sábado, 24 de fevereiro de 2018

Danton - O Processo da Revolução

Na escola aprendemos que a Revolução Francesa foi uma maravilha, um momento importante onde o povo e a classe burguesa finalmente tomaram o poder, deixando para trás a tirania do antigo regime, da monarquia absoluta. Os professores esquecem de dizer que foi um período sanguinário, comandado por fanáticos que no final das contas implantaram uma outra espécie de tirania, essa bem pior, baseada no puro terror. A história do escritor, jornalista e orador Georges Jacques Danton foi um retrato perfeito disso. Ele foi um dos principais nomes da Revolução Francesa, um homem admirado por todo o povo francês. Quando os revolucionários já tinham guilhotinado toda a nobreza e grande parte do clero, começou um processo de autofagia dentro da própria revolução, onde os revolucionários começaram a mandar para a morte os próprios revolucionários que de alguma forma estivessem incomodando. Era outra tirania sangrenta que havia nascido.

No filme temos a volta de Danton a Paris. Maximilien de Robespierre está no poder, no comando de um comitê de terror. Danton chega para defender a liberdade de expressão, a possibilidade de criticar as coisas erradas que andam acontecendo com o governo. Nesse processo acaba batendo de frente com Robespierre que naquele momento já tinha deixado todos os princípios da Revolução para trás, implantando um regime de puro terror, levando milhares de pessoas para a morte. Era o fracasso completo da ideologia de liberdade que havia sido o principal motor da própria Revolução. O filme de Andrzej Wajda se desenvolve assim nesse verdadeiro duelo de ideias e posições, de um lado Danton ainda levantando a bandeira dos princípios que acreditava, do outro Robespierre, embriagado pelo poder absoluto. Uma triste ironia de uma revolução que levou milhares de pessoas à morte em nome de ideais que nem os próprios revolucionários acreditavam ou colocavam em prática. No fundo era tudo mesmo uma briga pelo poder absoluto.

Danton - O Processo da Revolução (Danton, França, 1983) Direção: Andrzej Wajda / Roteiro:  Jean-Claude Carrière, Stanislawa Przybyszewska / Elenco: Gérard Depardieu, Wojciech Pszoniak, Anne Alvaro / Sinopse: Durante o período conhecido como "O terror", o revolucionário Maximilien de Robespierre, com plenos poderes em mãos, começa a aniquilar todos os focos de oposição. Basta um texto, um artigo de críticas, para que o autor seja enviado para a guilhotina. É nesse momento que retorna a Paris o escritor Georges Jacques Danton que vem justamente para bater de frente com a tirania do comitê liderado por Robespierre. Filme  vencedor do BAFTA Awards na categoria de Melhor Filme Estrangeiro. Também premiado pelo César Awards na categoria de Melhor Direção.

Pablo Aluísio.

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

Depois Daquela Montanha

Esse filme tem um pouco de tudo, drama, aventura e principalmente romance. Sendo irônico e cínico poderia dizer que é uma espécie de "Sobreviventes nos Andes" com acentuado teor romântico. A história começa quando Alex Martin (Kate Winslet) se vê impedida de viajar por causa de uma tempestade. Ela está no aeroporto e não consegue seu voo por causa do clima. Ansiosa demais para esperar, porque seu noivo a está esperando para o casamento, ela decide chamar outro passageiro aleatório que encontra na fila do embargue para dividir o pagamento de um avião particular. O escolhido é o médico Ben Bass (Idris Elba) que topa a proposta sem pensar muito. Assim eles contratam o piloto Walter (Beau Bridges) para a viagem até Denver. Péssima ideia. O avião é um pequeno bimotor e atravessar aquela tempestade que se forma no horizonte não é das ideias mais inteligentes. Pior do que isso, o piloto sofre um derrame durante a viagem, o avião cai, o casal sobrevive, mas precisa enfrentar o frio e os perigos da montanha onde eles caíram.

É a tal coisa. O filme tem aspectos positivos. Só o fato de ter sua história praticamente toda passada no alto dessas montanhas, com paisagens maravilhosas e bonita fotografia já fazem valer a pena. Além disso tem boas cenas, como o ataque do Puma e a descida em busca de algum vilarejo ou acampamento remoto. A cena em que Ben sem querer pisa em uma armadilha para urso também tem seu impacto. Porém fora disso, principalmente na parte romântica do roteiro (sim, eles acabam se apaixonando enquanto tentam sobreviver) tudo é apenas mediano. Sempre gostei do trabalho da atriz Kate Winslet. Aqui ela tem bons momentos. O seu parceiro de cena, o ator Idris Elba, também não compromete. A questão é que o enredo por si próprio tem limitações, sempre apostando naquele tipo de situação de sobrevivência que é bem comum nessa espécie de produção. No saldo geral não me empolgou em nenhum momento, mas também não chegou a aborrecer. É de fato um filme mediano, para assistir sem muito compromisso ou interesse.

Depois Daquela Montanha (The Mountain Between Us, Estados Unidos, 2017) Direção: Hany Abu-Assad / Roteiro: J. Mills Goodloe, Charles Martin / Elenco: Kate Winslet, Idris Elba, Beau Bridges, Dermot Mulroney / Sinopse: Alex Martin (Kate Winslet) e Ben Bass (Idris Elba) tentam sobreviver no alto de uma montanha gelada após sofrerem um acidente de avião. O piloto Walter (Beau Bridges) sofreu um derrame bem no meio da viagem, os jogando em um ambiente hostil, onde também terminam se apaixonando.

Pablo Aluísio.

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

Wilde Se Casa Novamente

Comédia romântica bem inofensiva e com pouca dramaticidade (praticamente zero nesse sentido) que a despeito de seus defeitos ainda traz um bom elenco. O enredo é bem leve. Depois de alguns anos de seu divórcio com o ator Laurence (John Malkovich), a ex-estrela do cinema, hoje aposentada, Eve Wilde (Glenn Close), resolve se casar novamente. O escolhido é o coroa com fama de mulherengo Harold (Patrick Stewart). A festa de casamento será em uma das belas casas de Eve. Todos são convidados, não apenas a numerosa família de Eve, como seu ex-marido, filhos e netos. Harold chega com suas filhas e uma amiga delas. O clima é ameno. Enquanto todos vão se conhecendo os preparativos do casamento são feitos. Até que Harold não consegue fugir de sua natureza de não deixar nenhum rabo de saia escapar e faz uma besteira na noite anterior à cerimônia.

Basicamente o filme se resume a isso. Embora o elenco conte com atores excelentes, nenhum deles faz muita força para atuar bem. Parece até que esse grupo de veteranos estava de férias e resolveu fazer um filme. Nada além disso. Glenn Close, em especial, uma atriz de tantos papéis fortes no passado, aqui surge completamente inócua, sem personalidade, sem nada a acrescentar. John Malkovich também não diz a que veio. Ele interpreta um velho ator que tenta se reafirmar se envolvendo com jovenzinhas de 20 e poucos anos. Até mesmo o sempre bom Patrick Stewart não consegue se sobressair. O achei bem abatido para falar a verdade. O peso dos anos chegou no velho capitão Picard. A única coisa que nos faz lembrar do grande ator que ele um dia foi é a voz, que continua poderosa e com dicção perfeita. Fora isso ele anda bem alquebrado durante o filme inteiro. Fica até complicado acreditar que ele consegue seduzir e transar com uma jovem de 20 anos, amiga de suas filhas. Então é isso. Um filme leve, indo para a categoria das produções sem importância. Só assista se gostar muito desses atores veteranos.

