terça-feira, 16 de janeiro de 2018

Os Segredos da Bíblia

Título no Brasil: Os Segredos da Bíblia
Título Original: Bible's Buried Secrets
Ano de Produção: 2011
País: Inglaterra
Estúdio: BBC Studios
Direção: Rob Cowling, Emily Davis
Roteiro: Jean-Claude Bragard, Rob Cowling
Elenco:  Francesca Stavrakopoulou, Aren Meir, Israel Finkelstein, Yosef Garfinkel, Doron Spielman, Baruch Halpern

Sinopse:
Documentário contando com especialistas em arqueologia bíblica que tentam provar com relíquias e rastros deixados pelo passado, a veracidade ou não das histórias que são contadas no velho testamento.

Comentários:
Essa série de documentários na verdade contou com três episódios apenas: "Did King David's Empire Exist?" (O Império do Rei Davi existiu?), "Did God Have a Wife?" ("Deus teve uma esposa?") e finalmente "The Real Garden of Eden" ("O verdadeiro Jardim do Éden"). O interessante é que pouco se comprovou das histórias contadas no velho testamento. Isso é até relativamente fácil de explicar. Além do fator temporal (O Rei Davi, por exemplo, teria vivido mil anos antes de Cristo), o território de Israel foi palco de inúmeras invasões de povos inimigos ao longo de toda a sua história, destruindo sítios arqueológicos e monumentos que poderiam servir para a arqueologia atual como prova das antigas histórias. A série mostra, por exemplo, como é complicado nos dias de hoje provar a existência histórica de Moisés. Muitos historiadores da Israel atual supõem que o número de judeus que fugiram do Egito foi bem menor do que o relatado no livro do Exodus. Eles provavelmente também não ficaram por 40 anos andando nas areias escaldantes do deserto como algumas traduções das escrituras querem fazer crer. Assim fica a curiosidade de saber o que a arqueologia moderna tem a dizer sobre as origens do povo hebreu. Cheio de informações e teses propostas por esses estudiosos, os três episódios formam um mosaico bem curioso do mundo antigo, dos tempos de Salomão e Abraão.

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Brain on Fire

Título Original: Brain on Fire
Título no Brasil: Ainda Não Definido
Ano de Produção: 2016
País: Canadá, Irlanda
Estúdio: Foundation Features
Direção: Gerard Barrett
Roteiro: Gerard Barrett
Elenco: Chloë Grace Moretz, Thomas Mann, Richard Armitage, Carrie-Anne Moss, Jenny Slate, Tyler Perry

Sinopse:
Baseado em fatos reais, com roteiro escrito a partir do livro de memórias de Susannah Cahalan, o filme mostra o sério problema de saúde que enfrentou logo no começo de sua vida profissional como jornalista, quando se viu incapacitada por uma enfermidade, uma doença rara, pouco conhecida pelos médicos.

Comentários:
Gostei desse filme. O enredo é dramático, triste e não recomendado para quem não gosta desse tipo de roteiro. Basicamente temos essa jovem jornalista que acaba conseguindo um emprego dos sonhos em um famoso e popular jornal de Nova Iorque. Tudo vai caminhando bem, ela vai subindo na carreira, até que começa a apresentar um estranho comportamento. No começo todos desconfiam que ela está usando drogas ou algo do tipo, mas na verdade ela começa a apresentar os sintomas de uma doença mental que intriga os médicos. Eles não conseguem chegar em um diagnóstico seguro. Para alguns ela estaria sofrendo de uma bipolaridade extrema, para outros estaria na realidade esquizofrênica. Enquanto a garota sofre, seus pais e seu namorado pressionam os médicos para chegarem numa conclusão, que parece nunca vir. Sua salvação vem na figura do professor de medicina de uma prestigiada universidade que descobre que ela na verdade está sofrendo de uma síndrome auto imune praticamente desconhecida da ciência. Chloë Grace Moretz interpreta a protagonista que passa praticamente todo o filme hospitalizada, algumas vezes catatônica. Sua interpretação é OK, mas não chega a ser brilhante. Tampouco compromete o resultado final de um filme até muito interessante, que chama a atenção para uma nova doença mental que cada vez mais tem se espalhado pela população em geral. Vale a pena conferir, principalmente se você for um profissional da área de saúde. 

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.

domingo, 14 de janeiro de 2018

The Beatles - Let It Be - Parte 3

Uma das coisas que mais irritaram Paul McCartney quando finalmente ouviu o disco oficial "Let It Be" foi a forma como o produtor Phil Spector tratou sua criação "The Long and Winding Road". Para Paul os arranjos ficaram ruins, exagerados, bem de acordo com a "parede de som" que era característica de Spector. Definitivamente McCartney não queria aquele tipo de sonoridade para sua música, porém quando Paul finalmente a ouviu já era tarde demais. Os discos estavam prensados e nas lojas. Não tinha mais volta, era segurar a raiva e seguir em frente. Ele ainda iria reclamar disso em inúmeras entrevistas ao longo dos anos, mas definitivamente já era tarde demais.

"The Long and Winding Road" foi composta por Paul após o fim de seu longo relacionamento com a atriz Jane Asher. Ela foi a namorada de Paul durante praticamente toda a sua carreira ao lado dos Beatles. Todas as grandes composições dele nessa época foram criadas em cima de seu romance com Jane. Quando o namoro acabou Paul ficou bem arrasado e criou essa bela balada romântica, um adeus final aos anos que passou ao lado de Jane. Curiosamente Jane também foi responsável por ter jogado fora muitas músicas compostas por Paul e John durante a fase dos Beatles. Durante uma faxina ela resolveu jogar no lixo um monte de papéis. Eram letras de música de John e Paul - imaginem o tamanho do prejuízo histórico que isso causou! Mesmo assim, Paul realmente a amava e achava que um dia iria se casar com ela. Aliás todos os demais Beatles pensavam que eles iriam se casar algum dia. Infelizmente isso nunca aconteceu.

Por falar em criações da dupla Lennon e McCartney, o blues "I've Got a Feeling" foi uma das últimas parcerias deles. Uma canção feita face a face, com ambos trabalhando e dando sugestões dentro do estúdio. Paul trouxe o esboço inicial e John começou a acrescentar notas, versos, instrumentos e arranjos. Acabou sendo uma das melhores faixas do disco. O curioso é que John e Paul quiseram imprimir na canção um certo tom de relaxamento, quase como se fosse uma jam session dentro dos estúdios. Só que tudo isso era obviamente bem trabalhado pela dupla.

John Lennon resolveu inserir uma indireta para sua primeira esposa, Cynthia, nos versos da canção, quando canta "Oh, por favor acredite em mim, eu odiaria perder o trem / E se você me deixar por causa disso, eu não me atrasarei". Acontece que ela havia perdido o trem quando os Beatles foram para a Índia. Isso irritou profundamente John. Assim o Beatle passou meses longe dela, o que segundo ele próprio serviu para criar um fosso emocional entre o casal. Depois disso Yoko entrou na vida de John e o casamento deles acabou de vez. Já Paul resolveu escrever algumas linhas mais românticas para a música. É dele a seguinte estrofe: "Todos esses anos eu tenho andado por aí / Intrigado como é que ninguém veio me dizer / Que toda a minha procura se resumia a alguém / Que se parecesse contigo". Palavras escritas para Linda, o novo amor na vida de Paul. Afinal Jane Asher naquele momento já era passado.

Pablo Aluísio.

sábado, 13 de janeiro de 2018

Apenas um Garoto em Nova York

O filme se passa no meio editorial de Nova Iorque, mas no fundo é focado na família do jovem Thomas Webb (Callum Turner). Ele está naquela idade em que ainda não decidiu o que fazer. Ele terminou o colegial e não foi para a faculdade. Por isso passa os dias andando com a namorada Mimi pelas ruas da cidade. Durante uma noite de curtição em um restaurante ele pega seu próprio pai, Ethan Webb (Pierce Brosnan), aos beijos com uma desconhecida. Uma situação constrangedora e complicada de resolver, afinal ele deveria dizer para sua mãe da traição dele? Ou deveria varrer tudo para debaixo do tapete, evitando assim que seus pais se divorciassem?

