segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Traffic

Título no Brasil: Traffic - Ninguém Sai Limpo
Título Original: Traffic
Ano de Produção: 2000
País: Estados Unidos
Estúdio: Universal Pictures
Direção: Steven Soderbergh
Roteiro: Simon Moore, Stephen Gaghan
Elenco: Michael Douglas, Benicio Del Toro, Catherine Zeta-Jones, Jacob Vargas, Michael Saucedo, Tomas Milian

Sinopse:
O filme tenta, através de seus personagens, mostrar o ciclo completo que envolve o tráfico de drogas na fronteira dos Estados Unidos com o México, mostrando o envolvimento de traficantes, políticos, empresários e policiais, todos envolvidos, de uma maneira ou outra, com a venda de drogas, um negócio altamente lucrativo e completamente ilegal.

Comentários:
Existe solução para o problema do tráfico de drogas na sociedade? Esse roteiro tenta responder, mesmo que indiretamente, essa pergunta. Claro que ele não tenta trazer soluções, mas apenas mostrar o que está errado nessa guerra contra as drogas. Entre os maiores desafios está justamente controlar o envolvimento de autoridades, policiais e agentes do Estado justamente dentro desse lucrativo negócio. Não é segredo que existem verdadeiros narcoestados, onde o poder está nas mãos dos grandes comerciantes de drogas. Afinal se há um mercado consumidor ávido por drogas haverá também quem as venda. O filme assim se sustenta nesse meio explosivo. Há um roteiro ao estilo mosaico (com ecos de Robert Altaman que Steven Soderbergh tentou se espelhar). Assim o filme vai mostrando várias histórias que parecem independentes entre si, mas que ao final se interligam. O clima é árido, seco, de certa maneira é um filme frio, muito duro. Não há nem espaço para mocinhos e bandidos, mas apenas para pessoas turvas que ora se beneficiam, ora se prejudicam por causa das drogas, que diga-se de passagem já dominou completamente a sociedade americana, indo desde os altos figurões da política até o mais rasteiro viciado que perambula pelas ruas atrás da próxima dose. Assista e tenha uma noção do caos que impera nesse assunto mais do que delicado. Filme vencedor do Oscar nas categorias de Melhor Direção (Steven Soderbergh), Ator Coadjuvante (Benicio Del Toro), Roteiro Adaptado (Simon Moore, Stephen Gaghan) e Edição (Stephen Mirrione).

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.

domingo, 15 de outubro de 2017

O Planeta dos Macacos

Título no Brasil: O Planeta dos Macacos
Título Original: Planet of the Apes
Ano de Produção: 1968
País: Estados Unidos
Estúdio: Twentieth Century Fox
Direção: Franklin J. Schaffner
Roteiro: Michael Wilson, Rod Serling
Elenco: Charlton Heston, Roddy McDowall, Kim Hunter, Maurice Evans, James Whitmore, James Daly

Sinopse:
Após sua espaçonave sofrer uma pane, o astronauta George Taylor (Charlton Heston) vai parar em um estranho planeta, muito parecido com a Terra, mas que é dominado por macacos! Os únicos humanos estão aprisionados como animais. Tudo não parece fazer muito sentido até que Taylor descobre uma terrível verdade sobre aquele lugar...

Comentários:
Esse é o filme que deu origem a tudo. Baseado na obra literária de Pierre Boulle o projeto do filme ficou arquivado por muitos anos pois o estúdio tinha receios do público não entender a proposta principal do enredo. Só após o ator Charlton Heston aceitar o convite para estrelar a película é que finalmente a Fox deu sinal verde para a produção do filme. Acabou sendo um marco histórico para a ficção no cinema. É curioso porque Charlton Heston foi uma estrela da Hollywood clássica, com uma filmografia épica que nada tinha a ver com esse tipo de universo. De fato "O Planeta dos Macacos" é seu filme mais sui generis, nada parecido com o trabalho que ele tinha desenvolvido anteriormente em sua carreira. Ele teve muita coragem em atuar nesse tipo de produção Sci-fi, algo que seus admiradores não esperavam. De uma forma ou outra o público adorou o resultado. O roteiro não se resumia em mostrar um universo estranho, de um mundo dominado por macacos, mas também em discutir aspectos sociais da própria época. Era um argumento inteligente, muito bem escrito, que fez com que o público jovem (em plena era da geração hippie, power flower) abraçasse a proposta do filme. Havia também ótimas sequências como àquela em que o personagem de Heston encontrava a estátua da liberdade afundada nas areias do praia. Algo para não esquecer! O sucesso foi tão grande que acabou dando origem a uma extensa franquia, com continuações ora interessantes, ora irregulares. Mesmo assim não há como diminuir o impacto desse histórico primeiro filme. Sucesso de público e crítica acabou levando também um merecido Oscar na categoria de melhor maquiagem (para John Chambers). Simplesmente indispensável para qualquer cinéfilo que se preze.

Pablo Aluísio.

sábado, 14 de outubro de 2017

Planeta dos Macacos: A Guerra

Essa trilogia se encerra muito bem aqui nesse filme. Essa nova leva de filmes explorando o universo do planeta dos macacos foi realmente muito boa. O primeiro filme de 2011 já surpreendeu pela extrema qualidade de seu roteiro. O segundo não foi tão bom, mas manteve o interesse e a qualidade e finalmente tudo se encerra aqui, nessa terceira produção, que se não é tão boa quanto às anteriores pelo menos se mantém em um nível artístico que não vai decepcionar ninguém. Esse novo lote de filmes provou acima de tudo que era possível reciclar velhas ideias com toques de originalidade, melhorando o que por si só já era muito bom. Um remake não precisa ser apenas um caça níqueis. Pode ser também algo que venha a acrescentar, melhorar um bom filme do passado.

Quando o filme começa já encontramos uma tropa de soldados humanos adentrando a floresta em busca do grupo de Caeser. Como se viu nos filmes anteriores um vírus se espalhou pelo planeta, ceifando a vida de praticamente 90% da humanidade. Os humanos que sobreviveram seguem sua guerra contra os macacos. Caeser consegue repelir o ataque, mas o saldo é doloroso para ele. Sua esposa e seu filho são mortos durante os combates. Todos executados pessoalmente pelo cruel e sanguinário Coronel que lidera as tropas, em boa interpretação do ator Woody Harrelson. A partir daí inicia-se uma jornada de vingança por parte de Caesar. Ele quer vingar a morte de seus entes queridos e parte para o acerto de contas finais contra o militar.

O roteiro desse terceiro filme não é tão bom como o do primeiro. Ali havia mesmo um argumento primoroso que discutia o que realmente tornava alguém realmente humano. Aqui a trama é mais básica, baseada na velha fórmula da vingança pessoal (tema aliás que sempre foi explorado em demasia pelo cinema, principalmente em filmes de ação e western). Isso porém não significa que seja ruim, longe disso. Dentro dessa premissa a história até que funciona muito bem. É um bom clímax para tudo o que o público vinha acompanhando desde os primeiros filmes. Os efeitos especiais continuam perfeitos e bem inseridos dentro do enredo. Não ofusca a história, pelo contrário, ajuda a contá-la. No mais, não resta outra coisa a não ser aplaudir esses novos filmes. Eles trouxeram de volta, com extremo êxito, esse estranho mundo, onde os macacos vão se tornando cada vez mais sábios, enquanto a humanidade vai se afundando em sua própria ganância e estupidez.

Planeta dos Macacos: A Guerra (War for the Planet of the Apes, Estados Unidos, 2017) Direção: Matt Reeves / Roteiro:  Mark Bomback, Matt Reeves / Elenco: Andy Serkis, Woody Harrelson, Steve Zahn, Karin Konoval, Amiah Miller / Sinopse: O líder dos macacos, Caesar (Serkis), almeja criar a paz com os homens, mas isso vai se tornando impossível por causa de um Coronel insano e violento que tem planos de escravizar todos os macacos pois ele quer erguer uma grande muralha de defesa em seu acampamento militar nas colinas.

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

A Chave do Sucesso

Título no Brasil: A Chave do Sucesso
Título Original: The Big Kahuna
Ano de Produção: 1999
País: Estados Unidos
Estúdio: Franchise Pictures
Direção: John Swanbeck
Roteiro: Roger Rueff
Elenco: Kevin Spacey, Danny DeVito, Peter Facinell, Paul Dawson, Christopher Donahue, Frank L. Messina

Sinopse:
Baseado na peça teatral escrita por Roger Rueff, o filme mostra a história de três vendedores gananciosos que tentam de todas as formas vender seus produtos para compradores em potencial durante uma convenção de vendas em Nova Iorque. Para turbinar suas vendas vale tudo ou quase isso...

Comentários:
Esse filme tem uma estrutura bem teatral, até porque foi baseado numa peça encenada no circuito Off Broadway em Nova Iorque. De certa maneira é um enredo bem humano, mas ao mesmo tempo mordaz, mostrando que para garantir a sobrevivência esses vendedores estão dispostos a tudo! Claro que em um filme assim o mais importante seria o elenco. Ainda bem que temos aqui dois grandes atores em cena. Kevin Spacey, bom, todos já sabem, é um dos atores mais talentosos de sua geração (isso se não for o melhor mesmo!). Ele é ótimo para interpretar personagens com personalidades cínicas, venenosas. Na superfície um cara até bacana, boa praça, mas que por trás guarda as piores intenções, sempre pronto para puxar o tapete do próximo (mesmo que ele seja seu "amigo"). O outro excelente ator é Danny DeVito. Baixinho, gordinho, com praticamente tudo o que poderia lhe prejudicar como vendedor ele surge com várias cartas na manga para superar os concorrentes. Enfim, um bom filme, com argumento elaborado em cima do mundo corporativo. Um lugar que tem todo tipo de gente, menos santos!

Pablo Aluísio.

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

A Torre Negra

Duas adaptações recentes da obra de Stephen King deram muito o que falar nesse ano. Primeiro tivemos "It: a Coisa" que fez um enorme sucesso de público e crítica. Com um orçamento até modesto de meros 30 milhões de dólares, o filme já faturou algo em torno de 600 milhões de dólares, se tornando assim o filme de terror mais bem sucedido da história (tirando do topo "O Exorcista"). Esse foi o sucesso de Stephen King nos cinemas esse ano, agora vamos falar de seu fracasso. "A Torre Negra" custou o dobro de "It" mas afundou nas bilheterias. Não conseguiu nem recuperar o investimento do estúdio em sua produção. Uma grande decepção.

Eu nunca li o livro original e fiquei realmente surpreso como ele é de fato muito juvenil e fantasioso. Deixando de lado o terror, sua especialidade, King resolveu apostar em um enredo que certamente não iria agradar a todo mundo. Só para situar o leitor: o filme mostra um universo paralelo, onde existe uma torre negra. Essa torre é responsável por proteger todo o universo. Sem ela os seres das sombras invadiram o nosso mundo e ceifariam toda a vida em nossa existência. Um garotinho normal de Nova Iorque tem visões sobre esse estranho universo. Ele desenha não apenas a Torre negra, mas os monstros e os seres que o habitam. Dito como um ser de luz ele logo passa a ser perseguido por Walter (Matthew McConaughey), um feiticeiro de magia negra, que quer usá-lo para destruir a tal torre.

Já deu para perceber pela leitura dessa sinopse que "A Torre Negra" é mais indicada para o público adolescente. Há muitos clichês envolvidos e esse universo estranho criado por Stephen King nem sempre funciona muito bem. Há um pistoleiro (que pelo visto veio direto do velho oeste) que passa a proteger o garotinho do feiticeiro, mas nada que faça muita diferença no final das contas. Penso que o problema desse filme nem tanto é culpa do diretor, dos roteiristas ou do produtor, mas sim do próprio material original criado por Stephen King que é inegavelmente de difícil assimilação, 

A Torre Negra (The Dark Tower, Estados Unidos, 2017)  Direção: Nikolaj Arcel / Roteiro: Akiva Goldsman, Jeff Pinkner, baseados na obra escrita por Stephen King / Elenco: Matthew McConaughey, Idris Elba, Tom Taylor, Dennis Haysbert / Sinopse: Garoto dito como um ser iluminado, de grande poder espiritual, passa a ser perseguido em nosso mundo por criaturas sombrias, entre elas um feiticeiro, que quer usá-lo para destruir a torre negra, que mantém o universo em equilíbrio e paz.

