quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

The Cheyenne Social Club

The Cheyenne Social Club é um western diferente, mais leve e com muito bom humor. Só o fato de reunir esses dois mitos, James Stewart e Henry Fonda, já o tornaria obrigatório a qualquer fã de cinema mas ainda tem mais, outro grande nome na direção: Gene Kelly! Muitos podem torcer o nariz para o fato do filme ter sido dirigido por um ator e dançarino especialista em musicais mas podem ficar tranquilos, o resultado é muito satisfatório. Obviamente que a ação fica em segundo plano, revelando-se o roteiro uma fina comédia de humor de costumes, mas isso não é um empecilho. O filme foi lançado em 1970, quando o gênero faroeste já estava saindo de moda, mas vamos convir que tudo aqui se encaixa perfeitamente, até mesmo na idade mais avançada dos atores, que interpretam cowboys velhos de guerra que são surpreendidos por uma "herança" no mínimo inusitada. Imagine herdar um bordel numa cidade do velho oeste! É justamente em cima dessa situação curiosa e cômica que o roteiro se desenvolve.

James Stewart novamente faz o papel de um personagem com grande virtude e valores morais. Embora inicialmente isso não fique muito claro logo o roteiro toma rumos para reafirmar essa característica que de uma forma ou outra sempre marcou todos os seus personagens de sua carreira. Já Henry Fonda está ótimo. Fazendo um cowboy casca grossa o ator está mais carismático do que nunca. Realmente adorei sua caracterização ao estilo interiorano esperto. Na trama ele funciona como escada para o amigo James Stewart mas isso em nenhum momento é um problema pois ambos sempre trabalharam excepcionalmente bem juntos. A dupla está perfeita em todas as cenas, demonstrando mesmo como eram bons atores, na verdade eram grandes amigos na vida real e isso passa para a tela. Enfim é isso, embora não seja tão conhecido "The Cheyenne Social Club" é no final das contas uma excelente diversão, com tudo o que o estilo western pede: bom humor, cenas de duelo, tiroteios e grandes atores em cena. Quem precisa de mais do que isso?

The Cheyenne Social Club (EUA, 1970) Direção: Gene Kelly / Roteiro: James Lee Barrett baseado na novela de Davis Grubb / Elenco: James Stewart, Henry Fonda e Shirley Jones / Sinopse: John O´Hallan (James Stewart) é um cowboy que é surpreendido pela notícia de que recebera de herança um bordel numa cidade do velho oeste. Ao lado do amigo Harley Sullivan (Henry Fonda) resolve ir conhecer o local para colocá-lo à venda, o que não contava era com a resistência das mulheres do estabelecimento que não querem que o "club" seja vendido!

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.

Devastando Caminhos

Tom Andrews (Randolph Scott) é um explorador que é contratado pela companhia ferroviária do Canadá com a missão de encontrar um caminho entre as montanhas rochosas. O objetivo é construir uma grande linha ferroviária que ligue as duas costas do Canadá, ligando o Atlântico ao Pacífico, servindo como rota de união entre a  distante colônia britânica e as principais cidades do país. O trabalho de Andrews porém não será nada fácil pois a idéia não conta com o apoio das populações montanhesas, que temem perder sua liberdade e autonomia com a chegada do progresso que virá com as novas rotas comerciais abertas pela ferrovia. Como se não bastasse os nativos locais também se insurgem contra a chegada do trem a vapor. Eis um dos mais curiosos filmes de Randolph Scott. Logo de início percebemos que é um western diferente pois foi praticamente todo rodado no Canadá e não nos EUA. O filme tem linda fotografia e foi quase todo filmado em locações reais nos parques nacionais da cidade canadense de Alberta. Lindos lagos e montanhas cinematográficas passeiam pela tela.

Algumas cenas mais ousadas foram feitas pelo próprio Randolph Scott (ele foi dublê antes de virar astro). Numa delas o ator se equilibra ao lado de furiosas corredeiras; para em outro momento subir em uma montanha inóspita. Apesar disso o tom é bem leve. Obviamente há cenas de brigas, lutas e tiroteios mas no geral o filme tende mais para o lado romântico, onde Scott fica indeciso entre se firmar com uma jovem da região ou assumir de vez o namoro com uma médica da companhia ferroviária. Para os que gostam de ação duas cenas se destacam. Na primeira delas o personagem de Randolph Scott sofre um atentado com bananas de dinamite e em outra temos um grande confronto entre os trabalhadores da ferrovia e os índios das montanhas que querem colocar a construção da estrada de ferro abaixo. Por falar nisso foi impossível não lembrar de uma série atual que tem basicamente o mesmo tema desse filme, "Hell on Wheels" do canal AMC. O argumento é basicamente o mesmo, porém no quesito belezas naturais "Canadian Pacific" se saí bem melhor, fruto da beleza ímpar da região onde foi filmado. Assim fica a dica desse faroeste canadense estrelado pelo cowboy americano Randolph Scott. Não deixe de assistir.

Devastando Caminhos (Canadian Pacific, EUA, 1949) Direção: Edwin L. Marin / Roteiro: Jack DeWit / Elenco: Randolph Scott, Jane Wyatt, J. Carrol Naish, Victor Jory / Sinopse: Explorador americano é contratado por companhia ferroviária canadense para achar um caminho entre as montanhas rochosas por onde possa passar a nova linha de trem que ligará as duas costas do Canadá. A construção da ferrovia porém não será nada fácil já que os moradores da região e os nativos locais não querem que ela passe por suas terras.

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.

Cactus Jack - O Vilão

Título no Brasil: Cactus Jack - O Vilão
Título Original: The Villain
Ano de Produção: 1979
País: Estados Unidos
Estúdio: Columbia Pictures
Direção: Hal Needham
Roteiro: Robert G. Kane
Elenco: Kirk Douglas, Ann-Margret, Arnold Schwarzenegger, Footer Brooks

Sinopse: 
Um xerife do velho oeste que mais parece uma montanha de músculos chamado Handsome Stranger (Arnold Schwarzenegger) serve como escolta para a bela Charming Jones (Ann-Margret) mas ambos correrão grande perigo pois um perigoso vilão chamado Cactus Jack (Kirk Douglas) pretende colocar as mãos no dinheiro que ela carrega na viagem.

Comentários:
Na década de 80 essa comédia passada no velho oeste ganhou várias reprises na TV aberta brasileira. É um tipo de estilo que certamente não agradará a todos. Se você é um fã de filmes de western então tudo ficará muito mais complicado pois o roteiro brinca bastante com os clichês do gênero. Para os fãs do astro brutamontes Arnold Schwarzenegger a produção vai servir como uma grande curiosidade uma vez que ele na época ainda não era o campeão de bilheteria dos anos que viriam. Seu papel é simpático e o fortão procura não estragar o estilo cômico da produção. Kirk Douglas e Ann-Marget da era clássica de Hollywood também não parecem se importar muito. O estilo da produção, as cenas, os momentos, tudo lembram a linguagem de desenhos animados, por mais estranho que isso possa parecer. É curioso porque funciona em alguns momentos e em outro não. Talvez por isso nunca mais tentaram repetir esse tipo de estilo. De qualquer maneira tente assistir como mero passatempo. Desligue o cérebro e tente se divertir.

Pablo Aluísio. 

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Argo

Para entender a trama de Argo é necessária uma pequena explicação sobre o contexto histórico em que o enredo se desenvolve. Durante anos os Estados Unidos deu apoio a um líder fantoche no Irã chamado Mohammad Reza Pahlavi. Esse foi um dos mais brutais ditadores do Oriente Médio – uma região muito rica nesse tipo de déspota sanguinário. Com apoio americano o Xá Reza Pahlavi torturou, matou e executou centenas de milhares de opositores ao seu regime. Tamanha opressão criou uma consciência popular entre o povo do Irã que clamava por mudanças políticas em seu país. E ela veio sob a forma de uma revolução de conteúdo religioso liderada pelo carismático e popular líder islâmico Iatolá Komeini. Assim que esse tomou o poder o antigo ditador Pahlavi fugiu para os EUA em busca de asilo político. O povo revoltado então resolveu invadir a embaixada americana no Irã, fazendo todos os seus funcionários como refém até que os americanos lhe entregassem de volta o antigo ditador. Seis desses funcionários conseguiram fugir antes da tomada da embaixada e encontraram refúgio na casa do embaixador canadense na capital Iraniana. É justamente aqui que começa a trama de “Argo”, quando a CIA resolve resgatar esses diplomatas. Mas como fazer isso dentro de um clima tão instável como aquele?

Nesse ponto surge o plano do agente Tony Mendez (Ben Affleck), A CIA tinha consciência que agentes deveriam entrar no Irã para resgatar essas pessoas mas sem conflito. Deveria ser realmente um serviço limpo, sem mortes, de inteligência. Após vários planos que logo se mostravam falhos, Mendez sugeriu um no mínimo ousado e inusitado. Entrar no Irã disfarçados como membros de uma equipe de cinema. Assim eles estariam no país em busca de locações para as filmagens de uma ficção científica típica da década de 70 chamada “Argo”. Para parecer real a CIA realmente teria que armar toda uma encenação ainda nos EUA usando a imprensa para divulgar “Argo”. Dessa forma não levantariam suspeitas de que tudo não passava de um plano de resgate da agência. Um roteiro vagabundo foi adquirido, atores contratados e até mesmo uma conferência de imprensa montada. No comando dessa operação apenas Mendez (Affleck), um especialista em maquiagem chamado John Chambers (John Goodman) e um produtor veterano, Lester Siegel (Alan Arkin) sabiam da verdade, da realidade dos fatos. Embora o enredo pareça muito fantasioso o fato é que tudo aconteceu mesmo de verdade, foi uma história real. Essa operação muito criativa só foi reconhecida pela CIA muitos anos depois. Inclusive nos créditos finais surge a narração do próprio presidente americano da época, Jimmy Carter, explicando os eventos e agradecendo ao verdadeiro agente Tony Mendez pelo seu trabalho.