De uma forma ou outra, Ethan começa a seguir os passos da amante do pai, Johanna (Kate Beckinsale). Descobre que ela trabalha no mercado de livros e pior do que tudo, acaba se apaixonando também por ela! Por fim fechando o círculo confuso de relacionamentos de sua vida pessoal, Ethan acaba conhecendo um escritor decadente e bêbado que mora no seu prédio, o outsider W.F. Gerald (Jeff Bridges). Autor de sucesso no passado, ele vive uma crise de criatividade, sempre procurando inspiração para sua próxima obra. Acaba encontrando na vida de Ethan o que procurava e traz a história do jovem para as páginas daquele que será seu futuro livro.

Embora tenha nuances de drama, esse filme não vai muito por esse caminho. Mesmo as situações mais dramáticas (como se apaixonar pela amante do pai) vai tendo resoluções mais ou menos brandas. O roteiro também sutilmente propõe que a cidade de Nova Iorque perdeu sua identidade nos últimos anos, deixando de ser a cidade artisticamente inspiradora do passado para se tornar apenas uma grande cidade, amorfa e sem graça. O triângulo amoroso envolvendo amante, pai e filho, curiosamente nem é a principal surpresa da trama, pois o personagem de Jeff Bridges revela ter algo a mais com Ethan do que ele jamais poderia imaginar. Em suma, um bom filme, que tenta ser sofisticado, retratando os moradores de Nova Iorque como pessoas mais intelectualizadas, mesmo sem escapar das armadilhas do destino que vão acontecendo com o passar dos anos.

Apenas um Garoto em Nova York (The Only Living Boy in New York, Estados Unidos, 2017) Direção: Marc Webb / Roteiro: Allan Loeb / Elenco: Pierce Brosnan, Jeff Bridges, Kate Beckinsale, Callum Turner, Cynthia Nixon, Kiersey Clemons / Sinopse: O jovem Thomas Webb (Callum Turner) descobre que seu pai, Ethan Webb (Pierce Brosnan), está tendo um caso amoroso fora do casamento com a bela e sensual Johanna (Kate Beckinsale). Enquanto não decide o que fazer, acaba conhecendo seu vizinho, um escritor decadente chamado W.F. Gerald (Jeff Bridges) que prontamente se coloca à sua disposição para resolver todos esses problemas em sua vida pessoal.

Pablo Aluísio.

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Os Caçadores da Arca Perdida

Decidi rever "Os Caçadores da Arca Perdida". Esse foi um filme que assisti pela primeira vez em minha adolescência (talvez fim da infância, não me recordo bem), que fazia muitos anos que tinha visto pela última vez. É a tal coisa, em relação a determinados filmes criamos uma certa nostalgia emocional, muitas vezes por termos assistido em determinada época de nossas vidas. Agora revendo o filme já não me pareceu tão encantador e especial. Afinal já sou outra pessoa, vivendo outra fase da minha existência. Reflexões existenciais à parte, também devo dizer que o trabalho de Steven Spielberg e George Lucas continua intacto e não foi afetado pela passagem dos anos.

A intenção da dupla foi recriar o espírito dos antigos filmes de matinês dos anos 40 e 50. Acertaram em cheio. Indiana Jones em sua primeira aparição no cinema, não deixa a bola cair em nenhum momento. O enredo criado e escrito por George Lucas é pura aventura nostálgica. Jones (Ford) é um professor de arqueologia que está sempre pronto a ir atrás de grandes relíquias do passado. Após colocar as mãos em uma antiga divindade de ouro dos Maias e ser passado para trás pelos nazistas, ele volta para os Estados Unidos. Então é procurado para ir atrás daquela que talvez seja a maior relíquia arqueológica da história, a Arca da Aliança, a mesma onde Moisés depositou os dez mandamentos.

Acontece que os nazistas também estão tentando localizar o lendário objeto, já que Hitler e seus imediatos eram particularmente interessados em ocultismo. Acreditavam que a posse da Arca da Aliança lhes trariam a invencibilidade nos campos de batalha. Indiana Jones então parte para sua aventura, inicialmente indo até o Nepal onde encontra a filha de um velho arqueólogo que achou o cajado que iria determinar a localização exata da Arca no deserto do Egito (como ela foi parar lá? O roteiro explica, foi roubada por um Faraó que destruiu o Templo de Salomão).

A partir daí o filme não cessa um minuto. É uma cena de ação e aventura atrás da outra. Tem de tudo, cenas de perseguição, a luta de Indiana Jones e um brutamontes nazista na frente do avião (que você certamente vai lembrar por causa do sangue jorrando para todos os lados pela hélice do aparelho) e é claro a descida de Indiana Jones até o templo onde a Aliança foi guardada e escondida (que aliás é repleto de cobras, que Jones simplesmente tem pavor). No final Spielberg e Lucas decidiram (com acerto) ir para o lado sobrenatural da situação, mostrando a Arca da Aliança como realmente um objeto de grande poder. Assim que a Arca é aberta pelos nazistas forças poderosas e inexplicáveis consomem a todos ao redor. Uma cena memorável que inclusive não perdeu seu impacto em termos de efeitos especiais.

O saldo final foi muito positivo. Rever "Raiders of the Lost Ark" sempre será um prazer, pelo visto. Claro que o mesmo impacto que tive quando assisti pela primeira vez nunca mais se repetirá. Esse foi consumido pelas areias do tempo. Mesmo assim é impossível negar que o filme ainda continua muito divertido e sagaz.  Um símbolo da genialidade de Steven Spielberg, no auge de sua fase dourada e criativa, e George Lucas, que deixou o universo de "Star Wars" para criar outro universo igualmente saboroso e marcante na história do cinema.

Os Caçadores da Arca Perdida (Raiders of the Lost Ark, Estados Unidos, 1981) Direção: Steven Spielberg / Roteiro: Lawrence Kasdan, George Lucas / Elenco: Harrison Ford, Karen Allen, Paul Freeman / Sinopse: Após ser passado para trás na busca de um artefato nas selvas da América Central, o arqueólogo Indiana Jones (Harrison Ford) é contactado pelo governo americano para localizar a Arca da Aliança, que está sendo cobiçada pelos nazistas. Cabe a Jones achá-la antes que caia nas mãos de Hitler.

Pablo Aluísio.

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

Lady Bird

Esse filme acabou de ser premiado pelo Globo de Ouro nas categorias de Melhor Filme - Comédia ou Musical e Melhor Atriz (Saoirse Ronan). Ambas premiações mais do que justas. Aliás é bom salientar que Saoirse Ronan caminha a passos largos para se tornar a melhor atriz de sua geração. Ela começou muito jovem, ainda como a garotinha de olhos expressivos de "Desejo e Reparação" e depois de "Brooklyn" nada parece estar em seu caminho. Muito talentosa, ela aqui interpreta uma adolescente que insiste em ser chamada de "Lady Bird", embora seu nome real seja Christine.

Ela mora em uma pequena cidade da Califórnia chamada Sacramento. O lugar, em sua opinião, é muito sem graça. Por isso seu sonho e ir um dia embora para Nova Iorque. A família tem seus problemas. O pai está desempregado, o irmão mais velho, apesar de ser formado em uma ótima universidade, também não consegue um emprego, vivendo como caixa de supermercado. A mãe enfermeira segura a barra e faz de tudo para pagar uma boa escola católica para a filha, mas Lady Bird não parece muito interessada nos estudos. Ela está naquela fase da vida em que não sabe ainda o que quer, mas já sabe que uma das coisas que ela não deseja de jeito nenhum é ficar em Sacramento pelo resto de sua vida.