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Amityville: O Despertar

Esse é o oitavo filme com a marca "Amityville". É uma franquia já bem antiga de terror. Provavelmente esse filme jamais seria lançado nos cinemas brasileiros, porém com o sucesso comercial de "It: A Coisa", as distribuidores resolveram apostar em seu potencial. Bom, se você é jovem e não sabe do que se trata, tudo começou com um crime bárbaro que aconteceu na década de 1970. Um rapaz chamado Ronald Joseph "Butch" DeFeo Jr matou seus pais, suas duas irmãs e seus dois irmãos mais jovens em uma noite de pura insanidade. Tudo aconteceu numa casa localizada na pequena e pacata cidadezinha de Amityville. Ele em seu julgamento disse ter sido possuído por um demônio durante os crimes.

Depois disso a tragédia de Amityville virou produto pop. A casa ganhou fama de ser mal assombrada e vários livros e filmes foram lançados sobre o tema. Deles gosto bastante do segundo filme chamado "Terror em Amityville" (1982) que continua ainda imbatível dentro da franquia. O filme original "Horror em Amityville" (1979) também é bom e o remake lançado mais recentemente também chamado de "Horror Em Amityville" (2005) segura bem as pontas. Claro que dentro da franquia há filmes fracos, como o terceiro, mas no geral a série legou ao terror filmes que podem ser considerados até bons. É uma franquia que apesar dos anos passados sempre se mostrou interessante nas telas.

Agora temos esse novo exemplar, "Amityville: O Despertar". O roteiro aqui não se interessa em contar os eventos do massacre de 1974 (eles são apenas citados rapidamente no começo do filme) e tampouco tenta trazer quaisquer das histórias já contadas nos filmes anteriores. É uma reciclagem obviamente, mas procurando ser um pouco diferente. Na trama uma nova família se muda para a infame casa. É uma família formada apenas pela mãe, duas filhas e um filho que está em coma desde que caiu de um terraço anos antes. Assim que eles se mudam para lá começam eventos inexplicáveis, com a sensação de estarem sendo observados.

Achei o filme em si bem simples, com roteiro sem maiores novidades. Apenas uma pequena reviravolta quase no final surge como algo novo. O elenco traz de volta Jennifer Jason Leigh, atriz muito conhecida nos anos 80, quando interpretava adolescentes com problemas emocionais. Fazia bastante tempo que havia assistido algum filme com ela. O jovem em coma é interpretado pelo ruivo Cameron Monaghan da série "Shameless". Outro veterano, Kurtwood Smith, surge em um pequeno papel como seu médico. O filme como um todo é simples, de curta duração. Dá alguns sustos, mas no quesito terror deixa a desejar, tendo baixo índice de cenas marcantes. Se você vem acompanhando a franquia "Amityville" há muitos anos vale até a pena acompanhar, mesmo sabendo que esse novo filme definitivamente não é lá grande coisa.

Amityville: O Despertar (Amityville: The Awakening, Estados Unidos, 2017) Direção: Franck Khalfoun / Roteiro: Franck Khalfoun / Elenco: Jennifer Jason Leigh, Cameron Monaghan, Bella Thorne, Mckenna Grace, Kurtwood Smith / Sinopse: Família se muda para o endereço da casa nº 112 da Ocean Avenue, Amityville, Nova York. No passado esse antiga casarão foi palco de um crime bárbaro onde um rapaz matou toda a sua família numa noite de insanidade e crime. Na nova residência a família logo percebe que há algo de muito errado em seus sinistros aposentos.

Pablo Aluísio.

terça-feira, 10 de outubro de 2017

First Kill

Não faz muito tempo que Stallone chamou Bruce Willis de preguiçoso. Deve ser verdade mesmo para que ele entre em filmes como esse. A premissa começa quando Will (Hayden Christensen) resolve levar seu filho, um garotinho, para caçar na floresta. Ele quer ensinar o garoto a atirar com um rifle (olha aí como os americanos criam amor pelas armas de fogo logo cedo na vida). Pois bem, durante a caçada, sem querer, pai e filho acabam testemunhando o assassinato de um homem. Mais do que isso, uma queima de arquivo envolvendo ladrões de bancos. Como se isso não fosse complicado o suficiente Will leva para casa um dos criminosos, que acabou de levar um tiro. Ao invés de chamar a polícia ele resolve tomar todas as decisões erradas que você possa imaginar. E aí vem a tal coisa, uma vez que mentiu para o xerife Howell (Willis) terá que inventar uma mentira atrás da outra para escapar das investigações policiais.

O roteiro desse thriller tem muitos furos. Algumas atitudes do personagem de Hayden Christensen não fazem o menor sentido prático. O xerife interpretado por Bruce Willis leva o espectador, desde o primeiro momento em que ele surge em cena, a desconfiar de suas reais intenções Afinal o sujeito tem um jeito e tanto de tira corrupto. E aí um dos trunfos do roteiro desabam logo, pois quando isso é revelado para o público não chega a ser necessariamente uma grande surpresa. É um filme mesmo com muitos clichês. Só a preguiça mesmo de Bruce Willis para justificar seu trabalho aqui pois ele tem poucas cenas, nenhuma muito boa. Ele se limita a fazer cara de mau no começo, para no final dar alguns tirinhos. No geral é de fato um filme que deixa bastante a desejar. Nada de muito relevante. Pode ser dispensado sem maiores problemas.

First Kill (Estados Unidos, 2017) Direção: Steven C. Miller / Roteiro: Nick Gordon / Elenco: Bruce Willis, Hayden Christensen, Ty Shelton  / Sinopse: Durante uma caçada de fim de semana, pai e filho acabam sendo testemunhas de um assassinato no meio da floresta. O crime foi cometido por um acerto de contas entre criminosos, ladrões de bancos. O pai decide esconder tudo da polícia, mas o xerife da cidade (interpretado por Bruce Willis) começa a desconfiar cada vez mais dos acontecimentos e das versões do tal cidadão de bem, acima de qualquer suspeita.

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

As Vidas de Marilyn Monroe - Parte 18

Aos 29 anos de idade Marilyn Monroe já havia feito algo em torno de 13 abortos! Foi exatamente isso que ela confidenciou para seu psiquiatra em meados dos anos 1950. Era um número absurdo, mesmo para uma mulher da época, com uma vida sexual ativa. Esse tipo de procedimento feito sem responsabilidade iria custar caro para Marilyn no futuro, uma vez que quando ela finalmente se casou e quis ter filhos, não conseguiu. E ela não teve filhos, segundo alguns médicos, justamente por ter feito inúmeros abortos. Nem é necessário dizer que ela ficou arrasada com tudo o que aconteceu.

O fator psicológico aliás pesou muito mais para Marilyn do que apenas o físico. Desde que se popularizou na Califórnia, a análise passou a ser feita por inúmeros astros e estrelas de Hollywood. Segundo Marlon Brando escreveu em seu livro a grande maioria dos atores e atrizes da época eram completamente neuróticos. Marilyn Monroe foi uma que logo recorreu ao tratamento psicológico. Algo que o diretor Billy Wilder dizia ser um erro, pois em sua opinião o grande carisma de Marilyn nas telas vinha justamente desse seu lado meio biruta! "Essas atrizes entram em um consultório para fazer análise e saem de lá como uma coisa arrumada demais, plástica, sem graça nenhuma! O charme de Marilyn era ter dois pés esquerdos!" - ironizou o cineasta.

Um apoio que Marilyn recebeu por essa época foi do professor de atuação Lee Strasberg, Percebendo que Marilyn andava muito vulnerável do ponto de vista psicológico ele abriu as portas de sua própria casa para a atriz. Marilyn passou a frequentar a vida pessoal e familiar de Strasberg, algo sem precedentes na vida do mestre. Anos depois ele deu uma entrevista dizendo que embaixo de todo o mito, da imagem de mulher famosa e maravilhosa que o cinema vendia ao público, havia uma pessoa muito carente de atenção e carinho. Marilyn estava cansada de ser usada como objeto sexual pelos homens com quem se envolvia. Ela queria ser amada e respeitada como uma mulher, não ser apenas explorada por todos.

Assim, como já havia acontecido várias vezes antes em sua vida, Marilyn transformou a família de Lee Strasberg em sua própria família. Como eles eram judeus Marilyn chegou até mesmo a pensar em se converter para o judaísmo. Tudo feito de impulso, como era peculiar em sua personalidade. Ela ficou fascinada pelos rituais do povo judeu e após ir a uma celebração ao lado de Lee Strasberg na sinagoga de Los Angeles passou a dizer para todo mundo que iria se tornar judia! Quem ouviu Marilyn e a conhecia de longa data nem deu muitos ouvidos. No passado ela já havia dito que iria se tornar católica, protestante e até budista! Depois do impulso inicial ela sempre ficava pelo meio do caminho, não indo adiante em nada no que dizia respeito a religiões. Como dizia Billy Wilder ela tinha mesmo dois pés esquerdos!

Pablo Aluísio.

domingo, 8 de outubro de 2017

The Beatles - Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band - Parte 4

Paul McCartney sempre foi um gênio criativo. Durante uma viagem a negócios nos Estados Unidos nos anos 60 ele rascunhou em um guardanapo dado pela empresa aérea uma nova ideia. Imagine que os Beatles não mais existissem. Imagine que Paul, George, Ringo e John fossem apenas membros de uma banda ao estilo do século XIX chamada "Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band"! Algo bem Old School, era Vitoriana, Vaudeville, do velho teatro inglês do século passado, algo misturado também com o conceito das antigas fanfarras que cruzavam o interior durante as festas regionais, as feiras de produtores rurais de Liverpool e redondezas.

Quando retornou a Londres, Paul apresentou a ideia inicialmente para John Lennon. Ele demorou um pouco a pegar o conceito, mas quando finalmente entendeu as intenções de Paul, adorou! Era algo inédito dentro da indústria fonográfica, realmente revolucionário. No começo a gravadora dos Beatles, a EMI, ficou com receios, principalmente depois que Paul disse que não queria a marca "Beatles" nem na capa do disco e nem na propaganda de lançamento do novo álbum. A EMI deveria promover apenas a bandinha do Sgt Pepper. É claro que depois de muitas reuniões Paul voltou atrás, mas o conceito artístico inicial iria prevalecer. Os Beatles basicamente iriam fingir (ou interpretar) que eram parte de um outro grupo musical.

Para que tudo saísse perfeito Paul McCartney e o produtor George Martin trabalharam muito juntos dentro dos estúdios. A canção  "Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band" iria aparecer duas vezes no disco. Abrindo o álbum e depois, quase no final, como uma espécie de ligação entre todas as faixas do disco. Essa segunda versão foi chamada por Paul de "Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band (Reprise)", Era basicamente a mesma música, só que com algumas mudanças sutis na melodia. Paul obviamente queria um arranjo primoroso, com uma grande orquestra por trás de seus vocais. Foi uma gravação extremamente trabalhosa, que levou semanas de gravação árdua dentro do estúdio Abbey Road em Londres.

Outra gravação extremamente bela em termos de arranjos foi "She's Leaving Home". Já fazia alguns anos que Paul e John realizavam trabalhados próprios, bem autorais, dentro dos discos dos Beatles. Eles nunca mais tinham se sentado juntos para criar em conjunto, como havia acontecido nos primeiros discos dos Beatles. Pois bem, aqui John e Paul voltaram a de fato trabalharem juntos na composição de uma música. Paul escreveu as primeiras linhas e John completou. Isso ficou bem claro inclusive na gravação, com Paul cantando sua parte e John as harmonias que escreveu. O resultado ficou belíssimo. É seguramente um dos momentos mais maravilhosos de todo o disco. Uma legítima composição Lennon e McCartney, com tudo de genial que isso significava.

Pablo Aluísio.

sábado, 7 de outubro de 2017

O Corpo

Título no Brasil: O Corpo
Título Original: The Body
Ano de Produção: 2001
País: Estados Unidos
Estúdio: Columbia TriStar Pictures
Direção: Jonas McCord
Roteiro: Jonas McCord
Elenco: Antonio Banderas, Olivia Williams, John Shrapnel, Derek Jacobi, Jason Flemyng, John Wood

Sinopse:
Durante uma escavação arqueológica em Israel, restos mortais são encontrados. Eles datam do século I e mostram sinais de que o homem cujos ossos lhe pertenceram foi crucificado pelos romanos, que na época dominavam a região. Seria o corpo de Jesus de Nazaré? Assim que a descoberta é anunciada começa uma grande conspiração para encobrir tudo.