“Argo” é o segundo candidato ao Oscar de Melhor filme desse ano cujo enredo gira em torno de uma operação secreta da CIA. O primeiro foi o polêmico “A Hora Mais Escura”. Ambos tem semelhanças entre si, pelo próprio contexto em que se passa a estória mas “Argo” se mostra superior em vários aspectos. Curiosamente o ator Kyle Chandler está em ambos os filmes fazendo o mesmo tipo de personagem, um diretor da agência de inteligência americana. Aqui em “Argo” outro destaque do elenco é o excelente ator da série “Breaking Bad”, Bryan Cranston. Quem acompanhou a série sabe de seu inegável talento. Aqui seu personagem não é muito presente em cena mas se destaca por estar no centro de controle da operação em Washington. “Argo” é um projeto pessoal de Ben Affleck. Durante anos ele foi considerado apenas mais um canastrão em Hollywood mas depois que passou a dirigir filmes foi surpreendendo cada vez mais. Certamente o talento que lhe falta como intérprete foi compensado pela sua habilidade em dirigir bem. Recentemente inclusive levou o Globo de Ouro de melhor direção justamente por esse filme. Além disso a produção foi agraciada pelo mesmo prêmio como melhor filme (Drama) do ano. Será que desbancará “Lincoln” na noite do Oscar, levando a mais cobiçada estatueta do cinema? Há grandes possibilidades disso realmente acontecer. “Argo” certamente poderá sair consagrado na noite de premiação da Academia. Só nos restar esperar.

Argo (Argo, EUA, 2012) Direção: Ben Affleck / Roteiro: Chris Terrio / Elenco: Ben Affleck, Bryan Cranston, John Goodman,  Kyle Chandler,  Alan Arkin,  Victor Garber / Sinopse: Um agente da CIA elabora um plano ousado para resgatar um pequeno grupo de diplomatas americanos que precisam sair do Irã o mais rapidamente possível. Ele se disfarça de produtor de cinema, fingindo estar procurando locações para seu novo filme de ficção chamado “Argo”, para assim retirar os americanos do país. Vencedor do SAG Award de Melhor Elenco.

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

A Hora Mais Escura

Recentemente comentei aqui no blog o livro “Não Há Dia Fácil”, escrito por um dos membros da equipe especial SEAL das forças militares americanas que foi ao Paquistão e lá matou o terrorista Osama Bin Laden. “A Hora Mais Escura” conta a mesma história só que bem mais detalhada e sob o ponto de vista de uma agente da CIA que participou de toda a operação que foi criada para capturar e matar o líder da Al-Qaeda. “Zero Dark Thirty” foi indicado a vários Oscars, inclusive o de melhor filme mas tem sido alvo de polêmicas os EUA. Isso porque grande parte do começo da produção se concentra em mostrar os métodos de tortura da CIA para a obtenção de informações dos terroristas presos. Nesse campo os agentes norte-americanos não ficam em nada a dever aos torturadores de porão dos regimes de ditadura das chamadas repúblicas bananeiras (como alguns ianques se referem aos países latino-americanos abaixo da linha do Equador). Assim como aconteceu com Brasil, Argentina e Chile no auge de suas ditaduras militares, as prisões controladas pelo governo americano usaram e abusaram de métodos de tortura para se chegar ao mais famoso terrorista da história. Para alguns analistas o filme de certa forma louvaria esses métodos, mostrando, mesmo que indiretamente, sua eficácia – até porque foi assim que se conseguiu chegar até a casa de Bin Laden no Paquistão.

Estaria a diretora Kathryn Bigelow (a mesma de “Guerra ao Terror” e ex-esposa de James Cameron) dando aval a esse tipo de prática? Sinceramente não consegui ver dessa forma. Na realidade o filme adota uma postura neutra em relação a isso, nem condenando abertamente e nem avalizando esse tipo de prática. O roteiro na verdade apenas mostra o que aconteceu e tenta não passar nenhum juízo de valor sobre isso. Talvez essa falta de condenação com o que ocorre na tela tenha sido o fator que incomodou tanto. A verdade pura e simples é que após 11 de setembro de 2001 a pressa e o desespero de se colocar as garras em Bin Laden passaram a ser justificativas para várias práticas ilegais e criminosas. A pressão da opinião pública fez com que o governo dos EUA partisse para o vale tudo. Nisso se jogou pela janela anos e anos de tradição liberal e de defesa dos direitos individuais das leis e da constituição daquele país. A impressão que passa é que no calor dos acontecimentos simplesmente se ignorou vários fundamentos que formam os ideais mais caros da democracia americana. Para se ter uma idéia todos os presos acusados de terrorismo sequer tiveram direito a julgamentos judiciais. Devido processo legal, contraditório, direito de defesa e vários outros preceitos foram totalmente desprezados. A única “lei” que imperou nessa busca foi a da tortura e da violência sem freios.

O filme adota um tom quase documental. Os personagens são membros da CIA com um único objetivo. Curiosamente o filme mostra dois aspectos bem interessantes: o primeiro mostra bem que a CIA não colocou as mãos em Bin Laden antes, não por falta de informações, mas por excesso delas – no meio de tantos dados ficou realmente complicado entender bem a organização que Bin Laden liderava e quais eram as ligações que poderiam levar até ele. Também mostra que mesmo os mais ferrenhos defensores do terrorismo sucumbiam à força do suborno, do dinheiro vivo. Numa das cenas mais emblemáticas, um membro da CIA consegue uma informação preciosa simplesmente jogando um carro de alto luxo nas mãos do informante. No final das contas a cena que melhor resume “A Hora Mais Escura” é aquela quando o presidente Obama surge na TV negando com veemência que haja tortura promovida contra prisioneiros em Guantanamo. Ao ver aquilo uma agente da CIA dá um sorrisinho irônico, obviamente pensando consigo mesmo sobre a lorota presidencial. “A Hora Mais Escura” é um bom espelho para que os americanos se vejam como realmente são. Talvez por isso tenha sido tão polêmico pois nem sempre se olhar no espelho é uma atitude confortável ou agradável, principalmente para quem viola as leis de seu próprio país.

A Hora Mais Escura (Zero Dark Thirty, EUA, 2012) Direção: Kathryn Bigelow / Roteiro: Mark Boal / Elenco: Jessica Chastain, Kyle Chandler, James Gandolfini, Ricky Sekhon, Joel Edgerton, Scott Adkins, Mark Strong, Jennifer Ehle, Chris Pratt, Taylor Kinney / Sinopse: Agente da CIA começa a participar das investigações que tentam encontrar o paradeiro do terrorista Osama Bin Laden. Usando de métodos de tortura a agência tenta colocar as mãos no líder da Al-Qaeda. Indicado aos Oscars de Melhor Filme, Atriz (Jessica Chastain), Roteiro Original, Edição e Edição de Som. Vencedor do Globo de Ouro de Melhor Atriz na categoria Drama para Jessica Chastain.

Pablo Aluísio e Júlio Abreu. 

domingo, 27 de janeiro de 2013

Johnny & June

Johnny Cash (1932 - 2003) foi um artista diferente. Ele surgiu na mesma geração de grandes cantores descobertos por Sam Phillips na pequenina Sun Records em Memphis. Dessa gravadora despontou toda uma geração inovadora e revolucionária na música americana, grandes nomes como Elvis Presley, Jerry Lee Lewis e Carl Perkins, tiveram sua primeira grande oportunidade lá. O que diferenciava Cash de todos esses outros intérpretes era o teor de suas músicas e o acentuado lirismo country que as embalava. Cash tinha um universo muito pessoal, suas canções geralmente retratavam a vida dos que estavam à margem da sociedade, como os presidiários, os pobres e os sofridos. Essa sua preferência pelo lado mais outsider da sociedade americana legou a ele um público muito fiel e devoto. A carreira de Cash também foi muito produtiva pois ele sempre estava gravando discos, fazendo shows, programas de TV e até cinema, era um verdadeiro workaholic em sua profissão. Transpor uma vida tão rica assim para um único filme não seria nada fácil. Por isso os produtores de “Johnny & June” optaram, de forma muito acertada, em focar o roteiro e o filme em cima do conturbado relacionamento de Johnny Cash com June Carter, também uma cantora que fazia parte de uma extensa linha familiar de artistas Country and Western.

