sábado, 28 de fevereiro de 2009

Elvis Presley - Stay Away Joe (1968)

Stay Away Joe (lançado no Brasil como Joe é muito vivo) foi o primeiro filme de Elvis Presley a surgir nas telas em 1968. O filme que foi rodado no Arizona era uma comédia rasgada, passada no moderno oeste americano. Nada que viesse a lembrar o filme anterior do cantor sobre o mesmo tema, Flaming Star. Aqui o clima é de total descontração, numa produção que lembra muito alguns filmes mais alternativos do final dos anos 60. Não há o menor indício de produção requintada ou algo parecido, tudo é muito despretensioso e leve. Elvis em particular passa a sensação que estava mais do que nunca se divertindo, pois sua "atuação" mais se parece com a de uma pessoa que está numa mera reunião de amigos, se divertindo no fim de semana (Realmente Elvis divide a cena com vários membros da Máfia de Memphis, principalmente nas divertidas cenas de briga no meio da lama).

O filme de certa forma mostra no que havia se transformado sua carreira no cinema. Ao invés de estar disputando por papéis realmente relevantes em boas produções, como um dia chegou a almejar, Elvis estava envolvido em mais um filme centrado única e exclusivamente em seu nome, sua fama e sua capacidade de atrair os espectadores às salas de cinema, não importando que produto fosse exibido. Infelizmente por volta de 1968 Elvis já não conseguia atrair tanta bilheteria assim, principalmente por ter queimado o filme em uma série incrível de produções B, sem nenhum atrativo além de ver o antigo ídolo cantando canções no meio de várias cenas sem nenhuma importância. Stay Away Joe não seguiu um caminho melhor, tendo ao final de sua carreira apenas uma humilde passagem pelas bilheterias americanas.

A trilha sonora, gravada parte em 1967 e completada alguns meses depois, já em 1968, não teve melhor sorte. Embora estivesse nos estúdios ao lado de seu grupo habitual não havia muito o que fazer com um material tão fraco como aquele. A canção título não passava de uma alegoria estereotipada dos nativos americanos, onde nem o arranjo levemente diferenciado se sobressaía. Elvis inclusive errou como nunca, sendo seus erros vocais levados para a master, um erro imperdoável por parte do produtor Jeff Alexander. O pior é Dominic, uma verdadeira aberração musical, que envergonhou tanto Elvis e sua banda que ele próprio exigiu garantias de que ela nunca seria lançada oficialmente em seus discos, sendo usada apenas na cena do filme.

As demais canções não ajudam muito. All I Need Was The Rain até tem arranjo interessante, lembrando um blues dos velhos tempos, com direito a gaita inspirada de Charlie McCoy. Infelizmente ela seria completamente desperdiçada na discografia de Elvis, passando em branco. A cena em que é apresentada no filme, com Elvis curtindo uma fase de baixa (será que se inspiraram na própria carreira de Elvis na época?) nada traz de muito inspirado ou relevante. Bem melhores são Goin´Home, que tecnicamente nem deve ser considerada parte da trilha em si, pois foi utilizada pessimamente como bônus no álbum de Speedway e Stay Away que até soa engraçadinha no meio desse lamaçal de músicas ruins.

A RCA após ouvir os resultados das sessões resolveu simplesmente ignorar todo o material. Embora o número de músicas fosse ideal para o lançamento de um EP (compacto duplo) a gravadora de Elvis resolveu não apostar de novo, depois do fracasso retumbante de Easy Come, Easy Go, nesse mesmo formato. A única consideração que a RCA teve com esse material foi o lançamento da música Stay Away como lado B do single US Male. Depois disso nada mais fez pelo restante das canções, a não ser colocá-las futuramente em coletâneas da série RCA CAMDEM, de discos promocionais, daqueles vendidos em supermercados pela metade do preço de um disco do selo principal da gravadora. Ah, antes que me esqueça: eles cumpriram a promessa feita a Elvis e jamais lançaram Dominic em discos oficiais (pelo menos enquanto ele estava vivo). Ao menos nisso tiveram bom senso.

Elvis Presley - Stay Away Joe (1968)
Stay Away Joe
Dominic
All I Need Was The Rain
Goin´ Home
Stay Away.

Elvis Presley - Stay Away Joe (1968): Vocais: Elvis Presley / Guitarra: Scotty Moore / Guitarra: Chip Young / Baixo: Bob Moore / Bateria: Murrey "Buddy" Harman / Bateria: D.J. Fontana / Piano: Floyd Cramer / Harmonica: Charlie McCoy / Violino: Gordon Terry / Backup Vocals: The Jordanaires (Gordon Stoker, Hoyt Hawkins, Neal Matthews e Ray Walker) / Produzido por Jeff Alexander / Gravado nos Estúdios MGM Hollywood / Data de Gravação: 1 de outubro de 1967 e 15 a 17 de janeiro de 1968 / Data de lançamento: Fevereiro de 1968 (single US Male - Stay Away) / Melhor posição nas Charts: #67 (EUA) e #15 (UK) - (single US Male - Stay Away).

Pablo Aluísio.

Elvis Presley - Elvis Gold Records Vol.4 (1968)

O ano de 1968 começou para Elvis com o lançamento do disco Elvis Gold Records vol. 4. Essa era uma coletânea dos principais sucessos de Elvis que chegaram ao mercado através de singles no período compreendido entre 1960 a 1967 (com ênfase maior entre 63 a 66). Basicamente segue o mesmo espírito dos volumes anteriores. Ouvindo esse CD percebemos bem como Elvis estava em crise nesse período de sua carreira. Não há entre as faixas nenhum grande hit, nenhuma música campeã de popularidade. Ao contrário do volume 1, que era recheado de megassucessos, do volume 2, que captou um ótimo momento da carreira rocker do cantor e do volume 3 que trazia os seus maiores sucessos logo após seu retorno à vida civil em 1960, o volume 4 consegue apenas reunir boas músicas, sem nenhum grande destaque, e o pior: sem ter sequer um número 1 para puxar o disco.

O CD abre com Love Letters, single de relativo sucesso lançado em 1966 (chegou ao sexto lugar nas paradas inglesas!). Essa versão não é a mesma que deu origem a um disco de Elvis do mesmo nome nos anos 70. É a mesma canção mas arranjada e executada de maneira completamente diversa. A versão original é bem melhor e sempre achei a versão de Elvis dos anos 70 desnecessária. Witchcraft vem logo a seguir. Até hoje não consegui entender o que essa música está fazendo aqui. Ela foi apenas o lado B do single Bossa Nova Baby e não fez sucesso nenhum quando foi lançada. Hit definitivamente ela nunca foi. O mesmo acontece com It Hurts Me. A canção é linda, mas nunca foi uma música digna do título de Gold Records. Ela foi lançada originalmente na discografia de Elvis como mero lado B do single Kissin Cousins e alcançou uma decepcionante 29ª posição! Não há como entender sua inclusão nesse disco.

Como esse período na carreira de Elvis foi marcado pelas trilhas sonoras, músicas de filmes não poderiam faltar. Assim temos What´D I Say de Viva Las Vegas e Lonely Man de Wild In The Country. São dois belos momentos da discografia de Elvis nos anos 60. O clássico absoluto de Ray Charles ganhou uma versão animada e com sabor pop na voz de Elvis, combinando perfeitamente com a proposta do filme e Lonely Man é seguramente uma das mais belas músicas de Elvis em sua fase Hollywoodiana, tanto pelo arranjo, como pela bela interpretação do cantor. Apesar de ter grandes méritos artísticos, nenhuma delas também foi grande sucesso na época de seus lançamentos. Lonely Man foi o lado B de Surrender (esse sim grande hit) e What`D I Say amargou uma 21ª posição nas paradas americanas.

O grande sucesso de todo o disco, se é que podemos qualificar assim, é realmente You´re The Devil In Disguise. O single, lançado em meados de 1963 chegou ao terceiro lugar nas paradas americanas, uma ótima posição para Elvis naquele momento. Como achar grandes hits estava complicado para os produtores que estavam selecionando as músicas desse disco resolveu-se acrescentar também o lado B do single, Please Don´t Drag That String Around. Percebam que no auge de Elvis, quando seus discos da série Golden Records eram lançados apenas com sucessos absolutos, seria impossível que uma canção como essa fosse incluída na seleção do repertório. Porém como Elvis estava em tempo de vacas magras ela foi sorrateiramente selecionada, mesmo sem ter feito sucesso nenhum.

O disco ainda conta com vários outros lados B: A Mess Of Blues (lado B do hit It´s Now Or Never) e Just Tell Her Jim Said Hello (lado B de She´s Not You). Duas músicas que só foram encaixadas porque, para ser sincero, não havia mais nenhum outro sucesso de Elvis para ser selecionado. O último single presente na coletânea é Ask Me / Ain´t That Loving Baby (essa um reaproveitamento dos anos 50). Apesar de ter chegado apenas a 12ª entre os mais vendidos ganhou seu espaço na série. Enfim, Elvis Gold Records vol. 4 é seguramente o mais fraco LP dessa série. É mal selecionado, equivocado e disperso, não fazendo jus ao espírito da série da qual faz parte. Também foi o último lançado na carreira do cantor (um quinto volume foi até inventado pela RCA, mas após a morte de Elvis).

Elvis Presley - Elvis Gold Records Vol. 4 (1968)
Love Letters
Whitcraft
It Hurts Me
What'd I Say
Please Don't Drag That String Around
Indescribably Blue
Devil in Disguise
Lonely Man
A Mess Of Blues
Ask Me
Ain't That Loving You Baby
Just Tell Her Jim Said Hello

Pablo Aluísio - setembro de 2009.

Elvis Presley - Elvis Studios Highlights 1967

No meio de uma grave crise musical, amenizada um pouco pelo recém lançamento de seu disco Gospel, How Great Thou Art, Elvis voltou aos estúdios em setembro de 1967 para gravar material convencional. Embora o número de canções agendadas fossem suficientes para compor um novo álbum a intenção dos produtores não era bem essa ao iniciar os trabalhos. O principal objetivo era produzir material com certa qualidade para compor os novos singles de Elvis. O problema era que o material das trilhas sonoras não mais chamava a atenção do público e os singles de Elvis cada vez mais derrapavam na parada. Ter um single de sucesso, coisa que Elvis não tinha desde 1962, era o principal motivo de todos estarem lá com o astro tentando reencontrar o caminho do sucesso.

No começo a RCA selecionou um amplo leque de opções de canções à disposição de Elvis para ele escolher o repertório da sessão. O problema é Elvis odiou a maioria das músicas. Elas lembravam muito a sonoridade de suas últimas trilhas sonoras e isso definitivamente não era o que Elvis procurava. Ele queria voltar a gravar material de qualidade, algo que causasse impacto novamente nas paradas de sucesso, algo realmente marcante. Com Felton Jarvis ao lado, Elvis sentiu segurança suficiente para escolher o que iria gravar com calma e paciência. Nada da correria que imperava nas sessões das trilhas dos estúdios de cinema. No fundo Elvis sabia que estava ali para voltar a produzir música de qualidade e não músicas que provavelmente só funcionariam nas cenas do filme.

E foi com esse pensamento que Elvis começou as sessões gravando Guitar Man e Big Boss Man. Duas canções com letras fortes e de auto afirmação. O que mais atraiu Elvis em Guitar Man foi justamente seu arranjo country, gênero que Elvis havia cada vez mais se afastado em seus anos de Hollywood. Já Big Boss Man deixou a todos empolgados, tanto que ela seria rapidamente lançada ainda naquele mês, junto a You Don´t Know Me. Para se ter uma ideia de como estava complicado o mercado de singles de Elvis para a RCA seu lançamento anterior nada mais era do que uma reprise do disco Something For Everybody, de 1960. Infelizmente a pressa e a vontade de ganhar rapidamente em cima do nome de Elvis atrapalharam os primeiros singles dessa sessão. A falta de publicidade fez com que Big Boss Man chegasse apenas em uma desoladora 34ª posição. O pior aconteceu com Guitar Man, que não conseguiu emplacar entre os 40 mais.

Essa sessão de setembro porém não foi realizada apenas visando o mercado de singles. A velocidade com que as trilhas sonoras chegavam no mercado e a insuficiência de músicas para completar cronologicamente um álbum fez com que a RCA inventasse as chamadas Bonus Songs. Músicas sem relação com os filmes mas que serviam como forma de se evitar que as trilhas fossem curtas demais. Infelizmente essas músicas, algumas delas ótimas, se perderam no meio de trilhas francamente ruins e jamais tiveram seus méritos reconhecidos, atoladas que estavam em meio a material sem importância. Foi visando justamente a produção de Bonus Songs que Elvis dedicou parte de seu tempo nessas sessões de setembro: Mine, Singing Tree e Just Call Me Lonesome, três boas músicas gravadas por Elvis nessa ocasião, tiveram esse infeliz destino.

Como não poderia deixar de ser, empolgado que estava pelo êxito de seu álbum religioso How Great Thou Art, Elvis se dedicou também a gravar algumas canções gospel, entre elas a linda You´ll Never Walk Alone, que acabou sendo lançada em single no começo de 1968 com We Call On Him, outra música gravada nessa mesma sessão. A interpretação de Elvis nessa música realmente demonstrava que em posse de material de qualidade Elvis ainda era plenamente capaz de emocionar e ser relevante musicalmente de novo. You´ll Never Walk Alone seria inclusive o último single de relevância de Elvis a ser lançado até If I Can Dream no final de 1968, o compacto que traria Elvis de volta definitivamente à parada de singles da Billboard. Embora a sessão de setembro de 1967 não tenha trazido o sucesso comercial de volta à carreira de Elvis Presley, ela serviu para que o cantor fosse novamente citado nas revistas e jornais especializados de forma elogiosa, pois os singles ganharam várias críticas positivas em seus lançamentos, algo que definitivamente ele não recebia desde a primeira metade dos anos 60. Não resta a menor dúvida que a gravação dessas músicas mostrou ao cantor e a seu empresário que o caminho a seguir não mais passava pela gravação das maçantes trilhas mas sim pela busca de material de excelência artística. Gravando bom material Elvis iria naturalmente voltar ao sucesso, fato que se confirmaria plenamente no ano que nascia, 1968, o ano do Comeback na carreira do cantor.

Pablo Aluísio - Setembro de 2009.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Elvis Presley - How Great Thou Art (1967)

Em maio de 1966 Elvis finalmente entrou em estúdio para gravar material convencional, que não fizesse parte de seus filmes. O simples fato de lidar com material novo já era um alívio para os fãs que esperavam que Elvis retomasse sua carreira musical, longe um pouco das trilhas sonoras que vinha apresentando. O local de gravação escolhido foi o mesmo da grande maioria de seus álbuns de estúdio, o RCA Studios em Nashville. A grande novidade dessa sessão foi que Elvis voltaria a gravar material gospel, algo que não fazia desde 1960. Esse foi o primeiro grande trabalho do produtor Felton Jarvis ao lado de Elvis. Embora Elvis não tivesse se fixado a um único produtor ao longo dos anos 60 (eles mudavam constantemente de acordo com os interesses dos estúdios de cinema), Elvis e Felton logo iniciariam uma parceria de trabalho que iria cada vaz mais se fortalecer ao longo dos anos, principalmente nos anos 70, quando ele monopolizaria toda a produção dos discos do cantor naquela época.

How Great Thou Art foi importante na carreira de Elvis Presley por diversas razões: Foi o primeiro trabalho consistente do cantor em muitos anos; contou com uma produção extremamente inspirada e trouxe grande reconhecimento da crítica (algo que definitivamente faltava a Elvis naquele momento, pois ele vinha sendo constantemente criticado por suas trilhas sonoras de gosto duvidoso). Além disso o álbum finalmente consolidou seu prestigio como intérprete de música religiosa, algo que lhe trazia grande orgulho pessoal. Porém, de todos os méritos alcançados pelo disco o maior foi sem dúvida ter conquistado o prêmio Grammy de melhor Performance de Música Sacra de 1967. Embora tenha concorrido por várias vezes ao Grammy nos anos anteriores, Elvis jamais havia ganho o cobiçado "Oscar" da música americana. Agora ele finalmente havia sido merecidamente premiado e justamente pelo estilo musical do qual mais admirava. O repertório de How Great Thou Art é vasto e rico. O cantor fez uma excelente escolha da seleção musical, que é bem ampla e abrangente, procurando transitar por todas as vertentes da música religiosa americana. Com isso temos canções contemporâneas a Elvis naquele momento dividindo espaço no álbum com músicas clássicas e consagradas dentro do movimento evangélico americano. Para os admiradores do gênero realmente foi um Menu extremamente amplo e de bom gosto. Segue abaixo as principais referências do disco.