Comentários:
A premissa é até muito interessante, mas infelizmente o filme nunca decola. Muitos vão pegar certas semelhanças entre a trama desse filme e os livros escritos por Dan Brown, em especial "O Código Da Vinci" que foi lançado justamente dois anos depois. Plágio? Não chega a tanto, embora o feeling seja exatamente o mesmo. Velhas lendas do passado que vão ganhando ares de verdade histórica com as descobertas da arqueologia moderna. Claro que tudo não passa de pseudociência, sendo apenas cultura pop (para alguns, mera bobagem), porém quando bem escritas até que divertem. Pena que esse "The Body" falha justamente nesse aspecto. Como simples cultura pop não consegue divertir e nem se mostrar muito inteligente do ponto de vista histórico. Os buracos no roteiro estão em toda parte, o que acaba comprometendo o resultado final. Já sob uma análise puramente cinematográfica a única coisa que se destaca é o conjunto das belas locações, pois o filme foi todo rodado em Jerusalém, com belas tomadas de cena na milenar cidade de Israel. A cidade eterna, Roma, também surge espetacular na tela, com suas belas igrejas e monumentos igualmente seculares. Assim a fotografia acabou salvando o filme do desastre completo. Fora isso, nada de muito relevante para a sétima arte. 

Pablo Aluísio.

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Duelo de Titãs

Título no Brasil: Duelo de Titãs
Título Original: Remember the Titans
Ano de Produção: 2000
País: Estados Unidos
Estúdio: Buena Vista Pictures
Direção: Boaz Yakin
Roteiro: Gregory Allen Howard
Elenco: Denzel Washington, Will Patton, Wood Harris, Ryan Gosling, Hayden Panettiere, Craig Kirkwood

Sinopse:
Desde sua fundação uma escola na Virginia, estado sulista dos Estados Unidos, somente admitiu alunos brancos. Com o avanço dos direitos civis naquele ano surgiram leis proibindo esse tipo de segregação racial. Assim alunos negros acabaram entrando na escola. Mais do que isso, um técnico de futebol negro, Herman Boone (Denzel Washington), acaba sendo contratado para dirigir a equipe da escola.

Comentários:
É até difícil de acreditar que o produtor Jerry Bruckheimer está por trás desse filme. Não tem robôs gigantes, nem explosões a cada minuto e nem um roteiro estúpido. Nem parece uma produção do dito cujo. Pois é, olhando-se para trás chegamos na conclusão que esse é certamente o melhor filme de sua carreira. De fato é mesmo um belo filme, que mexe com a velha questão racial nos Estados Unidos, algo que vai década, vem década e nunca parece ser superado. Claro que ter um excelente ator como Denzel Washington ajuda demais. Ele, como sempre, está muito digno em seu papel. Um treinador que não precisa apenas mostrar que é bom no campo, mas fora dele também. O fato de ser negro torna tudo terrivelmente complicado, pesado de superar. Sua história acaba sendo uma lição de vida, não apenas para seus alunos (brancos e negros), mas para toda a comunidade. Esse tipo de drama esportivo sempre compensa, mesmo que você não entenda absolutamente nada de futebol americano. Infelizmente filmes sobre esse esporte no Brasil nunca fazem sucesso, justamente por essa razão. Ignore e procure se concentrar na história, que é certamente o mais importante nesse filme socialmente muito consciente. Vale realmente a pena assistir. 

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.

O Observador

Título no Brasil: O Observador
Título Original: The Watcher
Ano de Produção: 2000
País: Estados Unidos
Estúdio: Universal Pictures
Direção: Joe Charbanic
Roteiro: Darcy Meyers, David Elliot
Elenco: James Spader, Keanu Reeves, Marisa Tomei, Ernie Hudson, Chris Ellis, Robert Cicchini

Sinopse:
David Allen Griffin (Reeves) é um serial killer calculista e frio que mata suas vítimas após planejar bem seus crimes. Seu método se torna um problema para o FBI que não consegue prendê-lo. Frustrado, o agente especial Joel Campbell (James Spader) decide abandonar o caso, se mudando para outra cidade. Para sua surpresa o assassino o segue, enviando fotos de suas novas vítimas. Ele quer iniciar um jogo mortal com Campbell.

Comentários:
Bom thriller de suspense, praticamente uma produção B (custo meros 30 milhões de dólares apenas), que conta com um ótimo elenco. Aqui os produtores resolveram inverter os papéis. Inicialmente o assassino em série seria interpretado por James Spader, afinal ele vinha de uma longa lista de personagens malvados, desde os tempos dos primeiros filmes adolescentes que rodou com John Hughes. Já Keanu Reeves sempre construiu sua carreira interpretando o mocinho. Pois bem, o diretor Joe Charbanic acabou trocando as bolas, colocando Reeves como o assassino e Spader como o agente do FBI que parece disposto a tudo para colocá-lo atrás das grades, se possível até tentando uma pena de morte para o serial killer (coisa que seria muito justa aliás). De forma em geral gostei bastante desse filme. O roteiro é todo bem construído e com uma duração adequada, nunca cai no tédio. Para você que é fã de James Spader nessa sua nova fase na carreira, onde tem estrelado o sucesso da série "The Blacklist" (Lista Negra), fica a dica desse suspense, dos tempos em que ele ainda tinha muito cabelo (já que talento o Spader sempre teve de sobra!).

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Blade Runner 2049, Churchill e outros lançamentos...

Há pelo menos dois bons motivos para ir ao cinema nesse fim de semana. O primeiro (e mais óbvio) é o lançamento do tão aguardado reboot da (agora) franquia "Blade Runner". Como se sabe o primeiro filme não foi exatamente um sucesso de bilheteria quando chegou aos cinemas lá pela primeira metade dos anos 80. Isso não o impediu de virar um cult movie, um filme amado e cultuado pelos cinéfilos. Agora temos esse "Blade Runner 2049". A primeira impressão, eu sei, seria de pura desconfiança. Hollywood cada vez com menos ideias novas, sem originalidade, estaria apelando mais uma vez para reciclagens. Bom, ainda não vi o filme, mas pelo que tenho colhido em termos de reação da crítica (e também público), parece que o filme não decepciona! É pagar para ver, de preferência no cinema mesmo.

Outro bom motivo para ir para o cinema nesse fim de semana é a estreia do drama histórico "Churchill". Para quem andou cabulando as aulas de história, ele foi o primeiro ministro inglês durante a II Guerra Mundial. Um verdadeiro herói para a Inglaterra pois enfrentou Hitler, o nazismo e se sagrou vencedor no maior conflito armado da história. O curioso dessa nova abordagem é que o diretor Jonathan Teplitzky resolveu investir no lado mais humano do líder europeu. Não o retratando apenas como o herói das estátuas em praça pública, da visão mais ufanista, mas como um homem que tinha receios, dúvidas e até medo do destino da Europa naquele momento histórico tão perigoso. O elenco conta com  Brian Cox como o premier britânico e Miranda Richardson como sua esposa. Para quem gosta de dramas históricos essa é certamente uma grande pedida.

O circuito comercial porém não vive apenas de grandes filmes, como bem sabemos. Há também espaço para aquelas obras bem mais modestas do ponto de vista artístico. Nessa semana teremos o lançamento, por exemplo, do primeiro longa do famoso personagem dos desenhos animados, "Pica-Pau". Um fato curioso ronda essa produção. Ela só será lançada nos cinemas do Brasil. Isso mesmo. A produtora americana decidiu que lançará o filme apenas em DVD e em streaming nos Estados Unidos. A justificativa seria que o personagem já não seria tão popular e conhecido entre as crianças americanas (ele é uma criação dos anos 40, imagine você!). Mesmo sendo uma produção feita para o público infantil as críticas não andam nada boas. Parece que o filme é bem ruim.

Por fim aqui vão três dicas para um público mais seletivo, que queira conhecer melhor a atual produção cinematográfica de outros países. O francês "O Melhor Professor da Minha Vida" mostra a amizade que nasce entre um renomado professor do Liceu Henri IV de Paris e um garoto negro da periferia que vai estudar lá. Já a animação japonesa "Your Name" de Makoto Shinkai, mostra a história de uma garota do interior que sonha um dia ir embora para Tóquio, a grande capital do país. Por fim fica a dica do coreano "Na Praia à Noite Sozinha", que explora a história de uma atriz da Coreia do Sul que resolve ir para a Hamburgo, na Alemanha, para refletir sobre sua própria vida. Esse filme tem uma bela fotografia e um roteiro mais intimista que vai agradar ao público que aprecia dramas mais consistentes.

Pablo Aluísio.

Procura-se uma Noiva

Título no Brasil: Procura-se uma Noiva
Título Original: The Bachelor
Ano de Produção: 1999
País: Estados Unidos
Estúdio: New Line Cinema
Direção: Gary Sinyor
Roteiro: Roi Cooper Megrue, Jean C. Havez
Elenco: Renée Zellweger, Chris O'Donnell, Peter Ustinov, Mariah Carey, Brooke Shields, Artie Lange

Sinopse:
Para não perder uma herança fabulosa, Jimmie Shannon (Chris O'Donnell) precisa desesperadamente arranjar uma noiva, mesmo estando apaixonado por Anne Arden (Renée Zellweger), a garota certa para ele se casar, mas que enfrenta problemas em seu relacionamento mais do que complicado.

Comentários:
Não há muito o que esperar de comédias românticas americanas. Geralmente elas são bem bobinhas, até porque o romantismo disfarçado de humor não nega suas origens mais piegas. Dentro do grande gênero em que se classificam todas as comédias românticas existe ainda um nicho muito específico sobre casamentos e noivas. Esses filmes geralmente conseguem se tornar ainda piores do que as mais comuns. Esse "Procura-se uma Noiva" vai bem por esse caminho. O filme só não é um desperdício completo de tempo e dinheiro porque tem Renée Zellweger ainda em sua fase mais gracinha, quando ela ainda mantinha seu rosto natural, bem antes de estragar tudo com um monte de plásticas mal sucedidas. O "Robin" Chris O'Donnell não acrescenta muito, até porque sempre o achei muito genérico. Melhor é o elenco de apoio que conta com veteranos como Peter Ustinov e a eterna adolescente de "A Lagoa Azul" Brooke Shields (aquele tipo de mulher que sempre é bonita, mesmo com os anos passados). Ah e antes que me esqueça a cantora  Mariah Carey também tem uma pontinha, algo que vai agradar suas fãs mais ardorosas. Então é isso, uma comédia romântica sobre casamentos, tão descartável como bolo de noiva feito em padaria.

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Francisco de Assis

Hoje é dia de São Francisco de Assis, o homem, o santo, que mais provavelmente chegou perto do exemplo de Jesus. Há alguns anos escrevi um longo texto (em cinco partes) sobre sua vida. Vou compilar aqui o texto para o nosso blog, em sua homenagem, que vem a seguir.

Francesco...
De todos os santos canonizados pela Igreja Católica muito provavelmente ele seja o maior exemplo de vida baseada no evangelho que se tem notícia. Francesco não apenas pregou a mensagem de Jesus Cristo, ela a viveu! É um desses exemplos de vida que inspiram e acalentam nosso coração cristão. Raros foram os exemplos de pessoas que tiveram uma vida tão rica e maravilhosa em Cristo como ele. Na verdade ele não se chamava Francisco, mas sim Giovanni di Pietro di Bernardone. Ele nasceu em Assis na Itália em plena idade média durante o ano de 1182. Era o filho amado de uma família de ricos comerciantes franceses. Desde garotinho ficou conhecido pelo apelido carinhoso de Francesco (que significava o pequeno francês) no bairro onde cresceu. Seu pai fez fortuna comercializando os mais diversos produtos na rota entre França e Itália, regiões de grande atividade comercial. Assim o pequeno Giovanni teve uma infância feliz e rica onde nada lhe faltou. Ao contrário das outras crianças pobres da vizinhança nunca sentiu o peso da privação e da miséria.

Ao atingir a juventude ele começou a ter uma vida dedicada a festas e farras extravagantes. Muito vinho e muitas mulheres faziam parte do seu dia a dia. Embora bondoso ele também se dedicou a muita luxúria e vaidade nessa fase de sua vida. Começou a usar roupas finas, elegantes e caras. Também se interessou pela vida militar, pelos romances de nobres cavaleiros que o inspiraram a entrar no exército. No campo de batalha acabou sendo preso e feito prisioneiro pelos inimigos. Depois de um ano vivendo numa masmorra conseguiu a liberdade por causa dos esforços de seu pai que passou meses à sua procura. Ao sair da prisão Francesco sofria de sérios problemas de saúde, em especial da visão e aparelho digestivo. A dura vida em uma prisão medieval cobrou um alto preço na saúde do jovem.

