ficou, jejuando e orando por quarenta dias e quarenta noites, sendo tentado pelo diabo. O trecho é um dos mais conhecidos do Evangelho Segundo Mateus. Jesus, antes de realmente começar sua missão, teve que passar por esse teste de fé em uma das regiões mais hostis do planeta. Não há muitos detalhes nas escrituras, apenas é dito que após muitas tentações Jesus finalmente venceu o tentador, o diabo. Nada muito além disso nos é revelado pela Bíblia. Pois foi com base nesse trecho bíblico que o diretor e roteirista colombiano Rodrigo García escreveu o roteiro e o argumento de seu filme. Ele desenvolveu uma estória de ficção para mostrar o que teria supostamente acontecido com Jesus durante esse período decisivo de sua vida.

Assim quando o filme começa já encontramos Jesus caminhando pelo meio do deserto. Ele tem fome, sede e sofre com o calor escaldante do lugar. Isso porém não parece abalar em nada sua fé. Ao seu lado porém parece existir uma série de figuras sinistras, criaturas das trevas, que tentam fazer o filho de Deus renegar sua missão e sua crença em Deus. Há uma cena inicial muito interessante em que Jesus encontra uma velha senhora embaixo de um rochedo. Ela parece exausta e faminta. Jesus então se aproxima e lhe oferece um pouco de água, até perceber que aquela imagem apenas escondia a verdadeira face do mal, da serpente.

Por falar no mal, Jesus parece sempre estar acompanhado por Satã (que também é interpretado pelo ator Ewan McGregor). O anjo caído não perde tempo e está sempre sussurrando mentiras no ouvido de Jesus, tentando enganá-lo a todo custo, para que Ele deixe de acreditar em sua missão. O Jesus mostrado nesse filme é muito humano. Ele tem dúvidas, fraquezas e chega a se questionar como pregaria ao povo de Deus quando sua hora chegasse. Com o diabo tem interessantes diálogos, alguns com problemas teológicos bem claros, mas que nunca deixam de ser interessantes. Em um dos momentos mais curiosos, Jesus pergunta ao diabo como seria a face de Deus! Mais do que isso, ele pergunta se Deus teria uma face...

O centro da trama porém passa por uma família que Jesus casualmente encontra no deserto. A mãe está morrendo, o pai tem problemas de relacionamento com o filho (que deseja ir embora para Jerusalém) e Jesus, chamado de "Homem Santo" pelo personagem interpretado pelo excelente ator Ciarán Hinds, tenta ajudar a todos eles de alguma forma. Um aspecto que também gostei além da exploração do homem Jesus, foi a forma como o roteiro procurou mostrar Jesus de Nazaré. Ele é introspectivo, calmo, pensativo e com uma fé inabalável. O único ponto que me deixou um pouco decepcionado foi que o roteiro não explorou a tentação final do diabo em relação às todas as riquezas da Terra, que seriam dadas a Jesus caso ele o adorasse. Teria sido um clímax perfeito para o filme, mas infelizmente isso não acontece. De qualquer forma eu ainda recomendo essa película. Sim, ela toma várias liberdades sobre essa fase da vida de Jesus, mas nunca perde o respeito por esse que certamente foi o personagem histórico mais importante de todos os tempos. 

Últimos Dias no Deserto (Last Days in the Desert, Estados Unidos, 2015) Direção: Rodrigo García / Roteiro: Rodrigo García / Elenco: Ewan McGregor, Ciarán Hinds, Tye Sheridan, Ayelet Zurer, Susan Gray / Sinopse: Antes de iniciar sua missão, Jesus (McGregor) decide ir para o deserto com a intenção de jejuar e orar. Lá começa a ser tentado pelo diabo. Também encontra uma família que vive das rochas e pedras da região, cuja mãe está morrendo. Filme premiado pelo Sundance Film Festival.

Pablo Aluísio.

