terça-feira, 30 de outubro de 2012

Batman

Será que ainda havia espaço para os heróis em quadrinhos no cinema? Tentando responder a essa pergunta a Warner iniciou no final da década de 1980 a mais ousada e cara adaptação de um personagem de gibis até então. O escolhido foi o cavaleiro das trevas, Batman, da DC Comics. Claro que o personagem já tinha surgido nas telas antes mas aquelas estavam longe de serem produções classe A. Na verdade eram meros episódios de seriados na décadas de 50 ou então telefilmes adaptados ao cinema como o Batman super colorido da TV americana da década de 1960 com Adam West vestindo o uniforme do personagem. Todos sabiam que não seria uma adaptação fácil. O diretor escolhido, Tim Burton, tampouco agradou aos fãs. Ele tinha um estilo muito próprio, com direção de arte muito personalizada. Corria-se o risco de descaracterizar o famoso herói. Outro problema seria a escolha do ator para viver Batman. Os mais consagrados não queriam vestir a capa e os mais desconhecidos não tinham força suficiente nas bilheterias a ponto da Warner investir neles. O pior aconteceu quando o nome de Michael Keaton foi anunciado! Ele era basicamente um comediante de filmes engraçadinhos, meio careca e nada condizente com o perfil de Batman. Era uma escolha improvável e inadequada para praticamente todos os fãs. A situação melhorou um pouco logo depois quando Jack Nicholson aceitou viver o vilão Coringa. Era o que faltava ao filme, um grande ator, de enorme prestígio, para dar credibilidade à produção. Para ele seria mais do que interessante interpretar um personagem tão pop como aquele naquela altura de sua carreira! Nicholson arriscou de certa forma seu prestigio de ator dramático ao fazer um personagem de cartoon, mas para isso foi muito bem recompensado ganhando milhões em cima de uma porcentagem nas bilheterias estipulada em seu contrato. Sua atuação é muito fiel aos quadrinhos, diria até cartunesca, o que não deixa de ser conveniente para o personagem.

Como todos sabem Tim Burton sempre deixa sua assinatura impressa em seus filmes. O lado mais característico de seus filmes surge justamente na direção de arte, sempre inspirada e muito particular. A Gotham City que surge em cena é soturna, pessimista, sombria. Em certos aspectos procura de forma proposital imitar os próprios quadrinhos pois nada foi criado para o filme para aparentar realidade ou um ambiente real. Pelo contrário, a estética é obviamente inspirada na arte original da DC Comics  Quando chegou aos cinemas a bilheteria foi fenomenal, a curiosidade era imensa e Batman mostrava que tinha forças de atrair grandes multidões aos cinemas. A Warner também investiu pesado no licenciamento de produtos o que fez as lojas receberem uma enxurrada de mercadorias com a marca do personagem. Eram brinquedos, cadernos, álbuns de figurinhas, revistas, roupas, tênis e tudo mais que se possa imaginar. A receita multiplicou, mostrando a força do marketing agressivo que seria usada em produções posteriores. Visto hoje em dia o filme envelheceu um pouco e não pode ser comparado aos filmes de Christopher Nolan que são muito superiores, mesmo assim deve-se reconhecer que Batman 1989 é um marco nesse tipo de produção. Um filme que deu origem a toda essa moda de adaptações de quadrinhos que persiste até os dias de hoje.

Batman (Batman, EUA, 1989) Direção: Tim Burton / Roteiro: Sam Hamm, Tom Mankiewicz, Lorenzo Semple Jr., Warren Skaaren / Elenco: Jack Nicholson, Michael Keaton, Kim Basinger, Pat Hingle, Billy Dee Williams, Jack Palance, Robert Wuhl, Michael Gough, Lee Wallace, Tracey Walter, Wayne Michaels, Bruce McGuire / Sinopse: Após presenciar a morte de seus pais o jovem milionário Bruce Wayne (Michael Keaton) resolve combater o crime nas ruas de sua cidade, Gotham City.

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Abraham Lincoln Caçador de Vampiros

A primeira impressão que tive ao tomar conhecimento da existência desse filme foi de hilaridade. Afinal a idéia era nitidamente absurda e nonsense, unir uma figura histórica como Abraham Lincoln com a mitologia dos vampiros. De fato poucas coisas soam tão bizarras como essa. Imediatamente me lembrei também de um antigo filme trash que tinha a mesma base de argumento chamado "Jesus Cristo Caçador de Vampiros". Como se pode ver a idéia não era tão original assim. Obviamente para evitar problemas religiosos se trocou Jesus por Lincoln e mudou-se a tônica do filme. Se o anterior era um lixo completo, um filme classe Z sem nenhuma importância, que se apoiava apenas no humor da situação absurda, essa é uma produção classe A, com o melhor que o cinema americano pode oferecer em termos técnicos. São dois filmes que partem do mesmo tipo de idéia sem sentido mas que são diametralmente opostos em seus resultados. "Abraham Lincoln Caçador de Vampiros" se leva muito à sério também. Não há lugar para piadinhas e nonsense, pelo contrário, o espectador é levado para um universo de realismo fantástico onde todos os personagens se levam completamente à sério, sem qualquer ironia ou humor presentes. Essa tônica de seriedade acaba contribuindo muito para seu resultado final que temos que reconhecer é muito bom, desde que você tenha consciência que esse é um produto pop para ser consumido como puro e simples entretenimento.

Como a moda dos vampiros não parece passar agora a mesclaram com a biografia de um dos mais queridos presidentes americanos da história, Abraham Lincoln (1809 - 1865). Ele se tornou um dos mais amados líderes daquele país porque conseguiu manter a União intacta. Foi durante seu governo que explodiu a guerra civil americana onde estados do sul lutaram para se separar da federação. Também é muito lembrado por ter sido o presidente que libertou os escravos de forma definitiva. Esse é o Lincoln da história, um  homem de origens humildes, filho de pobres trabalhadores rurais analfabetos, que persistiu e lutou em sua vida para aprender a ler e estudar, se tornado depois advogado e político bem sucedido. Já no filme o que temos é o uso de passagens da biografia de Lincoln misturadas com a mitologia vampiresca. A morte de sua mãe e de seu pequeno filho quando era presidente, são fatos históricos, mas no roteiro são atribuídas ao ataque de vampiros. Sua habilidade com machados, fruto de seu passado camponês, também é um fato histórico, mas aqui é usado para atacar seres da noite. O espectador deve se deixar levar pela diversão pura e simples e nesse aspecto o filme se torna muito interessante. Há ótimas cenas de aventura e ação como a perseguição no meio de  uma manada de cavalos em disparada ou a luta em cima de um trem de carga em movimento. O filme tem o dedo de Tim Burton na produção e isso se nota bem durante seu desenvolvimento. No final das contas é uma película divertida, movimentada e bem produzida. Embora o roteiro se leve bem à sério o espectador não deve levar o filme com seriedade, pelo contrário, tudo deve ser encarado como um grande filme pipoca. Agindo assim certamente você vai se divertir.

Abraham Lincoln Caçador de Vampiros (Abraham Lincoln: Vampire Hunter, EUA, 2012) Direção: Timur Bekmambetov / Roteiro: Seth Grahame-Smith, Simon Kinberg / Elenco: Dominic Cooper, Mary Elizabeth Winstead, Alan Tudyk, Rufus Sewell, Benjamin Walker, Anthony Mackie, Jimmi Simpson, Laura Cayouette, Robin McLeavy, Jaqueline Fleming, Erin Wasson / Sinopse: Após ver sua mãe ser morta por vampiros o jovem Abraham Lincoln decide se tornar um verdadeiro caçador de vampiros. Enquanto estuda para se tornar um advogado ele vai enfrentando os seres da noite em combate épicos. Sua vontade é encontrar e matar de uma vez por todas os responsáveis pela morte de sua querida mãe.

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.

domingo, 28 de outubro de 2012

A Rede Social

Ok, vamos aos fatos: O filme "A Rede Social" é bom? Sim. É excelente a ponto de merecer um Oscar de melhor filme? Não, absolutamente não. Depois de assistir ao filme fiquei me perguntando o porquê de todo esse oba oba em relação e ele. O filme é bem interessante, traz uma história que prende a atenção mas cinematograficamente falando não traz nenhuma inovação, nenhuma tomada mais ousada, nenhum mérito a mais em termos de roteiro, nada disso. A direção é correta mas nunca ousada. Não é em absoluto toda a maravilha que andam dizendo por aí. A narrativa, por exemplo, é a mais convencional possível, não existem grandes sacadas ou surpresas, tudo é tão "quadradinho" e "certinho" que em certos momentos pensei estar vendo um filme da Disney!

O personagem principal também é pouco carismático, aliás não tive nenhum tipo de empatia com ele, pelo contrário, achei seu comportamento pouco ético já que não pensou duas vezes em passar a perna em diversas pessoas ao longo do filme. Um sujeito sem nenhum bom exemplo a passar, meio maluco e bastante anti social. Claro que vale como um retrato da geração que fez e aconteceu na net mas pelo exposto tirei a conclusão (nada impulsiva) de que todos esses jovens que ficaram milionários com o mundo virtual ainda não possuem bom preparo ético, emocional e de valores para estar aonde estão. Todos são egocêntricos, imaturos e vingativos. Não se salva nenhum, passando pelo Mark, indo pelas pessoas mais próximas a ele e finalmente chegando no criador do Napster (cujo personagem foi muito bem interpretado pelo cantor Justin Timberlake). Como filme e apenas como filme, "A Rede Social" é um bom produto mas é muito convencional. Ele não é a oitava maravilha do mundo e nem vai mudar sua vida. Como retrato dessas pessoas mostra muito bem a lei da selva que impera entre eles. É um mundo onde não existem verdadeiros heróis.

A Rede Social (The Social Network, EUA, 2010) Direção: David Fincher / Roteiro: Aaron Sorkin, Ben Mezrich / Elenco: Jesse Eisenberg, Andrew Garfield, Justin Timberlake,  Rooney Mara / Sinopse: Cinebiografia de  Mark Zuckerberg  (Jesse Eisenberg), o criador da rede social Facebook. Após ficar milionário com seu site ele começa a entrar em atrito com todas as pessoas que lhe ajudaram de alguma forma no começo de sua carreira.  