Em 1204 voltou ao lar de sua família. Giovanni porém não estava disposto a largar a carreira militar. Em 1205 alistou-se novamente, dessa vez no exército papal. Foi designado para combater as forças do imperador Frederico II. Durante essa campanha ele teve um sonho onde um anjo lhe falava para retornar para Assis pois deveria começar uma missão muito especial. De volta ao lar seus amigos perceberam que Francisco era um homem mudado. Não ficava mais feliz e contente em participar de festas, bebedeiras e outras farras que os jovens de seu círculo social adoravam. Nessa fase de sua vida seu pai queria que se casasse, mas Francesco começou a ter sérias dúvidas sobre seu futuro. Ao se retirar para meditar em uma caverna isolada ele decidiu que queria se dedicar a uma vida religiosa, de ajuda e apoio aos mais pobres - mas como sua rica e poderosa família aceitaria algo assim?

Ao voltar para casa ele encontrou um senhor idoso leproso que tremia de frio na congelante noite de Assis. Francisco desceu de seu cavalo e com olhar piedoso deu sua capa e seu casaco para o velho senhor. Esse inicialmente ficou assustado pois as pessoas evitavam qualquer contato com leprosos. Ao perceber que o pobre homem chorava, se derramava em lágrimas, pelo gesto de Francisco esse lhe deu um forte abraço. Ao olhar em seus olhos viu a imensa gratidão daquele que congelava no frio. Naquele momento Francisco entendeu a misericórdia de Deus e toda a sua força e poder. A convicção de ser um homem de Deus cresceu em seu íntimo. Depois disso ele foi sempre visto ajudando pessoas pobres e miseráveis que passavam por Assis.

O acontecimento que mudaria sua vida para sempre aconteceu em uma pequena igreja em ruínas. Era uma antiga igreja abandonada dedicada a São Damião. Francisco cavalgava pelas redondezas quando aqueles destroços de uma construção bem antiga chamaram a sua atenção. Ao entrar na nave daquilo que havia sido a igreja ele teve uma visão do próprio Jesus. Caído sobre seu joelhos Francisco viu uma voz saindo de um antigo crucifixo que dizia: "Vês a ruína da minha igreja? A reconstrua..." Ao ouvir aquela voz Francisco entrou em pânico, mas acreditou na presença divina naquele local. Imediatamente voltou para Assis, pegou algumas peças de tecido da loja de seu pai, as vendeu e levantou dinheiro para o começo da reforma da igrejinha.

Muitos que estudaram essa visão acreditam que Jesus não estava se referindo apenas à pequena igrejinha de São Damião situada fora dos portões de Assis, mas a própria Igreja como um todo, já que essa passava por uma grave crise religiosa. O clero se esbaldava em luxo e riqueza enquanto o povo sofria com muitas privações, de todos os tipos. Caberia a Francisco começar um movimento baseado na mais essencial mensagem cristã, renegando a toda riqueza material para ajudar aos excluídos, aos mais pobres e miseráveis, tal como havia feito Jesus séculos antes. Era o começo de uma nova existência para o jovem Giovanni que veria sua vida mudar para sempre.

As pessoas geralmente esquecem que todos esse santos católicos também foram homens, pessoas comuns, tal como eu e você que está lendo esse texto. Em sua jornada rumo à santidade eles também tiveram que passar por momentos decisivos em suas vidas, algo que mudasse o seu destino para sempre. Com o jovem Giovanni di Pietro (Francesco) não foi diferente. Sua conversão definitiva se deu muito em razão dos atos de profunda ignorância que partiram de seu próprio pai. Francisco queria ajudar aos pobres de Assis, queria mesmo se dedicar a ser um homem piedoso e profundamente cristão. Seu pai era um rico comerciante que não via esse tipo de atitude como algo normal. Em sua visão mercantilista o filho não passava de um tolo ou até mesmo de um louco varrido. Quando soube que Francisco havia levado peças de sua loja para revender e dar o dinheiro aos pobres ele se enfureceu. Mandou que seus empregados o localizassem imediatamente. A intenção era punir o jovem da forma como era padrão na época - com muita violência física. Francisco sabia que seu pai podia ser um homem violento e se escondeu em um celeiro, onde amigos próximos lhe levaram comida por vários dias. Depois publicamente Francisco resolveu se converter totalmente à mensagem de Cristo e optou por levar uma vida de pobreza e ajuda ao próximo. As pessoas da cidade que o conheciam como um jovem farrista e dado a festanças e bebedeiras não o levaram à sério, pelo contrário, alguns o ofenderam e o insultaram em plena praça pública. Quando seu pai soube disso ficou ainda mais furioso. Francisco foi então localizado e trazido a ele por seus empregados e depois levado para o porão onde foi acorrentado. Era um absurdo completo, mas era o jeito rude e violento de agir de seu pai.

A mãe de Francisco não aguentou ver o próprio filho em correntes, tal como se fosse um ladrão ou um criminoso. Ele era uma pessoa bondosa e de alma muito limpa. Assim resolveu soltar o filho. Francisco finalmente estava livre das garras do pai, não apenas materialmente, mas principalmente psicologicamente. Nunca mais aquele homem o iria humilhar daquela forma. Assim que se soltou Francisco começou a pregar o evangelho a pessoas que o encontravam nas ruas medievais de Assis. Seu pai ficou possesso quando soube do ocorrido e novamente foi atrás do filho. Ao lhe encontrar disse que esse lhe devia o valor das peças que havia levado de sua loja, que ele não era nada, que não tinha nada e que tudo o que vestia havia lhe sido dado por ele, o seu pai. Enquanto o pai berrava Francisco olhava para suas mãos, que estavam em forma de oração. Ouviu a tudo em silêncio e em contemplação profunda. Infelizmente seu pai era um homem visivelmente materialista que só via mesmo as coisas da terra, a riqueza, o dinheiro e os bens materiais. Espiritualmente o pai do grande Francesco era uma pessoa medíocre, essa era a triste verdade. Diante da fúria de seu pai, Francisco resolveu fazer um ato simbólico. Despiu-se de todas as suas vestes (que haviam lhe sido dadas por seu irascível pai que tinha acabado de passar isso na sua cara) e renunciou a qualquer herança que viesse de seu furioso progenitor. Ali mesmo na praça o jovem Francesco ficou completamente nu, despiu-se das coisas materiais e saiu em busca da verdadeira mensagem de Jesus Cristo. O bispo de Assis presenciou tudo e ficou em lágrimas. Aquele era o verdadeiro espírito cristão, não havia dúvidas.

Filho de uma família rica e abastada de Assis, o jovem Francisco saiu para viver como o mais pobre dos homens, ajudando ao próximo, ao miserável, ao esfomeado e ao excluído. Começou imediatamente a trabalhar como um simples pedreiro na reconstrução de igrejas da região. Trabalhou dia e noite na restauração das igrejinhas de São Damião, São Pedro e São Boaventura. Seus amigos de um passado não tão distante o abordavam nas pequenas ruelas da cidade e perguntavam diretamente a ele se estava louco ou algo assim. Francisco ria humildemente dessas questões. Então dizia que sua vocação havia finalmente aflorado. Ele se considerava um homem de Deus e iria dedicar cada segundo de sua vida a essa nova missão evangelizadora. Usando o evangelho de Mateus, Francesco decidiu que iria seguir os passos de um trecho bíblico muito importante para ele que dizia: ""Ide, disse o Salvador, e proclamai em todas as partes que o Reino do Céu está aberto. Vós recebestes gratuitamente; dai sem receber pagamento. Não leveis nem ouro, nem prata nem cobre em vossos cintos, nem um alforje, nem uma segunda túnica, nem sandálias, nem o cajado de viajante, pois o trabalhador merece ser sustentado. Em qualquer vila em que entrardes procurai alguma pessoa digna, e hospedai-vos com ela até partirdes. E quando entrardes em uma casa, saudai-a; se a casa for digna, desça sobre ela a vossa paz; mas, se não for digna, torne para vós a vossa paz!" Era justamente isso que ele queria para sua vida dali em diante.

O pai de Francisco continuava a chamá-lo de louco para quem quisesse ouvir. Afinal de contas em sua visão limitada da vida apenas um louco largaria tudo, o dinheiro e a fortuna de sua família, para viver uma vida de pobreza absoluta como estava a fazer seu filho. O pequeno francês não se importou com as acusações e ofensas que lhe eram dirigidas, nem ao escárnio de seus antigos amigos. Enquanto eles continuavam a viver do luxo e da riqueza, com roupas elegantes, caras e finas, montados em cavalos de pura raça, Francisco continuava sua jornada, vestindo as roupas mais humildes, pregando a palavra de Jesus aos mais pobres, aos doentes e aos considerados escória pela elite da sociedade local. Imagine, se juntar com todos aqueles pobres e miseráveis - pensavam seus antigos amigos ricos.  Seu exemplo de vida austera, completamente cristã e íntegra não deixava de impressionar e de repente todos aqueles que o ofendiam passaram a entender que sua maneira de viver começava a causar admiração entre os mais diversos moradores da região. Chamado de "o pobrezinho" pelo povo, em pouco tempo Francisco começou a fazer seguidores. Quando alguém o ofendia publicamente, Francisco respondia com gestos generosos e positivos, de muita paz. Esse tipo de atitude apenas aumentou ainda mais a admiração de todos em seu favor. Bernardo de Quintavalle, um rico homem de negócios, da classe burguesa, se converteu ao modo de vida de Francisco, fato que causou grande espanto na cidade. Ele vendeu tudo o que tinha e deu aos pobres. Pietro Cattani, outro homem muito conhecido de Assis, também seguiu pelo mesmo caminho. Aos poucos e sem uma ordem muito estabelecida, começava a surgir uma nova classe de homens religiosos, os Franciscanos.

Quando os primeiros seguidores finalmente formaram um grupo que passou a ser conhecido como os franciscanos, Francesco decidiu que era hora de pedir autorização do Papa Inocêncio III para se tornar uma nova ordem religiosa dentro da Igreja Católica. Ao chegar em Roma os membros do alto clero acharam um tanto radical a ideia de Francisco. Ele havia criado a primeira regra da nova ordem: A pobreza absoluta, tal como havia sido Jesus e seus primeiros apóstolos. Nenhum membro Franciscano deveria ter ou possuir nenhum tipo de bem material, nada, apenas a força da palavra de Deus seguiria com ele pelo mundo afora.

Inicialmente o Papa Inocência considerou impraticável a regra primitiva que serviria de base para essa nova ordem. Mesmo receoso resolveu receber Francisco para uma audiência privada. Na noite anterior do encontro com aquele religioso radical o próprio Papa teve um sonho que o deixou impressionado. Ele estaria dentro de uma igreja em Roma que parecia ruir, desabar... apenas um homem conseguia segurar as colunas, evitando que tudo viesse abaixo. Inocêncio entendeu que aquele homem era justamente Francisco. Impressionado com o que sonhara mandou chamar o assim chamado "pobrezinho" para vir ter com ele uma conversa.

O Papa ficou visivelmente impressionado com aquele homem, de vestes pobres e humildes que parecia ter uma fé profunda e inabalável. Alguns cronistas medievais chegaram a narrar que o próprio Papa ficou envergonhado em sua presença. Enquanto o romano vestia roupas luxuosas e ostentava joias e anéis caros em seus dedos, Francisco surgia em sua frente com a verdadeira humildade pregada por Jesus. Após tomar conhecimento da regra de pobreza absoluta o Papa finalmente autorizou o funcionamento da nova ordem ao qual ele mesmo denominou de Franciscanos em homenagem a seu criador. Francesco não se conteve de tanta alegria e voltou para Assis com a autorização Papal que tanto queria.

Na volta Francisco criou a famosa Oração ou Sermão dos Pássaros que dizia: “Minhas irmãzinhas aves, vocês devem muito a Deus, o Criador, e por isso, em todo lugar que estiverem devem louva-lo, porque Ele lhes permitiu que voassem para onde quisessem, livremente, da mesma forma que devem agradecer o alimento que Ele lhes dá, sem que para isso tenham que trabalhar; agradeçam ainda a bela voz que o Senhor lhes proporciona, que lhes permitem realizar lindas entonações! Vejam, minhas queridas irmãzinhas, vocês não semeiam e não ceifam. É Deus quem lhes alimenta, quem lhes dá os rios e as fontes, para saciar a sede; quem lhes dá os montes e os vales, para  o seu refúgio e lazer, assim como lhes dá as árvores altas, para fazerem os ninhos. Embora não saibam fiar e nem coser, Deus lhes concede admiráveis vestimentas para todas vocês e seus filhos, porque Ele lhes ama muito e quer o bem estar de vocês. Por isso, minhas irmãzinhas, não sejam ingratas, procurem sempre se esforçarem em louvar a Deus.” Francisco começava assim a também demonstrar sua profunda admiração para com as criaturas de Deus, os animais da natureza, algo que mais tarde lhe traria a fama de ser o Santo ecológico, protetor dos animais, dos bichinhos de estimação. Provavelmente foi o primeiro homem europeu medieval a ter uma visão de respeito para com a natureza e os animais em seu habitat natural.

Também marcante foi outra oração que criou, da paz, onde dizia: "Senhor! Fazei de mim um instrumento da vossa paz. Onde houver ódio, que eu leve o amor. Onde houver ofensa, que eu leve o perdão. Onde houver discórdia, que eu leve a união. Onde houver dúvidas, que eu leve a fé. Onde houver erro, que eu leve a verdade. Onde houver desespero, que eu leve a esperança. Onde houver tristeza, que eu leve a alegria. Onde houver trevas, que eu leve a luz. Ó Mestre, fazei que eu procure mais: consolar, que ser consolado; compreender, que ser compreendido; amar, que ser amado. Pois é dando que se recebe. É perdoando que se é perdoado. E é morrendo que se vive para a vida eterna. Amém."

Depois da visita ao Papa, Francisco retornou para Assis. Ele e seus seguidores levantaram uma pequena cabana numa região mais distante da cidade, praticamente dentro da floresta. A intenção era prestar apoio moral e assistência a todos os que lhes procuravam. Em pouco tempo a cabana de Francesco acabou se tornando pequena demais para tanta demanda. Em uma época medieval onde os mais pobres não contavam com qualquer tratamento de saúde promovido pelo Estado, os Franciscanos se tornaram os únicos a quem se podia recorrer. Francesco determinou que ninguém poderia ficar sem assistência e que nem os leprosos poderiam ser recusados. A graça de Deus era para todos. Com o afluxo volumoso de doentes e pessoas precisando de amparo a pequena cabana se tornou inviável. Quem veio em socorro aos franciscanos foi o abade do mosteiro beneditino que cedeu o uso da modesta, porém espaçosa, capela da Porciúncula para que Assis e seus seguidores ajudassem a quem lhes procurava. O trabalho era intenso e nesse local os Franciscanos começaram de fato sua importante missão de ajuda e solidariedade ao próximo. O aparente caos era amenizado pela própria presença de Francesco, sempre com uma bonita palavra de Deus para aquelas pessoas desesperadas. Quando a situação ia se tornando incontrolável, o "pobrezinho" clamava para que todos rezassem ao seu lado e os ânimos finalmente se acalmavam imediatamente.

Em 1212 os Franciscanos tiveram uma surpresa. Clara d'Offreducci, que séculos depois seria canonizada como Santa Clara, entrou para a ordem. Seria a primeira mulher a fazer parte dos Franciscanos. Com o tempo ela e outras que seguiram seus passos resolveram fundar sua própria ordem, a das Clarissas, que logo ficariam conhecidas por sua bondade e disposição de ajudar ao próximo. Ajudar todas aquelas pessoas pobres e famintas porém era apenas parte da missão que Francesco entendia ter Deus determinado a ele. Assim ele começou uma série de viagens a lugares remotos para pregar a palavra do Senhor. Esteve na distante Síria onde tentou converter o povo Sarraceno. Visitou a Espanha onde teve contato com os Mouros que seguiam outra religião. Encontrou os cruzados que participavam da Quinta Cruzada no Egito e os aconselhou a retornar para seus lares pois a derrota se avizinhava. Francesco durante essas longas jornadas também começou a realizar milagres. Realizou exorcismos em pessoas possuídas, curou paralíticos e salvou a vida de muitos enfermos com os quais encontrou pelo caminho. Duas realizações se tornaram conhecidas. Em Gubbio conseguiu pacificar lobos selvagens e na viagem em direção ao Oriente Médio conseguiu apaziguar uma forte tempestade que ameaçava afundar o navio onde viajava ao lado de seus seguidores.

Enquanto viajava seu grupo que havia ficado em Assis começava a apresentar problemas. Francesco foi informado que muitos de seus membros tinham se desviado do caminho. Alguns estavam sendo acusados de terem se tornado vagabundos e outros quebraram seus votos, vivendo com mulheres de forma escandalosa. As más notícias continuavam. Ele foi informado que os Franciscanos que ficaram no Marrocos, para pregar e evangelizar o povo local, foram presos e martirizados. Sem outra alternativa, Francesco resolveu voltar para casa. Lá encontrou realmente muito caos e desorganização. Havia vários problemas internos. Muitas divergências de opiniões entre os irmãos, alguns querendo promover a construção de grandes igrejas suntuosas, enquanto outros ameaçavam deixar a ordem por causa da opulência da corte papal. Não foi fácil, mas depois de algumas semanas, Francesco finalmente conseguiu colocar uma certa organização em tudo. Para contornar a situação, Francesco acatou, com certo desgosto, as alterações na regra original. Seu grupo que começou usando a mais pura mensagem do Cristo precisou se institucionalizar um pouco para continuar a existir.

Francesco acatou as mudanças, muito por causa de sua fidelidade ao Papa. Internamente porém ficou em crise a tal ponto que chegou a cogitar abandonar tudo, toda a obra que havia construído até aquele momento. Depois voltou atrás e resolveu aceitar de coração as mudanças que vinham para ficar. Procurando pela paz interior Francesco finalmente a alcançou com muitos momentos de oração e reflexão. Nesse período de sua vida começaram as manifestações de natureza espiritual. Francesco começou a ter visões e êxtases místicos. No natal de 1223 inventou o Presépio natalino, uma maneira muito delicada e artística de tentar recriar o cenário do nascimento de Jesus Cristo com o uso de pequenas imagens de Maria, José, o bebê Jesus, os Reis magos, pastores e animas. Passou a comer muito pouco, apenas frutas e passar longos momentos em oração e meditação. Durante um desses momentos Francesco teve uma visão muito forte e concreta do próprio Jesus crucificado. Nesse momento surgiram estigmas em suas mãos e pés, tal como o próprio Jesus ao ser pregado na cruz. Era a prova definitiva do imenso laço que havia criado com o próprio Deus.

Conforme os anos foram passando Francesco começou a ter mais e mais visões e experiências místicas. Sempre que previa que algo nesse sentido iria se manifestar procurava por isolamento de seus irmãos, geralmente indo para o meio da floresta onde tinha esse tipo de experiência única, entre a natureza. Muitas dessas visões nunca foram decifradas, mas em determinados momentos Francisco relatou o que via e sentia para seus amigos mais próximos. Em determinada visão, por exemplo, ele viu um anjo glorioso, com três pares de asas, crucificado em uma cruz romana. Nesse dia ele também começou a ver se manifestar com mais profundidade os estigmas, feridas e marcas pelo seu corpo que de certa maneira recriavam as feridas mortais sofridas pelo próprio Jesus Cristo na cruz. Embora fosse um sinal claro de sua santidade, Francisco não se sentia à vontade com os estigmas, sempre procurando escondê-los, seja com faixas ou com sua própria túnica.

Outra de suas visões marcantes ocorreu quando Francisco entrou em êxtase ao sentir a presença do próprio Deus em seu meio. No meio da visão ele afirmou ter dado a Deus três bolas de ouro que significavam sua vida na mais extrema pobreza, sua castidade e seu amor ao próximo, sempre procurando ajudar aos mais pobres e desassistidos. Ao lado dessas visões Francisco também começou a perceber que sua saúde a cada dia declinava mais. Ele começou a perder sua visão e as forças. As longas caminhadas ao lado dos irmãos foram deixadas de lado por causa de suas condições precárias e sempre que era necessário viajar por longas jornadas ele o fazia com um burrinho, um luxo impensado para os franciscanos da época.

Inicialmente Santa Clara cuidou pessoalmente de sua saúde, porém depois de um período Francisco decidiu que iria embora para Porciúncula, onde poderia morrer ao lado de seus queridos irmãos de ordem. Além da cegueira, Francisco começou a sofrer de graves crises de dor de cabeça, que lhe causavam grande desconforto. Médicos foram chamados, mas não conseguiram chegar a um diagnóstico preciso. Francisco morreu em 3 de outubro de 1226, com apenas 44 anos de idade. Antes de falecer ele deu algumas instruções de como queria ser sepultado. Ele orientou a seus irmãos franciscanos que queria ser enterrado sem roupas, para reforçar ainda mais sua pobreza, ao pôr do sol, com a leitura do evangelho.

Ele foi sepultado inicialmente na igreja de São Jorge. Milhares de pessoas compareceram ao seu enterro, pois a comoção por sua morte foi grande. Seu feitos, sua vida santa e seus milagres, atravessaram fronteiras. Em Roma a Igreja lamentou profundamente seu falecimento. Dois anos depois de sua morte o Papa Gregório IX resolveu deixar os muros do Vaticano e ir pessoalmente até Assis para a cerimônia de canonização de Francesco. Naquela época era algo muito raro um Papa sair do Vaticano por motivos de segurança, mas Gregório tinha tanto apreço pela vida e exemplo de Assis que resolveu se deslocar até a pequena cidade para louvar a memória daquele homem inigualável. Em 1230 a Igreja Católica decidiu erguer uma bela basílica para receber os restos mortais e as relíquias de Francesco, onde até hoje descansam em paz. Tudo estava consumado.

Pablo Aluísio.

O Movimento Separatista da Catalunha

Eu acredito ser bem absurdo esse movimento de separatismo da Catalunha da Espanha. Sinceramente pensei que o último momento de redefinição do mapa europeu ocorreria com os países do leste europeu, como a antiga Iugoslávia (que se dividiu em inúmeros países satélites) e a extinta Checoslováquia (que se partiu em dois, dando origem a duas pequenas nações, a República Checa e a Eslováquia).

E então quando todos pensavam que o mapa da Europa estava definido por pelo menos os próximos cem anos, eis que surge esse movimento pela independência da Catalunha. Por trás disso há inúmeros partidos de esquerda (sempre eles!), que buscam a independência total da Espanha. Ora, essa é uma região rica, industrial e obviamente o governo espanhol jamais deixará se separar assim de forma tão simples. Além disso há outras regiões (como o País Basco) que também podem se inspirar no exemplo da Catalunha, fazendo com que o Estado nacional da Espanha simplesmente deixe de existir.

É algo perigoso, que pode inclusive dar origem a uma guerra civil bem no meio da Europa mais civilizada e politicamente coesa. Por essa razão a União Europeia já deixou claro que não vai reconhecer nenhum novo país formado após a divisão do mapa espanhol. E eles estão certos. Um movimento desses poderia dar origem a inúmeros casos semelhantes por toda a Europa, fazendo com que o continente se tornasse uma imensidão de pequenos países (a maioria deles irrelevante do ponto de vista político e econômico, vamos convir), criando uma situação de grande instabilidade.

Os grandes Estados Nacionais da Europa (como a própria Espanha, Portugal, Inglaterra, França, etc) nasceram de uma questão pragmática. O sistema feudal, com seus milhares de feudos praticamente independentes, pulverizavam a Europa. Havia uma infinidade de moedas, barreiras comerciais, tributos feudais, etc. Com o fortalecimento dos Reis finalmente nasceram as grandes nações. Depois o sistema político de concentração foi se ampliando (a própria União Europeia é um reflexo disso), tudo visando o desenvolvimento cada vez maior e sem barreiras das economias da região. Assim algo como o fracionamento dos Estados nacionais é algo que vai contra a corrente da história. Fragmentar para quê? Para o surgimento de novas barreiras e entraves comerciais? A quem interessa isso? É claramente uma péssima ideia, por mais que o povo da Catalunha queira sua separação da Espanha.

Pablo Aluísio.

terça-feira, 3 de outubro de 2017

Refém do Silêncio

Título no Brasil: Refém do Silêncio
Título Original: Don't Say a Word
Ano de Produção: 2001
País: Estados Unidos
Estúdio: Regency Enterprises, Village Roadshow Pictures
Direção: Gary Fleder
Roteiro: Anthony Peckham
Elenco: Michael Douglas, Sean Bean, Brittany Murphy, Skye McCole Bartusiak, Jennifer Esposito, Shawn Doyle

Sinopse:
Dr. Nathan R. Conrad (Michael Douglas) é um conceituado terapeuta que precisa fazer uma paciente voltar a falar após ficar 10 anos sem emitir uma palavra. Acontece que sua filha foi sequestrada por uma quadrilha que poupará sua vida, caso o médico consiga o código que eles procuram. A única pessoa que sabe o código é justamente a paciente do Dr. Conrad.