HOW GREAT THOU ART (Stuart K. Hine) - Escrita em 1886 pelo Reverendo Carl Boberg com o nome de "O Stored Gud". Em 1907 o Reverendo Stuart K. Hine escreveu a primeira versão em língua inglesa, esta por sua vez baseada na versão alemã da canção intitulada "Wie Gross Bist Du". A primeira gravação foi de George Beverly Shea em 1955, seguida da versão dos Blackwood Brothers em 1957. Elvis recebeu o prêmio Grammy na categoria "Melhor Performance Inspirativa" por sua interpretação desta música em 1974 no disco "Elvis As Recorded Live On Stage in Memphis" (1974). Sem dúvida um marco na carreira de Presley.

IN THE GARDEN (C.Austin Miles) - Música composta no início do século, mais exatamente em 1912. Em 1960 fez parte da trilha sonora do filme "Wild River" (rio selvagem, 1960). Entre os grandes nomes que a gravaram estão Mahalia Jackson e Jim Reeves.

SOMEBODY BIGGER THAN YOU AND I (Johnny Lange / Walter Heath - Joseph Burke) - Canção Spiritual bem ao gosto de Presley. O cantor e ator Gene Autry a gravou com grande sucesso para a trilha do filme "The Old West" (o velho oeste, 1951). Mahalia Jackson também fez sua versão, sendo ela aliás, uma das cantoras preferidas de Elvis. Finalmente o grupo "The Ink Spots" fez uma versão muito bem arranjada em 1951.

FARTHER ALONG (W.B.Stone) - Escrita em 1937. Foi gravada por Red Foley e Bill Monroe, autor de "Blue Moon of Kentucky". Certamente uma canção a qual Elvis deve ter tido contato ainda na infância, em Tupelo ou Memphis. Certamente uma das que mais tem ligação emocional com o cantor.

STAND BY ME (Charles B.Tindley) - Não é a famosa canção de Ben E.King que se tornou um grande sucesso nos anos 70 na voz de John Lennon e que foi tema do filme "Stand by Me (conta comigo) nos anos 80. Esta é na verdade, uma música composta em 1905 que foi gravada por Red Foley e pelo grupo The Harmonizing Four (o melhor grupo vocal da história, segundo Elvis). Era uma das preferidas de Elvis no período em que ele esteve servindo o exército na Alemanha.

WITHOUT HIM (Myron LeFreve) - Há controvérsia se o autor LeFreve a gravou em estúdio. Se isto ocorreu a gravação sumiu e não se tem a certeza absoluta da existência deste disco. Em 1956 Frankie Lane a gravou e alcançou um relativo sucesso na parada da revista Billboard na categoria "Gospel Music".

SO HIGH (Tradicional) - Foi gravada inicialmente por Rosetta Tharp. Em 1959 a cantora LaVern Backer a gravou com o título de "So High, So Low" e alcançou um grande sucesso. Elvis disse mais tarde em uma entrevista coletiva: "Não existe nada mais belo do que um grupo vocal em harmonia cantando Gospel". Esta canção é um exemplo do que ele se refere.

WHERE COULD I GO BUT THE LORD (James B. Coats) - Música por demais conhecida no mundo Gospel norte americano. Foi escrita inicialmente pela dupla de compositores K.E.Harris e J.M.Black em 1890. Em 1940 J.B.Coats escreveu uma versão bastante modificada. Foi gravada ainda por Red Foley em 1951 e por Faron Young em 1954. Elvis a utilizou ainda no NBC TV Special num medley com outras canções evangélicas.

BY AND BY (Charles B. Tindley) - Escrita em 1905. Lançada por Soul Stirrers e Bill Monroe. Elvis Presley já havia gravado um disco Gospel de grande sucesso em 1960 intitulado "His Hand in Mine". Em 1972 ele ainda lançaria mais um chamado "He Touched Me", este também grande sucesso e vencedor de mais um Grammy na categoria "melhor performance religiosa". Tamanha a simbiose entre Música Gospel e Elvis Presley que os três únicos prêmios Grammy da sua carreira foram conquistados através de seus trabalhos religiosos.

IF THE LORD WASN'T WALKING BY MY SIDE (Henry Slaughter) - O autor Henry era o pianista do grupo vocal The Imperials e escreveu esta canção em 1961. Elvis por essa época estava profundamente envolvido em questões religiosas, lendo e estudando muito sobre o assunto, tanto que resolveu construir um jardim em Graceland voltado para meditação e oração. O chamado "Jardim da meditação" hoje é o lugar de eterno repouso do cantor.

RUN ON (tradicional) - Música de outro grupo vocal, o "Golden Gate Quartet". Não é novidade para os que estudam sua biografia o fato de Elvis ter ambicionado desde muito jovem em fazer parte de um quarteto de música religiosa. Aliás esse sempre foi seu grande sonho na juventude. Embora nunca tenha realizado esse desejo Elvis nunca deixou de trabalhar ao lado de grupos vocais gospel, mesmo em seus anos mais roqueiros, como nos anos 50, onde usou um grupo vocal gospel, The Jordanaires, para lhe acompanhar até mesmo nos mais vibrantes rocks.

WHERE NO ONE STANDS ALONE (Mosie Lister) - Escrito sob encomenda para o grupo "Statemen Quartet" em 1955. O cantor Don Gibson também fez uma versão. Além dos três discos Gospel de Elvis (His Hand in Mine, How Great Thou Art e He Touched Me) iriam ser lançadas diversas coletâneas Gospel ao longo de sua carreira como "He Walks Beside Me" e "You'll Never Walk Alone". A reunião definitiva dos trabalhos sacros de Elvis iria se concretizar através da caixa de CDs lançadas nos anos 90 "Amazing Grace" reunindo todas as músicas Gospel de Elvis Presley em seus 21 anos de carreira.

CRYING IN THE CHAPEL (Artie Glenn) - Escrita por Artie Glenn em 1953 com apenas 16 anos de idade. Chegou ao primeiro lugar nas paradas R&B com o obscuro grupo Sonny Till and the Orioles. Em 1953 esta música explodiu nas paradas nas vozes de Rex Allen e June Valli. A versão de Elvis foi gravada em 1960. Se tornou um single de enorme sucesso em 1965. O sucesso foi tamanho que o single com "I believe in the man in the Sky" (canção do disco "His Hand In Mine") no lado B chegou ao primeiro lugar na parada britânica. Crying In The Chapel não fez parte dos trabalhos de How Great Thou Art mas devido a toda esta repercussão anterior a canção foi incluída no disco para ajudar em sua promoção.

Elvis Presley - How Great Thou Art (1967): Elvis Presley (vocal, piano e violão) / Scotty Moore (guitarra) / Chip Young (guitarra) / Bob Moore (baixo) / Henry Strzelecky (baixo) / Charlie McCoy (baixo e gaita) / D.J. Fontana (bateria) / Buddy Harman (bateria e timba) / Floyd Cramer (piano) / Henry Slaugter (piano) / David Briggs (orgão) / Pete Drake (steel guitar) / Boots Randolph (sax) / Rufus Long (sax) / Ray Stevens (piston) / The Jordanaires (vocais) / Millie Kirkham, June Page, Dolores Edgin & Sandy Posey (vocais) / The Imperials (vocais) / Produzido por Felton Jarvis / Arranjado por Felton Jarvis & Elvis Presley / Local de gravação: RCA Studios B, Nashville / Data de gravação: 25 a 28 de maio de 1966 / Lançado em fevereiro de 1967 / Melhor posição nas charts: #18 (EUA) e #11 (UK).

Pablo Aluísio - Maio de 2000 / revisado e atualizado em novembro de 2001 / Introdução: setembro de 2009.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Elvis Presley - Double Trouble (1967)

Deve ter sido frustrante, no mínimo, para Elvis gravar a trilha sonora de "Double Trouble". A maioria das músicas eram esquecíveis, e com certeza não acrescentariam nada para o cantor. Logo ele que há um mês estava em Nashville gravando o espetacular disco gospel "How Great Thou Art", além de várias outras músicas incríveis como "Tomorrow is a Long Time", "Down in the Alley" e "I´ll Remember You". Elvis se atrasou para a sessão de gravação e como resultado a MGM mudou o endereço das gravações para o seu próprio estúdio, que era simplesmente horrível. A essa altura ninguém ligava mais para a qualidade de nada e o porquê de Elvis se submeter a essa humilhação, tendo que gravar para a trilha péssimas canções como "Old Mac Donald", é um dos grandes mistérios de sua carreira!

Uma das poucas coisas boas dessa sessão foi que Elvis teve a chance de conhecer pessoalmente seu ídolo Jackie Wilson, que estava pelas redondezas. Uma curiosidade é que Elvis, em 1975, ajudou financeiramente Jackie quando ele sofreu um ataque cardíaco. O filme "Double Trouble" (Canções e Confusões, no Brasil) não é tão ruim e teve a vantagem de teoricamente ser ambientado na Europa, mudando o ambiente. Teoricamente, pois foi todo filmado nos EUA. Possui alguns personagens interessantes como os dois ladrões, bem engraçados, uma trama previsível, mas bem legal e uma intrigante atriz como a principal. Annete Day fez sua estreia no cinema com Elvis nesse filme e aparentemente não gostou, pois esse foi seu único. Ela tinha apenas 18 anos quando contracenou com Elvis e os dois tiveram uma boa química, mais cômica do que romântica. O clima sombrio do filme envolvendo tentativas de assassinato de Guy Lambert (nome do personagem de Elvis) parece que previa o naufrágio nas bilheterias, sendo que este filme foi um dos cinco que menos renderam na carreira de Elvis. A trilha sonora foi a primeira a nem conseguir entrar para o top 40 americano conseguindo a lastimável 47ª posição. Na Inglaterra foi um pouco melhor sendo 34º lugar.

DOUBLE TROUBLE (D. Pomus / M. Shuman) - Doc Pomus e Mort Shuman foram responsáveis por grande parte do melhor material gravado por Elvis de 1960 a 1963, porém, sua última contribuição (Elvis ainda viria em 69 a gravar a belíssima "You´ll Think of Me" de Mort Shuman) não é lá essas coisas e seguia a mediocridade de músicas recentemente escritas por eles como: "What Every Woman Lives For" e "Never Say Yes". Não que "Double Trouble" seja ruim, mas comparada com músicas como "Little Sister" e "Viva Las Vegas", também escritas pela dupla, mostram claramente que Pomus e Shuman não estavam exatamente inspirados. Mas Elvis e a banda estão ok. A letra é bobinha e a música muito curta. Destaque para a escandalosa introdução da orquestra, fato raro em músicas de Elvis à época.

BABY IF YOU GIVE ALL OF YOUR LOVE (Joy Byers) - Mais uma excelente contribuição de Joy Byers para a discografia de Elvis. Essa música super animada é uma das melhores das últimas trilhas sonoras e junto com "City by Night", a melhor do filme. Merecia um lançamento em single, talvez como lado B de "Long Legged Girl". Foi bastante subestimada pela gravadora.

COULD I FALL IN LOVE (Randy Starr) - Os filmes de Elvis sempre possuíam boas baladas e esse aqui não é exceção. Pena que o arranjo dessa não seja tão bom quanto de "Am I Ready?" por exemplo, o que tirou seu potencial de single. Interessante é a cena em que Elvis a canta para Annete Day, onde o acompanhamento da música é oriundo de um pequeno single que Elvis bota para tocar. Na capa a foto de Guy Lambert! (o personagem interpretado por Elvis).

LONG LEGGED GIRL (J.L. Mc Farland / W. Scotty) - Outro grande rock da trilha que sofre do mal de ser muito curto. Essa música agitada, com uma guitarra estridente, foi lançada como single alcançando a péssima 63ª posição nos EUA. Nunca um lado A de Elvis havia entrado nas paradas e conseguido como posição máxima, colocação tão baixa. E dessa vez a culpa não era da música, que era boa, e sim porque o público já não estava mais prestando atenção nos lançamentos de Elvis Presley por essa época! Curiosidade: Foi a música mais curta de Elvis a entrar no Hot 100, com apenas 1 minuto e vinte e sete segundos de duração.

CITY BY NIGHT (Giant / Baum / Kaye) - Definitivamente uma das melhores músicas de Elvis nas trilhas da década 60, essa canção foi o mais próximo que Elvis chegou de cantar um jazz em sua carreira. Com um trompete sinistro, a banda afiadíssima e a voz de Elvis em perfeitas condições, com um "yeah" no final que lembra "Trouble", essa verdadeira pérola não recebeu a menor atenção em sua época de lançamento. Talvez seu próprio estilo, diferente de tudo que Elvis havia gravado, tenha desagradado aos fãs mais tradicionalistas do cantor. Além disso, o disco "Double Trouble" foi um dos maiores fracassos da carreira de Elvis. Lançado em 1967, ano em que Elvis amargou o seu pior ano de apatia com o público, com a carreira praticamente arruinada por seus filmes em Hollywood. Em um cenário tão desolador, que chance de atenção essa preciosidade poderia ter tido?

OLD MAC DONALD (Randy Starr) - Você está escutando esse disco e pensa: "É, não é tão ruim quanto dizem". Porém seu pensamento é diluído com os primeiros acordes de simplesmente o pior momento de Elvis no cinema: o Rei do Rock cantando "Old Mac Donald"!!! A cena do filme é pior ainda, com Elvis na traseira de um caminhão cheio de animais (isso mesmo!), cantando a mais degradante de todas as suas canções. Como é que alguém se atreveu a por essa música no filme, e o pior, como Elvis aceitou cantá-la? A trilha e o filme até que não são ruins, mas tudo vai por água abaixo com essa música. Quem, em sua sã consciência, em pleno verão do amor de 67, iria pagar para ver Elvis se humilhando cantando porcarias? Entendam, a música em si, cantada para crianças é excelente. Mas botá-la num filme de Elvis foi a pior das ideias!

I LOVE ONLY ONE GIRL (S. Tepper / R.C. Bennett) - Adorava essa música quando tinha 10 anos, mas agora ela me parece bem bobinha, algo tirado de uma peça teatral para crianças. E o ritmo dela é uma marchinha! Que horror! A cena do filme com essa música, conta com um absolutamente desnecessário número de dança de uma garotinha. Detalhe: em 1972 algum gênio da RCA teve a brilhante ideia de botar no mesmo disco em que a fenomenal e clássica Burning Love foi lançada, vários besteiróis dos filmes. Adivinhem qual música estava presente também? Vou dar uma dica: uma marchinha bobinha de "Double Trouble". Ai... ai... se pudesse matar o Coronel Parker e os dirigentes da RCA...

THERE´S TOO MUCH WORLD TO SEE - Depois de duas músicas horrorosas, qualquer coisa de nível regular é um alívio. É o caso dessa música, da qual 2 minutos depois que você escutar não vai mais se lembrar dela. É a típica música que só Elvis consegue tornar audível. Pelo menos tem uma letrinha interessante, apesar do ritmo esquecível e se você for o tipo do cara aventureiro e que quer sua liberdade, ficando longe de qualquer relacionamento sério, vai se identificar com essa aqui.

IT WON'T BE LONG - Para encerrar a parte da trilha de "Double Trouble" temos essa música, que se não chega a ser excepcional, mantém a dignidade, com um ritmo bom e bem executado. Solando em toda a canção temos a preciosa participação do guitarrista Tiny Timbrell. É bem acima da média do restante do material do filme, porém não é nada demais, apenas correta no final das contas.

NEVER ENDING (Buddy Kaye / Phil Springer) - Nesse disco originalmente foram lançadas três músicas bônus, todas gravadas em 1963 e essa é a primeira delas. "Never Ending" é uma bonita balada, com um ritmo acima da média, contando com o ótimo trabalho da banda de Elvis em Nashville. A voz de Elvis parece diferente, lembrando algo como "I love you Because". Se não soubesse diria que essa música era de 54, ou então 55. Foi lançada em um single como lado B de "Such a Night" (gravada em 60 e cujo single tinha uma foto de Elvis em 56 na capa!) em 1964 e não conseguiu entrar nas paradas. Ganhou um pouco de destaque em um disco no Brasil lançado em 89: Good Rocking Tonight- The Best of Elvis vol 2.

BLUE RIVER (Paul Evans / Fred Tapias) - Em 1965, enquanto os Beatles dominavam a cena musical, os produtores de Elvis quebravam a cabeça para encontrar alguma música para lançar como single de fim de ano, visto que fazia quase dois anos que Elvis não gravava nada além de trilhas sonoras. Cavucando, encontraram uma gravação de 1957, "Tell Me Why", que foi lançada alcançando a mera 33º posição. Para o lado B do single lançaram uma música gravada em 1963, um roquinho bastante curto com conteúdo que lembrava ligeiramente "Heartbreak Hotel", mas que nem chegava ao dedão do pé desse grande clássico. A música era "Blue River" e alcançou a péssima 95º posição, quase nem entrando no Hot 100, merecidamente, pois não é lá essas coisas. Legalzinha, no máximo. Essa música foi lançada em fevereiro de 1966 na Inglaterra como lado A, tendo como lado B uma música gravada para a trilha de "Girl Happy" (!): "Do Not Disturb". Oh bagunça que eram os singles de Elvis dessa época! Os fãs ingleses apreciaram mais a música, que chegou ao 22º lugar nas paradas.