O resultado do que se vê na tela é muito bom, beirando o excepcional. Joaquin Phoenix no papel principal conseguiu passar muito da personalidade de Cash. Ele tinha essa sensação de nunca se enquadrar, de nunca se sentir plenamente aceito. Phoenix inegavelmente deu muito brilho ao seu papel de Johnny Cash. Até mesmo pequenos detalhes, como maneirismos do cantor e a forma como ele segurava e tocava seu violão, o ator levou para seu trabalho no filme Já Reese Witherspoon também está muito satisfatória no papel de June Carter, muito embora ainda ache que seu Oscar de Melhor Atriz foi um pouco excessivo. Certamente ela está bem mas não a ponto de receber uma premiação tão importante. Provavelmente tenha sido premiada mais pela relevância de seu nome dentro da indústria do que pela atuação em si. Embora seja uma obra tecnicamente muito bem realizada o filme só desliza um pouco quando mostra Cash enfrentando problemas com drogas. Nesse ponto o filme perde muito de seu charme, se tornando um tanto quanto maniqueísta e forçado. Fora isso nada a reclamar. A trilha está recheada das imortais canções do homem de preto e conta ainda com cenas de shows muito bem realizadas. Após seu lançamento "Johnny & June" foi premiado com o Globo de Ouro de Melhor Filme na categoria Comédia / Musical. Um prêmio, esse sim, bem merecido.

Johnny & June (Walk the Line, EUA, 2005) Direção: James Mangold / Roteiro: Gill Dennis, James Mangold / Elenco: Joaquin Phoenix, Reese Witherspoon, Ginnifer Goodwin, Robert Patrick, Shelby Lynne, Dan Beene, Larry Bagby, Lucas Till, Ridge Canipe, Hailey Anne Nelson./ Sinopse: Cinebiografia do cantor e compositor Johnny Cash (Joaquim Phoenix) mostrando seu conturbado relacionamento amoroso com June Carter (Reese Witherspoon).

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.

sábado, 26 de janeiro de 2013

Lincoln

“Lincoln” é um belo filme. Não há outra conclusão. Steven Spielberg se supera e entrega um filme digno do grande político americano que entrou para a história por dois fatores essenciais: a abolição da escravidão e a vitória na Guerra Civil. Esses foram os pilares que fizeram de Abraham Lincoln (1809 – 1865) um dos maiores presidentes da história dos EUA. O filme começa com Lincoln conversando de modo bastante informal com dois jovens soldados negros da União em um acampamento lamacento. Já aqui podemos perceber a grandiosidade do trabalho de Daniel Day-Lewis. Ele literalmente incorpora o modo de agir, falar e pensar do político. Lincoln era um homem de fala suave, contemplativa, um sujeito que saiu da mais extrema pobreza para o cargo mais importante de sua nação. Era um intelectual que se fez praticamente sozinho, que se educou, foi em busca de conhecimento e se tornou advogado. Seu pai era um homem rústico do campo que não tinha educação formal. Lincoln foi atrás de cultura. Aprendeu a ler sem ir à escola e lendo um livro aqui e outro acolá foi trilhando o caminho da instrução. Um homem assim se conhece bastante pelo modo de ser, de se comportar. A postura contida, conciliadora foi captada com raro brilhantismo por Day-Lewis. Sua transformação é impressionante. Lincoln tinha traços fortes, que hoje soam tão bem conhecidas por todos. Day-Lewis não é fisicamente parecido com ele mas com sua inspirada atuação conseguiu absorver todos esses  aspectos. É realmente um trabalho impressionante que merece todos os prêmios e reconhecimentos.

Infelizmente o filme se foca apenas em um período específico da trajetória do Presidente, quando ele tentava de todas as formas aprovar a décima terceira emenda da Constituição americana. Seu teor era abolir qualquer forma de escravidão ou servidão involuntária dentro do solo norte-americano. O curioso aqui é ver o lado mais humano de Lincoln quando ele torna concreta a frase “Os fins justificam os meios”. Sem o número de deputados necessários ele se utiliza de todos os meios possíveis para passar a emenda, libertando assim milhões de seres humanos da escravidão racial. Há todo um jogo de bastidores, com troca de favores e cargos públicos para se chegar aos votos necessários. Se lá nos EUA isso ainda é motivo de espanto aqui no Brasil é coisa comum, corriqueira, da ordem do dia. De qualquer modo o momento chave é quando ele decide promover a abolição, mesmo com todas as pressões em sentido contrário. Essa foi uma decisão baseada em seus valores morais e de caráter e o filme mostra muito bem isso, expondo a personalidade de Lincoln de forma magistral. O Jogo político que se trava no congresso vai ser especialmente apreciado por estudantes de direito e ciência política pois mostra sem rodeios os mecanismos nada sutis que fazem nascer as leis de uma nação. Muitos reclamaram desse aspecto do filme, por acharem que isso o torna chato e arrastado, mas esse tipo de argumento é um absurdo pois o protagonista era um político e seria impossível fazer um filme sem adentrar nesse tipo de relação entre o parlamento e o presidente.

A produção e a reconstituição de época são, como não poderiam deixar de ser, perfeitas. O presidente surge em cena não apenas como o grande homem da história mas também como um ser humano normal, preocupado com o destino de seus filhos, enfrentando problemas de relacionamento com sua esposa e muitas vezes em grande dilema pessoal em suas decisões. Esse lado desmistificador é o grande achado do roteiro, pois humaniza o personagem histórico, que apesar de sua grandiosidade, se aproxima assim do espectador, que se identifica com ele, com seus pequenos dramas domésticos que acabam se misturando com os assuntos de Estado. Nunca esse presidente esteve tão humano como agora. O elenco de apoio é excepcional com destaque para Tommy Lee Jones, econômico e como sempre eficiente em suas atuações. Se há algo a se criticar em tudo o que vemos em Lincoln talvez seja apenas o fraco enfoque do assassinato do líder da nação. Tudo soa apenas sugerido e não mostrado. O diretor não mostra o momento em que é baleado e nem os acontecimentos que o levaram a tão trágico destino. Provavelmente Spielberg tenha tomado essa decisão para não macular o mito. Não faz mal pois não há nenhum grande problema nisso. O diretor realmente está de parabéns por essa obra excepcional. Um filme à altura do grande homem que foi Abraham Lincoln.

Lincoln (Lincoln, EUA, 2012) Direção: Steven Spielberg / Roteiro: Tony Kushner, John Logan, Paul Webb, baseados na obra “Team of Rivals” de Doris Kearns Goodwin / Elenco: Daniel Day-Lewis, Tommy Lee Jones, Joseph Gordon-Levitt, Sally Field, James Spader, Lee Pace / Sinopse: Abraham Lincoln, Presidente dos Estados Unidos, enfrenta duas questões cruciais em seu governo: aprovar a emenda à constituição americana que libertará os escravos negros da nação e vencer a Guerra Civil contra os Estados do Sul que formam a Confederação. Além de lidar com esses temas nacionais ainda terá que contornar os problemas domésticos de sua família pois sua esposa não aceita que seu filho mais velho vá a guerra, embora ele deseje ardentemente isso. Vencedor do Globo de Ouro de Melhor Ator para Daniel Day-Lewis. Indicado aos Oscar de Melhor Filme, Atriz Coadjuvante (Sally Field), Ator Coadjuvante (Tommy Lee Jones), Ator (Daniel Day-Lewis), Direção (Steven Spielberg), Fotografia, Figurino, Edição, Trilha Sonora, Efeitos Sonoros, Roteiro Adaptado e Direção de Arte.

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.

Pink Floyd – The Final Cut

Algumas bandas de rock não conseguiram sobreviver a certos discos. O Pink Floyd, por exemplo, saiu destruído de “The Final Cut”, a mais louca egotrip da vida de Roger Waters. Essa história na realidade começa com o álbum anterior da banda, o famoso “The Wall”. Nesse projeto Roger Waters já tinha dominado completamente o poder dentro do grupo. Ele fazia as composições, os arranjos e se enfurecia com qualquer sugestão que não fosse de seu agrado. Por essa época ele passou a hostilizar abertamente o tecladista Richard Wright, que enfrentava problemas pessoais e de saúde. Sua dependência química o impedia de ser um membro mais produtivo e assim Waters se viu no direito de literalmente o expulsar do grupo, embora ele fosse um dos fundadores do Pink Floyd. Mesmo com tantos problemas “The Wall” se tornou um enorme sucesso popular, louvado e reverenciado pela crítica especializada trazendo assim um  enorme poder a Waters dentro do grupo, que a partir daí não poderia mais ser contestado. Os executivos da gravadora só tinham ouvidos a ele e assim o músico começou a se sentir o verdadeiro “dono” do Pink Floyd. Quando começaram as sessões de “The Final Cut” os demais membros restantes do Floyd encontraram um Roger Waters ainda mais alucinado, egocêntrico, centralizador, agindo como um verdadeiro ditador, nem um pouco disposto a ouvir os demais integrantes. Assim como havia feito em “The Wall” ele começou a destratar na frente de todos o guitarrista David Gilmour e o baterista Nick Mason. Sua opinião sobre a forma como as músicas deveriam ser gravadas tinham ganhado status de lei dentro do estúdio. As brigas eram enormes e violentas e Waters não queria ouvir mais ninguém. Ele trouxe todo o repertório do disco já previamente composto, avisou aos demais membros que iria cantar todas as músicas e teria a direção musical completa do novo álbum. Aos demais só restava seguir suas instruções ao pé da letra. Obviamente que Mason e Gilmour se uniram contra tamanha dominação. Não adiantou muito.