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Um Estado de Liberdade

É muito triste (e ao mesmo tempo revelador e educativo) assistir a um filme como esse. Isso porque você se dá conta que o racismo e a escravidão eram realidades oficialmente reconhecidas pelo Estado até bem pouco tempo atrás (em termos históricos o fim da escravidão aconteceu praticamente ontem!). O roteiro é baseado em uma história real, o que agrava ainda mais essa situação. O enredo reconstrói a vida de Newton Knight (Matthew McConaughey). Durante a Guerra Civil americana ele se alistou para lutar ao lado dos Confederados. No campo de batalha começou a atuar como parte do corpo médico da unidade onde estava alistado. Sua função era trazer os feridos até as tendas dos médicos - onde a carnificina imperava por falta de recursos humanos e de materiais.

Depois da morte de seu sobrinho - que era apenas um garoto que infortunadamente  fora atingido por fogo inimigo dos ianques - ele finalmente decide ir embora. Pega o corpo do garoto e segue o caminho de volta para a fazenda de sua família. Um ato de deserção punido com enforcamento. Depois de tudo isso, para não ser preso e sofrer a pena capital, Knight resolve fugir para os pântanos da região, onde acaba encontrando escravos fugitivos, se tornando amigo de todos eles, abraçando então a causa da libertação dos negros no sul dos Estados Unidos. O filme assim vai se desenvolvendo a partir dessa pequena comunidade de foragidos que, vivendo nos pântanos do sul, começa a se levantar contra as leis de submissão e de conteúdo racial do próprio Estado Confederado de que faziam parte.

"Free State of Jones" causou polêmica nos estados americanos do sul durante o seu lançamento. Isso porque o protagonista do filme, Newton Knight, foi um desertor do exército confederado. Além disso ousou se apaixonar e ter filhos com uma escrava negra, algo que até hoje causa perplexidade em certos setores sulistas (sim, o racismo assumido, essa chaga, não parece ter desaparecido em certos rincões daquele país). Um dos aspectos históricos mais absurdos que o filme revela é que havia leis até bem pouco tempo atrás que proibiam o casamento entre brancos e negros no sul. É justamente sobre isso que se desenvolve a segunda linha narrativa do filme. Enquanto a primeira conta a vida de Knight nos pântanos do sul, a segunda mostra um de seus descendentes lutando em um tribunal do  Mississippi para se casar com uma mulher branca (a justiça entendeu que ele era na realidade um mestiço com sangue negro nas veias e que por essa razão jamais poderia desposar uma mulher sulista branca!).

Certamente é um bom filme. Porém apresenta alguns problemas em seu corte final. Embora a história seja importante e historicamente complexa (o filme explora vários anos na vida de Knight), a versão final que chegou aos cinemas americanos se revelou muito longa - chegando em alguns momentos a se tornar um pouco cansativa. Penso que um corte mais enxuto só traria melhoras ao filme. De resto tudo surge de primeira qualidade. A reconstituição de época é perfeita, a direção é segura e focada e todo o elenco está maravilhosamente bem. Até mesmo  Matthew McConaughey me surpreendeu por ter deixado de lado alguns de seus cacoetes mais irritantes. Então é isso. O que temos aqui é uma bela história de um homem que estava muitos anos à frente de seu tempo. Embora fosse branco sentiu na pele todo o racismo da sociedade confederada do Sul, que chegou ao ponto de ir para uma das guerras mais sangrentas da história simplesmente para defender o direito de um homem ter outro homem como seu bem particular. A escravidão seria abolida, mas as marcas que ela deixou ainda hoje ressoam, infelizmente. Veja o filme e entenda melhor todo esse processo histórico que ainda não chegou ao seu término.

Um Estado de Liberdade (Free State of Jones, Estados Unidos, 2016) Direção: Gary Ross / Roteiro: Leonard Hartman, Gary Ross / Elenco: Matthew McConaughey, Gugu Mbatha-Raw, Mahershala Ali / Sinopse: O filme narra a história de um soldado do exército confederado durante a Guerra Civil americana que certo dia resolve abandonar o campo de batalha. Caçado como desertor ele foge para os pântanos do sul, onde acaba conhecendo escravos fugitivos de seus donos. Lá cria uma sentimento de irmandade com eles, lutando ao lado daqueles homens em busca de uma verdadeira liberdade.