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.

sábado, 27 de outubro de 2012

Arena dos Sonhos

Produção pequena, diria até simples, mas muito simpática em sua proposta. Em "Arena dos Sonhos" acompanhamos a estória da garotinha Ida Clayton (interpretada pela talentosa atriz mirim Bailee Madison). Ela é criada por uma mãe solteira bastante ausente e seu maior desejo é encontrar seu pai perdido. Tudo o que ela sabe dele é que era um cowboy de rodeios de nome Walker. Procurando encontrá-lo ela acaba entrando na trupe de Terence Parker (James Cromwell). Ele é um velho peão de rodeios que agora ganha a vida liderando um grupo de jovens garotas que fazem acrobacias em seus cavalos conhecidas como "As Queridinhas do Rodeio" (do original "Sweethearts of the Rodeo"). Após entrar para o show, Ida começa a enfim procurar pelo paradeiro desconhecido de seu pai. "Arena dos Sonhos" é uma diversão inofensiva, soft, bem família. De fato é o típico filme recomendado para assistir com toda a família em um domingo preguiçoso após o almoço com todos reunidos em casa. Mesmo com nuances dramáticas em seu roteiro nada é potencializado nesse sentido, tudo é bem amenizado para não desagradar ninguém.

Também recomendo a produção para os que tem interesse de conhecer um pouco o mundo dos rodeios nos Estados Unidos. Tudo é muito profissional, organizado e para um grupo como as "Queridinhas do Rodeio" não falta trabalho e apresentações a fazer. Claro que as garotas tem uma vida puxada, sempre em excursão, vivendo na estrada. A vida emocional delas também não é nada fácil pois fica complicado até mesmo para elas terem um relacionamento mais estável e duradouro. Entre as Cowgirls a que mais tem destaque é aquela chamada de Kansas (tal como o Estado americano) que sonha em largar a estrada para se firmar com um cowboy do qual está apaixonada. Enfim, se você gosta do universo country, dos rodeios, dos cavalos e de Cowgirls, então está mais do que recomendado esse "Arena dos Sonhos", um filme doce, leve e divertido para todas as idades.

Arena dos Sonhos (Cowgirls n' Angels, EUA, 2012) Direção: Timothy Armstrong / Roteiro: Stephan Blinn, Timothy Armstrong / Elenco: Bailee Madison, James Cromwell, Jackson Rathbone,  Frankie Faison,  Kathleen Rose Perkins / Sinopse: Garotinha sonha um dia conhecer seu pai, um cowboy de rodeios que desapareceu de sua vida. Para tentar encontrá-lo ela entra em um grupo de Cowgirls de rodeio chamado "As Queridinhas do Rodeio". A partir daí sua vida na estrada será cheia de surpresas e aventuras.

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.

The Borgias

A fórmula deu certo com The Tudors então era apenas questão de tempo para que outro personagem da história voltasse às telas para uma nova série. Antes de mais nada é importante esclarecer que esse tipo de programa não tem maiores preocupações em ser historicamente correto. Eventos, datas e até mesmo aspectos dos próprios protagonistas são modificados em prol do puro entretenimento. O mesmo ocorre aqui com um dos papas mais infames da história, Alexandre VI (1431 – 1503). Nascido Rodrigo Borgia ele ficou muito mais conhecido do que outros papas por causa de sua biografia sui generis. Alexandre VI tinha filhos, três para ser mais exato, estava sempre se envolvendo em guerras, subornos e até assassinatos. Seu papado foi o apogeu do que depois ficou conhecido como “O Reinado das Prostitutas”. A denominação terrível foi reservada para uma linhagem de papas devassos, corruptos e sanguinários que não tinham nada ou quase nada a ver com a essência da doutrina cristã. Muitos deles só chegaram ao trono de São Pedro após corromperem, roubarem e até mesmo comprarem seu lugar no posto de líder máximo da religião mais popular do mundo ocidental. A morte de Alexandre VI aliás não foi nada digna. Como se sabe o Papa em vida foi acusado de envenenar vários dos Cardeais da cúpula da Igreja que lhe faziam oposição. Pois bem, há evidências fortes que o próprio Alexandre VI teria sido envenenado por seu filho, César Borgia, o que mostra bem a forma de agir e pensar dos Bórgias da história. Era realmente um ninho de cobras. E pensar que a Igreja Católica esteve nas mãos de pessoas tão infames como essas.

Na série Rodrigo Borgia é interpretado com maestria pelo sempre bom Jeremy Irons. Eis um ator de que particularmente gosto muito. O curioso é que os aspectos mais condenáveis de Alexandre VI estão em sua caracterização mas ao mesmo tempo há uma leve sensação de arrependimento e tristeza pelos rumos que sua tão amada Igreja tomou. Seus dois filhos não eram exemplos de absolutamente nenhuma conduta cristã e o Papa se aproveitava disso para os usarem no complicado jogo de xadrez da política da época. Embora o Papa Borgia tenha tido em vida uma infinidade de inimigos, na série eles são reduzidos a poucos, com o firme propósito de não saturar o espectador. Algo assim já havia acontecido em The Tudors e agora é repetido novamente. Embora não seja o ideal do ponto de vista histórico não há como negar que ajuda e muito na dramaturgia dos episódios, tornando tudo mais fluido e descomplicado. Na trama da série ganha destaque sua filha, Lucrecia Borgia, interpretada pela linda atriz  Holliday Grainger . A Lucrecia da história era uma devassa que colecionou amantes e desafetos na mesma proporção. Em The Borgias sua personalidade é mais amenizada e sutil. O bom gosto da produção conta ainda com o talento do diretor Neil Jordan. Seu auge criativo aconteceu na década de 90 quando dirigiu os excelentes Traídos pelo Desejo, Entrevista Com o Vampiro e Michael Collins - O Preço da Liberdade. Depois de um período afastado do cinema ele agora finalmente retorna com essa nova série histórica. Espero que essa parceria renda ainda mais frutos pois Jordan é um artesão de grande talento.


The Borgias (The Borgias, EUA, 2011 – 2012) Criado por Neil Jordan / Roteiros de Neil Jordan / Elenco: Jeremy Irons, François Arnaud, Holliday Grainger,  Peter Sullivan,  Sean Harris,  David Oakes / Sinopse: A saga da família Borgia que se tornou uma das mais poderosas de seu tempo após Rodrigo Borgia se tornar o Papa Alexandre VI. 

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Filadélfia

A nova doença que ficou conhecida por sua sigla, AIDS, pegou o mundo de surpresa na década de 80. Não se sabia ao certo do que se tratava nem como vencer seus terríveis efeitos. Só se sabia naquele momento que era fatal e que havia pouca chance de sobrevivência aos infectados. Milhões morreram, muitos na flor da idade, jovens e com uma vida pela frente. Philadelphia foi o primeiro filme de um grande estúdio a tratar a questão de frente, sem rodeios. Importante salientar que a AIDS trouxe consigo uma forte carga de preconceito contra os doentes. Os primeiros a ser diagnosticados eram homossexuais em sua maioria e por isso se criou todo um estigma ruim em cima desse novo mal. Hoje sabemos que a AIDS ataca a todos sem distinção, sejam heteros ou sejam gays e não há mais razão para esse modo de pensar, embora nos setores menos instruídos a idéia de ser um doença gay ainda persista. O roteiro do filme não ignorou esse aspecto e narra a estória do advogado Andrew Hackett (Tom Hanks). Jovem e bem sucedido ele é um profissional de sucesso. Os problemas começam a ocorrer quando os sinais da nova doença começam a se tornarem visíveis (manchas e feridos pelo corpo e rosto). Ao tomar conhecimento de seu estado de saúde o seu patrão o demite sem pensar duas vezes, revelando o lado mais cruel do preconceito. Sem trabalho e passando por dificuldades ele resolve buscar justiça. Contrata o advogado negro Joe Miller (Denzel Washington) e vai à luta nos tribunais. 

O argumento trabalha maravilhosamente bem com a dialética que existe no sistema judiciário americano. A lei é fria e abstrata mas infelizmente os homens que as aplicam não são. Nesse processo tudo se torna mais cruel, a situação dos litigantes acaba expondo o lado mais perverso da sociedade humana, onde ética, dignidade e honra são discutidas com rara beleza. Filadélfia marcou época pois tinha um tema relevante tratado com o devido respeito e seriedade. Os atores centrais brilham. Tom Hanks tem aqui a interpretação de sua vida, aquele que definiu toda sua carreira. Até aquele momento ele se limitava a interpretar personagens cômicos em comédias de verão mas a partir da coragem exibida nesse filme deu uma verdadeira guinada na carreira. Foi premiado merecidamente com o Oscar de melhor ator. O personagem de  Denzel Washington também é marcante pois se trata de um advogado tubarão que busca principalmente o dinheiro e a repercussão na mídia para se auto promover. Para completar pontuando tudo a ótima trilha sonora trazia Streets of Philadelphia em momento inspirado do cantor e compositor  Bruce Springsteen. Filadélfia demonstrou assim que o cinema também é um maravilhoso instrumento de conscientização social. Uma arte que quando bem utilizada serve para mudar atitudes e comportamentos arcaicos.


Filadélfia (Philadelphia, EUA, 1993) Direção: Jonathan Demme / Roteiro: Ron Nyswaner / Elenco: Tom Hanks, Denzel Washington, Jason Robards, Mary Steenburggen, Antonio Banderas, Joanne Woodward, Robert Ridgely, Charlies Napier./ Sinopse: jovem advogado é demitido por ser homossexual e portador de AIDS. Lutando por seus direitos ele decide levar o caso ao tribunal. Vencedor do Oscar e do Globo de ouro nas categorias de Melhor Ator (Tom Hanks) e Melhor Canção (Streets of Philadelphia - Bruce Springsteen)

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.