Wilde Se Casa Novamente (The Wilde Wedding, Estados Unidos, 2017) Direção: Damian Harris / Roteiro: Damian Harris / Elenco: Glenn Close, John Malkovich, Patrick Stewart, Minnie Driver / Sinopse: Atriz de cinema aposentada, Eve Wilde (Glenn Close) decide se casar novamente. Ela pretende levar ao altar o mulherengo inveterado Harold (Patrick Stewart). No dia do seu casamento então decide convidar toda a sua família, inclusive seu ex-marido Laurence (John Malkovich). As coisas porém não vão sair como planejado por ela.

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

Entrando Numa Fria

Título no Brasil: Entrando Numa Fria
Título Original: Meet the Parents
Ano de Produção: 2000
País: Estados Unidos
Estúdio:  Universal Pictures
Direção: Jay Roach
Roteiro: Greg Glienna, Mary Ruth Clarke
Elenco: Ben Stiller, Robert De Niro, Teri Polo, Owen Wilson, Blythe Danner, Nicole DeHuff

Sinopse:
Greg Focker (Ben Stiller) é um cara comum que pretende se casar em breve. Antes de fazer seu pedido de casamento ele decide conhecer a família de sua noiva e descobre que o pai dela, Jack Byrnes (Robert De Niro), pode ser o pior de seus pesadelos. Filme indicado ao Oscar na categoria de Melhor Música Original ("A Fool In Love").

Comentários:
Robert De Niro foi um dos grandes atores americanos nos anos 70. Sua filmografia dessa década só tem clássicos. O problema é que o tempo passou e ele, precisando se manter como um nome comercialmente interessante para Hollywood, começou a atuar em comédias bobocas. Essa considerei sempre uma das piores. Além de ser estrelada pelo chatinho do Ben Stiller, ainda criou uma franquia, com uma sequência pior do que a outra. Essa comediazinha fez inesperado sucesso, mas nem tanto. Basta consultar os números. Custou 55 milhões de dólares e no fim faturou algo em torno de 166 milhões. Fez sucesso, deu lucro, mas não foi um blockbuster. De qualquer forma acabou se tornando o primeiro de muitos filmes irritantes. Só lamento pela presença de Robert De Niro cujo trabalho aqui se resumiu em interpretar um paizão chato, cheio de caretas. Pelo tamanho de seu talento ele merecia aparecer em filmes melhores, bem melhores do que esse besteirol sem graça.

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.

terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

Me Chame pelo Seu Nome

Dos nove filmes que estão concorrendo ao Oscar de melhor do ano, esse era o último que me faltava assistir. É a tal coisa, se "Corra!" é o representante da causa negra na lista, esse aqui é o que está representando os gays. Pelo visto teremos a partir de agora filmes representando minorias... É o politicamente correto fazendo pressão na escolha dos concorrentes ao Oscar. Pois bem, o tema é homossexualismo, isso fica bem claro. Mas qual é o enredo? Bom, a história do filme se passa no norte da Itália durante os anos 80. Um americano chamado Oliver (Armie Hammer) chega numa pequena cidade italiana para terminar seu livro. O lugar é muito bonito, bucólico, e ele se hospeda na casa de um professor universitário amigo. O filho do tal professor é um adolescente conhecido como Elio (Timothée Chalamet). O rapaz passa então a dividir o quarto com o visitante americano e aí...

Bom, não precisa ser muito inteligente para perceber que eles se sentem atraídos e depois de um período de flerte acabam tendo um relacionamento gay! O filme então vai mostrar esse romance em seu início, meio e fim. Penso que se fosse uma história entre um homem e uma mulher o filme nem sequer teria sido lembrado pelo Oscar. Isso em razão do fato de que sua carga dramática é muito fraca, quase inexistente. Não há grandes conflitos existentes e nada de muito interessante ocorre enquanto o americano e seu efebo se pegam pelas ruas históricas da cidade italiana. O filme é bem decepcionante nesse aspecto. Ambos os homossexuais que fazem par no filme acabam tendo namoricos com mulheres, mas parecem curtir mesmo a companhia um do outro debaixo dos lençóis. Quando o filme acabou fiquei com a seguinte pergunta na cabeça: OK, é um filme sobre um namoro de verão entre dois gays, mas e daí? O filme não tem nada demais, não é uma grande obra cinematográfica. Melhor filme do ano?! Não passa nem perto! Várias outras produções explorando o amor homossexual foram bem melhores do que esse "Me Chame pelo Seu Nome" e nem por isso ganharam indicações na categoria de Melhor Filme. James Ivory, um dos meus cineastas preferidos, escreveu o roteiro. Nada demais, apesar da indicação. Diria até que foi um trabalho preguiçoso por parte dele. Meio decepcionante. De bom mesmo apenas o título que faz uma referência indireta (e inteligente) a uma citação de Oscar Wilde que dizia ser o romance homossexual aquele amor que não se ousava dizer o seu nome. Fora isso tudo soa bem banal e desnecessário.

Me Chame pelo Seu Nome (Call Me by Your Name, Itália, França, Estados Unidos, Brasil. 2017) Direção: Luca Guadagnino / Roteiro: James Ivory / Elenco: Armie Hammer, Timothée Chalamet, Michael Stuhlbarg / Sinopse: Baseado no romance escritor por  André Aciman, o filme conta a história de um romance gay envolvendo um americano chamado Oliver (Armie Hammer) e um jovem rapaz italiano conhecido como Elio (Timothée Chalamet). Oliver está hospedado na casa do pai de Elio e acaba tendo um caso com o filho de seu anfitrião. Filme indicado ao Oscar nas categorias de Melhor Ator (Timothée Chalamet), Melhor Roteiro Adaptado (James Ivory), Melhor Música original ("The Mystery of Love" de Sufjan Stevens) e Melhor Filme. Também indicado ao Globo de Ouro nas categorias de Melhor Filme - Drama, Melhor Ator - Drama (Timothée Chalamet) e Melhor Ator Coadjuvante (Armie Hammer). Vencedor do BAFTA Awards na categoria de Melhor Roteiro (James Ivory).

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

O Paradoxo Cloverfield

Mais um filme da franquia "Cloverfield", só que dessa vez produzido por uma parceria entre a Paramount e a Netflix. A marca "Cloverfield" pertence hoje ao diretor J. J. Abrams que tem se esforçado para colocar pelo menos um filme novo por ano no mercado. Ele não dirige, mas na maioria das vezes produz e dá sugestões nos roteiros. Aqui temos uma equipe de astronautas que orbitam a Terra em uma estação espacial internacional. O objetivo da missão é colocar para funcionar um sistema de produção de energia, já que o planeta vive justamente uma crise de fontes de energias renováveis. No começo as tentativas falham, até que o sistema finalmente se estabiliza, isso até literalmente entrar em colapso. A explosão que se segue acaba causando uma espécie de fenda no espaço tempo dimensional, fazendo com que os membros da tripulação sejam transportados para uma dimensão paralela, onde nem tudo faz muito sentido.