O nome "Lady Bird" aliás já diz muito. Ela quer ser livre, ir embora, como se fosse um passarinho. A oportunidade chega quando ela termina o High School. Sua chance de ir embora é ser aceita por alguma universidade, de preferência em Nova Iorque, a cidade de seus sonhos. O roteiro assim explora a vida dessa jovem comum, mostrando essa fase de transição em sua vida. Uma das melhores coisas dessa história é mostrar o dia a dia de uma estudante de escola católica. As amizades, verdadeiras e falsas, as primeiras decepções amorosas e a incerteza sobre o futuro. Tudo muito humano e bem conduzido. O filme é muito bacana por mostrar a vida de uma menina, quase mulher, que certamente vai causar identificação em muita gente. É um filme realmente muito bom, acima da média. Está mais do que recomendado para quem gosta de filmes que conseguem mostrar a beleza que existe na vida comum de cada um.

Lady Bird: É Hora de Voar (Lady Bird, Estados Unidos, 2017) Direção: Greta Gerwig / Roteiro:  Greta Gerwig / Elenco: Saoirse Ronan, Laurie Metcalf, Tracy Letts, Lucas Hedges / Sinopse: Christine 'Lady Bird' McPherson (Saoirse Ronan) é uma estudante de escola católica que está em seu último ano antes de ir para uma universidade. Uma época de muitas descobertas em sua vida, a primeira grande paixão, as amizades e a vida na pequena Sacramento. Seu sonho é um dia ir embora para Nova Iorque. Sua maior chance disso acontecer é ser aceita em uma das universidades da cidade.

Pablo Aluísio.

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Billy Elliot

Esse filme foi baseado em fatos reais. É a singela história de um garoto cujo pai quer que ele se torne lutador de boxe. Por isso o matricula na academia do bairro. O menino é franzino, magro, não muito adequado para um esporte tão violento, que exige tanto do aspecto físico. Assim acaba acontecendo o óbvio: ele leva uma dúzia de surras no ringue. O pai, um mineiro, porém não quer saber, acha que ele vai ficar mais durão com esse tipo de lição. Só que o pior acontece (sob o ponto de vista do pai, claro) quando Billy começa a prestar atenção nas meninas que dançam ballet numa sala ao lado onde ele treina boxe. Ele fica encantando com a dança, com a beleza e a suavidade dos movimentos. Logo compra (escondido) um par de sapatilhas e começa a frequentar as aulas de ballet ao lado das meninas. Imagine quando o pai descobre toda a verdade...

O roteiro é bem humano e desnuda o preconceito, a visão estreita e a estupidez de certa pessoas (em especial do pai do garoto). O fato dele dançar ballet não o tornava obviamente um homossexual, longe disso. Porém como explicar isso a um turrão do interior? Pela bela mensagem que passa, focando na tolerância e no respeito pelas escolhas de cada pessoa, o filme acabou sendo indicado a três prêmios no Oscar, entre eles o de Melhor Roteiro, o que foi um grande feito para um filme como esse, de pequeno orçamento e produção modesta. Depois a história do Billy Elliot acabou sendo encenada de novo nos mais concorridos palcos de teatro de Nova Iorque e Londres, alcançado o mesmo (e merecido) sucesso.

Billy Elliot (Billy Elliot, Inglaterra, França, 2000) Direção: Stephen Daldry / Roteiro: Lee Hall / Elenco: Jamie Bell, Julie Walters, Jean Heywood / Sinopse: Um garoto sonha em aprender a dançar ballet, mas para isso vai ter que superar os preconceitos de seu pai, um mineiro das minas de carvão, que acha que isso é coisa de homossexual. Filme indicado ao Oscar nas categorias de Melhor Direção (Stephen Daldry), Melhor Atriz Coadjuvante (Julie Walters) e Melhor Roteiro Original (Lee Hall). Também indicado ao Globo de Ouro nas categorias de Melhor Filme - Drama e Melhor Atriz Coadjuvante (Julie Walters). Vencedor do BAFTA Awards nas categorias de Melhor Filme Britânico, Melhor Atriz Coadjuvante (Julie Walters) e Melhor Ator (Jamie Bell).

Pablo Aluísio.

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Ao Cair da Noite

Esse filme foi até muito bem recomendado por fãs de filmes de terror e suspense, por isso resolvi conferir. A história se passa em um mundo que foi devastado por uma estranha doença incurável. Aos primeiros sinais de sua presença não resta outra alternativa a não ser a morte. O filme começa justamente assim, com o neto matando e enterrando o próprio avô por esse estar infectado. Eles o levam para a floresta e lá incineram seu corpo. Tudo para evitar que o resto da família seja também contaminada. Passados alguns dias a casa onde vivem pai, esposa e filho, é invadida por um estranho. Ele consegue ser imobilizado e conta que estava em busca de água pois tem mulher e filho em um lugar próximo esperando  por ele.

No benefício da dúvida Paul (Joel Edgerton) resolve acreditar na história contada pelo estranho. Eles vão até a floresta e resgatam sua família, mas será que o novo hóspede estaria mesmo contando toda a verdade? Esse roteiro investe muito mais no suspense. Como todos vivem isolados, com medo da contaminação que praticamente exterminou a humanidade, há sempre um clima de medo, ansiedade e apreensão com o mundo lá fora. Não se trata de mais um filme sobre apocalipse zumbi como alguns disseram, nem de uma contaminação que transformou os seres humanos em vampiros, como afirmaram outros. O roteiro nunca esclarece tudo. O espectador apenas fica sabendo que há uma doença mortal, altamente contagiosa, fazendo com que a família fique isolada e reclusa numa velha casa no meio do bosque. No elenco o filme conta com a atriz Riley Keough, a neta de Elvis Presley, como a esposa do estranho. Ela tem duas ótimas cenas no filme, mostrando que é realmente uma boa atriz. Fora isso o que temos aqui é um bom suspense, que tem seus momentos, mas que também passa longe de ser a obra prima do terror que alguns andaram dizendo por aí.

Ao Cair da Noite (It Comes at Night, Estados Unidos, 2017) Direção: Edward Shults / Roteiro: Trey Edward Shults / Elenco: Joel Edgerton, Christopher Abbott, Riley Keough, Carmen Ejogo / Sinopse: Depois que um vírus mortal se espalha pelo mundo, uma família decide se isolar em uma casa no meio da floresta. Tudo muda quando um estranho chega por lá. Ele tenta invadir a casa e depois que é imobilizado diz que tem mulher e filho sem água no meio da floresta. A vinda dessa segunda família acaba mudando o destino de todos naquela casa isolada.

Pablo Aluísio.

segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

O Rei do Show

Eu não costumo ler muito sobre um filme antes de assisti-lo. Justamente para não perder o fator surpresa que penso ser uma das coisas mais interessantes em relação a ver um filme pela primeira vez. Por isso tive uma surpresa e tanto ao descobrir que esse "The Greatest Showman" é na verdade um musical! Isso mesmo, embora conte sua história até de maneira quase convencional, o roteiro encaixou vários números musicais onde os personagens de repente saem cantando e dançando, nas mais diferentes situações. Claro que não no estilo dos antigos musicais da MGM, mas sim na linha de produções mais recentes como "La La Land". Muita gente não gosta desse gênero, mas no meu caso não vejo problema nenhum, pelo contrário, até aprecio.

Muito bem, entre uma canção e outra, o enredo vai contando a história real do empresário circense P.T. Barnum, um nome muito popular no século XIX. Claro, o roteiro trata com simpatia seu protagonista, o mostrando como um bom homem, que pela necessidade de dar a melhor vida possível para sua família resolveu investir em um circo de aberrações para ganhar dinheiro. Assim ele vendia ingressos para que o público visse o menor homem do mundo, o homem mais alto do mundo, a mulher barbada, o oriental tatuado, o incrível homem de três pernas e por aí vai. Embora tenha boas intenções nesse aspecto a verdade nua e crua era que P.T. Barnum não era o sujeito bonzinho e boa praça representado no filme. Na verdade ele era um picareta que ganhava dinheiro com a deficiência e os problemas dos outros. Um verdadeiro canalha.