Recém Casados

Recém Casados começa onde 99% das comédias românticas terminam: no casamento dos protagonistas. Como se pode perceber essa é a única diferença maior desse filme bem Sessão da Tarde para todos os outros que seguem nessa mesma linha de produção. É curioso porque apesar do argumento bem cafona (case-se e morra de tédio com seu marido boboca) esse tipo de película ainda insiste em fazer sucesso. Certamente é o tipo de coisa indicada para as mulheres, de preferência muito românticas, porque para os marmanjos vai ser complicado aguentar a canastrice sem limites de Ashton Kutcher, um ator muito, mas muito fraco mesmo que se repete sempre, fazendo o mesmo tipo de personagem filme após filme, série após série. Ele deveria mesmo era levar um prêmio de sobrevivência pois é de se admirar que alguém tão ruim consiga emplacar uma carreira tão longa!

Já a falecida Brittany Murphy também está limitada, mas por culpa do papel é claro. Ao contrário do idiota do Ashton ela tinha realmente talento e mostrou bem isso em filmes melhores como "A Garota Morta". Infelizmente morreu precocemente logo quando começara a despontar por personagens e atuações melhores. O mundo certamente é cruel, pois ela que tinha talento se foi e o Ashton continua por ai esbanjando saúde e enchendo nossa paciência com seu estilo ruim de atuação. No mais ainda se salva a boa fotografia de Veneza, uma cidade que é melhor vista por fotos do que ao vivo pois seus bonitos canais são bem fedorentos. Enfim é isso, Recém Casados, um filme descartável que só é recomendado para as moças mais ingênuas que ainda conseguem acreditar naquela velha lorota que o casamento traz felicidade e é a apoteose da vida das pessoas. 

Recém Casados (Just Married, EUA, 2003) Direção: Shawn Levy / Roteiro: Sam Harper / Elenco: Ashton Kutcher, Brittany Murphy, Christian Kane, David Moscow, Monet Mazur, David Rasche./ Sinopse: Casal de pombinhos vai passar a lua de mel em Veneza. Chegando lá a esposa descobre que: A) se casou com um  idiota e B)  talvez tenha feito uma grande besteira em sua vida!

Erick Steve e Júlio Abreu.

Rambo IV

Será que é válido ressuscitar um personagem após tantos anos? Sylvester Stallone parece acreditar que sim. Ao lado de Rocky Balboa, Rambo foi o maior ícone da carreira cinematográfica de Sly. Baseado em um livro único no qual morria no final, os produtores mudaram tudo deixando Rambo vivo para ressurgir em Rambo II e Rambo III. Quando todos já tinham dado por encerrado a franquia eis que o ator resolveu trazer o velho veterano de guerra de volta para o front de batalha. Penso que teria sido melhor ter deixado a trilogia original em paz. Se quisessem trazer Rambo de volta que o fizessem porém como um novo filme, com novos atores, tentando inaugurar uma nova franquia. Até um remake sendo fiel ao livro original seria bem vindo. Falando francamente Stallone não tem mais idade para interpretar Rambo. Aqui ele se esconde sob um pesado figurino negro e tenta reviver os anos de glória. Não deu muito certo. Rambo é essencialmente um herói de ação que exige muito de seu intérprete. Se Stallone já está com uma idade mais avançada para o papel que abrisse espaço para um novo ator.

Muita gente reclamou da falta de roteiro em Rambo III. Pois bem, Rambo IV é ainda pior nesse aspecto. A impressão que se passa é que Stallone já não tem mais nenhuma ideia nova para o personagem. Ele como roteirista falha feio nessa nova produção. Na verdade é um prato requentado dos dois filmes anteriores, sem tirar nem colocar muita coisa nova. A ação obviamente ganha o primeiro plano e Stallone recria uma daquelas sequências que eram tão populares nos anos 80 quando um só homem com uma metralhadora matava um exército inteiro. O exagero hoje em dia incomoda a não ser que o espectador veja tudo sob os olhos de uma doce nostalgia. E foi justamente esse sentimento que acabou salvando o filme do desastre completo. Ao longo dos anos as pessoas criaram carinho pelo personagem Rambo. O carisma de Stallone também se mantém intacto. Olhando friamente foram essas as colunas que sustentaram Rambo IV. Tirando isso o que sobra realmente é um filme muito derivativo, com roteiro rasteiro e atuações abaixo da crítica. No fundo o filme serve apenas como lembrança de uma era passada quando Rambo era um ícone supremo dos filmes de ação. Espero que uma vez saciado esse tipo de sentimento deixem o velho boina verde em paz ou então que recriem a franquia do zero, em um novo recomeço. Para Stallone restam os agradecimentos por ele ter feito o personagem por tantos anos. A partir de agora porém é melhor ele pendurar a farda porque senão tudo ficará embaraçoso demais

Rambo IV (Rambo IV, EUA, 2008) Direção: Sylvester Stallone / Roteiro: Sylvester Stallone, Art Monterastelli / Elenco: Sylvester Stallone, Julie Benz, Matthew Marsden, Graham McTavish, Reynaldo Gallegos, Jake La Botz, Tim Kang, Maung Maung Khin, Ken Howard, Linden Ashby, Sai Mawng, Paul Schulze./ Sinopse: John Rambo (Sylvester Stallone) vive isolado numa região remota da Tailândia. Ele então é contratado para levar um grupo de missionários que querem levar ajuda humanitária a um campo de refugiados na região. O que parecia ser apenas uma expedição de rotina logo vira um terrível pesadelo.

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Star Trek

Essa história é muito longa. Começou há muitos anos na TV norte-americana. Depois de um cancelamento precoce renasceu no cinema, deu origem a muitos filmes, livros, fãs clubes, franquias, etc. Se existe um produto cultural que mereça ser chamado de universo, esse é o de Jornada nas Estrelas porque realmente é um universo próprio de produtos dos mais variados tipos. Além disso Star Trek conta com a legião de fãs mais devota que existe dentro da cultura pop. Seus fãs clubes são extremamente bem organizados e sempre são realizadas convenções, encontros e tudo o mais que você possa imaginar. Mexer com algo assim é mais do que melindroso. Assim quando a Paramount anunciou a intenção de recriar as estórias da tripulação original da nave Enterprise o rebuliço foi generalizado. Poderia um outro grupo de atores jovens dar vida aos famosos personagens da série original como Capitão Kirk, Spock e cia? Mesmo com alguns protestos o estúdio resolveu levar em frente o projeto. Entregou o filme nas mãos do conhecido J.J. Abrams (De Lost e muitas outras séries de TV) e pagou para ver o resultado dessa aventura.

Quando o resultado chegou nas telas a grande maioria dos fãs respirou aliviada. No tempos atuais, quando a tecnologia digital torna possível qualquer cena, o estúdio investiu a bagatela de 140 milhões de dólares naquele filme que prometia se tornar um novo começo, uma nova série de filmes de sucesso. Esse novo Star Trek realmente é um bom filme, tem excelente produção e como não poderia deixar de ser um roteiro bem escrito. Aliás é bom ter em mente que a longevidade de Jornada nas Estrelas se deve muito aos seus textos, pois os roteiros da série sempre foram extremamente originais e inovadores. Para o fã da velha guarda deve realmente ter sido um enorme prazer ver todas as naves de sua infância e juventude sob uma nova roupagem, extremamente high tech, proporcionada pela tecnologia de nossos dias. O elenco era certamente o ponto mais delicado desse novo filme. Certamente atores como William Shatner e Leonard Nimoy serão sempre  insubstituíveis mas até que a moçada aqui não decepciona. O filme fez bonito nas bilheterias mas a Paramount esperava por um resultado mais expressivo. Não faz mal, o caminho está aberto e novos filmes virão nos próximos anos. Os trekkers certamente agradecem.


Star Trek (Star Trek, EUA, 2009) Direção: J. J. Abrams / Roteiro: Alex Kurtzman, Roberto Orci baseados nos personagens criados por Gene Roddenberry / Elenco: Chris Pine, Zachary Quinto, Eric Bana, Winona Ryder, Zoe Saldana, Karl Urban, Bruce Greenwood, John Cho, Leonard Nimoy, Simon Pegg, Anton Yelchin. / Sinopse:  Décimo primeiro filme da franquia Jornada Nas Estrelas o filme traz de volta os personagens da série original da TV. No enredo acompanhamos os primeiros passos de James T. Kirk (Chris Pine) na Academia da Frota Estelar. Lá conhece o estranho vulcano Spock (Zachary Quinto). Juntos partirão para grandes aventuras indo onde nenhum homem jamais esteve.

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.

O Último Imperador

Superprodução que conta a vida do último imperador da China, Aisin-Gioro Puyi (John Lone). Como se sabe após séculos de uma dinastia forte e centralizadora a revolução socialista explodiu naquele país sendo a partir daí implantado um regime comunista linha dura que persiste até os dias atuais. Nesse processo o antigo regime veio abaixo. O imperador foi deposto e levado a ser doutrinado pela nova ideologia de poder. Embora discuta o tema político pois seria impossível realizar um filme com esse tema sem tocar nesse tipo de questão, O Último Imperador procura se focar mais na questão humana, no lado mais pessoal do monarca que se vê destituído de todos os seus poderes da noite para o dia terminando seus dias de vida como um simples jardineiro.  Para quem era dono de um império continental é uma mudança brutal. Curioso é que nessa mudança de status um aspecto chama a atenção. Provavelmente se fosse um ocidental esse monarca decaído provavelmente faria alguma besteira com sua própria vida mas o modo de viver e pensar dos orientais é bem diferente do nosso, ele acabou aceitando a mudança. De certa forma até agradecido ao novo regime pois tinha caído em mãos de outro regime extremamente brutal, o soviético, que não pensou duas vezes em liquidar sua própria monarquia deposta, os Romanovs.