WHAT NOW, WHAT NEXT, WHERE TO (Don Robertson / Hal Blair) - O disco encerra com essa composição bem fraquinha de Don Robertson, que escreveu com certeza material muito melhor como "Love Me Tonight", gravado na mesma sessão dessa música. Com um ritmo arrastado e um letra esquecível não acrescenta nada ao disco. Curiosidade: Foi gravada em uma única tentativa.

Elvis Presley - Double Trouble (1967): Elvis Presley (vocal) / Scotty Moore (guitarra) / Tiny Timbrell (guitarra) / Bob Moore (baixo) / D.J. Fontana (bateria) / Buddy Harmon (bateria) / Floyd Cramer (piano) / Pete Drake (Steel Guitar) / Charlie McCoy (Harmonica) / Boots Randolph (sax) / Richard Noel (Trombone) / The Jordanaires (Gordon Stoker, Hoyt Hawkins, Neal Matthews e Ray Walker) / City By Night: Michael Deasy (guitarra) / Jerry Scheff (baixo) / Toxey French (bateria) / Michael Anderson (Sax) / Butch Parker (sax) / Gravado no Radio Recorders, Hollywood, California exceto "Never Ending", "What Now, What Next, Where To" e "Blue River" gravadas no RCA Studio B, Nashville / Data de gravação: 28 e 29 de junho de 1966, exceto "City By Night" gravada em 14 de julho de 1966 e "Never Ending", "What Now, What Next, Where To" e "Blue River" gravadas em maio de 1963 / Produzido e arranjado por Felton Jarvis e Jeff Alexander / Data de lançamento: junho de 1967 / Melhor posição nas charts: #47 (USA) e #34 (UK).

Pablo Aluísio e Victor Alves - março de 2005.

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Elvis Presley - Elvis e a Era de Aquarius!

Nos anos 60 durante as filmagens de mais um novo filme do Rei do Rock, cabeleireiro do estúdio não pôde comparecer para cuidar do cabelo do Elvis. Foi então que um substituto foi enviado. Seu nome era Larry Geller, hippie, nova-iorquino e judeu, uma combinação bem estranha sem dúvida, mas que era o típico espiritualista em moda naquela época. Uma pessoa versada em quase todas as religiões conhecidas, desde budismo, hinduísmo, xintoísmo e outras várias, que só ingeria comida natural e praticava yoga e outros tipos de vertentes das religiões orientais.

Ao cuidar do cabelo de Elvis, Larry percebeu que enquanto ele estava sentado na cadeira esperando o serviço ficar pronto, ficava lendo o livro "Autobiografia de um Yogue". Logo Larry puxou papo com Elvis e lhe disse que gostava muito do assunto, de religiões esotéricas, da nova era de aquário, da busca espiritual, telepatia, de ocultismo, etc. No começo Elvis pensou que ele seria apenas mais um bajulador como tantos outros que ele encontrava pelos estúdios, mas quando Larry começou a expor seus conhecimentos, Elvis ficou completamente impressionado!

Começou a surgir daí uma amizade muito especial para Elvis, pois finalmente ele havia encontrado alguém com quem discutir esses assuntos de que tanto admirava e estudava. Larry mostrou a Elvis que havia muitos outros grandes mestres além de Jesus Cristo e começou a trazer a Elvis livros sobre Buda, Confúcio, Maomé, etc. E Elvis absorveu toda a literatura disponível, sempre seguindo os conselhos de Larry nesse campo. Elvis perguntou a Larry porque tinha sido tão abençoado por Deus em sua vida, e porque mesmo tendo tudo não conseguia atingir a felicidade! Ele queria entender seu propósito nessa vida, qual era o plano de Deus para ele, qual seria a sua missão! E desabafou que se sentia frustrado pois até sua tão gloriosa carreira de outrora agora perdia o brilho e tudo estava resumido em se fazer 3 filmes por ano com trilhas sonoras estúpidas.

Ele disse a Larry que mesmo rodeado de muitas pessoas, se sentia na verdade extremamente solitário em sua vida. Larry acabou virando uma espécie de analista na vida de Elvis, um ombro amigo em que ele podia desabafar sempre que quisesse. E Elvis, para a ciumeira geral de seu grupo, começou a chamar Larry de "meu Guru" e "meu Mestre". A primeira consequência disso foi o gradual afastamento de Elvis das amizades anteriores, como os caras da Máfia de Memphis. Elvis sempre estava ao lado de Larry discutindo os grandes temas universais e como os demais membros da máfia não entendiam do assunto e nem tinham cultura para tanto, acabaram ficando de lado na vida de Elvis. Com Priscilla também não foi diferente. Elvis incentivou ela a também estudar todos esses assuntos, mas isso não a interessava. E assim Priscilla também começou a sentir ciúmes de Elvis, pois mesmo quando ele estava em casa, ficava distante e ausente, lendo e devorando o material recomendado por Larry.

Nesse ponto a religião se tornara o ponto focal de sua vida - para Elvis nada mais tinha importância, nem seus amigos, nem seus filmes e discos e muito menos sua namorada Priscilla. O Coronel Tom Parker começou a ficar preocupado de verdade. Chegou a perguntar a Joe Esposito: "Joe, o que está acontecendo com o menino? Parece distante e desinteressado!". Joe Esposito prometeu ao Coronel que iria ficar de longe, observando essa amizade de Elvis e Larry. Então na manhã em que Elvis iria começar as filmagens de seu novo filme, chamado Clambake (O Barco do Amor, no Brasil), ele acordou meio sonolento e não viu o fio da TV no chão. Ao caminhar para o banheiro Elvis tropeçou no fio e caiu de forma violenta, batendo a cabeça fortemente. Ao recobrar a consciência Elvis percebeu que se machucara pra valer na cabeça. "Mas que merda! Quem colocou esse fio aqui!?". Priscilla, assustada, chamou Joe Esposito imediatamente ao quarto.

Em poucos minutos o recinto estava cheio de gente: médicos, produtores, Larry, os caras da máfia de Memphis e o Coronel. O doutor declarou que Elvis tinha uma forte concussão na cabeça e que deveria ficar em repouso nas semanas seguintes, pois seria necessário a realização de mais exames, para se certificar de que nada mais grave tivesse lhe ocorrido. O começo das filmagens estava adiado por tempo indeterminado. O Coronel ficou furioso com o acontecimento. Para ele tudo era culpa dos livros espiritualistas. Elvis estava com a cabeça nas nuvens, não se importava com mais nada e nem com ninguém. Tinha se tornado uma pessoa distante e desligada do mundo. Foi então que ele resolveu reunir Elvis, Larry e todos os caras da máfia de Memphis. Para o Coronel o momento era de colocar as coisas em ordem novamente.

Tom Parker não deixou por menos: "Elvis, Larry está mexendo com a sua cabeça, eu tenho certeza que ele está tentando fazer uma lavagem cerebral em você! Eu posso garantir isso! Você deve se afastar dele e dessa literatura barata. Não deve mais perder tempo com essas coisas. Você tem uma carreira para cuidar! Deve se concentrar em atuar e cantar bem e nada mais. Você não é pago para salvar o mundo, mas sim para entreter as pessoas! Deve honrar seus compromissos e cumprir seus contratos, nada mais. Você é um artista e não um guru! Você deveria queimar todos esses livros de uma vez! E vocês - disse apontando o dedo para os caras da máfia de Memphis - devem deixar Elvis em paz, ele é um artista e não um ombro amigo para trazer problemas. Cuidar de uma pessoa já é difícil, imagine onze! Isso faz qualquer homem vergar, meu Deus! Isso acaba agora, me entenderam?! Vocês devem deixar Elvis em paz, qualquer problema de agora em diante deve ser levado ao conhecimento de Joe Esposito!" - Esse último recado foi dirigido face a face a todos os membros da máfia de Memphis e a Larry Geller em especial.

Foi uma bronca daquelas, com o Coronel gritando com todos a plenos pulmões! Elvis ouviu tudo calado, com a cabeça abaixada e não contestou as incisivas palavras do Coronel e nem saiu em defesa de Larry. Em um ponto Priscilla e toda a turma da máfia de Memphis concordavam com a visão do Coronel Tom Parker: todos queriam que Elvis mandasse Larry embora de Graceland e tocasse fogo em seus livros espiritualistas. A pressão foi tamanha que numa noite Elvis, ao lado de Priscilla, resolveu fazer uma grande fogueira nos fundos de Graceland para queimar toda a sua coleção de livros. Elvis apenas ficou lá, abalado e não muito certo de sua decisão, olhando todos os seus queridos livros virarem cinzas. Chegou a murmurar: "Não se deve queimar livros!".

Ele sentiu muito, mas achou que aquele era o momento certo para fazer aquilo. Pelo menos por enquanto tudo estava resolvido, enfim. Porém, conforme o tempo foi passando, Elvis foi, aos poucos, voltando aos temas espirituais. Esse assunto sempre lhe fascinara e apesar de tudo ainda lhe despertava muita atenção. De fato isso não seria o fim da amizade entre Larry e Elvis, pois esse ainda iria voltar na vida do Rei nos anos 70. Tanto que nos anos seguintes Elvis voltaria a comprar quase todos os livros que ele havia jogado na fogueira naquela noite. Definitivamente Elvis tinha sido fisgado de uma vez por todas pela chamada "Era de Aquarius".

Pablo Aluísio.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

O Barco do Amor

Scott Heyward (Elvis Presley) é um rico herdeiro que desiludido porque as mulheres só se aproximam dele por interesse resolve trocar de identidade com o duro Tom Wilson (Will Hutchins) que esbanja com o dinheiro do colega enquanto esse tenta conquistar o amor de Diane Carter (Shelley Fabares). Clambake é muito divertido. Seguindo a fórmula dos filmes de Elvis Presley dos anos 60 o filme consegue prender atenção não só pelas músicas mas também por um enredo muito bem bolado e simpático. A troca de identidades entre o garoto rico (Presley) e o instrutor pobretão de esqui de um hotel de luxo na Flórida (Hutchins) rende boas piadas e situações engraçadas, principalmente por causa do elenco de apoio, todo bom. Shelley Fabares, o par romântico de Elvis, era uma gracinha, uma simpatia só, que deu tão certo com ele que estrelou mais dois filmes ao seu lado. Já o rival de Elvis pela mão da mocinha foi interpretado pelo bom Bill Bixby que iria se consagrar nos anos 70 interpretando Bruce Banner no famoso seriado de TV Hulk.

Como sempre Elvis vai apresentando as músicas da trilha ao longo do filme. Aqui duas se destacam: "You Don´t Know Me" (que de tão boa foi regravada por Elvis depois porque ele não tinha gostado muito de sua versão para esse filme) e "House That Has Everything" (que mostra muito bem porque Elvis Presley era o maior cantor de sua época). No mais muitas paisagens bonitas (esse foi o segundo filme de Elvis rodado na Flórida) e um boa corrida de lanchas potentes como pano de fundo. "Clambake" pode não ser dos mais lembrados filmes feitos pelo cantor mas como disse é um dos mais divertidos.

O Barco do Amor (Clambake, EUA, 1967) Direção de Arthur H Nadel / Roteiro de Arthur Brownie Jr / Elenco: Elvis Presley, Bill Bixby, Will Hutchins, Shelley Fabares / Sinopse: Scott Heyward (Elvis Presley) é um rico herdeiro que desiludido porque as mulheres só se aproximam dele por interesse resolve trocar de identidade com o duro Tom Wilson (Will Hutchins) que esbanja com o dinheiro do colega enquanto esse tenta conquistar o amor de Diane Carter (Shelley Fabares).

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Elvis Presley - Clambake (1967)

Escrever sobre Clambake nem sempre é algo prazeroso. O filme hoje é símbolo de uma das fases mais problemáticas e menos inspiradas da carreira de Elvis Presley. Era a exaustão de uma fórmula que já tinha esgotado completamente a carreira do Rei do Rock. Em 1967 Elvis estava inteiramente absorvido nos estudos de filosofias orientais esotéricas, espiritualistas, tinha seus interesses pessoais em primeiro plano e estava se dedicando a melhorar sua vida interior. Para isso ele ficava horas e horas devorando livros e livros sobre o tema. Ficava dias e dias ao lado de seu guru pessoal tentando decifrar os grandes mistérios do universo em conversas sem fim e altamente enigmáticas. Fora disso não havia mais nada que despertasse seu interesse, sua atenção. Elvis vivia em um eterno torpor messiânico e religioso, indiferente a tudo e a todos. Na sua visão pessoal não havia nada mais importante do que crescer como um ser espiritual elevado. Nem seus amigos e sua namorada Priscilla escaparam de sua indiferença.

Tudo muito interessante e curioso, mas que tinha um outro lado altamente nocivo. A despeito de todo essa busca espiritual Elvis simplesmente negligenciou sua carreira musical, seu talento único foi colocado de lado e esquecido. Sua vida girava em torno de muitos questionamentos, nenhum deles musical. Infelizmente nada disso a que tanto se dedicava de corpo e alma tinha a ver com música! Elvis parecia estar indiferente a tudo que não se referisse a assuntos espiritualistas. Absorvido completamente numa nova mania e paixão, deslumbrado pela filosofia da nova era, Elvis não se interessava mais pelo seu talento musical e artístico, pela sua carreira, pela qualidade decrescente de seus últimos discos, pelas críticas constantes sobre seus filmes mais recentes e suas trilhas sonoras consideradas estúpidas, pela debandada de fãs decepcionados com os rumos de sua carreira.

O grande inovador e revolucionário estava totalmente estagnado. Teria o grande astro de outrora sido apenas um mero modismo? Será que todos os que o criticaram no começo de sua carreira estavam certos e Elvis iria sumir do mapa tão rapidamente como apareceu? A estrela se apagara para sempre? O Coronel estava preocupado. Será que tudo o que ele tinha nas mãos era uma lenda viva ultrapassada? Elvis estava acabado de uma vez? Era esse o quadro vivido pelas organizações Presley em 1967. Elvis não era mais considerado relevante do ponto de vista artístico, seus discos desabavam nas paradas e o pior, ele nem era mais ouvido pelos jovens, pois eles estavam muito mais interessados nos novos sons que vinham do outro lado do Atlântico, da chamada invasão britânica. O pior já começava a acontecer em 1967. Se antes todos criticavam Elvis e suas escolhas no cinema, agora ele começava a ser ignorado pelas revistas especializadas. Criticar mais uma vez Elvis por seu último filme? Até os jornalistas pareciam cansados disso.

Certamente um filme tão sem consistência como Clambake não iria reverter um quadro tão medonho. Era apenas o agravamento de uma situação que já se revelava extremamente desesperadora para os fãs mais fieis, aqueles que ainda acreditavam em uma reviravolta na vida artística do ídolo. Mas como sempre gosto de afirmar, tudo na vida possui o seu valor e Clambake também tem sua importância na carreira de Elvis. Clambake é o fundo do poço, o ponto do qual Elvis não ultrapassaria, onde não desceria mais, depois dele e de outros filmes que viriam, grandes fracassos de bilheteria, ficou claro até mesmo para Elvis que ele tinha que mudar, pois caso contrário seria simplesmente o fim de sua carreira. O cantor mesmo sabia que sua carreira no cinema estava em um impasse e que o velho sonho de se tornar ator em Hollywood não vingara. Depois de tudo isso o cenário estaria pronto para seu renascimento em 1968 no Comeback Special. Mas antes da glória, que só iria acontecer no ano que viria, vamos agora analisar, faixa a faixa, as canções que fizeram parte da trilha sonora de Clambake (O Barco do Amor, no Brasil) Obs: Não incluídas as Bonus Songs.

Clambake (Weisman / Wayne) - Essa canção quebra, de certa forma, uma tradição em trilhas sonoras de Elvis nos anos 1960. Mesmo nos mais mortificantes filmes, as canções títulos costumavam manter um certo nível de qualidade perante o material restante apresentado. Mas “Clambake” é nitidamente abaixo da média, um tanto quanto mal executada, com Elvis até mesmo displicente nos vocais (coisa rara de se ouvir!). O resultado final se mostra confuso, pouco inspirado. Porém temos que reconhecer que mesmo que Elvis se esforçasse, acho que a própria composição não o ajudaria, tendo um refrão muito deslocado em termos de estrutura rítmica. Alguns casos são realmente perdidos. Talvez a pior canção tema dos filmes de Elvis (lado a lado com Paradise, Hawaiian Style e Charro).