Comentários:
O ator Michael Douglas sempre foi conhecido por escolher bem os roteiros de seus filmes. Douglas certamente pode ter muitos defeitos, mas não o de não saber exatamente o que o público quer ver nos cinemas. Durante muito tempo ele acertou em cheio, porém também deu seus tropeços. Esse thriller de suspense não foi exatamente um fracasso comercial, mas também não faturou nas bilheterias o valor que Douglas (que foi produtor do filme) pretendia. No final das contas mal se pagou, deixando um lucro mínimo para o estúdio. De fato não vejo aqui um grande filme. Esses roteiros mirabolantes demais, com aquela fórmula que consegue resumir todo o enredo de um filme apenas numa frase, nunca chegaram a me convencer. Mesmo que tenha sido baseado no livro escrito por Andrew Klavan, o fato é que não funcionou muito bem na tela. É a tal coisa, nem sempre o que dá certo nas páginas de um livro consegue convencer numa adaptação para as telas de cinema. Muitas vezes esse tipo de transição soa forçada demais. É justamente o que aconteceu nesse "Don't Say a Word".

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.

Las Vegas e Psicopatia

Eu sou a favor do porte de armas. Todo cidadão deve ter direito a ter uma arma para defesa própria. Dito isso também entendo que a liberação não pode ser feita sem limites como acontece em certos estados americanos. Determinadas armas devem ser proibidas, também deve haver um claro controle sobre a quantidade de armas que cada cidadão pode possuir.

O assassino de Vegas, o atirador do Mandalay Bay, tinha um verdadeiro arsenal, tanto em casa como no hotel. Fico imaginando a cena: o sujeito chega no saguão do hotel e entra com mais de dez fuzis de alto calibre para pedir um quarto ao recepcionista. Ninguém achou estranho? O hotel não fez nenhuma restrição a um sujeito entrar em suas dependências com um arsenal digno de um Rambo? Que loucura é essa? Alguns dos armamentos que o tal assassino estava carregando eram inclusive ilegais e de venda proibida! Nenhum funcionário do hotel pensou em ligar para a polícia? São perguntas simples, mas parece que o comportamento dos americanos em geral em relação a armas é completamente bizarro...

Até o momento não há nenhuma explicação para o massacre. O mais perto que se chegou de uma explicação é que o tal atirador era filho de um conhecido criminoso, assaltante de bancos, que foi diagnosticado como psicopata na prisão. Essa última linha parece ser a chave de uma explicação. Provavelmente o atirador herdou a condição psiquiátrica do próprio pai. Ele deveria ser um psicopata não diagnosticado. Provavelmente durante anos e anos se escondeu, usando uma fachada de pessoa normal. Isso é algo que é comum entre psicopatas em geral.

Então, depois de anos usando um "disfarce" de bom cidadão, sua condição psiquiátrica deteriorou-se a tal ponto que ele não mais conseguiu frear seus instintos assassinos. O surto veio na forma de uma explosão de fúria assassina. As pessoas precisam lembrar que psicopatas geralmente usam uma espécie de "veste social", posando de bons e exemplares cidadãos. Isso porém não é o bastante e em determinado momento eles não conseguem mais resistir aos seus instintos. O resultado sempre acaba em morte de tragédia. Provavelmente foi exatamente isso que aconteceu nesse lamentável massacre de Las Vegas.

Pablo Aluísio.

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

O Estranho que Nós Amamos

Quando você ler o título desse filme muito provavelmente vai ficar com a impressão de que já o assistiu antes. De fato, esse é um remake de um filme estrelado por Clint Eastwood em 1971, com direção do excelente Don Siegel. A história segue sendo a mesma: um soldado ianque, das tropas da União, durante a guerra civil americana, é encontrado morrendo debaixo de uma árvore, perto de uma tradicional escola de moças no sul dos Estados Unidos. As garotas então resolvem ajudá-lo, mesmo sendo do exército inimigo. Uma questão de misericórdia cristã. Ela pensam salvar sua vida para depois entregá-lo aos confederados.

Assim o cabo John McBurney (Colin Farrell) é levado para dentro do casarão para ser tratado. Ele tem a perna em frangalhos, muito provavelmente morrerá, mas as damas sulistas não desistem. Comandadas pela diretora da escola, a senhorita Martha Farnsworth (Nicole Kidman), todas tentam salvar sua vida. Depois de um tempo ele começa a se recuperar e então começam os problemas. Não precisa ser muito perspicaz para entender que a presença de um homem naquela escola só para moças logo desperta desejos, atração e ciúme entre todas elas. As garotas, na flor da idade, vivem isoladas e reclusas, sem ver nenhum homem por perto. Por mais bem educadas que fossem não haveria mesmo como soterrar todos os desejos delas. O militar sabe bem disso e começa a jogar com elas, o que obviamente vai lhe custar muito caro.

Esse remake não diz muito a que veio. Quem assistiu ao filme original certamente vai ver que um Colin Farrell jamais conseguirá substituir um Clint Eastwood à altura! É uma comparação até mesmo injusta. Não há como compará-los mesmo. Quando fez o primeiro filme Clint Eastwood era ainda bem jovem, convencendo completamente como um soldado da guerra civil. Já Farrell parece muito frágil, fraco, nada convincente. Nem nas cenas de fúria ele passa muita credibilidade. Clint era claramente mais viril e áspero. Outro problema é que a diretora Sofia Coppola resolveu aproveitar o uso da luz natural de velas do ambiente onde se passa quase toda a história (dentro da escola de moças) para iluminar as cenas. Ficou péssimo! O filme é escuro demais, você mal vai conseguir ver as atrizes e o ator no meio da penumbra, da escuridão! Muito ruim. Fora isso é mais do mesmo. Remakes, como eu já disse inúmeras vezes, geralmente são apenas filmes inúteis. Melhor rever o classicão faroeste com Clint Eastwood, sem dúvida!

O Estranho que Nós Amamos (The Beguiled, Estados Unidos, Inglaterra, 2017) Direção: Sofia Coppola / Roteiro: Albert Maltz, baseado no romance escrito por Thomas Cullinan / Elenco: Colin Farrell, Nicole Kidman, Kirsten Dunst, Elle Fanning / Sinopse: Durante a guerra civil americana um soldado ianque é encontrado morrendo em um bosque perto de uma escola sulita para moças e damas da sociedade. Levado para dentro do casarão ele passa a ser tratado pelas jovens e pela diretora do estabelecimento, a senhorita Martha (Kidman). Conforme o tempo passa sua presença começa a despertar os desejos de todas aquelas mulheres solitárias, isoladas e reclusas por causa da guerra.

Pablo Aluísio. 

A Primeira Noite de um Homem

Esse filme é considerado um dos grandes clássicos do cinema americano dos anos 1960. Curiosamente levei algum tempo para assistir. Eu me lembro que esse filme foi lançado no Brasil nos tempos do VHS pela Globo Vídeo. Vira e mexe o via na prateleira da locadora, mas nunca cheguei a assistir na época. Só mais recentemente finalmente conferi. A história do filme é até bem conhecida dos cinéfilos (e o sugestivo título em português ajuda a entender melhor do que se trata). Tudo começa quando Benjamin (Dustin Hoffman) finalmente se forma na universidade. Com canudo na mão é a hora de pensar no futuro! O que fazer da vida? Bom, Benjamin não tem a menor ideia do rumo a seguir, essa é a verdade. Enquanto ele não faz plano nenhum (e passa mico nas mãos de seus pais que são pessoas sem muita noção), acaba sendo seduzido por uma mulher mais madura e sensual, a Senhora Robinson (Anne Bancroft).

Ela pede carona a Ben e quando chega em casa literalmente parte para o ataque. Sem muita sutileza, sem muita perda de tempo. Simplesmente abre o jogo e tenta levar o jovem para a cama. Claro que ele declina e fica nervoso, ainda mais quando o marido dela chega em casa. Só que sendo um homem, bom, você já sabe, logo sucumbe à tentação, por mais errado que seja levar aquela mulher para a cama. Ele não perde muito tempo e logo liga para a senhora Robinson para um encontro em um hotel da cidade. E depois daí começam todos os seus problemas, que definitivamente não serão poucos. Uma coisa que chama a atenção nesse filme é sua narrativa, que de certa forma procura imitar a falta de jeito do protagonista, um sujeito que parece sempre estar meio constrangido, até mesmo um pouco atrapalhado. A trilha sonora - ainda uma das grandes qualidades dessa produção - é toda da dupla Simon & Garfunkel e a não ser que você não conheça absolutamente nada de música dos anos 60, vai imediatamente assoviar todas as melodias. "Mrs. Robinson" e "The Sounds of Silence" são grandes sucessos da dupla. Ainda hoje verdadeiros hinos daquela geração.

O filme é muito simpático e tem um roteiro muito coeso, diria até bem inovador para aquela época. Afinal tratar da infidelidade de uma mulher madura com um fedelho recém saído da universidade era algo até bem surpreendente, pois mexia com tabus que até hoje se fazem presentes na sociedade. O único deslize do roteiro é a cena final, que de certa maneira revive velhos clichês das fitas românticas da velha Hollywood. Isso porém não chega a ser um problema pois quando o filme chega nessa parte final o jogo já está ganho. O espectador já se divertiu o bastante e gostou de todo o desenvolvimento da história. Então é isso. Um excelente momento do cinema folk americano, com um Dustin Hoffman bem novinho, passando por alguns apertos por ter se relacionado com a senhora Robinson!

A Primeira Noite de um Homem (The Graduate, Estados Undos, 1967) Direção: Mike Nichols / Roteiro: Calder Willingham, Buck Henry/ Elenco: Dustin Hoffman, Anne Bancroft, Katharine Ross / Sinopse: Benjamin (Hoffman) é um jovem recém formado na universidade que volta para a casa dos pais sem saber direito o que fará de sua vida dali em diante. Após um jantar ele atende o pedido da esposa do sócio de seu pai, a senhora Robinson (Bancroft), para levá-la para casa. Uma vez lá ela o seduz, de forma direta, algo que vai trazer muitos problemas para Ben! Filme vencedor do Oscar na categoria de Melhor Direção (Mike Nichols). Também vencedor do Globo de Ouro nas categorias de Melhor Ator (Dustin Hoffman), Melhor Atriz Coadjuvante (Katharine Ross), Melhor Direção (Mike Nichols), Melhor Atriz (Anne Bancroft) e Melhor Filme - Comédia ou Musical.

Pablo Aluísio

sábado, 30 de setembro de 2017

Louis IX - O Rei que Virou Santo

A capital do Maranhão, São Luís, tem esse nome por causa desse Rei francês que virou santo! Louis IX (Luís IX em nossa língua portuguesa) viveu entre os anos de 1214 a 1270. Era filho do Rei Louis VIII e seu reinado ficou conhecido por ser um período de extrema justiça no Reino francês. Considerado um homem justo e honrado, esse monarca franco, da linhagem que vinha desde Clóvis, fundador de sua dinastia, foi adorado por seu povo, por causa de seu senso de justiça e honestidade.

Também foi um período de extrema turbulência no Reino da França. Na época Luís precisou entrar em guerra contra o Rei inglês Henry III. Ele queria restaurar uma antiga monarquia franca, mas esbarrou nas pretensões territoriais dos ingleses. Internamente fortaleceu os órgãos de julgamento. Em seu tempo o Rei era considerado absolutista, ou seja, tinha todos os poderes em suas mãos. O Rei administrava o Reino (Poder Executivo), criava as leis (Poder Legislativo) e as aplicava nos casos que lhes eram submetidos (Poder Judiciário). Louis IX logo percebeu que ao ter para si o poder de vida ou morte sobre seus súditos tinha acima de tudo que prezar pela justiça nos casos que eram levados até ele. Historiadores afirmam que ele criou a "presunção de inocência", ou seja, todos eram considerados inocentes até que se fosse provado o contrário.

Também procurou se aproximar do povo. Ao invés de reinar como um Rei distante e isolado em seu castelo, Louis IX descia até os povoados, se misturava entre os camponeses e ouvia seus pedidos, suas preces e reivindicações. Essa proximidade com a classe dos plebeus lhe valeu grande prestígio pessoal. Outro aspecto que ficou muito conhecido de sua personalidade era sua profunda religiosidade. Devoto da fé católica, Louis IX procurou moralizar o Reino, combatendo as heresias, a prostituição e os jogos de azar, que levavam os pais de família à ruína. Também procurou se aproximar dos judeus que viviam na França, incentivando eles a se tornarem novos cristãos, aceitando a palavra de Jesus em seus corações.

Durante quatro anos de sua vida se dedicou a organizar a Sétima Cruzada. Foi algo que custou muito ao Rei. Ele ficou gravemente ferido quando estava no norte da África e quase morreu por causa dos rigores dos campos de guerra. Essa primeira cruzada não foi tão bem sucedida como ele esperava, por isso após uma sangrenta luta nas areias do deserto do Egito, ele retornou a Paris. Não demorou muito e uma nova cruzada, a oitava da história, foi organizada. Nessa presenciou a morte de um de seus filhos, João Tristão. Mesmo tendo tomado Cartago seu exército foi atingido por inúmeras doenças do norte africano, como peste negra, escorbuto e disenteria. O rei morreu em 25 de agosto de 1270, muito provavelmente vitimado pela terrível peste negra que iria dizimar grande parte da Europa nos anos seguintes. Muitos anos depois de sua morte foi eleito como o símbolo máximo da monarquia francesa, sendo canonizado pelo Papa Bonifácio III.

Pablo Aluísio. 

The Beatles - Abbey Road (1969)

The Beatles - Abbey Road (1969) - Muitos ainda pensam que "Let It Be" foi o último disco dos Beatles. De fato ele foi lançado depois, porém gravado antes de "Abbey Road". Esse álbum traz as últimas gravações dos Beatles, antes da separação que iria ocorrer poucos meses depois. As filmagens de "Let It Be" deixaram os Beatles exaustos e desanimados. Não foi uma boa experiência e nem resultou em boa música, como disse Lennon depois. Assim quando retornaram ao estúdio Abbey Road eles procuraram renovar sua sonoridade, voltar ao básico, dar o melhor de si. O resultado foi essa obra prima, um dos grandes discos da banda. Elogiado desde que chegou nas lojas pela crítica, o disco também foi um enorme sucesso comercial, se tornando, para surpresa dos próprios Beatles, em seu disco mais vendido! Quem diria... De qualquer forma a qualidade de "Abbey Road" não se discute. Ainda hoje impressiona por sua originalidade, criatividade e sonoridade única. Abaixo comento faixa a faixa esse grande momento da discografia dos Beatles.

1. Come Together (John Lennon / Paul McCartney) - Eu considero "Come Together" a última grande música de John Lennon nos Beatles. Ela foi lançada no disco "Abbey Road" que de certa maneira era uma colcha de retalhos composta e organizada por Paul McCartney. Havia literalmente um monte de pedaços de canções, letras inacabadas e melodias pela metade. Paul foi genial e com esse material em mãos criou uma verdadeira obra prima, principalmente no lado B do álbum que seguia uma linha bem inovadora, com várias composições de John, Paul e George que se entrelaçavam, quase como se não houvesse uma separação entre elas. Já "Come Together" fugia um pouco dessa linha. Era uma composição cem por cento John Lennon e que havia sido criada de forma independente ao conceito que Paul havia criado para "Abbey Road". A letra de John Lennon era na realidade um jogo de palavras. Isso já havia se tornado uma característica de John desde os tempos de "Revolver". Ele decidira romper com a velha fórmula de canções sobre amor, paixões de adolescente e afins. Para John isso não tinha mais nenhuma importância. Ele supostamente descreve um sujeito nada convencional, fora dos padrões, mas isso é apenas a espinha dorsal de sua composição. Lennon, inspirado por Dylan, não queria mais soar previsível ou convencional. Assim ele procurava sempre romper barreiras, tanto em termos de letra como melodia. Essa música tem um estilo estranho, com tensão em cada linha escrita. O ouvinte fica esperando pelo clímax que parece nunca chegar. Curiosamente ela seria regravada por Michael Jackson e Aerosmith alguns anos depois, mas nada supera realmente a beleza e a originalidade dessa gravação de Abbey Road. Realmente uma grande faixa que marcou a despedida de Lennon dos melhores anos de sua vida artística.

2. Something (Harrison) - Durante anos George Harrison viveu à sombra da dupla John Lennon e Paul McCartney. Em entrevistas John Lennon costumava dizer que o grupo sempre deixava um espaço nos álbuns dos Beatles para que George cantasse ou até mesmo encaixasse uma composição própria dentro do repertório. Além de ser mais jovem do que os colegas de banda, George ainda tinha que conviver com a genialidade deles na composição de dezenas de obras primas. Mesmo assim Harrison foi se aperfeiçoando com o tempo. Para muitos a canção "Something" foi a prova definitiva de seu talento como compositor, a sua melhor canção. Pena que ela veio um pouco tarde demais pois quando foi lançada no álbum "Abbey Road" de 1969 os Beatles já estavam separados. Composta por volta de 1968 George esperou alguns meses para levar a música para o estúdio. Queria trabalhar melhor nela. Uma demo crua, apenas com ele e sua guitarra, foi gravada pelo próprio George e em cima dela os demais Beatles e o produtor George Martin começaram a trabalhar nos arranjos. Logo no começo George Harrison percebeu que apenas uma guitarra seria insuficiente para criar a sonoridade que queria. Por isso tocou várias delas, de diferentes modelos, para que depois fossem unidas na edição da gravação original. O curioso é que John Lennon se ofereceu para tocar a guitarra base, mas George achou por bem ele mesmo tocar todas elas sozinho, dando sua própria marca registrada para cada detalhe da canção. Assim Lennon acabou indo para os teclados onde fez um trabalho apenas básico para o fundo instrumental da melodia. Os demais Beatles foram para seus instrumentos tradicionais, com Paul McCartney no baixo e Ringo Starr na bateria. Para a parte instrumental George Martin criou um arranjo envolvendo violinos, violoncelos e violões. Tudo foi acrescentado bem depois, na sala de edição de Abbey Road. O resultado ficou realmente ótimo, embora alguns críticos tenham reclamado do arranjo que para alguns se tornou excessivo. Ao longo dos anos "Something" (que foi lançada como single ao lado de "Come Together") se tornou um dos maiores sucessos dos Beatles sendo regravada por alguns grandes cantores, entre eles Frank Sinatra e Elvis Presley (que lançou sua versão ao vivo no álbum "Aloha From Hawaii"). Em suma, essa é provavelmente a maior obra prima da carreira de George Harrison. Uma prova de que ele não era apenas mais um nos Beatles.

3. Maxwell's Silver Hammer (John Lennon / Paul McCartney) - Essa é uma das músicas mais interessantes do álbum "Abbey Road" dos Beatles. Essa canção foi uma das mais perfeitas, do ponto de vista técnico, da discografia do grupo. Essa perfeição porém teve seu preço. Os demais membros do grupo começaram a se irritar com Paul McCartney porque a gravação parecia nunca ter fim... Paul sempre aparecia querendo lapidar ainda mais a faixa, acrescentar algum detalhe, alguma novidade em sua sonoridade. O preciosismo absurdo de Paul irritou tanto os outros que Lennon simplesmente sumiu do estúdio por duas semanas apenas para não se envolver mais na gravação dessa faixa. Para ele "Maxwell's Silver Hammer" era de uma chatice indescritível. Depois que John foi embora, George Harrison também começou a criticar a música de Paul, dizendo que ela era uma coisa velha, ultrapassada, Parecia a música que Paul estava fazendo para seu avô - por causa da sonoridade anos 1920 que McCartney queria trazer para a faixa. Tentando amenizar tudo Ringo Starr (sempre ele, o conciliador) afirmou que havia um exagero na rabugice de John e George. Ok, a música tinha um timing envelhecido, de tempos antigos, mas também era verdade que ela resultou em uma gravação absurdamente perfeita, cheia de inovações sonoras, que não eram comuns em discos de banda de rock dos anos 60. Mais uma inovação sem precedentes dos Beatles nesse aspecto.

4. Oh! Darling (John Lennon / Paul McCartney) - Depois ouvimos a bela canção romântica "Oh Darling!". Que Paul McCartney sempre foi um grande compositor de baladas, isso provavelmente todo mundo já sabe. O que poucos conhecem é que nos bastidores dos Beatles sempre havia uma disputa surda envolvendo Paul e John. Enquanto McCartney estava sempre lapidando suas criações românticas, John ficava pegando em seu pé, dizendo que ele estava sempre fazendo canções piegas. O próprio John chegou a declarar sobre isso em uma entrevista: "Eu estava sempre surgindo nos estúdios com rocks pesados, enquanto Paul surgia como o poeta romântico dos Beatles. Eu ficava perplexo com isso porque queria contrabalancear nos discos dos Beatles e como Paul só parecia surgir com músicas de amor eu tinha que me virar criando rocks! Quando os Beatles se separaram eu até mesmo fiquei em dúvida se ainda conseguiria compor alguma música romântica depois de anos de pauleira". Pois é, não foi fácil para John aguentar por anos e anos as intermináveis declarações de amor de Paul em forma de notas musicais... De qualquer forma, indiferente com as críticas de John, Paul surgiu no estúdio Abbey Road com essa nova faixa romântica "Oh Darling!" - aliás mais do que isso, uma das mais sinceras e ternas melodias de sua carreira. A inspiração de Paul veio de velhas músicas americanas dos anos 50, com todos aqueles refrãos pegajosos e ultra românticos. Para gravar seus vocais Paul também decidiu que iria chegar mais cedo no Abbey Road para chegar no tipo de vocalização que considerava a ideal. Ele acreditava que sua voz ficava particularmente mais bonita nas primeiras horas da manhã. Assim mal o estúdio era aberto às sete da manhã e lá estava Paul gravando sozinho, sem os demais Beatles que só apareciam muitas horas depois. Depois que Paul finalmente gravou seus vocais o resto da banda contribuiu com a parte instrumental. John foi para o piano tirar algumas notas evocativas daquele espírito rock romântico dos 50´s. George criou um bonito solo de guitarra e Ringo fez o feijão com arroz com sua bateria. Até Billy Preston (que havia trabalhado em "Let It Be") deu uma pequena canja tocando seu sintetizador (embora na versão oficial Paul tenha eliminado essa parte). Então é isso, uma canção despudoradamente apaixonada, como tem que ser. Afinal grandes amores sempre são melhores quando são loucamente vividos.

5. Octopus's Garden (Starkey) - A canção "Octopus's Garden" tem algumas características bem próprias. Essa música foi composta por Richard Starkey, ou melhor dizendo, Ringo. Desde os primeiros discos dos Beatles sempre uma faixa era separada para ser cantada por Ringo. Segundo John as músicas mais simples eram escolhidas por ele e Paul para o baterista soltar a voz. Em um momento pouco feliz de sua tagarelice, John chegou a debochar do baterista durante uma entrevista nos anos 70 dizendo que ele definitivamente "não era o melhor cantor do mundo!". Não deveria ter dito algo assim. De qualquer maneira era tradicional abrir esse espaço para o bom e velho Ringo. A novidade era que "Octopus's Garden" era uma criação própria de Ringo e não apenas uma música composta por Lennon e McCartney e interpretada por ele. De certa maneira causou até mesmo uma surpresa entre John e Paul o fato de Ringo surgir no estúdio com uma canção nova, feita apenas por ele! Não era algo que eles esperavam acontecer durante aquelas sessões. Desde o momento em que ele mostrou uma demo bem crua para os demais, Paul, John e o produtor George Martin decidiram que ali deveria haver muitos efeitos sonoros, tal como havia acontecido com "Yellow Submarine". Aliás para muitos críticos e especialistas da obra dos Beatles essa canção era mesmo uma espécie de sequência daquela famosa música do álbum "Revolver". Paul e John sentaram no estúdio e escreveram alguns efeitos que deveriam aparecer na gravação. Embora não tenham sido creditados na autoria da canção o fato é que a participação deles foi essencial para que "Octopus's Garden" tivesse aquela sonoridade bem conhecida, diferente de todas as outras músicas desse disco.

6. I Want You (She's so Heavy) (John Lennon / Paul McCartney) - Já  "I Want You (She's So Heavy)" era uma composição inteiramente feita por John Lennon. Na verdade eram duas músicas diferentes, sobre temas diversos que Lennon resolveu unir em uma só para ser lançada no álbum "Abbey Road". A primeira chamada "I Want You" foi composta para Yoko Ono. John dizia que em relação a ela tinha que compor versos primários mesmo, pois sua paixão pela japonesa era algo primal, praticamente visceral. Por essa razão a maioria das letras falando de seu romance com Yoko eram de uma sinceridade e singeleza que chegavam a incomodar. Essa linha seria seguida por John Lennon em praticamente todos os seus discos da carreira solo que invariavelmente também tinha um só tema: seu amor por Yoko Ono. Por outro lado "She´s So Heavy" era bem mais pesada. O "She" (Ela) da letra não se referia a uma mulher, mas sim a uma droga. Na época em que a criou John estava afundado em um pesado vício na heroína, uma droga da pesada que causava forte dependência em seus usuários. John já tinha tido problemas antes em escrever letras sobre drogas, principalmente no que dizia respeito a boicotes em rádios inglesas e americanas. Aqui as coisas foram mais amenizadas pois como a música foi unida a outra criou-se a (falsa) impressão que toda a letra dizia somente respeito a Yoko Ono. No estúdio John também resolveu inovar. Criou uma parede sonora, bem pesada, que anos depois seria associada ao Rock Progressivo. Também resolveu fazer um corte abrupto no final da faixa, o que fez alguns compradores voltarem às lojas dizendo que seus discos estavam com defeito! Não era defeito de fabricação, mas sim um jeito inovador que Lennon resolveu criar na sala de edição do produtor George Martin.

7. Here Comes the Sun (Harrison) - Durante muitos anos "Something" foi considerada a grande música de George Harrison no álbum "Abbey Road". Não havia nada de errado nisso. Realmente é um grande clássico e provavelmente o auge da fase criativa de Harrison nos Beatles. Acontece que esse disco trazia também outra obra prima do repertório de George, a linda "Here Comes The Sun". Ela abria o lado B do vinil original e era realmente um primor. O curioso é que as origens dessa música trazem um claro paradoxo por parte de Harrison. A música, como podemos notar em sua letra e melodia, tem clara inspiração no movimento hippie. A letra evocando amor, natureza e bucolismo, se encaixa perfeitamente bem nesse sentido. A questão é que o próprio George não tinha uma opinião muito favorável sobre esse mesmo movimento. Em mais de uma vez ele criticou os hippies. Em certa ocasião George foi convidado para participar de um encontro hippie na Califórnia. Ele prontamente aceitou o convite pois achou que iria encontrar pessoas comprometidas em criar um novo mundo, baseado na difundida mensagem da paz e do amor. Mas ao chegar lá George encontrou algo completamente diferente. Em suas próprias palavras: "Quando cheguei no encontro tudo o que encontrei foi um bando de jovens drogados... drogados e sujos, ralando pela lama. Ninguém ali queria discutir filosofia, paz ou amor, mas sim tomar drogas...". Apesar da decepção com os hippies, George acabou compondo e gravando essa canção que para muitos é a maior canção hippie já feita. Contraditório? Sim, mas isso fazia parte da personalidade complexa do Beatle.

8. Because (John Lennon / Paul McCartney) - "Because" é mais uma obra prima desse álbum. Para entender bem essa canção é interessante saber de onde ela veio e que movimentos musicais acabaria inspirando. O rock progressivo ficou muito associado a uma característica básica: a união entre o rock, música popular por excelência, e o clássico, com sua erudição. Isso é bem demonstrado em álbuns de grupos como Pink Floyd e Yes. O auge do progressivo aconteceu justamente na década de 1970, quando os Beatles já não existiam mais. Isso porém não significa que o grupo não tenha explorado essa linha mais erudita. Um dos maiores exemplos vem nessa faixa do Abbey Road chamada "Because". Aqui os Beatles usaram um arranjo vocal bem de acordo com sua linha tradicional acompanhados de uma orquestração que nos faz lembrar das peças escritas pelo grande Mozart. O uso de instrumentos clássicos, nada comuns de se encontrar em discos de rock, acentua ainda mais esse aspecto. Nem é complicado entender em gravações como essa a importância de George Martin na produção dos discos dos Beatles. Vou mais além, em minha opinião Lennon e McCartney deveriam ter dado a coautoria da música para Martin pois foi ele, com seus conhecimentos de maestro, que criou toda a sonoridade que aqui ouvimos. Um toque de gênio, com certeza. Ainda insistindo um pouco mais na questão do arranjo vocal penso que esse foi um dos melhores de toda a carreira do grupo. Existe uma versão apenas com as vozes de John, Paul e George, completamente isoladas da parte instrumental, que é de arrepiar. Desde que começaram a cantar, ainda nos tempos de colegiais, sempre seguindo a linha de grupos como The Everly Brothers, os Beatles procuravam a melhorar a cada ano. Pois foi justamente em Abbey Road, nessa canção "Because", que eles atingiram o seu auge de perfeição. Perfeitamente sincronizados e com uma afinação de fazer qualquer amante de boa música, bater palmas, essa faixa e sua execução vocal está certamente entre os grandes momentos do conjunto. "Because" é outro momento desse álbum que pode ser chamado, sem favor algum, de obra prima da música. Um verdadeiro primor musical.

9. You Never Give Me Your Money (John Lennon / Paul McCartney) - Música de Paul McCartney que traz em sua letra uma clara mensagem para Alain Klein que estava passando a mão nos bolsos dos Beatles quando ele se tornou o responsável pela Apple. Obviamente Lennon entendeu o recado de Paul, mas resolveu bancar a provocação. Como se sabe foi John quem trouxe Klein para a Apple, brigou para que ele se tornasse o responsável pelos negócios dos Beatles, mesmo contra a opinião de Paul, e depois acabou sendo processado pelo desonesto agente. Se tivesse ouvido seu companheiro de banda nada disso teria acontecido.... Na parte musical houve algumas pequenas inovações dentro dos estúdios: Paul tocou piano e baixo; John ficou na guitarra; George Harrison no piano, pandeiro e em duas guitarras e finalmente Ringo criou algumas variações em sua bateria. George Martin ainda arranjou espaço para acrescentar um segundo piano para melhorar a harmonia da gravação.

10. Sun King (John Lennon / Paul McCartney) - John Lennon gostava de passar suas férias na Espanha, nas praias que banhavam a costa do mar Mediterrâneo. Foi justamente numa dessas viagens que ele compôs "Sun King". Ele inclusive decidiu colocar algumas palavras em espanhol na letra original(que depois contaria com a preciosa colaboração de Paul que sabia mais algumas frases na língua espanhola). Embora seja um bom momento do disco não há como negar que se trata de mais um pedaço de música inacabada por John que acabou sendo encaixada no lado B do álbum. Como havia muitos trechos como esse, Paul teve a brilhante ideia de juntá-las todas, como se fizessem parte de um grande medley.

11. Mean Mr Mustard (John Lennon / Paul McCartney) - Essa composição era mais uma contribuição de John. Ele havia escrito poucas linhas do que viria a se tornar a canção quando estava na Índia. De certa forma era uma sobra das gravações do "White Album" que John resolveu resgatar. O curioso é que anos depois ele destruiu a música ao comentar sobre ela durante uma entrevista. Ele próprio reconheceu que a composição era "Um lixo que ele havia escrito em algum pedaço de papel quando estava na Índia". Como se pode ver John não deixava pedra sobre pedra com seu estilo mordaz de criticar não apenas os outros, como também a si próprio.

12. Polythene Pam (John Lennon / Paul McCartney) - Depois de Paul era a vez de John apresentar uma nova canção nos estúdios chamada "Polythene Pam". A palavra "nova" deve ser encarada em termos. Embora essa canção tenha sido lançada no álbum "Abbey Road", ela quase entrou no "White Album". Lennon só não a colocou naquele disco porque ele não a considerava ainda finalizada. Uma bobagem já que na verdade a composição nunca foi terminada por John. Assim quando os Beatles gravavam seu último LP John concordou com Paul McCartney em colocá-la no meio do medley do lado B - o que acabou virando uma das marcas registradas desse maravilhoso trabalho do grupo. Anos depois o próprio John iria esclarecer que "Polythene Pam" havia sido composta na Índia, quando os Beatles estavam por lá para meditar e aprender aspectos da religião hindu. Nessa época a rotina de John era fumar muito maconha, assistir as palestras de seu guru (que depois iria se revelar um picareta) e compor, com seu violão nas horas vagas. Assim a música foi criada, de forma bem despretensiosa e sem muita sofisticação. No "Abbey Road" temos uma versão bem básica, praticamente inacabada, servindo apenas como um link entre as diversas faixas. Pelo visto o próprio John cansou da música e nem sequer se preocupou muito em finalizá-la adequadamente. De qualquer maneira o bom solo de guitarra e a garra da gravação já valem a pena por si só.

13. She Came in Through the Bathroom Window (John Lennon / Paul McCartney) - Durante uma entrevista nos anos 70 John Lennon aceitou fazer uma espécie de bate-bola onde o entrevistador ia citando algumas músicas dos Beatles e ele ia respondendo sobre elas, de forma rápida e simples, dizendo o que primeiro lhe vinha a cabeça. Quando surgiu o nome de "She Came in Through the Bathroom Window" do álbum Abbey Road, John disparou: "Essa música é completamente de Paul. Não tenho a menor ideia do que se trata! Provavelmente Linda tenha entrado pela janela do banheiro, não sei, alguém entrou pela janela do banheiro...". Pois é, a origem dessa canção segue sendo um mistério Beatle. Na verdade a música em si não passava de um pequeno refrão sem importância que havia sido ensaiada durante os trabalhos de "Get Back" (que depois iria se transformar no filme e álbum "Let It Be"). Nada sem muita importância, nada muito bem trabalhado por Paul. Alguns boatos dizem que a tal pessoa que entrou pela janela do banheiro foi a filha de Linda, durante um dia em que Paul estava tão drogado que não conseguia nem abrir a porta de seu apartamento, fazendo com que a garotinha pulasse pela janela para abrir a porta por dentro. Quem sabe o que realmente teria acontecido? Acredito que nessa altura do campeonato nem mesmo Paul saiba mais explicar a origem da letra. De qualquer maneira a faixa é um bom momento do super Medley que Paul havia concebido para fazer parte do disco. Sua fusão com o rock "Polythene Pam" de John funciona muito bem. De uma coisa ninguém duvidava: Paul era realmente um mestre de estúdio, fazendo o melhor dentro de Abbey Road ao lado de George Martin. Coisa fina.

14. Golden Slumbers (John Lennon / Paul McCartney) - Paul McCartney tirou a ideia da canção de uma obra infantil, um conto de fadas. Depois escreveu o arranjo como se fosse uma velha canção de ninar. Para a letra Paul usou a obra do poeta Thomas Dekker. Mesmo com tantas fontes de inspiração Paul não se sentiu muito confortável com o resultado final. Para ele ainda estava faltando algo, pois a gravação original realmente tinha ficado bem curta. Assim ele resolveu unir esse trecho com "Carry That Weight", outra de suas composições que ele trazia para o álbum.

15. Carry that Weight (John Lennon / Paul McCartney) - John Lennon ficou um pouco irritado após ouvir a primeira demonstração dessa música por Paul dentro do estúdio porque a letra era obviamente outra indireta contra Allen Klein, o sujeito que John havia trazido para ser o novo empresário dos Beatles. Paul havia ficado muito irritado com essa escolha pois ele queria que seu sogro se tornasse o novo homem de negócios do grupo. John porém passou por cima de Paul, colocando Klein no comando. A troca de farpas entre eles dentro dos estúdios Abbey Road assim se tornou bem óbvia. John inclusive cogitou mais uma vez sabotar a criação de seu colega de banda, colocando todos os tipos de problemas para tocar na gravação. Sua má vontade tinha se tornado bem clara para todos.

16. The End (john Lennon / Paul McCartney) - É um desfecho, a última faixa a ser creditada na contracapa do álbum original de 1969. Nela Paul canta um verso que ficou bem conhecido dos fãs:  "E no fim, todo o amor que você recebe é igual ao amor que você deu". Como a baladinha "Her Majesty" não foi creditada, muitos pensaram na época que ela era na verdade "The End", mas são músicas diferentes, que até hoje confundem os ouvintes.

17. Her Majesty (john Lennon / Paul McCartney) - O que muitos pensam ser "The End" na verdade é "Her Majesty". Depois de uma longa pausa Paul surge repentinamente tocando seu violão, numa baladinha com poucos versos. Essa gravação nem mesmo iria aparecer no disco, mas de última hora Paul achou que seria divertido causar uma "surpresa" aos ouvintes. Quando todos pensavam que o álbum havia terminado eis que surgia do nada Paul e seu violão para um recadinho final.

The Beatles - Abbey Road (1969) - John Lennon (vocais, guitarra, violão e piano) / Paul McCartney (vocais, baixo, violão e piano) / George Harrison (vocais, violão e guitarra) /  Ringo Starr (vocais, bateria e percussão) / Produção: George Martin / Local de gravação: Abbey Road Studios, Londres / Data de gravação: 22 de fevereiro a 20 de agosto de 1969 / Data de Lançamento: Setembro de 1969 / Selo: Apple Records - Emi Odeon / Melhor Posição nas paradas: #1 (Estados Unidos), #1 (Reino Unido).

Pablo Aluísio.