Deixando essa nuance mais filosófica de lado é importante chamar a atenção do espectador para a luxuosa produção de “O Último Imperador”. O filme foi o primeiro a ter autorização de realizar filmagens na chamada cidade proibida. Essa era uma enorme área no centro da capital chinesa ao qual era permanentemente proibida a entrada do povo chinês. Vivendo lá dentro com todo o luxo e riqueza que se podia imaginar, ficavam os nobres do país, completamente isolados da plebe. O local, hoje tornado atração turística, realmente dá uma dimensão da pompa e riqueza sem fim da dinastia chinesa. Tudo é ricamente trabalhado, detalhado, com uma arquitetura maravilhosa que chama muito a atenção por sua beleza e harmonia. Não é à toa que o filme tenha vencido tantos Oscars. Realmente é uma produção classe A, com o melhor que pode ter em termos de cinema espetáculo. O elenco de apoio também é excepcional, com destaque para o veterano Peter O´Toole, que a despeito dos anos ainda mantém todo seu talento intacto. O filme venceu todos os prêmios importantes em seu ano de lançamento, Globo de Ouro, Bafta, César e levou para o estúdio os Oscars de melhor filme, diretor (para o mestre Bertolucci), fotografia (Vittorio Storaro), direção de arte, figurino, edição,  trilha sonora (que também levou o Grammy), melhor som e roteiro adaptado. Em suma, não deixa de conhecer esse maravilhoso momento do cinema da década de 80. Um filme com ares dos grandes épicos do passado.

 

O Último Imperador (The Last Emperor, Reino Unido, França, China, EUA, Itália, 1987) Direção: Bernardo Bertolucci / Roteiro:  Mark Peploe, Bernardo Bertolucci / Elenco: John Lone, Joan Chen, Peter O'Toole, Ryuichi Sakamoto / Sinopse: Cinebiografia do último imperador da China, Aisin-Gioro Puyi (John Lone). Deposto por um novo regime ele passa seus últimos dias como um humilde trabalhador braçal em seu antigo império sob ruínas.

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

A Conquista do Oeste

Quando a Metro anunciou "A Conquista do Oeste" o estúdio deixou claro suas intenções: realizar o filme definitivo sobre a expansão da civilização norte-americana em direção ao oeste selvagem.  Para isso não mediu esforços colocando à disposição do filme tudo o que estúdio tinha de mais importante na época. Atores, diretores, roteiristas, tudo do bom e do melhor foi direcionado para esse projeto. Além do capital humano a Metro resolveu investir em um novo formato de exibição onde três telas enormes projetavam cenas do filme. A técnica conhecida como Cinerama visava proporcionar ao espectador uma sensação única de imersão dentro do filme. Para isso há uso de longas tomadas abertas, tudo para dar a sensação ao público de que realmente está lá, no velho oeste. Era claramente uma tentativa da Metro em barrar o avanço da televisão que naquele ano havia tirado uma grande parte da bilheteria dos filmes. Assim "A Conquista do Oeste" chegava para marcar a história do cinema, pelo menos essa era a intenção.

Realmente é uma produção de encher os olhos, com três diretores e um elenco fenomenal. O resultado de tanto pretensão porém ficou pelo meio do caminho. "A Conquista do Oeste" passa longe de ser o filme definitivo do western americano. Na realidade é uma produção muito megalomaníaca que a despeito dos grandes nomes envolvidos não passa de uma fita convencional, pouco memorável. O problema é definitivamente de seu roteiro. São várias estórias com linhas narrativas que as ligam numa unidade mas nenhuma delas é bem desenvolvida. Tudo soa bem superficial. O grande elenco também é outro problema. Apesar dos mitos envolvidos nenhum deles tem oportunidade de disponibilizar um bom trabalho, realmente marcante. John Wayne, por exemplo, só tem praticamente duas cenas sem maior importância. Ele interpreta o famoso general Sherman mas isso faz pouca diferença pois tão rápido como aparece, desaparece do filme, deixando desolados seus fãs que esperavam por algo mais substancioso. James Stewart tem um papel um pouquinho melhor, de um pioneiro que vive nas montanhas mas é outro grande nome que também é desperdiçado. A única que faz parte de todos os segmentos é a personagem de Debbie Reynolds mas ela não é uma figura de ponta no mundo do faroeste. Quem não gosta dela certamente torcerá o nariz. Assim em conclusão podemos definir "A Conquista do Oeste" como um filme grande mas não um grande filme. Faltou um texto melhor escrito, certamente.

A Conquista do Oeste  (How the West Was Won, EUA, 1962)  Direção: John Ford ("The Civil War") / Henry Hathaway ("The Rivers", "The Plains", "The Outlaws") / George Marshall ("The Railroad") / Roteiro: James R. Webb, John Gay / Elenco: Debbie Reynolds, James Stewart, Lee J. Cobb, Henry Fonda, Carolyn Jones, Karl Malden, Gregory Peck, George Peppard, Richard Widmark, Eli Wallach, John Wayne / Sinopse: A saga de uma família de pioneiros cujos descendentes participarão dos grandes eventos que marcaram a história do oeste americano.

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.

Constantine

O personagem Constantine dos quadrinhos é muito diferente desse que vemos nessa adaptação para o cinema. Nos gibis Constantine é um verdadeiro anti-herói, um fumante inveterado, loiro, magro e nada atraente. Ele é o protagonista do grande sucesso Hellblazer, que mistura ecos do cinema noir com misticismo e magia. O clima é sombrio, de total desesperança. Como toda criação de Alan Moore, Constantine é um outsider, um sujeito á margem da sociedade, que pouco está ligando para as convenções sociais. Já no cinema Constantine é um sujeito bonitão, interpretado pelo canastrão e galã Keanu Reeves, com jeitão de surfista havaiano, fazendo o estilo mauricinho bem vestido. Seu cabelo é impecável e ele passa o tempo todo fazendo biquinhos. Assim o que temos em essência é uma equivocada releitura Hollywoodiana pouco fiel à obra original. Não adianta, Alan Moore definitivamente não tem sorte no cinema. Ele é um sujeito recluso que não dá entrevistas mas nas poucas e raras vezes que resolveu falar foi justamente para amaldiçoar os produtores de Hollywood e reclamar das bisonhas adaptações que suas obras geralmente ganham no cinema americano. Ele tem toda a razão.

Essa produção é um exemplo claro disso. O clima soturno de Hellblazer desaparece. Constantine na pele de Keanu Reeves vira um herói clássico sempre lutando ao lado do bem contra o mal. Seu cinismo desaparece completamente e o pior é que ele acaba ficando sem personalidade em cena, fruto da canastrice de Reeves que não consegue passar qualquer emoção ou expressão com veracidade. Para piorar o espectador ainda tem que engolir a presença medíocre de Shia LaBeouf, seguramente um dos piores atores já surgidos nos últimos anos. O projeto foi desenvolvido pelo estúdio para ser estrelado por Nicolas Cage, uma escolha bem mais adequada, mas depois por diferenças criativas com o diretor, ele resolveu cair fora. Provavelmente Cage pressentiu a bomba que vinha por aí. Por razões puramente comerciais então foi escalado o Keanu Reeves que com sua atuação obtusa jogou a última pá de cal na esperança dos fãs de quadrinhos. Seguramente uma escolha muito equivocada. O que sobrou de todo esse processo foi apenas um filme sem alma, sem identidade mas com centenas de tomadas de efeitos digitais. Uma produção vazia que não diz a que veio.

Constantine (Constantine, EUA, 2003) Direção: Francis Lawrence / Roteiro: Frank A. Capello, Kevin Brodbin, Mark Bomback / Elenco: Keanu Reeves, Rachel Weisz, Shia LaBeouf, Max Baker, Tilda Swinton, Gavin Rossdale / Sinopse: Constantine (Keanu Reeves) é um exorcista e ocultista que terá que enfrentar terríveis forças do mal.

Pablo Aluísio e Júlio Abreu. 

A Ilha do Tubarão Gigante

Título no Brasil: A Ilha do Tubarão Gigante
Título Original: Lair of the Mega Shark
Ano de Produção: 2016
País: Estados Unidos
Estúdio: Discovery Channel
Direção: Jeff Kurr, Andy Casagrande
Roteiro: Jeff Kurr, Andy Casagrande
Elenco: Jeff Kurr, Andy Casagrande, Dickie Chivell, Clayton Mitchell, Winston Peters, Richard Squires
  
Sinopse:
Documentário feito para a TV mostrando uma equipe de especialistas e mergulhadores em busca do covil dos mega tubarões brancos. Eles viajam até a distante e isolada ilha de Guadalupe localizada no Oceano Pacífico, em torno da costa do México, para registrar em filmagens esses imensos predadores em seu habitat natural. O objetivo é capturar em imagens aquele que é considerado o maior tubarão branco jamais visto.

Comentários:
No ano passado foi filmado o maior tubarão branco dos oceanos. Chamado pelos pesquisadores de "Deep Blue", esse animal tinha mais de sete metros. Um predador magnífico. Esse documentário foi realizado um pouco antes das filmagens do "Deep Blue", porém capturou em cena animais de seis, cinco metros, todos da espécie tubarão branco, nas costas da ilha mexicana de Guadalupe. Como tudo o que se trata com o selo Discovery, esse documentário é muito bem realizado, com cenas de alto impacto. Uma das novidades é uma gaiola transparente, feita de acrílico reforçado, que um dos mergulhadores usa para as filmagens. Ele fica ali, bem no meio de uma dezena de tubarões brancos o cercando. Como se trata de uma armação transparente, apelidada de jaula fantasma, a sensação que o espectador tem é a de que o mergulhador está completamente à mercê dos ataques dos tubarões. Uma excelente cena, captada com a devida emoção, principalmente quando uma das portas se quebra e um desses animais tenta entrar na gaiola para devorar o mergulhador. Em outra cena ainda mais arriscada um dos pesquisadores mergulha sem gaiola de proteção ou armas. Ele fica completamente indefeso enquanto um enorme tubarão branco vai chegando perto de onde ele está. Não é à toa que de vez em quando somos informados que pessoas que trabalham nesse tipo de documentário foram mortas por animais selvagens. Muitas vezes a falta de segurança coloca esses profissionais em situações de perigo, tudo para causar sensação no espectador. A cena final mostra uma grande fêmea, provavelmente grávida, subindo para perto do barco dos pesquisadores. Era justamente isso que todos eles queriam. Não é o tão famoso "Deep Blue", mas não fica muito a dever a ele em termos de tamanho e opulência. Enfim, mais um bom documentário do canal Discovery. Está mais do que recomendado.