Who Needs Money? (Randy Starr) - Uma das maiores ironias da trilha sonora, pois o que mais Elvis precisava nessa época era de Money! Quem precisa de dinheiro? Ora Elvis, você mesmo! Quebrado financeiramente pelos altos custos do rancho Circle G, Elvis foi obrigado a aceitar o que estava à disposição. Ao se deparar com as enormes contas e custas chegando do último capricho de Elvis, seu pai, Vernon, ligou imediatamente ao Coronel Tom Parker para que ele arranjasse logo um trabalho para Elvis em Hollywood, caso contrário ele levaria suas próprias finanças à falência. Parker sondou os estúdios e um roteiro foi escrito às pressas para Elvis. Quando o Rei do Rock leu o conteúdo do que lhe estava sendo oferecido desabafou com Priscilla afirmando que tinha odiado tudo e que Clambake seria mais um filme nojento, ruim, cheio de “biquínis e músicas estúpidas”. Para quem estava totalmente absorvido em assuntos esotéricos como Elvis na época, deve ter sido horrível lidar com toda a superficialidade do material do filme. Mas, devendo até a alma aos bancos, o astro teve que esquecer suas próprias convicções pessoais e encarar as filmagens (Ele inclusive já tinha até mesmo colocado Graceland como garantia de alguns empréstimos pessoais feitos nesse período!). Dueto com o ator Will Hutchins, o que definitivamente não quer dizer grande coisa, pois ele até tinha uma bonita voz, mas não sabia cantar, o que convenhamos, fica constrangedor numa trilha sonora.

A House That Everything (Tepper / Bennet)- Boa balada, que se não se sobressai dentro da carreira de Elvis, pelo menos tem uma certa dignidade, sendo agradável no final das contas. Particularmente gosto de muitas canções escritas por essa dupla de compositores. Claro que algumas tolices foram escritas por eles, mas o foram em número reduzido. “A House That Everything” é a primeira canção da trilha que desperta nossa atenção. Aqui Elvis utiliza uma vocalização bem típica da primeira metade dos anos 60, calma, suave e relaxante. Praticamente todas suas baladas pré 64 apresentam essa característica (vide a linda “There’s Always Me” do disco “Something For Everybody” de 1961, símbolo do estilo que estou citando). Como faz parte dessa trilha sonora, uma das menos conhecidas da carreira de Elvis, foi totalmente esquecida e ofuscada. Merece uma segunda audição.

Confidence (Tepper / Bennet) - Nem com muita boa vontade se consegue gostar dessa música. É uma das piores coisas já cantadas por Elvis Presley em toda a sua carreira. Boba e maçante ao extremo, mais parece uma música de desenho animado infantil dos anos 40. Elvis, como sempre, cumpre o martírio e tenta se mostrar profissional até o final da canção, mas vamos ser sinceros, esse é um dos pontos mais baixos da carreira do cantor. Merecidamente esquecida por todos ao longo dos anos. Sem querer ser sarcástico, ela me lembra muito certas músicas do famoso palhaço televisivo Bozo. Como Elvis não era o Bozo, devia ter passado sem essa. Não disse que Tepper e Bennet também fizeram sua cota de tolices? Pois é...

Hey, Hey, Hey (Joy Byres) - Aqui Byers (na verdade um pseudônimo) me decepcionou. Para quem escreveu C’Moon Everybody fica um gostinho de decepção no ar quando a faixa começa a entrar em nossos ouvidos. Assumidamente descartável a música em nenhum momento se impõe ou chega a nos empolgar. Outra canção sem letra, sem ritmo, sem desenvolvimento rítmico. Se não bastasse ainda conta com uma péssima vocalização de apoio, diga-se de passagem. A cena do filme também é outra bobagem, com Elvis levando todas aquelas garotas anônimas para passar um tipo de "cola especial" em seu barco de corrida. Hey, esqueçam essa também...

You Don’t Know Me (Arnold / Walker) - Agora sim. Depois dos inúmeros enlatados surge finalmente uma canção com alma e coração. Elvis deve ter respirado aliviado ao se deparar com ela no estúdio de gravação. Finalmente uma melodia para se dedicar, que valia a pena. Gravada duas vezes por ele, em momentos distintos de sua carreira, já que acabou não gostando dessa versão da trilha sonora. Lançada também como single nesse mesmo ano, não teve maior repercussão, pois foi lado B de Big Boss Man. Ë uma canção injustiçada que merecia melhor sorte. Talvez tenha sido negligenciada pela simples razão de ser uma regravação de um grande sucesso de Eddy Arnold. A versão de Elvis não foi a primeira a surgir e por essa razão não foi acreditada como um provável sucesso pelos produtores do cantor na época. Uma decisão equivocada, sem sombra de dúvida, pois ela tinha potencial. Poderia ter caído facilmente no gosto do público. A música já era bem conhecida, um clássico cantado pelo antes outrora famoso cantor Arnold, que apesar de aparecer como compositor não a escreveu realmente. Uma coisa parecida com o que aconteceu com várias canções do próprio Elvis nos anos 50, onde ele aparecia como um dos coautores, sem ter participado das criações das músicas. Infelizmente não foi divulgada e acabou totalmente desperdiçada, uma pena.

The Girl I Never Loved (Randy Starr) - Outra canção que, pegando o embalo de You Don’t Know Me, traz melodia e vocalização acima da média do restante da trilha sonora. Bem arranjado e produzida, a canção é um dos pontos altos do disco. O grupo vocal está muito bem posicionado e o arranjo é extremamente feliz, lembrando inclusive algumas músicas dos filmes havaianos de Elvis. Aliás é bom salientar que o arranjo é praticamente idêntico ao da canção A House That Everything, essa também um bom momento do disco. Outra pérola perdida no meio do oceano de canções sem expressão que assolavam a carreira de Elvis na segunda metade dos anos 60. Outra que merece ser redescoberta.

How Can You Lose What You Never Had (Weisman / Wayne) - Encerrando a trilha Elvis apresenta esse dublê de blues, que se não é uma maravilha, pelo menos nos proporciona uma oportunidade de ouvir Elvis se reencontrando com esse estilo musical que é um dos mais importantes dos Estados Unidos. É bom deixar claro que não estamos nos referindo a um clássico, a uma obra prima genial, nada disso, mas sim a uma canção que serve de alivio numa trilha sonora bem abaixo da média dos demais trabalhos de Elvis pós 65 no cinema (que por si só já não eram grande coisa!). É um aperitivo do que Elvis iria fazer com material de qualidade no ano que viria. Um trailer de muitos de seus compactos relevantes que iriam em breve surgir nas lojas dos EUA. Uma leve brisa de renascimento na obra de Elvis Presley.

Elvis Presley - Clambake (1967): Elvis Presley (vocal) / Scotty Moore (guitarra) / Chip Young (guitarra) / Charlie McCoy (harmonica) / Bob Moore (baixo) / Buddy Harman (bateria) / D.J. Fontana (bateria) / Floyd Cramer (piano) / Hoyt Hawkins (piano) Pete Drake (Steel Guitar) / Norm Ray (sax) / The Jordanaires: Gordon Stoker, Hoyt Hawkins, Neal Matthews e Ray Walker (vocais) / Millie Kirkham (vocal) / Gravado no RCA Studio B, Nashville, TN / Data da gravação: 21 a 23 de fevereiro de 1967 / Direção Musical: Jeff Alexander / Produzido por Felton Jarvis / Engenheiro de Som: Jim Malloy. / Lançado em Outubro de 1967 / Melhor posição nas charts: # 40 (EUA) e # 39 (UK).

Pablo Aluísio - Março de 2006.

domingo, 22 de fevereiro de 2009

Elvis Presley - Easy Come, Easy Go (1967)

Easy Come, Easy Go foi o último filme de Elvis pela Paramount Pictures. Contando com a equipe de sempre Elvis deu adeus ao estúdio que mais sucessos lhe trouxe nos anos 60. Blue Hawaii, o pico comercial de sua passagem pelo cinema e G.I. Blues, seu primeiro filme após deixar o exército e outro grande sucesso comercial, também foram rodados lá. Esse filme inclusive contava com a mesma produção desses sucessos do passado recente de Elvs, sob o comando de Hall Wallis.

Infelizmente as semelhanças param por aí. Easy Come, Easy Go é uma produção modesta, sem grandes pretensões, lançada num momento de baixa na carreira de Elvis. A trilha sonora, gravada nos próprios estúdios da Paramount, contou com a direção do maestro Joseph Lilley. Apenas seis canções foram gravadas para serem lançadas num EP nos EUA. EP é a sigla para Extended Play, conhecido no Brasil como Compacto Duplo, onde eram lançadas de quatro a seis canções. Nos EUA o EP contou com as seis músicas do filme, na Inglaterra porém o EP inglês contava apenas com quatro das faixas da trilha (as duas outras, The Love Machine e You Gotta Stop, saíram em single). No Brasil o compacto duplo não foi lançado.

O resultado comercial de Easy Come, Easy Go foi um desastre. O EP não conseguiu classificação nem entre os mais vendidos da Top 100 (parada mais importante dos EUA onde eram listados os cem discos mais vendidos da semana). Foi a primeira vez que uma trilha sonora de Elvis Presley não conseguia sequer aparecer nessa lista, o que demonstra claramente que todo o trabalho musical do filme foi simplesmente ignorado pelo grande público, sendo consumido apenas por um pequeno grupo de fãs de Elvis e nada mais.

O filme não foi melhor nas bilheterias. O enredo, batido e sem grandes atrativos, não fugiu da rotina tediosa das comédias musicais românticas de Elvis no período. O roteiro conta a história de Ted Jackson, membro da marinha, que em uma de suas últimas expedições ao mar encontra um tesouro naufragado. Já civil, semanas depois, Ted se junta com seu amigo de banda e um jovem e vão à procura do tesouro. Se a história já parece ser sofrível, você não viu nada, só assistindo o filme para ver como a qualidade deixou a desejar. Os vilões são desinteressantes e caricatos e as tomadas filmadas embaixo d´água, que poderiam contar em favor do filme, não empolgam e são superficiais.

O filme possui alguns indícios da psicodelia da época como na cena em que algumas garotas fazem o estilo hippie, tão em moda na ocasião. Além disso existem referências à prática da yoga e outra vertentes alternativas do final dos anos 60 mas tudo feito de forma superficial visando acentuar um tom mais humorístico do filme. A trilha passa longe do psicodelismo que começava a se destacar na música mundial da época. Não existem grandes destaques nela. Apenas You Gotta Stop chama um pouco atenção, idem para a animada harmonia da música título, embora as letras não sejam nada inspiradas. A trilha sonora ainda conta com The Love Machine (curiosamente a música mais vendida de Elvis Presley na Índia!) e Yoga Is Yoga Does (que sempre está presente em qualquer lista que traga as piores canções da carreira de Elvis). Enfim nada muito memorável ou marcante, apenas na média do que Elvis vinha produzindo em sua carreira do cinema. Como ponto positivo é bom lembrar que em breve Elvis estaria de volta aos gloriosos momentos de sua carreira ao realizar seu especial de TV na NBC no ano seguinte, ressuscitando definitivamente sua trajetória artística.

Elvis Presley - Easy Come, Easy Go (1967)
Easy Come, Easy Go
The Love Machine
Yoga Is Yoga Does
You Gotta Stop
Sing You children
I'll Take Love

Ficha Técnica: Elvis Presley (vocal) / Scotty Moore (guitarra) / Tiny Timbrell (guitarra) / Charlie McCoy (guitarra e órgão) / Bob Moore (baixo) / Buddy Harman (bateria) / D.J. Fontana (bateria) / Hal Blaine (bateria) / Curry Tjader (bateria) / Larry Bunker (bateria) / Emil Radocchia (percussão) / Michel Rubini (Harpsichord) / Mike Henderson (trumpete) / Anthony Terran (trumpete) / Jerry Scheff (trumpete) / Butch Parker (trombone) / Meredith Flory (sax) / William Hood (sax) / The Jordanaires: Gordon Stoker, Hoyt Hawkins, Neal Matthews e Ray Walker (vocais) / Gravado no Paramount Scoring Stage, Hollywood, California / Data de gravação: 28 e 29 de setembro de 1966 / Produzido e arranjado por Joseph Lilley / Data de lançamento: Março de 1967 / Melhor posição nas charts: # - (USA) e # - (UK) Obs: O EP não conseguiu classificação nas paradas inglesas e americanas.

Pablo Aluísio - Setembro de 2009.

sábado, 21 de fevereiro de 2009

Elvis Presley - Spinout (1966)

Em 1966 Elvis Presley completou dez anos de carreira em Hollywood. Os executivos da MGM então resolveram elaborar um intenso projeto de marketing para celebrar a data com muito material promocional, posters, álbuns, comerciais, folders etc. No centro das comemorações estava a realização de mais um filme de Elvis na produtora: Spinout (Minhas três noivas, no Brasil). As filmagens começaram em fevereiro de 1966 e duraram dois meses. Para contracenar com Elvis foram chamadas três beldades da época: Shelley Fabares (que já havia atuado ao lado de Elvis), Debora Walley (que chegou a ter um casinho com Elvis no set de filmagem) e Diana McBaine. Na direção o "pau-pra-toda-obra" dos estúdios Norman Taurog. Infelizmente os executivos da MGM não quiseram se arriscar e resolveram apostar na velha fórmula dos filmes anteriores de Elvis, que já estavam bastante desgastados pela crítica e até mesmo pelos fãs, que vinham exigindo através do fanzine "Elvis Monthly" mudanças na carreira de Elvis. Ou seja, muitos fãs estavam mais lamentando esse "aniversário" do que comemorando tal data. A falta de inovação da carreira de Elvis o levou a um impasse: ele tinha que mudar o rumo que vinha tomando há tempos ou afundaria de vez e se tornaria apenas uma "lenda viva" sem relevância artística.

Os primeiros sinais já tinham aparecido no ano anterior com as más bilheterias de seus últimos filmes. O público estava cansado dos mesmos roteiros, dos mesmos enredos e o pior de tudo: da má qualidade do material musical apresentado nesses filmes. E Elvis tinha consciência disso, porém preso a muitos contratos cinematográficos desde a primeira metade dos anos 60 o cantor se viu amordaçado não só aos grandes estúdios como também à sua própria gravadora que lançava todas as trilhas sonoras - e que por sua vez também estava presa à obrigações com os estúdios de cinema. Por incrível que isso possa parecer a melhor coisa a acontecer na carreira de Elvis nesse período era um grande fracasso no cinema! E o que todos de certa forma já previam finalmente aconteceu! Spinout foi lançado em novembro de 1966 e afundou nas bilheterias! Nem todo o marketing do mundo o salvou de ser um dos piores fracassos da carreira de Elvis! Até mesmo os fãs resolveram boicotar o lançamento e isso acabou sendo muito bom, pois acendeu de vez a luz vermelha nas organizações Presley - não dava mais para seguir essa velha linha "Trilha / Filme". Para se ter uma ideia do tamanho da bomba, basta afirmar que o filme não conseguiu ficar nem entre os 50 mais vistos do ano (alcançando a 57ª posição).

A trilha sonora, por outro lado, já trazia alguns pontos positivos. Ao contrário do filme, que é destituído de valor artístico, a parte musical de Spinout traz pela primeira vez em muitos anos de trilhas sonoras fracas, uma seleção bastante interessante de momentos e até mesmo algumas músicas excelentes da carreira de Elvis - "Down in the Alley", "I'll Remember You" e "Tomorrow is a long Time" de Bob Dylan. Isso se deveu a um fator que ocorreu nos bastidores da RCA Victor em 1966. Pela primeira vez em bastante tempo Elvis contava com um bom produtor à disposição: Felton Jarvis. Ao contrário de outros produtores, que pouco somavam, Jarvis chegava com muita vontade de mostrar serviço. Os primeiros resultados de seu trabalho saíram justamente nessa trilha sonora, nas canções que entraram como Bonus Song (embora a direção musical das músicas do filme tenham ficado sob o comando de George Stoll, o mesmo produtor de outras trilhas de Elvis como Viva Las Vegas). De qualquer forma, na parte que lhe tocava, Felton Jarvis resolveu embelezar as músicas de Elvis com novos arranjos, acrescentando novos instrumentos e vocalização. Enfim, finalmente havia um sopro de ar fresco pairando dentro dos estúdios da RCA Victor.

Elvis Presley - Spinout (1966)
Stop Look and Listen
Adam and Evil
All That I Am
Never Say Yes
Am I Ready
Beach Shack
Spinout
Smorgasbord
I'll Be Back
Tomorrow Is a Long Time
Down in the Valley
I'll Remember You

Elvis Presley - Spinout (1966): Vocais: Elvis Presley / Guitarra: Scotty Moore / Guitarra: Hilmer J. "Tiny" Timbrell / Guitarra: Tommy Tedesco / Baixo: Bob Moore / Bateria: Murrey "Buddy" Harman / Bateria: D.J. Fontana / Piano: Floyd Cramer / Saxophone: Homer "Boots" Randolph / Backup Vocals: The Jordanaires (Gordon Stoker, Hoyt Hawkins, Neal Matthews e Ray Walker) / Direção Musical: George Stoll / Gravado no Radio Recorders, Hollywood / Data de Gravação: 16 e 17 de março de 196 / Data de Lançamento: outubro de 1966 / Melhor posição nas charts: # 18 (EUA) e # 17 (lançado na Inglaterra com o nome de California Holiday).

Pablo Aluísio - Janeiro de 2005.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Elvis Presley 1966 - Uma Leve Brisa de Mudanças!

