sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Maria Antonieta de Zweig Stefan

Aqui vai uma dica de leitura para o fim de ano, um livro que li recentemente e de que gostei bastante. Trata-se da biografia da Rainha Maria Antonieta escrita por Zweig Stefan. Não e um livro novo e nem recente. Na verdade a primeira edição foi lançada em 1932. O tempo porém só lhe fez bem. O estilo de escrita de Zweig Stefan é um primor, uma verdadeira aula de como se deve escrever uma biografia de forma interessante, prazerosa, que capture a atenção da primeira à última página. Aqui o autor leva seu leitor para dentro da vida da Rainha, é como se estivéssemos nos aposentos reais do Palácio de Versalhes. Não se trata de um tratado de história, com inúmeras referências a cada página, o que tornaria a leitura pesada e muitas vezes chata. Nada disso. É escrito em estilo de romance, com a diferença de que não se trata de mera ficção, mas de algo que realmente aconteceu.

A protagonista é essa arquiduquesa austríaca, da dinastia dos Habsburgs, que é dada em casamento ao Delfim da França, um garoto que iria no futuro se tornar o Rei Luís XVI. Filha da imperatriz Maria Teresa da Áustria, Maria Antonieta sabia bem que ela e suas irmãs estavam destinadas a terem um casamento arranjado, pois era tradição na casa de Habsburg esse tipo de arranjo. As arquiduquesas eram criadas para se tornarem esposas de monarcas e nobres por toda a Europa, consolidando assim uma política de alianças por todo o continente. Aliás a primeira imperatriz do Brasil, Maria Leopoldina, que era inclusive sobrinha neta de Maria Antonieta, teve o mesmo destino, vindo a se casar com Dom Pedro I. 

Na França Maria Antonieta se deu conta que sua vida não seria muito fácil. Seu casamento demorou a se consumar, por causa da hesitação do príncipe. Com a morte de Luís XV, ela e seu marido subiram ao trono muito jovens, sem experiência para lidar com as transformações que estavam acontecendo dentro da França. A obsessão da Rainha pelo luxo e extravagância, com vestidos e penteados absurdos também não ajudou em nada. Enquanto o povo francês sofria na fome e na miséria, a corte de Versalhes desfilava riqueza, em situações que de certa maneira afrontava o próprio povo que sustentava a monarquia.

O resultado dessa situação todos sabemos. A Revolução Francesa eclodiu e o absolutismo monárquico europeu sofreu o primeiro grande golpe de sua história. Não é um livro de final feliz, ainda mais porque Zweig Stefan cria uma simpatia do leitor com a Rainha, mesmo com todos os erros que ela cometeu. O livro também demonstra que uma campanha de calúnia e difamação se espalhou pelo reino, divulgando mentiras e boatos maldosos sobre o comportamento da Rainha, que não era tão má pessoa como faziam parecer os revolucionários. No final de tudo é um livro tão bom que dá vontade de reler assim que chegamos ao final. E para quem gosta de curiosidades aqui vai uma informação final mais que interessante: o escritor Zweig Stefan, que assim como Maria Antonieta, era austríaco de nascimento, passou seus últimos anos de vida no Brasil. Ele tinha origem judaica e por essa razão precisou ir embora da Europa quando o nazismo começou a tomar de assalto os países europeus. Acabou morrendo em Petrópolis, aos 60 anos de idade.

Pablo Aluísio.  

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

O Comediante

Robert De Niro interpreta um comediante de stand-up que tenta ganhar a vida, apesar de já estar com a carreira em plena decadência. Nos anos 70 ele conseguiu popularidade atuando em uma série de TV, uma sitcom, o que lhe garante ainda algumas apresentações em pequenos bares e espeluncas. Numa delas, ele sai no braço com uma pessoa da plateia e acaba sendo condenado a prestar serviços comunitários. E é justamente quando faz esse serviço que acaba conhecendo uma mulher divorciada que pode revitalizar sua vida pessoal e profissional.

Pela breve sinopse você poderia pensar que "O Comediante" é um tipo de drama, como os que De Niro fazia nos bons e velhos tempos, só que não é bem isso. O filme opta mesmo pelo convencional, se limitando a contar uma história de amor pincelada com momentos de humor, principalmente quando o ator sobe no palco para fazer suas apresentações. Nesse ponto cabem alguns elogios ao trabalho de De Niro pois ele se sai muito bem como comediante de stand-up, isso apesar de nunca ter feito esse tipo de trabalho em sua carreira ao longo de todos esses anos. Alguns podem até vir a se incomodar um pouco com os palavrões e piadas chulas, de baixo nível, mas isso no final das contas faz também parte do jogo.

Outro ponto a se destacar é o elenco de apoio, todo formado por veteranos (e amigos de longa data de De Niro). Assim lá estão Danny DeVito (como seu irmão judeu que precisa segurar as pontas quando a situação financeira dele vai de mal a pior), Harvey Keitel (como o pai da mulher por quem se apaixona, algo que vai criar muitos atritos entre eles) e Billy Crystal (numa pontinha rápida, passada em um elevador, quando eles trocam algumas farpas e pequenas provocações em forma de piadas). O filme assim é convencional, calcado em um roteiro redondinho e em determinados momentos bem clichê, mas que acaba se salvando no final pelos nomes envolvidos em sua realização.