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.

Profissão Surfista

A vida de Steve Addington (Matthew McConaughey) se resume em sempre ir atrás da onda perfeita. No entanto o verão eterno da vida de Steve pode ser encerrado mais rápido do que ele imaginava. Filme leve, divertido, bem relax com roteiro despretensioso e soft. "Surfer, Dude" me lembrou bastante de "O Grande Lebowsky" em sua estrutura, embora o personagem aqui, um surfista boa praça (Matthew McConaughey) que só quer saber de pegar onda, fumar maconha e namorar, seja menos noiado do que o personagem clássico de Jeff Bridges. Talvez o grande problema de "Surfer, Dude" seja a falta de um gancho melhor já que na realidade nada de muito importante acontece no filme inteiro. Basicamente tudo se resume no fato do surfista do título entrar em crise por causa de uma calmaria no mar (que acaba com as ondas) enquanto é assediado para entrar em um péssimo reality show com surfistas.

E é isso apenas. O filme é curtinho (não chega nem aos 70 minutos) e tem um bom elenco de apoio. Entre eles o ultra noiado Willie Nelson interpretando um criador de cabras e vendedor de erva nas horas vagas. A produção pega leve no estilo surfista de ser, fazendo com que o filme seja mais parecido com uma reunião de amigos na praia do que com um filme com mais ambição de mercado. Talvez seja mesmo uma vez que a produção é do próprio Matthew McConaughey ao lado do colega Tom Hanks. Será que ele também é bom em pegar onda? Não sei. De qualquer forma se você gosta do tema e quer uma diversão inofensiva, "Surfer, Dude", pode ser uma boa bro! 

Profissão Surfista (Surfer, Dude, EUA, 2008) Direção: S. R. Bindler / Roteiro: S. R. Bindler, Cory Van Dyke / Elenco: Matthew McConaughey, Alexie Gilmore, Jeffrey Nordling, Sarah Mason, Zachary Knighton, Todd Stashwick, Nathan Phillips, Ramon Rodriguez, Travis Fimmel, Sarah Wright / Sinopse: A vida de Steve Addington (Matthew McConaughey) se resume em sempre ir atrás da onda perfeita. No entanto o verão eterno da vida de Steve pode ser encerrado mais rápido do que ele imaginava.

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Grease - Nos Tempos da Brilhantina

Grease significa literalmente graxa em português. Não que esse famoso musical fosse sobre mecânicos e seu trabalho diário com graxa, nada disso, graxa aqui é uma gíria usada para nomear a famosa brilhantina usada nos cabelos pelos jovens da década de 50. O produto era tão oleoso e pegajoso que mais parecia uma graxa daquelas que se usavam nos motores dos carros! Mas deixemos essa curiosidade de lado. Grease - Nos Tempos da Brilhantina foi certamente um dos melhores musicais já feitos na história do cinema. Adaptado de uma famosa peça da Broadway escrita por Jim Jacobs e Warren Casey o filme atravessou gerações e até hoje encanta por ser divertido, romântico e ter uma trilha sonora recheada de canções maravilhosas. É curioso porque a cada 20 anos surge um clima de saudosismo sobre a década que ficou. Hoje por exemplo vivemos uma onda de nostalgia em cima dos artistas e da cultura da década de 80, então nos anos 70 a saudade bateu em cima dos anos 50. Grease foi a melhor produção que captou esse clima que pairava naqueles anos. O elenco principal reunia dois jovens atores, muito talentosos e já naquela época bem famosos: John Travolta e a maravilhosa Olivia Newton-John de tantos sucessos nas paradas musicais e nas bilheterias de cinema.

O enredo do filme tenta reproduzir os antigos filmes de verão dos anos 50. Geralmente neles acompanhamos o relacionamento de dois jovens que na flor da idade se entregam ao amor adolescente em algum lugar tipicamente de férias. Grease não é nada muito diferente disso. O grande diferencial realmente vem nas canções e nas coreografias, todas muito bem realizadas  por todo o elenco. Travolta, jovem e no auge de seu rebolado, imprime nuances de seu trabalho anterior, o grande sucesso "Os Embalos de Sábado à Noite". Pra falar a verdade ele apenas levou seu Tony Manero para a década de 50. Já a cantora e atriz Olivia Newton-John inauguraria com Grease a melhor fase de toda sua carreira. Depois do sucesso desse filme ela emplacou outras produções musicais nos cinemas como o sempre lembrado Xanadu. Se você gosta de filmes musicais alto astral, com muita dança e ótimas canções então Grease é mais do que recomendado. Um filme que parece não envelhecer nunca, ainda mantendo o mesmo charme e o carisma de quando foi lançado. Não deixe de assistir e se divirta!

Grease - Nos Tempos da Brilhantina (Grease, EUA, 1978) Direção: Randal Kleiser / Roteiro: Bronte Woodard, Allan Carr baseados no musical "Grease" de Jim Jacobs e Warren Casey / Elenco: John Travolta, Olivia Newton-John, Stockard Channing, Jeff Conaway / Sinopse: Danny Zuko (John Travolta) conhece Sandy Olsen (Olivia Newton-John) durante as férias de verão. De volta às aulas descobre que ela é a nova garota caloura na escola onde estuda. O problema é que Zuko tem que manter sua fama de mau com seus amigos de turma e para isso terá que esnobar e fazer pouco caso de Sandy, embora por dentro ainda esteja completamente apaixonado por ela. Baseado no famoso musical da Broadway, Grease.

Pablo Aluísio e Júlio Abreu. 

O Segredo de Berlim

Será possível reproduzir o charme e a elegância dos clássicos do passado? É justamente tentando responder a essa pergunta que os produtores de "O Segredo de Berlim" resolveram bancar essa produção atual que tenta captar o clima dos antigos filmes noir da década de 1940. Tudo soa como uma grande homenagem aos filmes de guerra e espionagem do passado. Há um bom uso de imagens reais mescladas com filmagens modernas mas envelhecidas propositalmente. O roteiro tenta seguir também o que era bem comum nos filmes daquela época: onde o argumento geralmente trazia muitas reviravoltas, com pistas falsas e contrapistas, mortes misteriosas, aparição de pessoas que se julgavam mortas e assim por diante  Eram roteiros tão bem trabalhados que deixavam o espectador literalmente atordoado e isso fazia parte da diversão. Para deixar ainda mais claro as suas intenções o diretor Steven Soderberg resolveu colocar um final ao estilo Casablanca com tudo a que tem direito o espectador mais saudosista, com muita neblina, chuva e a despedida do casal ao lado de um antigo avião! Só faltou mesmo a imortal música "As Time Goes By".

O problema é que apesar das boas intenções "O Segredo de Berlim" falha em seus objetivos. O filme tem sérios problemas de ritmo. Se a pessoa não estiver com muita disposição de assistir ao filme corre o risco de perder o fio da meada e achar tudo muito chato e cansativo. Outro problema é a postura dos atores em cena. Eles parecem querer interpretar tudo de forma muito estilizada, tentando imitar os trejeitos dos atores do passado. A questão é que existe o estilo que era usado na época e a caricatura que se fez depois para satirizar aquela forma de atuação. O elenco de "O Segredo de Berlim" erra muito ao abraçar a pura caricatura, colocando tudo a perder. George Clooney, por exemplo, jamais terá o estilo cool de um Humphrey Bogart ou um semblante de austeridade e dignidade moral de Gaty Cooper. Bogart, por exemplo, era cinicamente charmoso até quando acendia um cigarro. Clooney não tem esse tipo de sofisticação. Assim o que falta a "O Segredo de Berlim" não são as técnicas antigas, as fórmulas que eram usadas nos roteiros daquele tempo mas sim o material humano, os talentos que fizeram daquelas obras antigas filmes tão especiais e preciosos. Falta Cooper, Bogart, Muni, Lancaster, etc. Esses são realmente insubstituíveis para sempre. Por essa razão definitivamente não há mais como recriar aqueles maravilhosos filmes. Eis assim a resposta que os realizadores de "O Segredo de Berlim" tanto procuravam.

O Segredo de Berlim (The Good German, EUA, 2006) Direção: Steven Soderbergh / Roteiro: Paul Attanasio / Elenco: Cate Blanchett, Beau Bridges, George Clooney, Dominic Comperatore, Tony Curran, Brandon Keener, Tobey Maguire, Christian Oliver./ Sinopse:  Nos meses que sucederam o film da Segunda Guerra Mundial, um jornalista americano trabalhando como correspondente de guerra tenta reencontrar sua ex-amante Lena Brandt (Cate Blanchett), uma mulher que tenta reconstruir sua vida após o devastador conflito mundial.

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.

Quero Ficar Com Polly

Aqui temos em cena dois atores que só conseguem interpretar os mesmos personagens, filme após filme. Jennifer Aniston não consegue se livrar jamais de sua personagem em Friends, aquela série de grande sucesso de audiência. Lá se vão anos desde que Friends foi cancelada e ela continua na mesma. Estagnação pouco é bobagem. Já Ben Stiller é aquela coisa, não importa qual seja o filme e nem a estória pois Ben Stiller sempre vai ter o mesmo tipo de atuação, interpretando o mesmo estereótipo do idiota que tena fazer tudo certinho mas que atrapalhado faz tudo errado. Se Aniston é a namoradinha da América, Stiller é o americano médio abobalhado que sonha um dia se tornar o seu namorado. Já deu para perceber que com esses dois em cena não sairia nada melhor do que uma comédia romântica de rotina, para passar o tempo. Em termos de elenco e atuação a única surpresa digna de nota é a presença sempre excepcional do talentoso Philip Seymour Hoffman, esse sim um grande talento, só que com material tão fraco em mãos nada faz de muito relevante.