“The Final Cut” foi gravado praticamente como um disco solo de Roger Waters. Aproveitando algumas canções do “The Wall” que tinham sido arquivadas com material novo que ele compôs, Waters criou uma homenagem ao seu pai que havia morrido durante a II Guerra Mundial. A própria capa era significativa nesse ponto, reproduzindo as medalhas que seu pai havia recebido por bravura no campo de batalha. Tratando os demais membros do Floyd como seus meros empregadinhos, Waters teve mais uma vez a certeza que estava gravando outra obra prima suprema do rock progressivo inglês. Estava enganado. O disco se mostrou desastroso, considerado um dos piores do grupo em muitos anos. O vocal de Waters surgia mais insuportável do que nunca e como ele havia colocado Gilmour para escanteio o resultado final em termos de instrumentação e arranjos soavam ridículos. Desesperado pela péssima reação de público e crítica, Waters surpreendeu a todos com o anúncio do fim do Pink Floyd! A declaração era um absurdo pois Wright, Gilmour e Mason jamais tinham sido consultados sobre isso! O que se seguiu foi a implosão do Pink Floyd. Gilmour, Mason e Wright de um lado e Waters do outro. Eles foram à imprensa para informar que o grupo seguia em frente, agora sem Roger Waters. Como não poderia deixar de ser tudo foi parar nos tribunais com todos processando a todos. Seria o fim da maior banda de rock progressivo da história? Felizmente não. Os três integrantes unidos venceram Waters no processo em que se discutia a propriedade do nome Pink Floyd. Apesar de Waters pensar que era o proprietário e dono da marca a justiça decidiu que ela pertenceria na verdade aos três remanescentes membros do conjunto. Ainda bem, pois começava ali uma nova fase, mais democrática e mais igualitária, com David Gilmour como líder. Sim, Roger Waters tentou destruir a banda com “The Final Cut” mas eles conseguiram sobreviver, mais uma vez.

Pink Floyd - The Final Cut (1983)
The Post War Dream
Your Possible Pasts
One of the Few
The Hero's Return
The Gunner's Dream
Paranoid Eyes
Get Your Filthy Hands Off My Desert
The Fletcher Memorial Home
Southampton Dock
The Final Cut
Not Now John
Two Suns in the Sunset

Pablo Aluísio e Erick Steve.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Proposta Indecente

Responda rápido sem pensar muito: você aceitaria que sua mulher passasse uma noite de amor ardente com um milionário bonitão com a cara do Robert Redford? Não, nem pensar? E se ele oferecesse um milhão de dólares pela noite? Você recusaria ou não? Seja sincero! São essas as perguntas feitas pelo argumento do filme “Proposta Indecente”, um dos grandes sucessos do cinema na década de 1990. O tema virou assunto de bate papo, ponto de discórdia e até mesmo piada de salão. Afinal não tardou a aparecer aqueles engraçadinhos afirmando que por um milhão de dólares não cederia a esposa pois ela na realidade valia muito menos do que isso! Deixando as piadinhas infames de lado esse filme “Proposta Indecente” forma ao lado de “Assédio Sexual” um tipo de produção que acabou se tornando recorrente naqueles anos, a dos filmes baseados em pura polêmica. A fórmula era até simples: os roteiristas pensavam em um tema polêmico e escreviam uma estória e um enredo em torno dele. Durante certo tempo a aposta deu muito certa até porque a própria polêmica ajudava a vender o filme pois era um tipo de propaganda boca a boca grátis. Afinal a pergunta ficou no ar por vários meses – quem afinal deixaria a mulher ter uma noite de amor com outro homem por uma quantia irrecusável?

Para segurar um tema desses e não cair no ridículo a atriz que faria o papel da esposa tinha que realmente ser uma beldade que valesse tanto dinheiro. Demi Moore foi a escolhida. Ainda jovem e bonita e com aquela voz rouca e sensual ela virava a cabeça de Robert Redford, que em um acesso de desejo lançava a proposta de um milhão de dólares para o maridão deixar ele se deitar com sua esposa por uma noite apenas. Já Woody Harrelson faz o sujeito que teria que aceitar ou não a traição remunerada. Para piorar seu personagem era uma pessoa que não conseguia acertar na vida e estava passando por sérias dificuldades financeiras. Pelo visto já deu para perceber que os roteiristas amarraram todas as pontas para piorar ainda mais a situação do pobre rapaz. O estúdio sabia que tinha em mãos um filme que além de polêmico tinha que ser muito sensual. Para isso contrataram Adrian Lyne de “Nove Semanas e Meia de Amor”. Ele deu um visual suave às cenas, com muitas cores sensuais pelo cenário. Tudo soava como paixão e luxúria. Demi Moore foi particularmente privilegiada pelas lentes de Lyne que usando de uma luz ideal para o tom de pele da atriz, conseguiu valorizar toda a sua sensualidade. Tirando a polêmica de lado e se concentrando apenas em seus méritos cinematográficos, “Proposta Indecente” se mostra apenas mediano. Esse tipo de argumento que fica girando apenas em torno de uma questão acaba ficando saturado no desenrolar da estória. Tudo acaba se resumindo em aceitar ou não a milionária proposta. Mesmo assim o filme não deixa de ser ainda hoje curioso. A pergunta não deixa de ser intrigante, mesmo atualmente. E aí você deixaria sua mulher nos braços de um outro homem apenas por uma noite, por um valor, esse sim, indecente?

Proposta Indecente (Indecent Proposal, EUA, 1993) Direção: Adrian Lyne / Roteiro: Jack Engelhard, Amy Holden Jones / Elenco: Robert Redford, Demi Moore, Woody Harrelson, Seymour Cassel, Oliver Platt, Billy Bob Thornton / Sinopse: Milionário maduro e enxuto (Robert Redford) fica encantado por uma jovem esposa (Demi Moore) de um pobre sujeito (Woody Harrelson) que não consegue acertar na vida e está com sérias dificuldades financeiras. Em um acesso de desejo incontido o ricaço resolve fazer uma proposta indecente, oferecendo um milhão de dólares para dormir com a esposa do pobretão por apenas uma noite. Será que a traição realmente não tem preço?

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

O Voo

Denzel Washington tem uma regularidade impressionante em sua carreira. Enquanto outros atores derrapam mais cedo ou mais tarde, geralmente fazendo filmes ruins em busca de fartas bilheterias, Denzel segue em sua linha, sem fazer concessões de nenhum tipo. Esse tipo de postura acaba se revertendo em uma seqüência de bons filmes. De fato ver o nome no cartaz de Denzel Washington já virou um motivo para se comprar o ingresso de cinema sem receio de ir ver um produto medíocre. É um padrão de qualidade que nunca decai. Esse seu novo filme “Flight” segue pelo mesmo caminho. O enredo conta a estória de Whip Whitaker (Denzel Washington), um excelente e experiente piloto de aviação comercial que após uma noite de bebedeiras, drogas e sexo com uma aeromoça de sua tripulação segue para mais uma viagem rumo a Atlanta. O problema é que dessa vez ele não consegue se recuperar completamente da noite de farras e chega bêbado na aeronave. Para piorar antes de sair de seu quarto resolve se encher de cocaína, cheirando várias carreiras de pó em sequência. Completamente “alto” ele tenta levar seu avião em frente mas uma pane mecânica joga a situação no caos completo. Sem alternativas resolve fazer um pouso de emergência que trará sérias conseqüências para todos, inclusive para ele próprio.

Como se pode perceber o tema central do filme é o alcoolismo e o vício em drogas do protagonista. Ele não consegue parar de beber e se drogas, sempre chamando seu traficante a qualquer hora (personagem interpretado por John Goodman com aquele humor que lhe é peculiar). Por isso o órgão responsável pelo controle aéreo nos EUA começa uma série de investigações que o levará ao banco dos réus. Afinal qual foi a causa do acidente do avião que ele pilotava? Um defeito da própria aeronave ou o fato do piloto estar completamente embriagado e drogado? A trama a partir de então girará justamente em torno dessa questão. Denzel Washington está novamente muito bem em seu personagem. Sua caracterização nunca cai na caricatura ou no ridículo e ele sai ileso do filme. Por esse excelente desempenho ele foi inclusive indicado ao Oscar de Melhor Ator. Seu personagem é aquele tipo de sujeito que ainda está em fase de negação completa e não aceita que os outros imponham limites aos seus excessos envolvendo drogas e bebidas. É curioso que um drama assim sobre alcoolismo seja dirigido pelo cineasta Robert Zemeckis, uma vez que sua especialidade sempre foram os filmes de ficção para adolescentes como a franquia “De Volta Para o Futuro”. Apesar de não ser bem sua praia ele até que não se sai mal, muito embora a conclusão do filme possa vir a incomodar alguns pela falta de veracidade (sim, ter ética hoje em dia virou sinônimo de atitude pouco plausível, para espanto de todos nós). No saldo final “The Flight” mantém o bom nível dos filmes estrelados por Denzel Washington, um ator que ao contrário de seu personagem nesse filme, nunca falha!

O Voo (Flight, EUA, 2012) Direção: Robert Zemeckis / Roteiro: John Gatins / Elenco: Denzel Washington, James Badge Dale, Don Cheadle, John Goodman, Kelly Reilly, Bruce Greenwood, Melissa Leo / Sinopse: Depois de uma noite de bebedeiras, sexo e drogas um piloto comercial tenta pilotar um avião rumo a Atlanta, mesmo estando completamente embriagado e drogado. Indicado ao Oscar de Melhor Ator (Denzel Washington) e Melhor Roteiro Original.