O Comediante (The Comedian, Estados Unidos, 2016) Direção: Taylor Hackford / Roteiro: Art Linson, Jeffrey Ross / Elenco: Robert De Niro, Harvey Keitel, Danny DeVito, Leslie Mann, Billy Crystal / Sinopse: Ao chegar perto dos 70 anos de idade um comediante veterano tenta sobreviver, arranjando trabalhos cada vez mais inconsistentes. Tudo parece ir de mal a pior até que acaba conhecendo uma mulher divorciada que pode ser a pessoa que vai mudar sua vida para sempre.

Pablo Aluísio.

Dungeons & Dragons

Filme muito fraco baseado no RPG "Dungeons & Dragons". É curioso que na época de lançamento do filme no Brasil a distribuidora forçou a barra para atrair a atenção dos fãs do desenho animado "A Caverna do Dragão", pois essa animação, muito popular no Brasil, também fazia parte desse mesmo universo. Quem acreditou no marketing se deu mal. Não havia nenhum dos personagens do mundo do Mestre dos Magos. Nada de jovens perdidos em um universo medieval e estranho. Ao invés disso o roteiro investia numa estorinha muito chata e enfadonha que não ia para lugar nenhum. Já que não se sustentava em termos de roteiro, se investiu bastante nos efeitos especiais que hoje em dia soam completamente datados e ultrapassados. Qualquer game mediano atual dá de dez a zero no visual do filme. É a tal coisa, bons roteiros sobrevivem a tudo, já efeitos especiais envelhecem e ficam ridículos com o tempo, tornando o filme muito descartável e esquecível.

No elenco apenas um nome se destacava: Jeremy Irons. Esse é aquele tipo de ator que consegue sobreviver a (quase) tudo. Mesmo atuando em filmes ruins, consegue manter o mínimo interesse no espectador. Pior foi aguentar o chato comediante Marlon Wayans - uma espécie de Eddie Murphy sem graça, que forçou a barra em cada momento que surgia em cena. Não conseguiu nem arrancar sorrisos amarelos. O filme custou 45 milhões de dólares para o estúdio New Line Cinema e conseguiu faturar apenas 7 milhões nas bilheterias americanas. Um fracasso comercial. Com isso o diretor Courtney Solomon viu sua carreira afundar logo no primeiro filme em que dirigiu. Hollywood pode perdoar muitas coisas, mas definitivamente não consegue perdoar prejuízos como esse.

Dungeons & Dragons - A aventura começa agora (Dungeons & Dragons, Estados Unidos, 2000) Direção: Courtney Solomon / Roteiro: Topper Lilien, Carroll Cartwright / Elenco: Jeremy Irons, Justin Whalin, Zoe McLellan, Bruce Payne, Marlon Wayans / Sinopse: Em um distante reino chamado Izmer, magos, nobres e uma imperatriz de bom coração, lutam entre si para controlar os dragões vermelhos que são a chave para todo o poder e glória naquele mundo mágico de fantasia.

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

Dominados pelo Terror

Esse é um western diferente, pois não se resume em contar a história de uma família de rancheiros, usando apenas daquela velha fórmula que conhecemos tão bem, valorizando a coragem desses pioneiros que foram para o oeste. Ao contrário disso investe em dramas familiares, mostrando as complexas relações entre os irmãos que no fundo não se suportam. Robert Mitchum é o irmão do meio. Ele tem uma personalidade forte, dominante. Também tem uma visão cínica do mundo. Ele sempre tem uma frase sórdida e ácida para dizer aos seus familiares. Quando o gado começa a aparecer morto, ele sai a cavalo ao lado de seu irmão mais velho para caçar a pantera negra que estaria matando os bovinos de seu rancho.

O lugar é inóspito, localizado no alto das montanhas de Montana, onde há muito neve e perigos em todos os lugares. Há um velho nativo que mora com a família. Ele tem visões sobrenaturais com a pantera, como se essa fosse uma manifestação do mundo espiritual. No fundo o animal funciona dentro do roteiro quase como uma metáfora da própria morte. O resultado é no mínimo estranho. Há um clima sombrio e de trevas que atravessa todo o filme, algo muito surreal e pouco comum em filmes de faroeste. Os mais velhos não são sábios, mas sim pessoas desprovidas de esperança, de boas virtudes. O velho pai do personagem de Mitchum vive atrás de sua garrafa de whisky que esconde em todas as partes do casarão, a mãe é uma mulher dura, com ares de fanatismo religioso. Um clima nada bom, em um filme com um tom tão escuro que em determinados momentos causa até mesmo agonia no espectador.

Dominados pelo Terror (Track of the Cat, Estados Unidos, 1954)  Direção: William A. Wellman / Roteiro: A.I. Bezzerides, baseado na novela escrita por Walter Van Tilburg Clark / Elenco: Robert Mitchum, Teresa Wright, Diana Lynn, Tab Hunter / Sinopse: Dois irmãos de uma família de rancheiros sobem às montanhas para caçar uma pantera negra que estaria matando todo o gado de seu rancho. No caminho encontram não apenas um animal comum, mas também uma manifestação sobrenatural da própria morte.