A trama de "Quero Ficar com Polly"? Ruben (Ben Stiller) é um perfeito quadradão. Certinho, burocrático e sem graça, leva a vida vendendo seguros ao mesmo tempo em que evita qualquer tipo de risco em sua vida. Seu mundo organizado desmorona completamente quando sua esposa, em plena lua de mel, lhe presenteia com um belo par de chifres. Corneado e desiludido ele acaba encontrando apoio em uma velha conhecida dos tempos de escola, a descolada  Polly (Jennifer Aniston). Ela aparenta ser o extremo oposto dele, não liga para riscos, é desorganizada e não está nem aí para planos sobre o futuro preferindo viver o presente intensamente. Como se sabe os opostos se atraem e assim os dois acabam envolvidos em um romance improvável. No saldo final "Quero Ficar Com Polly" é aquele tipo de filme descartável, com argumento bonitinho que vai ajudar "elas" a passarem o tempo. Já "eles" certamente torcerão o nariz! Só recomendado mesmo para fãs talibãs de Friends em geral.

Quero Ficar Com Polly (Along Came Polly, 2003) / Direção: John Hamburg / Roteiro: John Hamburg / Elenco: Ben Stiller, Jennifer Aniston, Philip Seymour Hoffman, Debra Messing, Alec Baldwin, Toni Blair./ Sinopse: Um casal formado por pessoas completamente opostas tentam levar em frente um romance nada convencional.

Pablo Aluísio e Erick Steve. 

Hellboy

Nesse universo de adaptações de quadrinhos para o cinema há personagens extremamente famosos e conhecidos, verdadeiros ícones da cultura pop como Batman, Superman e Homem-Aranha e há aqueles considerados secundários, que são apenas conhecidos pelos leitores desse tipo de publicação. Curiosamente os do segundo tipo acabam dando origem a filmes bem mais interessantes como por exemplo Blade e esse Hellboy (o garoto do inferno numa tradução livre). O que difere de Hellboy desses demais personagens é sua personalidade muito cativante onde convivem em um só sujeito a força muscular de um monstro das trevas e a mentalidade de um jovem adolescente, que se apaixona pelas garotas, leva foras, gosta de roupas e acessórios de grife, etc. Na transposição para o cinema há outro grande atrativo: a ótima caracterização do ator Ron Perlman. Ele é aquele tipo de intérprete que você conhece automaticamente quando surge nas telas mas que nem sempre recorda seu nome. Durante anos ele fez personagens coadjuvantes em bons filmes e só recentemente tem tido maior chance de mostrar seu talento. Nos cinemas ele se firmou com essa franquia Hellboy e na TV tem desenvolvido um excelente trabalho na ótima série do FX, "Sons of Anarchy".

Na trama de Hellboy somos levados ao front da II Guerra Mundial. É lá no meio de escombros que os aliados descobrem essa estranha criatura, um misto de garoto com demônio. Acontece que no meio do conflito as forças nazistas não se furtaram a usar de magia negra para tentar vencer a guerra e nesse processo acabaram trazendo seres sobrenaturais ao nosso mundo. Hellboy é um desses monstros que ganham vida em nossa dimensão. Ele é levado pelos militares e acaba sendo treinado por uma agência especial do governo dos EUA para combater outros seres tais como ele que por ventura surjam nas grandes cidades do país. Apesar de sua  origem Hellboy é tipicamente um jovem americano, que gosta de música, cinema e cultura pop em geral. Tem sentimentos e passa por crises emocionais. Sua adaptação para o cinema como se vê deu muito certo. O filme é charmoso, tem ótimo timing de humor e um roteiro bem escrito, redondinho, onde tudo se encaixa. Para completar os efeitos digitais são de bom gosto e bem aplicados dentro da estória. Não me admira em nada que tenha ganho uma continuação, bem inferior é verdade, mas que mesmo assim não maculou o personagem. Em suma, fica a dica para os fãs de quadrinhos em geral e para os cinéfilos que gostam de uma boa aventura sci-fi. Hellboy, uma grata surpresa.

Hellboy (Hellboy, EUA, 2004) Direção: Guillermo del Toro / Roteiro: Guillermo del Toro / Elenco: Ron Perlman, Doug Jones, Selma Blair, John Hurt, Rupert Evans / Sinopse: Criatura descoberta no final da guerra é levada pelas forças aliadas para os EUA para combater as forças sobrenaturais do mal.

Pablo Aluísio e Júlio Abreu. 

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

247°F

Esse filme é literalmente um suadouro! Para entender a frase vamos para a sinopse: Dois casais de jovens resolvem passar o fim de semana numa cabana no meio de uma floresta. O local é muito bonito, arborizado e tudo leva a crer que terão ótimos momentos de diversão e namoro. A cabaninha tem como zelador um sujeito barbudo, com jeitão de hippie, chegado numa erva pesada mas que aparenta ser gente boa. Se você já viu algum filme de terror em sua vida já sabe que a fórmula mais manjada que existe no gênero é justamente essa: Jovens + cabana na floresta = Mortes em série. Realmente o enredo tinha tudo para ir por esse caminho, tanto que ficamos o tempo todo esperando que apareça um maluco no meio do mato com um machado para mandar aquela moçada para o buraco mas... Esqueça isso, não vai acontecer. Curiosamente o filme é baseado em fatos reais então não é bem disso que se trata. Jason não vai aparecer com um machado e nem Leatherface vai dar o ar de sua graça com uma serra elétrica. Não é sobre isso que se trata a produção.

Na  verdade 247°F é um filme sobre acidentes domésticos. Isso mesmo. Claro que o evento que ocorre dentro da cabana é o extremo do extremo mas no fundo é justamente sobre pequenas bobeiras que podemos cometer em nossas casas que podem ocasionar eventos terríveis. No caso do filme três jovens ficam presos dentro de uma sauna sem que ninguém os possa tirar de lá. O nome original evoca justamente a temperatura a que são submetidos por longas horas. É um roteiro do tipo "filme de uma só situação". Em seus quase 90 minutos vamos acompanhar basicamente a agonia da moçada presa dentro de uma sauna dos infernos. E haja suadouro! Eles vão tentando cair fora do lugar antes que virem literalmente churrasquinho de carne humana. Do lado de fora as únicas pessoas que poderiam lhes ajudar estão fumando maconha, totalmente alheios ao que ocorre dentro da cabana. Com uma produção muito modesta (o filme foi realizado com 500 mil dólares, uma mixaria para os padrões americanos), esse terror diferente pode até despertar algum interesse. Depois de assistir fica apenas uma certeza: você nunca mais vai entrar em uma sauna como antigamente!

247°F (EUA, 2011) Direção: Levan Bakhia, Beqa Jguburia / Roteiro: Lloyd S. Wagner, Levan Bakhia / Elenco: Scout Taylor-Compton, Travis Van Winkle, Michael Copon / Sinopse: Grupo de jovens em férias numa cabana isolada fica preso na sauna do local. Sem ter onde pedir socorro eles lutarão para continuarem vivos sob um calor infernal.

Júlio Abreu.

Profissão de Risco

Baseado em fatos reais o filme "Profissão de Risco" capta o momento em que o tráfico de cocaína invadia o mercado americano, fazendo grande fortuna para os traficantes envolvidos. Entre eles se destaca George Jung (Johnny Depp), um sujeito que meio ao acaso começa a vender coca para amigos e conhecidos e de repente se vê envolvido numa extensa rede de narcotráfico envolvendo inclusive o envio da cocaína diretamente da fonte na distante Colômbia para os Estados Unidos. De fato Jung foi o principal elo de ligação entre o Cartel de Medelin de Pablo Escobar e os consumidores americanos, na maioria jovens, que entraram de cabeça no abuso da nova droga. George Jung foi assim durante anos o principal comerciante de cocaína no mercado americano a tal ponto que seu próprio nome acabou virando sinônimo de usuário. Depois de uma ascensão rápida e de ganhar uma verdadeira fortuna feita praticamente da noite para o dia o bandido acabou caindo nas garras dos órgãos policiais, sendo condenado a  uma pena dura que ele cumpre até os dias de hoje. 

Jung colaborou com o filme, encontrou-se pessoalmente com Depp e lhe deu dicas para interpretar bem seu papel. O filme é bem realizado do ponto de vista técnico, com excelente reconstituição de época mas toma um rumo perigoso em determinado momento. Não há como negar que o roteiro de certa forma simpatiza com a pessoa de Jung. Muitas vezes o argumento o coloca apenas como um comerciante bem sucedido, um homem de negócios que joga com a oferta e a procura por seu produto e por isso fica milionário em tempo recorde. O próprio Depp faz de tudo para transformar seu personagem em uma figura simpática, boa praça, que está envolvido com o narcotráfico meio sem querer, como se fosse possível o envolvimento em algo assim de forma meramente casual. Esse é seguramente o maior problema de "Profissão de Risco", pois a sua indisfarçável simpatia com um criminoso desse porte incomoda muito. Os realizadores passam assim uma mensagem um tanto quanto perigosa aos mais jovens, colocando o tráfico de drogas como uma forma até viável de subir na vida, na escala social. Enfim, "Profissão de Rico" é um bom filme apesar disso mas o roteiro deveria ter sido mais cauteloso e principalmente realista, mostrando o lado mais sórdido desse estilo de vida, até porque no mundo caótico em que vivemos a última coisa que se deseja é mais uma obra cinematográfica que faça, mesmo que indiretamente, algo próximo a uma apologia de traficantes.  

Profissão de Risco (Blow, EUA, 2001) Direção: Ted Demme / Roteiro: Bruce Porter, David McKenna / Elenco: Johnny Depp, Penélope Cruz, Ray Liotta, Franka Potente, Rachel Griffiths, Paul Reubens, Jordi Mollà./ Sinopse: O filme enfoca a história real do mega traficante George Jung (Johnny Depp), mostrando sua ascensão e queda no mundo do crime. 

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.