Se 1965 foi um ano da carreira de Elvis para se esquecer, pois nada de muito relevante foi produzido nele, 1966 trouxe uma leve brisa de mudanças para melhor dentro do quadro geral desanimador que se abatia sobre a carreira do cantor desde 64. Logo no começo de 66 Elvis entrou pela primeira vez em um estúdio para gravar canções que não eram de filmes. Uma boa notícia que logo foi comemorada pelos fãs na época. Em maio de 66 lá estava Elvis tentando gravar algum material de qualidade. Seis canções foram gravadas, algumas demonstrando que o talento de Elvis ainda continuava intacto e que tudo o que ele precisava mesmo naquele momento era de material com um mínimo de qualidade.

"Down In The Alley", "Tomorrow Is A Long Time" (a famosa canção de Bob Bylan), Love Letters (a versão original e não a regravação que deu origem a um disco de Elvis nos anos 70), "Beyond The Reef", "Come What May" e "Fools Fall in Love" mostravam que Elvis estava vivo e respirando, mesmo que com dificuldades. Essas seis canções, se tivessem sido lançadas em um disco normal, teriam amenizado e muito a crise musical e artística da carreira de Elvis. Mas infelizmente os executivos da RCA não souberam aproveitar.

O single "Love Letters / Come What May", não contou com o mínimo de publicidade mas mesmo assim alcançou uma boa posição entre os mais vendidos nos EUA (19º lugar) e um ótimo sexto lugar na Inglaterra. Infelizmente os filmes e suas trilhas ruins não deixaram de ser produzidos, prejudicando o pouco retorno que essas gravações de qualidade poderiam alcançar. A crítica já nem prestava atenção mais nos discos de Elvis e única coisa que lhe restava era o prestígio do público. Não tardou muito para que seus fãs deixassem também de ficar ao lado desses filmes e discos de baixa qualidade.

Os fãs ficavam indignados ao presenciar o artista que mudou o mundo da música no século XX cantando músicas de praia, cujas letras só falavam sobre mariscos e areia. Era demais para o estômago dos admiradores mais conscientes! Para desgosto dos fãs clubs as três trilhas lançadas em 1966 (Frankie and Johnny, Paradise Hawaiian Style e Spinout) estavam no mercado relembrando a todos como a carreira de Elvis estava estagnada. Nenhuma delas fez grande sucesso e pela primeira vez Elvis não conseguia atingir o Top 10 americano. Merecidamente aliás.

Spinout (minhas três noivas) foi lançado para comemorar os 10 anos de Elvis em Hollywood e os fãs, que já vinham pedindo mudanças na carreira de Elvis, deram o troco ao coronel e praticamente boicotaram o lançamento. O filme se tornou um grande fracasso comercial, o maior de todos na carreira cinematográfica de Elvis. Como as coisas não estavam correndo bem, Elvis voltou aos estúdios de Nashville em junho de 66 para tentar reviver sua carreira musical. Dessa sessão surgiram três ótimos momentos: "Indescribably Blue" (finalmente em anos uma música de Elvis recebia um tratamento decente em termos de arranjo e adaptação), "I'll Remember You" (ótima música que Elvis utilizaria mais tarde no Aloha From Hawaii) e "If Every Day Like Was Christmas" (belíssima canção natalina que fracassou injustamente como single no final do ano). Dentro dos estúdios Felton Jarvis vinha para mudar tudo.

Ao contrário de muitos produtores que não traziam grandes contribuições a Elvis nas gravações, Felton aparecia com ânimo e vontade de produzir material de qualidade. Sem dúvida, tudo estava caminhando para que mudanças significativas fossem feitas nos anos seguintes e toda essa série de fatores iriam acabar culminando no NBC TV Special, o especial de TV que salvaria a carreira do Rei do Rock de uma vez por todas! Felton Jarvis era, naquele momento, apenas uma brisa de que Elvis precisava para retomar o fôlego e seguir em frente! Felizmente bons ventos logo iriam aparecer no horizonte, para o bem de Elvis e de todos os seus fãs!

Pablo Aluísio - maio de 2005.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Elvis Presley - Paradise, Hawaiian Style (1966)

Agosto de 1966, o filme "Paradise, Hawaiian Style" (No Paraíso do Havaí, no Brasil) é lançado nos cinemas americanos. O filme foi filmado em locação nas ilhas havaianas de Oahu, Kauai e Mauí. Com direção de D. Michael Moore e produção de Hall Wallis a Paramount tentava repetir o sucesso de Blue Hawaii, lançado cinco anos antes. Porém o tiro saiu pela culatra e os resultados financeiros não atingiram as expectativas. Paradise foi apenas o 40º filme de maior bilheteria do ano, segundo a Variety, um resultado extremamente fraco, ainda mais quando se esperava repetir o imenso sucesso de Blue Hawaii.

Isso sem dúvida refletia todo o desgaste da carreira do cantor em Hollywood. O que escrever sobre "Paradise, Hawaiian Style"? Esse é um material tão inconsistente e falso que fica até difícil começar a apontar seus defeitos. Em primeiro lugar é um projeto que tenta imitar descaradamente Blue Hawaii (Feitiço Havaiano, 1961), aliás com a metade dos dólares gastos no filme anterior (ordens do Coronel). Elvis nem se importou muito em atuar bem e está visivelmente desinteressado e fora de forma. O filme, como muitos outros desse período, foi realizado às pressas para economizar na produção - para se ter uma ideia em pouco mais de 2 semanas todas as cenas de Paradise já estavam prontas e a equipe de filmagem de volta aos Estados Unidos.

O que mais impressiona é saber que houve falhas na produção do filme, pois a Paramount sempre procurava fazer um produto bem feito. Os grandes sucessos de Elvis após voltar do exército tinham sido justamente nesse estúdio, mas infelizmente os dias de Blue Hawaii e G.I. Blues pareciam distantes. "Feitiço Havaiano", por exemplo, foi o maior sucesso da carreira de Elvis nos cinemas durante os anos 60. O coronel Parker sempre achou esse filme de Elvis o "produto perfeito". Então uma sequência (ou quase isso) seria inevitável. Pelo menos era de se esperar que viesse daí algo ao menos bem produzido mas não foi isso que aconteceu pois "No Paraíso do Havaí" passava longe disso se tornando apenas uma tentativa mal feita de repetir todo aquele sucesso. Em tese realmente tudo não passava de uma má ideia pois no final das contas o coronel Parker e a Paramount apenas colocaram Elvis para imitar ele mesmo!

Tudo foi filmado praticamente de primeira, sem ensaio, sem cuidado, sem primor. Nessa época parece que Elvis estava mesmo em uma espécie de coma criativo, engolindo tudo o que lhe era enfiado goela abaixo. Sua incrível intuição artística parecia morta e enterrada e o astro havia se transformado em um mero boneco na mão de diretores, produtores e roteiristas! Mas as más notícias não parariam por aí. Se não bastasse o filme ser extremamente ruim e inconsistente o "Rei" ainda seria jogado em um lamaçal de músicas ruins. "Paradise" é sem sombra de dúvida uma das piores trilhas sonoras de sua carreira (se não for a pior!). A faixa título é muito ruim, com péssima letra (com um verso pra lá de estúpido: "Puxa! Como é bom estar no 50º Estado!")

E a situação só piora a partir daí pois a trilha sonora é uma ladeira abaixo, com canções de mal gosto (Scratch My Back), infantis e maçantes (Datin) constrangedoras (A Dogs Life) e mal produzidas (Stop Where You Are). Nem This Is My Heaven consegue manter a dignidade. A única e honrosa exceção no meio desse pântano de músicas ruins e baratas é mesmo a bela canção Sand Castles. E por incrível que pareça ela foi a única cortada do filme! Como pôde acontecer uma coisa dessas?! Realmente Paradise, Hawaiian Style é impressionante, pois até nisso eles se equivocaram. Não há muito o que comentar nesse momento opaco, depois dessa é melhor esquecer que nosso querido ídolo se envolveu em tamanho abacaxi, literalmente!

Elvis Presley - Paradise, Hawaiian Style (1966)
01. Paradise Hawaiian Style
02. Queenie Wahine's Papaya
03. Scratch My Back
04. Drums Of The Islands
05. Datin'
06. A Dog's Life
07. House Of Sand
08. Stop Where You Are
09. This Is My Heaven
10. Sand Castles

Elvis Presley - Paradise, Hawaiian Style (1966): Elvis Presley (vocal) / Scotty Moore (guitarra) / Barney Kessel (guitarra) / Charlie McCoy (guitarra) / Ray Siegel (baixo) / Keith Mitchell (baixo) / D.J. Fontana (bateria) / Hal Blaine (bateria) / Milton Holland (bateria) / Larry Muhoberac (piano) / Bernal Lewis (steel guitar) / Al Hendricksson (guitarra) / Howard Roberts (guitarra) / Victor Feldman: (bateria) / The Mello Men: Bill Lee, Max Smith, Bill Cole e Gene Merlino (vocais) / The Jordanaires: Gordon Stoker, Hoyt Hawkins, Neal Matthews e Ray Walker (vocais) / Gravado no Radio Recorders, Hollywood, California / Data de gravação: 26 e 27 de julho e 2,3 e 4 de agosto de 1965 / Produzido por Thorne Nogar / Data de lançamento: maio de 1966 / Melhor posição nas charts: #15 (USA) e #7 (UK).

Pablo Aluísio - Julho de 2005.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Elvis Presley - Frankie and Johnny (1966)

O primeiro filme de Elvis em 1966, Frankie and Johnny, prometia. Era a refilmagem de um clássico de 1934 estrelado por Helen Morgan e Chester Harris. Havia um novo diretor que nunca antes tinha trabalhado com Elvis, Frederick de Cordova, e um roteiro até interessante escrito por Alex Gattlieb, cujo enredo era baseado na famosa canção do século 19 composta originalmente com o título de Francoise et Jean. Além disso o filme ficou quase um ano em processo de edição e pós produção, o que trazia a esperança de que um produto caprichado sairia daí. O simples fato do filme ser produzido pela United Artists, ao invés da MGM, já era um ponto positivo naquela altura. Então o que deu errado? O fato de ter sido um filme estrelado por Elvis Presley provavelmente deve ter sido o primeiro problema. Depois que Elvis estrelou filmes com produções pobres como Harum Scarum e Kissin Cousins para a MGM, os estúdios não mais se importaram em caprichar nos filmes do cantor. Como a bilheteria era certa, e como os fãs de Elvis pareciam não se importar com a qualidade dos filmes estrelados por ele, os executivos se preocupavam mais em cortar custos e gastar o mínimo possível do que em melhorar os méritos artísticos da película. Isso é bem visível em Frankie and Johnny. A produção deixa muito a desejar, ainda mais quando se trata de um filme de época. Desde os cenários até as ambientações tudo deixa claro que se trata realmente de uma produção B do estúdio. Uma pena.

A trilha sonora não teve destino melhor. Sob a direção musical de Fred Karger (o mesmo produtor de Kissin Cousins e Harum Scarum) o material, que até tinha certo potencial, ficou apenas na promessa. Ao contrário das outras trilhas sonoras de Elvis, que já nasciam com músicas fracas, Frankie and Johnny, até mesmo pela música título, um standard da história da música mundial, poderia ter sido bem melhor aproveitada. Até mesmo o arranjo de metais, que foi tão bem utilizado em trilhas anteriores como King Creole, aqui se perdeu em uma produção sem grande inspiração. Ouvindo a trilha sonora nos dias de hoje percebemos nitidamente a falta que fez uma boa direção musical conduzindo os trabalhos, embora é bom salientar, nem todo o conteúdo do disco seja destituído de valor artístico. Um crítico inclusive se manifestou sobre Frankie and Johnny quando a trilha voltou ao mercado em 1994 na série Double Features: "Existem 5 preciosidades absolutas embutidas na trilha de Frankie and Johnny: a primeira é a faixa título, "Frankie And Johnny", abrasiva com seu som Dixieland. Rodado em New Orleans, é lamentável que as 12 canções deste filme não tenham absorvido mais a cena musical local. Elvis lamenta! Cada verso é construído com intensidade e nos seus escassos 2:23, as numerosas repetições ecoam uma magia mais ampla. Idem para a seguinte, "Come Along", 1:52 de puro prazer. Então, vem o desastre. Será "Petunia, The Gardener's Daughter" a pior música que Elvis já cantou? Provavelmente não, porque ela foi salva pelo balanço de New Orleans. "Chesay" é bem pior e "What Every Woman Lives For" não é apenas terrível, mas francamente insultuosa. Com melancólica misoginia, diz que a mulher é realmente boa se "for para dar seu amor a um homem". "Look Out Broadway" é igualmente ruim. Melosa e maliciosa chega a perguntar: "se ele lhe der um diamante, o que você dará a ele?" Perceba que a voz de Presley era um instrumento tão quente e expressivo, que escutá-la pode ser o jeito de se descobrir sobre como ele se sentia na época, e estas faixas, mesmo ruins como são, para um fanático por Elvis, são fascinantes."

E continua a análise: "Begginer's Luck" é a terceira gema. Lembrando trilhas sonoras melhores como G.I. Blues ou Blue Hawaii, esta terna balada tem fluidez. E algum estúpido decidiu fazer uma marcha, misturando "Down By The Riverside" com "When The Saints Go Marching In" — atirando Elvis numa horrível estrutura rítmica, salva no fim, quando muda para ragtime. "Shout It Out" é um exemplo, de como aqueles lacaios de Hollywood, tentaram substituir seu grito rebelde de rock' n' roll original, por uma batida pegajosa e sem valor, supervalorizando os efeitos percussivos, ainda que Elvis a cante corretamente. Acho que ele sabia, assim como nós, que sempre existirão aquelas poucas gemas, onde valerá a pena enfiar a cara, como na que se segue: "Hard Luck" é um blues pesado, no qual ele se entrega com uma paixão que não se ouve em qualquer lugar. Por fim a trilha de Frankie & Johnny termina numa levada 'para cima' em ritmo de ragtime."

Frankie and Johnny (1966)
01. Frankie And Johnny
02. Come Along
03. Petunia, The Gardeners Daughter
04. Chesay
05. What Every Woman Lives For
06. Look Out, Broadway
07. Beginner's Luck
08. Down By The Riverside/When The Saints Go Marching In
09. Shout It Out
10. Hard Luck
11. Please Don't Stop Loving Me
12. Everybody Come Aboard

Frankie and Johnny (1966): Vocais: Elvis Presley / Guitarra: Scotty Moore / Guitarra: Tiny Timbrell / Guitarra, Harmonica: Charlie McCoy / Baixo: Bob Moore / Bateria: Buddy Harman / Bateria: D.J. Fontana / Piano: Larry Muhoberac / Trumpete: George Worth / Trombone: Richard Noel / Saxophone: Gus Bivona / Tuba: John T. Johnson / Tuba: Robert Corwin / Backup Vocals : The Jordanaires (Gordon Stoker, Hoyt Hawkins, Neal Matthews e Ray Walker) / Backup Vocals: Eileen Wilson / Backup Vocals: Ray Walker / Backup Vocals: Sue Ann Langdon em Frankie and Johnny (versão do filme) / Direção Musical de Fred Karger / Gravado nos estúdios Radio Recorders, Hollywood / Data de Gravação: 12 a 15 e 19 de maio de 1965 / Melhor posição nas charts: # 20 (EUA) e # 11 (UK).

Pablo Aluísio - setembro de 2009.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Elvis Presley - FTD Out in Hollywood

Falar de Elvis em Hollywood é um assunto polêmico. Isso porque tendemos a cair nos extremos. O primeiro é representado pelos fanáticos fãs de Elvis que o achavam um grande ator e são capazes de escutar a trilha de "Paradise Hawaiian Style" trezentas vezes e, mesmo assim, achar todas as músicas boas, divertidas e clássicas. Essa corrente extremista é muito perigosa. São pessoas completamente desprovidas de senso crítico e os principais responsáveis pelo próprio enclausuramento de Elvis em Hollywood. Afinal, "Paradise"... só foi feito porque teve alguém que se deu ao trabalho de assistir a "Harum Scarum", não é mesmo? A outra corrente é igualmente perigosa. É representada por radicais de extrema direita, geralmente com algum conhecimento em cinema, seja ele real ou não. Detestam todos os filmes de Elvis da década de 60 e não encontram nenhuma música decente na trilha sonora.

Ambas as correntes são equivocadas e devem ser evitadas. Toda essa polêmica pode ser evitada utilizando-se de duas palavras mágicas: "bom senso". Iniciaremos nosso texto no ponto onde tudo começou. E esse lugar temporal é o ano de 1956. Elvis Presley estava sacudindo o mundo com uma música nova, revolucionária e alegre que varreu os quatro cantos do mundo e deu origem ao maior movimento de mudanças musicais já registrado. Sua repercussão se deu em todos os setores da sociedade, passando pelo vestuário, costumes, gírias, cinema e até a política. No auge de seu sucesso, com o mundo nas mãos, Elvis foi atrás de realizar o seu maior sonho: ser um grande ator. Não fazia muitos anos desde que ele, à época um pobre menino sulista, trabalhava de lanterninha nos cinemas locais, só para poder assistir aos filmes de graça, pois não tinha dinheiro para comprar a entrada. Agora, com 21 anos Elvis era o maior nome da música mundial e Hollywood continuava sendo a sua grande menina dos olhos. Com um visual e sex appeal arrebatador, Elvis logo conseguiu sua grande chance de estrear nas grandes telas com o filme "Love Me Tender" (Ama-me Com Ternura). A atuação de Elvis é claramente de um estreante, porém, surpreendentemente esforçada.