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

O Lado Bom da Vida

Alguns filmes são bem cativantes. O roteiro procura se apoiar em personagens carismáticos para assim conquistar o espectador. “O Lado Bom da Vida” segue bem por esse caminho. Embora já tenha sido classificado como uma comédia romântica a produção é bem mais do que isso. Seria limitar demais suas qualidades ao se enquadrar apenas nesse gênero cinematográfico, isso apesar de todo o argumento ser realmente construído em torno de um romance improvável. O casal do filme é dos mais incomuns. Ele é Pat Solatano (Bradley Cooper), um bom sujeito, que simplesmente enlouqueceu após pegar sua jovem esposa no flagra, transando com um velho professor de história no banheiro de sua casa. Para piorar o que já era ruim no momento em que estava com seu amante sua esposa ouvia justamente a música de seu casamento. Após ser internado por longos meses por ter sido diagnosticado como bipolar ele retorna finalmente para a casa dos pais. A idéia é recomeçar a vida sob uma nova perspectiva. Ela é Tiffany (Jennifer Lawrence), jovem viúva que também perde a razão após o falecimento de seu jovem marido. Perdida, sem rumo, ela também volta a morar com seus pais e tenta um recomeço. Procurando por uma válvula de escapa acaba se entregando a uma sucessão de amantes anônimos. O sexo casual porém não ameniza sua dor interna, só a piora. Ambos parecem ter suas vidas destruídas, tomam remédios controlados e sofrem de transtornos psicológicos. Tanta identificação acaba os aproximando.

O filme começa muito bem, principalmente após se conhecerem. Pat (Cooper) e Tiffany (Lawrence) são igualmente esquisitos, estranhos e fora do comum. O começo de seu romance como não poderia deixar de ser foge completamente dos padrões. Essa parte inicial de aproximação se torna a melhor coisa do filme. Porém não há como negar que o filme perde um pouco o pique após dois terços de sua duração. O que era sutil e romântico aos poucos vai perdendo espaço para uma competição de dança ao estilo daqueles programas de TV que fazem sucesso nos EUA. Pat e Tiffany se inscrevem nesse concurso e o pai de Pat, um viciado em apostas interpretado por Robert DeNiro,  transforma a competição em mais uma de suas roletas da sorte. De qualquer modo mesmo perdendo um pouco de seu interesse nessa parte, o filme ainda se mantém bom por causa da excelente dupla central de protagonistas. Já tecemos vários elogios a Jennifer Lawrence. A garota já chamava atenção desde “O Inverno da Alma” e de lá para cá só disponibilizou boas atuações. Da geração jovem ela é seguramente uma das melhores profissionais surgidas nesses últimos anos. Aqui ela mostra todo o seu talento dramático, fazendo uma personagem difícil, que vive no limite que separa sanidade de loucura. Mesmo assim ainda dança graciosamente e mostra timing para o humor por causa das maluquices de Tiffany. Provavelmente esse seja o seu primeiro filme em que ela tira proveito sem pudores de seu sex appeal, pois Tiffany, sua personagem, pode até ser maluquinha mas também é um poço de sensualidade e charme. Ela inclusive está lindíssima com seus belos cabelos negros. Bradley Cooper também é outra grata surpresa. Ele já tinha se destacado no excelente “As Palavras” e aqui volta ao drama para mostrar que não é apenas mais um comediante gaiato como muitos que existem por aí. Ele consegue trazer muita alma para seu perturbado e obsessivo personagem. “O Lado Bom da Vida” é isso, um bom estudo de pessoas complicadas, com muitos problemas, mas que a despeito de tudo isso ainda conseguem seguir em frente, reencontrando inclusive o prazer da paixão e do romance. Uma bela lição de vida.

O Lado Bom da Vida (Silver Linings Playbook, EUA, 2012) Direção: David O. Russell / Roteiro: David O. Russell, baseado no romance de Matthew Quick / Elenco: Jennifer Lawrence, Robert De Niro, Bradley Cooper, Julia Stiles, Chris Tucker / Sinopse: Um casal tenta reencontrar o lado bom da vida após passar por grandes traumas em sua vida amorosa. Vencedor do Globo de Ouro de Melhor atriz para Jennifer Lawrence. Indicado aos Oscars de Melhor Filme, Direção (David O. Russell), Ator (Bradley Cooper), Atriz (Jennifer Lawrence), Ator Coadjuvante (Robert De Niro), Atriz Coadjuvante (Jacki Weaver), Roteiro Adaptado e Edição.

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.

Discografia Brasileira - Elvis Presley 1957

1957 foi um ano ridículo para os fãs brasileiros de Elvis Presley. Imagine ser fã do cantor mais famoso do mundo e não ter acesso ao que ele está lançando nos EUA. É justamente isso que aconteceu aqui no Brasil no ano de 1957. A impressão que se passa é de que a filial da RCA em nosso país simplesmente não acreditava em Elvis como potencial de vendas. Só isso justifica o fato de não ter sido lançado nenhum álbum do cantor daquele ano no Brasil. É óbvio que o Brasil era muito atrasado em tudo (continua sendo) mas é complicado entender porque os álbuns “Loving You”, “Elvis Christmas Album” e a trilha de “Jailhouse Rock” completa não chegou aos fãs da época. O único “lançamento” em álbum daquele ano foi “Elvis” que foi lançado no ano anterior nos EUA. Pelo menos a edição nacional seguiu os passos da americana. Para se ter uma idéia do atraso o “Elvis Christmas Album” só chegou no mercado nacional quatro anos depois, com outra capa.

Na realidade os fãs nacionais consumiram em 1957 o que havia sido lançado um ano antes, em 1956, nos EUA. Ao invés de colocar os últimos lançamentos nas lojas a RCA Brasil lançou vários compactos duplos do primeiro disco americano de Elvis e a trilha sonora em compacto duplo de “Love Me Tender”. Em relação a esses compactos duplos outra peculiaridade é que eles trouxeram uma seleção de músicas diferentes das edições americanas. Fora isso nada de novo. A salvação veio nos singles que foram lançados por aqui com relativa rapidez, seguindo fielmente as edições americanas – menos nas capas pois nem todos seguiram a direção de arte original. Assim foram lançados cinco compactos, todos em 78 ou 45 RPM. A maior curiosidade nesse pacote foi o single “Don´t Leave Me Now / Baby I Don´t Care”, praticamente único no mundo, sem qualquer semelhança com a discografia norte-americana. Foi a forma encontrada pela RCA daqui de disponibilizar aos fãs o restante da trilha sonora de “Jailhouse Rock” que não foi lançada de forma completa como aconteceu nos EUA  (onde ganhou bela edição com todas as canções do filme no formato EP – Compacto Duplo).  Enfim, a discografia brasileira seguia aos trancos e barrancos, com atrasos, omissões e falhas, muitas falhas. Segue abaixo a relação de todos os itens lançados no Brasil em 1957:

Álbum:
Elvis
(Rip it Up / Love me / When my blue Moon Turns to Gold Again / Paralyzed / So Glad You're Mine / Old Sheep / Ready Teddy / Anyplace is Paradise / Long Tall Sally / First in Line / How do you Think I fell / How's The World Treating You)

Compactos Simples (Singles):
Too Much / Playing for Keeps
All Shook Up / That's When Your Heartaches Begin
Teddy Bear / Loving You
Jailhouse Rock / Treat Me Nice
Don´t Leave Me Now / Baby I Don´t Care

Compactos Duplos (EPs)
Elvis Presley
(Blue Suede Shoes / I Got a Woman / One-Sided Love Affair / I'm Counting On You)
Elvis Presley
(I Got a Woman / Tutti Frutti / One-Sided Love Affair / Trying to Get You)
Elvis
(Rip It Up / Love Me / Long Tall Sally / So Glad You-re Mine)
Love Me Tender
(Love Me Tender / Let Me / Poor Boy / We´re Gonna Move)

Pablo Aluísio.

Chuck Berry - St. Louis to Liverpool (1964)

Chuck Berry - St. Louis to Liverpool (1964) - Chuck Berry ficou vários anos na prisão. Finalmente em 1963 ele ganhou a liberdade. Quando saiu da cadeia ele percebeu que os grupos de rock que mais faziam sucesso nas paradas, como Beatles e Rolling Stones, estavam gravando vários de seus antigos clássicos. Assim o interesse em sua música estava renascendo. Ao ser preso nos anos 50 uma das coisas que Berry havia dito era que jamais voltaria a gravar pela gravadora Chess, pois era, em suas próprias palavras, uma empresa comandada por um bando de ladrões.

Pois bem, ao sair da prisão, falido e sem muitas perspectivas, ele acabou cedendo às pressões e voltou para a Chess para gravar esse álbum. Ele engoliu seu orgulho pessoal para ter uma nova oportunidade na carreira. O título procurava fazer uma ponte entre o legado de Berry e as novas bandas, por isso a referência a Liverpool, a terra dos Beatles. É claro que havia ali um oportunismo barato por parte dos produtores, mas para Berry o importante era voltar à ativa, voltar a trabalhar. E como era de se esperar o resultado era genial. Em seus anos preso, Berry aproveitou para compor vários temas, muitos deles gravados aqui pela primeira vez. Um repertório fantástico, capaz de derrubar dúzias de bandinhas da moda.