O Vencedor

Acabei de assistir. Foi o último dos dez indicados ao Oscar de melhor filme que faltava ver. Vou ser sincero, deixei esse por último por 3 razões: não gosto do Christian Bale, nunca vi uma atuação do Mark Wahlberg que valesse a pena e por último achava que o tema "boxeador na sarjeta" já estava esgotado. Pois bem, me enganei três vezes. O fato de não gostar do Bale não me impede de dizer que essa foi uma das grandes atuações que já assisti nos últimos anos. O Bale simplesmente desaparece em seu papel de Dicky Eklund. É um trabalho belíssimo de imersão no personagem. A grande atuação é justamente essa, quando esquecemos do ator em cena e só focalizamos no que é mostrado no filme. Bale some em sua atuação e por isso brilha. Não vemos mais Bale nas cenas e sim Dicky. Brilhante seu trabalho.

A atuação do Mark Wahlberg não me chamou muito atenção, mas pelo menos aqui ele não compromete, o que já é um ponto muito positivo. Em um filme com esse tipo de atuação com Bale ele realmente não poderia se destacar, seria algo impensado. Por fim gostei do argumento e do roteiro, que tenta fugir o máximo possível do estigma de filmes sobre lutadores de boxes. Claro que muitas coisas que já vimos em vários outros roteiros ainda estão lá (como o fracasso e a redenção numa luta gloriosa, por exemplo) mas isso não tira o brilho do filme já que o diretor foi inteligente o bastante para focar principalmente nos problemas familiares dos personagens. Enfim, é um filme muito bom e em tempos de dez indicados ao Oscar merece seu lugar no páreo, embora suas chances de levar o prêmio máximo fossem realmente pequenas.

O Vencedor (The Fighter, EUA, 2010) Direção: David O. Russell / Roteiro: Scott Silver, Paul Tamasy, Eric Johnson / Elenco: Christian Bale, Mark Wahlberg, Amy Adams, Melissa Leo, Robert Wahlberg, Dendrie Taylor, Jack McGee, Jenna Lamia, Salvatore Santone, Chanty Sok, Bianca Hunter, Sean Patrick Doherty, James Shalkoski Jr., Barry Ace, Caitlin Dwyer, Jeremiah Kissel./ Sinopse: A vida de um lutador de boxe que tenta vencer na vida e nos ringues.

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.

Wyatt Earp

Geralmente as pessoas mistificam certos personagens da história e se aborrecem seriamente quando certas passagens das vidas desses mitos são desmistificadas. Um caso bem exemplificativo disso aconteceu quando Kevin Costner resolver levar para as telas a biografia do lendário xerife do velho oeste, Wyatt Earp. O uso da expressão lendário aqui não é mero enfeite, Earp realmente foi um dos personagens mais conhecidos e celebrados do chamado Oeste Selvagem. Ao lado de seus irmãos e do amigo, o dentista, pistoleiro e tuberculoso Doc Holliday, Wyatt enfrentou uma quadrilha de bandidos no famoso Ok Curral, duelo esse que jamais foi esquecido na vasta mitologia do western americano e que consagrou seu nome para sempre na história dos Estados Unidos. Kevin Costner poderia muito bem apenas endossar a velha lenda mas corajosamente preferiu filmar uma biografia bem mais realista e de acordo com o que realmente aconteceu. O filme, que tem mais de 3 horas de duração, é um primor de qualidade. Na época foi recebido com certas reservas, talvez justamente por ser "real demais".

E afinal, o que tanto aborreceu a alguns segmentos da sociedade ianque? Primeiramente o fato de que certos aspectos da biografia de Earp vieram à tona pela primeira vez no cinema com esse filme. Por exemplo, em todos os filmes que retrataram Wyatt antes ele sempre era mostrado como um homem da lei, acima do bem e do mal. Honesto, correto e incorruptível. A verdade histórica porém não foi bem assim. No filme descobrimos que Wyatt antes de virar xerife teve que fugir de sua terra natal para não ser preso por roubo de cavalos. Isso mesmo, o xerife modelo do oeste americano era na realidade um ladrão de cavalos foragido. Durma-se com um barulho desses. Outros aspectos nada lisonjeiros na biografia de Wyatt Earp vão desfilando pelas cenas: sua dureza com os que o desafiavam, sua fria relação com sua segunda companheira (a primeira esposa faleceu de tifo ainda muito cedo) e os não explicados assassinatos da antiga quadrilha que matou dois dos irmãos Earp. Tudo no filme é retratado de forma corajosa e sem meias palavras. Para quem gosta de história como eu, um roteiro honesto e definitivamente leal à veracidade dos fatos como esse é um prato cheio, um grande prazer. Enfim, Wyatt Earp é item obrigatório para todos aqueles que desejam conhecer a verdade por trás dos mitos do velho oeste, sem enfeites ou fantasias. O velho xerife, mostrado com a veracidade e a velocidade de um colt 45, se revela por inteiro no quadro pintado por Kevin Costner. É a biografia definitiva sobre Wyatt Earp no cinema. Por essa razão se ainda não assistiu, não perca a oportunidade.

Wyatt Earp (EUA, 1994) Direção: Lawrence Kasdan / Roteiro: Dan Gordon, Lawrence Kasdan / Elenco: Kevin Costner, Dennis Quaid, Gene Hackman / Sinopse: Cinebiografia do famoso xerife e homem da lei Wyatt Earp (Kevin Costner). Ao lado de seus irmãos e do amigo Doc Holliday (Dennis Quaid), Earp se envolveu no famoso duelo do OK Curral, que entrou na história do velho oeste.

Pablo Aluísio.

domingo, 21 de outubro de 2012

Dragão Vermelho

Hannibal Lecter já entrou no rol dos grandes personagens do cinema americano. O psicopata frio e calculista mas de alto QI já virou marca registrada. Surgiu para o grande público em "O Silêncio dos Inocentes" um filme que começou sua carreira de forma até despretensiosa mas que foi subindo degraus até ser aclamado pela Academia com um festival de prêmios. Após essa consagração o personagem retornou no péssimo "Hannibal", uma produção muito ruim e equivocada, baseado em um livro igualmente muito ruim, que parecia ter enterrado de vez o personagem para a sétima arte. Ainda bem que não desistiram dele pois esse "Dragão Vermelho" é em minha opinião a melhor transposição de Lecter para as telas. Baseado no livro de Thomas Harris esse é certamente o retrato mais fiel do serial killer. Embora seja um personagem de ficção Hannibal é na realidade uma fusão dos perfis de muitos psicopatas do mundo real. Tal como Norman Bates de "Psicose" o criminoso feito por Hopkins é na realidade um mosaico que reúne características de vários monstros assassinos que realmente existiram, tudo concentrado em um só personagem. Nesse "Dragão Vermelho" tudo é mais bem situado, explicado e caracterizado. Some-se a isso a boa trama e eis um filme realmente impecável sob qualquer ponto de vista. 

Uma das boas idéias de "Dragão Vermelho" é mostrar eventos que ocorreram cronologicamente antes de "O Silêncio dos Inocentes". Aqui um agente do FBI, William Graham (Edward Norton), procura ajuda com Lecter (Anthony Hopkins) para tentar capturar um novo serial killer chamado Francis Dollarhyde, interpretado com brilhantismo  por Ralph Fiennes. Sádico, extremamente desequilibrado e vivendo em um mundo de delírios, Francis leva toda uma cidade a um verdadeiro estado de pânico com seus crimes em série. O diretor Brett Ratner prima muito mais pelo suspense e tensão psicológica entre a dupla central do que pela escatologia pura e simples. Esse aliás é o grande mérito do filme. Ao invés do estilo mais cru, vulgar e grotesco de "Hannibal" o roteiro se apóia muito mais no clima sombrio e soturno no qual vivem esses homicidas do nosso tempo. Desnecessário recomendar o filme para os fãs do personagem. A trilogia original se encerrou aqui, o personagem infelizmente ainda voltou a dar as caras em um nova tentativa de revitalizar Hannibal nos cinemas mas foi uma tentativa frustrada. "Dragão Vermelho", por outro lado, é realmente o melhor já feito sobre o canibal famoso da ficção, fechando com chave de ouro sua melhor fase em Hollywood.

Dragão Vermelho (Red Dragon, EUA, 2002) Direção: Brett Ratner / Roteiro: Ted Tally / Elenco: Anthony Hopkins, Edward Norton, Ralph Fiennes, Harvey Keitel, Mary-Louise Parker, Emily Watson, Philip Seymour Hoffman / Sinopse: Famoso criminoso é procurado por agente do FBI para ajudar na busca de um serial killer que está à solta, jogando terror e medo na população de uma grande cidade americana.

Pablo Aluísio e Júlio Abreu. 

Elvis Presley - Just For You (1957)

Poucos dias depois que o compacto duplo Peace In The Valley chegou nas lojas americanas a RCA Victor lançou no mercado outro compacto, igualmente duplo, apenas com músicas inéditas gravadas por Elvis Presley. O mercado de fato esperava por um novo single depois do grande sucesso de All Shook Up mas isso definitivamente não aconteceu. A razão é que os executivos da gravadora após ouvirem as novas faixas que Elvis havia gravado no Radio Recorders chegaram na conclusão que nenhuma delas tinha força suficiente para estourar nas paradas. Eram boas canções sim, bem gravadas e tudo o mais porém não tinham vocação para virarem hits na Billboard. Excesso de zelo? Falta de confiança no novo material? Em parte sim. Realmente os engravatados da Victor não estavam errados. Elvis vinha de All Shook Up, um tremendo sucesso e não seria interessante ver seu novo single ficar para trás nas principais paradas. A decisão então foi reunir quatro das novas músicas para lançamento no mercado em forma de Extended Play (o nome americano para o nosso compacto duplo).

A direção de arte da capa reciclou uma foto que havia sido tirada para fazer parte da capa do segundo álbum do cantor no ano anterior. Elvis inclusive está com a mesma camisa, o mesmo violão e no fundo o mesmo cenário. A única diferença é que ele está usando um casaco vermelho bem chamativo. A contracapa repetia o que era praxe na época: uma mera lista promocional de outros compactos duplos da RCA Victor nas lojas. Estão lá os nomes dos novos disquinhos de Perry Como, Harry Belafonte, Chet Atkins, Eddie Fisher, Glenn Miller, Eddy Arnold, entre outros. Na época isso era considerada mera propaganda mas hoje em dia esse tipo de informação não deixa de ter um charme extra pois ficamos sabendo quais artistas estavam no mercado fazendo concorrência a Elvis. E foi justamente essa disputa feroz no mercado que fez com que a RCA lançasse esse Just For You. A trilha sonora de Loving You só chegaria aos fãs no meio do ano e para evitar que Elvis ficasse vários meses sem nada de inédito nas lojas a gravadora se apressou em colocar no mercado o disco.