Pablo Aluísio.

terça-feira, 20 de setembro de 2016

Carnage Park

Título no Brasil: Carnage Park
Título Original: Carnage Park
Ano de Produção: 2016
País: Estados Unidos
Estúdio: Diablo Entertainment
Direção: Mickey Keating
Roteiro: Mickey Keating
Elenco: Ashley Bell, Pat Healy, Alan Ruck, James Landry Hébert, Michael Villar, Bob Bancroft
  
Sinopse:
Após um roubo a banco, dois criminosos tentam fugir à toda velocidade pelas estradas empoeiradas de um deserto da Califórnia. Um deles, alvejado durante a fuga, logo morre no banco de trás do carro. O outro precisa então se livrar de seu corpo o mais rapidamente possível. Com a ajuda de uma refém (que estava no porta-malas) ele dirige até uma propriedade remota, onde deixa seu parceiro do crime. O que o criminoso não sabe é que o lugar pertence a um sujeito psicopata, que pensa estar em um verdadeiro campo de batalha. Agora ele irá caçar o bandido, ao mesmo tempo em que leva sua refém para o verdadeiro inferno na Terra.

Comentários:
Temos aqui um novo thriller de terror que se destaca não pelo roteiro (pois é dos mais simples), nem pela produção em si (que é até modesta) e muito menos pelo elenco (a maioria dos atores é esforçado, mas desconhecido). O destaque de "Carnage Park" vem da forma como o jovem diretor Mickey Keating conta sua estória sangrenta. Ele se utiliza de vários tipos de linguagem cinematográfica ao longo do filme. Além de uma fotografia saturada temos uma edição ágil, rápida, que não perde tempo com bobagens ou sutilezas desnecessárias. Obviamente se trata de um filme violento, com cenas inclusive bem ao estilo gore, não recomendado para os mais sensíveis, mas isso definitivamente é o de menos. Mesmo  em pequenos detalhes acabamos descobrindo que esse diretor sabe bem muito o que está fazendo com sua câmera. A trilha sonora, por exemplo, é composta por músicas e diálogos fora de rotação, como se estivéssemos ouvindo um velho vinil sendo tocado em uma vitrola quebrada! O elenco é bom, embora nenhum dos atores seja mais conhecido. O único nome que vai despertar alguma lembrança no público em geral é a do ator Alan Ruck (para quem não se lembra ele foi o amigo esquisito de Matthew Broderick no clássico juvenil "Curtindo a Vida Adoidado"). Bem diferente nos dias atuais, ele interpreta um xerife que precisa descobrir o que está acontecendo de errado na propriedade de seu irmão, o alucinado Wyatt Moss (Pat Healy). A trama também explora um tipo que anda bem mais comum nos dias de hoje, principalmente nos Estados Unidos, a do psicopata com delírios de militar que da noite para o dia se arma até os dentes e começa a fazer de outros seres humanos seus alvos ambulantes. Sim, é algo bem trágico, mas infelizmente cada vez mais comum. Nesse ponto o diretor Mickey também acertou seu próprio alvo, colocando em destaque a loucura bélica que reina dentro da doentia sociedade americana. Salve-se quem puder.

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

O Mestre dos Gênios

Título no Brasil: O Mestre dos Gênios
Título Original: Genius
Ano de Produção: 2016
País: Estados Unidos, Inglaterra
Estúdio: Riverstone Pictures
Direção: Michael Grandage
Roteiro: John Logan
Elenco: Colin Firth, Jude Law, Nicole Kidman, Guy Pearce, Laura Linney, Dominic West, Vanessa Kirby
  
Sinopse:
O filme narra a história real do editor de livros Maxwell Evarts Perkins (Colin Firth). Trabalhando em uma editora de Nova Iorque ele acaba trabalhando ao lado de alguns dos maiores escritores da história americana como F. Scott Fitzgerald e Ernest Hemingway. Recebendo dezenas de textos novos todos os dias para analisar, ele acaba se interessando por um novo romance escrito por um jovem desconhecido chamado Thomas Wolfe (Jude Law). Com imenso talento para escrever, ele é um tipo explosivo, complicado de se lidar no dia a dia. Mesmo assim Maxwell resolve contratá-lo, iniciando a partir daí um relacionamento dos mais marcantes da história da literatura. Filme indicado ao Urso de Ouro do Berlin International Film Festival.

Comentários:
Esse é exatamente o tipo de filme que mais sinto falta nos dias atuais. Apostando em um roteiro mais sofisticado, inteligente e sutil, o texto aposta suas fichas no conturbado relacionamento profissional entre um famoso editor de livros e um jovem escritor, cheio de ideias inovadoras e com muita vontade de se consagrar no mundo da literatura. Certamente não é o tipo de produção que vai arrecadar milhões nas bilheterias, mas certamente será aquele tipo de filme que vai lhe trazer muito prazer em assistir, ainda mais se você faz do hábito da leitura um companheiro em suas horas vagas. E não estamos aqui falando de literatura de bolso de baixa qualidade ou importância, mas sim de alguns dos escritores mais importantes da literatura mundial em todos os tempos. O filme traz para a tela três deles: F. Scott Fitzgerald (em plena crise de criatividade, passando por um sério problema pessoal com o gradual processo de enlouquecimento de sua esposa), Ernest Hemingway (ainda expansivo como só ele sabia ser, prestes a escrever sua maior obra prima, "Por Quem os Sinos Dobram") e finalmente o novato do trio, o esfuziante Thomas Wolfe (chegando ao ponto de ser um figura constrangedora por causa de seu temperamento explosivo). O ponto de ligação de todos eles era justamente o veterano editor Maxwell Perkins (em contida interpretação do sempre correto Colin Firth). O enredo se passa na década de 1940, em um tempo em que os lares sequer tinham televisão (e onde todos se reuniam ao redor do rádio para ouvir as notícias e as radionovelas). Há uma deliciosa narrativa explorando a vida (muitas vezes sofrida) de todos esses consagrados escritores, mostrando que ser um editor naqueles tempos pioneiros não era certamente algo fácil, pois além de trabalhar bastante nos próprios livros, esse ainda tinha que ser amigo pessoal, psicólogo e braço direito. Era realmente um tipo de relação muito próxima, que ultrapassava em muito a mera aproximação profissional. Todo o elenco está bem, porém o destaque mesmo vai para Jude Law. O seu Thomas Wolfe lhe abre as melhores oportunidades de declarar os mais bem escritos diálogos do filme. Já o mesmo não se pode falar da estrela Nicole Kidman. Ela interpreta uma mulher perturbada psicologicamente por ter se envolvido com Wolfe, chegando ao ponto inclusive de tentar suicídio na própria editora de seu amado! De qualquer forma, mesmo em papel reduzido, Kidman acrescenta sempre algo nos filmes em que trabalha. Então é isso. Essa é uma boa indicação para quem esteja procurando por um tipo de produção mais sofisticada, como escrevi. Um filme de muito bom gosto, ótima produção, excelente direção de arte e reconstituição de época, que seguramente vai satisfazer até mesmo o gosto dos cinéfilos mais exigentes. É sem dúvida um filme altamente recomendado.

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.

sábado, 17 de setembro de 2016

Mickey Rourke, 64

Ontem foi aniversário do ator Mickey Rourke. Ele completou 64 anos de idade! Como o tempo passa rápido... Quando eu comecei a gostar realmente muito de cinema, ainda na minha adolescência na década de 80, Rourke foi um dos meus primeiros ídolos na sétima arte. Ele era cool, fazia ótimos filmes e estava se destacando tanto na carreira que muitos críticos o chegaram a comparar com o mito Marlon Brando! Era o legítimo sucessor daquela geração em que se imortalizaram Brando, Dean e Clift. Pelo menos isso era o que todos pensavam na época...

Infelizmente a virada da década de 80 para 90 pareceu significar também o fim de seu auge. O ator que vinha colecionando grandes filmes passou a estrelar grandes fracassos comerciais e pior do que isso, os filmes também foram ficando cada vez mais ruins com o tempo. Como se isso não bastasse Rourke resolveu deixar a carreira de lado para ser boxeador... fez inúmeras plásticas desastrosas e foi ficando muito distante da imagem daquele ator jovem que um dia quase chegou a ser o novo Marlon Brando.

Ontem, procurando por notícias sobre Rourke, me deparei com uma incrível quantidade de lixo de internet, notícias em sites de fofocas de celebridades, sempre mostrando fotos horríveis de Rourke tiradas por paparazzis pela ruas de Nova Iorque ou Los Angeles. O ator hoje em dia virou uma espécie de avis rara para esse tipo de mídia sensacionalista rasteira. As manchetes quase sempre retratam Rourke como um ser grotesco, quase monstruoso, vestindo roupas estranhas, com o rosto completamente desfigurado após tantas cirurgias plásticas que o deixaram completamente irreconhecível. Certamente não é algo bonito de se ver...

Pelo visto Rourke sofre de 'Dismorfofobia' (Transtorno dismórfico corporal). Não sabe o que é isso? É um distúrbio psicológico que leva a pessoa a ter horror da sua própria aparência natural, o levando a uma infinidade de cirurgias plásticas, ano após ano, que acabam destruindo as próprias feições naturais dela. O finado cantor Michael Jackson parecia sofrer do mesmo problema. A atriz Renée Zellwegger também parece sofrer disso. São pessoas normais, até bonitas, que não aceitam sua própria aparência e piram completamente, trazendo resultados desastrosos para suas imagens. Uma pena. E os filmes? Ninguém mais fala neles. Depois de um retorno triunfal em "O Lutador" de 2008, Mickey voltou para sua velha rotina de filmes B sem importância. O último dele que vi foi uma produção modesta de guerra chamada "Marcas da Guerra", nada memorável. Pelo visto os dias de "Coração Satânico", "Prece para um Condenado", "O Ano do Dragão" e tantos outros clássicos dos anos 80 ficaram para sempre no passado...

Pablo Aluísio.

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Tomorrowland

Título no Brasil: Tomorrowland
Título Original: Tomorrowland
Ano de Produção: 2015
País: Estados Unidos
Estúdio: Walt Disney Studios
Direção: Brad Bird
Roteiro: Damon Lindelof, Brad Bird
Elenco: George Clooney, Britt Robertson, Hugh Laurie, Raffey Cassidy, Tim McGraw, Keegan-Michael Key
  
Sinopse:
Durante a feira mundial de 1964 o garoto Frank Walker (Thomas Robinson) acaba sendo levado para um mundo futurista, com naves e inventos maravilhosos. Os anos passam e agora é a vez da garota Casey Newton (Britt Robertson) de ser levada até Tomorrowland! Antes porém ela precisará ser salva do ataque de robôs do futuro enviados pelo maquiavélico governador Nix (Hugh Laurie). Filme indicado ao Teen Choice Awards e ao Visual Effects Society Awards.

Comentários:
Esse filme acabou se tornando um dos maiores fracassos comerciais da história da Disney. Com orçamento próximo de 200 milhões de dólares não conseguiu render nem um terço disso nas bilheterias. Um fracasso merecido. A questão é que temos aqui um dos roteiros mais mal escritos que já vi na minha vida. Só para se ter uma ideia de como ele soa confuso na tela: o espectador fica perdido, no ar, sem saber direito tudo o que está acontecendo, por aproximadamente 90 minutos! (isso em um filme com pouco mais de 110 minutos de duração!). Haja paciência! Pouca coisa é explicada e quando a trama finalmente é revelada se torna uma decepção enorme por ser boba, vazia e sem novidades. Até mesmo a cena final é cheia de clichês saturados. Basicamente é uma ficção ao estilo aventura infanto-juvenil (para usar de uma expressão bem antiga), baseada em um universo com duas dimensões paralelas, uma que seria a nossa realidade e a outra, futurista, com um mundo perfeito. Não adianta tentar encontrar algo a mais porque simplesmente não há! O projeto nasceu quando a Disney resolveu levar para as telas um brinquedo temático de um de seus parques de diversões (isso mesmo, um filme baseado em um brinquedo!). A que ponto se chegou na falta de originalidade não é mesmo?... Pois bem, para isso criaram um enredo tão descartável que não é preciso ir muito além para saber que o filme se resume a uma orgia visual de efeitos visuais com roteiro praticamente inexistente. Uma perda de tempo. Depois que o filme afundou comercialmente o ator George Clooney explicou que fez o filme por causa de sua mensagem ao estilo "Vamos salvar o planeta enquanto há tempo!". Isso é o que dá ser chatinho e politicamente correto além da conta não é mesmo Sr. Clooney? Francamente...

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Até o Fim

Título no Brasil: Até o Fim
Título Original: All the Way
Ano de Produção: 2016
País: Estados Unidos
Estúdio: HBO Films
Direção: Jay Roach
Roteiro: Robert Schenkkan
Elenco: Bryan Cranston, Frank Langella, Bradley Whitford, Melissa Leo, Stephen Root, Anthony Mackie
  
Sinopse:
Após o assassinato de JFK em Dallas, assume a presidência dos Estados Unidos seu vice, Lyndon Johnson (Bryan Cranston). Na Casa Branca seu grande desafio passa a ser a aprovação pelo Congresso da Lei dos Direitos Civis. Para isso ele passa a contar com o apoio do pastor e líder negro Martin Luther King, Jr (Anthony Mackie). Os desafios porém são muitos, inclusive dobrar a ferrenha oposição de parlamentares do Sul, região tradicionalmente mais racista daquele país. Enquanto tenta a aprovação da lei o presidente Johnson também precisa lidar com o crescente envolvimento militar americano em um país asiático distante chamado Vietnã. Filme indicado a oito prêmios Emmy, entre eles melhor filme, melhor direção (Jay Roach), melhor ator (Bryan Cranston) e melhor atriz (Melissa Leo).

Comentários:
Lyndon Johnson (1908 - 1973) foi um presidente americano diferente. Ele era um político tradicional e meio apagado que de repente se viu no meio do furação após o assassinato em Dallas do presidente John Kennedy. Como era o vice de JFK assumiu a presidência. Ao contrário de seu antecessor ele passava longe de ser um grande estatista. Meio bronco e chucro, um autêntico caipira sulista, ele tinha um jeito diferente de tratar com todos os problemas políticos que lhe surgiam pela frente. Era um sujeito pragmático, que nem sempre pensava com muita sensatez. Também sondava constantemente com a ilegalidade, como podemos ver no filme em suas delicadas relações com o diretor geral do FBI, J. Edgar Hoover. Esse presidente ficou marcado na história por dois eventos principais durante seu mandato, um positivo e outro negativo. O positivo foi a aprovação da lei dos direitos civis, uma velha bandeira de JFK. O negativo foi o envolvimento cada vez maior dos Estados Unidos na lama do Vietnã, o conflito armado mais desastroso da história daquela nação. Como ele não tinha muita visão de política internacional foi enviando cada vez mais tropas para o Vietnã, o que acabou causando aquele desastre imenso que bem conhecemos. O roteiro do filme porém pouco lida com a questão dessa guerra (que inclusive foi determinante para que ele depois desistisse de se reeleger por uma segunda vez). Ao invés disso prefere mostrar os esforços de Johnson em aprovar as leis de direitos civis em prol da população negra, sem desviar a atenção do presidente da tormentosa questão de sua própria reeleição. Quem interpreta o presidente nesse bom filme é o talentoso ator Bryan Cranston. Usando forte maquiagem para se parecer com Lyndon Johnson, ele pouco lembra de seu papel mais famoso, o do professor de química Walter White da série "Breaking Bad". Penso que nessa altura do campeonato ninguém mais tem dúvidas de como ele é um grande ator. Aqui, na pele do presidente Johnson, ele consegue simplesmente desaparecer em seu personagem (algo que apenas os grande atores conseguem realizar). Outro grande destaque vem da interpretação do veterano Frank Langella. Ele interpreta um velho senador do sul chamado Richard Russell, um político que luta para derrubar a lei que amplia os direitos dos negros, embora ele próprio seja um grande amigo pessoal do presidente. Enfim, muito bom esse filme. Historicamente bem realizado, é um interessante retrato desse presidente que se considerava acima de tudo um mero acidente da história.

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.