O filme porém passa longe de retratá-lo assim. Nem sua frase mais famosa que dizia que nascia um idiota a cada segundo, foi lembrada (ou melhor dizendo, estrategicamente varrida para debaixo do tapete). O que sobra diante disso é um filme bem simpático, nada condizente com os fatos históricos reais, mas que consegue ao menos entreter com competência o público. Um aspecto interessante é a presença da cantora Jenny Lind. Ela de fato existiu e dizia-se na época que tinha a voz mais linda do mundo. Infelizmente registros gravados de sua voz não sobreviveram ao tempo (a tecnologia de gravação era muito rudimentar na época). De qualquer maneira a simples lembrança dela já valeu a pena, embora o roteiro tropece mais uma vez ao mostrar um tipo de sentimento entre os dois. Isso jamais aconteceu já que na história real Lind acusou Barnum de tê-la roubado, ficando com a maior parte do dinheiro de sua turnê pelos Estados Unidos (que rendeu quase cem apresentações em um ano!).

O ator Hugh Jackman dança e canta no filme. Graças a uma edição muito bem feita ficamos com a impressão de que ele é um bom dançarino. Só que não se engane, é tudo mesmo fruto apenas da edição que corta a cena em tantas partes que você já não consegue acompanhar direito o que está acontecendo. As músicas da trilha sonora até são agradáveis, porém é aquele tipo de material que você já sabe que não vai longe. São canções bonitas e descartáveis. Nada memoráveis. Algumas fazem uma força incrível para se tornarem hits nas rádios. Tudo em vão. O filme tem ido bem de bilheteria e é um dos fortes candidatos aos prêmios de cinema que estão vindo por ai. Vamos ver se o favoritismo se confirma. Então é isso. "O Rei do Show" é um bom filme que por acaso é um também um musical, sem muita preocupação com o P.T. Barnum histórico. Por mais falhas que tenha, pelo menos diverte por uma hora e meia, sem fazer muito esforço.

O Rei do Show (The Greatest Showman, Estados Unidos, 2017) Direção: Michael Gracey / Roteiro: Jenny Bicks, Bill Condon / Elenco: Hugh Jackman, Michelle Williams, Zac Efron, Rebecca Ferguson / Sinopse: Em ritmo de musical o filme conta a história do empresário circense P.T. Barnum (Hugh Jackman). Após perder o emprego ele resolve comprar um museu falido em Nova Iorque. Em pouco tempo resolve transformar o lugar em um circo de aberrações, com pessoas bem diferentes. Acusado de explorar a desgraça alheia, Barnum se torna um homem rico, usando seu dinheiro para contratar a cantora Jenny Lind (Rebecca Ferguson) para uma série de concertos ao vivo por todo o país. Filme vencedor do Globo de Ouro na categoria de Melhor Canção Original ("This is Me" de Benj Pasek e Justin Paul). Também indicado nas categorias de Melhor Filme - Comédia ou Musical e Melhor Ator - Comédia ou Musical (Hugh Jackman).

Pablo Aluísio.

sábado, 6 de janeiro de 2018

Tempestade: Planeta em Fúria

Qual é o filme mais cheio de clichês de 2017? Olha, ninguém vai conseguir tirar esse título de "Tempestade: Planeta em Fúria"! O mais estranho de tudo é que o filme até começa bem para depois afundar como o Titanic. O enredo é meio bobinho. Há um sistema mundial de controle do clima. Uma rede de satélites orbita ao redor do planeta justamente para controlar as tempestades, chuvas, temperaturas, etc. OK, tudo bem tolinho, mas tudo bem, até comprei a ideia no começo. Pois bem, algo assim caindo nas mãos erradas poderia causar o caos! E é justamente isso que ocorre quando um vírus implantado entra no sistema dos satélites, causando todos os tipos de destruição.

Claro que com o clima fora de controle todos se ferram! Nem os cariocas escapam. Numa cena de humor involuntário os banhistas brasileiros estão numa boa, curtindo um dia de sol numa das praias do Rio de Janeiro, quando de repente as ondas do mar congelam e começam a transformar todas as pessoas em estátuas de gelo! Isso mesmo, todo mundo congelado em uma praia do Rio, em pleno domingo de sol!!!... Bom, muita gente vai desistir do filme por aqui... mas eu até que disse para mim mesmo: "OK, vou aceitar mais essa bobagem do tamanho do Cristo Redentor". Percebam que eu estava em um dia bom, com muita paciência. As coisas só se tornam insuportáveis mesmo quando o Presidente dos Estados Unidos (pois é, os americanos são bobos demais), surge no horizonte para salvar o país... ai, ai, ai... é muito ufanismo para aguentar, vou te contar...

O ator principal do filme é o Gerard Butler. Ele é o cientista que projetou tudo. Quando o sistema vira uma arma contra a humanidade ele decide fazer de tudo para salvar a todos. É um personagem sem graça, que fala meia dúzia de termos técnicos (que não significam nada no final das contas) e dá uma de herói no final. Tudo é muito infantilizado nesse filme. Poderiam até fazer uma coisa legal com a ideia inicial, mas preferiram mesmo colocar uma tonelada de clichês nesse bolo cinematográfico indigesto! Tem espaço até para a criancinha tentando salvar seu cachorrinho enquanto sua cidade é invadida por uma dezena de tornados...  Convenhamos, é muita falta de originalidade e criatividade! Em outra cena, para ser o mais politicamente correto possível, um astronauta (que acaba salvando todo mundo) faz questão de lembrar para todos que é mexicano! Tive que dar risada! A sutileza para criticar Trump passou longe aqui... E as bobagens não param por aí, coisa pior vem na frente. Tem até uma equipe multicultural, com muitas mulheres latinas e negras, para não pegar mal com a turma da lacração. Enfim, um filme amorfo, totalmente sem sal. Uma perda de tempo sem salvação.

Tempestade: Planeta em Fúria (Geostorm, Estados Unidos, 2017) Direção: Dean Devlin / Roteiro: Dean Devlin, Paul Guyot / Elenco: Gerard Butler, Ed Harris, Andy Garcia, Jim Sturgess, Abbie Cornish, Alexandra Maria Lara / Sinopse: Cientista americano que criou um projeto de controle do clima no planeta precisa salvar a humanidade depois que o sistema é invadido, causando caos e destruição nas principais cidades ao redor do mundo.

Pablo Aluísio e Erick Steve.

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

Dragão Vermelho (2002)

Resolvi rever ontem "Dragão Vermelho", o último filme da trilogia original do personagem Hannibal Lecter. Como já escrevi antes, esse ainda é o meu preferido. O interessante é que sua história é anterior a tudo o que vemos em "O Silêncio dos Inocentes". Isso fica bem claro na última cena de "Red Dragon" quando o diretor da prisão pergunta a Lecter se ele tem interesse de se encontrar com uma jovem agente do FBI. Ela mesma, a personagem de Jodie Foster. Pois bem, voltando um pouco, no começo do filme, vemos Hannibal trabalhando junto ao agente Will Graham (Edward Norton). O policial está tentando prender um assassino em série canibal (que obviamente é o próprio Hannibal!). Após descobrir sua identidade eles entram em confronto. Lecter o esfaqueia e esse consegue reagir antes de ser preso, também o atingindo.