Pois é, o roteiro é bem pretensioso. Usando das teorias de multi dimensões ele tenta criar sua trama. Funciona apenas em termos. Há situações bem interessantes, como aquela em que o braço de um membro da equipe é devorado pelas paredes da nave, ou então da surreal situação de viver agora em uma dimensão onde os mortos estão vivos e etc. Mesmo assim a intenção de soar científico demais vai cansando o espectador, ao mesmo tempo em que o roteiro parece cair nas suas próprias armadilhas. Quando tudo ameaça ficar confuso demais para o espectador médio há uma saída pela lateral, apelando para os bons e velhos monstros (sim, como todo filme "Cloverfield" há monstros que você só vai ver mesmo na última cena!). No geral achei um filme com um roteiro promissor que nunca cumpre suas promessas. O filme vai avançando, avançando e nada de muito interessante acontece, causando uma certa frustração no espectador. A produção é boa, a estação espacial é bem feita, porém o lado físico alternativo realmente cansa. É um "Cloverfield" menor dentro da franquia.

O Paradoxo Cloverfield (The Cloverfield Paradox, Estados Unidos, 2018) Direção: Julius Onah / Roteiro: Oren Uziel / Elenco: Gugu Mbatha-Raw, David Oyelowo, Daniel Brühl / Sinopse: A Tripulação de uma estação orbital tenta colocar em funcionamento um sistema de produção de energia, mas a experiência dá errado, criando uma fenda dimensional dentro do espaço, fazendo com que todos eles sejam transportados para uma estranha e bizarra realidade alternativa.

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.

domingo, 18 de fevereiro de 2018

The Beatles - Let It Be (1970)

The Beatles - Let It Be (1970) - Fruto do projeto fracassado chamado Get Back o disco Let It Be foi o último disco oficial a ser lançado pelos Beatles (embora não fosse o último a ser gravado como muita gente pensa) e foi produzido por Phil Spector. A ideia inicial de Paul McCartney era filmar um grande documentário mostrando os Beatles dentro dos estúdios, criando e gravando a trilha sonora do filme para depois todos saírem em uma grande turnê em vários países. Deu com os burros n´água. Antes de mais nada as gravações dentro dos estúdios se tornaram um verdadeiro inferno, com os integrantes se ofendendo entre si a todo o tempo. Além do constante confronto entre Paul, George e John este ainda inventou de trazer a japonesa Yoko Ono para dentro de Abbey Road, causando mais aborrecimentos ainda ao resto do grupo e aos produtores do filme.

Para completar de afundar os planos de Get Back a ideia de sair novamente em turnê foi logo descartada pelos demais membros do grupo que não tinham mais a menor intenção de ter de arcar com toda a histeria da estrada, como nos tempos da Beatlemania. George Harrison odiou a ideia assim como John Lennon que não tinha mais nenhum interesse no grupo. Assim Get Back acabou afundando e sendo arquivado. Tudo o que restou foi um vasto material de cenas dos Beatles dentro do estúdio, ensaiando em uma Jam Session sem fim (e sem direção).  Quando o grupo finalmente rachou em 1969 a Apple resolveu ressuscitar o projeto. Trocaram o nome de tudo para Let It Be, contrataram uma boa equipe de cineastas para salvar o documentário e Lennon jogou nas mãos de Phil Spector os pedaços da sessões para que ele desse um jeito naquela bagunça sem fim.  Spector então arregaçou as mangas para encontrar em metros e metros de gravações, material suficiente para compor um disco que fosse comercialmente viável.

O resultado é irregular. Embora haja clássicos absolutos como Get Back, Let It Be, Across The Universe (pessimamente gravada na opinião de Lennon) e Long and Winding Road, a opção de Spector em dar um clima de descontração ao conjunto do disco - com bobagens ditas pelo próprio grupo entre as faixas, pedaços dispersos de músicas e piadinhas - não trouxe um produto à altura de um álbum dos Beatles. Do jeito que ficou mais parece um bootleg do que um disco oficial da gravadora do grupo. Certamente todo fã do conjunto britânico deve ter o álbum em sua discoteca mesmo que passe o resto da vida se lamentando que músicas tão belas não tenham sido lançadas em um disco ideal. Enfim é a vida...

1. Two of Us (Lennon / McCartney) - "Two of Us" é uma balada dos Beatles que sempre considerei subestimada. Nunca vi por aí muitos elogios sendo feitos a essa faixa. É uma criação de Paul McCartney, com pequenas contribuições de John Lennon. Gosto de seu lado acústico, fazendo inclusive com que a gravação tenha um aspecto de singeleza que deixa até uma impressão de que estamos ouvindo uma jam session e não uma gravação oficial dos Beatles. No disco original de 1970 o produtor Phil Spector conseguiu estragar a introdução da canção, colocando Lennon falando algumas bobagens antes da música começar. Nada a ver. Ficou fora de contexto, fora de nexo. Qual teria sido o motivo? Só o maluco do Spector poderia explicar. Penso que essa decisão de trazer uma espécie de som mais cru do disco não foi a melhor opção. Paul que sempre havia primado por belas produções nos discos dos Beatles ficou duplamente irritado quando ouviu o disco. Afinal nada havia sido passado por seu crivo pessoal. Uma bobagem atrás da outra.

2. Dig a Pony (Lennon / McCartney) - Canção composta por Lennon para Yoko Ono. Uma boa faixa, valorizada por bons arranjos criados por John e Paul. Apesar de ser uma canção bem gravada e tudo mais, acabou ganhando o desprezo de Lennon após o fim dos Beatles. Durante uma entrevista ele qualificou sua própria canção como "um lixo"! Não se deve dar ouvidos a John. Ele, depois do fim do grupo, começou a falar mal de muitas músicas e discos da banda, numa reação pouco racional, mais movida pela emoção e pelos problemas (inclusive legais) que ele enfrentou após o fim dos Beatles. Parecia que John queria destruir tudo o que era relativo aos Beatles, provavelmente tentando prejudicar os que ainda tinham direitos sobre as músicas e a marca comercial de seu antigo conjunto. A canção que foi originalmente chamada por John de "All I Want Is You" e acabou depois ganhando esse título mais original e mais criativo " Dig a Pony". Apesar do péssimo humor por parte de John em relação à música pode ouvir sem receios. É uma boa canção do álbum.

3. Across the Universe (Lennon / McCartney) - Outro grande momento de John Lennon em "Let It Be" é a canção "Across the Universe". Certamente é uma obra prima de Lennon. Uma música de melodia lindíssima, com letra igualmente inspiradora. John a compôs na Índia quando os Beatles foram se encontrar com o falso guru Maharishi Mahesh Yogi. De uma forma ou outra o clima espiritualista tocou profundamente a alma do Beatle, resultando em versos como esses: "Palavras flutuam como uma chuva sem fim em um copo de papel / Elas se mexem selvagemente enquanto deslizam pelo universo / Um monte de mágoas, um punhado de alegrias / Estão passando por minha mente / Me possuindo e acariciando / Glória ao maestro do universo / Nada vai mudar meu mundo". E a poesia de Lennon continuava: "Imagens de luzes quebradas / Que dançam na minha frente como milhões de olhos / Eles me chamam para ir pelo universo / Pensamentos se movem como um vento incansável / Dentro de uma caixa de correio / Elas tropeçam cegamente enquanto fazem seu caminho / Através do universo". John acabou não gostando da versão que foi gravada para o álbum "Let It Be". Ele acusou Paul diretamente de ter sabotado sua música. John afirmou anos depois em uma entrevista que os Beatles ficavam semanas trabalhando nos arranjos das músicas de McCartney e quando chegava na hora de gravar as suas músicas pintava um clima de preguiça e má vontade entre os demais Beatles. Verdade ou paranoia de John Lennon? Na minha opinião a gravação de "Across The Universe" que ouvimos aqui nesse disco é muito boa, com belos arranjos. Nem Phil Spector com toda a sua loucura conseguiu estragar a música. Tanto isso é verdade que até hoje é uma das músicas mais celebradas da discografia dos Beatles. Não penso que as acusações de John tinham algum fundo de verdade. Ele estava apenas magoado com Paul e resolveu soltar farpas contra ele pela imprensa. Algo até bem injusto. O fato inegável é que "Across The Universe" é uma obra prima irretocável dos Beatles. Uma música eterna.