A princípio Elvis não queria misturar cinema com música, porém, Hollywood não pensava o mesmo, afinal, não fazia sentido fazer um filme com o cantor mais famoso do mundo sem fazê-lo cantar nenhuma música. O resultado foi quatro canções incluídas, dentre as quais a lendária "Love Me Tender". Mas aqui, em um filme simples, com atuações boas, e uma história razoável encontra-se um dos primeiros problemas dos filmes de Elvis: a plateia não queria saber o que Elvis fazia no filme, só queria vê-lo, de preferência cantando alguma coisa. Qualquer coisa. O hino americano, uma marchinha, ciranda cirandinha, qualquer coisa. Porém, a princípio isso não foi problema e os quatro primeiros filmes de Elvis são de uma qualidade muito boa, destacadamente "Jailhouse Rock" (O Prisioneiro do Rock) e "King Creole" (Balada Sangrenta). Qualquer crítico de cinema especializado que negar a boa atuação de Elvis nesses dois filmes deveria se aposentar imediatamente. Elvis faz papéis fortes de caras maus e durões, que estão dispostos a arriscar tudo para conseguirem o que querem. Além de roteiros fortes, um excelente elenco de apoio, atuação primorosa de Elvis, músicas simplesmente maravilhosas e sequências antológicas, os filmes de Elvis da década de 50 não só marcaram época, como também são considerados verdadeiros clássicos atualmente. Quando Elvis acabou as filmagens de "King Creole" duas coisas estavam bem claras: Elvis ainda tinha um grande caminho a percorrer e muito que desenvolver-se como ator.

O segundo fato notável era de que Elvis estava em franca expansão como ator. Provavelmente, mais 3 ou 4 filmes do nível de "King Creole" o teriam elevado à categoria de ator de primeiro escala. Isso nos leva à pergunta mais óbvia: Era Elvis um bom ator? Nunca saberemos. Ele teve o seu processo de desenvolvimento barrado no início da década de 60. Porém, uma coisa ninguém duvida: Elvis tinha potencial. 1958 marcou a ida de Elvis para o exército e talvez a maior guinada de sua carreira. Coincidentemente, no mesmo ano, Elvis perdeu sua mãe. Essa perda, juntamente com a instantânea retirada de Elvis de sua realidade dos holofotes do mundo, empreenderam mudanças nele. Em um show de 69 ele mesmo afirmou que a sensação que sentiu foi de que estava tudo acabado. Uma hora ele tinha tudo e na outra sua carreira artística simplesmente desapareceu. Quando Elvis voltou do exército ele voltou uma pessoa mais madura, mas ao mesmo tempo mais triste e principalmente desorientada. O próprio Elvis tomou consciência que tinha mudado. Consciência que seus fãs nunca tiveram. Não que isso fosse uma coisa ruim. Pelo contrário. As músicas iniciais de Elvis da década são ainda muito poderosas, clássicas e alegres. São uma espécie de continuação da década de 50, não tão cruas, mais lapidadas, porém, bem menos inocentes e mais contidas. Elvis já havia estado no limite e isso o trouxe problemas, por que ir lá de novo?! Elvis agora era mais controlado. Um bom moço, sem dúvida. Essa nova estratégia foi, é verdade, intencionada e planejada pelo Coronel Parker, mas será que Elvis queria mesmo ser aquele jovem da década de 50? O Elvis de 1960 queria ser um prolongamento do de 1958? Certamente não. Por isso Elvis tomou uma decisão radical: rompeu com os anos 50. Claro que esse rompimento tomou proporções ridículas na década de 70, mas teve seu início em 1960 quando Elvis voltou do exército. A década de 50, definitivamente a melhor de sua vida, agora lhe trazia lembranças de sua mãe e de uma época repleta de vitórias e alegrias.

Agora, depois de sua volta do exército, uma nova realidade surgiu. Mudanças também. E se tinha uma pessoa que era péssima em enfrentar mudanças essa pessoa era Elvis. Mudanças e pessoas. Essa fuga eterna de Elvis de conflitos, sejam eles artísticos ou pessoais, afundou seu casamento, arruinou preciosos anos de sua carreira e em última instância o levou à morte. E foi exatamente essa negação de nova realidade que fez Elvis fazer um filme ruim atrás do outro. O que nos leva ao início do problema: um filme chamado "G.I Blues" (Saudades de um Pracinha). Não me entendam mal. O filme não é ruim, porém, passa longe de ser bom, e sua qualidade comparada com seus antecessores é sofrível. Mas, surpreendentemente, sua trilha sonora chegou ao primeiro lugar nas paradas e lá ficou por dez semanas!!! Vejam, aqui está um filme regular, com algumas músicas boas e a maioria apenas mediana. O próprio Elvis não gostou do filme. E o resultado foi esplêndido. Parte do faturamento veio do fato dos fãs estarem há dois anos desejando material cinematográfico do cantor.

Provavelmente, se Elvis estrelasse um documentário sobre a vida do bicho preguiça, ele seria um sucesso. Conclusão tirada pelos lacaios de Hollywood e o raposa Parker: Elvis precisa aparecer em filmes leves. A lógica cinemtográfica de Elvis estabeleceria mais uma nova conclusão com a filmagem de "Flaming Star" (Estrela de Fogo). O filme é bem acima da média, com grandes atores e um excelente diretor, além de uma convincente atuação de Elvis. Um novo detalhe na indústria Presley surgiu: o filme conteria poucas canções. Na verdade apenas 4, o mesmo número de seu filme inicial "Love Me Tender". Porém, pela primeira vez em um filme de Elvis as canções baixaram muito o nível. Apenas "Summer Kisses, Winter Tears", que acabou sendo cortada, tem algum mérito. "Flaming Star" é muito sem sal e "Britches" e "A Cane and High Starched Collar", incluída no filme em uma seqüência totalmente desnecessária, são do nível de pérolas trash futuras como "He´s Your Uncle Not Your Dad". E o ritmo... Meu Deus que country capenga e de mau gosto. Aliás, country nada, é sem classificação essas duas porcarias, que são de longe, as primeiras músicas realmente péssimas da discografia de Elvis. "G.I Blues", com uma história meio boboca e muitas canções foi um sucesso financeiro e "Flaming Star", sem quase nenhuma música com boa atuação de Elvis e roteiro forte, apesar de ter agradado a críticos, foi um relativo fracasso.

Conclusão dois: Elvis teria que estrelar filmes leves sem grandes pretensões cinematográficas. Nada de metê-lo em filmes sérios e sem canções. Financeiramente não compensava. O filme seguinte de Elvis foi "Wild In The Country" (Coração Rebelde) onde foi praticamente boicotado pelo raposa Parker e os estúdios. O que poderia ter sido um ótimo filme tornou-se uma película confusa, com atuações estranhas por parte de todo o elenco. Foi a última vez que Elvis seria levado à sério em Hollywood. "Blue Hawaii" (Feitiço Havaiano) veio em seguida e sepultou de uma vez por todas as pretensões de Elvis em ser um grande ator. Ele passaria os sete anos seguintes, metido em filmes com dezenas de garotas, cenários deslumbrantes, roteiros capengas e muitas músicas ruins. Os anos 60 chegaram e com eles mudanças musicais profundas se operaram. Os Beatles e outros roubaram a cena e elevaram o rock à categoria de arte, de uma forma nunca imaginada. Mas Elvis se recolheu em seu canto e só retornaria com força total sob a orientação de Steven Binder em uma noite de junho de 1968.

Muito se especula de quem seja a culpa desse verdadeiro desastre na carreira de Elvis chamado Hollywood. Tem-se que culpar o Coronel, que nunca viu a música de Elvis como arte, por ter transformado a carreira de Elvis em um circo, em troca de alguns trocados. Os estúdios da época e seus chefões por terem destruído uma das mais promissoras carreiras cinematográficas que poderia ter existido. O público que pagou para ver "Blue Hawaii" e derivados, se deliciando em ver Elvis cantando para crianças pentelhas, garotas bonitas, animais e às vezes até para os próprios caras em quem batia, como ele mesmo enfatizou. E o próprio Elvis que nunca superou seu medo de confrontação pessoal, além de nunca aceitar o fato de que ele é quem deveria ter pulso em sua carreira. Sem contar que Elvis nunca entendeu que em Hollywood para conseguir bons papéis é preciso muito esforço e dedicação, além de uma certa dose de exigência.

A FTD fez um grande trabalho em garimpar o que há de menos doloroso nesses anos sombrios. Não que músicas boas não tenham sido feitas, porém, é fato que elas foram exceção. O CD não tem nenhuma canção realmente medíocre, apenas algumas não tão boas como "This Is My Heaven". Porém, aqui você vai encontrar verdadeiras pérolas perdidas, como "Lonely Man", "Puppet On A String" e "King Of The Whole Wide World". Claro, não é indicado para todo mundo, mas para aqueles que desejam entender mais um pouco do processo que levou um dos maiores artistas do século passado a sofrer tamanha humilhação durante tanto tempo. Talvez a resposta esteja naquele ditado: quem muito se abaixa mostra os fundos. Aqui estão as músicas do cd Out In Hollywood analisadas uma por uma:

01. MEXICO (take 7) - O CD tem início com essa musiquinha do filme "Fun in Acapulco" (O Seresteiro de Acapulco) de 1963. Por essa época a qualidade dos filmes iria começar a baixar e Elvis não iria fazer uma sessão decente até a gravação do excelente "How Great Thou Art" em 1966, uns três anos depois. 1963 marcou também como o primeiro ano de Elvis sem um primeiro lugar nas paradas, e o preparativo da invasão britânica que iria tomar forças de vendaval no ano seguinte. O filme em si não é dos piores, com uma ótima leading lady, a deliciosa bond girl Ursulla Andress, e uma cena antológica em que Elvis “pula” de um penhasco. O pula está entre aspas porque a cena, claro, foi feita por um dublê. Aliás, apesar de se passar teoricamente no México, Elvis nunca saiu dos EUA para filmar nada, o que gerou rumores de que Elvis era preconceituoso contra os latinos. Nada mais longe da verdade. Elvis mal sabia o que era um latino!!! O real motivo de ele não ter viajado foi, além de baratear o custo, o mesmo motivo que o levou a nunca se apresentar fora dos Estados Unidos: a situação ilegal em que seu empresário Coronel Tom “Raposa” Parker se encontrava, visto que ele era um imigrante holandês. A trilha sonora tem, em sua predominância, músicas imitando sons latinos. E eu enfatizo o "imitando". Canções como "The Bullfighter Was a Lady" soam tão artificiais como corante de framboesa. Aliás, será que no México existem touradas??? Hum... pensei que era na Espanha. Mas tudo bem, para todo bom americano latino é a mesma coisa, e esse grande lapso ficou bem exposto no filme. Mas, Elvis não teve culpa de nada disso. O descrédito fica com os escritores. A trilha tem bons momentos como a ótima "Bossa Nova Baby", medianas como "You Can´t Say No in Acapulco" e a desastrosa "There´s no Room to Rhumba in a Sports Car"!!! Acreditem esse é o título da música. "Mexico" fica no meio termo. É bem instrumentada e tem uma melodia agradável. O problema é que no filme ela é apresentada em um dueto com um moleque pentelho, o que a estraga severamente. Nesse take Elvis canta as partes do garoto, o que a torna bastante melhor. Na verdade, não querendo se arriscar em lançar um dueto tosco de Elvis, a gravadora retirou os vocais da criança, o que deixou a música na versão oficial péssima, com verdadeiros rombos em todo o seu decorrer. Essa versão é muito melhor. Agora convenhamos, a ideia de se colocar Elvis, o Rei do Rock, cantando sobre senhoritas com um pivete em uma bicicleta, em uma música que mistura o inglês com o espanhol não é das melhores.

02. CROSS MY HEART AND HOPE TO DIE (take 6) - Vou direto ao ponto: "Girl Happy" (Louco Por Garotas) é um dos meus filmes favoritos de Elvis. Calma, antes de criticar a minha pessoa deixe-me explicar. Sei que a trilha possui músicas fracas como "Wolf Call" e a horrenda "Fort Lauderdale Chamber of Commerce". Sei que a voz de Elvis não estava lá essas coisas nesse ano e sua paciência nas gravações dessa trilha pela primeira vez em toda sua carreira foi embora. Seu tédio é notável no filme e nas músicas. Também é de meu conhecimento que o filme é um "beach movie" dos mais bobos, inocentes e superficiais. E como esquecer das ridículas cenas de Elvis fingindo tocar baixo, fingindo estar tocando violão quando o som que sai é de uma guitarra, ou então quando ele está tomando sol com blusa de botão azul e uma calça preta e sapatos sociais, como se fosse para uma festa de gala?! Esse são alguns dos defeitos mais graves e toscos do filme. Mas não ligo. O filme é um senhor trash, porém, super simpático. O roteiro é divertido, possui cenas engraçadas (a parte em que Elvis se veste de mulher e ainda continua com seu topete é muito surreal e ridiculamente engraçada), tiradas hilárias e um clima tão alto astral que fica difícil não se tornar um idiota completamente sem senso crítico ao assistir o longa. Claro também que enquanto Elvis estava fazendo podreiras divertidas como essa a cena musical pegava fogo. Mas vamos aos fatos, "Girl Happy" passa a léguas da ruindade de "Harum Scarum" (Feriado no Harém), da apatia de "Clambake" (O Barco do Amor) ou do absurdo de "Kissin Cousins" (Com Caipira Não se Brinca). O filme é bom? De jeito nenhum, na verdade para quem não é fã de Elvis fica difícil engolir um longa tão bobinho e mal feito. Porém, para quem quer se divertir com besteiras sessentistas completamente fora da nossa realidade essa é uma boa pedida. "Cross My Heart and Hope to Die" vem desse filme. É uma música mediana que não incomoda, porém, fica empalidecida se comparada com clássicos do cantor. É um pop típico dos filmes de Elvis na época, com um ótimo riff de baixo. Esse take é quase igual ao master, com exceção de um erro de ritmo da banda no fim da música, que a acelera na hora errada. Tranquila, agradável e inofensiva, porém, com um leve toque sexy, "Cross My Heart" não se destaca na trilha, mas é uma boa pedida no mar de porcarias que Elvis estava cantando na época.

03. WILD IN THE COUNTRY (take 11) - Quando foi filmar "Wild In The Country" (Coração Rebelde), em novembro de 1960, Elvis estava em um excelente momento em sua carreira. "Are You Lonesome Tonight" iria logo entrar para as paradas e se tornar a terceira música de Elvis a alcançar o primeiro lugar no ano. "G.I Blues" (Saudades de um Pracinha) havia sido um sucesso estrondoso e "Flaming Star" (Estrela de Fogo) era um ótimo filme que deu a oportunidade para Elvis de mostrar seu talento como ator. E ele acabara de sair de uma triunfante sessão de gravação que produzira seu primeiro e excepcional álbum gospel "His Hand in Mine". Definitivamente, as coisas estavam indo bem. O roteiro original de "Wild In The Country" era bom e o filme não era para conter canções. Porém, alguém deu um jeito de inserir três músicas no filme: "Wild In The Country", a bela "In My Way" e a divertida "I Slipped I Stumbled I Fell". Apesar de não produzir nenhum hit, a trilha de "Wild In The Country" era uniformemente boa, bem intimista, talvez refletindo o filme e as canções nele postas não prejudicaram o resultado. O roteiro inicial era bem dramático, porém, o Coronel resolveu fazer algumas mudanças e suavizar a coisa ao máximo. Para completar ocorreu um grave problema com a cena final. O final era dramático com a personagem principal feminina, interpretada pela belíssima Hope Lange morrendo. Aqui entra outro problema do filme. Após um mostra inicial ocorreu uma reação negativa da plateia com a cena que teve que ser refilmada com Hope sobrevivendo. Resumindo: avacalharam um bom roteiro em potencial e o que era bom virou um dos mais confusos filmes de Elvis que não possuía clímax, com uma história estagnada e embaralhada, com vários bons personagens nunca desenvolvidos. A interpretação de Elvis está ok. Ele poderia ter dado um tom menos educado e mais sombrio ao personagem. Esse na verdade era o erro onde a Elvis Presley Industries estava começando a pecar. Tudo estava muito suave, muito família. O personagem de Elvis era bem mais complexo do que o que o filme mostra. "Wild In The Country" foi a última oportunidade dada a Elvis de provar que era um bom ator. Mas o Elvis falhou. O Coronel falhou. Os roteiristas falharam. E principalmente a platéia falhou, desprestigiando esse pequeno esforço cinematográfico e o preterindo no lugar de "Blue Hawaii", filme responsável pela nova prisão de Elvis Hollywood. Mas a trilha, como disse, é boa, sendo a canção tema, sem dúvida, o destaque. A leve guitarra elétrica tocada no dedilhado é lindíssima e a letra bastante singela. Uma pequena homenagem a raízes humildes, na verdade. O primeiro take dessa música é curioso, tendo seu arranjo bem mais complexo e Elvis tentando subir uma oitava acima, O resultado foi ruim e o arranjo pomposo foi abandonado. Elvis também se manteve na sua oitava. Esse take é bem próximo ao original com apenas algumas quase imperceptíveis mudanças na guitarra.