Os anos passam e Graham se afasta do FBI, afinal ele quase foi assassinado. Tudo muda porém quando um novo assassino em série surge. Apelidado pela imprensa de "Fada dos Dentes", esse criminoso mata famílias inteiras, em chacinas terríveis. Impulsionado por sua ética profissional o agente do FBI decide voltar. Ele estuda o modos operandi desse serial killer e acaba descobrindo semelhanças com o antigo modo de agir de Lecter. Pior do que isso, ele também é um canibal que come pedaços de suas vítimas. Tentando colocar o psicopata atrás das grades o mais breve possível, antes que ele faça novas vítimas, Graham decide ir conversar novamente com Hannibal na prisão, uma reaproximação que o deixará extremamente nervoso e receoso. Assim a situação que vemos em "O Silêncio dos Inocentes" de certa forma se repete aqui. O agente do FBI e o assassino encarcerado interagindo para localizar e prender o psicótico que está solto pelas ruas.

Dentre os vários pontos positivos desse filme eu destacaria o trabalho de Ralph Fiennes. Ele interpreta o psicopata Francis Dolarhyde. Vivendo uma vida dupla, de tímido técnico que trabalha em um Zoo de dia e de matador cruel e sanguinário de noite, o sujeito vai enlouquecendo cada vez mais com o passar do enredo. Ele tem uma fixação por um desenho de Black intitulado "Dragão Vermelho e a Mulher banhada de Luz" e passa a alucinar, achando que o tal dragão da figura o está dominando, o transformando ele próprio em uma espécie de deus mitológico! Algo completamente insano. Apesar de ter tido uma classificação etária maior nos EUA, o filme não é dos mais violentos dentro dessa trilogia. Só há uma cena mais violenta quando o dragão vermelho começa a devorar vivo o jornalista Freddy Lounds (Philip Seymour Hoffman, sempre ótimo). Depois o encharca de gasolina e toca fogo! Fora isso a violência é mais intelectual, com os policiais tentando pegar o assassino, usando para isso pistas deixadas por ele mesmo nas cenas dos crimes. Somando-se o bom roteiro, a sempre interessante presença de Anthony Hopkins e o trabalho de direção de Brett Ratner, temos no final um dos melhores filmes de assassinos seriais do cinema mais recente.

Dragão Vermelho (Red Dragon, Estados Unidos, 2002) Direção: Brett Ratner / Roteiro: Ted Tally, baseado no livro escrito por Thomas Harris / Elenco: Anthony Hopkins, Edward Norton, Ralph Fiennes, Harvey Keitel, Philip Seymour Hoffman, Mary-Louise Parker / Sinopse: Após ser preso o psicopata canibal Dr. Hannibal Lecter (Anthony Hopkins) passa a ajudar o agente do FBI Will Graham (Edward Norton) em seus casos de homicídio. Há um novo serial killer agindo nas ruas de Chicago e sua captura passa a ser algo urgente, por causa dos crimes horrendos que comete. Filme premiado pelo Fangoria Chainsaw Awards na categoria de Melhor Ator Coadjuvante (Fiennes).

Pablo Aluísio.

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

Paul McCartney - Press To Play (1986)

Depois dos ótimos discos "Tug Of War" e "Pipes of Peace" Paul McCartney deu continuidade em sua carreira nos anos 80 lançando em 1986 o álbum "Press to Play". Eu me recordo que o disco foi esperado com grande expectativa pelos fãs do ex beatle. O fato é que nos anos 80 Paul conseguiu emplacar vários hits inesquecíveis e formou parcerias musicais extremamente produtivas ao lado de artistas como Stevie Wonder e Michael Jackson. Além do sucesso nas paradas musicais Paul também vinha apresentando uma ótima sequência de excelentes clips promocionais para suas canções. Dessa forma tudo soava a favor de seu novo lançamento, que chegaria ao mercado bem no auge de sua popularidade na carreira solo. O primeiro clip promocional do disco foi vinculado no programa Fantástico da Rede Globo (não existia ainda a MTV em nosso país) e mostrava um cantor bem à vontade pegando carona no Metrô de Nova Iorque. Era de certa forma um videoclip bem mais simples e modesto do que o material que vinha sendo apresentando antes, mas cumpria sua meta de promover o novo disco que estava para ser lançado. A canção era muito boa e tinha bom ritmo. Além disso trazia uma novidade para o nosso país: a participação talentosa do guitarrista brasileiro Carlos Alomar. Na mesma semana o disco finalmente foi lançado no Brasil.

Provavelmente eu fui uma das primeiras pessoas a comprar o disco no Brasil já que o adquiri quando ele literalmente chegou nas prateleiras. Naquele momento só conhecia mesmo "Press" que já vinha tocando regularmente nas rádios brasileiras com extrema habitualidade. Era um novo sucesso de Paul, não restava dúvidas. A direção de arte da capa de "Press To Play" era de extremo bom gosto, uma foto tirada com o mesmo equipamento usado na era de ouro de Hollywood na década de 30. Por isso a capa possui todo esse charme retrô e vintage que lhe caía muito bem. O álbum apesar de não ser duplo vinha com dupla capa, sendo que em seu interior Paul colocou dois desenhos com as respectivas fichas técnicas de forma esquematizada. Se a parte gráfica era excelente, a musical deixou a desejar. Confesso que a primeira audição do disco me causou certa decepção. De primeira mão só consegui encontrar 3 faixas fortes no disco: Stranglehood (muito bem arranjada com inspirada execução de cordas), "Only Love Remains" (uma das mais belas baladas românticas de Paul na era pós Beatles, com lindo arranjo de piano) e a própria "Press" (com uma sonorização diferente da versão que saiu nos EUA - muito superior na minha opinião). As demais músicas do disco não ficavam à altura das expectativas. Paul chegava inclusive a requentar velhos arranjos de seu passado como os que tinha utilizado em "London Town" (na parte falada do disco "spoken word"). Também não havia nenhuma parceria digna de maior nota no restante do álbum (seu trabalho ao lado de Eric Stewart não foi muito bom na minha opinião).

O fato é que Paul formou uma banda nova para o disco, chamando músicos talentosos mas o resultado final ficou abaixo do que se esperava. O disco também não correspondeu muito bem nas paradas pois das demais músicas apenas "Only Love Remains" ganhou algum destaque, sendo promovida inclusive com um bonito videoclip (o segundo e último do disco). O LP também trazia uma sonoridade que tentava se comunicar melhor com os arranjos mais em moda dos anos 80 com farto uso de sintetizadores, o que causou o efeito oposto com o tempo o deixando bem datado hoje em dia. Atualmente o disco está meio esquecido. As músicas não estão entre as mais populares de Paul e ele ignorou completamente o disco em suas apresentações ao vivo. "Press to Play" no final das contas demonstra que até mesmo os grandes nomes da música possuem seus momentos "menores". O fato é que depois da pouca repercussão do disco Paul acabou deixando de lado discos mais produzidos como esse para alcançar novos limites e tentar novas ideias para sua carreira, lançando, por exemplo, um disco "pirata" na União Soviética e gravando um belo trabalho ao lado de Elvis Costello (Flowers In The Dirty) para fechar com chave de ouro a década de 1980. Mas essa é uma outra história...

1. Stranglehold (Paul McCartney / Eric Stewart) - Alguns arranjos sempre vão soar bons, não importa o tempo passado. Veja, por exemplo, o caso da música "Stranglehold". Esse tipo de sonoridade poderia estar em qualquer disco dos pioneiros do rock americano na década de 1950. Carl Perkins, Buddy Holly, qualquer um deles poderia assinar uma canção com essa levada. Aqui Paul valoriza os instrumentos básicos das primeiras bandas de rock, dando destaque para o bom e velho violão. Um sax maroto, que sempre me pareceu ter saído dos Comets, o grupo que acompanhava Bill Halley, completa o quadro musical. Paul usa em sua letra também um velho clichê dos primeiros compositores do rock, com várias perguntas que vão se repetindo ao longo da canção. Também gosto do estilo de composição "apoteótica", onde a harmonia vai sempre num crescente, um velho estilo que sempre apresentou ótimos resultados. Em suma, esse é uma das melhores músicas desse álbum de Paul McCartney. Deveria inclusive ter virado single, com maior divulgação.