4. I Me Mine (Harrison) - George Harrison já vinha numa relação conturbada com John quando finalmente entrou no estúdio para gravar essa bela balada chamada "I Me Mine". O fato é que após uma briga entre eles, John simplesmente boicotou a faixa do colega de banda, não aparecendo nas sessões de gravação dessa canção. Apenas Paul e Ringo participaram. A ausência de John Lennon obviamente é sentida, porém os três Beatles restantes acabaram fazendo uma bela gravação. O refrão era um exemplo de auto afirmação de Harrison em relação ao seu talento. Depois de ficar anos e anos na sombra de John e Paul ele cantava no refrão versos como: "Por todo o dia eu sou mais eu, sou mais eu, sou mais eu / Por toda a noite, eu sou mais eu, sou mais eu, sou mais eu / Agora estão com medo de largar / Todos estão tramando / Tornando-se mais forte o tempo todo / Por todo o dia eu sou mais eu / Eu, depois eu, depois eu / Eu, depois eu, depois eu / Tudo o que eu escuto sou mais eu, sou mais eu, sou mais eu / Até aquelas lágrimas, sou mais eu, sou mais eu, sou mais eu". A letra, como visto, podia ser encarada até mesmo como uma grande indireta contra a dupla Lennon e McCartney. Uma mensagem do tipo "Vocês são bons, mas eu sou mais eu!". Provavelmente Lennon tenha entendido isso e caído fora de sua gravação justamente por essa razão.

5. Dig It (Lennon / McCartney / Harrison / Starkey) - Não espere muito de "Dig It". Essa música é um besteirol Lenniano, como gostava de dizer Paul. Na verdade a gravação original é longa (e chata). Phil Spector resolveu cortar quase tudo, deixando no disco oficial apenas uma amostra de pouco mais de 50 segundos! Soa quase como uma introdução de "Let it Be". Não ficou bom. Melhor teria sido deixado essa jam session besteirol de fora do disco. Não acrescenta nada e nem está completa. Então porque lançar no álbum? Provavelmente Phil Spector a adicionou por gratidão (ou medo) de John Lennon. Afinal foi John quem o contratou para produzir o material que havia sido gravado.

6. Let It Be (Lennon / McCartney) - Paul McCartney compôs a música "Let It Be" em homenagem à memória de sua mãe, falecida muitos anos antes, quando ele era ainda um adolescente. Assim como John Lennon havia feito em "Julia" do Álbum Branco, Paul pensou que havia chegado sua hora de lembrar de sua mãe Mary. A música abria com o seguinte estrofe: "When I find myself in times of trouble / Mother Mary comes to me /  Speaking words of wisdom, let it be". Esses versos chamaram a atenção dos fãs dos Beatles. Houve uma certa especulação quando a música chegou no mercado de que Paul estava fazendo uma referência a Mary (Maria), mãe de Jesus. Seria uma canção religiosa? Anos depois, já com o fim dos Beatles, Paul finalmente explicou a letra dizendo: "Não é uma música sobre Maria, Nossa Senhora, mas sim sobre Mary, minha mãe. Ela era enfermeira em Liverpool, morreu muito jovem e minhas lembranças foram se apagando com o passar dos anos. Eu fiz a música pensando exclusivamente sobre ela. Quando ela voltava do hospital tarde da noite ou pela manhã, sempre me trazia algum presentinho, um carrinho de plástico ou qualquer outra coisa. Ela também sempre tinha palavras que me acalmava. Por isso a letra traz memórias que ainda tenho de sua presença calma e tranquilizadora".

7. Maggie Mae (Harrison) - O disco "Let It Be" chegou ao mercado montado pelo produtor Phil Spector. Ele resolveu aproveitar pequenos trechos de ensaios, em que os Beatles apenas brincavam no estúdio, em estilo jam session, sem qualquer compromisso, para encaixar entre as faixas principais do disco. Uma dessas canções em pedaços foi "Maggie Mae", uma musiquinha bem básica, com acordes engraçadinhos, que John e Paul tocaram nos estúdios, sem jamais pensar que ela iria parar em um disco oficial dos Beatles. A letra relembrava uma prostituta de Liverpool, dos tempos de adolescência de John e Paul. Inicialmente Paul McCartney ficou bem aborrecido em saber que a música iria fazer parte do repertório de "Let It Be", mas como as cópias já estavam sendo prensadas, não havia mais o que fazer. Para falar a verdade Paul nunca gostou de Phil Spector que só foi contratado por decisão de John Lennon, sem consultar os demais membros da banda.

8. I've Got a Feeling (Lennon / McCartney) - Por falar em criações da dupla Lennon e McCartney, o blues "I've Got a Feeling" foi uma das últimas parcerias deles. Uma canção feita face a face, com ambos trabalhando e dando sugestões dentro do estúdio. Paul trouxe o esboço inicial e John começou a acrescentar notas, versos, instrumentos e arranjos. Acabou sendo uma das melhores faixas do disco. O curioso é que John e Paul quiseram imprimir na canção um certo tom de relaxamento, quase como se fosse uma jam session dentro dos estúdios. Só que tudo isso era obviamente bem trabalhado pela dupla. John Lennon resolveu inserir uma indireta para sua primeira esposa, Cynthia, nos versos da canção, quando canta "Oh, por favor acredite em mim, eu odiaria perder o trem / E se você me deixar por causa disso, eu não me atrasarei". Acontece que ela havia perdido o trem quando os Beatles foram para a Índia. Isso irritou profundamente John. Assim o Beatle passou meses longe dela, o que segundo ele próprio serviu para criar um fosso emocional entre o casal. Depois disso Yoko entrou na vida de John e o casamento deles acabou de vez. Já Paul resolveu escrever algumas linhas mais românticas para a música. É dele a seguinte estrofe: "Todos esses anos eu tenho andado por aí / Intrigado como é que ninguém veio me dizer / Que toda a minha procura se resumia a alguém / Que se parecesse contigo". Palavras escritas para Linda, o novo amor na vida de Paul. Afinal Jane Asher naquele momento já era passado.