04. ADAM AND EVIL (take 16) - O ano de 1966 veio e com ele o ultimato do mundo da música de que as transformações ocorridas nos últimos anos não só haviam modificado tudo, como tinham vindo para ficar. E não por coincidência os anos de 1964 e 1965 foram abissais para Elvis em termos de queda da qualidade de material. A coisa iria piorar e muito. Percebendo as mudanças no mercado e vendo a queda nas vendas ter início, os produtores de Elvis tentaram fazer algumas mudanças no próximo filme do cantor. A começar pela trilha que deveria conter mais rocks, em vez de cânticos árabes, músicas dos anos 20 ou temas havaianos pra lá de bregas. Apesar de realmente ser um pouco superior a outras trilhas "Spinout" (Minhas Três Noivas) oscila entre o muito bom ("Am I Ready" e "I´ll Be Back"), o apenas mediano ("Stop Look And Listen") e o trash total (a horrorosa e mortífera "Beach Shack"). "Adam and Evil" fica no intermediário. Esse rock bastante peculiar segue a cartilha de tentar balançar a trilha de Elvis tentando reviver glórias passadas. A música em si não é ruim, tem um ótimo ritmo, uma boa pegada de bateria e uma letra curiosa. Mas é só. Não entra na categoria das melhores músicas de Elvis, apesar de passar longe de incomodar. O interessante sobre essa música é que ela foi a mais trabalhosa da sessão. O take aqui presente é o primeiro completo em muito, simplesmente porque Elvis não conseguia achar o tom certo na parte em que canta o verso “ but you´re the devil I don´t want to live without”. Ele mesmo comenta no estúdio essa ser a nota mais difícil de sua vida inteira!!! O CD "Spin in Spinout" mostra a crescente dificuldade de Elvis na música take após take. Até que enfim ele acerta na 16ª tentativa... que ainda não é o master que viria na tentativa de número vinte!!! Aqui os produtores da "Follow That Dream" botaram trechos de várias músicas cantaroladas por Elvis na sessão como "Flowers on the Wall" (presente no filme "Pulp Fiction"). O Coronel tentou promover o filme como o triunfal aniversário de 10 anos de Elvis no cinema, porém os próprios fãs, sabendo da necessidade de mudanças boicotaram a produção que se tornou o maior fracasso de bilheteria de Elvis em Hollywood. Uma pena, pois o filme não é dos piores. Esse boicote deveria ter ido para algo como "Kissin Cousins" ou "Paradise Hawaiian Style".

05. LONELY MAN (take 4) - Delicada, bela e melancólica são alguns dos adjetivos que podem ser empregados para essa belezura gravada para o filme "Wild In The Country" (Coração Rebelde). "Lonely Man" reflete bem toda a atmosfera intimista do filme e fala de um homem totalmente desiludido, extremamente machucado pela vida e não mais desejoso de viver. O homem da canção é posto como se fosse um andarilho que “vai de cidade em cidade procurando algo que não consegue encontrar”. A sensação de auto abandono e falta de esperança é extremamente latente durante toda a canção e culmina no final quando é revelado que o homem é o próprio narrador da música. Definitivamente, uma das mais melancólicas gravações da carreira de Elvis, melancolia esta acentuada por um estranho acordeão. Se você nunca percebeu nada disso que eu falei sobre a música, não se preocupe. A interpretação de Elvis é tão suave e singela, que todo esse sofrimento e sua real essência são bastante atenuados, ficando quase imperceptíveis. Ganhou uma versão ainda mais triste, só com o violão, porém, nunca lançada. Foi cortada do filme injustamente e lançada como single, lado B da ótima "I Fell So Bad", alcançando a razoável 32ª posição. Os fãs estranharam essa alien no mundo de Elvis da época.

06. THANKS TO THE ROLLING SEA (take 3) - Se você quiser procurar músicas com temas estranhos é só checar as trilhas de Elvis. Você verá música sobre animais ("A Dog´s Life", "Dominic"), temas árabes ("Golden Coins", "Mirage"), temas mexicanos ("Guadalajara" e "Vino Dinero Y Amor"), músicas para crianças ("Cotton Candy Land", "Confidence", "Five Sleepyhead") entre outras bizarrices. Essa música é quase um canto de idolatração ao mar!!! Ao mar!!! Mas vamos por partes, a canção tem um ótimo ritmo, Elvis está cantando muito bem, diga-se de passagem, e se eu fosse um pescador adoraria cantarolá-la em minhas pescarias matinais ou noturnas. Mas meu povo, vamos aos fatos, quem está cantando é Elvis Presley, o cara que praticamente inventou a música moderna. Quem em sua sã consciência iria fazer isso com um cantor de tal porte?! Como disse, a música não é de todo ruim, mas o tema é que me desagrada bastante. Foi gravada para o ridículo "Girls! Girls! Girls!" Em uma cena igualmente estúpida com Elvis pescando peixe e cantando essa baboseira para os seus amigos pescadores. Um desperdício.

07. WHERE DO YOU COME FROM (take 13) - A trilha de "Girls! Girls! Girls!" (Garotas, Garotas, Garotas) é uma montanha russa com absolutos clássicos ("Return to Sender"), músicas alegres e ritmadas (a ótima tema e a irônica "I Don´t Want to be Tied"), músicas com temas ridículos e de péssimo gosto ("Song of the Shrimp", "The Walls Have Ears") e bonitas baladas, como a ótima "Because of Love" e essa aqui. "Where do You Come From" é a típica canção mediana de Elvis. Possui uma melodia bonita, mas que ao mesmo tempo não consegue transmitir um pingo de sinceridade, parecendo muito forjada. Possui uma letra bonitinha, mas cuja simplicidade aqui não contribui em nada para a canção. Resumindo, música de laboratório, feita para preencher lugares vazios do álbum, mas que não chega a incomodar. Agora vejam vocês que entre tantas músicas legais da trilha como as acima citadas para fazer par com a excelente "Return to Sender", no single promocional, adivinhem qual a RCA escolheu? Dou um passe de 10 anos sem assistir "Kissin Cousins" para o ganhador! Ah, acertou quem falou "Where do You Come From". Fraquíssima, até para um lado B, a música conseguiu a ridícula 99ª posição nas paradas, a pior de Elvis, até então. Esse take é até melhor que o original com Elvis mais seguro com a canção.

08. KING OF THE WHOLE WIDE WORLD (take 3) - Gravada para o filme "Kid Galahad" (Talhado Para Campeão), "King Of The Whole Wide World" é uma daquelas músicas que faz você se orgulhar de ser fã de Elvis. Alegre, frenética, com uma letra simples, porém, extremamente pra cima, vocais de Elvis extremamente inspirados e a banda afinadíssima, "King Of The Whole Wide World" é um dos mais perfeitos exemplos das músicas ao estilo “levanta defunto” pelas quais Elvis sempre vai ser lembrado. A letra não poderia ser mais verdadeira, afirmando que quem é rico nunca se contenta com sua riqueza por maior que ela seja e quem é pobre sempre leva uma vida mais simples. Destaque absoluto para a voz de Elvis que lembra muito as loucas músicas dos anos 50 e para o excepcional Boots Randolph destruindo no sax, em um de seus melhores solos. Com certeza um das melhores músicas de toda a carreira de Elvis, e ainda um tesouro escondido. Talvez não tenha feito muito sucesso pela péssima promoção pessoal da RCA que a lançou em um EP, alcançando a apenas razoável 30ª posição, em 1962, quando Elvis estava começando a ter alguns de seus compactos passando despercebidos pela mídia. A única crítica vai para a ridícula cena em que ela é cantada no filme, com Elvis na traseira de um caminhão. Mas isso não a estragou. Teve uma versão um pouco menos ritmada tentada por mais de 30 takes. O take aqui apresentado é o antecessor do master da segunda versão, e só é diferente no solo de Boots Randolph, um pouco inseguro ainda, mas não menos genial. Para mostrar para fãs bobões dos Beatles, sem dúvida.

09. LITTLE EGYPT (take 21) - Se teve um ano que fez diferença na carreira de Elvis foi o ano de 1964. De forma negativa, infelizmente. A qualidade do material gravado diminuiu consideravelmente e os filmes de Elvis passaram a usar e abusar de sua fórmula. Para completar a América começava a pegar fogo com o início da Guerra do Vietnã e as consequências práticas do assassinato de Kennedy. Os protestos por mudanças sociais feito pelos negros e outras minorias se intensificou. A América começou a virar gente grande. No cenário musical é que a coisa deu uma reviravolta. A juventude americana, até então desamparada com o rock, se apegou a uma nova força musical que aportou nos EUA em fevereiro: os Beatles, que começaram a maior revolução musical desde Elvis, quebrando recorde por cima de recorde. A RCA entrou em verdadeiro desespero. Se as músicas de Elvis não mais chegavam ao número 1 em 1963, agora elas não entrariam nem no top 10. A gravadora apelou para uma política de quantidade, sem nenhum critério de qualidade ou ordem lógica, no que diz respeito aos singles. Tanto é que no ano de 1964, foram lançados singles com músicas de filmes de Elvis, restos dos anos 50 e singles promocionais do álbum "Elvis is Back" e "Pot Luck", sendo o primeiro de quatro anos antes!!! Alguns conseguiram chegar ao top 20, porém, músicas como "Kiss Me Quick" afundaram na 34ª posição e os lados B de Elvis passaram a ter dificuldades de entrar no HOT 100. As paradas musicais tiveram uma reviravolta muito violenta com os Beatles massacrando todos os seus oponentes. O que 1956 foi para Elvis, 1964 foi para os Beatles, em escalas bastante semelhantes. Os filmes de Elvis, ao contrário e não merecidamente, continuavam a lucrar. Na verdade foi em 64 que Elvis obteve seu maior êxito comercial nos cinemas, com o ótimo "Viva Las Vegas" (Amor à Toda Velocidade). Para piorar as coisas, naquele mesmo ano Elvis leu, com profunda chateação, uma notícia em um jornal afirmando que os seus filmes, de baixo custo e alta rentabilidade estavam patrocinado filmes de grande porte dos estúdios!!! Foi nesse clima caótico, em meio a mudanças musicais que Elvis entrou em março de 1964 pra filmar "Rostabout" (O Carrossel de Emoções). O filme em si é bem legal e a trilha é junto com a de Viva Las Vegas a melhor da década de 60. Surpreendentemente, livre de chatices (com exceção da horrorosa "Carny Town" e umas duas outras musiquinhas fracas) o álbum possuía boas baladas como a lindíssima "Big Love, Big Heartache" e "It´s a Wonderful World" (única música de Elvis que chegou perto de ser indicada ao Oscar), divertidos rocks como a agitada "Hard Knocks" e a otimista "There´s a Brand New Day On the Horizon", além da diferente e ótima "One Track Heart". Na Inglaterra, já completamente tomada pela beatlemania, a trilha alcançou a baixa, para a época, 12ª posição. Porém, nos EUA a trilha surpreendeu e alcançou o primeiro lugar em pleno domínio dos Beatles!!! O último primeiro lugar de um álbum de Elvis até 1973 quanto voltaria ao topo com "Aloha From Hawaii". "Little Egypt" é outra grande canção desse filme. Cortesia da dupla dinâmica Leiber / Stoller, que escreveram grandes clássicos do rock para Elvis na década de 50. A canção é acima da média para uma trilha de Elvis e conta a história verídica de uma dançarina bastante famosa do século retrasado. Acontece que uma outra dançarina com homônima tentou processar Elvis por estar usando o seu nome, porém, ela perdeu a causa. Elvis, apesar de involuntariamente ter rompido com a dupla de compositores gravaria algumas de suas músicas no decorrer de sua carreira como essa, tendo sido "Bossa Nova Baby" a que se deu melhor, ao ser, em 1963, um top 10 americano. Bem ritmada, com uma ótima letra, "Little Egypt" merecia um lançamento em single que nunca ocorreu, devido ao sucesso da trilha!!! Vai entender a RCA! Obteve uma explosiva mini versão para o especial de 1968. Esse take é bem diferente do oficial, mais compassado e um pouco mais rápido.

10. WONDERFUL WORLD (take 7) - O ano de 1968 viria a ser um dos mais marcantes da carreira de Elvis e oficializaria sua volta à cena musical. Porém, o ano começou meio que no desespero, com a indústria Elvis Presley no fundo dos fundos. Lançamentos superiores como "Guitar Man" e "Big Boos Man" mostraram que nem músicas boas estavam se dando bem nas paradas. As últimas sessões em Nashville na década provaram ser um fracasso, com Elvis completando apenas 2 músicas, em vez de o álbum pretendido. "Stay Away Joe" (Joe é Muito Vivo) provaria ser um grande fracasso de bilheteria e a trilha de "Speedway" (O Bacana do Volante) naufragaria em ambos os lados do atlântico. Se artisticamente as coisas iam de mal a pior, pessoalmente Elvis estava muito bem. Casado no ano anterior, Elvis se tornou pai em fevereiro pela primeira vez. Foi nesse contexto misto que Elvis entrou no set de seu novo filme "Live a Little, Love a Little" (Viva Um Pouquinho, Ame um Pouquinho) em março de 1968. Particularmente acho o filme muito estranho. Não diria que ele é de todo ruim, pois foi o filme que claramente rompeu com a fórmula de filmes de Elvis nos anos 60, cujo último representante foi "Speedway" (O Bacana do Volante). Seu antecessor, "Stay Away Joe" (Joe é Muito Vivo) havia sido uma clara mudança na carreira cinematográfica de Elvis. Por pior que seja, temos que lhe dar crédito por mostrar algo diferente, como Elvis galinhando o tempo todo no filme, ao contrário do galante romântico dos anteriores que por mais garotas que pegasse sempre era comportado. O sexo está bem implícito e o clima por mais country que seja, tem um ar de anos 60 sujo. "Live a Little, Love a Little" consolida essa tendência, e é de longe um dos filmes mais adultos de Elvis, onde ele xinga, transa com a sua parceira (fato que não acontecia antes) e onde o filme inteiro Elvis exala um ar maduro e adulto, nunca visto em sua carreira. Era a atmosfera do especial de 1968 pairando no ar. Fora que Elvis estava mais bonitão e mais em forma do que nunca. Porém, o potencial do filme é destruído por um roteiro fraco e extremamente bizarro e surreal, com passagens bem confusas. Mas o forte do filme é sua trilha sonora. Apenas 4 canções foram incluídas e todas de nível muito bom. É o único filme de Elvis da década de 60 que possui uma trilha 100%. "Wonderful World" é a mais fraquinha delas, porém não deixa nada a desejar. Uma espécie de prima pobre de "What a Wonderful World", essa canção clama por uma observação mais acurada de nossa parte, para chegarmos à conclusão de que vivemos em um mundo maravilhoso. Com uma bonita letra e uma melodia extremamente desenvolta, a canção é beneficiada de vocais inspirados de Elvis que no ano de 68 parecia transformar em ouro tudo que tocava. Porém, "What a Wonderful World" era inocente demais para sua época, os amargos e violentos anos 60, e talvez por esse motivo tenha caído no esquecimento. O take aqui apresentado é muito similar ao original. Um curioso momento do CD.

11. THIS IS MY HEAVEN (take 4) - Parece que o encontro de Elvis com os Beatles em 27 de agosto de 1965 não lhe gerou muita fonte de inspiração. Do contrário ele não teria entrado no set de filmagem dois dias depois para afundar sua carreira em níveis assombrosos ao atuar no PÉÉÉÉSSIMO "Paradise Hawaiian Style". Enfatizei o "péssimo", pois além do filme ser muito ruim, me recuso a acreditar que algum ser humano que se preze neste planeta se digne a ouvir esse material e o ache pelo menos atrativo. Com exceção de "Sand Castles", a trilha é pura música trash, uma atrás da outra. Ao contrário de outras trilhas que possuem duas ou três músicas interessantes, esse disco é um desperdício total e definitivamente Elvis nunca esteve tão longe da Sun Records como aqui. O revolucionário da década de 50 que 10 anos antes cantava propostas sensuais de sexo rápido como "Baby Let´s Play House", agora era obrigado a cantar sobre uma vendedora de mamão! Acima do peso, totalmente no piloto automático e contando com um dos roteiros mais capengas e chulos de todos os tempos, lá se foi o antes rei do rock gravar músicas sobre cachorros e criancinhas que querem namorar em "Datin". Muitos críticos costumam dizer que fora "Sand Castles", "This is My Heaven" é a outra música boa da trilha. Discordo totalmente, essa pseudo-balada possui um ritmo insuportavelmente arrastado que não chega a um clímax, é um meio termo entre música havaiana e pop absurdo. O take aqui apresentado é igualmente ruim. Para ser esquecida e reesquecida!!!

12. SPINOUT (take 2) - "Spinout" é uma música interessante. Não pelas suas qualidades, que não são muitas, mas por ser a típica música mediana de Elvis. Sabe aquelas músicas que você acaba de escutar e não se lembra dela, nem do ritmo, nem da letra? Mas ao mesmo tempo também não diz que ela é ruim? Pois é. "Spinout" é assim. Impossível de ser criticada ferozmente, mas também completamente impossibilitada de ser elogiada. Música tema do maior fracasso de Elvis no cinema, a canção tem um ritmo até interessante, porém, que não se desenvolve. A letra é até razoável, porém, também não é lá essas coisas. Foi erroneamente lançada como lado A (!) do único single que representou a trilha, mesmo o filme possuindo excelentes canções como a bombástica "I´ll Be Back" ou a linda "Am I Ready". A posição nas paradas? Adivinhem! Dou um disco original de "Paradise Hawaiian Style" para quem acertar! Claro foi também mediana, mal atingindo o top 40, na......quadragésima posição!!!

13. ALL THAT I AM (take 2) - A trilha de "Spinout" (Minhas Três Noivas) é surpreendentemente livre de músicas ruins. Bom, ou quase. A terrível "Beach Shack" está aí para nos provar o contrário. Mas, a maioria das outras canções é acima da média da época. "All that I Am" é uma baladinha com um estilo meio bossa nova bem interessante. Não figura entre as melhores de Elvis, mas com certeza cai bem em uma ouvidinha esporádica. Possui uma ótima introdução de violão e um ritmo bem agradável. Curiosidade: foi a primeira música de Elvis a contar com o apoio de um violino. Cortesia de Felton Jarvis, que estreava como produtor de Elvis. Foi um grande sucesso na Europa e na Inglaterra onde foi lançada como lado A, sabiamente. Nos EUA a canção ficou com a mixuruca 41ª posição e ainda teve o desprestígio de ser o lado B de "Spinout". Vale a pena ser descoberta.

14. WE´LL BE TOGETHER (take 10) - Explorar a carreira de Elvis em Hollywood vai trazê-lo várias alegrias. Porém, muitas tristezas também. E, algumas coisas inusitadas. Por exemplo, essa simples canção, com Elvis cantando um versinho em espanhol. A música é ok. Não incomoda muito e tem uma melodia bem graciosa, além de um simpático solo de bandolim. Porém, é só. Com um arranjo muito meloso e completamente descaracterizado da maioria das músicas de Elvis, porém não das que ele estava gravando na época, a canção não chega a empolgar e soa meio brega por vezes. É originária do fraquíssimo "Girls! Girls! Girls!" Esse take acaba com Elvis dizendo com a sua característica voz de palhaço: “quase!” Realmente, a versão apresentada aqui é muito boa. Ainda vou além, esse poderia muito bem se o master. Passará despercebida na primeira ouvida.

15. FRANKIE AND JOHNNY (take 1) - Se existe um ano que merece ficar no esquecimento na carreira de Elvis esse é o ano de 1965. Para comprovar esse fato, basta lembrar que "Paradise Hawaiian Style" e "Harum Scarum" são ambas desse período. Elvis, nesse ano, atingiu o auge de sua hibernação musical, não gravando nada além de trilha bobonas. Enquanto isso, a mini saia, a Guerra do Vietnã e a consolidação da invasão britânica aconteciam. Sem mencionar a revolução nas letras das músicas causada por um sujeito chamado Bob Dylan. Mas Elvis permanecia cego perante todas essas mudanças que ocorriam. "Não enfrentar os problemas e fingir que eles não existem" - esse era o lema de Elvis. É desse ano também o filme Frankie And Johhny (Entre a Loira e a Ruiva). Superior ao seu antecessor e ao seu sucessor, o filme não é lá essas coisas, mas passas longe de ser um dos piores. A trilha sonora é bem peculiar com a maioria das músicas usando arranjos dos anos 1920, seguindo a ambientação da película. Agora imaginem vocês, em meados de 1966, quando foi lançado, com a revolução cultural batendo na porta, o quão ridículo e ultrapassado a trilha desse filme deve ter sido considerada. O resultado se fez nas paradas, onde ela alcançou ainda a honrosa 20ª posição, a pior de um álbum de Elvis na década. A trilha em si, apesar de conter momentos péssimos, como a horrenda "Chesay" ou a mortificante "Look Out Brodway", não é das piores. Na verdade algumas músicas se sobressaem como o excepcional blues "Hard Luck", a absurdamente bela "Begginer´s Luck" e a inocente e animada "Shout it Out". A música título é boa e conta a história do filme em menos de 3 minutos. A história é aparentemente inspirada em um fato real ocorrido em 1899 no Missouri. Bem ritmada e com excelente letra, "Frankie And Johnny" não faz feio. Porém, ela é vítima de suas próprias origens. Sendo uma música antiga e com uma melodia bastante próxima às músicas de cabaret, a canção pareceu datada mesmo à sua época de lançamento, com um incomodo trombone como introdução. Na verdade a música é toda orquestrada. A RCA não pensou assim e a lançou como single alcançando a razoável 25ª posição. O take aqui apresentado é o primeiro e tem algumas diferenças em relação ao master. A voz de Elvis ainda está insegura durante toda a música e quase some na parte final, devido a problemas técnicos.

16. I NEED SOMEBODY TO LEAN ON (take 8) - Todos nós sabemos como Elvis era bom de baladas. Basta nos lembrarmos de seu vozeirão em clássicos absolutos como "My Way" ou "Bridge Over Troubled Water". Porém, Elvis também conseguia cantar outro tipo de balada. Aquele tipo bem calmo, quase sussurrando. "Are you Lonosome Tonight" é o maior exemplo. Pois bem, para a trilha do ótimo "Viva Las Vegas" (Amor à Toda Velocidade) Elvis exercitou novamente seu dom de baladeiro com essa canção lindíssima. Simples, com uma suave guitarra e um piano melancólico, a música consegue puxar tanto para o blues como para o jazz, sendo única na carreira de Elvis. Calmamente cantando, quase sussurrando a triste letra, Elvis poucas vezes soou mais sincero. Cortesia dos ótimos Doc Pomus e Mort Shuman que nesse filme contribuíram com suas duas últimas grandes canções, sendo a outra a louca e ultra clássica "Viva Las Vegas". "I Need Somebody to Lean On" é uma senhora balada e uma que poucos conseguiriam cantar. O master original possuía uma pequena diferença de equalização que fazia a voz de Elvis soar como se estivesse distante do microfone. Esse take apresentado corrige o problema. Sentimos cada suspiro de Elvis o que faz com que a música se torne ainda mais linda. Tão bom quanto o master, esse take é ótimo e a música uma das melhores do CD.

17. THE MEANEST GIRL IN TOWN (take 9) - Na carreira de Elvis existem algumas categorias de músicas curiosas. Por exemplo, existem aquelas músicas que possuem letra capenga e ritmo artificial, ou seja, são ruins de doer. Porém, mesmo assim, Elvis entrega uma performance tão incrivelmente inspirada que toda a ruindade da canção fica disfarçada. Como exemplo, citemos a horrorosa "If I´m a Fool" ou a fraquinha "Padre". Em outros casos, a canção é boa, porém, a banda ou Elvis simplesmente não estava inspirada e o resultado é uma canção com potencial, cujo resultado final fica além do esperado. É o caso de "Raised On Rock" e dessa canção do filme "Girl Happy" (Louco Por Garotas). Com um ótimo ritmo agitado e dançante e uma letra legal, "The Meanest Girl in Town" é estragada pela banda que, com exceção do ótimo solo de sax do sempre perfeito Boots Randolph, está no piloto automático. A guitarra está muito fraquinha, a bateria inexistente e o resto da instrumentação está tão apagada da gravação que difícil analisá-los. E a performance de Elvis é triste e desempolgada, além de sua voz não estar nem 50% do seu normal. Falta aquele feeling na música, aquela pegada. Esse take é melhor que o master, por possuir um solo mais inspirado de sax. A banda parece aparecer um pouco mais. Mas nada que se destaque. Uma ótima canção que foi desperdiçada, sem dúvida.

18. NIGHT LIFE (take 3) - "Viva Las Vegas" (Amor à Toda Velocidade) não é só o melhor filme de Elvis da década de 60. É também o mais alegre, descompromissado e melhor dirigido. Some a isso uma co-estrela da altura de Ann Margret, um tórrido caso de romance fora das telas e você terá um filme deliciosamente divertido. E para completar a trilha ainda é a melhor da década também. Claro que algumas porcarias como "Do The Vega" foram escritas para o filme, mas felizmente não foram lançadas e pouco são lembradas quando se fala em "Viva Las Vegas". Com clássicos absolutos como a música título e "What I´d Say", baladas de alto nível ("Today Tomorrow and Forever" e "I Need Somebody To Lean On"), rocks agitados e alegres ("C´mon Everybody" e "If You Think I Don´t Need You"), a trilha é realmente excelente. Porém, nem tudo que foi produzido foi aproveitado. "Night Life" foi uma das músicas descartadas. Uma espécie de alter ego de classe baixa de "Viva Las Vegas" (as letras são muito parecidas), "Night Life" possúi uma ótima letra e uma melodia bem suja, cortesia do irregular trio Giant, Baum e Kaye que aqui entregam um trabalho de bom nível, porém que não conseguiu acompanhar o patamar da trilha. Nesse take Elvis claramente erra a letra e ao fim é possível ouvi-lo falando com o produtor sobre isso. Uma canção boa, porém, que fica perdida em meio a trabalhos superiores.

19. PUPPET ON A STRING (take 7) - Essa bela e delicada balada é odiada por alguns fãs. O motivo disso não sei, pois a acho linda e extremamente bem cantada por Elvis, que impõe aquela doçura na voz necessária para não deixar a música piegas. Com um ritmo que lembra uma canção infantil "Puppet On a String" é uma música classicamente romântica, mas tem algo diferente nela. E o que, sempre me perguntei. Ao assistir ao filme entendi. Sem querer Elvis meio que incorporou o personagem Russel ao cantá-la. Explico-me. No filme, Russel é um bom vivant, mulherengo e um solteiro convicto, sempre atrás de um rabo de saia. Quando conhece a personagem de Shelley Fabares, uma menina boazinha, mas com um corpo e rosto deslumbrante, apesar de sua pouca idade, Russel fica enlouquecido e completamente apaixonado, exatamente por Valerie, personagem de Shelley, ser diferente de todas as mulheres com quem ele se relacionava, maduras, sexies e maliciosas. Quem é homem entende o nosso apego a essas menininhas inocentes e frágeis que aparecem em nossas vidas. Isso acontece com o personagem de Elvis (você nunca pensou que leria uma análise psicológica de um personagem de um filme de Elvis na década de 60, não é mesmo?). E o momento em que ele canta a música para Valerie, é exatamente quando ele está mais vulnerável e fragilizado. O que nos leva o assunto da música, que fala de um sujeito idêntico ao do personagem de Elvis no filme, surpreendentemente apaixonado por uma garota e totalmente entregue a ela, porém de uma forma até pueril. Dessa vez os escritores da Hill & Range, Sid Tepper e Roy C. Bennet, acertaram em cheio e produziram um número em total consonância com o filme, mas que não perde nada ao ser executada fora dele. O público da época a acolheu bem, quando lançada como single, alcançando o 14º lugar. Porém, ela foi logo depois esquecida por Elvis e pelo grande público. Uma pena. Nesse take, Elvis ainda está bem inseguro na canção, fugindo ligeiramente do tempo. Um típico alternate take.

20. HEY LITTLE GIRL (take 1 e 2) - Sempre gostei bastante das músicas de Joy Byers. Com uma leveza inocente e um ritmo, em sua maioria alucinante, suas músicas podiam ser animados rocks como a excelente "C'mon Everybody" ou "Hard Knocks", passando por tenras baladas como "Please Don't Stop Lovin' Me". Além disso, ele é responsável por uma das melhores e menos aproveitadas músicas da carreira de Elvis, a maliciosa "Let Yourself Go". Raríssimas músicas desse autor são verdadeiramente ruins. Nessa categoria, na verdade só me recordo do lixo tóxico, chamado "Hey Hey Hey". Joy deve ter tomado um ácido muito ruim ou coisa parecida para escrever tamanha porcaria. Mas a maior parte do seu trabalho é bom. Existem, contudo, duas músicas razoáveis, que não incomodam, mas também não fazem história: a insossa "She's a Machine" e esta de "Harum Scarum", "Hey Little Girl". Aliás, diga-se de passagem que a 'única música decente da trilha desse “filme” é de Joy, a evocativa "So Close Yet So Far", onde Elvis tem uma interpretação primorosa. O resto da trilha é horrível. "Hey Little Girl" possui ótimo ritmo, uma das características das músicas de Joy, porém tem uma letra fraquíssima, que se não incomoda, deixando a desejar. Possui rima artificial e um solo de guitarra que envergonharia até o guitarrista do Roberto Carlos. Porém, a introdução de piano tem uma pegada legal e o vocal de Elvis no master está bom. Esses dois takes são bem diferentes do original, devido a entonação de Elvis. Prefiro a usada no master mais forte e vigorosa, dando alguma vida a essa música um pouco apagada, mas que passa longe de ser das piores.

21. EDGE OF REALITY (take 6) - Apesar de ter começado de forma similar a outros anteriores, com Elvis enfrentando problemas em conseguir material de qualidade e encarando uma decaída nunca antes vista em sua carreira em termos de popularidade, 1968 teve um Q a mais. Começando pela vida pessoal de Elvis que foi fortemente alterada, de uma forma positiva, pelo nascimento de sua filha. Marido e agora pai, Elvis estava no auge de sua beleza e forma física aos 33 anos. As costeletas estavam de volta e a organização Elvis Presley finalmente começou a entender que os anos 60 haviam chegado ao fim e que era inevitável fugir deles. O reflexo disso se deu nos próprios filmes, que se não melhoraram a qualidade, pelo menos, passaram a sofrer influências psicodélicas da época. "Change of Habit" (Ele e as Três Noviças) é o maior exemplo. As últimas trilhas melhoraram o nível. E os próprios compositores que antes só escreviam bobagens começaram a se adaptar aos novos tempos. É o caso do trio Giant, Baum e Kaye que foram autores de algumas das piores músicas do século passado. Porém, no fim dos anos 60, a qualidade de seu trabalho foi lançada a níveis extraordinários, como mostra essa canção aqui apresentada do filme "Live a Little Love a Little". "Edge of Reality" é uma música complexa que fala da loucura de um amor arrebatador. Com uma letra não literal, um ritmo denso e inusitado, uma orquestra afinadíssima e Elvis no auge dos vocais, a música se destaca não só na filmografia de Elvis, como também na sua própria carreira, constituindo-se um excelente exemplo de evolução musical com toques nítidos do psicodelismo. Esse take aqui apresentado é quase a cópia do original, o que não diminui a ótima experiência de ouvi-la. Nota dez.

22. BABY I DON'T CARE (take 6) - Única música dos anos 50 presente no CD, "Baby I Don´t Care" é um clássico absoluto do rock dos anos 50, cortesia dos igualmente bons Leiber e Stoller. Gravada em 1957, quando Elvis estava botando fogo na hipócrita América, para o filme "Jailhouse Rock" (O Prisioneiro do Rock) outro clássico absoluto, essa canção foi ofuscada pelo sucesso de da música título. Criminosamente não foi lançada como single, talvez por falta de tempo e abundância de material de qualidade. Possui ótimo ritmo e uma letra bem alegre. O destaque vai para o baixo, tocado pelo próprio Elvis, pela única vez em sua carreira!!! O que ocorreu foi que na sessão de gravação, Bill Black, não acostumado com o baixo elétrico, não estava conseguindo fazer a introdução. Irritado Bill jogou o baixo no chão e se retirou. Elvis, surpreendentemente, em vez de se irritar, apanhou o baixo e o tocou durante a canção inteira. Portanto, o baixo que você escuta no original é de Elvis! Por causa disso, Elvis teve que colocar sua voz posteriormente, na gravação de estúdio. O take apresentado aqui é o do master, porém, só a voz de Elvis, sem o acompanhamento musical. Uma maneira curiosa de encerrar o CD, com uma grande canção.

Recomendo esse CD para todos os amantes de Elvis em Hollywood e para aqueles que querem conhecer algumas gemas ocasionais de sua discografia e algumas podreiras bem desnecessárias. Mas, Elvis em Hollywood é assim, uma montanha russa com curvas que lhe fazem ter vontade de vomitar e outras que lhe dão uma injeção de adrenalina.

Victor Alves e Pablo Aluísio.