quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Brigitte Bardot e Shalako

Poucos ainda se lembram desse western chamado "Shalako". O que mais chama atenção aqui é o seu elenco. Sean Connery jamais se notabilizou ao longo de sua carreira por ter atuado em faroestes. Na verdade ele fez apenas um western em toda a sua longa carreira e foi justamente esse "Shalako". Por essa razão ele sempre parece deslocado naquela ambientação. Era mesmo complicado dissociar sua imagem da de James Bond, algo que ele vinha tentando fazer naqueles tempos. Outra que parece fora de seu habitat natural é a atriz Brigitte Bardot. Apesar de ser um mito de beleza, moda e cinema na época, ela não tinha ainda se firmado no mercado americano (algo que nunca iria acontecer, diga-se de passagem). BB tinha problemas de aprendizado com a língua inglesa, o que era de se admirar, pois o inglês é uma língua bem simples, diria até mesmo básica, bem longe da riqueza das línguas latinas históricas tradicionais como o francês e até mesmo o nosso português. Geralmente é bem mais fácil uma pessoa de língua latina aprender o inglês do que o contrário. Americanos em geral apresentam uma grande dificuldade em aprender português e francês, por exemplo, justamente por causa da riqueza linguística desses idiomas europeus milenares. Bardot porém não levava jeito e isso acabou de certa forma com sua carreira na América. Nesse filme ela faz um esforço e tanto para declamar bem seu texto na língua inglesa, mas sinceramente falando ela não se sai bem. Muito provavelmente Bardot tenha tido consciência disso ao assistir ao seu próprio filme e nunca mais trabalhou em outra produção que não fosse rodada em sua língua natal.

Ela interpreta uma condessa que vai até o oeste americano para caçar e viajar. Acredite, muitos nobres europeus fizeram essa viagem no século XIX. O oeste dos Estados Unidos era considerado um mundo selvagem, uma terra sem lei, ótima para caçar animais selvagens nas distantes pradarias sem fim. Muitos membros da realeza da Europa ansiavam por aventuras e histórias pitorescas para contar nas cortes mais sofisticadas do velho continente e por isso faziam essa estafante viagem rumo ao novo mundo. Aliás é importante salientar que a América do Norte naqueles tempos ainda era considerado um ambiente rústico, primitivo, sem qualquer tipo de sofisticação. Assim os europeus iam para lá com o mesmo espírito que os animavam a viajar até os confins da África. Ambos os continentes eram subdesenvolvidos, com quadro político e social bem turbulento. Os Estados Unidos, acredite, era considerado uma nação de segunda ou até mesmo terceira categoria para um francês ou inglês de sangue azul. Para um europeu a Califórnia era considerada tão atrasada quanto qualquer região da África subsaariana. Isso é bem explorado no filme quando um grupo de viajantes da distante e esnobe Europa invade sem saber uma reserva dos nativos Apaches. Quando eles são ameaçados a deixarem a região o sentimento de todos no grupo é de ironia e até mesmo escárnio - imagine ser chantageado por aqueles povos primitivos! Um absurdo!

Sean Connery, o astro principal do filme, interpreta Moses "Shalako" Carlin, um ex- Coronel do Exército da União que participou ativamente dos tratados de paz firmados com aqueles nativos. Quando ele percebe que algo muito sério está prestes a acontecer por causa daqueles europeus desavisados e insensatos terem invadido território Apache, ele tenta de todas as formas evitar um banho de sangue. Ele já havia salvado a vida da Condessa interpretada por BB e agora tinha que usar de todo jogo de cintura para evitar uma nova guerra entre os Apaches e os homens brancos. Afinal para os nativos não importava que aquele grupo fosse europeu e não americano, o que tinha relevância era o fato de que eles eram invasores e estavam ali rompendo tratados firmados com o exército americano.

Por fim um fato relevante a se falar sobre essa produção "Shalako". Muitos gostam de afirmar que a globalização é algo recente. Ledo engano. Aqui temos uma produção anglo-alemã, estrelada por uma francesa (Brigite Bardot) e um escocês (Sean Connery), com direção de um cineasta americano (Edward Dmytryk) e filmado nos desertos da Espanha (Almería, Andalucía). Quer algo mais globalizado do que isso? Pois então. Esse filme foi realizado em uma época em que os investidores mundo todo começaram a ver o cinema como um belo caminho para se ter um bom retorno lucrativo. Ao invés dos grandes estúdios americanos monopolizando a produção de filmes como esse, começou-se a ir atrás de investidores privados, pessoas que queriam apenas alcançar um bom lucro de suas reservas investidas na produção de filmes. Esse sempre foi um aspecto subestimado de mudança dentro da indústria cinematográfica que poucos prestaram atenção. Com o rompimento dos laços com as majors americanas houve também uma explosão de criatividade entre os diretores e roteiristas que começavam a chamar a atenção naquela época, para a felicidade dos cinéfilos de todo o mundo. De fato o cinema nunca mais seria o mesmo depois da década de 1960. Era um novo mundo na sétima arte que começava a nascer.

Pablo Aluísio.

sábado, 26 de dezembro de 2015

George Harrison - Verdades e Mentiras

Por que George Harrison ficou conhecido como o "Beatle Quieto"? George sempre adotava uma postura muito discreta e quase nunca falava com jornalistas. As atenções pareciam sempre estar focadas em Paul McCartney e principalmente em John Lennon por esse ser sempre uma pessoa muito polêmica. Conforme explicou anos depois o próprio George não parecia muito interessado em jornais, matérias ou publicidade. A parte que realmente lhe interessava na carreira era a musical, nada mais. Criar polêmicas, soltar frases de efeitos ou aparecer em demasia na mídia não faziam sua cabeça, tanto que após se separar dos Beatles raramente voltou a conceder entrevistas. Raras foram as vezes que abriu espaço para jornalistas em sua carreira solo, nem quando ia aos Estados Unidos realizar turnês que precisavam desse tipo de publicidade. Lidar com a imprensa definitivamente não era com George. Por ter colaborado tão pouco nesse aspecto passou a ser chamado pelo órgãos de imprensa como "O Beatle Quieto".

George Harrison foi traído por Eric Clapton?
Sim, a primeira esposa de George o traiu com Eric Clapton. George Harrison conheceu Pattie Boyd quando ela foi convidada para cortar o cabelo dos Beatles ao lado de outras modelos para a matéria de uma popular revista inglesa. Tudo fazia parte do material promocional do filme "A Hard Day´s Night". George ficou encantado com sua beleza e semelhança com a atriz Brigitte Bardot. Deixando a timidez de lado ele a convidou para jantar fora. O namoro foi breve e após um relativamente curto período de relacionamento, se casaram. Poucos meses depois do fim dos Beatles o casamento entrou em crise. George começou a se dedicar a cada vez mais em se aprofundar na sua religião e negligenciou sua esposa. Passando longos períodos fora de casa o relacionamento esfriou. Pattie viu que o casamento estava falido e começou a procurar amantes, a maioria deles músicos, entre eles o Rolling Stone Ronnie Wood. Depois conheceu pessoalmente Eric Clapton e se apaixonou por ele perdidamente. George havia se tornado apenas um farto em sua vida e ela, sem pensar muito e nem olhar para trás, trocou Harrison por Clapton. Anos depois se casaria com ele.

Como era o relacionamento entre George Harrison e John Lennon?
No começo John Lennon tratava George Harrison praticamente como um pupilo. Havia uma diferença de idade entre eles e Harrison tratava Lennon quase como a um mestre a ser seguido. No fundo o admirava tanto que quase o idolatrava. O próprio John lembrou disso quando anos depois criticou a autobiografia do colega de banda. Com o tempo George começou a se sentir deixado de lado e criou-se uma tensão entre eles, principalmente por causa dos rumos que os Beatles trilhavam na época. Harrison queria mais espaço nos discos, mas John estava sempre tirando muitas de suas composições do repertório final dos álbuns. Quando Yoko Ono entrou na vida do grupo as coisas azedaram de vez. George não gostava de Yoko e a criticava abertamente o que enfurecia John. Para George era um absurdo ter Yoko dentro dos estúdios, por exemplo. John Lennon que sempre fora muito brigão comprou a briga e ambos começaram a ter discussões furiosas durante as sessões de gravação. Chegaram ao ponto de ficarem sem se falar por meses. O ápice das brigas aconteceu justamente quando John Lennon sugeriu que Yoko se tornasse uma Beatle, algo que George considerava uma maluquice sem tamanho.

George tinha ressentimentos da dupla Lennon e McCartney?
No começo dos Beatles, George não sentia necessidade de participar mais ativamente dos discos. Ele ficava feliz e satisfeito em fazer os principais solos do grupo. Porém quando começou a fazer suas próprias composições começou a ficar muito insatisfeito quando as músicas eram tiradas dos álbuns por John Lennon. Sempre muito ácido o líder dos Beatles geralmente tinha coisas amargas ou críticas destrutivas para desqualificar as criações de George. Quando alguma música ganhava destaque, como "Taxman", John corria para a imprensa para dizer que havia composto pelo menos metade da canção o que deixava George muito chateado e muitas vezes até humilhado com esse tipo de declaração pública. Quando o grupo finalmente atingiu a maturidade musical George começou a brigar por mais espaço nos discos o que acabou se tornando mais um foco de brigas entre os membros da banda.

O que matou George Harrison?
Durante toda a vida George Harrison foi um fumante inveterado. Sua média era dois maços de cigarro por dia e isso era um hábito que o acompanhava desde os tempos da adolescência, quando era apenas um jovem colegial. O tabagismo descontrolado acabou sendo a causa do surgimento de um fulminante câncer de pulmão que George tentou de todas as formas combater, mas que em estado avançado já havia se tornado incurável. Nos momentos finais George ainda teve a intenção de participar de uma campanha nacional contra o fumo e o tabagismo, porém já não tinha saúde suficiente para isso. Ele morreu se lamentando por seu vício em cigarros, o que acabou lhe custando a própria vida.

Como era George Harrison fisicamente?
George Harrison era o mais jovem dos Beatles, porém era um dos mais altos. Ele tinha 1.77m de altura. Outra característica física que chamava a atenção era o fato de George ser também muito magro, chegando a ter no máximo 62 quilos. Harrison não cultivava uma vida muito saudável pois era fumante e usava drogas, porém geneticamente parecia predisposto a ser magro. Também não era um homem de exageros na mesa, procurando na maioria das vezes consumir apenas frutas e alimentos leves, algo que foi reforçado quando foi para a Índia nos anos 60.

George Harrison era viciado em drogas?
Como todos os demais Beatles, George também foi um usuário contumaz de drogas. No começo a maconha, que acompanhava os Beatles desde os primeiros tempos na estrada, na Alemanha, quando ainda eram desconhecidos. Depois vieram a cocaína e a LSD na fase lisérgica do grupo. A heroína entrou em sua vida após o fim dos Beatles. As drogas inclusive foram apontadas pela primeira esposa de George, Pattie Boyd, como uma das causas do fim do casamento. Ela revelou que por volta de 1970 o consumo de drogas por parte de George Harrison havia fugido do controle. Ele passava o tempo todo cheirando carreiras e mais carreiras de cocaína, algo que nem sequer a religião conseguiu colocar um freio. O vício de George se tornou bem mais notório ao público após uma apresentação desastrosa quando subiu ao palco completamente "alto" em uma de suas turnês americanas durante a década de 1970.

Como George Harrison via o movimento hippie?
George Harrison foi convidado para participar de um festival de música, com ampla participações de jovens hippies e depois que chegou lá não se conteve. George confessou que havia ficado chocado ao chegar no local e constatar que tudo o que havia lá era um bando de jovens drogados rolando pela lama. Harrison havia ido fazer um show pela paz, mas não encontrou ninguém muito interessado em sua mensagem. Ao invés disso viu um mercado aberto de vendas de drogas. A partir desse evento George Harrison, nas poucas declarações que fez, sempre se mostrou disposto a criticar o movimento hippie que havia perdido seu caminho original.

Quantos filhos teve George Harrison?
George Harrison teve apenas um filho, Dhani Harrison, fruto de seu casamento com Olivia Harrison. Ele nasceu em 1978, durante o segundo casamento do cantor. O interessante é que essa segunda união acabou trazendo uma certa calmaria na vida de Harrison. Ao contrário de seu complicado casamento com Pattie Boyd, aqui George parecia finalmente ter encontrado uma mulher que tinha uma personalidade mais calma e discreta, tal como ele. Esse acabou sendo talvez o grande segredo de seu matrimônio feliz e estável ao lado da segunda esposa.

George Harrison foi processado por plágio?
Sim, várias vezes e perdeu vários dos processos. Em sua defesa Harrison alegava que era muito complicado determinar o que seria um plágio ou não, já que a música, formada de notas musicais, tinha a natural tendência de seguir uma certa linha, uma certa tradição. Assim as semelhanças que por acaso surgiam em suas composições nada mais eram do que coincidências vindas desse tipo de memória musical. Sua defesa porém não foi acolhida no tribunal. O caso mais prejudicial aconteceu com a canção "My Sweet Lord" do álbum "All Things Must Pass" onde George precisou pagar uma pesada indenização por plágio aos autores originais.

George Harrison foi esfaqueado por um fã?
Não exatamente... Em 1999 um drogado invadiu sua casa para roubar objetos da mansão. George que não tinha qualquer tipo de segurança em sua casa (apesar da morte brutal de John Lennon) ouviu barulhos na parte de baixo da casa. Ao ir até a sala encontrou o assaltante (um homem de 33 anos, viciado em drogas, chamado Michael Abram). George e o criminoso começaram a lutar e esse deferiu uma facada em George. Desesperada a mulher de Harrison, Olivia, jogou um pesado objeto na cabeça de Abram que foi imediatamente ao chão. Aquela tinha sido uma péssima semana para o casal pois George havia sido informado poucos dias antes que seu câncer havia se espalhado em seu organismo, tornando seu tratamento praticamente inútil. O agressor não era fã dos Beatles (ao contrário do assassino de John Lennon).

Qual era o principal hobby de George Harrison?
George adorava passar horas e horas em seu jardim. Era um apaixonado por flores e jardinagem em geral. Também sentia enorme prazer em participar de eventos que reuniam admiradores de jardins como ele. Chegou a registrar em várias filmagens amadoras esse hobby que tanto adorava. Passava dias e dias preocupado com as novas e raras orquídeas que plantara em seu quintal.

Como era a relação entre George Harrison e Paul McCartney?
Foi Paul quem trouxe George para os Beatles. Eles se conheceram ainda bem adolescentes pois pegavam o mesmo ônibus quando retornavam da escola. A música foi o interesse em comum que os uniu. Paul logo foi convidado por George para ir até sua casa onde ele queria mostrar alguns acordes que tinha criado. Depois de ver o colega tocar Paul percebeu que ele poderia fazer parte de sua nova bandinha que estava montando com um cara mais velho, John Lennon. Quando Paul levou George para conhecer John esse não ficou muito impressionado. Achou George jovem demais para ser levado à sério, mesmo assim concordou com sua entrada nos Beatles. O resto é história. Os Beatles se tornaram o grupo de rock mais popular da história. Com o tempo o sempre presente perfeccionismo de Paul começou a irritar George. A velha amizade também foi abalada por processos judiciais após o fim da banda. Quando surgiu a ideia do projeto "Anthology" o maior problema era realmente reconciliar Paul e George já que eles passaram anos e anos sem se falarem. A amizade nunca mais foi a mesma.

Qual era a música preferida de George em sua fase Beatles?
George Harrison considerava "Something" sua maior obra prima, seguida de "Here Comes The Sun", ambos do disco "Abbey Road". É interessante que o auge da criatividade de Harrison tenha se dado justamente na fase final do grupo quando os Beatles já estavam prestes a se separar. Durante seus anos nos Beatles, George Harrison compôs centenas e centenas de músicas que não conseguiam encontrar espaço nos discos do conjunto. Assim quando os Beatles finalmente chegaram ao fim George juntou todo esse material e acabou gravando o disco de sua vida, "All Things Must Pass", considerado o grande trabalho de sua carreira solo.

Pablo Aluísio.

A Visita

Título no Brasil: A Visita
Título Original: The Visit
Ano de Produção: 2015
País: Estados Unidos
Estúdio: Universal Pictures
Direção: M. Night Shyamalan
Roteiro: M. Night Shyamalan
Elenco: Olivia DeJonge, Ed Oxenbould, Deanna Dunagan, Peter McRobbie, Kathryn Hahn
  
Sinopse:
Dois irmãos adolescentes vão até uma fazenda distante pertencente aos seus avós. Eles não se conhecem. Será a primeira oportunidade de conviverem juntos. A mãe dos meninos brigou feio com seus pais quando foi embora de casa e não fala com eles há mais de 15 anos. Agora os netos terão, pela primeira vez, a oportunidade de conhecer o seu avô e sua avó.  Quando chegam em seu destino acabam achando o casal bem excêntrico e estranho. Eles exibem um estranho comportamento que vai ficando pior com o passar do tempo ao ponto em que os jovens se desesperam para irem embora, mas como vão conseguir sair vivos daquela isolada fazenda gelada? Filme indicado ao Phoenix Film Critics Society Awards na categoria de Melhor Ator juvenil (Ed Oxenbould).

Comentários:
Quem diria que o outrora tão admirado cineasta M. Night Shyamalan iria acabar dirigindo um mockumentary de terror como esse?! Pois é, o mundo dá voltas. O mais interessante é que embora haja na história do filme uma daquelas típicas reviravoltas tão comuns em sua filmografia, nada é muito surpreendente ou fantasioso demais em seu roteiro. Na verdade M. Night Shyamalan pareceu se contentar em escrever um roteiro bem convencional, diria até mesmo banal. Claro que em determinado momento haverá uma grande surpresa para o espectador porém nem isso causará maior espanto (nada comparável com "O Sexto Sentido" ou "A Vila", por exemplo). O roteiro finca o pé no realismo e Shyamalan parece contido e comportado demais para seu estilo. Ele tenta assim criar suspense e medo em uma situação que pensando bem poderia acontecer com qualquer adolescente de férias. Os dois irmãos do filme não conhecem seus avós. Assim quando surge uma chance de irem até a fazenda deles os conhecerem pessoalmente, preferem não perder a oportunidade. Mal sabem na armadilha que estão se metendo. Há furos de lógica na trama, mas nada muito comprometedor. Como escrevi, o diretor parece muito sóbrio, longe de seus conhecidos arroubos e delírios de imaginação. No final fica aquela sensação de que você perdeu 90 minutos de sua vida vendo algo comum, bem mediano realmente. Por essa razão não vá criar muitas expectativas apenas pelo fato do filme ser roteirizado e dirigido por M. Night Shyamalan. Seus dias de suposta genialidade (ele chegou a ser comparado a Alfred Hitchcock!) parecem perdidos para sempre em um passado bem distante. Hoje ele não passa de um diretor como tantos outros que existem por aí.

Pablo Aluísio.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

Jogos Vorazes: A Esperança - O Final

O texto contém spoiler. Assim se você ainda não assistiu ao filme aconselho que não siga lendo as linhas a seguir. Esse é o último filme da franquia "The Hunger Games" e desde já me pareceu ser também o melhor. A trama é bem mais objetiva, segue uma direção mais determinada e a conclusão de tudo me soou muito coerente. No começo "Jogos Vorazes" não me agradou. O primeiro filme é bem excessivo, kitsch e sem muita originalidade. A sorte é que esse é tipicamente o caso de franquia que vai melhorando com o passar do tempo, com o surgimento de novos filmes. O ápice dessa saga, tanto em termos de conclusão da história como em qualidade, acontece justamente aqui. Como eu escrevi a trama é simples e direta: os rebeldes finalmente chegam para conquistar a Capital Panem. Katniss Everdeen (Jennifer Lawrence) ainda é vista como um símbolo, uma imagem para inspirar as tropas rebeldes, mas ela quer mais do que ser apenas uma garota propaganda da causa. Ela quer ir para o front, enfrentar o inimigo. Contrariando ordens superiores e agindo de acordo com sua própria vontade ela segue em frente. Em pouco tempo se une às forças que vão invadir a Capital. No fundo o que ela mais deseja é encontrar o Presidente Snow (Donald Sutherland) para um acerto de contas final. Como era de se esperar as melhores cenas acontecem justamente durante essa invasão. O grupo de Everdeen precisa avançar pelas ruas da capital lidando com várias armadilhas dentro da cidade, algumas bem boladas que proporcionam ótimas sequências de efeitos especiais (a produção, como não poderia deixar de ser, é das melhores). Entre as cenas que se destacam há uma em particular que eleva bastante o nível do filme, justamente quando Katniss encontra um grupo de criaturas que os atacam no subsolo da cidade. Cheguei até mesmo a me lembrar vagamente dos monstros vampiros de "Blade".

Depois o grupo avança e finalmente chega nas portas da mansão do Presidente Snow. Os rebeldes surgem disfarçados de refugiados (embora não proposital, essa é uma interessante referência ao momento atual vivido na Europa). Uma vez lá acontece o massacre de inocentes que irá determinar todo o destino dos rebeldes e da tirania de Snow. Aqui há uma reviravolta interessante que vale pela franquia como um todo. Embora "Jogos Vorazes" seja um produto nitidamente adolescente aqui a autora Suzanne Collins teve um ótimo momento de inspiração ao colocar algo que é mais corriqueiro do que se pensa (e que, surpresa, vale como alegoria política até mesmo no que acontece em nosso país atualmente). Uma vez assumindo o poder a líder rebelde Alma Coin (Julianne Moore), portadora de tantas esperanças por mudanças por parte das populações oprimidas dos distritos, começa a agir justamente como o deposto presidente Snow. Ela ignora conselhos, promovendo execuções sumárias e propõe até mesmo a volta dos "Jogos Vorazes", um absurdo completo. A oposição ao colocar as mãos no poder muitas vezes acaba agindo mais cruelmente do que a própria tirania que ajudou a combater e derrubar! Sabendo muito bem disso o clímax acontece na praça central quando Katniss tem a oportunidade de executar o próprio presidente Snow ou até mesmo a agora empossada nova presidente Coin, que finalmente mostra a que veio, revelando suas verdadeiras intenções. Tudo se resume em escolher o alvo certo! É a melhor cena de toda a franquia e a mais representativa também. Traz uma bela lição de moral, para não esquecer. Por fim, nem a última sequência, bastante reforçada com pieguice sentimental, consegue estragar o que aconteceu momentos antes. Então é isso. O filme não foi o sucesso espetacular de bilheteria que o estúdio esperava, mas tampouco pode ser considerado como uma decepção ou algo assim. É de fato o melhor filme da franquia, fechando com chave de ouro uma série de filmes marcados pela irregularidade ao longo de todos esses anos.

Jogos Vorazes: A Esperança - O Final (The Hunger Games: Mockingjay - Part 2, EUA, 2015) Direção: Francis Lawrence / Roteiro: Peter Craig, Danny Strong, baseados na obra de Suzanne Collins / Elenco: Jennifer Lawrence, Donald Sutherland, Julianne Moore, Philip Seymour Hoffman, Woody Harrelson, Josh Hutcherson, Liam Hemsworth / Sinopse: Os rebeldes dos distritos que lutam contra a tirania do Presidente Snow (Sutherland) finalmente conseguem entrar na capital Panem. A luta promete ser rua a rua, casa a casa, pelo controle do poder. Filme indicado ao prêmio da Broadcast Film Critics Association Awards na categoria de Melhor Atriz (Lawrence).

Pablo Aluísio e Júlio Abreu. 

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Guia de Episódios - Game of Thrones - Quarta Temporada

Game of Thrones 4.01 - Two Swords
Primeiro episódio da quarta temporada desse enorme sucesso da TV americana, "Game of Thrones". Tyrion Lannister (Peter Dinklage) começa o episódio colocando em prática sua habilidade em diplomacia ao receber o nobre Oberyn Martell (Pedro Pascal) em suas terras. Ele não era o esperado, mas sim seu irmão velho que está no trono, porém como há rivalidades antigas entre as duas famílias, principalmente envolvendo o clã Lannister, Tyrion procura amenizar o mal estar. O príncipe Oberyn inclusive parece pouco interessado em política, estando mais focado em participar de orgias e quem sabe vingança contra aqueles que mataram sua irmã no passado. Longe dali, nas muralhas, Jon Snow (Kit Harington) é julgado por ter se envolvido com uma selvagem e ter participado de alguns atos criminosos que vão contra as regras de sua ordem. Após um tenso processo ele é finalmente dispensado de qualquer pena (pelo menos provisoriamente). Há um iminente ataque sendo preparado e Snow procura alertar seus superiores do perigo, embora não seja muito bem sucedido sobre isso. Tyrion Lannister também está com problemas em sua vida pessoal. Sua esposa, deprimida, se recusa a se alimentar. O casamento forjado não lhe fez bem e a tristeza e a depressão aumentam a cada dia. Por fim, fechando com chave de ouro o episódio, Arya Stark (Maisie Williams) e o antigo "Cão de Guarda" do rei, Sandor 'The Hound' Clegane (Rory McCann), encontram numa taverna membros do exército de Joffrey Baratheon! Não será um dos encontros mais amigáveis da série. O que podemos dizer mais sobre "Game of Thrones"? Os roteiros são excelentes, produção digna de qualquer grande produção para o cinema e um elenco afiado compõe um dos mais bem sucedidos programas dos últimos tempos. Mais uma amostra do maravilhoso trabalho desenvolvido pelo canal HBO. Simplesmente imperdível! / Game of Thrones 4.01 - Two Swords (EUA, 2014) Direção: D.B. Weiss / Roteiro: George R.R. Martin, David Benioff / Elenco: Peter Dinklage, Nikolaj Coster-Waldau, Lena Headey, Kit Harington.

Game of Thrones 4.02 - The Lion and the Rose
A quarta temporada de "Game of Thrones" já começa em alta intensidade. Nesse episódio temos alguns eventos marcantes da série. O vaidoso e arrogante Rei Joffrey Baratheon (Jack Gleeson) se casa com sua nova consorte. Um sujeito insuportável e despreparado, cheio de atitudes juvenis e constrangedoras, que parece ter a firme convicção que reinará por longos anos. O que ele não sabe é que já existe todo um complô para acabar com seu breve reinado. Bem no meio das festividades Joffrey começa a se indispor com Tyrion Lannister (Peter Dinklage). As provocações já começam com a pequena trupe de anões que se apresenta na corte. Com todos vestindo trajes de combate eles recriam, em tom burlesco, os principais momentos das sangrentas guerras que assolaram todos os reinos. A piada de mau gosto abre sorrisos amarelos em todos, afinal ninguém ali arrisca contrariar as idiotices do Rei Joffrey. Tyrion porém não deixa barato e afirma ser um desrespeito aquele show de horrores sem graça para com os que morreram nos campos de batalha. A atitude do pequenino  Lannister desperta o pior lado do monarca que resolve a partir daí humilhar o máximo possível Tyrion. O nomeia seu serviçal e pede que ele lhe sirva vinho, mantendo seu copo sempre cheio - uma óbvia forma de rebaixá-lo na frente de todos. O que ele não contava é que estaria prestes a provar de seu próprio veneno, literalmente falando. Episódio adaptado para a TV a partir do texto original "A Song of Ice and Fire" de George R.R. Martin / Game of Thrones 4.02 - The Lion and the Rose (EUA, 2014) Direção: Alex Graves / Roteiro: George R.R. Martin, David Benioff / Elenco: Peter Dinklage, Nikolaj Coster-Waldau, Lena Headey.

Game of Thrones 4.03 - Breaker of Chains
Não foi um grande episódio, mas manteve o excelente nível de Game of Thrones. Nos Estados Unidos a série é uma verdadeira febre. Confesso que ao longo de todas essas temporadas fui gradativamente perdendo o interesse. Sigo por uma questão de estar antenado com as novidades, mas realmente não há muito o que celebrar. Um dos problemas que aponto nessa quarta temporada é a lentidão com que os roteiristas vão desenvolvendo os episódios ultimamente. Com duração em média de 50 minutos de duração era de se esperar que acontecesse mais coisas. "Breaker of Chains" retrata bem esse estado de coisas. Embora o episódio seja longo nada de muito especial acontece. As melhores cenas são aquelas em que Tyrion Lannister (Peter Dinklage) está na prisão, conspirando para arranjar um jeito de sair de lá. Fora isso temos o longo funeral do Rei Joffrey Baratheon (Jack Gleeson). Há uma cena especialmente gratuita e sensacionalista de sexo, bem embaixo do corpo do monarca! Será que o clima de "50 Tons de Cinza" finalmente invadiu o universo de Game of Thrones? / Game of Thrones 4.03 - Breaker of Chains (EUA, 2014) Direção: Alex Graves / Roteiro: George R.R. Martin ( baseado em "A Song of Ice and Fire"), David Benioff/ Elenco: Peter Dinklage, Nikolaj Coster-Waldau, Lena Headey.

Game of Thrones 4.04 - Oathkeeper
Na luta entre Daenerys Targaryen e Meereen a primeira mostra toda a sua capacidade de organização e superação. Ela não aceitará qualquer tipo de oposição em sua sede de poder e demonstra que estará disposta a tudo para concretizar seus planos de dominação. Enquanto isso os bastidores fervem de conspirações. Bronn diz a Jaime que ele está mais do que certo, uma vez que Tyrion realmente nada teve a ver com a morte de Joffrey. E a identidade dos assassino do Rei Joffrey é finalmente revelada depois de muitas especulações - embora não seja necessariamente a verdade. Ao visitar o irmão em sua cela se convence ainda mais disso. Jaime também pede a Brienne que essa encontre Sansa pois ele deseja lhe dar sua espada, Oathkeeper (que inclusive dá nome ao episódio). Já no Castelo Negro Jon Snow recebe permissão para comandar um grupo de voluntários para avançar 60 milhas rumo ao norte. Ele pretende abrir uma linha de conversação com o exército rebelde liderado por Mance Rayder. Por fim Bran acaba se tornando prisioneiro de Karl Tanner na tomada da fortaleza de Craster. Mais um bom episódio da série, sempre muito bem realizada, com ótima produção. / Game of Thrones 4.04 - Oathkeeper (EUA, 2014) Direção: Michelle MacLaren / Roteiro: David Benioff / Elenco: Peter Dinklage, Nikolaj Coster-Waldau, Lena Headey.

Game of Thrones 4.05 - First of His Name
Rei morto, rei posto. Com a morte de Joffrey seu trono fica vago, mas não por muito tempo. Tommen Baratheon (Dean-Charles Chapman) se torna assim o novo Monarca Supremo dos Sete Reinos. O problema é que ele é muito jovem e completamente inexperiente. Será um bom Rei? Essa é a pergunta que todos se fazem. O que se torna mais certo é que apesar de mal saído da adolescência Tommen Baratheon parece ter boas intenções e uma certa bondade em seu coração, algo que era inexistente na personalidade psicopata de Joffrey. Os inimigos porém ficam com olhos de Lince sobre a nova situação política. Jorah Mormont aconselha Daenerys Targaryen (Emilia Clarke) das inúmeras possibilidades de se lidar com essa nova situação, entre elas a iminente fragilidade que se abaterá no trono agora com um Rei tão jovem e sem experiência. A Rainha também decide que deverá ela mesma administrar mais de perto todo o extenso território que está sob seus domínios. Enquanto alguns lutam pelo poder máximo outros apenas tentam sobreviver, ficar vivo. É o caso de Tyrion Lannister (Peter Dinklage), acusado de ter envenenado o Rei Joffrey. / Game of Thrones 4.05 - First of His Name (EUA, 2014) Direção: Michelle MacLaren / Roteiro: David Benioff / Elenco: Nikolaj Coster-Waldau, Lena Headey, Emilia Clarke.

Game of Thrones 4.06 - The Laws of Gods and Men
Em relação a Game of Thrones estou mais atrasado que noiva em dia de casamento. Tudo bem, não é algo tão importante assim, afinal cada um tem seu próprio ritmo. De qualquer maneira a série, que teve duas novas temporadas confirmadas nos Estados Unidos recentemente, continua sendo uma das melhores coisas para se assistir na TV atualmente. O que mais marca nesse episódio é o começo do julgamento de Tyrion Lannister (Peter Dinklage). Acusado de matar o rei ele finalmente é levado para ser julgado pelos seus pares (ou quase isso). Tywin Lannister (Charles Dance), seu próprio pai com quem tem inúmeras diferenças pessoais, é designado para coordenar os trabalhos. Obviamente que nos bastidores ele elabora um plano para que Tyrion seja condenado, mas ao mesmo tempo fique isento de pena, sendo banido para viver na fronteira gelada do norte. O próprio réu é informado disso, mas revoltado por estar sendo acusado de algo que definitivamente não fez, ele acaba fazendo um apelo ao tribunal, pedindo para que os deuses decidam seu destino, através de um julgamento de combate (uma espécie de ordália de Deus, algo bem comum em tempos medievais). Enquanto Tyrion joga dados com sua vida, Daenerys Targaryen (Emilia Clarke) segue com seus planos ambiciosos de dominação. Ela pretende avançar cada vez mais pelos sete reinos, apoiada em seus dragões e um exército de mercenários. Tentando passar a imagem de soberana sábia e justa ela abre audiências para seus súditos, onde decide sobre questões cotidianas e nobres, como por exemplo, como indenizar os pastores que ficam sem seus rebanhos da noite para o dia por causa da fome feroz dos dragões da nova rainha. Coisas da vida. / Game of Thrones 4.06 - The Laws of Gods and Men (EUA, 2014) Direção: Alik Sakharov / Roteiro: David Benioff, baseado na obra "A Song of Ice and Fire" de George R.R. Martin / Elenco: Peter Dinklage, Emilia Clarke, Charles Dance, Nikolaj Coster-Waldau, Lena Headey.

Game of Thrones 4.07 - Mockingbird
Acusado injustamente de ter envenenado o Rei Joffrey, Tyrion Lannister (Peter Dinklage) tenta se manter vivo de todas as formas. Ele propõe que se faça uma luta ao velho estilo, seguindo costumes antigos, de maneira que se seu campeão se tornar vencedor na arena ele será solto. O problema agora se resume em achar o homem certo para a luta mais decisiva de sua vida. Enquanto Tyrion luta por sua vida, a Rainha Daenerys Targaryen (Clarke) luta para controlar seus desejos carnais. Ela até tenta resistir às inúmeras tentações, mas acaba cedendo, indo parar nos braços e na cama de Daario Naharis (Michiel Huisman). Esse aproveita a inesperada aproximação com o trono para sugerir à Rainha medidas a serem tomadas contra os antigos mestres de escravos. Ela porém não está disposta a abrir mão de seu poder de comando e resolve seguir por outros caminhos. O desejo e a política devem estar sempre separadas - essa é a grande lição que a Rainha deixa subentendida para seu amante de ocasião. / Game of Thrones 4.07 - Mockingbird (EUA, 2014) Direção: Alik Sakharov / Roteiro: David Benioff, baseado na obra "A Song of Ice and Fire" de autoria do escritor George R.R. Martin / Elenco: Peter Dinklage, Nikolaj Coster-Waldau, Lena Headey, Emilia Clarke, Michiel Huisman, Charles Dance.

Game of Thrones 4.08 - The Mountain and the Viper
Theon Greyjoy é enviado para as frente inimigas com a missão de convencê-los a se renderem, prometendo que todos poderão voltar para suas casas e suas terras em paz. Enquanto isso a Rainha Daenerys Targaryen (Clarke) vai descobrindo os problemas e conflitos que nascem após conquistar várias terras, com costumes e tradições tão diferentes. Além de ser sábio o líder precisa ter diplomacia e jogo de cintura, uma vez que não é sempre que a força bruta poderá resolver todos os problemas. Bom episódio, centrado muito mais nas conspirações que envolvem os principais reinos do que na pura ação e violência. Dirigido por Alex Graves, um dos mais presentes diretores na série. Experiente e veterano ele também já dirigiu vários episódios de outras séries de sucesso tais como "Homeland", "Shameless" e "Longmire", ou seja, experiência certamente não lhe falta. / Game of Thrones 4.08 - The Mountain and the Viper (EUA, 2014) Direção: Alex Graves / Roteiro: David Benioff, baseado na obra "A Song of Ice and Fire" de autoria do escritor George R.R. Martin / Elenco: Peter Dinklage, Nikolaj Coster-Waldau, Lena Headey, Emilia Clarke, Michiel Huisman, Charles Dance.

Game of Thrones 4.09 - The Watchers on the Wall
Nesse episódio temos a primeira tentativa por parte dos povos selvagens e bárbaros do norte gelado em tomar e destruir a grande muralha. A Patrulha da Noite assim tem seu primeiro teste de fogo ao deter os avanços dessas hordas de guerreiros. E elas estão muito bem preparadas - além de possuírem 1000 homens para cada membro da Patrulha da Noite eles ainda contam com gigantes montados em mamutes enormes e violentos! Um dos principais comandantes dos "corvos" (como são chamados pelos bárbaros) acaba sendo morto em um dos momentos mais sangrentos da invasão (justamente a tomada do portão sul). Assim, no meio do caos, o comando passa para Jon Snow (Kit Harington) que precisa manter todo o sangue frio para comandar seus homens. O fato mais chocante desse episódio - spoiler - vem com a morte de Ygritte (Rose Leslie), a ruivinha selvagem que era apaixonada por Snow. Ao encontrá-lo no meio do caos da guerra ela para, hesita e não consegue atacar seu amor (que afinal de contas está lutando pelos corvos). Suas hesitação acaba lhe custando a vida pois ela é atingida (vejam que ironia) por uma flecha certeira em seu coração. Tenho certeza que todos os fãs de Game of Thrones sentiram muito sua morte (mais uma dentre as muitas que virão envolvendo personagens importantes). Ela era selvagem, mas ao mesmo tempo muito sensual, uma garota sexualmente muito ativa que não tinha medo de expor seus desejos mais primitivos. Então é isso. The Watchers on the Wall é certamente um dos melhores episódios da série - algo para ficar na memória dos fãs da saga de Martin. / Game of Thrones 4.09 - The Watchers on the Wall (EUA, 2014) Direção: Neil Marshall / Roteiro: David Benioff, baseado na obra de George R.R. Martin ("A Song of Ice and Fire") / Elenco: Kit Harington, John Bradley, Hannah Murray, Rose Leslie.

Game of Thrones 4.10 - The Children
Finalmente cheguei, com bastante atraso, ao final da quarta temporada. Como era de se esperar para um episódio final muita coisa acontece ao mesmo tempo, uma tentativa de ir fechando arcos narrativos ao mesmo tempo em que prepara o espectador para a quinta temporada. Nesse episódio Stannis Baratheon (Stephen Dillane) cerca os povos rebeldes do norte, colocando um ponto final a um conflito que já se prolongava há tempos. Enquanto isso Daenerys Targaryen (Emilia Clarke) toma conhecimento que seus amados dragões estão criando inúmeros problemas entre seus súditos. Além de destruírem plantações, eles ainda matam em profusão. A vítima é uma garotinha de apenas 3 anos. Seu pai leva o corpo carbonizado da menina até os pés de Targaryen que fica visivelmente abalada com a cena. Para evitar que isso ocorra novamente ela resolve, com muito pesar, acorrentar os dragões. Um outro aspecto interessante desse mesmo ciclo narrativo acontece quando um senhor já de idade avançada vai até ela pedir para que volte ao domínio de seu antigo senhor (Targaryen havia banido a escravidão da cidade). Ele argumenta explicando para a rainha que enquanto escravo tinha uma função importante na casa de seu antigo mestre pois era professor de seus filhos, respeitado por todos. Já livre ele não tem mais o que fazer, andando a esmo pelas ruas, vivendo das migalhas de seu reino. Uma metáfora interessante escrita por George R.R. Martin baseada em velhos contos medievais sobre as correntes douradas da escravidão. Já perto da muralha Jon Snow (Kit Harington) leva o corpo de Ygritte (Rose Leslie) para seu funeral, seguindo a velha tradição dos povos bárbaros. Esse estranho e improvável relacionamento amoroso foi bastante explorado em episódios anteriores. A cena marca a despedida da personagem da série. Por fim e não menos importante: Tyrion Lannister (Peter Dinklage) escapa da prisão com a ajuda do irmão, não sem antes acertar contas com sua antiga amante e seu pai, Tywin Lannister (Charles Dance), pego completamente desprevenido com sua presença em seus aposentos. Ah e antes que me esqueça, não poderia também deixar de citar a ótima cena com os esqueletos na geleira. Essa sequência me lembrou muito de "Jasão e o Velo de Ouro", clássico do cinema de fantasia dos anos 60, com inesquecíveis efeitos especiais feitos por Ray Harryhausen. Quem curte cultura pop certamente pegará a homenagem que foi bolada por R.R. Martin para o antigo mestre dos efeitos visuais. Um momento deliciosamente nostálgico dentro da série. / Game of Thrones 4.10 - The Children (EUA, 2014) Direção: Alex Graves / Roteiro: David Benioff, baseado na obra "A Song of Ice and Fire" de  George R.R. Martin / Elenco: Peter Dinklage, Kit Harington, Emilia Clarke, Stephen Dillane, Rose Leslie, Charles Dance, Nikolaj Coster-Waldau, Lena Headey.

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Star Wars - The Force Awakens

Título no Brasil: Star Wars - O Despertar da Força
Título Original: Star Wars - The Force Awakens
Ano de Produção: 2015
País: Estados Unidos
Estúdio: Walt Disney Pictures
Direção: J.J. Abrams
Roteiro: Lawrence Kasdan, J.J. Abrams
Elenco: Daisy Ridley, Harrison Ford, Mark Hamill, Carrie Fisher, Max von Sydow
  
Sinopse:
Rey (Daisy Ridley) é um jovem que vive em um planeta deserto, perdido no meio da galáxia. Para sobreviver ela retira velhas peças de naves espaciais destruídas para trocar por ração. A vida é dura, mas ela luta dia a dia por sua sobrevivência. As coisas mudam para valer quando ela salva um pequeno droide da destruição. Ao livrar o robozinho do ataque de um nativo ela descobre que ele carrega uma importante informação dentro de si: o mapa que mostra a localização do mitológico cavaleiro jedi Luke Skywalker (Mark Hamill) há muito tempo desaparecido. A valiosa informação passa então a ser disputada pela Primeira Ordem (herdeira do Império e representante do lado negro da força) e a Resistência Rebelde.

Comentários:
Esse filme marca a volta de "Star Wars" aos cinemas. Depois da péssima última trilogia dirigida e escrita por George Lucas ele resolveu, farto de tantas críticas, vender todos os direitos autorais para a Disney pelo valor de quatro bilhões de dólares. No começo os fãs ficaram meio desconfiados, afinal de contas havia um receio que a saga ficasse ainda mais infantilizada sob comando dos estúdios Disney. Se essa for a sua preocupação pode ficar tranquilo. A contratação do diretor J.J. Abrams se mostrou muito certeira. Ele, claro, preferiu não mexer em muita coisa, optando ao lado do veterano roteirista Lawrence Kasdan, em escrever um roteiro bem referencial aos primeiros filmes. O resultado é um misto de "Guerra nas Estrelas" com "O Império Contra-Ataca". A estrutura do roteiro é basicamente a mesma e a função que os personagens desempenham no enredo nos remete imediatamente aos heróis dos primeiros filmes. Há cenas que praticamente são idênticas, como o decisivo confronto entre Han Solo (Ford) e seu filho, Kylo Ren (Adam Driver), agora seduzido pelo lado negro da força. Outras são claras homenagens ao filme original, como quando Han Solo chega em uma obscura taverna onde toca a mesma banda do primeiro "Star Wars". Com efeitos especiais mais discretos e bem realizados, a trama se mostra redondinha, conseguindo se fechar bem sobre si ao mesmo tempo em que deixa portas abertas para as óbvias continuações que virão. A heroína Rey (Daisy Ridley) é um achado, uma espécie de Luke Skywalker de saias. A preocupação em ligar sua vida à de Luke se mostra o grande gancho que no final ligará todos os filmes. No geral, apesar de ser tão derivativo que chega a comprometer sua originalidade e identidade, esse novo filme ganha pontos por ter deixado tudo o que estragou a última trilogia de lado. Não há personagens idiotas (como Jar Jar Binks) e nem excessos de efeitos digitais gratuitos. Tudo parece mesmo no lugar. No final o filme conseguiu agradar não apenas aos fãs veteranos como também à essa nova geração que está sendo apresentada pela primeira vez a esse universo. É Certamente um ótimo pontapé inicial para essa nova trilogia que vem por aí.

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Star Wars: O Despertar da Força

O texto contém spoiler. Assim se você ainda não assistiu ao filme aconselho que não siga lendo as linhas a seguir. Pois bem, o filme já começa no velho estilo tradicional da saga, com os letreiros explicativos e a trilha sonora de John Williams que qualquer cinéfilo reconhece já nos primeiros acordes. O último cavaleiro Jedi vivo, Luke Skywalker (Mark Hamill), está desaparecido. Seu paradeiro é desconhecido. A localização exata de onde se encontra passa a ser uma questão crucial para a resistência e a Primeira Ordem (uma espécie de herdeira do Império, a representação concreta e atual do lado negro da força). Um mapa mostrando onde ele estaria é colocado em um pequeno droide em uma nave rebelde. Quando essa cai em um planeta deserto tudo parece perdido. O robozinho denominado BB-8 porém consegue escapar e sai a esmo pelo meio do deserto, encontrando casualmente a jovem Rey (interpretada pela bonita atriz inglesa Daisy Ridley). A partir daí sua vida mudará para sempre pois ela acaba se tornando alvo das tropas imperiais, ao mesmo tempo em que tenta entender tudo o que começa a acontecer em sua nova vida. Esse é o sétimo filme da série "Star Wars" e de maneira em geral tem sido muito bem recebido por público e crítica. Já no seu primeiro fim de semana o filme alcançou uma bilheteria histórica chegando perto de bater o meio bilhão de dólares arrecadados (isso em praticamente apenas três dias de exibição!). Pelo visto a franquia continua tão cultuada e popular mesmo após a fraca trilogia anteriormente lançada. O segredo do diretor e roteirista J.J. Abrams foi usar a trilogia original como referência, tanto em termos de roteiro como em efeitos especiais, direção de arte, figurinos, cenários, etc. Isso acabou agradando em cheio aos fãs mais antigos ao mesmo tempo em que abre portas para conquistar uma nova geração de seguidores da saga. Além disso não podemos ignorar o fato de que os personagens originais como Han Solo, Luke Skywalker, a Princesa Leia e tantos outros estão de volta, completando o ciclo de nostalgia dos espectadores mais veteranos. Claro que o tempo impôs sua marca em cada um dos atores, mas isso não chega a ser um problema, pelo contrário, acaba sendo algo muito charmoso até, mostrando as marcas do tempo também em relação aos personagens que nos primeiros filmes eram em sua maioria apenas jovens em busca de aventuras.

Dito isso devo dizer que também existem problemas em "Star Wars: O Despertar da Força". A impressão que tive em todo o desenrolar da trama foi que J.J. Abrams ficou tão obcecado com a trilogia original que esqueceu de trazer coisas novas para esse novo episódio. Na verdade se formos prestar bem a atenção veremos que esse roteiro não passa de um genérico dos roteiros de "Guerra Nas Estrelas" de 1977 e "O Império Contra-Ataca" de 1980. As semelhanças chegam a incomodar. Além do vilão ser uma espécie de imitação barata de Darth Vader, a própria personagem central, Rey, é na verdade uma versão moderna e feminina do Luke dos primeiros filmes. Até nos figurinos isso fica bem claro. Ela tem uma origem humilde (vive de retirar peças velhas de naves destruídas no meio do deserto) e não parece ter um destino promissor pela frente. Tudo muda quando encontra por acaso um pequeno droide que muda sua vida para sempre (em linhas gerais isso é basicamente o que acontece com Luke Skywalker no primeiro filme). Além disso embora o roteiro não deixe muito claro, fica meio óbvio que ela provavelmente seja a filha do próprio Luke. A força se faz presente nela da mesma maneira que fazia em seu pai. Ou seja, a estrutura do roteiro é praticamente a mesma do primeiro filme da franquia, quase sem mudanças. Voltando ao vilão Kylo Ren (Adam Driver), ele não conseguiu me empolgar em nenhum momento. Fraco, indeciso e nada assustador, ele usa uma máscara genérica que nos remete ao velho Vader, esse sim um personagem que marcou para sempre. Ele é filho de Leia e Han Solo ou seja neto de Anakin Skywalker, mas não pense que tem a força de seu avô. Passa bem longe disso. Nem na cena crucial do filme, quando mata o próprio pai Han Solo, isso parece fazer alguma diferença. Outro fato que prova que o roteiro é muito derivativo de "Guerra nas Estrelas" de 77 é a própria existência de um planeta artificial com poderes de destruição de outros planetas (uma versão turbinada da Estrela da Morte). Será que os roteiristas não tinham mais nada de original para criar? Ficou uma sensação no ar de falta de novas ideias. O sentimento de Déjà vu se tornou inevitável. Mesmo assim, sendo excessivamente derivativo dos primeiros filmes, não podemos negar que o filme é muito divertido, referencial no bom sentido também (nos fazendo trazer uma sensação boa de nostalgia) e sem situações embaraçosas ou constrangedoras (como a presença de um Jar Jar Binks pelo meio do caminho para nos deixar com vergonha alheia). J.J. Abrams fez um belo trabalho e se pecou foi por ser fiel demais às origens de "Star Wars", algo que ele facilmente poderá superar nos futuros filmes. Em termos de comparação poderia dizer que o filme no final das contas fica em um plano intermediário dentro da saga. Consegue ser superior a todos os filmes da segunda trilogia (que não deixou saudades em ninguém), porém não consegue superar nenhum da trilogia original (nem mesmo "O Retorno de Jedi"). Mesmo assim é daqueles filmes que você não pode deixar de assistir no cinema. É um bom retorno de "Star Wars", acima de tudo.

Star Wars: O Despertar da Força (Star Wars: The Force Awakens, EUA, 2015) Direção: J.J. Abrams / Roteiro: Lawrence Kasdan, J.J. Abrams / Elenco: Daisy Ridley, Harrison Ford, Mark Hamill, Carrie Fisher, Adam Driver, Andy Serkis, Anthony Daniels, Max von Sydow, John Boyega, Oscar Isaac / Sinopse: A Primeira Ordem e a Resistência Rebelde disputam um importante mapa que mostraria a exata localização onde estaria o último cavaleiro Jedi vivo, o lendário Luke Skywalker (Mark Hamill). Ele teria desaparecido após tentar treinar um novo cavaleiro Jedi, seu próprio sobrinho, e falhado em seus objetivos pois o rapaz teria sido seduzido pelo lado negro da força tal como seu avô, Anakin Skywalker. Sua localização é colocada como arquivo em um pequeno dróide que vai parar em um distante, isolado e deserto planeta onde acaba indo parar nas mãos da jovem Rey (Daisy Ridley) dando origem a uma grande aventura espacial.

Pablo Aluísio. 

sábado, 19 de dezembro de 2015

O Corcunda de Notre Dame

Título no Brasil: O Corcunda de Notre Dame
Título Original: The Hunchback of Notre Dame
Ano de Produção: 1996
País: Estados Unidos
Estúdio: Walt Disney Pictures
Direção: Gary Trousdale, Kirk Wise
Roteiro: Tab Murphy, Irene Mecchi, entre outros
Elenco: Demi Moore, Jason Alexander, Tom Hulce
  
Sinopse:
Baseado na obra "Notre Dame de Paris", escrito por Victor Hugo, a animação da Disney "The Hunchback of Notre Dame" conta a história de Quasimodo, um jovem com problemas físicos que vive e trabalha na lendária catedral de Notre Dame em Paris. Por causa de sua deficiência ele passou grande parte de sua vida recluso, longe das pessoas. Tudo muda quando ele se apaixona perdidamente pela bela e simpática Esmeralda (na voz da estrela Demi Moore), uma dançarina cigana que mexe com seu coração. Filme indicado ao Oscar e ao Globo de Ouro na categoria de Melhor Música Original (Alan Menken e Stephen Schwartz).

Comentários:
Não tive o prazer de ver no cinema, algo que sempre lamentei. Ao contrário disso aluguel o filme em VHS ainda na época de seu lançamento. O que posso dizer? O filme é visualmente deslumbrante, muito rico em cenários e recriação arquitetônica da própria Notre Dame, aqui reproduzida com perfeição usando técnicas tradicionais de animação e muita computação gráfica - de excelente qualidade a ponto de não ter envelhecido em absolutamente nada. O enredo já tem um lirismo romântico natural, fruto da obra original de Victor Hugo, aqui realçado por um roteiro que contou com mais de 25 roteiristas (um recorde) ao longo da produção. Como estava se mexendo em um clássico da literatura os estúdios Disney resolveram caprichar ainda mais na elaboração da trama. No final tudo sai a contento, desde a própria animação em si (um espetáculo), o romance à prova de falhas e a linda mensagem pontuando tudo, da primeira à última cena. O diretor Gary Trousdale também assinou um dos maiores clássicos modernos da Disney, "O Rei Leão" e só derrapou na carreira com o fraco "Atlantis: O Reino Perdido" realizado em 2001. Já Kirk Wise criou a historinha de "Oliver e sua Turma", um filme menor dentro do universo da Disney. Assim deixamos a dica desse belo, nostálgico e sentimental "O Corcunda de Notre Dame", uma das versões mais carismáticas do imortal livro clássico da literatura mundial.

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.

Mark Hamill - Star Wars: Episode VII

Interpretar um personagem muito marcante pode ser desastroso na carreira de um ator. Que o diga Mark Hamill. Ainda bastante jovem ele foi escolhido por George Lucas para interpretar Luke Skywalker no filme "Guerra nas Estrelas" de 1977. Conforme disse em entrevistas, nem ele e nem o resto do elenco tinham sequer ideia, naquela altura das filmagens, do fenômeno que "Star Wars" iria se transformar nas décadas seguintes. Na verdade os atores até brincavam no set sobre o roteiro de Lucas, que muitos sequer conseguiam entender direito. Os diálogos eram estranhos demais para serem levados à sério. Para o veterano Alec Guinness estrelar aquele "filme espacial" era o fim da picada, uma amostra de que sua outrora maravilhosa carreira tinha realmente chegado ao fim. Durante o trabalho ele chegou a dizer para Hamill que o filme era um lixo.

Só depois quando tudo ficou pronto e Lucas e sua equipe técnica colocaram todos os maravilhosos efeitos especiais é que finalmente Hamill descobriu que havia trabalhado em um filme realmente fenomenal. Depois do estrondoso sucesso de bilheteria veio a fama, a consagração e o sentimento de ser um verdadeiro popstar do mundo do cinema, pelo menos até o lançamento de "O Retorno de Jedi" em 1983. Só a partir desse ponto o ator entendeu o que havia acontecido. Nenhum estúdio de cinema o contratava mais, simplesmente porque ele ficara tão associado ao Jedi Luke Skywalker que nenhum produtor conseguia enxergar nele um bom ator. Muitos acreditavam que o público não iria conseguir mais dissociar sua imagem de "Star Wars". Excelentes filmes lhe foram negados porque o estúdio acreditava que ele não seria convincente atuando em outros papéis. Nem mesmo quando conseguiu atuar no hoje clássico "Agonia e Glória" escapou do veneno da crítica. Em uma delas, publicada no New York Times na época de lançamento do filme, tudo o que se disse de seu trabalho de atuação foi  que "Luke Skywalker poderia agora ser encontrado em um filme da II Guerra Mundial". Isso claro magoou bastante Hamill que a partir dali passou por uma fase complicada, ficando praticamente no ostracismo.

Como George Lucas queria contar as origens da saga nos outros três filmes seguintes, Hamill foi deixado de lado na nova trilogia. Essa, apesar de ter alguns poucos bons momentos, nunca conseguiu convencer os fãs. O próprio George Lucas passou por aborrecimentos enormes, justamente por causa da péssima recepção da nova trilogia. Olhando para trás realmente não foram filmes marcantes, pior do que isso, nem foram filmes bons. Os efeitos digitais envelheceram mais do que os analógicos da primeira trilogia e bobagens como o insuportável Jar Jar Binks acabaram virando uma (péssima) marca registrada dessas produções. Enquanto "Star Wars" afundava entre público e crítica, o ator fez o possível para ficar vivo artisticamente. Desceu do cavalo e foi atrás de trabalho como muitos outros atores desempregados. Sem medo de ser ridicularizado pela classe ou sofrer algum tipo de preconceito dos colegas de profissão ele topou participar das primeiras convenções de quadrinhos e cultura pop, falando com os fãs de "Star Wars" nos encontros, fazendo palestras, dando entrevistas, sendo realmente um colega nerd de todo aquele público que lotava esse tipo de evento. Ele havia recuperado a humildade e isso o deixou bem mais próximo dos fãs da saga.

Também encarou a dublagem, algo que o manteve sempre em evidência dentro do mundo mais nerd. Dublou desenhos do "Incrível Hulk" e "Homem-Aranha" nos anos 90 e acabou criando a voz definitiva do Coringa na série animada do Batman na Warner, papel que repetiu em vários outros desenhos com os famosos personagens da DC Comics. Também aceitou convites para dublar inúmeros games, rompendo um velho preconceito de que esse seria um trabalho indigno para um astro de cinema. Depois dele várias outras estrelas aceitaram trabalhar na indústria de games dos Estados Unidos. Enquanto Harrison Ford ia estrelando um grande sucesso de bilheteria atrás do outro, Mark foi se destacando no mundo das animações de TV, nos videogames e nos quadrinhos também. Tudo cultura pop, mundo nerd. Infelizmente tão marcado ficou como Luke que parecia haver pouco (ou nenhum) espaço para ele no mundo do cinema novamente. Quando surgia alguma oportunidade era quase sempre para interpretar uma paródia de si mesmo como em "O Império (do Besteirol) Contra-Ataca" de Kevin Smith. Agora em 2015 o injustiçado Mark Hamill finalmente retorna ao sucesso com o mega lançamento de "Star Wars: O Despertar da Força". Sob direção de J.J. Abrams ele tem recebido alguns dos melhores elogios de toda a sua longa carreira. Um reconhecimento tardio, porém muito bem-vindo. A redenção só poderia ter vindo mesmo através do grande personagem que o consagrou no passado. O mundo dá voltas.

Pablo Aluísio.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Titanic

Título no Brasil: Titanic
Título Original: Titanic
Ano de Produção: 1997
País: Estados Unidos
Estúdio: Twentieth Century Fox
Direção: James Cameron
Roteiro: James Cameron
Elenco: Leonardo DiCaprio, Kate Winslet, Billy Zane, Kathy Bates
  
Sinopse:
Jack Dawson (DiCaprio) é um jovem pobretão que ganha numa aposta uma passagem de navio no imenso Titanic. A viagem partirá de Londres rumo aos Estados Unidos, considerado naqueles tempos a terra das oportunidades para imigrantes de todo o mundo. Durante a jornada Jack acaba conhecendo a bela Rose DeWitt Bukater (Kate Winslet), uma garota rica e cheia de sonhos. Ambos se enamoram, mas antes que essa paixão venha a se concretizar definitivamente um grande desastre acontece. O Titanic esbarra em um iceberg em alto-mar, levando à morte centenas de milhares de seus passageiros. Filme vencedor de 11 Oscars.

Comentários:
Quando assisti "Titanic" pela primeira vez, nos cinemas em seu lançamento, pude perceber que o roteiro não era muito original. Na verdade era uma mistura e uma reciclagem de velhos clichês sentimentais e apelativos que curiosamente ainda funcionavam muito bem. Certas fórmulas nunca perdem seu poder de atração perante a plateia. O público e a crítica, claro, foram fisgados imediatamente. O curioso é que nada disso parecia ser o ponto principal do filme. A trama em si parecia uma coisa secundária, usada apenas para que James Cameron viabilizasse seus projetos ambiciosos de fazer as melhores imagens do navio afundado em alto-mar. Para isso ele gastou milhões de dólares. A bilheteria imensa do filme iria assim servir para tornar viável seu velho sonho de ir até as profundezas do Atlântico Norte ver como o Titanic se encontrava no presente. O resultado foi o que todos conhecemos. Como obra cinematográfica o filme é puramente piegas, mas de uma pieguice irresistível, com trilha sonora evocativa e o melhor dos mundos em termos de efeitos especiais, sonoros, etc. Tecnicamente é um filme perfeito, com roteiro redondinho para agradar às grandes massas (com aquela velha coisa romântica de garoto pobre se apaixonando por garota rica), um pano de fundo histórico não muito fiel aos fatos e toneladas de computação gráfica. Um milk-shake que todos estavam esperando consumir. A maioria que provou, gostou e não teve do que reclamar. O filme é o blockbuster romântico por excelência, provavelmente o maior de todos os tempos, o que não quer dizer que seja isento de falhas ou equívocos. Será que alguém ainda se importa com isso hoje em dia?

Pablo Aluísio.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Missão Impossível: Nação Secreta (2015)

Conforme o tempo vai passando, ele vai cobrando seu preço. Tom Cruise já não é mais aquele jovem de sorriso largo e capacidade infinita de sobreviver a todos os desafios na tela. Conforme sua carreira vai derrapando ele vai se segurando no que lhe parece ser o seguro e o certo, entre eles estrelar de vez em quando uma nova aventura de "Missão Impossível". Particularmente nunca fui grande fã dessa franquia, os filmes dela me passam a sensação de serem praticamente todos iguais. Isso não quer dizer que sejam necessariamente ruins, longe disso, eles mantém um padrão de qualidade que nunca decai. São apenas previsíveis, sem novidades ou surpresas. Até os roteiros seguem uma fórmula básica que se repete a cada nova produção. Eu penso que esse tipo de filme vai acabando com o charme de se ir ao cinema. Tudo parece tão igual aos outros, plastificado, sem alma, que muitas vezes me sinto assistindo a um videogame que já joguei muitas e muitas vezes. O Cruise também está envelhecido e isso fica bem evidente pela primeira vez. O tempo chega para todos, até para o Sr. Sorrisos.

Aqui o personagem de Tom Cruise tenta descobrir não apenas a identidade dos membros de uma organização criminosa chamado "O Sindicato" como também tenta entender o que está acontecendo com sua própria agência de espionagem, prestes a ser desativada, com suas funções sendo repassadas para a CIA, a agência de inteligência do governo americano. Vocês repararam que esse roteiro tem muita coisa a ver com o novo filme de James Bond? Pois é, não disse que os estúdios estavam cada vez mais sem imaginação, repetindo velhas fórmulas? É exatamente o que acontece nesse enlatado. A trama parece muito genérica e repetitiva. E pensar que ela é o substrato do roteiro para trazer algum background ou conteúdo para as várias cenas de ação mirabolantes - sendo que essas são, em conjunto, a verdadeira razão da existência do filme em si. São realmente excelentes, perfeitas do ponto de vista técnico, mas que novamente nos deixam com aquela sensação desagradável de que "já vimos tudo isso antes!". Ao lado de Cruise se destacam no elenco o ator Jeremy Renner (que apesar dos esforços dos estúdios ainda não virou um astro) e Alec Baldwin (envelhecido e mais canastrão do que nunca, quase levando sua atuação como uma brincadeira). Enfim, o que temos aqui é apenas um filme que você esquecerá muito rapidamente ou então confundirá com os demais da série daqui alguns meses. Nada muito relevante e surpreendente. Mais do mesmo. Cheiro de prato requentado no ar!


Missão Impossível: Nação Secreta (Mission Impossible - Rogue Nation, EUA, 2015) Direção: Christopher McQuarrie / Roteiro: Christopher McQuarrie / Elenco: Tom Cruise, Rebecca Ferguson, Jeremy Renner, Ving Rhames, Sean Harris, Alec Baldwin / Sinopse: O agente Ethan Hunt (Tom Cruise) se torna alvo de uma organização criminosa chamada "O Sindicato", algo que todos não acreditavam existir. Ao mesmo tempo tenta juntar as pontas da conspiração que deseja eliminar a sua própria agência de inteligência.

Erick Steve e Pablo Aluísio.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Os Últimos Dias na Terra

Título no Brasil: Os Últimos Dias na Terra
Título Original: Z for Zachariah
Ano de Produção: 2015
País: Estados Unidos, Suíça, Nova Zelândia
Estúdio: Lionsgate
Direção: Craig Zobel
Roteiro: Nissar Modi, baseado no livro de Robert C. O'Brien
Elenco: Chiwetel Ejiofor, Chris Pine, Margot Robbie
  
Sinopse:
Após um desastre nuclear a humanidade está prestes a ser extinta. O planeta está contaminado. Poucas regiões escaparam dessa tragédia. Uma delas se encontra em um pequeno vale onde vive sozinha Ann Burden (Margot Robbie). Ela tira sua sobrevivência da pequena fazenda que herdou do pai. Lá encontra alimentos, água potável e abrigo. Ann não tem notícias sobre o que aconteceu no mundo, porém consegue com certa tranquilidade levar em frente sua vida. Um dia ela é surpreendida com a chegada de John Loomis (Chiwetel Ejiofor), um engenheiro que sobreviveu ao holocausto por estar em um bunker subterrâneo. Pouco tempo depois também surge o jovem Caleb (Chris Pine), outro que também conseguiu escapar da tragédia. Agora eles terão que aprender a sobreviver juntos na fazenda, mesmo com toda a tensão sexual que logo se instala entre o trio.

Comentários:
Dois homens, uma mulher e um mundo devastado pelo desastre nuclear. Esse é o núcleo do enredo desse filme pós-apocalíptico chamado "Os Últimos Dias na Terra". Apesar do estilo já ser bem conhecido do grande público não vá esperando por algo parecido como "Mad Max" ou filmes semelhantes. O apocalipse nuclear serve apenas como pano de fundo. O que mais chama a atenção é o triângulo amoroso envolvendo os personagens do filme, que são apenas três na verdade, Ann, John e Caleb. Enquanto vão criando novas formas de sobrevivência naquela fazenda, que foi poupada pela contaminação da radiação nuclear, eles vão tentando se relacionar entre si. Ann é jovem, religiosa e tem uma personalidade um pouco juvenil demais para sua idade, fruto obviamente de sua pouca experiência de relacionamento com homens (seu pai era um pastor rígido que a prendia em casa e a proibia de namorar). John é um engenheiro negro, já bastante experiente pela idade que tem (ele é bem mais velho que Ann) que acaba descobrindo que terá que lutar pelo seu amor e atenção ao competir com Caleb (Chris Pine, o Capitão Kirk da nova franquia de "Star Trek"). Claro que sendo os poucos sobreviventes que restaram a jovem Ann terá que escolher um deles para se relacionar. Isso acaba criando uma tensão constante entre os homens. O final do filme é em aberto, dado a inúmeras interpretações. Cada espectador terá que decidir por ele mesmo sobre o que de fato aconteceu, quase como uma versão cinematográfica americana do drama de Capitu, imortalizado por Machado de Assis. Há também referências sutis ao velho testamento e ao Gênesis. Tudo tratado com extrema sutileza. No geral é um bom filme, só não vá esperando por algo que ele nunca foi. Não há efeitos especiais e nem cenas de ação. No fundo é apenas um drama de relações humanas e não uma ficção Sci-fi ao estilo apocalipse violento.

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.

Extinção Humana

Título no Brasil: Extinção Humana
Título Original: Exit Humanity
Ano de Produção: 2011
País: Canadá
Estúdio: Foresight Features, Optix Digital Pictures
Direção: John Geddes
Roteiro: John Geddes
Elenco: Mark Gibson, Adam Seybold, Dee Wallace, Bill Moseley
  
Sinopse:
Durante a guerra civil americana o soldado confederado Edward Young (Mark Gibson) descobre que há algo muito terrível acontecendo. Pessoas que morrem no campo de batalha continuam vivas, se tornando verdadeiros zumbis em busca de carne humana. Após o fim da guerra ele consegue retornar para seu pequeno rancho, porém descobre que sua esposa e seu filho estão contaminados por essa terrível praga. Ele vê então toda a sua vida e felicidade ruir praticamente da noite para o dia. A única forma de matar de uma vez por todas essas criaturas é dando um tiro certeiro em suas cabeças. O apocalipse Zumbi, pelo visto, finalmente chegou...

Comentários:
Filme canadense sobre zumbis passado na guerra civil americana. Olhando assim não parece lá muito interessante, com jeito de filme trash. Não é bem assim. Esse terror até que tem seus méritos. É uma produção bem realizada, com ótimas inserções de animações em determinadas cenas, tudo para contar a trágica história de um veterano da guerra que se vê no meio de um mundo devastado, onde poucos sobreviventes tentam lutar contra uma humanidade em vias de extinção. Uma praga, de origem inexplicável, transformou praticamente todos os seres humanos em zumbis ávidos por carne humana. Provavelmente tenha sido algo inventado para a própria guerra, a ser usada nos campos de batalha, só que alguma coisa deu muito errado e a estranha condição se espalhou de forma descontrolada por todo o país. É a tal coisa, se você é fã de séries como "The Walking Dead" certamente vai gostar do filme. De minha parte só não curti mais porque sinceramente falando já estou um pouco farto de mortos-vivos. De todos os tipos de monstros clássicos esse sempre me pareceu o menos interessante, afinal de contas tudo o que fazem é sair se arrastando lentamente por aí em busca de cérebros humanos. Uma criatura um tanto quanto idiota e pouco assustadora. Assim você tem que gostar de filmes de zumbis para apreciar melhor esse "Exit Humanity" - que não é necessariamente o meu caso. Mesmo assim a fita não me desagradou e nem me aborreceu. Com um pouco de boa vontade conseguiu até mesmo me divertir. Assim deixo a dica desse pouco conhecido filme de terror. Não é nenhuma obra prima do gênero, porém é bem feito e tem boas sequências. Vale a pena ao menos conhecer.

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Paul Newman - Sometimes a Great Notion

Eu costumo dizer que em termos de cinema clássico o céu é o limite. Sempre há coisas novas e interessantes a se descobrir dentro desse vasto universo. Procurando fugir das obras clássicas mais óbvias (como por exemplo "E O Vento Levou", "Casablanca", etc) o cinéfilo mais curioso sempre encontrará pequenas obras primas que hoje em dia já não são mais tão conhecidas e comentadas, mas que são sem dúvida excelentes filmes. É justamente o caso desse "Sometimes a Great Notion" (que no Brasil recebeu o inadequado título de "Uma Lição Para não Esquecer").

O filme mostra a família Stamper formada pelo pai Henry (o grande Henry Fonda) e pelos três filhos, Hank (interpretado pelo próprio Paul Newman que também dirigiu o filme), Joe Ben (Richard Jaeckel, indicado ao Oscar por sua atuação) e o caçula Leeland Stamper (Michael Sarrazin). Esse último nunca quis seguir o destino dos irmãos. Ao invés de ser um operário, um lenhador nas florestas, decidiu ir embora para cursar uma universidade. As coisas porém não deram muito certo, ele se envolveu com drogas (maconha, em especial), se tornou um péssimo aluno e depois de formado ficou desempregado. Após o suicídio da mãe não viu outra alternativa a não ser voltar para a casa do pai, Henry, que não deixou barato o colocando para trabalhar cortando árvores na floresta como seus dois irmãos. "Para comer nessa mesa terá que trabalhar!" - decreta o velho patriarca.

O roteiro do filme investe na maneira turrona que os Stampers enxergam a vida. A ética que move suas vidas é o trabalho, por isso quando o sindicato da região promove uma greve geral dos trabalhadores de madeireiras, eles se recusam a participar. Para Henry e Hank, os sindicalistas seriam na verdade comunistas, pessoas que corroíam a base da sociedade americana, seus valores e ideais. Tudo isso porém não é colocado por Newman no filme como algo pesado, doutrinário ou panfletário. Ele optou por uma outra abordagem, mostrando tudo com certa leveza - apesar do filme ser um drama. O humor está sempre presente dentro daquela família nada funcional. A rudeza e a forma pragmática que enxergam a vida dá o tom de toda a narrativa.

Uma personagem interessante dentro daquele universo masculino vem na figura de Viv Stamper (Lee Remick), Ela é a esposa de Hank. Em uma família tão machista ela mal é ouvida sobre nada, embora tenha uma bela percepção da vida. Após anos tentando engravidar do marido - seu primeiro e único filho nascera natimorto - ela decide dar um novo rumo na vida, procurar por novos horizontes. A novela de Ken Kesey que deu origem ao filme já chamava a atenção para essa nova mulher que nascia naquele momento, não apenas disposta a ser unicamente esposa e mãe, mas também ter a chance de escrever seu próprio destino, indo atrás dos seus sonhos de realização pessoal e profissional. Enfim, um belo trabalho de direção de Paul Newman que conseguiu provar que era tão bom atrás das câmeras, dirigindo, como na frente delas, atuando. Um profissional completo. Não deixe de conhecer.

Pablo Aluísio.

domingo, 13 de dezembro de 2015

Experimentos

Baseado em fatos reais, o filme "Experimenter" narra parte da história do professor de psicologia Stanley Milgram (Peter Sarsgaard). Pesquisador respeitado que chegou a lecionar nas prestigiadas universidades de Yale e Harvard, ele desenvolveu uma experiência muito interessante na década de 1960. Milgram estava curioso para entender como pessoas civilizadas, cultas e com valores morais e religiosos, aceitaram participar dos horrores do holocausto nazista durante a II Guerra Mundial. Como o povo alemão, um dos mais desenvolvidos da Europa, aceitou a morte sistemática e em ritmo industrial de milhões de judeus executados em campos de concentração? Para Milgram apenas sondando a mente humana se conseguiria chegar numa resposta a essa dúvida. Ele então criou uma experiência. Usando uma falsa máquina de dar choques ele colocou pessoas comuns recebendo ordens superiores para dar choques em outras pessoas que supostamente erravam as perguntas que lhes eram feitas em um laboratório. Cada resposta errada deveria ser motivo para dar choques elétricos naqueles que não acertavam as respostas. Milgram queria provar que o ser humano tem uma tendência natural para aceitar ordens vindas de seus superiores, por mais absurdas e imorais que fossem.

Depois de realizar os testes Milgram publicou um livro que até hoje é referência dentro da psicologia humana. Com seu experimento ele provou que a imensa maioria dos que foram expostos à experiência realmente aceitavam cumprir ordens superiores, mesmo que essas fossem em última análise para torturar alguém. O livro causou grande debate em seu lançamento e até hoje segue sendo estudado e analisado. Ele trazia finalmente uma justificativa científica sobre os meandros psicológicos que tornaram possível coisas horrendas como o holocausto nazista. Também provou que esse tipo de situação independeria do país e da cultura onde se desenvolveria, pois seus testes foram realizados em americanos, vivendo em um país democrático e com plena liberdade individual. A história, como se pode perceber, já é por demais interessante. A narração também é muito curiosa, colocando o protagonista fazendo pequenas intervenções, falando diretamente com o público espectador, criando uma intimidade que só trouxe aspectos positivos ao filme como um todo. Há também uso de cenários estilizados, como se estivéssemos dentro da mente de Milgram, compartilhando seus pensamentos mais íntimos. O elenco também está ótimo, com destaque para o sempre competente Peter Sarsgaard, aqui contracenando com a sumida Winona Ryder (fazia anos que ela não aparecia com uma atuação de destaque). Então é isso. Temos aqui um filme muito bom, com roteiro muito bem escrito, ótimos diálogos e um argumento inteligente e sagaz. Ideal para acadêmicos e estudantes de psicologia e ciências correlatas em geral. Está mais do que indicado.

Experimentos (Experimenter, EUA, 2015) Direção: Michael Almereyda / Roteiro: Michael Almereyda / Elenco: Peter Sarsgaard, Winona Ryder, Taryn Manning, Lori Singer, John Leguizamo, Anthony Edwards / Sinopse: Stanley Milgram (Peter Sarsgaard) é um pesquisador que resolve fazer uma experiência com pessoas comuns para compreender os mecanismos psicológicos que tornaram possível o holocausto nazista. A intenção passa a ser como entender a mente de uma pessoa que aceita receber ordens para infringir dores físicas e psicológicas em outras pessoas, sem qualquer justificativa mais convincente para isso. Filme vencedor do Los Angeles Film Festival na categoria de Melhor Direção (Michael Almereyda). Também indicado ao Gotham Independent Film Award na categoria de Melhor Ator (Peter Sarsgaard).

Pablo Aluísio. 

sábado, 12 de dezembro de 2015

História da Rússia - Os Crimes de Lenin

Recentemente uma excelente reportagem do portal Terra mostrou que 140 anos após seu nascimento o fundador da União Soviética, Lenin, está sendo esquecido pelos russos. As novas gerações sequer sabem quem ele foi. Um garoto entrevistado por um jornalista ocidental disse não saber muito sobre ele a não ser que era um cosmonauta!!! Pelo visto o outrora tão idolatrado Lenin está sendo jogado na lata de lixo da história, o que nesse caso não é algo negativo de acontecer. Os historiadores russos da atualidade, mais sensatos e finalmente livres do corrosivo controle da ditadura comunista, estão se debruçando com imparcialidade sobre documentos, cartas e atos do período em que ele se tornou o principal líder soviético.

O retrato que retiram desses despojos da história é realmente devastador. Lenin foi um psicopata no poder. Ele não tinha qualquer respeito pela vida humana e de posse de poderes ilimitados cometeu barbaridades horrendas com o povo da Rússia e dos demais países sob denominação soviética. Como todo socialista, Lenin acreditava que possuía o dom e a inteligência de conduzir seu povo. Ninguém poderia contestar suas decisões políticas e a punição para a discórdia de sua ideologia era a morte.

Hoje sabe-se que Lenin foi o responsável pela morte de mais de cem milhões de pessoas. Um influente político ucraniano relembrou recentemente os crimes de Lenin no Parlamento. O deputado Vladimir Zhirinovisky recordou aos seus colegas que sob o domínio de Lenin a Rússia (e a Ucrânia) se transformaram em um mar de túmulos. O chamado terror vermelho implantado por Lenin para defender a revolução russa fez com que um genocídio muito mais vasto e devastador do que o próprio nazismo se instaurasse em solo russo, causando assassinatos em massa, desespero e morte. Lenin mandou assassinar de próprio punho milhões de pessoas, entre eles muitas crianças, mulheres e idosos, simplesmente por esses pertencerem a comunidades que não aceitavam a ditadura socialista. Jamais demonstrou ter tido a menor culpa pelo que fez, tal como um psicopata em relação às suas vítimas indefesas.

Um homem cruel e psicopata que não respeitava sequer o espírito religioso do povo russo. Como socialista Lenin via a religião e a crença em Deus como um mal a ser eliminado. Ateu e extremamente frio em suas decisões mandou para a morte líderes religiosos de praticamente todos os cultos, mas principalmente da Igreja Ortodoxa Russa. Sob suas ordens diretas foram mortos entre outros o amado e respeitado patriarca Ortodoxo de Moscou. Também mandou executar a sangue frio toda a família do Czar. Mandou que eles fossem levados para uma floresta distante e lá fuzilados. Além do Czar Nicolau morreram também seus filhos, meros adolescentes, garotas jovens e um menino, herdeiro do trono, ainda menor de idade. Lenin realmente foi um monstro tal como Hitler. Um assassino de massas e um psicopata frio e cruel. O tempo porém é o senhor de tudo. Sua memória já está sendo apagada da mente dos russos, pelo seu próprio bem.

Pablo Aluísio.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Al Pacino: Filmografia Comentada

O Poderoso Chefão (1972)
Nesse ano "O Poderoso Chefão" completa 40 anos. Um dos grandes clássicos da história do cinema americano o filme segue inspirando cineastas e conquistando novas gerações. Baseado na obra imortal do escritor Mario Puzo o filme resistiu muito bem ao tempo mesmo revendo nos dias atuais sob uma ótica mais contemporânea. E pensar que o projeto quase foi arquivado pela Paramount por achá-lo fora de moda e sem chances de trazer grande retorno de bilheteria. Apenas a persistência pessoal do produtor Robert Evans salvou o filme, pois insistiu muito na ideia de trazer do papel para a tela a saga da família Corleone. Até a escalação do elenco gerou brigas internas dentro do estúdio. A simples menção do nome de Marlon Brando já causava arrepios na direção da Paramount. O ator era considerado naquele momento um astro decadente que havia arruinado sua carreira com brigas e confusões nos sets de filmagens pelos quais passou. Além de seu temperamento imprevisível Brando já não era mais visto como sinônimo de bilheteria há muito tempo pois suas últimas produções tinham se tornado grandes fracassos de público e crítica. A Paramount definitivamente não queria nem ouvir falar no nome do ator. Foi Evans que comprou a briga e apostou em Brando novamente. Ele inclusive teve que se passar por uma verdadeira humilhação para um nome de seu porte: fazer um teste de câmera para o papel, algo só destinado para novatos e inexperientes atores em começo de carreira. Como estava desesperado para voltar ao primeiro time Brando topou a situação, encheu as bochechas de algodão e mostrou sua visão pessoal de Vito Corleone para os chefões do estúdio. O resultado veio logo após quando todos ficaram maravilhados com o resultado. Certamente não havia mais dúvida e Brando foi contratado. Visto hoje em dia o filme se mostra muito atual e resistente ao tempo. Um de seus trunfos vem justamente da brilhante interpretação de Brando. Como conta em seu livro o ator não interpretou Corleone como um facínora e criminoso mas apenas como um pai de família que fez o que tinha que ser feito para proteger seus filhos. Brando inclusive chega a afirmar que Corleone seria mais ético e honesto do que muito executivo de multinacional que coloca os interesses de sua empresa acima do bem comum de todos. Sua postura de respeito com o personagem se mostrou muito acertada. No final todos ficaram gratificados. "O Poderoso Chefão" que foi realizado ao custo de meros seis milhões de dólares rendeu mais de trezentos milhões em bilheteria. Além disso foi premiado com os Oscars de Melhor Ator (Marlon Brando), Melhor Filme e Roteiro Adaptado e foi indicado aos de Ator Coadjuvante (James Caan, Robert Duvall e Al Pacino), Figurino, Direção, Edição, Trilha Sonora e Som. Um êxito sem precedentes. O Oscar de melhor ator para Marlon Brando aliás foi recusado por ele por causa do tratamento indigno que o cinema americano dava aos povos indígenas. O ator mandou uma atriz interpretar uma jovem índia na noite de entrega do prêmio, fato que causou muitas reações, inclusive de membros da Academia como John Wayne que quis entrar no palco para acabar com aquilo que em sua visão era uma "verdadeira palhaçada"! Quem pode entender os gênios como Brando afinal? Enfim escrever sobre "The Godfather" é secundário. O mais importante mesmo é assistir a essa grande obra prima de nosso tempo. / O Poderoso Chefão (The Godfather, EUA, 1972) Direção: Francis Ford Coppola / Roteiro: Francis Ford Coppola, Mario Puzo / Elenco: Marlon Brando, Al Pacino, James Caan, John Cazale, Richard Conte, Robert Duvall, Diane Keaton. / Sinopse: "O Poderoso Chefão" conta a saga de uma família de imigrantes italianos liderados pelo grande patriarca Dom Vito Corleone (Marlon Brando).

Serpico (1973)
Frank Serpico (Al Pacino) é um jovem policial que é transferido para uma corporação da polícia de Nova Iorque onde impera a corrupção e a fraude. Tendo sempre uma postura ética sua forma de atuar e agir logo entra em confronto com seus colegas policiais. Disposto a revelar a situação em seu trabalho, Serpico começa a ser hostilizado e ameaçado pelos tiras corruptos de sua unidade. "Serpico" faz parte de uma série de filmes americanos que na década de 70 tocaram em temas polêmicos e controversos. O foco aqui é na corrupção policial que imperava em Nova Iorque na época. Pequenos e grandes golpes eram comuns entre a força policial. A onda de crimes ia desde extorsão até mesmo assassinatos encomendados. Tentando ser um policial honesto, Serpico foi diretamente ameaçado pela banda podre do regimento do qual fazia parte. O filme é baseado em fatos reais. Até hoje o verdadeiro Frank Serpico vive no serviço de proteção às testemunhas, isso porque ele ajudou efetivamente a condenar vários policiais corruptos de Nova Iorque. Nem é preciso dizer que isso automaticamente o transformou em um alvo ambulante, colecionando inúmeras ameaças de morte ao longo de sua vida. "Serpico" consagrou o talento de Al Pacino. De fato essa foi uma das fases mais brilhantes de sua carreira. Ele acabara de fazer "O Poderoso Chefão" onde sua atuação foi unanimemente elogiada e estava prestes a filmar sua continuação, também igualmente maravilhosa. Além disso nos anos seguintes novas atuações magníficas surgiriam em sequência: "Um Dia de Cão", "Justiça Para Todos" e "Parceiros da Noite". Uma sucessão de grandes filmes e inspiradas atuações. Para dirigir um tema tão instigante e desafiador a Paramount escalou o cineasta Sidney Lumet (falecido em 2011). O diretor procurou por uma linha narrativa quase jornalística, justamente para lembrar constantemente ao espectador de que se tratava de um filme fundado numa história verídica acontecida há pouco tempo. Aliás a questão envolvendo "Serpico" ainda estava na ordem do dia quando as filmagens começaram e muitos membros da equipe temiam até mesmo sofrer algum tipo de represália pelo tema do filme. No final tudo correu bem. Al Pacino foi premiado com o Globo de Ouro por sua atuação e a produção foi indicada a várias categorias da Academia, entre elas, melhor ator e melhor roteiro adaptado. Um merecido reconhecimento a um simples policial de Nova Iorque que só queria ser honesto e correto. / Serpico (Serpico, EUA, 1973) Direção: Sidney Lumet / Roteiro: Waldo Salt, Norman Wexler baseados no livro "Serpico" de Peter Maas / Elenco: Al Pacino, John Randolph, Jack Kahoe / Sinopse: Frank Serpico (Al Pacino) é um jovem policial que é transferido para uma corporação da polícia de Nova Iorque onde impera a corrupção e a fraude. Tendo sempre uma postura ética sua forma de atuar e agir logo entra em confronto com a banda podre da polícia de Nova Iorque.

O Poderoso Chefão II (1974)
Nova Iorque. Década de 1920. Vito Corleone (Robert De Niro) é um imigrante italiano que tenta subir na vida na grande metrópole americana. Vindo de baixo, acaba sendo alvo de criminosos que querem extorquir e se aproveitar de seu pequeno negócio. Sem outra alternativa resolve reagir contra as injustiças, nascendo daí uma das mais poderosas famílias mafiosas dos Estados Unidos. Na outra linha narrativa, Michael Corleone (Al Pacino) começa a se envolver cada vez mais nas atividades ilícitas de seu clã, ao tentar ampliar os negócios dos Corleones através de Nevada e de Cuba, prestes a passar por uma grande revolução comunista. Filme indicado a onze prêmios da academia, sendo vencedor do Oscar nas categorias de Melhor Filme, Melhor Direção (Francis Ford Coppola), Melhor Roteiro (Francis Ford Coppola, Mario Puzo), Melhor Ator Coadjuvante (Robert De Niro), Melhor Direção de Arte e Melhor Música. Filme vencedor do BAFTA Awards na categoria Melhor Ator (Al Pacino). Considerado por grande parte da crítica americana como o melhor filme da saga "The Godfather", o que não deixa de ser curioso pois quando o projeto da produção foi anunciado nos anos 70 muitos criticaram a proposta, afinal de contas o primeiro filme foi considerado um clássico absoluto, uma obra de arte completa. Fazer uma continuação era visto como algo indigno. Para surpresa de toda essa gente o fato é que "The Godfather Part II" se mostrou um filme não apenas à altura do primeiro, mas também em certos aspectos bem superior. O roteiro, brilhantemente escrito por Francis Ford Coppola e Mario Puzo, não apenas se limitou a levar em frente o enredo do filme original, mas também desenvolveu de forma genial o passado de Vito Corleone, aqui interpretado de forma irrepreensível por Robert De Niro. Assim não são poucos os que acham que na realidade se trata de dois (grandes) filmes em apenas um só! O espectador acaba conhecendo as origens da família Corleone, mostrando que na realidade Don Vito era apenas um imigrante italiano tentando vencer na América honestamente e que precisou trilhar o caminho da violência para proteger seus entes queridos. Na outra linha narrativa o espectador também começa a ver a transformação de Michael Corleone (Pacino). Criado para se tornar o orgulho da família, afastado do lado criminoso de suas atividades, ele acaba ficando no meio do fogo cruzado por diversas circunstâncias que lhe fogem das mãos. Seu destino então se torna traçado a partir desses acontecimentos. Não restam dúvidas, o filme é de fato uma obra prima da sétima arte, um dos melhores da história do cinema americano. Simplesmente maravilhoso. / O Poderoso Chefão II (The GoodFather II, EUA, 1974) Direção: Francis Ford Coppola / Roteiro: Francis Ford Coppola, Mario Puzo / Elenco: Al Pacino, Robert De Niro, Robert Duvall, Diane Keaton, John Cazale, Lee Strasberg.

Um Dia de Cão (1975)
Baseado em fatos reais, o filme mostra um momento decisivo na vida do criminoso Sonny (Al Pacino). Desesperado em arranjar dinheiro para que seu amante seja submetido a uma cara operação de mudança de sexo, ele resolve entrar em um banco no Brooklyn para um assalto. Para seu completo azar ele descobre duas coisas estarrecedoras: primeiro que a agência não tem mais todo o dinheiro que ele pensava, pois grande parte dos valores havia sido transportado momentos antes dele entrar no banco e segundo, que o prédio está completamente cercado pela polícia de Manhattan. Sem alternativas ele decide fazer parte dos funcionários e clientes do banco de reféns, criando uma situação de extrema tensão no local. Filme indicado ao Oscar nas categorias de Melhor Filme, Melhor Ator (Al Pacino), Melhor Ator Coadjuvante (Chris Sarandon), Melhor Edição e Melhor Direção. Vencedor do Oscar na categoria de Melhor Roteiro Original. Filme vencedor do BAFTA Awards na categoria de Melhor Ator (Al Pacino). Esse é um dos filmes mais representativos do realismo que imperou no cinema americano durante a década de 1970. As produções não se contentavam mais apenas em contar uma história divertida e sem maiores preocupações com a realidade em que todos viviam. Pelo contrário, naqueles anos tivemos uma verdadeira explosão de talento e novas propostas encabeçadas por um grupo maravilhoso de cineastas que tinham dois objetivos principais a alcançar com suas obras: mostrar a realidade nua e crua das ruas e com isso provar teses sociais que mostravam que muitas vezes o homem era fruto do meio em que vivia. Sidney Lumet aqui realizou o filme que se encaixa perfeitamente nessas características. Para muitos "Dog Day Afternoon" foi sua mais completa obra prima. O diretor teve a sorte não apenas de contar com um grande roteiro, mas também com um excelente ator, em pleno auge criativo, dando vazão a todo o seu talento, o  inigualável Al Pacino. Todos sabem que Pacino sempre foi um profissional que se entregou de corpo e alma aos seus personagens, porém em poucos momentos de sua carreira vimos ele mergulhar tão visceralmente em um pepel como aqui. Como o roteiro é repleto de tensão e suspense, mostrou-se um veículo perfeito para que Pacino desfilasse na tela toda a complexidade de seu trabalho, explorando um vasto leque de emoções à flor da pele. Sua atuação marcou tanto que inclusive recentemente Pacino lembrou dessa produção ao enumerar aquelas atuações que ele considerava suas verdadeiras obras primas no cinema. Realmente um momento para se rever sempre que possível. "Um Dia de Cão" é visceral, realista e perturbador. Uma aula de sétima arte que não se vê mais hoje em dia. / Um Dia de Cão (Dog Day Afternoon, EUA, 1975) Direção: Sidney Lumet / Roteiro: Frank Pierson, P.F. Kluge / Elenco: Al Pacino, John Cazale, Penelope Allen, Charles Durning, Chris Sarandon.

Justiça Para Todos (1979)
Advogado criminalista (Al Pacino) acaba tendo que aceitar defender um juiz que odeia e que está sendo acusado de estupro contra uma garota. O cinema americano tem longa tradição em filmes que mostram o meio jurídico. Não é para menos. Quem trabalha na área sabe que esse é repleto de dramas e situações aflitivas que acabam gerando ótimos roteiros e filmes. Um processo judicial não é apenas uma sucessão de atos jurídicos ou procedimentos mas também um capítulo de extrema importância da vida das pessoas que atuam nele. O filme mostra justamente esse aspecto. O ponto alto é novamente a atuação do elenco. Al Pacino está brilhante na minha opinião e nem adianta argumentar dizendo que ele está novamente "over", exagerado ou fora de controle em cena. Nada disso, achei sua atuação muito adequada principalmente pela situação que seu personagem se encontra. Se existe algum exagero em "Justiça Para Todos" talvez seja seu clímax que é realmente um pouco inverossímil. Mesmo assim não macula o resto da produção que é muito relevante, diria até didática, sobre o que acontece debaixo dos olhos vendados do poder judiciário. Outro destaque de "Justiça Para Todos" é a mensagem subliminar que ele transmite. Em um deles Pacino diz a seu velho avô que está sofrendo os problemas da velhice: "Ser honesto e ao mesmo tempo ser advogado é algo bem complicado". Realmente, poucas profissões do mundo transitam tanto entre a moralidade e a imoralidade, a legalidade e a ilegalidade. O profissional do direito vive realmente em um fio da navalha e o filme toca muito bem nisso ao colocar o sócio de Pacino no filme em crise existencial (ele consegue liberar um cliente da cadeia que acaba matando duas crianças poucos dias depois de solto). Quais são os limites, a linha que separa a ética da necessidade de se defender o cliente? Como se sente um advogado ao defender um criminoso capaz de atos bárbaros contra o próximo? É isso, "Justiça Para Todos" é um filme para se pensar sobre o poder judiciário, seus anacronismos e contradições. Uma lição que não se aprende nas faculdades de direito. / Justiça Para Todos (...And Justive For All, EUA, 1979) Direção: Norman Jewison / Roteiro: Valerie Curtin, Barry Levinson / Elenco: Al Pacino, Jack Warden, John Forsythe / Sinopse: Arthur Kirkland (Al Pacino) é um advogado criminalista que tenta transitar entre sua ética pessoal e a necessidade de defender seus clientes, entre eles um juiz corrupto e acusado de estupro contra uma inocente garota.

Parceiros da Noite (1980)
Steve Burns (Al Pacino) é um policial de Nova Iorque que decide se infiltrar dentro da comunidade gay para investigar uma série de assassinatos envolvendo homossexuais. A imersão nesse submundo acabará causando grandes mudanças em seu modo de pensar e agir. "Parceiros da Noite" é um dos filmes mais polêmicos da filmografia de Al Pacino. Tocando em um tema complicado o filme tenta trazer uma boa trama policial com a questão gay como pano de fundo. Eu nunca assisti um filme com Al Pacino que me decepcionasse. Sabia que com esse não seria diferente e não foi. "Parceiros da Noite" é um policial bem acima da média que apesar de ter sido lançado no começo dos anos 80 tem um jeitão de filme policial dos anos 70, característica que só pesa ao seu favor. Em muita coisa me lembrou outro grande filme de Pacino, o famoso "Serpico". Gostei do roteiro e como sempre da atuação de Pacino. Aqui ele surge um pouco mais contido do que de costume, é verdade, mas isso pode ser interpretado como parte de sua caracterização pois o personagem acaba passando por um dilema durante as investigações. "Parceiros da Noite" foi produzido com tinhas fortes. Realmente a primeira hora do filme pode ser ofensiva para quem não gosta de ver cenas que mostrem homossexualismo entre homens. Por isso caso esse seja o seu caso é bom ir se preparado para essa terça parte inicial. Devo confessar que achei um pouco carregado nas tintas, criando uma tênue ligação, mesmo que involuntária, entre homossexualismo e criminalidade. Só não vou dizer que foi excessivo porque realmente não sei se o nível de promiscuidade entre os gays de Nova Iorque chegava naqueles extremos. Esse aspecto inclusive incomodou alguns setores GLS na época que protestaram contra a visão que o filme passava dos gays. Pois bem, de qualquer forma, passado essa parte o filme vai melhorando gradativamente e cresce absurdamente em seus vinte minutos finais. Aliás o final "em aberto" é genial. Não vou colocar aqui porque seria ruim para quem ainda não viu o filme, mas tenho certeza que grande parcela do público ficará intrigada. Enfim, deixem o preconceito de lado e não deixem de ver "Parceiros da Noite" pois vale muito a pena. Mais um ótimo momento de Pacino nas telas. / Parceiros da Noite (Cruising, EUA, 1980) Direção: William Friedkin / Roteiro: William Friedkin, baseado na novela de Gerald Walker / Elenco: Al Pacino, Paul Sorvino, Karen Allen / Sinopse: Steve Burns (Al Pacino) é um policial de Nova Iorque que decide se infiltrar dentro da comunidade gay para investigar uma série de assassinatos envolvendo homossexuais. A imersão nesse submundo acabará causando grandes mudanças em seu modo de pensar e agir.

Al Pacino - Filmografia Comentada - Parte 2
No começo da década de 1980 Al Pacino ficou praticamente dois anos sem lançar nenhum filme. Os convites chegavam até ele, mas o ator parecia mais interessado nos palcos do que nas telas. Durante esse período ele se dedicou ao teatro em Nova Iorque até que em 1982 o diretor Arthur Hiller lhe enviou um roteiro escrito por Israel Horovitz. Era uma história bem interessante sobre um autor de peças da Broadway que passava por uma grande tensão familiar e profissional decorrente da estreia de sua nova peça. Pacino que estava tão submerso no meio teatral gostou muito do que leu. Assim aceitou o convite para atuar como o protagonista de "Author! Author!" que no Brasil recebeu o título de "Autor em Família". De certa maneira era um filme menor, com produção mais modesta, feito para um público mais específico, ligado ao mundo do teatro. Pacino assim voltava ao cinema de uma maneira mais sutil, mais artística. Colecionando boas críticas ele acabou sendo indicado ao Globo de Ouro na categoria Melhor Ator - Comédia ou Musical, pois os membros do prêmio entenderam que o filme tinha mais potencial de comédia de costumes do que drama, o que de certa maneira era uma visão bem absurda.

Apesar da boa repercussão por parte da crítica, as bilheterias foram consideradas mornas. Pacino já não parecia mais ser o grande astro dos tempos de "O Poderoso Chefão". Ao contrário disso investia cada vez mais em um tipo de cinema mais intimista, autoral. Correr riscos já não parecia muito fazer sua cabeça. Em Hollywood porém você não pode ser tão cult assim, pois os estúdios visam principalmente o sucesso comercial, uma vez que a roda comercial da indústria cinematográfica não pode parar de girar. É sempre necessário gerar receitas e mais receitas e o valor de um ator é medido não pela qualidade de seus filmes, mas sim pela capacidade de gerar boas bilheterias, acima de tudo. Voltar ao sucesso era algo necessário para Pacino naqueles anos. Seu agente então lhe mostrou o roteiro do novo filme de Brian De Palma. Tudo parecia se encaixar muito bem. O roteiro era escrito pelo prestigiado Oliver Stone, um veterano da guerra do Vietnã, que havia se destacado por causa de seus textos viscerais. Para Pacino parecia ainda mais perfeito porque o protagonista era um gangster, tal como o que ele havia interpretado na saga "O Poderoso Chefão". Embora o novo projeto fosse um remake de "Scarface - A Vergonha de uma Nação" de 1932, tudo era repensado. A ação não se passaria mais nos anos 30, mas sim nos anos 80, em uma Miami cheia de traficantes e cocaína. "Scarface" assim foi escolhido por Al Pacino para ser seu retorno triunfal nas grandes bilheterias. Um filme feito para fazer muito sucesso comercial, mas será que daria realmente certo?

Hoje em dia "Scarface" de Brian De Palma é considerado um filme cult, porém na época de seu lançamento houve inúmeras críticas. O termo mais usado para definir essa fita foi "exagerada". Havia excessos por todas as partes, da violência, dos palavrões, da quantidade de cocaína, dos tiros e o mais surpreendente de tudo, da atuação de Al Pacino. Ele foi criticado por ter exagerado na dose. A atuação do ator foi dita como puro overacting! Essa era uma resposta nova em termos de Al Pacino, logo ele que sempre foi tão elogiado pela crítica. Alguma coisa havia saído dos trilhos. Em termos de bilheteria o filme não foi um fracasso comercial como muitos disseram. Ao custo de 25 milhões de dólares a fita fez 44 milhões apenas no mercado americano. Se não era um hit ou um sucesso, pelo menos cobriu seus custos de produção, deixando um bom lucro para os estúdios Universal.

O interessante é que Pacino não ficou insatisfeito com sua atuação de uma forma em geral, mas sim pelo fato de ter interpretado outro mafioso. Ele não queria se repetir ano após ano, tentando recuperar o que havia sido deixado para trás nos filmes da franquia "O Poderoso Chefão". Para Pacino o importante era variar mais em seus personagens no cinema. Repetir-se não era um dos seus objetivos, mesmo que isso significasse excelentes cachês ou boas bilheterias de cinema. Para Pacino o desafio sempre falaria mais alto. Assim ele resolveu dar mais um tempo. Ficou dois anos fora das telas. Voltou aos palcos, ao teatro em Nova Iorque. Havia uma certa mágoa por parte do ator das críticas que lhe foram feitas. Em 1985 ele decidiu retornar após fazer uma escolha bem ruim. Pacino decidiu que iria estrelar o novo filme de  Hugh Hudson chamado "Revolução". Era um drama épico, histórico, sobre os revolucionários americanos que lutaram pela independência de seu país no século XVII. O filme não foi uma produção tão cara como foi dito na época (custou em torno de 28 milhões de dólares), mas as bilheterias foram pífias. O público não se interessou em nada pelo filme. No primeiro fim de semana o filme só conseguiu arrecadar 50 mil dólares. Em poucos dias todos os jornais americanos estampavam que o novo filme de Al Pacino havia se tornado um dos maiores fracassos de bilheteria da história. Um fracasso monumental.

O fracasso comercial de "Revolução" foi tão grande que Al Pacino resolveu se afastar de Hollywood. Ele ficou especialmente magoado com a crítica especializada que resolveu jogar os cachorros para cima dele, em textos bem violentos e ofensivos. Os estúdios também começaram a achar que Pacino já não tinha mais a mesma força de antes para atrair bilheteria. Dentro da indústria cinematográfica americana você vale o quanto consegue faturar. Mesmo sendo um dos atores mais talentosos de sua geração, Pacino foi colocado de lado sumariamente. Assim o ator ficaria quatro anos sem fazer um filme. Ele estava chateado com tudo, fechou seu apartamento em Los Angeles e voltou a morar em Nova Iorque. Pacino queria voltar para a sua grande paixão: os palcos dos teatros da cidade. Em pouco tempo Pacino estava envolvido em inúmeras peças, todas elas muito bem sucedidas tanto do ponto de vista comercial como de crítica. O grande ator dos primeiros anos do Actors Studio estava de volta ao seu habitat natural, onde ele sempre gostava de estar. Ele inclusive começou a trabalhar em um projeto quase amador mostrando a vida de um ator de teatro no efervescente meio teatral de Nova Iorque. Esse projeto só sairia anos depois, mas Pacino começou a fazer algumas filmagens por conta própria.

Em 1989, com todas as feridas fechadas, um grande estúdio de Hollywood procurou por Pacino. Eles ofereceram o papel principal em um filme policial chamado "Vítmas de uma Paixão" (Sea of Love, no original). O filme seria dirigido por Harold Becker. Ele havia dirigido "Assassinato a Sangue Frio", um thriller que Pacino havia gostado muito. Além disso o cineasta era de Nova Iorque, algo que deixava Pacino mais à vontade. Ele estava cansado dos diretores de Los Angeles, com suas mentes fechadas, sempre pensando nas bilheterias, esquecendo completamente do lado artístico das obras cinematográficas. Pacino havia gostado do roteiro, mas tinha algumas exigências. Uma delas, a principal, era filmar em Nova Iorque. Ele não queria ir para Los Angeles todas as semanas por causa de seus compromissos teatrais. A Universal aceitou as exigências, em parte. Havia questões financeiras envolvidas, pois filmar em Nova Iorque sempre havia sido muito caro, por causa dos impostos cobrados pela prefeitura. Assim chegou-se a um meio termo. As cenas exteriores seriam filmadas em sua grande maioria nas ruas da cidade de Nova Iorque, porém algumas cenas internas seriam rodadas em Toronto, no Canadá. Depois de uma certa hesitação Pacino finalmente assinou seu contrato. Ele estava pronto para voltar às telas.

Em 1990 Al Pacino aceitou o convite do colega e amigo Warren Beatty para atuar na adaptação cinematográfica do personagem dos quadrinhos "Dick Tracy". Não foi uma decisão fácil. Pacino teria que interpretar o vilão, um mafioso chamado Big Boy Caprice. Até aí nada demais, afinal Pacino se notabilizou por interpretar mafiosos italianos em sua carreira. A diferença básica é que ele atuaria com forte maquiagem, uma forma de tentar imitar o tom cartunesco dos desenhos. Mesmo relutante o ator aceitou o desafio. Ele corria o risco de ficar ridículo embaixo de toda aquela maquiagem pesada (que lhe dava inclusive um enorme e feio queixo artificial), mas deixou os receios de lado e topou entrar no elenco, que tinha também a presença megaestrela Madonna, naquele momento sendo a namorada de Beatty. Além da maquiagem de rosto Pacino teve que enfrentar o figurino, hiper colorido (imitando as cores dos desenhos originais) e uma armação para lhe dar o aspecto de ser um sujeito gordo e desengonçado.

As filmagens correram sem problemas, apesar de ser um filme de complicada produção. Naquela época adaptações de quadrinhos não tinham o status de hoje em dia, quando filmes desse tipo são os mais esperados blockbusters do verão. O detetive Dick Tracy nem era mais tão popular entre os jovens, até porque muitos nem o conheciam, afinal era um velho herói de um tempo há muito passado. Mesmo assim o estúdio investiu pesado em marketing e o filme acabou sendo bem recebido pelo público e também pela crítica. No final o filme acabou recebendo três indicações ao Oscar, todos técnicos, nas categorias de Melhor Direção de Arte (muito merecido pois o filme tinha um visual todo próprio), Melhor Canção ("Sooner or Later (I Always Get My Man", afinal Madonna estava no filme!) e Melhor Maquiagem (algo que indiretamente dava créditos também a Pacino pois ele conseguiu atuar bem debaixo de todo aquele material em seu rosto e corpo). Para Pacino foi muito bom encarar uma grande produção novamente e não afundar nas bilheterias, como havia acontecido com "Revolução". Além disso ele se sentiu confortável novamente em um papel coadjuvante, algo que ele não experimentava desde o começo de sua carreira. Assim um novo horizonte surgia nessa nova fase de seu trabalho no mundo do cinema.

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.