Ele era realmente genial. Basta dar uma olhada na seleção para verificar que novos clássicos da geração rocker eram lançados nesse álbum como, por exemplo, "Promised Land" (que Elvis Presley regravaria alguns anos depois), "Merry Christmas Baby" (outra que Elvis aproveitaria, um autêntico blues de natal, composto na amargura de se passar uma noite de natal atrás das grades) e "Little Marie", uma espécie de continuação de "Memphis, Tennessee". Enfim, o disco era mais uma obra prima da discografia de Berry, produzido em uma época complicada de sua vida. A despeito de tudo contra, Chuck Berry mais uma vez provava que ainda era capaz de produzir rock de extrema qualidade. Ser genial é isso aí.

Chuck Berry - St. Louis to Liverpool (1964) 1. Little Marie 2. Our Little Rendezvous 3. No Particular Place to Go 4. You Two 5. Promised Land 6. You Never Can Tell 7. Go Bobby Soxer 8. Things I Used to Do 9. Liverpool Drive (instrumental) 10. Night Beat (instrumental) 11. Merry Christmas Baby 12. Brenda Lee.

Pablo Aluísio. 

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

As Palavras

Filme delicado, muito bem escrito e contando com uma ótima trama. Em tempos atuais esse tipo de produção anda bem rara de encontrar, por isso “As Palavras” se torna um programa obrigatório para os cinéfilos de fino trato. O filme abre com um escritor de sucesso, Clay Hammond (Dennis Quaid), lendo trechos de seu novo best seller para uma concorrida platéia. Conforme ele vai narrando a estória de seu romance o espectador vai acompanhando o desenrolar de tudo na tela. Nesse ponto “As Palavras” realmente se torna muito original pois há na verdade três estórias se desenvolvendo ao mesmo tempo. Confuso? Não, longe disso. Na primeira estrutura narrativa acompanhamos o escritor Clay (Quaid) lendo seu livro. Ele acaba conhecendo uma jovem leitora muito bonita e sensual e a convida para seu apartamento. Na segunda narrativa vamos acompanhando a trama de seu livro onde um jovem escritor chamado Rory Jasen (Bradley Cooper) acaba, em um ato de desespero para alcançar o sucesso, plagiando um antigo manuscrito encontrado por ele em uma velha bolsa comprada numa loja de antiguidades em Paris. Por fim, formando a terceira linha de narração, somos apresentados às memórias de um velho homem que recorda de seus tempos no exército americano no pós-guerra. Enviado a Paris ele acaba se apaixonando por uma francesa e com ela tem um inesquecível caso de amor.

Esse é um roteiro muito sutil e inteligente que vai formando um mosaico de situações que no transcorrer do filme acabam se encaixando, formando uma grande ligação entre todas as estórias. O argumento é genial, se revelando particularmente inspirado nas cenas finais quando o espectador é presenteado com um evento revelador. Afinal, o que é ficção, literatura e o que é de fato real? Dennis Quaid, como o escritor que lê seu livro ao vivo, está muito bem. Ator versátil anda em um momento bom na carreira, tanto no cinema em filmes como esse como na TV, estrelando a boa série “Vegas”, onde interpreta um xerife durão na Las Vegas da década de 1960. Bradley Cooper também surpreende em um papel sério e dramático – algo que em nada lembra suas comédias mais comerciais. Agora há de se reconhecer que quem rouba mesmo a cena completamente é o sempre excepcional Jeremy Irons. Interpretando um belo personagem chamado simplesmente de “The Old Man” ele é a alma do filme! Esse é realmente um ator excepcional. Envelhecido, contemplativo, desgastado pelo tempo, seu personagem mescla momentos de solidão, saudade, tristeza e resignação. Poucas vezes vi um personagem tão humano e rico em cena. Seu trabalho é simplesmente perfeito. No fundo “As Palavras” é uma grande homenagem aos escritores de uma forma em geral, pois todos os três elos mais importantes em sua estória são formados por pessoas que exercem justamente essa nobre arte de transformar pensamentos e idéias em palavras escritas. Mais elegante do que isso impossível.

As Palavras (The Words, EUA, 2012) Direção: Brian Klugman, Lee Sternthal / Roteiro: Brian Klugman, Lee Sternthal / Elenco: Bradley Cooper, Dennis Quaid, Jeremy Irons, Zoe Saldana / Sinopse: Três estórias narradas em diversas linhas narrativas mostram aspectos das vidas profissionais e pessoais de três escritores em épocas diferentes de suas vidas.

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.

Meu Nome é Ninguém

Não há como viver no auge da carreira para sempre, um dia mesmo os grandes atores e mitos do cinema precisam fazer grandes concessões em sua trajetória. Um caso bem exemplificativo disso é esse “Meu Nome é Ninguém”. Produção italiana cujo nome original, “Il mio nome è Nessuno”, foi traduzido ao pé da letra. O grande mito Henry Fonda, já com idade avançada, foi até a Europa para rodar esse western spaguetti ao lado de um dos mais populares atores do estilo, Terence Hill, que apesar do nome americano era na realidade italiano de nome Mario Girotti, natural da linda e histórica Veneza! Os mais jovens hoje em dia talvez não mais conheçam Terence Hill mas quem tem mais de 30 anos sabe muito bem quem foi ele. Estrelou comédias e westerns muito populares, inclusive no Brasil. Como esquecer de Trinity, personagem imortal do cinema italiano de western Spaguetti? Ao lado do companheiro e amigo Bud Spencer também rodou inúmeros filmes pastelões que fizeram a alegria da garotada nas décadas de 1960, 70 e 80. Aqui Mario interpreta um verdadeiro “genérico” de Trinity, um personagem chamado “Nessuno” ou em bom português, “Ninguém”. Pegando nuances e características dos pistoleiros sem nome interpretados por Clint Eastwood, o ator faz na verdade uma grande paródia em cima desse tipo de personagem, que era muito popular nos filmes da época.

Aqui acompanhamos a estória de Jack Beauregard (Henry Fonda), um lendário pistoleiro do velho oeste que na velhice resolve ir para a Europa em busca de paz e tranqüilidade. Chegando lá começa a ser importunado por “Ninguém” (Terence Hill), um jovem pistoleiro que idolatra o passado glorioso de Jack. Sem muita noção acaba colocando o americano em diversas situações complicadas, que vão do constrangedor ao perigo completo, ao ter que enfrentar um grupo de malfeitores, uma gangue de criminosos chamada The Wild Bunch. Apesar da sinopse esse não é um filme para ser levado muito à sério, pois como não poderia deixar de ser em produções desse tipo há também um acentuado tom cômico nas cenas. Devo confessar que ver o grande mito Henry Fonda em filmes assim não me agrada completamente. Na verdade ele só fez o filme por pedido do amigo Sergio Leone (que assina o roteiro). O interessante é que Fonda ficou doente logo no começo das filmagens na Espanha e o filme teve que ser terminado nos EUA, usando locações na Louisiana, Colorado e Novo México. Isso foi bom pois tirou um pouco daquelas ambientações mais manjadas dos westerns spaguettis. De qualquer modo o filme conseguiu virar um hit na Europa, talvez pelas forças dos nomes de Leone e Fonda. Também foi um dos últimos faroestes de Henry Fonda, pois naquela época já se sentia velho demais para o gênero. Então fica a dica desse western temporão com os mitos Fonda e Sergio Leone. Não é algo excepcional e nem uma obra prima mas pelos nomes envolvidos certamente merece ser redescoberto pelos admiradores do gênero.  


Meu Nome é Ninguém (Il mio nome è Nessuno, Itália, 1973) Direção: Tonino Valerii / Roteiro: Sergio Leone, Fulvio Morsella / Elenco: Terence Hill, Henry Fonda, Jean Martin / Sinopse: Aqui acompanhamos a estória de Jack Beauregard (Henry Fonda), um lendário pistoleiro do velho oeste que na velhice resolve ir para a Europa em busca de paz e tranqüilidade. Chegando lá começa a ser importunado por “Ninguém” (Terence Hill), um jovem pistoleiro que idolatra o passado glorioso de Jack. Sem muita noção acaba colocando o americano em diversas situações complicadas, que vão do constrangedor ao perigo completo, ao ter que enfrentar um grupo de malfeitores, uma gangue de criminosos chamada The Wild Bunch.

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.

Marilyn Monroe & Tony Curtis

Pouco antes de morrer o ator Tony Curtis foi entrevistado pelo canal E! e afirmou que em breve estaria publicando um livro de memórias intitulado “Making of Some Like It Hot” em que relataria os bastidores das filmagens do clássico de Billy Wilder “Some Like It Hot” (Quanto Mais Quente Melhor, no Brasil). Entre as revelações Curtis prometia contar toda a verdade sobre o suposto romance que teve com a estrela do filme, a atriz Marilyn Monroe e mais: Tony garantiria que Marilyn engravidou dele durante o caso amoroso ocorrido nos sets de filmagens, tudo acontecendo debaixo do nariz do marido dela na época, o escritor Arthur Miller. Será verdade? Principalmente depois de tudo o que sabemos sobre a complicada e problemática filmagem de um dos mais famosos filmes de Monroe.Todos que participaram da produção de "Quanto Mais Quente Melhor" concordam que as filmagens foram tudo, menos um mar de rosas. Na realidade o caos imperou no set. Marilyn Monroe estava simplesmente impossível durante as gravações levando todos, do diretor a equipe de apoio, à loucura. Atrasos, ataques de estrelismo, esquecimento de falas, brigas e muitas faltas marcaram a atuação de Monroe nesse filme. Certa vez Marilyn chegou ao local de filmagens tão fora de si que todos pensaram que ela iria ter um ataque ou algo parecido. As filmagens foram canceladas e mais um dia foi perdido.