9. One After 909 (Lennon / McCartney) - Uma das curiosidades mais interessantes do disco "Let It Be" foi a inclusão de uma nova versão para a música "One After 909". Na época os fãs dos Beatles não sabiam e nem foram informados sobre isso, mas essa canção que parecia ser uma doce novidade, uma criação inédita, era na verdade uma das mais antigas composições da dupla Lennon e McCartney. Na realidade esse excelente rock foi composto por John e Paul quando eles eram apenas adolescentes em Liverpool. Foi uma das primeiras experiências deles em criar seu próprio material. Uma música que foi escrita ainda nos anos 50. Pois bem, os Beatles já tinham gravado uma versão do rock na primeira metade dos anos 60. A versão ficou muito boa, realmente excelente. Quem tiver dúvidas ouça as versões gravadas em Abbey Road que foram lançadas no Anthology. Apesar dos bons resultados o que aconteceu a seguir segue sendo uma incógnita. A EMI Odeon simplesmente arquivou a gravação e ela ficou fechada nos porões da gravadora por longos anos! Inexplicavelmente aliás porque era uma versão tecnicamente muito boa. Durante as sessões do "Let It Be" John então resolveu trazer ela de novo, meio que na base da Jam Session, mas que acabou pegando. A versão dos Beatles nesse álbum também é muito boa. Esse é de fato um rock à prova de falhas, com guitarras fortes e aquele sentimento rockabilly que Lennon tanto adorava.

10. Long and Winding Road (Lennon / McCartney) - Uma das coisas que mais irritaram Paul McCartney quando finalmente ouviu o disco oficial "Let It Be" foi a forma como o produtor Phil Spector tratou sua criação "The Long and Winding Road". Para Paul os arranjos ficaram ruins, exagerados, bem de acordo com a "parede de som" que era característica de Spector. Definitivamente McCartney não queria aquele tipo de sonoridade para sua música, porém quando Paul finalmente a ouviu já era tarde demais. Os discos estavam prensados e nas lojas. Não tinha mais volta, era segurar a raiva e seguir em frente. Ele ainda iria reclamar disso em inúmeras entrevistas ao longo dos anos, mas definitivamente já era tarde demais."The Long and Winding Road" foi composta por Paul após o fim de seu longo relacionamento com a atriz Jane Asher. Ela foi a namorada de Paul durante praticamente toda a sua carreira ao lado dos Beatles. Todas as grandes composições dele nessa época foram criadas em cima de seu romance com Jane. Quando o namoro acabou Paul ficou bem arrasado e criou essa bela balada romântica, um adeus final aos anos que passou ao lado de Jane. Curiosamente Jane também foi responsável por ter jogado fora muitas músicas compostas por Paul e John durante a fase dos Beatles. Durante uma faxina ela resolveu jogar no lixo um monte de papéis. Eram letras de música de John e Paul - imaginem o tamanho do prejuízo histórico que isso causou! Mesmo assim, Paul realmente a amava e achava que um dia iria se casar com ela. Aliás todos os demais Beatles pensavam que eles iriam se casar algum dia. Infelizmente isso nunca aconteceu.

11. For You Blue (Harrison) - "For You Blue" foi composta por George Harrison. Em um álbum que trazia também "I Me Mine", considerada por muitos uma das melhores composições de Harrison, ela acabou ficando um pouco ofuscada. Mesmo assim gosto bastante da faixa. Algumas pessoas implicam com o uso da chamada sleep guitar, mas eu pessoalmente gosto desse tipo de sonoridade. Harrison acabou levando esse estilo para muitos de seus discos na carreira solo. Inclusive quando os três Beatles remanescentes resolveram gravar duas faixas no projeto "Anthology", Paul implicou com seu uso em "Free as a Bird" justamente por ter se tornado marca registrada de George. Se a faixa é bem arranjada e produzida, já não digo o mesmo de sua letra que em minha opinião é básica. Confira: "Porque você é bonita e adorável, garota, eu te amo / Porque você é bonita e adorável, garota, é verdade / Eu te amo mais do que amei a qualquer outra garota / Eu te quero de manhã, eu te amo / Eu te quero no momento em que me sinto triste / Eu vivo cada momento para você garota". Como se pode perceber os versos são bem simples. Amor colegial.

12. Get Back (Lennon / McCartney) - O curioso é que o álbum nem iria se chamar "Let It Be" mas sim "Get Back", que era um rock forte, com muita pegada, uma música também composta por Paul. Só nos últimos momentos, bem antes do lançamento do filme e do disco, é que Paul mudou de ideia, fazendo com que a balada sentimental e nostálgica "Let It Be" finalmente viesse a dar o título do disco como também do filme que estava sendo lançado. John Lennon cismou com a letra de "Get Back". Havia uma parte em que Paul cantava, olhando para Yoko Ono, em que ele dizia para ela voltar para o lugar de onde veio. John encarou isso como uma provocação direta de Paul e resolveu tomar satisfações. O clima que já não era bom dentro dos Beatles piorou, mas Paul não comprou briga, afirmando diplomaticamente para John que tudo não passava de paranoia de sua cabeça, uma vez que a canção não era sobre Yoko.

The Beatles - Let It Be (1970): John Lennon (Guitarra, violão, piano e vocal) / Paul McCartney (Baixo, violão, guitarra, piano e vocal) / George Harrison (Guitarra, violão e vocal) / Ringo Starr (Bateria) / Billy Preston (teclados) / Produção: Phil Spector / Selo: Apple - Emi Odeon / Data de gravação: 2 a 31 de Janeiro de 1969 (Apple Studios, Savile Row) e Janeiro de 1970 e Março de 1970 (Abbey Road Studios, Londres) / Data de Lançamento: 8 de maio de 1970 / Melhor Posição alcançada nas paradas: 1 (Inglaterra) e 1 (Estados Unidos).

Pablo Aluísio.

sábado, 17 de fevereiro de 2018

Roman J. Israel, Esq.

Por seu trabalho nesse filme o ator Denzel Washington está concorrendo ao Oscar esse ano. Seu trabalho é excepcional. É aquele tipo de atuação em que o ator desaparece em seu personagem. Na realidade você pouco se lembrará do Denzel Washington quando assistir ao filme. Só verá mesmo seu personagem pela frente. Denzel interpreta um advogado que por anos trabalhou nas sombras de um pequeno escritório, agindo mais no bastidores. Quando seu chefe sofre um AVC ele é informado que a firma de advocacia será fechada. Para que Roman não fique desempregado acaba sendo levado por um jovem advogado para trabalhar em seu próprio escritório. O novo estilo de advocacia não o agrada. Pior do que isso, indo contra sua própria ética pessoal e profissional ele acaba cometendo um deslize em um dos casos criminais em que trabalha. Algo que coloca em risco sua licença para a advocacia e sua própria vida.

"Roman J. Israel, Esq." foi produzido pelo próprio ator Denzel Washington. Claramente ele viu muito potencial nesse personagem. Com cabelos longos, modo de ser nada convencional, desandando para o esquisito e estranho, óculos grandes demais e cafona, seu advogado foge dos padrões. Antigo ativista dos direitos civis, ele nem consegue mais encontrar um espaço dentro dos novos movimentos sociais (a cena em que ele é ofendido por uma jovem negra durante uma palestra retrata bem isso). Sentido-se deslocado no trabalho e até mesmo entre os ativistas da nova geração, ele acaba se dando a si mesmo uma "folga" em seus valores morais, ficando com a recompensa pela captura de um criminoso, cujo paradeiro ele acaba sabendo no exercício de sua profissão de advogado. Com isso a situação foge do controle.