2. Good Times Coming / Feel the Sun (Paul McCartney) - A música anterior mostrava que Paul sempre soava melhor quando ia nas raízes musicais, sem muita pretensão. Um pouco disso também se ouve em "Good Times Coming / Feel the Sun", na verdade uma dobradinha que Paul trouxe direto dos tempos dos Wings. Não precisa ir muito longe para perceber bem isso. Basta entrar aquele corinho com Linda e demais vocalistas de apoio para entender bem isso. Paul ainda inseriu uma bela melodia, tocada numa guitarra melosa ao estilo David Gilmour. Gosto da parte "Good Times Coming", mas não tanto de "Feel The Sun". Falta letra nessa segunda parte. Penso que esse foi um dos motivos de Paul ter unido as duas canções em uma pequeno medley. O refrão é bom, contagiante, simpático e agradável aos ouvidos, mas nada muito além disso. O solo de guitarra novamente salva tudo do lugar comum nos últimos acordes. Eric Stewart sempre um craque com seu instrumento.

3, Talk More Talk (Paul McCartney) - Que Paul McCartney é um dos grandes gênios da história da música, disso ninguém tem dúvidas. Agora, que até mesmo os gênios dão pequenos tropeços, poucos param para pensar um pouco sobre isso. O álbum "Press To Play" trazia excelentes canções em seu repertório, porém havia alguns deslizes também. Músicas sem muita inspiração que passavam a impressão de que Paul não tinha se esforçado muito ou então as incluiu no disco apenas para preencher espaço. "Talk More Talk" era bem isso. A introdução por si só já era horrível, mesmo contando com a participação muito especial da família de Paul, com destaque para o filho James. Aquele arranjo com violinos até poderia esconder as fragilidades da canção, mas é impossível negar que é uma faixa muito vazia, sem consistência harmônica. Paul usa e abusa de um refrão supostamente pegajoso para transformar a música em sucesso FM, mas é de se perguntar: a que preço? Essas partes faladas também não funcionavam. Paul já havia usado isso em "London Town" de 1978. Se naquele disco isso não funcionava porque ele voltou à repetir o mesmo erro? Estaria tentando provar algo aos críticos? Quem sabe o que se passava em sua cabeça... o fato era que essa faixa sim era bem fraca, sem muita qualidade.

4. Footprints (Paul McCartney / Eric Stewart) - "Footprints" tem uma simplicidade cativante. Aquele tipo de música que poderia ser tocada ao lado de uma fogueira na praia, durante um luau. Paul manteve a simplicidade da composição original na gravação de estúdio. Ele também canta a música de forma bem terna, sem qualquer afetação. Outra coisa que salvou a gravação é que Paul afastou qualquer resquício daquele tipo de som bem de acordo com os anos 80, com aqueles sintetizadores incômodos. O resultado ficou bonito. Existem alguns efeitos sonoros, mas bem pontuais e dentro da proposta da canção. Gosto bastante dessa faixa. É um dos bons momentos do álbum.

5. Only Love Remains (Paul McCartney) - Bom, se há uma música que justifica a existência desse álbum de Paul McCartney essa é "Only Love Remains". Com um arranjo belíssimo, ao piano, essa é sem favor algum uma das melhores melodias escritas por Paul nos anos 80. Em um disco com tantos altos e baixos, McCartney conseguiu criar uma verdadeira obra prima (mais um em sua longa lista de belas baladas românticas). "Only Love Remains" aliás prova algumas coisas, uma delas que muitas vezes o caminho é a simplicidade. Essa não é uma canção extremamente arranjada, com arroubos orquestrais. Pelo contrário, tudo está no lugar certo e nunca atropela a melodia, essa sua grande qualidade. E letra traz sua mensagem definitiva com a frase "E o amor é tudo o que fica, apenas o amor permanece", Perfeito, sem retoques.

6. Press (Paul McCartney) - Em 1986 Paul lançou mais um álbum, intitulado "Press To Play". As reações não foram tão boas como em outros discos de sua carreira solo. Isso era até previsível pois Paul vinha de uma sucessão de grandes discos nos anos 80. Basta lembrar de "Tug of War" (provavelmente seu melhor trabalho após os Beatles) e até mesmo "Pipes of Peace" (que trazia nada mais, nada menos, do que Michael Jackson como artista convidado). Assim as expectativas estavam altas demais para qualquer novo lançamento de músicas inéditas assinadas por Paul. A música de trabalho desse novo disco foi "Press". A canção ganhou um cilp (como era de praxe na época) e foi bastante divulgada nas rádios. Acabou virando um hit, porém curiosamente não ficou tão marcada na carreira de McCartney como tantos outros clássicos. Ele nunca a tocou ao vivo e nem a trouxe de volta aos seus shows. De certa maneira é aquele tipo de faixa que ficou parada mesmo lá nos anos 80. Isso porém não significa que seja uma música ruim ou fraca. Longe disso. "Press" tem um ótimo arranjo, com destaque para a participação do músico brasileiro Carlos Alomar, em um brilhante solo de guitarra. A gravação é de alto nível, beirando o perfeccionismo, como é comum nos trabalhos de Paul McCartney.

7. Pretty Little Head (Paul McCartney / Eric Stewart) - Uma das músicas mais trabalhadas por Paul nas rádios da Europa foi "Pretty Little Head" que inclusive chegou a ser lançada como single na Inglaterra. Essa música era nitidamente uma tentativa de Paul em soar moderninho, tentando capturar a sonoridade da música techno britânica dos anos 80. Nunca gostei da música em si. Paul McCartney foi um Beatle, fez parte de uma das bandas mais importantes da história do rock de todos os tempos. O que ele precisava ainda provar? Que era modernoso? Bobagem. McCartney simplesmente não precisava desse tipo de coisa. Simples assim. E no final das contas o que era moderno acabou ficando bem datado. Esses sintetizadores já aborreciam na época de lançamento do disco, imaginem hoje em dia! Esse tipo de gravação soa hoje em dia mais envelhecida do que qualquer outra coisa que Paul tenha feito na década anterior.

8. Move Over Busker (Paul McCartney / Eric Stewart) - Para dar certo bastava voltar para o bom e velho rock ´n´ roll, onde Paul finalmente se recuperou com "Move Over Busker". Para gravar essa simpática música ao estilo anos 50, Paul chamou duas feras no estúdio onde estava gravando o álbum, trazendo Pete Townshend para a guitarra e Phil Collins na bateria. Havia se tornado uma tradição desde os tempos de "Tug of War" esse tipo de participação especial de grandes músicos nos discos de Paul. Era uma parceria que havia rendido ótimos frutos, então nada mais natural do que repetir a dose. Pete Townshend, por exemplo, estava bastante inspirado nesse dia, tirando ótimos solos de seu instrumento. Paul o incentivou a improvisar, tocar numa boa, sem amarras. O resultado ficou simplesmente perfeito. Puro rock, sem bobagens, frescuras e modernices desnecessárias.