O diretor Billy Wilder, sempre irônico e com um humor mordaz recordou: "Quase enlouqueci com esse filme. Marilyn me deixava horas e horas esperando por ela nos estúdios. Todos a postos, equipe e atores, tudo pronto mas nada dela aparecer. Algumas vezes Marilyn aparecia com até seis horas de atraso e quando surgia mais se assemelhava a uma morta-viva - mal conseguia falar e não sabia nenhuma de suas falas! Sabe, eu tenho uma tia que decora todas as falas, chega nos estúdios na hora certa, é extremamente pontual e profissional. Na bilheteria ela deve valer uns cinco centavos! Entende o que digo? Tivemos que engolir muitos sapos para ter Marilyn Monroe nesse filme!" Só um grande diretor do nível de Wilder para controlar e administrar tantos problemas. Ele completou: "Só consegui dormir normalmente novamente depois que o filme acabou!”

Com os demais atores a situação foi ainda mais caótica. Como não aparecia regularmente para trabalhar Marilyn logo ganhou a antipatia de seu partner em cena, Tony Curtis, que após o filme declarou publicamente que: "Beijar Marilyn era como beijar Hitler!" Em outra ocasião durante uma grande discussão com o ator, Marilyn jogou uma taça de vinho em seu rosto, causando um grande tumulto durante as filmagens. Com todo esse histórico fica realmente complicado acreditar que Marilyn teria tido um romance amoroso com Curtis, resultando ainda mais em gravidez. Infelizmente todos os demais envolvidos (como o diretor Billy Wilder e o ator Jack Lemmon) estão falecidos. A última palavra ficou realmente com Tony Curtis.

De fato ela ficou grávida durante as filmagens. O sonho de Marilyn era ser mãe mas jamais conseguia pois todas às vezes que ficava grávida não conseguia ter o filho. Ela sempre desenvolvia um tipo raro de gravidez chamada tubária, que tornava inviável o desenvolvimento normal do feto. A conseqüência era o aborto. Ao longo da vida Marilyn teve inúmeros abortos por essa razão. Nesse em particular acabou culpando o próprio filme que havia exigido muito dela em termos físicos. Anos depois apontou as correrias das cenas da praia do filme como causa pelo aborto que sofreu mas ela estava equivocada, pois jamais teria o filho, com ou sem as cenas que realizou. Outro fato chama a atenção nessa história toda: Marilyn atribuiu a paternidade de seu filho ao seu marido Arthur Miller e não a Tony Curtis, que ela inclusive não se deu bem durante as filmagens. Por isso causou estranheza a tal revelação do ator tantos anos após a morte da atriz. 

Marilyn Monroe foi sem a menor sombra de dúvidas um dos maiores mitos da história do cinema. Tinha uma vida pessoal marcada por inúmeros problemas (infância abandonada e infeliz, casamentos desfeitos, romances escandalosos, vício em medicamentos, problemas mentais, entre outros) e por isso é muito complicado nos dias de hoje determinar o que realmente aconteceu e o que são apenas estórias inventadas para faturar em cima de seu mito. Tony Curtis foi um grande nome do cinema também, tendo uma carreira vitoriosa nos anos 50 e 60. Porém com os anos 70 sua carreira no cinema estagnou e ele ficou com sérios problemas financeiros. Quando divulgou a idéia do livro era apenas uma sombra do era antes. Careca, envelhecido e rude, sua imagem em nada se assemelhava ao antigo ícone da beleza. A verdade é que as drogas destruíram com a carreira de Curtis. Ao invés de prezar por sua reputação ele afundou nelas durante 20 anos e quando tentou retornar o mundo do cinema já era outro, completamente diferente. Caiu no ostracismo. Para ganhar algum dinheiro sobrou então a venda de suas memórias, nem sempre muito dignas de confiança. Sem dúvida um triste fim para esse grande astro do passado.

Pablo Aluísio.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

O Homem da Máfia

“O Homem da Máfia” é o novo filme estrelado por Brad Pitt. Filme de gangster sem firulas, com película saturada para parecer um antigo filme policial dos anos 1970 e roteiro cru, que vai direto ao ponto. Na trama dois ladrões pé de chinelo resolvem se unir a um comerciante semi-falido para assaltar um jogo de cartas no bairro onde vivem. O problema é que eles roubam uma turma barra pesada que obviamente não fica nada contente com o roubo e resolvem partir para um acerto de contas violento e sangrento. O elenco é muito bom nessa fita rápida, eficiente e muito interessante. É o que se costuma chamar informalmente de “filme para macho” – muita porrada, tiros e assassinatos. As únicas mulheres do elenco são prostitutas sem nenhuma importância nos acontecimentos centrais. Brad Pitt surge desfilando um pomposo topete em cena, imitando a moda da época. Seu personagem Jackie Cogan é um cara durão, criado nas ruas, que acaba se tornando assassino profissional. Nada pessoal, apenas é contratado para realizar um serviço e faz, sem qualquer sentimento de culpa ou peso na consciência. Um sujeito e se chamar quando as coisas começam a sair do eixo. Especializado em realizar seus objetivos da maneira mais limpa possível ele tem a péssima idéia de chamar um velho assassino de nome Mickey (James Gandolfini) cujos anos de glória há muito passaram. Velho, gordo e bêbado já não consegue mais ser um parceiro de crime de confiança. Para piorar quando chega na cidade para realizar as mortes só mostra interesse pelas garotas de programa do local, pouco se importando com as mortes que terá que fazer. Um divórcio e uma provável prisão por porte de armas também não ajudam em nada.

O alvo de ambos inicialmente é o próprio gerente dos jogos, Markie Trattman (Ray Liotta), que já havia roubado antes os próprios jogos que gerenciava, mas conforme vão apurando o que houve chegam também nos dois bandidos drogados e sem expressão que efetuaram os roubos e no cabeça da quadrilha, um comerciante à beira da falência. A partir daí “O Homem da Máfia” logo se transforma em um banho de sangue, com miolos sendo explodidos em câmera lenta em cenas tecnicamente extremamente bem realizadas. Intercalando tudo temos os discursos dos presidentes Bush e Obama louvando a pretensa superioridade da sociedade americana, enquanto as mortes vão se sucedendo na tela. O uso desses pronunciamentos precedem as matanças e os acertos de contas, numa fina e muito bem colocada ironia que atravessa todo o desenrolar dos acontecimentos. Com a economia em frangalhos os líderes americanos ainda se apegam nas velhas ladainhas do passado. Em ótimos diálogos os personagens marginais vão colocando por terra as bobagens ditas pelos políticos. Numa das mais divertidas o personagem de Brad Pitt esclarece que “A América não é uma nação mas um negócio”, em outra destrói um dos pais da nação, Thomas Jefferson, que apesar de ter escrito na constituição americana que “todos eram iguais” tinha escravos em sua fazenda e abusava sexualmente de suas escravas, ou seja, um hipócrita de marca maior. Perfeitas as colocações, os EUA são bem isso mesmo, capitalismo selvagem do pior tipo, sem nada pessoal no meio, apenas violência e grana no comando de tudo. Nesse ponto “O Homem da Máfia”, um filme violento e irascível, tem mais a dizer que muita bobagem que já foi feita por aí louvando os chamados “Pais da América” – quem diria hein?

O Homem da Máfia (Killing Them Softly, EUA, 2012) Direção: Andrew Dominik / Roteiro: Andrew Dominik / Elenco: Brad Pitt, Ray Liotta, James Gandolfini, Scoot McNairy, Ben Mendelsohn, James Gandolfini, Vincent Curatola, Richard Jenkins, Trevor Long, Max Casella, Sam Shepard / Sinopse: Bandidos de quinta categoria resolvem assaltar uma turma barra pesada que joga cartas numa espelunca escondida da polícia gerenciada por Markie Trattman (Ray Liotta). Para acertar as contas com os ladrões pé de chinelo o grupo contrata os serviços do assassino profissional Jackie Cogan (Brad Pitt) que parte para resolver os problemas através de muita violência, sem piedade.

Pablo Aluísio e Erick Steve.

domingo, 20 de janeiro de 2013

Meninas Malvadas

Para muitas pessoas o ensino médio é uma selva. Aqui no Brasil as coisas não são tão feias como nos EUA. Lá realmente o bullying é violento e selvagem, o que talvez explique a onda de violência que assola as escolas daquele país. Ao que tudo indica o jovem americano assimila muito cedo a cultura da violência e selvageria que caracteriza aquela cultura. Tratando o assunto de uma forma menos amena a atriz, roteirista e produtora Tina Fey resolveu colocar no papel algumas das experiências que viveu durante essa fase de sua vida. Não é um retrato autobiográfico mas sim uma comédia adolescente onde ela turbinou, digamos assim, alguns eventos que vivenciou enquanto era uma simples colegial. A estória narra as aventuras do high school de Cady Heron (Lindsay Lohan). Ela passou grande parte de sua vida na África, onde seus pais desenvolviam trabalhos sociais. De volta aos EUA ela é matriculada na escola North Shore, situada numa cidadezinha do Illinois. E é justamente nessa escola que ela vai aprender o que é realmente uma vida selvagem! Claro que se trata de uma metáfora sobre o que se vivencia no colegial americano. Pelo que vemos nos noticiários nada parece ser muito exagerado mesmo. A escola americana parece ser mesmo uma selva!