Obviamente o filme vai atrair mais aos que são da área jurídica. O trabalho de Roman abre margem para muitas discussões legais, inclusive a ação que ele sonha propor para acabar com a verdadeira "linha de montagem" de acordos com a promotoria, algo que faz com que inocentes se declarem culpados para fugir dos julgamentos, onde sempre são ameaçados com penas bem maiores, caso sejam vencidos. A insensibilidade dos juízes e sua arrogância também ganham espaço no roteiro. Além disso há a sempre discutível questão da comercialização absurda da advocacia nos Estados Unidos. O novo empregador de Roman é um advogado que só pensa em números, em aumentar a quantidade de clientes, sem se preocupar realmente com o bem estar deles. Interpretado por Colin Farrell ele é a imagem do novo advogado vendedor, que nada tem a ver com o velho advogado de Roman, um sujeito que estava mais preocupado em mudar o mundo com os seus princípios e valores jurídicos.

Roman J. Israel, Esq. (Roman J. Israel, Esq, Estados Unidos, 2017) Direção: Dan Gilroy / Roteiro: Dan Gilroy / Elenco: Denzel Washington, Colin Farrell, Carmen Ejogo / Sinopse: Roman J. Israel (Denzel Washington) é um advogado da velha escola que após a morte de seu antigo patrão precisa encontrar um novo emprego. Ele então passa a trabalhar para o jovem advogado George Pierce (Colin Farrell) que está mais preocupado em ficar rico do que com qualquer outra coisa. Filme indicado ao Oscar na categoria de Melhor Ator (Denzel Washington). Também indicado ao Globo de Ouro e ao Screen Actors Guild Awards na mesma categoria.

Pablo Aluísio.

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Alexandria

Esse filme se propõe a ser uma biografia para o cinema da filósofa, matemática e astrônoma Hipátia de Alexandria que teria vivido no século IV. Mulher extremamente culta e inteligente, acabou sendo atinginda por fatos que nem diziam respeito a ela pois não era religiosa. O que acontecia em Alexandria na época em que viveu é que havia uma ruptura violenta com o sistema de crenças, com o desaparecimento do paganismo da cultura romana e o surgimento do cristianismo. Para jogar ainda mais fogo na situação havia ainda a classe dos judeus, que batiam com ambas as religiões, criando um caldeirão de intolerância religiosa em todos os setores da sociedade.

Resgatar a figura de Hipátia é muito louvável no meu ponto de vista, mas é a tal coisa: faça um resgate honesto da história, não invente bobagens. Infelizmente o roteiro desse filme está cheio de erros históricos. Só para citar um deles, o pior de todos. No filme a famosa biblioteca de Alexandria é destruída por uma horda de cristãos fanáticos. Para a grande maioria dos historiadores isso jamais aconteceu. Os verdadeiros destruidores da biblioteca foram os árabes sob o comando do Califa Omar. Outro erro é colocar o templo de uma antiga divindade de Roma como parte da biblioteca. Eram duas construções diferentes, localizadas em lugares diversos de Alexandria. O roteiro assim me passa uma sensação de ser uma propaganda anticristã. Claro que houve abusos e erros na história do cristianismo, porém forçar a barra, criando algo que não existiu, me soa como desonestidade intelectual.

Outro ponto que estraga o filme como um todo é a tentativa de colocar Hipátia como uma mulher mais importante para a ciência do que realmente foi. Das obras dela que chegaram até nós temos uma ideia do trabalho que ela desenvolvia, principalmente nos campos da matemática e astronomia. A colocar como descobridora do sistema solar de Kepler, que só iria ser descoberto pela ciência mil anos depois da morte dela, soa bobo e infantil, principalmente para quem conhece a história da ciência. Então é isso. O filme peca pelos erros históricos absurdos e pela má fé que o roteiro tenta passar em todos os momentos. Sou da opinião de que se vai fazer um filme histórico o faça direito, respeitando os acontecimentos, não manipulando tudo em prol de sua própria ideologia.

Alexandria (Agora, Espanha, 2009) Direção: Alejandro Amenábar / Roteiro: Alejandro Amenábar, Mateo Gil / Elenco: Rachel Weisz, Max Minghella, Oscar Isaac / Sinopse: Biografia para o cinema de Hipátia de Alexandria , professora, astrônoma e matemática que viveu entre os séculos III e IV na cidade de Alexandria, onde desenvolvia seus estudos na famosa Biblioteca da cidade. Após conflitos religiosos envolvendo pagãos, cristãos e judeus, Hipátia acabou sendo envolvida numa teia de conspirações que iriam custar muito caro para sua vida.

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

The Post: A Guerra Secreta

Em tempos de Fake News o diretor Steven Spielberg resolveu levantar um pouco a bola da chamada grande imprensa. Para isso ele foi ao passado buscar um momento crucial na história do jornal The Washington Post. Na ordem do dia estava o desastroso envolvimento dos Estados Unidos na Guerra do Vietnã. Após vários presidentes a situação só piorava. Nixon estava na Casa Branca e a imprensa estava sempre em busca de algo para mostrar os erros de sua administração. E de repente começam a vazar cópias de relatórios secretos do Pentágono, um estudo que deixava claro que os americanos jamais venceriam a guerra. Pior do que isso, os documentos provavam que o governo mentia descaradamente para a sociedade. Claro que algo assim nas mãos de jornalistas fariam grande estrago, só que eles também estavam de certa forma de mãos atadas pois eram documentos classificados como de segurança nacional. Divulgá-los seria crime.

No centro da decisão ficam a verdadeira dona do Post, Kay Graham (Meryl Streep) e seu principal editor, Ben Bradlee (Tom Hanks). Esse último queria ir até as últimas consequências, publicar tudo e depois se fosse o caso brigar nos tribunais pelo direito de liberdade de expressão da imprensa. Ela havia tomado conta dos negócios após a morte do marido, não tinha experiência em tocar um grande jornal como aquele e temia criar atritos com suas amizades no alto escalão do poder em Washington. Mais do que isso. Tudo acontecia quando ela havia decidido abrir o capital da empresa, colocando ações à venda no mercado. Diante desse enredo Spielberg acaba fazendo mais uma vez grande cinema. É interessante notar sua grande capacidade narrativa. Atos até banais como o de dar a ordem de se colocar em ação as máquinas que imprimiam os exemplares dos jornais ganham tons épicos, graças ao talento do diretor. O ponto central passa a ser as pressões de se ir em frente (com risco de prisão) ou não, dar um passo atrás. O roteiro, que é muito bom, só falha um pouco no aspecto jurídico. Esse entrave entre o Post e o governo dos Estados Unidos deu origem a uma ação importante dentro da jurisprudência da Suprema Corte, mas Spielberg passa longe de explorar os detalhes jurídicos e técnicos dessa decisão. Ele preferiu dar uma agilidade maior ao seu filme tomando outro rumo, indo por outro caminho. Não faz mal. "The Post" é sim um belo filme sobre coragem e jornalismo de verdade, algo cada vez mais raro hoje em dia.

The Post: A Guerra Secreta (The Post, Estados Unidos, 2017) Direção: Steven Spielberg / Roteiro: Liz Hannah, Josh Singer / Elenco: Meryl Streep, Tom Hanks, Sarah Paulson, Bob Odenkirk, Bruce Greenwood, Tracy Letts, Jesse Plemons / Sinopse: Baseado em fatos reais o filme mostra os bastidores da publicação pelo The Washington Post de uma série de documentos secretos do governo americano durante os anos 70 e a repercussão que isso causou nos meios jurídicos e jornalísticos daquele país. Filme indicado ao Oscar nas categorias de Melhor Filme e Melhor Atriz (Meryl Streep). Também indicado ao Globo de Ouro nas categorias de Melhor Filme - Drama, Melhor Direção, Melhor Ator (Tom Hanks), Melhor Atriz (Meryl Streep), Melhor Roteiro e Melhor Trilha Sonora (John Williams).