9. Angry (Paul McCartney / Eric Stewart) - Outra canção que merece destaque é "Angry". Ao contrário de "Press" ela não foi trabalhada por Paul para ser tocada nas rádios e nem virou sucesso na época. Acabou circulando apenas entre os fãs dos Beatles e de Paul que compraram o LP. De certa maneira ela tem uma sonoridade que lembra o punk inglês dos anos 70, mas com uma pitada dos velhos sucessos do rock´n´n roll em seus primórdios, lá nos anos 50, quando os primeiros singles desse novo gênero musical chegavam nas lojas. Em um disco com pouco mais de dez faixas afirmo que há pelo menos quatro grandes momentos (o que convenhamos não deixa de ser uma boa média). Uma das faixas que foram injustamente subestimadas e caíram no esquecimento foi justamente esse rock com espírito anos 50 chamado "Angry". A gravação inclusive me lembra uma jam session por parte de Paul e seu grupo de apoio (contando, olhem só, com Pete Townshend na guitarra e Phil Collins na bateria!). É bom salientar que isso não é um defeito, mas um mérito, simplesmente porque nem sempre uma grande produção garante uma grande música. Muitas vezes a simplicidade é tudo em uma faixa como essa! Tirando os vocais típicos do Wings (que nos remete aos anos 70) tudo o mais me faz lembrar das velhas gravações dos tempos da Sun Records ou até mesmo antes disso! O ritmo é bem envolvente e a letra, sucintamente simplória, completa ainda mais o quadro nostálgico. Só resta saber como um quarentão como Paul na época ainda encontrou toda essa energia adolescente revoltosa e rebelde em plenos anos 80! Ponto para o bom e velho Sir Macca e sua eterna juventude roqueira. É assim que se faz meu caro...

10. However Absurd (Paul McCartney / Eric Stewart) - O mesmo infelizmente não pode ser dito da teatral "However Absurd". Aqui há excessos que não caem bem. Paul erra até mesmo no estilo vocal que adota. Não digo que a melodia seja ruim, suas linhas musicais repetitivas possuem seu charme, mas Paul deveria ter escolhido a simplicidade em seus arranjos, algo como voz e violão. Outra coisa que vai incomodar alguns é a escassez de maiores notas musicais, o que traz uma sensação de repetição que vai cansando o ouvinte pela repetição. Também não gosto da letra. Versos como os que reproduzo a seguir não me dizem nada: "Orelhas contorcidas, como um cachorro / Quebrando ovos em um prato / Não me zombe quando eu digo / Que isso não é uma mentira". Vamos convir, não ficou bom.

11. Write Away (Paul McCartney / Eric Stewart) - Esse projeto "Press to Play" não foi composto apenas pelas músicas que saíram no disco original, no vinil de 1986. Paul gravou outras faixas que ele arquivou e que só foram conhecidas pelos fãs anos depois na edição especial do álbum lançado em meados de 1993. Nenhuma dessas gravações é excepcionalmente boa, mas funcionam como curiosidade. "Write Away", por exemplo, não encontrou espaço nas faixas do disco. Assim Paul resolveu lançá-la discretamente como Lado B do single com "Pretty Little Head". Passou longe de ser um sucesso, nem os próprios fãs mais aguerridos de Paul se lembram dela, para falar a verdade.

12. It's Not True (Paul McCartney) - Outras duas faixas foram arquivadas. "It's Not True" tem até um belo acompanhamento vocal, mas seu arranjo ficou pesado demais, lembrando em certo sentido algumas músicas do Pink Floyd na fase David Gilmour. Depois aos poucos ela vai abraçando um jeito mais Wings de ser. Não considero grande coisa, mas Paul a cantando baixinho tem seus atrativos. Provavelmente Paul não a considerou uma grande composição por isso a colocou na gaveta. "Tough On A Tightrope" parece uma baladinha, uma música de ciranda, para falar a verdade. Paul poderia até mesmo tê-la aproveitada em algum álbum conceitual, quem sabe. É simples e em certos aspectos até mesmo meio bobinha. Não admira que Paul a tenha deixado de lado.

Paul McCartney - Press To Play (1986) - Paul McCartney (baixo, violão, guitarra, vocais) / Eric Stewart (violão, guitarra) / Phil Collins (bateria, percussão) / Pete Townshend (guitarra) / Carlos Alomar (violão, guitarra) / Linda McCartney (teclados, vocais) / Lenny Pickett (saxofone tenor) / Gavin Wright (violino) / Produzido e arranjado por Paul McCartney, Padgham Hugh e Phil Ramone / Selo: Parlophone / EMI / Data de gravação: Março a Dezembro de 1985 / Data de Lançamento: 22 de agosto de 1986 / Melhor posição alcançada na parada  Billboard 200: #30.

Pablo Aluísio.

quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

Se7en

Assisti "Seven" apenas uma vez, há mais de vinte anos, quando o filme chegou nas telas de cinema do Brasil. Claro que gostei bastante. O roteiro era muito bem escrito, uma bem bolada fita policial sobre um assassino em série que matava suas vítimas de acordo com os Sete Pecados Capitais. Os tiras que vão tentar resolver o caso formam uma dupla improvável. O mais velho deles, interpretado por Morgan Freeman, está às portas da aposentadoria. Ele tem apenas mais uma semana de trabalho. Seu novo parceiro é um jovem detetive, na pele de Brad Pitt, que chega para trabalhar ao lado do veterano.

O primeiro crime é revelado quando eles encontram um homem absurdamente obeso, com o rosto afundando em um prato de macarrão. Ele teria sido morto por praticar o pecado da gula. A segunda vítima é um advogado, um sujeito que ganha a vida defendendo criminosos, estupradores e assassinos. Ganha a vida mentindo, para deixar nas ruas esses psicopatas, tudo por causa de dinheiro. Seria o pecado da ganância. Depois surge uma modelo, uma mulher extremamente bonita, mas vaidosa ao extremo, apaixonada por si mesma. Ela morre em uma cena de crime muito parecida com a morte de Marilyn Monroe, numa cama de lençóis brancos, segurando um telefone. O cerco vai se fechando e sobram apenas dois pecados: ira e inveja. Esses dois pecados capitais vão ser decisivos na cena final, quando os detetives entram em um jogo armado pelo serial killer. Um final realmente arrebatador - dependendo, é claro, do seu ponto de vista.

O diretor David Fincher criou uma espécie de filme noir moderno. As ruas são sujas, está sempre chovendo (com ecos de "Blade Runner") e tanto o assassino como suas vítimas vivem em ambientes decadentes, imundos. O personagem de Pitt é impulsivo, algumas vezes violento, e não pensa muito antes de agir. O extremo oposto de Freeman, sempre racional, tentando descobrir os próximos passos do assassino. É curioso essa diferença entre eles pois apesar de ser um clichê dos filmes de duplas policiais, até que funciona muito bem. Gwyneth Paltrow, que interpreta a esposa do tira de Brad Pitt, está no filme por motivos óbvios. Ela era namorada do astro galã na época, causando sensação nas revistas de fofocas. O estúdio então pensou que seria uma boa promoção colocá-la no elenco.

Por fim cabe ressaltar o papel de Kevin Spacey no filme. Ele é o vilão, o serial killer dos sete pecados capitais. Hoje em dia Spacey caiu em desgraça por causa das várias acusações de assédio sexual (inclusive contra menores de idade). Algo que provavelmente vai destruir sua carreira. Não deixa de ser uma grande pena porque ele sempre foi um grande ator, como bem demonstrado aqui nesse Se7en. Ele demora praticamente dois terços do filme para aparecer, mas quando finalmente surge na tela acaba roubando as atenções. A cena final, com eles no deserto, no meio daquelas grandes estações de energia, é um primor de ironia e humor negro (sem tentar ser engraçado, é bom frisar). No fim de tudo Morgan Freeman fala uma frase de Ernest Hemingway, que apesar dele próprio não acreditar muito nela, fecha com chave de ouro esse roteiro acima da média. Um grand finale, sem dúvida.

Seven: Os Sete Crimes Capitais (Se7en, Estados Unidos, 1995) Direção: David Fincher / Roteiro: Andrew Kevin Walker / Elenco: Morgan Freeman, Brad Pitt, Kevin Spacey, Gwyneth Paltrow / Sinopse: Dois policias tentam descobrir a identidade de um assassino em série que mata suas vítimas de acordo com os sete pecados capitais (gula, luxúria, avareza, ira, soberba, preguiça e inveja). Filme indicado ao Oscar na categoria de Melhor Edição (Richard Francis-Bruce). Também indicado ao BAFTA Awards na categoria de Melhor Roteiro Original (Andrew Kevin Walker).

Pablo Aluísio. 

terça-feira, 2 de janeiro de 2018

Dunkirk

Historicamente a retirada de Dunquerque foi um dos momentos mais cruciais da II Guerra Mundial. Os britânicos e franceses se viram cercados por forças nazistas e tiveram que abandonar às pressas uma região importante em termos de estratégia. O Primeiro Ministro Churchill preferiu a retirada ao invés de perder seus batalhões. Um passo atrás para no futuro continuar a avançar rumo à vitória. Esse evento já virou filme antes, bons filmes aliás, como "Tobruk" e "A Retirada de Dunquerque", dois clássicos do cinema de guerra. Agora o cineasta Christopher Nolan (da excelente trilogia do Batman) resolveu voltar para aquelas praias cercadas pelo inimigo.

O roteiro é direto ao ponto. Quando o filme começa vemos um jovem soldado inglês escapando por pouco dos tiros dos alemães. Eles parecem estar em todos os lugares (mas curiosamente nunca surgem na tela). Após quase morrer, o soldado finalmente consegue ir para a sua linha de combate. Assim como ele, milhares de outros soldados esperam a chegada dos navios da armada inglesa para irem embora de Dunquerque, afinal a ordem de retirada já foi dada e eles não possuem mais nada a fazer ali, a não ser sobreviver. Os navios porém não parecem chegar nunca. A força aérea da Alemanha nazista (a temida Luftwaffe) faz dos indefesos soldados estacionados naquela praia alvos fáceis. 

Três caças ingleses então são enviados, mas a jornada até as praias de Dunquerque se torna complicada. O roteiro também abre espaço para o esforço de guerra do homem comum. Na história vemos ingleses, cidadãos normais, usando seus barcos particulares para resgatarem o maior número possível de soldados. Um momento realmente impactante de heroísmo das pessoas simples, que tentam ajudar de alguma forma no front de batalha. Nolan assim usa três linhas narrativas para contar a história de seu filme. A do jovem soldado que espera ser resgatado nas praias de Dunquerque, a dos pilotos que lutam nos céus contra os inimigos para salvar os homens do exército e finalmente a das pessoas comuns, civis, que usam seus próprios barcos para ajudar de alguma forma na retirada. Tudo muito bem conduzido, com ótimas cenas de batalha, em especial com os caças da linha Spitfire, símbolos máximos da eficiência da RAF (A força aérea real inglesa) na guerra. Nolan também acerta em realizar um filme enxuto, que conta sua história de forma honesta, eficiente, sem encher a paciência do espectador com coisas desnecessárias. Desde "O Resgate do Soldado Ryan" não tinha assistido a um filme da II Guerra Mundial tão bem realizado. Está mais do que recomendado. 

Dunkirk (Dunkirk, Estados Unidos, Inglaterra, França, Holanda, 2017) Direção: Christopher Nolan / Roteiro: Christopher Nolan / Elenco: Tom Hardy, Kenneth Branagh, James D'Arcy, Cillian Murphy, Fionn Whitehead, Barry Keoghan, Mark Rylance / Sinopse: O filme mostra a retirada nas praias de Dunquerque das forças inglesas e francesas sob o ponto de vista de três personagens principais: um jovem soldado inglês, um piloto de caça da RAF e um homem mais velho, veterano, que usa seu pequeno barco para resgatar o maior número possível de soldados daquele cerco armado pelas forças nazistas. Filme indicado ao Globo de Ouro nas categorias de Melhor Filme - Drama, Melhor Direção (Christopher Nolan) e Melhor Trilha Sonora (Hans Zimmer).

Pablo Aluísio. 



segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

Rebelião em Alto Mar

Excelente filme. Essa é a terceira versão com essa mesma história. As anteriores contaram com dois mitos do cinema, a primeira com Clark Gable e a segunda com Marlon Brando. A produção dessa terceira versão não deixa a desejar, pois conta com vários nomes de peso em seu elenco. Como é baseado em fatos reais não há maiores diferenças em termos de enredo entre os três filmes. A história se passa no século XVIII. O comandante William Bligh (Anthony Hopkins) da Marinha Real Britânica, recebe a missão de levar o navio HMS Bounty até o Pacífico Sul. Seu objetivo é recolher mudas de Fruta-Pão para levá-las para a Jamaica, onde serão plantadas e usadas como alimentação para a mão de obra escrava que é utilizada nas fazendas daquela colônia.

Antes de embarcar Bligh resolve contratar seu amigo pessoal, Fletcher Christian (Mel Gibson), para ser seu homem de confiança dentro do navio. A viagem começa e durante a navegação o Capitão Bligh informa para sua tripulação que tem a vontade de contornar o Cabo Horn, um lugar terrível, cheio de tempestades, onde vários navios afundaram e homens morreram. Essa é a primeira decisão do Capitão que vai contra a vontade de seus marinheiros. A coisa porém não cessa por aí. Bligh se mostra um tirano, sempre açoitando e torturando os membros do navio pelos menores deslizes de disciplina.

Homem duro, pouco propenso a fazer concessões, o Capitão acaba vendo a situação piorar quando o navio finalmente chega nas paradisíacas ilhas do Taiti. Com lindas praias, frutas e mulheres nativas bonitas (e nuas), sempre prontas para transar com os tripulantes, a disciplina e a moral piora ainda mais. Após ficar algumas semanas nessas ilhas, o Bounty finalmente parte em direção à Jamaica, porém os marinheiros resolvem se revoltar contra o Capitão e seu método de comando. O motim, punido por enforcamento pela lei inglesa, logo se torna incontrolável, tendo como mentor justamente o imediato Christian, a quem o Comandante parecia confiar tanto, por considerá-lo seu amigo leal. A traição é duplamente violenta e mortal.

O elenco conta com grandes nomes. O primeiro deles, central em todos os acontecimentos, é Sir Anthony Hopkins, perfeito como o Capitão que perde o controle da situação do barco ao seu comando. Mel Gibson que trava um verdadeiro duelo de interpretação com Hopkins em cena, obviamente leva uma surra nesse aspecto, pois ele era ainda muito jovem quando atuou no filme. Melhor se sai o ícone do cinema e teatro inglês Laurence Olivier. Quando o filme começa o Capitão do Bounty é levado a uma corte marcial e Laurence interpreta seu superior, um almirante, que preside o julgamento. Daniel Day-Lewis também está na tripulação do navio, com o primeiro imediato do capitão que acaba perdendo seu posto durante a viagem. Não há muito espaço para Lewis brilhar, mas ele cumpre perfeitamente bem seu papel no meio de tantas feras da arte de atuar. Por fim Liam Neeson dá vida a um marinheiro bom de briga, meio animalesco, que se torna um pesadelo para seus superiores enquanto atravessa o Atlântico. Em suma, um filme realmente muito bom, com ótima fotografia, roteiro bem escrito, coeso e um time de atores de primeira linha. Imperdível para cinéfilos em geral.

Rebelião em Alto Mar (The Bounty, Estados Unidos, Inglaterra, 1984) Direção: Roger Donaldson / Roteiro:  Robert Bolt, baseado no livro histórico escrito por Richard Hough / Elenco: Mel Gibson, Anthony Hopkins, Daniel Day-Lewis, Laurence Olivier, Liam Neeson, Edward Fox / Sinopse: No século XVIII o Capitão William Bligh (Anthony Hopkins) é surpreendido por um motim em sua embarcação, o navio da armada inglesa HMS Bounty. Os amotinados liderados por Fletcher Christian (Mel Gibson) tomam o controle do navio alegando não mais suportar a tirania de seu comandante. Filme indicado à Palma de Ouro do Cannes Film Festival. Também indicado ao British Society of Cinematographers na categoria de Melhor Fotografia (Arthur Ibbetson).

Pablo Aluísio.