O curioso em Just For You é que ele logo se tornaria obsoleto para os colecionadores. Como vinha um novo filme de Elvis por aí nos cinemas a RCA decidiu reaproveitar todas essas faixas para colocá-las no Lado B do álbum da nova trilha sonora. Os fãs que compraram o compacto logo tiveram que gastar dinheiro novamente com as mesmas músicas que voltavam no LP Loving You. Era a velha estratégia do Coronel Parker de vender a mesma coisa duas vezes, algo que ele aprendeu muito bem em seus dias de circo. Assim todas as faixas de Just For You acabaram se tornando as primeiras “bonus songs” das trilhas sonoras de Elvis Presley. O que era uma bônus song? Basicamente eram gravações de Elvis que não faziam parte dos filmes mas que eram incluídas no álbuns das trilhas para completa-los. Geralmente as trilhas de Elvis tinham de seis a sete canções e eram insuficientes para ocupar todo o espaço de um antigo LP. Dessa maneira as Bônus Songs eram adicionadas, se completando as dez ou doze faixas necessárias. Todos os artistas da época faziam isso e com Elvis não seria diferente.

O carro chefe de Just For You era a boa I Need You So. Uma balada sentimental que apesar de bem executada nunca conseguiu boa repercussão. Completando o lado A temos o country Have I Told You Lately That I Love You cujo destaque é a boa sonorização do grupo vocal The Jordanaires. Por essa época eles já estavam completamente entrosados com Elvis e essa simbiose já surgia perfeitamente nos registros. Já o lado B abria com a deliciosa Blueberry Hill. Falaremos melhor sobre ela quando formos analisar a trilha de Loving You mas de antemão quero dizer que é uma pena que a RCA nunca tenha trabalhado melhor nessa música. Eu a considero excelente. Seu potencial de virar hit na época já havia se esgotado pois ela já tinha feito sucesso na voz de outros cantores mas mesmo assim merecia melhor destino certamente. Just For You fecha com outra boa balada, Is It So Strange, uma bela canção que também nunca encontrou bom espaço dentro da discografia de Elvis. Ela reaparecia anos depois no álbum A Date With Elvis quando o cantor estava servindo o exército americano na Alemanha.

Quando chegou no mercado Just For You surpreendeu e conseguiu emplacar um ótimo segundo lugar entre os compactos duplos mais vendidos. Isso incentivou a RCA a lançar novos EPs de Elvis nos anos seguintes, disquinhos que só deixariam mesmo de serem lançados por volta de 1966 quando a RCA lançou as últimas trilhas sonoras de Elvis nesse formato. Não se preocupe, ainda falaremos muitos sobre esses charmosos vinis que marcaram a discografia de Elvis Presley. Até lá.

Elvis Presley - Just For You (1957)
I Need you So
Have I Told You Lately That I Love You
Blueberry Hill
Is It So Strange

Elvis Presley – Just For You (1957) / Elvis Presley (voz e violão) / Scotty Moore (guitarra) / Bill Black (baixo) / D.J.Fontana (bateria) / Gordon Stoker (piano) / Dudley Brooks (piano) / Hoyt Hawkins (órgão) / Jordanaires (acompanhamento vocal) / Produzido por Steve Sholes / Arranjado por Elvis Presley e Steve Sholes / Gravado nos estúdios Radio Recorders - Hollywood / Data de Gravação: 18 e 19 de janeiro de 1957 / Data de Lançamento: abril de 1957 / Melhor posição nas charts: #2 (EUA) # - (UK).

Pablo Aluísio.

sábado, 20 de outubro de 2012

O Segredo de Brokeback Mountain

Sem dúvida um dos filmes mais polêmicos dos últimos anos. Na época me lembro claramente que criou-se toda uma polêmica pelo fato de se colocar na tela dois cowboys tendo um relacionamento gay. Como se sabe a figura mítica do cowboy é um dos símbolos máximos da virilidade do homem americano. Será que o chamado homem de Marlboro agora tinha virado a casaca? Bobagem. Infelizmente esse é um daqueles casos em que a polêmica acaba jogando uma fumaça sobre a verdadeira essência do filme, tornando tudo turvo e escuro. O filme não deve ser encarado dessa forma. Na realidade é a estória de duas pessoas que abrem mão de sua verdadeira felicidade por causa das pressões sociais que sofrem em seu meio. Certamente são apaixonados um pelo outro, seguramente gostariam de viver essa paixão em sua plenitude mas não fazem por mera pressão da sociedade. Não seriam aceitos por seus pares, sofreriam todo tipo de discriminação e ao final poderiam até se tornar vítimas de algum crime de homofobia. Dessa forma preferem viver uma mentira. O personagem de Jack (Jake Gyllenhaal ) é o mais perfeito retrato disso. Ele se casa para manter as aparências e segue tendo uma vida cheia de desencontros e infelicidades. Não foi feliz por ficar preocupado pelo que os outros pensariam dele. Deixou de viver sua própria vida para viver uma mentira de acordo com a mentalidade tacanha da sociedade.

A dupla central de atores está excepcionalmente bem. Jake Gyllenhaal, por exemplo, tem a melhor atuação de sua carreira. Já Heath Ledger está novamente excepcional. Seu personagem tenta ser mais honesto com si mesmo do que seu companheiro mas novamente sucumbe ao conservadorismo extremo do lugar onde vive. O diretor Ang Lee comanda o filme sem pressa, sem atropelamentos. As situações surgem em seu devido tempo, tudo para mostrar o relacionamento ora conturbado, ora feliz, dos jovens amantes. Seu sensível trabalho lhe valeu o Oscar de melhor diretor daquele ano, o que foi mais do que merecido. Ledger e  Gyllenhaal também concorreram ao Oscar mas não levaram. A sempre sisuda Academia certamente pensou que ainda não seria o momento para premiar atores de personagens tão controversos como aqueles. No final das contas o filme se tornou sucesso de público e crítica. Também não podemos ignorar o fato de que filmes como esses também ajudam aos grupos GLS em sua luta contra o preconceito. É uma obra que abre caminhos e fortalece o respeito que todos devem ter pelo próximo, independente de sua opção sexual. Assim a grande mensagem do filme é a seguinte: viva a sua vida da melhor forma possível, de acordo com o seu modo de pensar. Nunca deixe de viver apenas porque tem receio do que as outras pessoas vão pensar de você. Seja feliz e ignore todo o resto. 

O Segredo de Brokeback Mountain (Brokeback Mountain, EUA / Canadá, 2005) Direção: Ang Lee / Roteiro: Diana Ossana, Larry McMurtry / Elenco: Heath Ledger, Jake Gyllenhaal, Michelle Williams, Anne Hathaway, Anna Faris / Sinopse: O filme acompanha o longo e turbulento relacionamento entre dois homens em uma das regiões mais conservadoras dos Estados Unidos. Vivendo vidas de fachada ambos acabam se tornando infelizes e incompletos em suas vidas afetivas.

Pablo Aluísio e Júlio Abreu. 

Candy

Acho Candy tão injustamente subestimado. Todos sempre citam o brilhante trabalho de Heath Ledger em Batman mas muitos poucos lembram dessa sua inspirada atuação. Talvez pelo fato do filme ser pequeno, discreto, com jeito de cinema independente, muitos sequer tenham visto a produção. Bom, nunca é tarde para corrigir essa lacuna. Candy tem uma estrutura nada convencional e se baseia na vida de um casal formado por Candy (Abbie Cornish) e Dan (Heath Ledger). Ambos são jovens, promissores, vivendo a melhor fase de suas vidas. São amorosos e realmente se querem bem. O problema é que Dan tem um série problema com o abuso freqüento de drogas, em especial a famigerada cocaína. Cometendo um erro que é mais comum do que se pensa Candy, sua namorada, também resolve experimentar a droga. Não tarda para se viciar completamente. O que antes parecia um conto de fadas, um romance dos sonhos, rapidamente se torna uma roleta russa e um abismo é criado ao redor dos jovens namorados, agora transformados em meras sombras do que um dia foram.

O roteiro é marcante porque mostra as armadilhas que podem surgir na vida de pessoas que tentaram apenas levar uma vida fora dos padrões estabelecidos, levando uma existência mais boêmia, poética e livre das amarras sociais. Nada de errado há nisso. O problema é que saem de uma arapuca para caírem em outra. O usuário de drogas geralmente pensa que está livre, agindo por conta própria. A verdade dos fatos porém é que ele ao consumir drogas acaba se tornando mais prisioneiro do que era antes. Uma falsa sensação de liberdade que leva a pessoa para a mais terrível das prisões, a do vício e da dependência química. O filme joga muito bem com essa realidade que infelizmente atinge milhões de pessoas ao redor do mundo. O roteiro porém procura evitar discursos de moralidade ou falsas lições de moral. Ao invés disso se limite a mostrar o esfacelamento gradual do casal. Quando assisti Candy pela primeira vez o ator Heath Ledger ainda estava vivo e sua atuação, pela primeira vez, me chamou  realmente a atenção. Não deixa de ser tristemente irônico saber que o ator morreria justamente por uso de drogas. Uma ironia do destino que torna Candy ainda mais interessante. Não deixe de assistir e descubra como Ledger foi muito além do Coringa.

Candy (Candy, EUA, 2006) Direção: Neil Armfield / Roteiro: Neil Armfield / Elenco: Abbie Cornish, Heath Ledger, Geoffrey Rush, Tom Budge, Roberto Meza Mont, Tony Martin, Noni Hazlehurst, Holly Austin, Craig Moraghan./ Sinopse: Jovem casal vive feliz e em clima de harmonia em seu sólido e estável relacionamento. Tudo porém começa a ruir após ambos consumirem drogas de forma descontrolada.

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.