Pablo Aluísio.

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

Trama Fantasma

Dos filmes que estão concorrendo ao Oscar de 2018, esse foi o que considerei o mais elegante, mais sofisticado. Na história temos um conceituado estilista londrino chamado  Reynolds Woodcock (Daniel Day-Lewis). Solteirão convicto, sua vida é dedicada inteiramente ao trabalho. Criando e elaborando lindos vestidos para a realeza europeia ele vai levando sua vida sem atropelos. Então para descansar um pouco decide certo dia dirigir pelo interior, parando em pequenos hotéis e hospedarias. Seu objetivo é ir até a casa de seu pai, mas no meio do caminho conhece uma garçonete chamada Alma (Vicky Krieps). Sempre com olhar de estilista ele percebe que ela tem o número certo para desfilar como modelo de sua nova coleção. No começo Woodcock a seduz e é correspondido, porém não demora muito a levá-la para seu atelier para tomar suas medidas. Certamente não foi bem um bom começo para esse relacionamento.

O roteiro assim se desenvolve, mostrando uma certa incapacidade de Woodcock em se entregar ao que sente, ao mesmo tempo em que Alma vai tentando levar em frente esse "não romance" entre eles. explorando a estranha simbiose que nasce entre o casal. Ele sempre frio, metódico, elegante, mas igualmente neurótico e ela como uma mulher comum que só deseja ter uma vida feliz ao seu lado, algo que ela logo percebe ser quase impossível. Em um filme assim o que se destaca mesmo é o elenco e ele é muito bom. A começar por Daniel Day-Lewis. Com cabelos grisalhos, em um tipo de interpretação mais introspectiva, centrada em si mesmo, Lewis é um dos principais concorrentes ao Oscar de melhor ator nesse ano. Chegou-se inclusive a se especular que esse seria seu último filme. Será mesmo? O que posso esperar é que não, já que Daniel Day-Lewis é aquele tipo de ator de raro talento que fará muita falta caso decida se aposentar. Vicky Krieps, que interpreta Alma, sua paixão improvável, também tem ótima cenas, embora nunca consiga sair da sombra gigantesca de Lewis. No geral é um filme muito, muito bom. A trilha sonora incidental é linda, quase toda em piano, com temas clássicos. Uma produção fina, especialmente indicada para quem estiver em busca de um cinema realmente classe A.

Trama Fantasma (Phantom Thread, Estados Unidos, 2017) Direção: Paul Thomas Anderson / Roteiro:  Paul Thomas Anderson / Elenco: Daniel Day-Lewis, Vicky Krieps, Lesley Manville / Sinopse: Estilista da realeza europeia acaba se enolvendo com uma garçonete que ele conhece por acaso durante uma viagem, dando começo a um relacionamente duradouro e problemático. Filme indicado ao Oscar nas categorias de Melhor Filme, Melhor Ator (Daniel Day-Lewis), Melhor Atriz Coadjuvante (Lesley Manville), Melhor Música (Jonny Greenwood), Melhor Figurino (Mark Bridges) e Melhor Direção (Paul Thomas Anderson). Também indicado ao Globo de Ouro nas categorias de Melhor Ator (Daniel Day-Lewis) e Melhor Música (Jonny Greenwood).

Pablo Aluísio.

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

Oscar 2018 - Melhor Ator

Um ano apenas razoável. Não vi nenhuma atuação de impressionar. Apenas bons trabalhos, alguns ajudados pelo departamento de maquiagem dos estúdios, que estão mais sofisticados a cada ano. Entre os meus preferidos está obviamente Gary Oldman por "O Destino de uma Nação" (Darkest Hour). Embaixo de pesada maquiagem ele interpreta um Winston Churchill recém alçado ao poder, precisando lidar com uma oposição ferrenha dentro do parlamento, ao mesmo tempo em que precisa enfrentar a ameaça nazista. Apesar de tudo considerei uma boa atuação. Oldman incorporou os trejeitos do velho primeiro ministro. Em alguns momentos derrapa um pouco, indo para o lado mais da caricatura, mas nunca chega a comprometer seu trabalho. Pelo tamanho da figura do personagem histórico que interpreta um Oscar nesse ano seria bem-vindo.

Meu segundo na escala de preferência é Daniel Day-Lewis,  por "Trama Fantasma" (Phantom Thread). Há informações que essa seja sua despedida do cinema, mas eu não acredito que isso vai acontecer. Nesse filme muito fino e sofisticado o talentoso Lewis interpreta um estilista londrino que, obcecado pelo trabalho, acaba encontrando o amor na figura de uma garçonete desajeitada que ele conhece em uma lanchonete do interior. O fino da interpretação de Lewis vem do fato de seu personagem ser bem complexo do ponto de vista psicológico. Obcecado pela mãe ele tinha crises que o impedia de trabalhar e criar. Assim acabou encontrando o suporte na companhia da fiel Alma, sua paixão de vida.

Denzel Washington, por sua vez, interpreta um tipo bem diferente em "Roman J. Israel, Esq". Aqui a maquiagem é tão pesada, aliada a figurino e cabelo, que muitos nem vão reconhecer o ator. A boa nota é que Denzel tem figurado constantemente na lista dos melhores atores do ano, mostrando que ele é realmente um talento nato. Vai ganhar? Dificilmente. Quando a maquiagem é pesada demais os membros da academia acabam desvalorizando um pouco o trabalho do ator, afirmando que a maquiagem já fez grande parte do trabalho.

Por fim dois nomes fracos. O pior deles é a presença de Daniel Kaluuya, por "Corra!" (Get Out). Que filme porcaria! Não sei aonde está o brilhantismo de sua atuação nesse terror B sem atrativos. Fazer cara de bobão, de namorado de garota branca sendo um negro é pressuposto de talento dramático? Se for isso, então temos uma novidade na escolha dos melhores atores do ano. Outro bem fraco é Timothée Chalamet, por "Me Chame Pelo Seu Nome" (Call Me by Your Name). É um azarão na lista e como acontece nesse caso já sabemos: ele deve agradecer pela lembrança e nada mais. A indicação já é um prêmio em si mesmo. Não pense em levantar a estatueta.

Pablo Aluísio.

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

Mãe!

Esse filme foi absurdamente elogiado pela crítica em seu lançamento. Tudo fruto da inegável competência do diretor Darren Aronofsky, um cineasta que aliás gosto muito. Um verdadeiro artista da sétima arte. Dito isso, devo deixar claro também que esse filme não me agradou. Na verdade foi, até o momento, o pior trabalho de Darren Aronofsky que já assisti. Está muito longe da genialidade de "Cisne Negro" ou da emoção de "O Lutador", as duas obras primas desse diretor. Aronofsky caiu na velha armadilha de ser pretensioso demais, tentar parecer cult além da conta. O enredo começa até de forma convencional com um casal vivendo numa bela e isolada casa no campo. Curiosamente os personagens não possuem nome. Ele é apenas um escritor de livros que passa por uma crise de criatividade (isso é um clichê em personagens de escritor, não vamos esquecer disso). Ela é uma dona de casa, uma mulher que tenta dar apoio ao marido, fazendo os trabalhos domésticos enquanto ele tenta finalmente escrever um novo livro.

A esposa é interpretada por Jennifer Lawrence, o marido por Javier Bardem. Tudo caminha relativamente bem até a chegada de um estranho, um médico que vai parar na residência do casal. Interpretado por Ed Harris, esse personagem parece esconder algo. Pior é quando sua esposa também chega, fazendo com que a expressão "visitantes inconvenientes" ganhe uma nova dimensão. A coisa não para por aí. Logo chegam os filhos do casal, dois sujeitos que se odeiam e vivem brigando e daí a coisa toda vai virando um caos até tudo terminar em um final simplesmente caótico e devastador. Embora você tenha a sensação de estranheza durante todo o filme, nada vai lhe preparar para a bizarrice de seu final. É tudo muito estranho, bizarro, onde Darren Aronofsky tenta transmitir uma mensagem que provavelmente nem ele saiba qual é! É aquele tipo de filme que força uma barra para ser cult, moderninho, caindo na graça do público mais descolado. Nada errado em tentar alcançar esse tipo de objetivo. O problema é a chatice que vem com tudo isso. O saldo geral me soou bem negativo. É um filme estranho para pessoas estranhas. Não adiciona em nada nas carreiras de Jennifer Lawrence, Javier Bardem ou Ed Harris, nem muito menos para Darren Aronofsky, que acabou sendo atropelado pelo seu próprio ego.

Mãe! (Mother!, Estados Unidos, 2017) Direção: Darren Aronofsky / Roteiro: Darren Aronofsky / Elenco: Jennifer Lawrence, Javier Bardem, Ed Harris, Michelle Pfeiffer, Brian Gleeson, Domhnall Gleeson / Sinopse: Esposa (Lawrence) e seu marido escritor (Bardem) vivem em uma casa no campo quando suas vidas são reviradas de cabeça para baixo após a chegada de um estranho (Ed Harris) que diz ser médico em um hospital da região. Filme indicado ao Leão de Ouro no Venice Film Festival na categoria de Melhor Filme.

Pablo Aluísio.

domingo, 11 de fevereiro de 2018

The Beatles - Let It Be - Parte 4

"Two of Us" é uma balada dos Beatles que sempre considerei subestimada. Nunca vi por aí muitos elogios sendo feitos a essa faixa. É uma criação de Paul McCartney, com pequenas contribuições de John Lennon. Gosto de seu lado acústico, fazendo inclusive com que a gravação tenha um aspecto de singeleza que deixa até uma impressão de que estamos ouvindo uma jam session e não uma gravação oficial dos Beatles.

No disco original de 1970 o produtor Phil Spector conseguiu estragar a introdução da canção, colocando Lennon falando algumas bobagens antes da música começar. Nada a ver. Ficou fora de contexto, fora de nexo. Qual teria sido o motivo? Só o maluco do Spector poderia explicar. Penso que essa decisão de trazer uma espécie de som mais cru do disco não foi a melhor opção. Paul que sempre havia primado por belas produções nos discos dos Beatles ficou duplamente irritado quando ouviu o disco. Afinal nada havia sido passado por seu crivo pessoal. Uma bobagem atrás da outra.

"For You Blue" foi composta por George Harrison. Em um álbum que trazia também "I Me Mine", considerada por muitos uma das melhores composições de Harrison, ela acabou ficando um pouco ofuscada. Mesmo assim gosto bastante da faixa. Algumas pessoas implicam com o uso da chamada sleep guitar, mas eu pessoalmente gosto desse tipo de sonoridade. Harrison acabou levando esse estilo para muitos de seus discos na carreira solo. Inclusive quando os três Beatles remanescentes resolveram gravar duas faixas no projeto "Anthology", Paul implicou com seu uso em "Free as a Bird" justamente por ter se tornado marca registrada de George. Se a faixa é bem arranjada e produzida, já não digo o mesmo de sua letra que em minha opinião é básica. Confira: "Porque você é bonita e adorável, garota, eu te amo / Porque você é bonita e adorável, garota, é verdade / Eu te amo mais do que amei a qualquer outra garota / Eu te quero de manhã, eu te amo / Eu te quero no momento em que me sinto triste / Eu vivo cada momento para você garota". Como se pode perceber os versos são bem simples. Amor colegial.

Não espere muito de "Dig It". Essa música é um besteirol Lenniano, como gostava de dizer Paul. Na verdade a gravação original é longa (e chata). Phil Spector resolveu cortar quase tudo, deixando no disco oficial apenas uma amostra de pouco mais de 50 segundos! Soa quase como uma introdução de "Let it Be". Não ficou bom. Melhor teria sido deixado essa jam session besteirol de fora do disco. Não acrescenta nada e nem está completa. Então porque lançar no álbum? Provavelmente Phil Spector a adicionou por gratidão (ou medo) de John Lennon. Afinal foi John quem o contratou para produzir o material que havia sido gravado.

Pablo Aluísio.

sábado, 10 de fevereiro de 2018

O Assassino: O Primeiro Alvo

Filme cansativo. É a tal coisa, o cinema de ação está em plena decadência. Parece que todos os clichês já foram usados tantas vezes que se tornou impossível não fazer um filme de ação repetitivo ultimamente. Novamente o roteiro explora o tema do terrorismo islâmico. Aqui temos um jovem, Mitch Rapp (Dylan O'Brien). Na primeira cena do filme ele está curtindo uma praia ensolarada numa daquelas praias paradisíacas do litoral espanhol. Ao seu lado sua namorada que ele está prestes a pedir em casamento. Felicidade total! Até que do nada surgem os terroristas da Jihad. Portando metralhadoras e fuzis eles abrem fogo contra os turistas. A noiva de Mitch é morta covardemente nas areias brancas do lugar. Pronto, fica armada a primeira premissa de um filme como esse: a vingança. Mitch resolve caçar por conta própria os islâmicos fundamentalistas, mas a CIA tem outros planos para ele.

Assim ele é recrutado pela agência de inteligência americana. Já que quer matar terroristas, vai matar como agente da CIA. Seu mentor passa a ser Stan Hurley (Michael Keaton), veterano da CIA, um sujeito durão acostumado a matar com eficiência. A função de Stan é transformar Mitch em um assassino profissional sob comando da agência. A primeira missão que surge para eles é resgatar uma "arma suja", um artefato nuclear contrabandeado no mercado negro. Obviamente os terroristas querem comprar a arma para detonar em Roma, claro, a capital ocidental do cristianismo. Para surpresa de Hurley há um antigo agente da CIA, que também foi treinado por ele, envolvido na negociação. Chamado agora de "Fantasma" (Taylor Kitsch) ele virou um mercenário e está prestes a passar a bomba atômica para os islâmicos. Bom, como eu disse o filme se torna cansativo pelo excesso de clichês! Tem boas cenas de ação? Sim, tem, inclusive a final quando a sexta frota da Marinha Americana entra na jogada. Muito bem feita a sequência, mas que não salva o filme do lugar comum.

O Assassino: O Primeiro Alvo (American Assassin, Estados Unidos, 2017) Direção: Michael Cuesta / Roteiro:  Stephen Schiff, Michael Finch / Elenco: Michael Keaton, Taylor Kitsch,  Dylan O'Brien, Sanaa Lathan / Sinopse: Jovem americano, traumatizado após sua namorada ser morta em um ataque terrorista, é recrutado pela CIA para caçar os terroristas islâmicos pelo mundo, seja em Istambul, seja em Roma, sua missão agora é recuperar uma bomba atômica que está sendo vendida aos fundamentalistas.

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.