Tina Fey assim brinca com as semelhanças entre o mundo selvagem e a estrutura social que impera entre os jovens que estudam no ensino médio nos EUA (por lá chamado de High School). Existe é óbvio todos aqueles rótulos que todos recebem logo quando adentram na vida colegial: os populares, os nerds, as rainhas da beleza, os freaks e por aí vai. Além disso há todo um jogo de aparências e falsas amizades que dominam todo o ambiente escolar. No caso do filme entram em choque a simples e simpática Cady (Lohan) e a popular Regina (Rachel McAdams) que pensa mandar em todas as garotas da escola, classificando todas elas de acordo com seus próprios critérios pessoais. Deu para perceber que é uma comédia adolescente com um certo ar pretensioso que beira o estudo sociológico! Mas esqueça esse aspecto, “Meninas Malvadas” apesar de não ser um filme ruim deixa muito a desejar. Longe da qualidade das comédias juvenis da década de 80, em especial aquelas assinadas por John Hughes, o filme naufraga em suas pretensões. Não se torna muito divertido e nem traz muito conteúdo. Na verdade esse projeto muito pessoal de Tina Fey apenas expõe seus defeitos como escritora e observadora das relações humanas. Se vale por alguma coisa é pela presença de Lindsay Lohan, a ruivinha bonitinha que de ídolo teen passou a ser freqüentadora de páginas policiais dos jornais americanos. Rachel McAdams também ajuda a passar o tempo. No saldo final não consegue se tornar marcante e nem um retrato fiel do mundo colegial dos EUA. “Meninas Malvadas” é no final das contas uma boa idéia que ficou pelo meio do caminho.

Meninas Malvadas (Mean Girls, EUA, 2004) Direção: Mark Waters / Roteiro: Tina Fey / Elenco: Lindsay Lohan, Tina Fey, Lizzy Caplan, Rachel McAdams, Lacey Chabert, Amanda Seyfried / Sinopse: Garota que foi criada na África selvagem acaba indo morar nos EUA com seus pais. Matriculada em uma escola de High School ela logo entenderá qual é a verdadeira selva!

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.

Herbie: Meu Fusca Turbinado

Herbie o filme original é de 1968. Comédia simples, modesta, que caiu no gosto do público da época. Não é para menos. O velho fusquinha era muito popular. Originalmente criado por Adolf Hitler que queria um carro popular que pudesse ser adquirido pelos trabalhadores alemães, o Fusca logo se tornou um ícone popular, se tornado o primeiro carro de muita gente, criando assim um vínculo emocional que lhe garantia muito carisma ao longo dos anos. O sucesso dessa primeira versão de Herbie da Disney daria origem a mais quatro filmes e finalmente uma série de TV que passou por várias temporadas. Assim quando os executivos do Mickey resolveram recriar alguns velhos produtos do estúdio pensaram logo em Herbie, que tão bem sucedido havia sido no passado. Ao invés de investir em uma animação – como havia sido inicialmente planejado – resolveram realizar um filme convencional mesmo, com atores de carne e osso. Com orçamento até generoso de 50 milhões de dólares resolveram partir para o remake do filme original, que já andava até mesmo esquecido do grande público.

Como o estúdio ainda tinha sob contrato a atriz Lindsay Lohan resolveram escalar a ruiva para viver a dona de Herbie, Maggie. É a tal coisa, hoje Lindsay está com a carreira em ruínas, principalmente por fazer muita bobagem, uma atrás da outra. E pensar que ela foi uma das mais queridas atrizes jovens dos EUA e depois resolveu afundar com tudo por causa do excesso de drogas e confusões (que inclusive a levaram à prisão em algumas ocasiões). Na trama ela encontra o fusquinha Herbie completamente detonado em um pátio de ferro velho. Ao lado do amigo Kevin (Justin Long) resolve restaurar o antigo carro o trazendo de volta à velha glória do passado. Percebendo que Herbie é veloz e rápido ela acaba se inscrevendo com o carro em uma série de competições de corrida, logo se tornando uma verdadeira campeã das pistas. Bom, já deu para perceber que Herbie é uma grande bobagem! Mais curioso ainda é saber que o primeiro filme também não era lá essas coisas. No fundo é um produto infanto-juvenil bem inofensivo, para as crianças, numa embalagem típica das produções Disney para essa faixa etária. Só não deixe seus filhos virarem fãs da Lindsay Lohan, porque a mocinha não é mais exemplo para ninguém, muito menos para seus filhos menores.
   
Herbie: Meu Fusca Turbinado (Herbie: Fully Loaded, EUA, 2005) Direção: Angela Robinson / Roteiro: Ben Garant, Thomas Lennon / Elenco: Lindsay Lohan, Matt Dillon, Michael Keaton, Mario Larraza, Scoot McNairy, Justin Long. / Sinopse: Garota resgata um velho fusquinha do ferro velho, mal sabendo que se trata de Herbie, o famoso carro campeão de corridas da década de 60.

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.    

sábado, 19 de janeiro de 2013

Garota Fantástica

Após estabilizar sua carreira como atriz e produtora, Drew Barrymore resolveu investir na direção. Esse filme “Garota Fantástica” é sua estréia como cineasta. Na estória acompanhamos Bliss Cavendar (Ellen Page) uma garota normal de 17 anos que mora no Texas. Bonita, sua família quer que ela se inscreva em um concurso de beleza na pequena cidade onde vive. Esse é o desejo, o sonho de sua mãe, mas Bliss gosta mesmo é de participar de uma modalidade esportiva chamada “Roller Derby”. Inspirada em um filme de ficção da década de 70 o esporte coloca duas equipes em uma pista de patinação oval. Juntas elas disputam a posse de uma bola, enquanto competem entre si numa corrida alucinada pelo circuito. Violento e casca grossa o esporte seria o menos indicado para uma garota como Bliss, bonitinha e transparecendo fragilidade.

“Garota Fantástica” é quase um experimento de laboratório de Drew Barrymore. De orçamento modesto a produção teve um lançamento discreto nos cinemas americanos e no Brasil foi lançado diretamente no mercado de DVD. Não é um filme imprescindível na coleção de um cinéfilo mas mantém o interesse, principalmente pela sempre interessante presença de Ellen Page, uma atriz talentosa e simpática que sempre traz algo de bom em suas atuações. Seu melhor papel até agora foi a da adolescente grávida Juno e desde então ela tem intercalado filmes menores com blockbusters Hollywoodianos. Essa aqui se encaixa na primeira categoria – filme pequeno, feito na base da amizade que nutre com Drew Barrymore, contando com um elenco de atrizes novas e esforçadas. A direção de Barrymore também não compromete, demonstrando que ela consegue dirigir um filme, desde que seja simples e modesto como esse. No saldo final vale a pena ser assistido, principalmente pelas movimentadas jogadas radicais desse estranho e bizarro esporte (que pelo que eu saiba ainda não chegou ao Brasil). Então fica a dica desse bom passatempo que vale uma espiada.

Garota Fantástica (Whip It!, EUA, 2010) Direção: Drew Barrymore / Roteiro: Shauna Cross baseado na novela de Shauna Cross / Elenco: Ellen Page, Marcia Gay Harden, Kristen Wiig, Drew Barrymore, Juliette Lewis, Jimmy Fallon, Alia Shawkat, Eve. / Sinopse: Garota jovem de 17 anos resolve participar de um novo esporte radical que combina patinação e corrida sobre patins. Cheio de adrenalina ela tentará ser parte da nova equipe campeã da modalidade.

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.

Os Caçadores da Arca Perdida

Ninguém brilhou mais no céu de Hollywood durante as décadas de 70 e 80 do que George Lucas e Steven Spielberg. Lucas criou toda uma mitologia com sua obra prima, Star Wars, e Spielberg dispensava maiores apresentações. Eram considerados gênios que tinham transformado o cinema novamente em uma grande diversão. Em seu auge criativo Spielberg, por exemplo, realmente foi insuperável por longos anos. Assim quando ambos anunciaram que iram trabalhar juntos pela primeira vez a notícia caiu como uma bomba na indústria de cinema americano. Afinal eram os dois mais populares cineastas daqueles tempos. A idéia nasceu durante as férias em que Lucas e Spielberg passaram juntos no final da década de 70. Spielberg confidenciou a Lucas que gostaria de dirigir um filme de James Bond mas que por razões contratuais provavelmente jamais o faria. Já Lucas disse que adoraria dirigir um filme com o sabor das antigas matinês, das séries que passavam nos cinemas onde o herói sempre se envolvia numa situação perigosa para só então se salvar na semana seguinte, quando a garotada voltava para conferir se ele morria ou não em no filme (claro que não morria!). