sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Cine Majestic

Título no Brasil: Cine Majestic
Título Original: Cine Majestic
Ano de Produção: 2001
País: Estados Unidos
Estúdio: Castle Rock Entertainment, Village Roadshow
Direção: Frank Darabont
Roteiro: Michael Sloane
Elenco: Jim Carrey, Martin Landau, Bob Balaban

Sinopse:
Peter Appleton (Jim Carrey) é um roteirista americano que acaba caindo na infame lista negra do Macartismo. Acusado de ser comunista ele vê sua carreira acabar literalmente da noite para o dia. Até mesmo sua namorada, um relacionamento de longos anos do qual ele realmente acreditava, chega ao fim. Numa noite particularmente depressiva, durante a chuva, Peter sofre um acidente, perde sua memória e vai parar numa cidadezinha do interior. Lá ele acaba sendo confundido com outra pessoa, o filho do dono da única sala de cinema da região. Esse verdadeiro recomeço em sua vida o marcará para sempre. 

Comentários:
Esse filme foi a aposta do comediante Jim Carrey em ser levado finalmente à sério como ator. A aposta foi bastante alta mas a produção, apesar de suas boas intenções, não conseguiu emplacar. O estúdio tentou vender a produção como um "Cinema Paradiso" americano mas na verdade convenceu pouca gente. Para se ter uma ideia de como foi pretensiosa a realização desse filme o ator Jim Carrey declarou em várias entrevistas que tinha muita esperança de que fosse indicado ao Oscar de Melhor Ator por seu personagem. Na verdade ele ia além, deixando sua modéstia de lado chegou a dizer que merecia o prêmio naquele ano. Hollywood não abre mão de certas tradições e uma delas é raramente premiar comediantes. Isso não é algo novo. Nem mesmo Charles Chaplin, um gênio do cinema, conseguiu ser premiado por alguns de seus filmes (só muitos anos depois, já envelhecido, recebeu um prêmio de consolação pelo "conjunto da obra"). Assim "Cine Majestic" acabou sendo vítima de suas próprias aspirações descabidas. Não é um filme ruim no final das contas, e até interessante e bem realizado, mas seu erro maior talvez tenha sido mesmo querer ir longe demais. Filme premiado pela Academy of Science Fiction, Fantasy & Horror Films na categoria "Melhor Lançamento em DVD / Coleção".

Pablo Aluísio.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Dragão: A História de Bruce Lee

Título no Brasil: Dragão - A História de Bruce Lee
Título Original: Dragon - The Bruce Lee Story
Ano de Produção: 1993
País: Estados Unidos
Estúdio: Universal Pictures
Direção: Rob Cohen
Roteiro: Robert Clouse, Linda Lee Cadwell
Elenco: Jason Scott Lee, Lauren Holly, Robert Wagner

Sinopse:
Cinebiografia do ator e lutador de artes marciais Bruce Lee (1940 - 1973). Aclamado como campeão nos ringues ele procura levar para o cinema suas técnicas de luta. Bem sucedido inicialmente numa série de filmes B de baixo orçamento ele acaba morrendo de uma forma até hoje pouco explicada. Seu filho, o também ator Brandon Lee, tentaria seguir os passos do pai muitos anos depois.

Comentários:
Filme baseado no livro escrito por Linda Lee Cadwell, esposa do ator Bruce Lee. É interessante porque procura mostrar o lado mais pessoal do ídolo. Como se sabe Bruce Lee morreu muito jovem ainda, em circunstâncias nebulosas, o que ajudou a aumentar ainda mais seu mito. Cinematograficamente falando seus filmes são pouco relevantes, produções B cheias de artes marciais, clichês e pouco roteiro. Mesmo assim fizeram muito sucesso nos cinemas, até porque trouxe aos ocidentais uma nova forma de fazer cinema que até então era pouco explorada. "Dragon" por sua vez é um filme correto, bem realizado, mas também um pouco burocrático em certos momentos. Embora bem produzido a impressão de se estar assistindo a um telefilme nunca deixa o espectador. Jason Scott Lee é bem parecido com o Bruce Lee mas teve que ser "dublado" nas cenas de artes marciais pois obviamente não tinha a técnica do Lee da vida real. No geral é uma produção curiosa e interessante, embora não surpreendente em nenhum momento. Vale para conhecer melhor a história do mito Bruce Lee. Filme indicado aos prêmios Chicago Film Critics Association Awards e MTV Movie Awards. Vencedor do prêmio da Political Film Society. 

Pablo Aluísio.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Julie & Julia

Julie Powell (Amy Adams) cria um blog onde conta suas experiências culinárias ao tentar reproduzir todas as receitas contidas no livro de uma famosa escritora de gastronomia, Julia Child (Meryl Streep). "Julie & Julia" como se percebe pela sinopse é um filme leve, divertido, bem escrito, redondinho e que tem um charme e um clima de nostalgia à prova de falhas. O único problema é que ao assisti-lo o espectador certamente vai terminar com um apetite daqueles, com água na boca, já que saborosos pratos vão passeando pela tela ao longo de toda sua duração. Achei muito bem bolado o argumento do filme que conta ao mesmo tempo duas histórias reais, de duas "Julias" diferentes, que tem em comum um livro clássico de receitas culinárias.

A primeira personagem é a Julia Child, brilhantemente interpretada pela Mery Streep, uma americana esposa de diplomata que se atreve a entrar no restrito mundo da alta gastronomia francesa. Além de aprender ela ainda tenta levar todos aqueles pratos sofisticadas para os EUA, escrevendo um livro de receitas que deveria ser lido e usado por donas de casa simples de seu país. Seu objetivo era levar os segredos dos grandes pratos franceses para o cotidiano suburbano norte-americano. No começo até achei a caracterização da Meryl Streep um pouquinho caricatural mas depois olhando no Youtube a verdadeira Julia Child (ela também tinha um popular programa de TV) pude perceber como estava fiel o trabalho desenvolvido pela Meryl (que sinceramente é um atriz que dispensa maiores comentários).

A outra Julia, a blogueira Julie Powell cuja sua história se passa em 2002 no filme, também é outro ponto forte. Não sou particularmente fã da Amy Adams mas aqui ela está muito bem, nada exagerada, bem na medida certa, sem ofuscar a Meryl mas também sem perigo de estragar o filme com uma interpretação fraca. O resto do elenco de apoio também é todo bom, de Stanley Tucci (que já gosto há muito tempo) até Jane Lynch (a treinadora de Glee, aqui sob pesada maquiagem).

Ponto positivo também para a diretora Nora Ephron que vinha de um tremendo fracasso, "A Feiticeira", mas que felizmente aqui demonstra sinais de estar voltando ao caminho certo. Tomara que reencontre mesmo pois ela costuma fazer bons filmes, como esse. Foi bastante acertada a decisão de entregar a direção para uma mulher já que esse tipo de produção exige um tipo de sensibilidade que dificilmente seria encontrado em um cineasta do sexo masculino. Em conclusão "Julie & Julia" é uma boa pedida para quem deseja encontrar um entretenimento leve mas bem realizado que traz como bônus mais uma bela interpretação da grande Meryl Streep.

Julie & Julia (Idem, EUA, 2009) Direção de Nora Ephron / Roteiro: Nora Ephron baseado no livro de Julie Powell / Elenco: Amy Adams, Meryl Streep, Stanley Tucci, Chris Messina / Sinopse: Julie Powell (Amy Adams) cria um blog onde conta suas experiências culinárias ao tentar reproduzir todas as receitas contidas no livro de uma famosa escritora de gastronomia, Julia Child (Meryl Streep). Filme indicado ao Oscar na categoria de Melhor Atriz (Meryl Streep). Vencedor do Globo de Ouro na categoria de Melhor Atriz - Comédia ou Musical (Meryl Streep). Também indicado ao prêmio de Melhor Filme - Comédia ou Musical.

Pablo Aluísio.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Máquina Mortífera

Revi recentemente esse primeiro exemplar da franquia. Interessante é que de certa forma o filme não envelheceu tanto quanto eu esperava. O fato é que a fórmula foi tão imitada (e continua a ser imitada até hoje) que até pensamos se tratar de um filme atual. Eu coloco "Máquina Mortífera" e "Duro de Matar" como os filmes responsáveis pela mudança de estrutura dos policiais de ação. Basta assistir a um filme policial das décadas de 60 ou 70 para notar a diferença.

Nos anos 70 filmes como "Serpico" ou "Um Dia de Cão" tinham toda uma preocupação em desvendar aspectos sociais, econômicos e políticos envolvendo temas de segurança pública. A ação, quando existia, era mera decorrência dos conflitos internos expostos. Já nos anos 80 a coisa muda de figura, os filmes policiais são filmes de ação em si, sem qualquer preocupação ou profundidade sociais envolvidas.

"Máquina Mortífera" é o maior exemplo disso. A dupla central traz personagens opostos. Um é o policial negro, com estrutura familiar definida e com a chamada estabilidade emocional. O outro é branco, destruído internamente pela morte da esposa e sem um pingo de juízo na cabeça, um suicida em potencial. O filme é baseado justamente nessa oposição entre eles, onde as diferenças não atrapalham sua amizade pois o que importa aqui são as boas cenas de ação, que justificam a existência do filme como um todo.

Os vilões são cartunescos e a trama fácil de digerir. Isso é óbvio já que esse é o tipo de produto feito para as massas, para gerar grandes bilheterias. Depois de filmes assim o gênero policial foi ficando cada vez mais raso e vazio (as próprias continuações de Máquina Mortífera demonstram bem isso). De qualquer forma não há como negar que foi um ótimo negócio para a indústria que ganhou milhões, já para os cinéfilos mais conscientes esse tipo de filme não acrescentou muito.

Máquina Mortífera (Lethal Weapon, EUA, 1987) Direção: Richard Donner / Roteiro: Shane Black / Elenco: Mel Gibson, Danny Glover, Gary Busey, Mitch Ryan e Tom Atkins / Sinopse: Dois policiais tentam desmantelar uma perigosa quadrilha de tráfico de drogas que atua em sua cidade. O filme "Máquina Mortífera" foi indicado ao Oscar na categoria de Melhor Som (Les Fresholtz, Rick Alexander, Vern Poore e Bill Nelson).

Pablo Aluísio.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Livro - Não Há Dia Fácil

Aproveitei o último fim de semana para ler esse que tem sido um dos livros mais polêmicos lançados ultimamente. Em um texto simples, direto, o autor, um membro da tropa de elite Seals da Marinha norte-americana, narra os preparativos, planos e execução da operação que matou o terrorista Osama Bin Laden. É curioso entrar mesmo que de forma superficial na mente de um militar desse nível, que faz parte de uma das organizações mais eficientes do planeta. O que vemos de seu relato é um sujeito firme em suas convicções pessoais que quer a todo custo cumprir seu objetivo, sem falhas e sem riscos. O interessante é que ele estava no Helicóptero que caiu dentro da propriedade do terrorista. Ele narra o que pensou antes do aparelho cair como um grande saco de batatas. Certamente pensou que morreria ali, naquele momento.

Depois conta em detalhes o momento em que entraram na casa de Bin Laden, subindo pavimento por pavimento atrás do criminoso internacional. Ele morava em um imóvel amplo, com três pavimentos e com portas reforçadas. Apenas um dos que estavam na casa ao seu lado esboçou uma reação e foi morto de forma imediata. Um dos filhos de Bin Laden também tentou uma reação mas suas chances contra um grupo da elite militar americana como aquele eram simplesmente nulas. Foi alvejado imediatamente e depois jogado de lado pelos membros  da equipe para desbloquear o caminho. O militar não demonstra qualquer reação diante da morte de um garoto como aqueles, simplesmente afirma que o tiraram de lado mas a poça de seu sangue prejudicou o grupo pois o chão ficou escorregadio demais para as botas dos SEALs. Não há lugar para piedade dentro de um grupo como esse.

O ápice do relato ocorre quando os militares chegam no quarto onde estava Bin Laden. Para o autor do livro ele agiu como um verdadeiro covarde. Não chegou a ter reação e nem entrou em conflito armado com o grupo americano. Simplesmente foi atingido na cabeça quando procurou ver o que estava acontecendo. Quando Mark Owen e seu grupo entrou no quarto o encontrou caído, tendo convulsões (pois o tiro havia pego em cheio). Após averiguarem que não estava armado o grupo se posicionou e atirou em seu peito, liquidando o líder do grupo Al -Qaeda de forma definitiva. Simples, firme e objetivo. Depois de Owen tirar algumas fotos o corpo do terrorista foi levado pelos militares para o helicóptero que os levou de volta para sua base. Lá o entregaram para um grupo Ranger do exército americano. Tudo durou menos do que 30 minutos. Mesmo com o acidente logo no começo da operação tudo correu como planejado.

Os militares estavam esperando fogo cerrado pois se tratava de Bin Laden mas tudo o que encontraram foi um velho numa casa sem segurança adequada, rodeado de mulheres e crianças. O livro tem causado muita polêmica nos EUA porque a versão contada por Mark Owen  (não é seu nome real mas um pseudônimo) é diferente da versão oficial divulgada pelo governo americano. Segundo a Casa Branca, Bin Laden foi morto após trocar tiros com os militares americanos. Owen afirma que isso jamais ocorreu. Laden tinha armas em seu quarto mas estavam sem munição. Ele foi atingido pelo batedor da tropa e isso não ocorreu sob fogo cruzado. Seu maior erro foi colocar a cabeça para fora do quarto onde estava para tentar ver o que ocorria no corredor. Foi nesse momento que o militar americano, obviamente um atirador de elite, o acertou bem em cheio. Em vista das diferenças de versões a confusão está armada, principalmente agora no meio da campanha presidencial americana. Afinal Bin Laden foi executado ou morto em combate? O livro traz a versão de quem esteve lá, no calor dos acontecimentos. Mark Owen pode ser punido uma vez que relata em seu livro uma operação militar altamente secreta. Ele se justifica dizendo que tem a obrigação de dizer a verdade. Cabe ao leitor depois tirar suas próprias conclusões. Realmente no mundo em que vivemos não há dia fácil.

Não Há Dia Fácil
Um Líder da Tropa de Elite Americana Conta Como Mataram Osama Bin Laden
1a. edição, 2012
Autor: Mark Owen
Editora Paralela

Pablo Aluísio.

domingo, 15 de novembro de 2009

Norah Jones – Little Broken Hearts

Não é novidade para ninguém que adoro Norah Jones mas esse último CD que foi lançado há pouco é bem decepcionante, sinto dizer. No começo pensei tratar-se do fato de não conhecer muito bem o material (a tal síndrome da primeira audição, sempre muito complicada). O problema é que mesmo após algum tempo continuei a não gostar do resultado do disco. Nenhuma grande melodia me prendeu, não achei os arranjos particularmente bem produzidos e marcantes, até mesmo a voz da minha cantora preferida soa sem vida, sem emoção. Essa situação toda me deixou surpreso pois jamais pensaria que escreveria algo assim logo da Norah Jones. Outro ponto complicado é o fato de terem relegado o piano para segundo plano nos arranjos. Como é possível tomarem uma decisão tão infeliz como essa? Logo com a Norah que é pianista de mão cheia? E a troco de quê? De arranjos tão sem graça como o que ouvimos em músicas como “Good Morning” que sinceramente falando é bem maçante e redundante Realmente é decepcionante, não há muito o que comentar. Norah perdeu muita musicalidade nessa infeliz produção de Brian Burton, também conhecido como Danger Mouse (seja lá o que isso signifique).

A maioria das letras é depressiva e melancólica. Não a bela melancolia do primeiro álbum de Norah Jones, “Come Away With Me” mas sim uma melancolia chata, tediosa que não chega a lugar nenhum. Tudo tenta parecer moderninho demais na minha visão. Curiosamente de modo em geral o álbum recebeu críticas positivas lá fora. Além disso teve bom resultado comercial. Atribuo isso ao fato das pessoas terem esperado bastante pelo CD novo da Norah. Além disso essa sonoridade digamos. mais experimental. sempre ganha a simpatia daqueles que escrevem sobre música, principalmente nos EUA. De minha parte não gostei de praticamente nada – nem da capa que homenageia o filme. Mudhoney. Prefiro as capas mais bonitas, elegantes e bem trabalhadas dos CDs anteriores de Norah. Aqui foi caso de antipatia imediata só de olhar para aquele visual retrô trash. Enfim, o disco pode ser considerado até mesmo o mais ousado e experimental da cantora até agora mas a despeito disso não me fisgou em nada. Prefiro a Norah Jones mais tradicional, tocando piano e cantando suavemente seu lindo repertório jazzístico dos trabalhos anteriores. Esse som techno cult não me atraiu em absolutamente nada mesmo. Espero que ela volte ao velho estilo em seu próximo trabalho. Dias melhores virão!

Norah Jones – Little Broken Hearts (2012)
01. Good Morning
02. Say Goodbye
03. Little Broken Hearts
04. She’s 22
05. Take It Back
06. After The Fall
07. 4 Broken Hearts
08. Travelin’ On
09. Out On The Road
10. Happy Pills
11. Miriam
12. All A Dream

Pablo Aluísio.

sábado, 14 de novembro de 2009

Norah Jones - Feels Like Home

Segundo álbum de Norah Jones. Muito se disse na época de seu lançamento que esse trabalho trocava o jazz do primeiro trabalho solo por uma sonoridade nitidamente com sabor country. Não concordo plenamente com essa visão. Certamente há canções de raiz entre as faixas que compõem "Feels Like Home" mas o jazz tradicional que tanto impressionou o mundo no disco de estreia de Norah também está presente. Talvez pelo fato da seleção abrir com "Sunrise" tenha criado essa impressão, não sei, o que sei é que é um trabalho coeso e muito bem arranjado. Muitos críticos se limitam a ouvir apenas as primeiras faixas dos discos e ignoram todo o resto. Muito provavelmente foi o que aconteceu aqui. Embora haja canções country esse definitivamente não é o “Norah Jones Country & Western Album” como muitos querem fazer crer.  Eu gosto de insistir em dizer que os melhores trabalhos de Jones são aqueles baseados em piano e quarteto de cordas. Essa é a musicalidade definitiva de Norah Jones, não adianta mudar. De fato quando ela resolveu mudar perdeu consistência. Ela não deve sair de seu caminho melódico mais tradicional. Felizmente "Feels Like Home" deixa o experimentalismo de lado e se decide pelo estilo mais conservador da carreira da cantora. Também convenhamos, esse é apenas seu segundo trabalho - e o sucesso arrasador do primeiro disco não abria margem para mudanças significativas.

A produção é da própria Norah Jones que aqui divide a responsabilidade com Arif Mardin, veterano arranjador e maestro da era de ouro do Jazz americano. A parceria já havia dado muito certo em "Come Away with Me" então não havia razão mesmo para mudar. Já deu para perceber que "Feels Like Home" é de certa forma uma extensão de "Come Away With Me". No conjunto não consegue porém ser melhor que seu antecessor. A seleção musical é inferior. Mesmo assim a gravadora de Norah Jones resolveu investir alto. Para capitalizar em cima de seu nome foram lançados quatro singles do CD! Nos tempos atuais isso é bem incomum. As canções que saíram em single foram "Sunrise", "What Am I to You?" (uma das melhores composições de "Feels Like Home"), "Those Sweet Words" e "Sleepless Nights" (single lançado exclusivamente no mercado do Japão pois a canção virou um tremendo hit por lá). No mais após ouvir todas as faixas tiramos algumas conclusões. A primeira é que Norah Jones ainda canta lindamente, provando mais uma vez que há sim espaço para a boa música atualmente nas paradas. Segundo que country ou não, menos inspirado ou não, o fato é que o álbum foi um grande sucesso de público e crítica. Vendeu mais de 10 milhões de cópias e chegou ao primeiro lugar em praticamente todos os países ocidentais. Não foi tão bem premiado como "Come Away With me" porque afinal aquele levou todos os Grammys importantes de seu ano. Como eu já afirmei "Feels Like Home" é item obrigatório para quem gostou do primeiro CD da cantora. Não é tão brilhante mas mantém um nível de qualidade bem acima do que se produz atualmente. No fundo o que vale a pena mesmo é ouvir a voz de Norah Jones e aqui não há como negar que ela está em momento inspirado. Talento musical certamente não lhe falta.

Norah Jones - Feels Like Home (2004)
Sunrise
What Am I to You?
Those Sweet Words
Carnival Town
In the Morning
Be Here to Love Me
Creepin' In
Toes
Humble Me
Above Ground
The Long Way Home
The Prettiest Thing

Pablo Aluísio.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Norah Jones - Come Away With Me

Quando Norah Jones surgiu em 2002 o mundo da música necessitava desesperadamente de uma cantora como ela. Com as paradas americanas dominadas completamente pelo Rap e Hip Hop, Norah conseguiu um feito extraordinário: ressuscitar um gênero musical que para muitos estava morto e enterrado, o jazz. Obviamente a sonoridade de Norah não se assemelha ao jazz clássico, dos grandes ídolos do passado, mas sim uma nova roupagem, que não se envergonha de fundir ritmos diversos, como Folk e Soul em uma só mistura, resultando em um produto final belíssimo. O sucesso foi imediato. Norah foi consagrada pela crítica mundial, ganhando cinco prêmios Grammy (Entre eles o de melhor álbum do ano e melhor canção para Don't Know Why) e coroou sua estreia com chave de ouro ao vender mais de 22 milhões de cópias ao redor do mundo, um número realmente assustador para os dias de hoje, onde a pirataria corre solta e os artistas sofrem para vender material oficial. Nada mal para um gênero musical que era dito como coisa do passado, ultrapassado e sem perspectivas futuras.

Muito se teorizou para se procurar a razão de tanto sucesso e impacto. Talvez a resposta seja tão simples que não precise de tese alguma. Norah Jones fez sucesso com Come Away With Me simplesmente porque gravou excelentes canções, embaladas por arranjos de maravilhoso bom gosto, tudo aliado a uma sonoridade ímpar e cativante, que bateu fundo aos ouvintes que àquela altura já estavam fartos de tantos grupos sem consistência, divas fabricadas pelas gravadoras e cantores descartáveis. Norah trouxe qualidade musical em uma época em que isso estava simplesmente em extinção. O resultado dessa equação não poderia ter sido diferente e seu grande sucesso comprovou apenas que as pessoas queriam simplesmente ouvir boa música novamente. Norah também rompeu com velhas fórmulas. No ano em que surgiu a moda era venerar as grandes divas, com explosões de ego, estrelismo e excessos de todos os tipos. As cantoras que estavam em evidência na mídia ou eram estrelas deslumbradas com seu próprio sucesso (como Mariah Carey, que recentemente mostrou toda a sua falta de talento desafinando no funeral de Michael Jackson) ou ídolos teen que, para sobreviverem no meio musical, tiveram que adotar uma postura de vulgaridade explicita (como Britney Spears e similares). Norah, com sua timidez quase patológica rompeu com tudo isso.

Sua carreira evoluiu bastante após o lançamento de Come Away With Me. Norah lançou mais dois CDs, o segundo denominado Feels Like Home flertou apaixonadamente com a Country Music e seu último trabalho, Not Too Late, trouxe o lado compositora da cantora, com faixas compostas pela própria ao lado do produtor Lee Alexander. Mas sem a menor sombra de dúvida foi com Come Away With Me e sua parceria vitoriosa com o chamado Jazz contemporâneo que Norah alcançou suas melhores notas. Uma obra irretocável certamente.

Norah Jones - Come Away With Me
01. "Don't Know Why" (Harris)
02. "Seven Years" (Alexander)
03. "Cold, Cold Heart" (Williams)
04. "Feelin' the Same Way" (Alexander)
05. "Come Away with Me" (Jones)
06. "Shoot the Moon" (Harris)
07. "Turn Me On" (Loudermilk)
08. "Lonestar" (Alexander)
09. "I've Got to See You Again" (Harris)
10. "Painter Song" (Alexander, Hopkins)
11. "One Flight Down" (Harris)
12. "Nightingale" (Jones)
13. "The Long Day Is Over" (Harris, Jones)
14. "The Nearness of You" (Carmichael, Washington)

Pablo Aluísio.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Frank Sinatra - Swing Along With Me

Dando continuidade aos comentários sobre os excelentes álbuns de Frank Sinatra, vou aqui agora tecer algumas linhas a "Swing Along With Me" que popularmente acabou conhecido apenas como "Sinatra Swings" (nome que acabou sendo adotado oficialmente no relançamento do disco). O LP foi lançado em 1961 quando Sinatra já estava rompido com sua antiga gravadora Capitol. Embora tenha sido um período extremamente bem sucedido em termos de vendas e boas críticas, Sinatra rompeu com o selo logo no começo da década de 60. O cantor não era uma pessoa fácil no trato profissional e após várias brigas com a direção da Capitol, muitas delas movidas por interferências da gravadora nos repertórios de seus discos, algo que Sinatra considerava imperdoável, ele finalmente rompeu de forma definitiva com a companhia. Curiosamente é que mesmo após sair batendo a porta da Capitol o cantor continuou soltando várias farpas via imprensa. Em uma entrevista desabafou afirmando que "produzir e lançar meus discos não dão trabalho nenhum pois o sucesso é certo. Eu mesmo poderia fazer isso sozinho". De fato Sinatra não estava blefando quando disse essas palavras.

Poucos dias depois tomou uma importante decisão e resolveu fundar seu próprio selo chamado "Reprise Records". Agindo assim Sinatra pretendia mostrar que poderia ser o artista e o empresário de suas próprias gravações. Após tantos anos ele finalmente assumiria todo o controle que teria direito. O primeiro disco pela Reprise foi "Ring-a-Ding-Ding!" que foi totalmente bem sucedido, vendendo muito bem ao mesmo tempo em que ganhava aplausos da crítica especializada. Como havia muitas contas a pagar pela criação da Reprise, Sinatra não perdeu muito tempo e apenas quatro meses depois de "Ring-a-Ding-Ding!" colocou no mercado mais um disco que foi justamente esse "Swing Along With Me", um dos meus preferidos.

A seleção musical é totalmente agradável, leve e com excelente sonoridade. O disco foi produzido por Sonny Burke que muitos consideravam apenas um engenheiro de som com privilégios. O fato é que Sinatra queria mandar em tudo, sem qualquer tipo de opinião alheia interferindo no que ele queria ou não em seus discos. Como se pode perceber ouvindo o disco seu faro não falhou. O álbum abre com a muito boa "Falling in Love with Love" embora a primeira grande canção só venha logo após, "The Curse of an Aching Heart". Excelente swing com execução perfeita. Também aprecio muito o trabalho vocal de Sinatra em "Don't Cry, Joe (Let Her Go, Let Her Go, Let Her Go)" , uma faixa que relembra em muito seus trabalhos mais melancólicos como "All Alone" ou então "No One Cares". Ira e George Gershwin também estão na seleção com a clássica "Love Walked In", de ritmo sofisticado e suave. De fraco mesmo o álbum só tem a estranha "Granada", com arranjo estranho e melodia que destoa de todas as demais canções do LP. Uma alienígena completa na seleção musical. Embora tenha caído no gosto popular sempre a achei muito kitsch e démodé. Felizmente é sucedida pela dançante "I Never Knew" cuja qualidade é repetida nas demais faixas que fecham o disco. Enfim, recomendo o disco para os que gostam de Sinatra mais pop, mais swing, nesse aspecto o saldo realmente é excelente.

Frank Sinatra - Swing Along With Me (1961) / Falling in Love with Love / The Curse of an Aching Heart / Don't Cry, Joe (Let Her Go, Let Her Go, Let Her Go) / Please Don't Talk About Me When I'm Gone / Love Walked In / Granada /I Never Knew / Don't Be That Way / Moonlight on the Ganges / It's a Wonderful World / Have You Met Miss Jones? / You're Nobody 'Til Somebody Loves You / Produzido por Sonny Burke / Gravado no United Studios, Hollywood, Maio de 1961 / Lançado em Julho de 1961

Pablo Aluísio.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Frank Sinatra - Come Fly With Me

Quando Sinatra assinou com a Capitol Records em 1953 ele tinha algumas ideias em mente. Entre elas o objetivo de levantar seu nome dentro da indústria fonográfica. O cantor sabia que precisava restabelecer sua força comercial no meio para consolidar de vez sua fase de "renascimento" como artista. Nesse meio tempo não perdeu tempo e começou a trabalhar com grandes arranjadores e maestros como Nelson Riddle (o melhor parceiro musical de Sinatra em toda sua carreira) e Gordon Jenkins. Os discos de Sinatra na Capitol eram pensados e programados para serem grandes sucessos comerciais, levar o cantor de volta ao topo das paradas. O Rock´n´Roll batia às portas e para sobreviver no meio Frank tinha que constantemente se reinventar. Por essa razão todos os álbuns de Sinatra na Capitol Records tinham sempre uma idéia básica amarrando as faixas entre si. Eram em essência discos conceituais, bem antes dessa expressão ter sido popularizada em discos como "Sgt Peppers" dos Beatles.

Esse "Come Fly With Me" se encaixa nesse conceito. A ideia partiu do próprio Sinatra que pensou reunir em apenas um álbum várias canções que lembrassem diversas partes do mundo. "Come Fly With Me" (em português "Venha Voar Comigo") era claro nesse sentido - o disco seria um passeio ao redor do mundo através de suas músicas. Para a produção a Capitol indicou o produtor e maestro Billy May. Seria a primeira vez que trabalharia com Frank Sinatra. De início foi meio complicado para ele se acostumar com o modus operandi de Sinatra dentro dos estúdios pois o cantor era perfeccionista e rabugento na mesma proporção durante as sessões de gravação. De fato, Frank era do tipo que não aceitava ordens de absolutamente ninguém e isso geralmente criava atritos entre ele e os produtores que trabalhavam ao seu lado. Ele tanto poderia implicar com uma gravação tecnicamente perfeita como também podia selecionar um take não tão perfeito como o definitivo para entrar no disco. No fundo não ouvia ninguém e seguia apenas sua própria intuição. Se lhe soasse bem ele a incluiria entre as faixas do álbum e ponto final. Não era uma pessoa fácil de se lidar profissionalmente. A despeito disso porém temos que admitir que sua intuição quase nunca falhou como comprovamos em sua discografia oficial, onde seus álbuns saíam com resultado extremamente perfeito em termos técnicos.

"Come Fly With Me", a canção que abre o álbum é até hoje extremamente popular, tanto que foi regravada por diversos outros intérpretes ao longo dos anos (nenhuma versão posterior conseguiu chegar perto do talento de Sinatra na música é bom frisar). Como já foi dito todas as canções evocam lugares ao redor do mundo. Essa era a ideia, o conceito do álbum em si. Assim somos levados a caminhar no outono de Nova Iorque em"Autumn in New York", canção que obviamente não consegue se equiparar ou rivalizar em termos de popularidade com outra música de Sinatra sobre a cidade, o hino definitivo do cantor, "New York, New York", mas que tem melodia bonita e levemente melancólica. A cidade luz também não poderia faltar e assim o ouvinte é levado a passear por uma idealizada Paris em "April in Paris", que tem um arranjo com forte presença orquestral acompanhando ótimas notas alcançadas por Sinatra. A cidade inclusive seria duplamente homenageada no relançamento em CD com "I Love Paris" de Cole Porter, faixa não lançada na edição original, o que convenhamos foi um pecado.

O Havaí também não poderia faltar na lista. "Blue Hawaii", canção que depois seria regravada por Elvis Presley, é uma das melhores melodias cantadas por Sinatra. Até o Brasil entrou na dança com a popular "Aquarela do Brasil" de Ary Barroso em versão americana escrita por Bob Russel. Curiosamente a canção acabou sendo mais conhecida lá fora como "Brazil". Eu pessoalmente gosto da versão de Sinatra nesse disco mas como brasileiro afirmo que o excesso de arranjos ao estilo jazz tradicional lhe tirou grande parte de sua personalidade. De qualquer forma não deixa de ser um prazer ouvir Sinatra cantando a terrinha com tanta paixão e convicção. Seu vocal é perfeito.

"Come Fly With Me" chegou nas lojas americanas pela primeira vez em janeiro de 1958 e foi um sucesso, logo chegando ao primeiro lugar das paradas da revista Billboard. Na época Sinatra torcia o nariz pois seus álbuns conseguiam chegar bem nas paradas mas seus singles geralmente fracassavam na parada americana. Ele deveria ter levado em conta que os discos da Capitol só funcionavam melhor mesmo quando apreciados em conjunto - com todas as canções - o que de certa forma desqualificavam seus singles como audição única. De qualquer maneira o LP serviu ainda mais para reerguer uma das melhores vozes da história da música popular americana.

Come Fly With Me - Frank Sinatra - Produção de Billy May - Faixas: "Come Fly With Me" (Sammy Cahn, Jimmy Van Heusen) "Around the World" (Victor Young, Harold Adamson) "Isle of Capri" (Will Grosz, Jimmy Kennedy) "Moonlight in Vermont" (Karl Suessdorf, John Blackburn) "Autumn in New York" (Vernon Duke) "On the Road to Mandalay" (Oley Speaks, Rudyard Kipling) "Let's Get Away from It All" (Matt Dennis, Tom Adair) "April in Paris" (Duke, E.Y. Harburg) "London By Night" (Carroll Coates) "Aquarela do Brasil" (Ary Barroso, Bob Russell) "Blue Hawaii" (Leo Robin, Ralph Rainger) "It's Nice to go Trav'ling" (Cahn, Van Heusen) / Faixas Bônus no relançamento em CD: "Chicago" "South of the Border" (Jimmy Kennedy, Michael Carr) e "I Love Paris" (Cole Porter)

Pablo Aluísio.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Na Encruzilhada dos Facínoras

Cam Bleeker (Fess Parker) é enviado pelo governador do Kansas para se infiltrar em uma quadrilha liderada por Luke Darcy (Jeff Chandler), um carismático líder rebelde que às vésperas da guerra civil americana prega a independência do Kansas da União Federal. Esse Western da Paramount estrelado por Jeff Chandler, o galã de cabelos grisalhos, é muito bem escrito principalmente na parte que toca ao personagem Luke Darcy, com vários diálogos inteligentes e bem construídos. Acontece que ele não é apenas mais um vilão unidimensional que vemos em tantos filmes de bang bang mas sim um homem de ideias que prega a separação de seu Estado de forma definitiva dos EUA, se tornando assim um país com sua própria soberania, a República independente do Kansas. Utopia? Certamente, mas não podemos nos esquecer que era justamente isso que os confederados queriam na guerra civil norte-americana. Curiosamente, e isso é mostrado no filme, o Kansas ficou em cima do muro no conflito, nem aderindo aos exércitos da União e nem se unindo ao Sul confederado. Irritados por essa neutralidade muitos grupos resolveram pegar por conta própria em armas para incendiar as populações de pequenas cidades - e é justamente isso que vemos o personagem de Jeff Chandler fazer durante todo o filme.

Por falar em Jeff Chandler ele está muito bem no filme. Ator competente, tinha ótima dicção e era ideal para interpretar tipos mais eruditos como o que vemos aqui. Revelado pela Universal ao lado de outros famosos atores da época como Rock Hudson e Tony Curtis, Chandler conseguiu se estabilizar em Hollywood com uma série de boas atuações em bons filmes, mesmo quando se tornou livre do contrato da Universal. Esse "Na Encruzilhada dos Facínoras" foi realizado justamente quando Chandler se tornou ator free lancer. Já seu parceiro em cena, Fess Parker, é apenas correto. Fisicamente parecido com Gregory Peck, Fess se torna ofuscado por Chandler não conseguindo se impor como "mocinho" da estória. Por fim não poderia deixar de falar da atriz francesa Nicole Maurey. Muito bonita, sofisticada e elegante, ela logo se torna um verdadeiro colírio para a platéia masculina, o que não é nada mal. Em suma, "The Jayhawkers!" é um bom retrato dos bastidores do maior conflito armado que já ocorreu em solo americano. Vale a pena conferir.

Na Encruzilhada dos Facínoras (The Jayhawkers!, EUA, 1959) Direção de :Melvin Frank / Roteiro: A.I. Bezzerides, Frank Fenton / Elenco: Jeff Chandler, Fess Parker, Nicole Maurey / Sinopse: Cam Bleeker (Fess Parker) é enviado pelo governador do Kansas para se infiltrar em uma quadrilha liderada por Luke Darcy (Jeff Chandler), um carismático líder rebelde que às vésperas da guerra civil americana prega a independência do território do Kansas da União Federal.

Pablo Aluísio.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

James Dean e o nosso tempo...

Na foto ao lado vemos o ator James Dean e o diretor Nicholas Ray que o dirigiu no clássico "Juventude Transviada". Já dizia o ditado popular que "O tempo é o senhor de tudo". Nada sobrevive a ele e mais cedo ou mais tarde todos, não importa o tamanho da fama que conquistaram em vida, um dia serão apenas nota de rodapé na história (ou nem isso). Isso de certa forma aconteceu com o mito James Dean. Embora nos círculos de cinéfilos ele ainda esteja presente o fato é que para o público em geral (inclusive jovens) o nome James Dean não significa mais muita coisa. Percebi isso recentemente quando vi em uma loja de shopping uma bonita camisa com a estampa do eterno ídolo jovem em exposição. Obviamente sabendo de quem se tratava fiz um pequeno teste e perguntei para a atendente da loja, uma moça bem simpática, se ela conhecia o jovem estampado na roupa. Sua resposta foi: "Deve ser algum modelo americano".

Nesse momento eu senti que o antigo mito jovem realmente está morrendo lentamente na lembrança da sociedade. Também pudera, James Dean morreu de um acidente de carro no longínquo ano de 1955. Faça as contas, lá se vão 56 anos, mais de meio século, desde que enfiou seu porsche Spyder num acidente em um cruzamento poeirento do deserto da Califórnia. O curioso de tudo isso é que Dean foi mais famoso na morte do que em vida. De fato o único filme que tinha sido lançado antes dele morrer foi justamente sua estréia como astro de primeiro time no famoso "Vidas Amargas". Antes ele já tinha aparecido em três produções mas em nenhuma delas fez algo relevante, tudo não passando de mera figuração em cena!

Depois de sua morte o filme "Juventude Transviada" ganhou as telas e Dean foi literalmente santificado pela juventude rebelde dos anos 50. Seus trejeitos, modo de vestir e penteado viraram febre nos chamados "anos da brilhantina". Os pedaços de seu carro destruído foram vendidos como souvenirs e até mesmo pessoas que mal o conheceram em vida lançaram livros com revelações "bombásticas". O jovem interiorano do meio oeste americano caiu nas graças do público após isso, se tornando um verdadeiro mártir da rebeldia sem causa! Nada mal para um sujeito que largou tudo para tentar vencer na vida da ensolarada Hollywood.

De baixa estatura, míope e nem um pouco sociável Dean lutou bastante para alcançar seu lugar ao sol. Infelizmente quando colhia seus primeiros frutos na sua carreira uma tragédia cruzou em sua ascensão ao estrelato. Dean pode hoje estar esquecido nas areias do deserto escaldante em que morreu, mas deixou três pequenas obras que lhe garantirão a imortalidade da sétima arte. Como diria o refrão da famosa música do Eagles, James Dean levou bem a sério o lema "too fast to live, too young to die"

Pablo Aluísio.

domingo, 8 de novembro de 2009

Filmografia Comentada: Gary Cooper

Gary Cooper foi imortalizado como o xerife abandonado à própria sorte pela cidade que defende em "Matar ou Morrer". Ator ícone da era de ouro do cinema americano o astro estrelou dezenas de produções ao longo dos anos. Seus personagens sempre refletiam o ideal americano do desbravador do velho oeste. Mesmo assim ainda brilhou em dramas, filmes de guerra e até comédias leves! Segue abaixo comentários de filmes assistidos desse grande nome.

Matar ou Morrer
Elenco: Esse foi o filme da vida do Gary Cooper e isso meus amigos não é pouca coisa já que Cooper foi um dos maiores nomes da história do cinema americano. Grace Kelly, na flor da idade, esbanja beleza e charme. No elenco de apoio duas curiosidades para os cinéfilos: Lee Van Cleef, que se tornaria um dos "vilões" mais recorrentes em filmes de western nos anos seguintes e Lon Chaney Jr, isso mesmo, o Lobisomen em pessoa dos antigos filmes de terror. Ele aliás tem ótima cena ao lado de Cooper em que diz que "as pessoas não se importam realmente com honra e justiça". / Direção: Excelente, Fred Zinnemann realmente era craque, um cineasta de mão cheia. Existe uma determinada cena que ilustra bem como sua direção é inspirada. Enquanto o xerife caminha pela cidade vazia a câmera dá um travelling e sobe, mostrando toda a solidão e abandono do personagem naquele momento. / Produção: Minimalista. O interessante é que tudo o que foi preciso para contar a estória do filme foi a cidade cenográfica (até bastante despojada) e a estação de trem. Nada mais. É o típico caso em que a produção se resguarda para não atrapalhar o clima psicológico em que vive o xerife naquele momento crucial. / Argumento e roteiro: O roteiro segue em tempo real (uma grande novidade na época). Embora o enredo em si pareça simples, na realidade não é. Seu subtexto traz diversas leituras, inclusive sobre a hipocrisia que reina em toda comunidade humana. Muito interessante, vale a pena procurar e descobrir as diversas entrelinhas que o argumento tenta passar aos espectadores.

Lanceiros da Índia
O filme enfoca a ocupação inglesa nos postos mais avançados da fronteira indiana. Para quem andou cabulando as aulas de história é bom relembrar que durante longos anos o império britânico dominou a Índia. O roteiro obviamente adota a visão do colonizador. Não é para menos, a produção é de 1935 então é lógico que os indianos não iriam aparecer como heróis ou virtuosos. Pelo contrário, os colonizados aqui são retratados como animais traidores e covardes. Já os ingleses são o supra sumo da honra, são à prova de torturas e chegam ao ponto de não revidar fogo inimigo para cumprir ordens dos superiores! Uma situação no mínimo esquisita, vamos convir. Luvas de pelica é pouco! O elenco é liderado por Gary Cooper em um figurino de matar! Roupas espalhafatosas parecem ter sido a marca registrada das tropas coloniais inglesas. Tudo é muito exagerado e chamativo (vide a roupinha do ator aí em cima). Cooper inclusive está muito parecido com Rodolfo Valentino nas cenas - até o famoso bigodinho de Valentino ele adotou! O outro ponto forte de "Lanceiros da ìndia" é sua bela produção. Há ótimas cenas de batalha, inclusive a explosão real de um paiol dos rebeldes da fronteira. Curiosamente apesar de passar uma extrema veracidade em termos de fotografia o filme não foi feito em terras indianas mas sim no americaníssimo Alabama. De qualquer forma não faz diferença. No final das contas "Lanceiros da Índia" é um boa aventura que diga-se de passagem não envelheceu tanto assim apesar dos quase 80 anos de sua realização.

A Árvore dos Enforcados
Roteiro e Argumento: O roteiro do filme foi extremamente bem escrito. A estória se passa toda durante a corrida do ouro numa montanha de Montana. Assim encontramos todos os tipos de personagens grotescos que habitavam esse tipo de local: ladrões, assassinos, estupradores, vigaristas, ou seja, toda a escória do mundo atrás da oportunidade de ficar rico da noite para o dia. Os roteiristas desenvolveram muito bem os personagens do ponto de vista psicológico, mostrando inclusive seus piores lados (até do médico feito por Gary Cooper). / Produção: Filmada em locações a produção é extremamente caprichada. Reconstruíram uma vila de mineradores com tudo o que tinham direito, inclusive lojas, bordéis e tudo o mais. Não poderia ser diferente já que a presença de Gary Cooper já era garantia de boas bilheterias e por isso os produtores não tinham receio de só usar o melhor que Hollywood poderia oferecer na época. / Direção: O filme foi dirigido não só por Delmer Daves mas também pelo ator Karl Malden que não foi creditado na época. Como as filmagens foram extremamente complicadas por causa das locações Karl dividiu a direção com Daves. O resultado foi ótimo como se pode ver nas telas. / Elenco: Gary Cooper era fenomenal. O sujeito passava dignidade e austeridade apenas com um olhar, impressionante. Aqui o mais interessante é o caráter dúbio de seu personagem que esconde fatos obscuros de seu passado até o final do filme. Afinal o que ele tenta tanto esconder? Karl Malden também está excelente. Seu personagem é um porcalhão e a cena em que ele tenta estuprar a personagem de Maria Schell é extremamente ousada para aquela época. Outro destaque do elenco fica com George C Scott, aqui fazendo um curandeiro bebum e vigarista. Ótimo.

Vera Cruz
O filme já começa à toda mostrando o encontro da dupla central, Cooper e Lancaster, numa cena com diálogos totalmente cínicos e dúbios. De certa forma isso se repetirá em todo o restante da fita. Curioso porque até mesmo o personagem de Gary Cooper parece não ter muitos escrúpulos. Coronel do exército confederado ele agora vaga pelo deserto mexicano para vender sua mão de obra ao grupo que lhe pagar melhor, ou seja, é um mercenário. Já o personagem de Burt Lancaster é bem pior, ladrão de cavalos, mentiroso e trapaceiro, desde o começo do filme já sabemos que não há nada o que esperar dele em termos éticos. Algo que se confirma no final quando teremos o tradicional duelo no meio das ruínas de uma cidade mexicana! "Vera Cruz" foi um dos primeiros westerns em que a ação foi colocada em primeiro plano, superando até mesmo os cânones dos faroestes mais tradicionais. Muitos especialistas inclusive qualificam "Vera Cruz" como uma espécie de predecessor do que seria feito no chamado Western Spaguetti. Não chegaria a tanto mas não há como negar que os faroestes italianos iriam utilizar de vários elementos que estão presentes aqui. Um dos elementos é justamente a simplificação dos roteiros em detrimento da ação incessante. A trama da produção na realidade se desenvolve praticamente toda em torno de uma diligência com carregamento de ouro que tenta chegar até o porto de Vera Cruz. No meio do caminho Cooper e Lancaster, que estão protegendo o carregamento ao lado de um pelotão do exército mexicano, vão enfrentando todo tipo de desafios, conflitos e traições (sim, todos querem no final ficar com a fortuna e para isso não medem esforços em trair qualquer um). A produção é muito boa - bem acima da média dos faroestes da época. O figurino dos mexicanos na fita pode até ser considerada exagerado, mas é fiel no final das contas uma vez que eles realmente se vestiam daquela maneira. Em conclusão Vera Cruz é um bom western, talvez um pouco prejudicado pelo excesso de personagens e pirotecnia. Vale pelo carisma de Lancaster e pela presença sempre muito digna do grande mito Gary Cooper.

O Navio Condenado
Outro filme que transita muito bem por diferentes gêneros. Começa como suspense, vira filme de tribunal e se encerra como aventura, com ótimas tomadas submarinas. A primeira coisa que chama atenção em "O Navio Condenado" é o seu elenco! Charlton Heston e Gary Cooper no mesmo filme já é motivo suficiente para o tornar obrigatório para qualquer cinéfilo que se preze. De quebra ainda tem Richard Harris, jovem, em papel coadjuvante que terá grande importância no desenvolvimento da trama. O filme é baseado em um famoso livro britânico, "The Wreck of the Mary Deare", lançado no mesmo ano e talvez por isso sofra um pouco no sentido de se colocar muitas informações em um tempo limitado - não há como escapar, livros e filmes são meios diferentes e o que pode ser estendido em um geralmente não cai bem em outro. Percebi que houve uma preferência por parte dos roteiristas em enfocar no duelo travado entre os personagens de Cooper e Heston na primeira parte do filme! Os efeitos daqueles acontecimentos, que na minha opinião são bem mais interessantes, foram reduzidos nas cenas de tribunal. Mesmo assim o filme prova algumas coisas importantes, entre elas a de que um filme de aventura não precisa ser vazio ou burro, pelo contrário, pode ter uma sub trama muito bem bolada e inteligente, como vemos aqui. O resultado final está mais do que recomendado.

O Grande Segredo
Gary Cooper foi um dos grandes astros de Hollywood nos anos dourados do cinema americano. Como cinéfilo sempre me interessei em assistir filmes antigos e clássicos e Cooper sempre despertou minha atenção em especial. Isso é fácil de explicar porque quanto mais raro se torna a filmografia de um ator do passado mais me interesso em sua carreira e em conhecer seus filmes. Gary Cooper se enquadra perfeitamente nessa situação. Embora tenha feito mais de cem filmes em sua longa carreira em Hollywood raros são os títulos disponíveis do ator para assistir no Brasil. Como todo grande astro ele tinha grande prestígio entre os fãs de cinema no passado, porém o que se percebe é que o fato de ter morrido há quase cinquenta anos dificulta e muito o acesso aos seus filmes. Tirando seus grandes sucessos (como o clássico do Western Matar ou Morrer ou então Sargento York), que foram regularmente lançados por aqui, nada mais se encontra. A realidade é que existe uma lacuna enorme de títulos pois quase 90% de sua obra cinematográfica permanece inédita em nosso país. Então foi com grande satisfação que recentemente tive a oportunidade de assistir um de seus filmes menos conhecidos. Trata-se de O Grande Segredo, filme de espionagem de 1946, lançado logo após o final da II Grande Guerra Mundial. O interessante dessa película é que aqui Cooper foi dirigido por um dos grandes diretores da história do cinema, Fritz Lang. Só por essa razão o filme já seria extremamente curioso, para não dizer obrigatório. Confesso que pouco sabia sobre o roteiro, a repercussão ou a importância desse momento de Cooper no cinema, que para minha surpresa foi quase que completamente esquecido. O astro, que sempre se dava melhor em filmes de Western aqui faz um papel bem atípico em sua carreira, interpretando um cientista recrutado pelo órgão governamental de inteligência norte-americano. Sua missão é tentar resgatar uma importante cientista que poderia ser usada pelos alemães para a construção da bomba atômica nazista. O filme tem ótimo desenvolvimento e diálogos. Cooper está bem contido em sua interpretação. Geralmente ele interpretava o tipo caladão e tímido, porém virtuoso ao extremo. Aqui ele troca o rifle pelo giz. Não deixa de ser engraçada a cena em que ele aparece fazendo cálculos para "passar o tempo"! O filme é pura diversão e deve ter empolgado bastante os militares recém chegados na volta ao lar depois do fim da Guerra. Se tenho uma crítica a fazer em relação ao filme é em razão de seu final, que lembra bastante o epílogo do clássico Casablanca. Mas isso é de menor importância. O que realmente importa é que isso em nada comprometeu a ótima experiência de conhecer mais um filme da extensa - e bastante desconhecida - filmografia do mito Gary Cooper. Agora com o surgimento do Blu Ray bem que as produtoras poderiam olhar com mais atenção a quase completa ausência de filmes de Cooper no mercado brasileiro. Os admiradores da época de ouro de Hollywood agradeceriam bastante.

Sargento York
Roteiro e Argumento: O filme é baseado na história real do soldado Alvin York. Ele era um simples fazendeiro do Estado rural do Tennessee que foi convocado para lutar na I Guerra Mundial. Religioso passou por uma crise de consciência por ter que ir lutar e matar inimigos na Europa. O interessante é que sua vida no campo foi vital para seu sucesso no conflito pois era exímio atirador. Acabou se tornando conhecido nacionalmente e virou herói após ter matado vários atiradores alemães na França e ao lado de apenas sete homens de seu batalhão ter conseguido a façanha de render quase 140 soldados inimigos. O feito lhe valeu uma medalha do congresso americano e uma notoriedade sem precedentes entre o povo americano. O roteiro explora a vida pacata de York antes do conflito e depois na sua chegada nas trincheiras do front. Em ambas as situações o filme é extremamente bem realizado e sucedido. Provavelmente a riqueza de detalhes do roteiro se deva ao fato dele ter sido adaptado do diário pessoal de York que ele escreveu durante o conflito. / Elenco: O grande destaque do elenco de "Sargento York" é a ótima interpretação de Gary Cooper no papel principal. Aqui ele consegue com grande êxito captar a personalidade simplória do personagem. Um sujeito caipira, sem estudo, que tinha como único objetivo maior na vida comprar uma pequena faixa de terras em sua cidade para se casar com Gracie Williams (interpretada pela bela e simpática Joan Leslie). O fato de Cooper ter nascido em outro Estado interiorano (Montana) certamente lhe ajudou muito nessa caracterização. A excelente atuação de Cooper acabou lhe valendo o Oscar de melhor ator daquele ano. Mais do que merecido, é bom frisar. / Produção: A produção da Warner não mediu esforços para que contar bem a história do famoso Alvin York. Como o clima de patriotismo estava na ordem do dia em razão da II Guerra Mundial o estúdio sabia que tinha um potencial grande sucesso nas mãos e por isso caprichou na produção, investindo nos melhores profissionais disponíveis no mercado. Isso se vê bem nos detalhes da produção, figurino, cenários, equipamentos militares, tudo recriado de acordo com o contexto histórico da I Guerra Mundial.. Embora grande parte do filme tenha sido realizada em estúdio (principalmente nas cenas no Tennessee) o resultado é no final das contas excepcional. Nas cenas de batalha tudo é extremamente bem feito. As trincheiras típicas da I Guerra Mundial foram recriadas com extrema veracidade e fidelidade histórica. / Direção: O filme foi dirigido pelo excelente cineasta Howard Hawks. O que mais chama atenção nesse diretor era sua extrema versatilidade. Hawks passeava com grande êxito pelos mais diferentes gêneros cinematográficos. Realizava ótimas comédias musicais (como "Os Homens Preferem as Loiras") ao mesmo tempo em que revisitava lendas do velho oeste (sua parceria ao lado de John Wayne foi longa e produtiva). Nesse "Sargento York" ele volta a dirigir uma cinebiografia, algo que havia conseguido com grande sucesso na década de 30 com "Scarface, a Vergonha de uma Nação". Sua boa técnica e precisão podem ser conferidas nas duas partes básicas em que "Sargento York" se divide. Na primeira parte, quando York é apenas um caipirão do interior e o filme tem mais toques dramáticos. Já na segunda quando York vai para o front temos nitidamente um filme de guerra. Em ambas as divisões Hawks se sai extremamente bem sucedido, o que reforça bem sua versatilidade na direção. O resultado final é de alto nível.

O Homem do Oeste
Link Jones (Gary Cooper) foi criado em uma família de ladrões, assassinos e bandidos. Após cometer alguns crimes ao lado de seu tio e mentor Dock Tobin (Lee J. Cobb) ele foge e tenta reconstruir sua vida numa distante e pequenina vila do velho oeste. Anos depois durante um assalto ao trem onde viajava Link acaba descobrindo que seu tenebroso passado está de volta para atormentar sua vida! "O Homem do Oeste" é seguramente um dos melhores faroestes psicológicos da história do cinema americano. O filme tem uma carga de tensão absurda durante toda sua duração. O espectador não consegue desgrudar os olhos dos acontecimentos e o roteiro escrito pelo expert Reginald Rose joga excepcionalmente bem com toda a situação. A trama toda se passa em menos de 24 horas - desde o momento em que o trem que leva Link é assaltado até sua chegada com o bando de Dock Tobin numa fantasmagórica e abandonada cidade no meio do deserto de Mojave (um dos locais mais hostis dos EUA). Godard considerava "O Homem do Oeste" um dos melhores westerns já feitos. Não discordo em nada de sua opinião. Gary Cooper está excelente no papel de um homem que busca redenção mas que não consegue se livrar de uma vida de balas e mortes. Embora esteja excepcionalmente bem em cena temos que admitir que no quesito interpretação o filme pertence mesmo a Lee J. Cobb. No papel do malvado e cruel tio do personagem de Cooper, Cobb contrói uma magnífica caracterização. Um velho ladrão, pistoleiro, transpirando maldade e ruindade por todos os poros. Sua atuação realmente impressiona e fica marcada para os fãs de western. Perfeita. Por fim vale a pena lembrar que "O Homem do Oeste" não foi dirigido por qualquer um mas sim pelo genial cineasta Anthony Mann de tantos westerns excepcionais como "Winchester 73" e "Um Certo Capitão Lockhart". Um craque no estilo. Enfim recomendo "O Homem do Oeste", um faroeste brilhante que não deve faltar na coleção de nenhum cinéfilo fã do gênero.

Pablo Aluísio.

sábado, 7 de novembro de 2009

Filmografia Comentada: Montgomery Clift

Aqui pretendo disponibilizar textos sobre alguns dos filmes estrelados por Montgomery Clift. O ator foi um dos três grandes ícones jovens da década de 50 (ao lado de Marlon Brando e James Dean). Frágil, sensível e excelente intérprete fez grandes atuações ao longo da carreira, fruto de seu trabalho com grandes diretores. Sempre adorei filmes clássicos e acho importante compartilhar com os leitores do blog alguns breves comentários sobre seus filmes.

Corações Solitários
Jovem jornalista desempregado (Montgomery Clift) aceita trabalhar em um jornal escrevendo a coluna "Corações Solitários". Nela leitores pedem conselhos sentimentais. Inicialmente o jornalista pensa ser tudo uma bobagem mas conforme vai se envolvendo nas histórias acaba descobrindo os dramas pessoais de cada pessoa que lhe escreve. Como se já não bastasse os problemas profissionais ele ainda tem que lidar com sua noiva (Dolores Hart) que está perdendo a paciência com sua indefinição (ela quer se casar logo mas ele vacila sobre essa decisão). O argumento de "Corações Solitários" é muito interessante. Existe um subtexto envolvendo o personagem de Clift (jovem idealista) com seu editor (cínico e descrente com a humanidade em geral) que rende ótimos diálogos. Em um deles, impagável, o editor diz a Clift "Não se engane, as pessoas em geral são animais, não existe bondade no mundo". A tese de um e do outro acabará sendo testada justamente nos leitores da coluna "Corações Solitários" - inclusive no personagem de uma dona de casa insatisfeita casada com um homem impotente. Como facilmente se percebe o texto (baseado em uma famosa peça da época) é forte. Clift novamente dá show com seu personagem, um jornalista bom e decente que tenta driblar inclusive seu passado nebuloso (que acabará voltando à tona para lhe assombrar). Outro destaque é a presença da starlet Dolores Hart. Já conhecia ela de um filme com Elvis Presley (Loving You). Sua história é bem curiosa pois pouco tempo depois ela largaria a carreira e o cinema para virar uma freira católica em sua cidade natal. Ela ainda está viva e hoje é uma irmã beneditina de um mosteiro americano. Em suma, "Corações Solitários" tem excelente elenco, inteligente roteiro e um final aberto que nos deixa a pergunta: Afinal quem tinha razão, o editor ou o jornalista? Assista para responder.

Rio Violento
Genial essa obra do grande Elia Kazan. O filme procura responder a uma questão extremamente pertinente: Até que ponto o progresso justifica a mudança compulsória do modo de vida das pessoas? No filme Montgomery Clift (excepcionalmente bem) interpreta um agente do governo dos EUA que tem a missão de retirar uma senhora idosa que mora em uma ilha no rio Tennessee. Ela se recusa a abandonar o local pois foi ali que criou seus filhos, enterrou seu marido e viveu ao lado de negros libertos e demais moradores do local. Lutando por seus valores tradicionais e por aquilo que lhe é mais importante a senhora resolve enfrentar até mesmo o poder do governo americano. Em um elenco ótimo, a atriz Jo Van Fleet está simplesmente maravilhosa. Interpretando a matriarca Ella Garth ela tem duas grandes cenas que a fazem ser o grande destaque de todo o filme. Em uma delas explica ao personagem de Montgomery Clift a dignidade de quem viveu e trabalhou no rio Tennessee há gerações. Devo dizer que poucas vezes vi Clift ser superado em cena mas aqui ele realmente foi colocado para escanteio, tamanho a grandeza de Fleet em cena. Socialmente consciente, tocando em temas tabus para a época (como o racismo do sul dos EUA), Rio Violento é um dos melhores trabalhos de Kazan (e isso definitivamente não é pouca coisa). Simplesmente grandioso.

Os Deuses Vencidos
Eu considero esse filme simplesmente obrigatório para todos os cinéfilos. O elenco é estrelar e o roteiro muito bem desenvolvido, resultando numa produção memorável. “Os Deuses Vencidos” foi baseado no famoso livro de autoria de Irwin Shaw. A proposta é mostrar aspectos da II Guerra Mundial sob o ponto de vista de alguns combatentes, tanto do lado dos aliados como também dos soldados do Eixo. Tudo mostrado sem cair nos clichês típicos dos filmes de guerra, que sempre procuraram mostrar os soldados americanos como heróis virtuosos e os alemães como monstros assassinos e sanguinários. A intenção é realmente construir um mosaico mais próximo da realidade, mostrando que em ambos os lados lutaram pessoas comuns, com sonhos e objetivos que foram interrompidos de forma brutal pela guerra. Olhando sob esse ponto de vista realmente não existia grande diferença entre um militar americano ou alemão. Todos queriam voltar para casa o mais rapidamente possível, sobreviver aos combates e retornar para a vida que tinham antes da guerra começar. O filme tem longa duração, com quase três horas de duração, e é fácil entender o porquê. São duas estórias paralelas que se desenvolvem ao mesmo tempo. Na primeira somos apresentados ao tenente alemão Christian Diestl (Marlon Brando) na França ocupada. Essa parte é bem interessante pois o ator na época fez questão de mostrar o oficial nazista como um ser humano comum e não como o vilão caricato dos filmes de guerra que conhecemos. Nem é preciso dizer que Marlon se saiu muito bem em mais uma atuação marcante de sua filmografia. Na outra estória, passada no lado dos militares aliados, acompanhamos dois soldados americanos (Dean Martin e Montgomery Clift) que são convocados e mandados para a Normandia. Essa parte do roteiro foca bastante na vida dos que participaram da maior batalha da guerra, no evento que ficaria conhecido pela história como “Dia D”. Dean Martin repete seu papel contumaz de "Mr Cool". Aqui ele interpreta um cantor da Broadway que faz de tudo para escapar da guerra e do front mas que não consegue escapar de ir para o campo de batalha. Já Montgomery Clift apresenta uma grande interpretação como um soldado judeu que sofre nas mãos de seus colegas de farda durante seu treinamento. Seu papel me lembrou muito o que ele representou em "A Um Passo da Eternidade". Seu aspecto não é nada bom em cena. Os sinais físicos do alcoolismo já são nítidos e Clift aparece muito magro e abatido, com aspecto doentio. Mesmo assim está fabuloso em suas cenas. Ponto para Marlon Brando que fez de tudo para que o colega fosse escalado para o filme pois sabia que isso iria lhe ajudar a superar a crise pessoal pelo qual vinha passando. A direção foi entregue ao veterano das telas Edward Dmytryk; Com experiência em filmes de guerra como “A Nave da Revolta” o  diretor sabia que estava trabalhando com dois atores muito sensíveis e carismáticas proveniente do Actor´s Studio. Assim procurou abrir uma linha de diálogo com ambos. Ele já tinha trabalhado com Clift em seu filme anterior, “A Árvore da Vida” e por isso sentiu-se tranquilo em relação a ele. Já com Brando procurou manter uma relação no nível profissional. Sabia que Marlon Brando poderia ser tanto um ator maravilhoso no set como um terror para os cineastas que trabalhavam com ele. No final se deram bem e tudo correu sem maiores problemas. O resultado de tantos talentos juntos se vê na tela pois “Os Deuses Vencidos” é hoje em dia considerado um filme essencial dentro do gênero. Um verdadeiro clássico. 

De Repente no Último Verão
O filme começa logo impactando. As duas primeiras cenas juntas duram mais de 50 minutos (praticamente mais da metade do filme). Nelas temos dois duelos em cena: Katherine Hepburn vs Mont Clift e logo em seqüência Liz Taylor vs Clift. Curioso é que em ambas Mont apenas serve de escada para que as atrizes declamem longos monólogos sobre Sebastian (o personagem cujo rosto nunca aparece mas que é citado em praticamente todos os diálogos do roteiro). Esse começo arrebatador sintetiza tudo: é um filme de diálogos e interpretação, nada mais. Sua gênese teatral não é disfarçada e nem amenizada até porque estamos tratando de Tennessee Willams, um dos grandes dramaturgos da cultura americana. Achei Elizabeth Taylor extremamente bonita no filme. Ela já estava entrando nos seus 30 anos mas ainda continuava belíssima. Mostra talento em cada cena mas não fica à altura de Hepburn (essa realmente foi uma das maiores atrizes da história). Já Montgomery Clift deixa transparecer as cicatrizes e deformações de seu rosto, após o grave acidente que sofreu ao sair de uma festa na casa da amiga Liz Taylor. Ele está contido no papel mas consegue dar conta muito bem do recado mesmo com as várias dores que sofria (atuou praticamente sedado durante todo o filme). O texto é rico e claramente trata da questão homossexual do personagem Sebastian mas justamente por essa razão teve que ser amenizado nas telas por causa da censura interna que imperava entre os estúdios. De qualquer forma o resultado não pode ser classificado como menos do que grandioso. Todos brilham em cena – na realidade se trata de uma rara oportunidade de ver tantos talentos juntos em um só filme. Simplesmente imperdível.

Rio Vermelho
Assistir a esse filme foi um enorme prazer para mim. Primeiro porque eu sou um fã incondicional do ator Montgomery Clift. Segundo porque eu acho este um dos mais belos westerns de todos os tempos e terceiro porque John Wayne e Howard Hawks estão no auge de suas carreiras. Esta é uma película realmente nota dez, em todos os aspectos e por isso se tornou um filme atemporal, inesquecível e clássico. Montgomery Clift era um caso à parte. Considerado um dos maiores atores jovens de seu tempo, ao lado de Marlon Brando e James Dean, Clift era um profissional à frente de sua época. Cria do teatro americano, local onde ele sentia-se realmente à vontade, ele relutou muito antes de ingressar no cinema. Temia perder sua identidade e ser engolido pelo Star System. Sempre foi um ator independente e conseguiu se impor à indústria, fez poucos filmes, mas todos escolhidos a dedo, e muitos destes títulos se tornaram clássicos absolutos da história. do cinema americano. Basta lembrar de "Um lugar ao sol" e "A um passo da Eternidade", por exemplo. Complexo e torturado por demônios internos, Clift acabou por tabela imprimindo uma densidade ímpar em suas atuações. O conflito interno do ator era automaticamente passado para seus papéis. Aqui ele se sobressai mesmo interpretando um personagem sem grande profundidade, em sua estréia nas telas, curiosamente em um western estrelado pelo maior nome do gênero, John Wayne. O contraste entre a determinação e rudeza de Wayne com a sensibilidade de Clift se torna um dos grandes trunfos do filme. E o Duke? Bem, ele está novamente ótimo no papel de um velho rancheiro dono de milhares de cabeças de gado, que tem como único objetivo levá-las, em uma grande caravana, para o Estado do Missouri. Conforme o tempo passa e as dificuldades se tornam maiores o personagem de Wayne vai ficando cada vez mais obcecado, tornando insuportável a vida de seus homens. O clímax ocorre em uma feroz luta entre Wayne e Clift. Um duelo entre os velhos e os novos paradigmas do velho oeste. A cena entrou para a história do cinema americano. Em relação à inspirada direção um famoso crítico americano resumiu a opinião da época: "Tendo como pano de fundo as belas paisagens do meio oeste americano, o mestre Howard Hawks faz um dos melhores faroestes dos últimos tempos, não se limitando, no entanto, a falar apenas do expansionismo capitalista americano, povoando terras desertas em meados do século 19. Vai além: realizando um belo painel sobre as relações humanas, através dp choque de personalidades de Dunson (Wayne) e Garth (Montgomery Clifi). Criados como pai e filho, protagonizam uma estória de amor e ódio absolutamente emocionante". O filme concorreu aos Oscar de melhor roteiro e Montagem. Uma injustiça não ter ganho nenhum, mas se a Academia não o premiou ele acabou recebendo outro tipo de reconhecimento, e este bem mais importante, o reconhecimento popular daqueles que o assistiram e jamais esqueceram ao longo de todos esses anos.

Os Desajustados
Esse foi o último filme completo da Marilyn. Ela ainda chegou a iniciar as filmagens de "Something s Got To Give" ao lado de Dean Martin mas o filme não foi concluído. Seus atrasos, faltas e confusões no set fizeram com que a Fox a despedisse no meio da produção. Pouco tempo depois, pressionada, abandonada e depressiva veio a encontrar sua morte em um quarto solitário de sua casa. Assim Os Desajustados se tornou seu último momento no cinema. Eu acho um filme triste, melancólico e depressivo até. Afirmam algumas biografias da estrela que Arthur Miller escreveu o conto que deu origem ao filme inspirado justamente na sua vida com a Marilyn. Os excessos da vida da atriz aparecem na tela, apesar de Marilyn Monroe ainda aparecer linda nas cenas, ela está bem acima do peso e abatida. Muitas vezes a atriz surge em cena com o olhar perdido no horizonte, sem convicção. Fisicamente ela também mostra sinais de desgaste. Numa cena de praia, por exemplo, em que ela aparece de biquíni a atriz exibe uma barriguinha bem saliente. As brigas com o marido no set também foram constantes. Em certa ocasião deixou Arthur Miller abandonado no meio do deserto (onde o filme estava sendo filmado) se recusando a deixá-lo entrar em seu carro. O diretor John Huston teve então que voltar para ir pegá-lo, caso contrário morreria naquele lugar seco e inóspito. Marilyn também continuava com seu medo irracional dos sets de filmagens. Antes de entrar em cena ela ficava nervosa, em pânico. Errava muito suas falas e fazia o resto do elenco perder a paciência com suas atitudes. Seu medo de atuar nunca havia desaparecido mesmo após tantos anos de carreira. Interessante é que apesar de Marilyn não sair das revistas e jornais por causa dos acontecimentos ocorridos nas filmagens o filme não conseguiu fazer sucesso o que é uma surpresa e tanto pelo elenco estelar e pela publicidade extra que recebeu dos tablóides. Muitos atribuem o fracasso ao próprio texto de Arthur Miller que não tinha foco e nem uma boa dramaturgia. Aliás desde que se casou com Marilyn o autor parecia ter perdido o toque para bons textos. Tudo soava sem inspiração, sem talento. "Os Desajustados" também foi a última produção com o mito Clark Gable. Envelhecido e decadente sofreu bastante com os problemas do filme, o levando a um esgotamento físico e mental, vindo a falecer pouco depois. Acusada de ter contribuído para o colapso de Gable, Marilyn sentiu-se culpada e ganhou mais um motivo para sua depressão crônica. De qualquer forma só pelo fato de "Os Desajustados" ter sido o último filme de Monroe e Gable já vale sua existência. Não é tecnicamente um excelente filme mas está na história do cinema pelo que representou na vida de todos esses grandes mitos que fizeram parte de sua realização.

Um Lugar Ao Sol
George Eastman (Montgomery Clift) é o jovem sobrinho de um rico industrial do mercado de roupas femininas. Seu tio logo o emprega em uma das fábricas como empacotador. Lá conhece a operária Alice (Shelley Winters) e logo se enamora dela. Ao mesmo tempo em que corteja Alice acaba se envolvendo também com Angela Vickers (Elizabeth Taylor) uma rica garota da alta sociedade. O triângulo amoroso trará consequências trágicas para todos os envolvidos. "Um Lugar Ao Sol" é um dos grandes clássicos da carreira de Montgomery Clift e Elizabeth Taylor. O filme mescla muito bem romance, suspense e drama. Vivendo em dois mundos completamente distintos o personagem de Montgomery Clift, um pobre rapaz que anseia subir na vida algum dia, acaba perdendo o controle dos acontecimentos em sua vida emocional, o que o levará a pagar um alto preço por se envolver com duas garotas ao mesmo tempo. George Stevens foi um dos grandes diretores do cinema americano. Austero e detalhista ele filmava muitas tomadas diferentes, de ângulos diversos para só depois montar o filme ao seu bel prazer. Assistindo "Um Lugar ao Sol" é fácil perceber que ele estava literalmente obcecado pelo belo rosto juvenil de Elizabeth Taylor. O cineasta usa e abusa de vários closes do rosto de sua atriz, o que não é nada mal uma vez que Liz estava no auge de sua beleza. Com traços delicados e lindos olhos azuis (que infelizmente não foram captados pois o filme foi rodado em preto e branco) a estrela poucas vezes esteve tão bonita como aqui. O roteiro foi baseado no livro "An American Tragedy" de Patrick Kearney. Embora ficcional a estória foi inspirada em fatos reais acontecidos em Chicago na década de 20. A situação toda é bastante sórdida e demonstra que não existem muitos limites para a maldade da alma humana, embora no filme o personagem Geroge Eastman seja de certa forma amenizado. É fácil compreender a razão. Não haveria como rodar toda uma produção como essa em cima de um mero assassino. Assim tudo foi cuidadosamente suavizado para não chocar muito o público americano dos anos 50. O resultado de tanto capricho veio depois nas bilheterias e nas ótimas críticas que o filme conseguiu. Shelley Winters e Montgomery Clift foram indicados ao Oscar. Embora não tenham sido premiados o filme em si conseguiu vencer em seis categorias (inclusive direção e roteiro), se consagrando naquele ano. Até o gênio Charles Chaplin se rendeu ao filme declarando que havia sido o "melhor filme que já tinha assistido em sua vida". Além disso os bastidores da produção deram origem a muitas histórias saborosas envolvendo Clift e Taylor, que se tornariam amigos até o fim de suas vidas. Depois disso não há muito mais o que escrever. Para os cinéfilos "Um Lugar ao Sol" é mais do que obrigatório. Um filme essencial.

Pablo Aluísio.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

George Hamilton

Hoje é o aniversário do ator George Hamilton, 74 anos, quem diria! Eu sempre achei ele uma figura das mais divertidas do entretenimento americano simplesmente porque Hamilton nunca se levou à sério, nem como ator, nem como cantor, nem como nada. Na verdade sempre foi um bon vivant, acima de tudo. Vivendo no jet set de Hollywood ele cultivou amizades e amores entre os grandes astros, sem a menor culpa.

Uma das ocasiões que mais ri com o Hamilton foi quando um jornalista perguntou a ele como gostaria de ser lembrado. Levantando as sobrancelhas (um gesto típico de canastrões assumidos) ele respondeu sem hesitação que "gostaria de ser lembrado como o bronzeado mais perfeito de Hollywood". Impagável não é mesmo?

Ele nasceu em Memphis, local que ficou imortalizado como sendo a cidade do coração de Elvis Presley, mas logo cedo foi para Los Angeles. A mãe sonhava com um futuro de grande estrela para Hamilton. O destino porém mostrou que esse não seria o caminho. Ator apenas mediano, Hamilton se destacou mesmo como ótimo relações públicas, dando grandes festas em sua casa onde a realeza do cinema americano sempre se reunia.

No cinema nunca se fez de difícil, aceitando trabalhar no que surgisse pela frente. Isso lhe deu um respeitável currículo de 105 filmes na carreira, formado por alguns belos abacaxis mas também por outros bons filmes despretensiosos, divertidos e engraçados. Como esquecer o vampiro que tem que lidar com os desafios da modernidade em "Amor à Primeira Mordida" ou o Zorro pra lá de afetado em "As Duas Faces do Zorro"? Sempre trabalhando para manter sua fachada de rico e famoso Hamilton fez também muita TV, inclusive brilhando em sucessos como a novelona americana "Dinastia". Para ele o que importa é o trabalho em si e não tanto a qualidade dos projetos em que se envolveu ao longo da vida. Mas no final das contas tudo isso nem importa, o que é bom mesmo é deixar os parabéns para essa figura ímpar de Hollywood. Parabéns George Hamilton!

Pablo Aluísio.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

A Árvore dos Enforcados

Roteiro e Argumento: O roteiro do filme foi extremamente bem escrito. A estória se passa toda durante a corrida do ouro numa montanha de Montana. Assim encontramos todos os tipos de personagens grotescos que habitavam esse tipo de local: ladrões, assassinos, estupradores, vigaristas, ou seja, toda a escória do mundo atrás da oportunidade de ficar rico da noite para o dia. Os roteiristas desenvolveram muito bem os personagens do ponto de vista psicológico, mostrando inclusive seus piores lados (até do médico feito por Gary Cooper).

Produção: Filmada em locações a produção é extremamente caprichada. Reconstruíram uma vila de mineradores com tudo o que tinham direito, inclusive lojas, bordéis e tudo o mais. Não poderia ser diferente já que a presença de Gary Cooper já era garantia de boas bilheterias e por isso os produtores não tinham receio de só usar o melhor que Hollywood poderia oferecer na época.

Direção: O filme foi dirigido não só por Delmer Daves mas também pelo ator Karl Malden que não foi creditado na época. Como as filmagens foram extremamente complicadas por causa das locações Karl dividiu a direção com Daves. O resultado foi ótimo como se pode ver nas telas.

Elenco: Gary Cooper era fenomenal. O sujeito passava dignidade e austeridade apenas com um olhar, impressionante. Aqui o mais interessante é o caráter dúbio de seu personagem que esconde fatos obscuros de seu passado até o final do filme. Afinal o que ele tenta tanto esconder? Karl Malden também está excelente. Seu personagem é um porcalhão e a cena em que ele tenta estuprar a personagem de Maria Schell é extremamente ousada para aquela época. Outro destaque do elenco fica com George C Scott, aqui fazendo um curandeiro bebum e vigarista. Ótimo.

A Árvore dos Enforcados (The Hanging Tree, EUA, 1959) Direção: Delmer Daves / Roteiro: Wendell Mayes, Halsted Welles / Elenco: Gary Cooper, Maria Schell, Karl Malden / Sinopse: O médico Joseph Frail (Cary Cooper) chega em um campo de mineração durante a corrida ao ouro tentando fugir de eventos do passado que ele prefere manter na escuridão. Lá conhece a bonita Elisabeth (Maria Schell) a qual acaba nutrindo sentimentos ao mesmo tempo em que tenta defendê-la dos criminosos locais.

Pablo Aluísio.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Os Homens Preferem as Loiras

Certa vez Billy Wilder disse que alguns filmes só dariam certos se Marilyn Monroe estivesse neles. Penso que é o caso de "Os Homens Preferem as Loiras", um excelente musical com ótima trilha sonora que diverte, encanta e emociona. Assistir Marilyn Monroe cantando tão bem sua mais famosa canção no cinema "Diamonds Are a Girl´s Best Friend" balança com qualquer cinéfilo que se preze. E como Marilyn estava linda no filme! Ela no auge da beleza e juventude esbanja sex appeal em todas as cenas, sem exceção. Seu jeito de falar sussurrando era extremamente sensual. Sua personagem, a corista e dançarina Lorelai Lee, se parece muito com a que interpretou em "Como Agarrar um Milionário" mas isso realmente não importa. O que fica mesmo é a ótima coreografia, figurinos e roteiro de uma produção que nasceu para ser leve e bem humorada. Outro dia mesmo reclamei da falta de canções de Marilyn em um outro filme. Pois bem, aqui em "Os Homens Preferem as Loiras" temos a oportunidade de assisti-la cantando quatro músicas, todas ótimas é bom dizer.

Sempre achei Marilyn Monroe uma cantora subestimada. Eu pessoalmente acho seu timbre vocal lindo (além de ser excepcionalmente sensual). Não consigo entender também pessoas que a criticam afirmando que era apenas um mito sexual e não uma grande atriz! Bobagem, Marilyn Monroe tinha um talento nato para comédias e basta assistir filmes como esse para entender bem esse aspecto de sua carreira. Ela era divertida e não fazia esforço para parecer engraçada em cena (que em suma é o grande segredo dos grandes comediantes). Além disso sua voz sempre me soou relaxante e agradável. Tem que ser muito ranzinza para não gostar de musicais maravilhosos como esse. Mais um ponto positivo na grande carreira do diretor Howard Hawks que sempre foi um dos meus cineastas preferidos. Enfim, não precisa dizer mais nada. Quem ainda não assistiu e não consegue entender a longevidade do mito Marilyn Monroe não perca mais tempo. "Os Homens Preferem as Loiras" está lhe esperando. Assista e se divirta.

Os Homens Preferem as Loiras (Gentlemen Prefer Blondes, EUA, 1953) / Direção: Howard Hawks / Roteiro: Charles Lederer / Com Jane Russell, Marilyn Monroe e Charles Coburn / Sinopse: Duas coristas, Lorelei e Dorothy (Marilyn Monroe e Jane Russel), viajam até Paris para conhecer o pai do noivo de Lorelei. Durante a viagem são espionadas por um detetive que tem a missão de provar que ambas são apenas mulheres interesseiras em busca de dotes milionários de homens ricos.

Pablo Aluísio.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Rio Vermelho

Assistir a esse filme foi um enorme prazer para mim. Primeiro porque eu sou um fã incondicional do ator Montgomery Clift. Segundo porque eu acho este um dos mais belos westerns de todos os tempos e terceiro porque John Wayne e Howard Hawks estão no auge de suas carreiras. Esta é uma película realmente nota dez, em todos os aspectos e por isso se tornou um filme atemporal, inesquecível e clássico. Montgomery Clift era um caso à parte. Considerado um dos maiores atores jovens de seu tempo, ao lado de Marlon Brando e James Dean, Clift era um profissional à frente de sua época. Cria do teatro americano, local onde ele sentia-se realmente à vontade, ele relutou muito antes de ingressar no cinema. Temia perder sua identidade e ser engolido pelo Star System. Sempre foi um ator independente e conseguiu se impor à indústria, fez poucos filmes, mas todos escolhidos a dedo, e muitos destes títulos se tornaram clássicos absolutos da história. do cinema americano. Basta lembrar de "Um lugar ao sol" e "A um passo da Eternidade", por exemplo. Complexo e torturado por demônios internos, Clift acabou por tabela imprimindo uma densidade ímpar em suas atuações. O conflito interno do ator era automaticamente passado para seus papéis. Aqui ele se sobressai mesmo interpretando um personagem sem grande profundidade, em sua estreia nas telas, curiosamente em um western estrelado pelo maior nome do gênero, John Wayne. O contraste entre a determinação e rudeza de Wayne com a sensibilidade de Clift se torna um dos grandes trunfos do filme.

E o Duke? Bem, ele está novamente ótimo no papel de um velho rancheiro dono de milhares de cabeças de gado, que tem como único objetivo levá-las, em uma grande caravana, para o Estado do Missouri. Conforme o tempo passa e as dificuldades se tornam maiores o personagem de Wayne vai ficando cada vez mais obcecado, tornando insuportável a vida de seus homens. O clímax ocorre em uma feroz luta entre Wayne e Clift. Um duelo entre os velhos e os novos paradigmas do velho oeste. A cena entrou para a história do cinema americano. Em relação à inspirada direção um famoso crítico americano resumiu a opinião da época: "Tendo como pano de fundo as belas paisagens do meio oeste americano, o mestre Howard Hawks faz um dos melhores faroestes dos últimos tempos, não se limitando, no entanto, a falar apenas do expansionismo capitalista americano, povoando terras desertas em meados do século 19. Vai além: realizando um belo painel sobre as relações humanas, através dp choque de personalidades de Dunson (Wayne) e Garth (Montgomery Clift). Criados como pai e filho, protagonizam uma estória de amor e ódio absolutamente emocionante". O filme concorreu aos Oscar de melhor roteiro e Montagem. Uma injustiça não ter ganho nenhum, mas se a Academia não o premiou ele acabou recebendo outro tipo de reconhecimento, e este bem mais importante, o reconhecimento popular daqueles que o assistiram e jamais esqueceram ao longo de todos esses anos.

Rio Vermelho (Red River, EUA, 1948) Direção: Howard Hawks / Roteiro: Borden Chase e Charles Schnee, baseado na novela The Chisholm Trail de Borden Chase. / Elenco: John Wayne, Montgomery Clift, Joanne Dru, Walter Brennan / Sinopse: Thomas Dunson (John Wayne) é um velho rancheiro, dono de milhares de cabeças de gado, que tem como único objetivo levá-las, em uma grande caravana, para o Estado do Missouri. Conforme o tempo passa e as dificuldades se tornam maiores Thomas vai ficando cada vez mais obcecado, tornando insuportável a vida de seus homens, entrando em conflito com Matt Garth (Montgomery Clift), um cowboy que participa da caravana.

Pablo Aluísio.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Barrabás

Roteiro e Argumento: O roteiro de Barrabás foi escrito baseado no romance do escritor Par Lagervist, vencedor do prêmio Nobel de literatura de 1951. É importante esclarecer que tirando o Novo Testamento não existem fontes históricas sobre quem seria ou o que teria acontecido com Barrabás após a crucificação de Jesus Cristo. Tudo o que se sabe ao certo é que era um rebelde da tribo dos Zelotes que estava preso acusado de assassinato. Assim tudo o que se passa no filme é mera ficção, romance, literatura. De qualquer forma o roteiro, seguindo os passos do livro, é muito bem escrito e lida com vários aspectos da Roma Antiga de forma bem eficiente, sendo mostrados aspectos da escravidão no império, das arenas de gladiadores e do nascimento da nova religião, o cristianismo.

Elenco: Barrabás tem um elenco muito bom a começar por Anthony Quinn no papel título. Sua interpretação é muito adequada. Seu personagem é uma pessoa rude, brutal, fruto do meio, que tenta entender a filosofia do cristianismo em um mundo que até então só lhe exigia violência e força. Outro grande ator em cena é Jack Palance. Ele interpreta um gladiador que treina e depois enfrenta Barrabás na arena (numa ótima cena do filme, muito bem editada e realizada). Palance não aparece muito mas quando surge traz muito ao filme. Outro destaque é a presença da musa italiana Silvana Mangano. Seu papel também é pequeno, geralmente surgindo nas cenas de taberna mas mesmo assim consegue marcar boa presença.

Produção: A produção do filme é do famoso Dino de Laurentis. Esse produtor foi o que mais próximo surgiu na linha deixada por Cecil B. De Mille. Ele não economizava recursos em seus épicos e procurava trazer o melhor, seja em cenários, seja em figurinos luxuosos. O filme foi totalmente rodado na Itália em parceria com a Columbia Pictures. Isso deu uma veracidade maior ao que se passa em cena pois as locações chegaram ao ponto de utilizar antigas construções romanas como as minas no Monte Etna na Sicília e o anfiteatro de Verona. Além disso a experiência dos profissionais de Cinecittà ajudaram muito para melhorar ainda mais esse aspecto do filme. Produção realmente classe A.

Direção: Barrabás foi dirigido por Richard Flescher que já tinha experiência com produções caras e complicadas antes (havia dirigido "20 Mil Léguas Submarinas" cinco anos antes). Seu trabalho é muito bom, algumas cenas lembram até mesmo pinturas da Renascença como a crucificação coletiva na cena final do filme. Também mostrou grande competência na direção de cenas com grande número de extras - como vemos nas cenas de Arena. Ele ainda faria um interessante filme anos depois com Tony Curtis chamado "O Homem que Odiava as Mulheres".

Barrabás (Barabbas, EUA - Itália, 1962) / Diretor: Richard Fleischer / Roteiro: Nigel Balchin, Diego Fabbri, Christopher Fry, Ivo Perelli / Produção: Dino de Laurentis / Roteiro: Nigel Balchin, Diego Fabbri, Christopher Fry, Ivo Perelli / Elenco: Anthony Quinn, Silvana Mangano, Arthur Kennedy, Katy Jurado, Jack Palance, Vittorio Gassman, Harry Andrews, Ernest Borgnine e Valentina Cortese. / Sinopse: Criminoso e assassino judeu chamado Barrabás (Anthony Quinn) é libertado no lugar de um jovem profeta chamado Jesus de Nazaré. Após ser escolhido no lugar do Messias tenta entender a razão de ter sido poupado da morte em detrimento do Nazareno que é crucificado por tropas romanas.

Pablo Aluísio. 

domingo, 1 de novembro de 2009

Tarde Demais Para Esquecer

Um dos filmes românticos mais famosos de Hollywood. "Tarde Demais Para Esquecer" marcou época por causa de sua trama romântica e cheia de charme. Junte a isso um casal muito entrosado em cena e uma trilha sonora simplesmente inesquecível (cantada pelo ótimo cantor Vic Damone). A estória quase todo mundo já conhece: Playboy conquistador (Cary Grant) se apaixona por uma espirituosa passageira (Deborah Kerr) durante uma viagem de navio entre a Europa e os Estados Unidos. O problema é que ambos estão comprometidos. Ele com uma rica herdeira nova-iorquina e ela por um homem bem sucedido que a venera. Quando a viagem chega ao fim resolvem criar um pacto: Caso não se casem em seis meses com seus respectivos e atuais pares se encontrarão no alto do prédio Empire State (um dos cartões postais de Nova Iorque) para firmarem compromisso entre si.

O roteiro criou escola no cinema americano, tanto que o filme acabou sendo refeito duas vezes nos anos seguintes (versões com Tom Hanks e Warren Beatty). O que pouco gente sabe é que o próprio "Tarde Demais Para Esquecer" era o remake de um clássico da década de 1930 chamado "Duas Vidas" estrelado pela atriz Irene Dunne (hoje injustamente esquecida). Em termos práticos podemos notar duas partes bem distintas na produção. Na primeira acompanhamos o casal se conhecendo e finalmente se apaixonando dentro do transatlântico. Em minha opinião é a melhor parte do filme. Cary Grant com todo seu charme tenta superar sua fama de "conquistador barato" para conquistar a bela e madura Deborah Kerr (muito bonita no filme, elegante e vestida com alta costura). A aproximação entre eles é sutil, feita de pequenos momentos - como convém a um romance passado na década de 50. Já a segunda parte mostra os encontros e desencontros do casal em terra firme (e que não seria adequado comentar detalhes aqui para não atrapalhar os que ainda não assistiram). Esse segundo ato é um pouco inferior ao primeiro. Sub-tramas desnecessárias aparecem (como o grupo infantil) e números musicais se alongam além do razoável. Mesmo assim o clímax, apesar de um pouco apressado, fecha com chave de ouro a trama.

Infelizmente nos dias atuais já não temos tantos filmes assim. Os próprios relacionamentos mudaram, a moralidade que movia os personagens de "Tarde Demais Para Esquecer", com toda a culpa pela suposta infidelidade, não existe mais. As pessoas hoje em dia simplesmente traem, sem necessidade de encontros marcados em noites chuvosas! Os romances são mais rasos e passageiros e quanto menos envolvimento existir, melhor. De qualquer forma para quem ainda gosta de um boa estória de amor o filme vai cair muito bem. Não há como negar que ele envelheceu um pouco, podendo soar meloso para os mais jovens, mas mesmo assim isso é o de menos pois seu saudosismo acabou virando um charme a mais em um filme já tão charmoso, mesmo após tantos anos de seu lançamento.

Tarde Demais Para Esquecer (An Affair to Remember, 1957) Direção de Leo McCarey / Roteiro de Delmer Davis e Leo McCarey / Elenco: Cary Grant, Deborah Kerr e Richard Danning / Sinopse: Playboy conhece bela mulher durante um cruzeiro atlântico. Após se enamorarem decidem marcar um encontro no prédio Empire Builiding de Nova Iorque.

Pablo Aluísio.