Pablo Aluísio.

Duas Vidas

Não sei exatamente a razão, mas em determinado momento todos esses atores brutamontes de filmes de ação dos anos 80 tentaram emplacar filmes de comédia ou infantis. Na maioria das vezes o resultado foi medonho - filmes ruins demais para serem levados em consideração. Assim seguindo essa tendência meio idiota o Bruce Willis também tentou emplacar seu filme infantil. E foi na Disney que ele tentou, imagine você. É justamente disso que se trata esse "Duas Vidas". Imagine um homem de 40 anos que se encontra com si mesmo aos 8 anos de idade! Parece mais divertido do que realmente é, porém foi justamente essa ideia que o roteiro desse filme tentou desenvolver.

Bruce Willis interpreta esse cara que precisa lidar com as dificuldades da vida adulta e que de repente se vê na frente dele mesmo, só que aos 8 anos! Gordinho, inseguro, indefeso, precisando sobreviver ao mundo da escola (o que nem sempre é fácil), assim era o Willis quando era apenas um garoto. Agora o adulto precisa dar conselhos à criança, mas no fundo acaba descobrindo que o menino tem mais a ensinar ao homem do que vice versa. O filme até tem seus momentos, algumas situações são criativas, mas o rótulo Disney também impôs limitações. Com a desculpa de ser um produto meramente family friendly a coisa toda ficou pelo meio do caminho, sem coragem de ir até as últimas consequências. Enfim, inofensivo demais para fazer alguma diferença.

Duas Vidas (The Kid, Estados Unidos, 2000) Direção: Jon Turteltaub / Roteiro: Audrey Wells / Elenco: Bruce Willis, Spencer Breslin, Emily Mortimer, Lily Tomlin / Sinopse:  Homem adulto encontra criança que é ele mesmo, com oito anos de idade. O choque inicial logo se dissipa e assim o mais velho tenta ensinar coisas ao mais jovem, para que ele não venha a sofrer as mesmas coisas ruins que passou ao longo de sua vida.

Pablo Aluísio.

terça-feira, 21 de novembro de 2017

O Jovem Karl Marx

O filme se propõe a mostrar os primeiros anos de atividade política do jornalista e escritor Karl Marx. Após publicar em um pequeno jornal revolucionário socialista, ele é expulso pelo governo prussiano. Assim arruma as malas e vai embora com a família para Paris. Na capital francesa procura por emprego, mas seu histórico não ajuda. Fatalmente acaba sem dinheiro, fazendo com que sua família passe por necessidades financeiras cada vez maiores. No meio de uma fase bem ruim de sua vida, acaba conhecendo o jovem Engels, o filho de um capitalista rico, dono de uma fábrica em Londres. Ambos possuem o mesmo pensamento ideológico socialista e decidem trabalhar juntos na produção de um livro explorando a luta de classes dentro da sociedade.

Gostei desse filme. Embora seja um dos escritores mais influentes da história, o fato é que Marx continua sendo pouco conhecido até mesmo por seus admiradores de esquerda. Pouco se estudou sobre sua história e sua vida pessoal. Marx foi expulso da Prússia e depois da França, indo parar em Londres. A vida difícil porém não melhorou. Mesmo com a ajuda de Engels, ele passou por muitas dificuldades financeiras, ficando anos desempregado e sem sustento para si e seus filhos. O que salvou Marx foi sua obra literária. E é curioso perceber também que ele foi um escritor desorganizado, sem muito método na produção de seus textos. O filme retrata bem isso, com Marx envolto em um escritório bagunçado, com folhas avulsas escritas por ele voando por todos os lados. Anotações em folhas de papel, pedaços de pensamento sem ordem. Cabia ao desafortunado Engels tentar organizar aquela bagunça. Essa desorganização passou inclusive para sua principal obra "O Capital", que é um livro difícil de ler, justamente por causa dessa falta de direção de seu escritor.

Outro ponto muito sutil do roteiro que revela muito sobre Marx, o escritor, acontece quando Engels o aconselha a ler livros dos consagrados economistas ingleses, como David Ricardo. Engels diz a Marx indiretamente que ele precisava estudar mais economia. É um fato histórico que Marx tinha muito conteúdo revolucionário e ideológico, mas que no fundo sabia muito pouco sobre teoria econômica. Ele tinha falhas e falhas importantes em sua formação intelectual. E foi justamente por essa razão que o socialismo marxista nunca conseguiu gerar bons frutos na área econômica. É uma ideologia utópica e não prática. Isso ficou claro desde sempre, embora Marx tenha tentado trazer bases e fundamentos pretensamente científicos para seu livro. O curioso é que Marx tentou de certa modo remodelar e refundar o pensamento dos socialistas utópicos que o antecederam, mas não conseguiu na prática ir muito além deles. Continuou em essência sendo um pensador socialista meramente utópico. O socialismo, como mera utopia, não conseguiria mesmo se firmar no mundo real.

O Jovem Karl Marx (Le jeune Karl Marx, França, Bélgica, Alemanha, 2017) Direção: Raoul Peck / Roteiro: Pascal Bonitzer, Raoul Peck / Elenco: August Diehl, Stefan Konarske, Vicky Krieps / Sinopse: Durante o século XIX, um jovem escritor e jornalista chamado Karl Marx se une ao filho de um rico industrial inglês, Engels, para escrever um livro que trouxesse bases teóricas fundamentais ao pensamento socialista que começava a se espalhar pela Europa, principalmente entre a classe trabalhadora. Juntos, eles tentaram unir o proletariado numa luta de classes contra a burguesia, proprietária dos meios de produção e de toda a riqueza da sociedade.

Pablo Aluísio.

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Alô, Dolly!

O musical no cinema teve seu auge durante as décadas de 1930 e 1940. Foi o tempo em que Fred Astaire e Gene Kelly brilharam, com filmes extremamente bem realizados, maravilhosas produções, com o que Hollywood tinha de melhor a oferecer ao seu público. Esse "Alô, Dolly!" chegou aos cinemas no final dos anos 1960, quando o gênero já estava em franca decadência, para não dizer em desuso. A geração "flower power" associava os antigos musicais aos tempos de seus pais e como havia um certo preconceito sobre isso, poucos filmes fizeram sucesso por essa época. O curioso é que os estúdios Fox chamaram justamente o astro Gene Kelly, daqueles tempos áureos, para dirigir essa versão para o cinema da famosa e extremamente bem sucedida peça da Broadway.

Seu trabalho de direção é primoroso. Kelly não era tão elegante como Astaire, mas compensava isso com coreografias extremamente bem marcadas, com grande vigor atlético e precisão em cada passo. É justamente o que vemos aqui. Tirando as cenas em que Barbra Streisand canta, temos uma amostra do trabalho do diretor, ator e bailarino nesse aspecto. Isso fica bem nítido na cena do restaurante, com os garçons dando piruetas, dançando e esbanjando vigor físico. Em muitos momentos percebemos que tudo foi filmado com tomadas de cenas únicas, algo realmente impressionante. Talvez por não mais dançar, Gene Kelly aproveitou para fazer desse filme sua última homenagem à dança! Foi um belo adeus, como bem podemos conferir.

Além da presença do genial diretor também temos um elenco excepcional. O principal destaque vai obviamente para Barbra Streisand. Que grande talento! Sua voz tinha uma qualidade digna das grandes divas da música norte-americana do passado. Ela esbanja refinamento em cada nota musical, em cada detalhe. Além de excelente atriz, também era uma dançarina espetacular. Uma artista completa. Sua leveza e docilidade contrastou bem com o estilo mais rude (e igualmente engraçado) de Walter Matthau. Ver o ator dançando e cantando é outra diversão que por sí só já vale a pena. Com produção requintada, ótimos figurinos, cenários deslumbrantes e uma trilha sonora das mais agradáveis, esse "Hello Dolly!" foi uma bela despedida aos grandes musicais de Hollywood. São duas horas e meia de puro prazer! Obra prima cinematográfica e musical.

Alô, Dolly! (Hello, Dolly!, Estados Unidos, 1969) Direção: Gene Kelly / Roteiro: Michael Stewart, Thornton Wilder/ Elenco: Barbra Streisand, Walter Matthau, Michael Crawford, Marianne McAndrew, Louis Armstrong / Sinopse: Dolly Levi (Barbra Streisand) é uma viúva que trabalha como agente matrimonial. Ela é contratada pelo rico e rabugento Sr. Horace Vandergelder (Walter Matthau) para lhe arranjar uma esposa, mas nada parece dar certo, até que Dolly começa a se ver como ela mesma uma boa pretendente para o irascível Horace. Filme indicado ao Oscar nas categorias de Melhor Filme e Melhor Fotografia (Harry Stradling Sr). Vencedor do Oscar nas categorias de Melhor Direção de Arte, Som e Música.

Pablo Aluísio.

domingo, 19 de novembro de 2017

Titan

Seguindo os passos da Disney, o estúdio Fox também entrou no concorrido mundo da animação. Eles seguiram basicamente a mesma fórmula: contratar atores famosos para dublar os personagens, promover uma grande campanha de marketing e obviamente esperar pelo melhor: lucros e mais lucros provenientes das bilheterias de cinema. O curioso é que ao invés de apostar no mundo dos contos de fadas e era medieval (como faz a major Disney) aqui os produtores escolheram uma aventura espacial como tema. A estorinha se passa no ano 3028 quando o planeta Terra é invadido por uma civilização extraterrestre selvagem e cruel. A maioria da humanidade é destruída, mas alguns seres humanos escapam. O protagonista, o jovem Cale Tucker (dublado por Matt Damon), consegue ir para o espaço.  E é justamente nos confins do universo que ele acaba se envolvendo em uma grande aventura.

A Fox investiu 75 milhões de dólares nessa animação, mas não se deu bem. O filme não foi bem de bilheteria e nem de crítica. Isso demonstrou aos executivos do cinema que não seria fácil vencer nesse mercado tão concorrido da indústria cinematográfica. Mesmo assim, com esse relativo fracasso comercial em mãos, o estúdio não desistiu e continuou investindo até encontrar o sucesso tão esperado com a franquia "Shrek", aquela mesmo do ogro verde que caiu nas graças da criançada. Por fim, apesar de tudo, "Titan" ainda conseguiu arrancar três indicações ao Oscar da animação, o Annie Awards. As indicações foram para categorias bem técnicas, nada de espetacular, mas pelo menos serviu como reconhecimento de que pelo menos do ponto de vista técnico o filme era realmente caprichado.

Titan (Titan A.E, Estados Unidos, 2000) Direção: Don Bluth, Gary Goldman / Roteiro: Hans Bauer, Randall McCormick / Elenco: Matt Damon, Nathan Lane, Drew Barrymore, Bill Pullman, John Leguizamo / Sinopse: Um jovem humano, sobrevivente da maior invasão do planeta Terra por uma raça de extraterrestres, tenta superar o trauma da separação de sua família enquanto se envolve numa grande aventura espacial ao lado de seus novos amigos.

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.

sábado, 18 de novembro de 2017

Terra Selvagem

Um bom thriller todo filmado na reserva natural de Wind River, no estado americano do Wyoming. Tudo começa quando o agente do departamento de caça e pesca Cory Lambert (Jeremy Renner) encontra o corpo congelado de uma garota no alto da montanha. Ele a conhece, é uma jovem chamada Natalie, que pertence à comunidade indígena local. Ela foi assassinada, além de ter marcas de ter sido estuprada antes de sua morte. Como se trata de uma região sob jurisdição federal o FBI é chamado. A agente Jane Banner (Elizabeth Olsen) é enviada para liderar as investigações. Inicialmente se suspeita de jovens nativos que vivem pelas redondezas. Eles são viciados em drogas e poderiam ter cometido o crime. Depois, com mais cuidado, novas pistas levam para outras direções.

Achei o roteiro desse filme bem convencional, o que não chega a ser um problema. A trama, apesar de bem criada, não chega a surpreender em nenhum momento. A beleza natural da região onde o filme foi rodado compensa em grande parte alguns momentos mais parados do enredo. O personagem de Jeremy Renner gosta de pensar sobre si mesmo como a um caçador, um homem plenamente inserido dentro da natureza. Ele foi casado no passado com uma nativa, por isso tem acesso aos indígenas que vivem naquelas terras, o que definitivamente ajuda muito nas investigações. Há um belo momento "Animal Planet" quando ele encontra uma família de leões da montanhas numa toca. Esses animais não são mostrados no filme como bestas assassinas, mas com o respeito que a fauna nativa merece. No mais é um filme sem maiores surpresas. Falou-se muito em prêmios para esse filme, principalmente depois que ele foi agraciado em Cannes. Alguns apostam até mesmo em talvez até um Oscar, mas entendo que isso seria algo exagerado, sem razão de ser.

Terra Selvagem (Wind River, Estados Unidos, 2017) Direção: Taylor Sheridan / Roteiro: Taylor Sheridan / Elenco: Jeremy Renner, Elizabeth Olsen, Julia Jones, Kelsey Asbille / Sinopse: Uma jovem nativa é encontrada morta no alto de uma montanha da reserva natural de Wind River, no Wyoming. Uma agente do FBI é enviada para investigar e com a ajuda de policiais locais e do próprio agente de caça e pesca que encontrou o corpo, começa a desvendar o crime.

Pablo Aluísio.

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Paul McCartney - Press to Play - Parte 2

Alguns arranjos sempre vão soar bons, não importa o tempo passado. Veja, por exemplo, o caso da música "Stranglehold". Esse tipo de sonoridade poderia estar em qualquer disco dos pioneiros do rock americano na década de 1950. Carl Perkins, Buddy Holly, qualquer um deles poderia assinar uma canção com essa levada. Aqui Paul valoriza os instrumentos básicos das primeiras bandas de rock, dando destaque para o bom e velho violão. Um sax maroto, que sempre me pareceu ter saído dos Comets, o grupo que acompanhava Bill Halley, completa o quadro musical.

Paul usa em sua letra também um velho clichê dos primeiros compositores do rock, com várias perguntas que vão se repetindo ao longo da canção. Também gosto do estilo de composição "apoteótica", onde a harmonia vai sempre num crescente, um velho estilo que sempre apresentou ótimos resultados. Em suma, esse é uma das melhores músicas desse álbum de Paul McCartney. Deveria inclusive ter virado single, com maior divulgação.

A música anterior mostrava que Paul sempre soava melhor quando ia nas raízes musicais, sem muita pretensão. Um pouco disso também se ouve em "Good Times Coming / Feel the Sun", na verdade uma dobradinha que Paul trouxe direto dos tempos dos Wings. Não precisa ir muito longe para perceber bem isso. Basta entrar aquele corinho com Linda e demais vocalistas de apoio para entender bem isso. Paul ainda inseriu uma bela melodia, tocada numa guitarra melosa ao estilo David Gilmour. Gosto da parte "Good Times Coming", mas não tanto de "Feel The Sun". Falta letra nessa segunda parte. Penso que esse foi um dos motivos de Paul ter unido as duas canções em uma pequeno medley. O refrão é bom, contagiante, simpático e agradável aos ouvidos, mas nada muito além disso. O solo de guitarra novamente salva tudo do lugar comum nos últimos acordes. Eric Stewart sempre um craque com seu instrumento.

"Footprints" tem uma simplicidade cativante. Aquele tipo de música que poderia ser tocada ao lado de uma fogueira na praia, durante um luau. Paul manteve a simplicidade da composição original na gravação de estúdio. Ele também canta a música de forma bem terna, sem qualquer afetação. Outra coisa que salvou a gravação é que Paul afastou qualquer resquício daquele tipo de som bem de acordo com os anos 80, com aqueles sintetizadores incômodos. O resultado ficou bonito. Existem alguns efeitos sonoros, mas bem pontuais e dentro da proposta da canção. Gosto bastante dessa faixa. É um dos bons momentos do álbum.

Pablo Aluísio.

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

A Morte de Luís XIV

Bom filme que reconstitui os últimos momentos de vida do Rei francês Louis XIV, o aclamado "Rei Sol", símbolo máximo do absolutismo europeu, o monarca que disse a frase "O Estado sou Eu!". Pois é, aqui o vemos sendo corroído pela gangrena, enquanto um grupo de médicos tenta fazer algo para salvar sua vida. Tudo em vão, porque a medicina da época ainda era bem rudimentar. Até charlatães surgem na corte para tentar algum "tratamento", fazendo o Rei tomar misturas exóticas como esperma de boi, suor de sapo e outras coisas bizarras. Outro fato que chama a atenção é a exótica coleção de perucas reais, pois nem no leito de morte o monarca abriu mão de seu figurino extremamente exagerado. Afinal ele era o "Rei Sol" e como tal deveria brilhar até o fim de sua vida, mesmo que sua perna estivesse apodrecendo pela doença.

Um aspecto inusitado do ponto de vista histórico é que esse mesmo monarca determinou que sua existência seria extremamente pública, nada de levar uma vida privada em seus aposentos. Assim até para tomar uma colher de canja de galinha ela tinha que ser assistido por membros da corte que como bons puxa-sacos o aplaudiam a cada colherada! Algo muito esquisito para os olhos de uma pessoa de nossos dias, mas que em Versalhes fazia parecer algo comum, do protocolo de comportamento dos nobres que faziam parte da corte Bourbon. Todos os momentos, dos mais simples do cotidiano, eram acompanhados por nobres que o assistiam acordar, escovar os dentes, tomar o café da manhã, o almoço, o jantar, tudo sendo presenciado pela corte que formava uma pequena plateia na frente do Rei.

O filme vai fundo no detalhismo, assim o espectador que estiver disposto a saber mais sobre o leito de morte do rei terá praticamente todos os mínimos acontecimentos explorados, porém de certa forma isso também se torna um problema narrativo, pois o que temos o tempo todo é apenas o Rei agonizando em sua cama, enquanto médicos, parentes e membros do clero tentam alguma solução para salvar sua vida. Praticamente não há cenas externas, tudo se passa dentro do quarto. A beleza do palácio de Versalhes nunca aparece, o que achei algo incômodo, pois era uma forma de retratar a grandiosidade daquele Rei que até hoje é lembrado por seus excessos (foi ele aliás que construiu Versalhes e o transformou no palácio real mais luxuoso e brilhante de toda a Europa). Particularmente gostei, mas sou suspeito em minha opinião, pois adoro história de uma maneira em geral. Não sei se o filme terá apelo para pessoas que não estejam tão interessadas assim naquele período histórico da França do século XVIII.

A Morte de Luís XIV (La mort de Louis XIV, França, 2016)  Direção: Albert Serra / Roteiro: Albert Serra, Thierry Lounas / Elenco: Jean-Pierre Léaud, Patrick d'Assumçao, Marc Susini  / Sinopse: O filme mostra os últimos momentos de vida do Rei Luís XIV. Doente em sua cama, com a gangrena comendo parte de sua perna, o monarca conhecido como o "Rei Sol" tenta sobreviver em meio a toda a riqueza e luxo de sua corte fabulosa. Filme premiado pelo Gaudí Awards e Lumiere Awards.

Pablo Aluísio.

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Olhos Famintos 3

O primeiro filme dessa franquia de terror "Jeepers Creepers" até que tinha seu charme. Uma criatura que mais se parecia com um espantalho de plantações de milho, que ganhava vida e saía matando a esmo numa cidadezinha do interior dos Estados Unidos. Era o típico filme de monstro, onde ele era colocado nas sombras, no meio da noite, quase nunca surgindo explicitamente. Isso criava um suspense até bem interessante, mesmo que não fugisse muito do clichê desse tipo de produção.

Nesse terceiro filme tudo que era bom no filme original se perde. Colocaram o monstro para atacar em plena luz do dia, se mostrando em demasia, em cenas pouco originais, nada inovadoras. Ele também agora dirige uma velha caminhonete, toda turbinada e cheia de armadilhas mortais. Todos que tentam entrar ou escapar dessa máquina da morte de quatro rodas acaba se dando muito mal.

A produção foi bancada em parte pelo canal Syfy, que diga-se de passagem se especializou nos piores filmes de terror e suspense da atualidade. Basta lembrar daquelas inúmeras produções com tubarões que são uma verdadeira vergonha alheia. Assim nem a presença do diretor e roteirista Victor Salva (que praticamente criou sozinho essa franquia) consegue melhorar as coisas. O saldo é bem negativo. O filme consegue ser pior do que o segundo, que ficava muito resumido ao ataque da criatura a um ônibus escolar. Esse aqui tem uma trama mais diversificada, mas nada que vá salvá-lo da categoria de filme ruim.

Olhos Famintos 3 (Jeepers Creepers 3, Estados Unidos, 2017) Direção: Victor Salva / Roteiro: Victor Salva / Elenco: Stan Shaw, Gabrielle Haugh, Brandon Smith / Sinopse: A cada 23 anos uma estranha criatura alada, proveniente das fossas infernais, volta à Terra, para espalhar terror e morte numa pequena cidade rural do meio oeste americano. Agora está de volta, dirigindo uma verdadeira máquina de terror.

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.

terça-feira, 14 de novembro de 2017

A Biografia de John Wayne - Parte 7

A década de 1940 começou com John Wayne trabalhando ao lado do diretor e mestre do cinema John Ford. Essa foi uma das duplas mais marcantes da história do cinema americano. Juntos fizeram verdadeiras obras primas da sétima arte. O filme se chamou "A Longa Viagem de Volta". Para muitos esse foi o primeiro grande filme em que trabalharam. O papel de Wayne era a de um sueco chamado Ole Olsen. No começo John Wayne pensou em recusar o convite para fazer o personagem, afinal o que ele tinha a ver com um marinheiro sueco?

Para sua sorte acabou sendo convencido por John Ford a se juntar ao elenco. O filme tem ares de drama, mas também não deixando de lado a aventura, afinal era um filme passado dentro de um cargueiro que atravessava os oceanos. Wayne teve um verdadeiro desafio em sua atuação porque o roteiro não se contentava em mostrar a vida no mar, mas também em desenvolver os personagens, mostrando seus pequenos dramas interiores, suas tristezas e melancolias. O diretor John Ford fez excelentes tomadas de cena, usando para isso apenas a beleza natural ao redor, a neblina, a solidão de se trabalhar no meio do oceano, etc.

Ao ser lançado acabou se tornando um campeão de bilheteria. Também agradou bastante à crítica que encheu o filme de elogios. A Academia soube reconhecer o trabalho de John Ford. "A Longa Viagem de Volta" (que no Brasil também se chamou "Tormento no Mar") recebeu seis indicações ao Oscar, entre eles o de melhor filme, melhor roteiro (para o roteirista Dudley Nichols, que imprimiu uma forte carga dramática ao filme como um todo), melhor fotografia em preto e branco (para o diretor de fotografia Gregg Toland, que fez um brilhante trabalho) e música (para o maestro Richard Hageman, cuja orquestração deu um sabor especial para as cenas). Curioso que o filme também foi indicado na categoria de melhores efeitos especiais (para o trio R.T. Layton, Ray Binger e Thomas T. Moulton, que usando maquetes realistas fizeram as cenas em que o cargueiro passava por dificuldades em alto mar).

Depois desse grande êxito, John Wayne voltou ao mar no filme seguinte. Ele interpretava um marinheiro americano nos mares do sul em "A Pecadora". Seu personagem era a de um jovem oficial da marinha dos Estados Unidos que acabava conhecendo uma linda corista em uma das bases do Pacífico. Wayne contracenava com a diva do cinema Marlene Dietrich. Apesar de Wayne estar de quepe e uniforme militar essa não era uma produção de guerra. Os militares estavam lá, porém apenas para se divertir nas casas de shows dos portos por onde passavam. O filme tinha muita música e cenas de apresentações de Marlene Dietrich. De certa maneira era um musical, com Wayne no papel de coadjuvante de luxo. Foi um filme interessante para ele, para ter a chance de fazer algo diferente, porém no geral acrescentou mais para a filmografia de Dietrich do que para a do próprio Wayne. Afinal ela era a grande estrela do filme.

Pablo Aluísio.

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

As Vidas de Marilyn Monroe - Parte 19

Billy Wilder teve a ideia de escrever o roteiro de "Quanto Mais Quente Melhor" após assistir a um velho filme alemão. No enredo dois músicos se vestiam de mulheres para escapar da máfia. Wilder mostrou seu projeto para o produtor David Selznick que não gostou nada do que leu. Misturar máfia com comédia, violência com humor, era algo perigoso e nada engraçado em sua forma de entender. Mesmo assim Wilder não desistiu e resolveu produzir ele mesmo o filme. O primeiro contratado foi o ator Tony Curtis, o que não deixou de ser curioso pois Curtis achava que Wilder não gostava dele pessoalmente.

Para o outro papel o estúdio queria muito Frank Sinatra. Um almoço de negócios foi marcado entre ele e o diretor, mas Sinatra não compareceu. Na verdade o cantor desistiu de fazer o filme por causa da ligação do roteiro com mafiosos. Ele já vinha sofrendo comparações por causa de seus amigos no submundo do crime e isso iria reforçar esse tipo de visão na imprensa. Com Sinatra fora, Wilder finalmente conseguiu contratar o ator que queria desde o começo: o comediante  Jack Lemmon.

A entrada de Marilyn Monroe no filme foi uma surpresa para todos. Ninguém estava pensando nela. Quando a atriz soube que Billy Wilder iria dirigir uma comédia com Curtis e Lemmon, decidiu ligar pessoalmente para Billy, se oferecendo para o papel de "Sugar", a bonita garota que tocava na banda só de mulheres! Wilder sabia que a entrada de Marilyn Monroe no filme mudaria tudo, já que ela era uma das maiores estrelas de Hollywood. O diretor sabia bem que Marilyn era complicada de se trabalhar, sempre chegava atrasada, não decorava suas falas e parecia sempre estar insegura. Mesmo com tantas coisas contra sua contratação, o diretor não podia ignorar também o fato de que Marilyn era um grande chamariz de bilheteria, a maior estrela de cinema da época!

O que Wilder não sabia era que Marilyn Monroe e Tony Curtis tinham um passado. Eles foram namorados anos antes. Quem recordou isso foi o próprio ator durante uma entrevista: "Eu cheguei a morar com Marilyn durante seis meses, antes que nos tornássemos famosos. Eu era apenas um jovem contratado pela Universal e Marilyn não conseguia muito trabalho na época. Eu estava apaixonado por ela, então resolvemos morar juntos. Não deu muito certo, mas guardei um certo carinho por ela, por todos aqueles anos. Quando descobri que Marilyn havia entrado no filme pensei que teríamos problemas pela frente! Algo que depois iria se mostrar verdadeiro, mas tudo bem, tudo era válido!".

Pablo Aluísio.

domingo, 12 de novembro de 2017

Fragmentado

Fazia tempo que o diretor M. Night Shyamalan estava devendo um bom filme. Finalmente depois de um hiato de falta de criatividade que durou anos, ele surge com algo realmente bom (diria até muito acima da média). Esse filme "Fragmentado" é um dos melhores que vi esse ano. Roteiro bem encaixado e o mais importante de tudo: um verdadeiro show de interpretação do ator James McAvoy. Ele interpreta um sujeito com problemas mentais, que sofre de um distúrbio que o faz desenvolver várias personalidades diferentes. Esse tema já havia sido explorado antes pelo cinema. Basta lembrar do clássico "As Três Faces de Eva", mas agora ganha contornos mais sinistros e sombrios.

Pois bem, ao longo do dia várias personas vão surgindo, desde um delicado jovem e afeminado, que sonha ser estilista, passando por Dennis, um sujeito dominador e obcecado por limpeza, até Patrícia, uma mulher que de certa maneira reflete a própria mãe repressora que ele teve na infância. Kevin (seu nome real) faz tratamento com uma psiquiatra que quer escrever uma tese sobre seu distúrbio e tudo caminha relativamente bem, até que em um surto ele decide cometer um crime, sequestrando e aprisionando três garotas nos porões de um Zoo abandonado. Imagine a aflição das jovens ao ter que lidar com esse sujeito que muda de personalidade várias vezes ao longo do dia. Tudo se torna ainda mais imprevisível e elas precisam acima de tudo sobreviver a esse alucinado jogo mortal.

M. Night Shyamalan não está preocupado em mostrar os detalhes e as nuances desse problema mental de seu protagonista. Faz bem, ao contrário disso ele explora o suspense de um típico produto pop de qualidade. Até abre margem para um elo de ligação com outro filme seu, "Corpo Fechado". Tudo muito bem escrito e elaborado, porém nada disso daria certo se não contasse com um ator inspirado no papel principal. E é justamente isso que James McAvoy prova com sua atuação. Ele está perfeito e dá realmente um show de interpretação, se transformando a cada nova personalidade. Sem dúvida esse é o filme de sua vida, aquele em que ele demonstra todo o seu talento. Imperdível para quem gosta da arte de atuar.

Fragmentado (Split, Estados Unidos, 2016) Direção: M. Night Shyamalan / Roteiro: M. Night Shyamalan / Elenco: James McAvoy, Anya Taylor-Joy, Haley Lu Richardson, Betty Buckley, Brad William Henke / Sinopse: A Dra Karen Fletcher (Betty Buckley) atende todos os dias um paciente que sofre um distúrbio que lhe dá várias personalidades. Agora ela percebe que duas das personalidades estão dominando todas as outras. Dennis e Patrícia são pessoas frias, violentas e com traços de psicopatia. Pior, elas sequestraram três jovens garotas e as mantém como reféns nos poróes abandonados de um Zoo sinistro.

Pablo Aluísio.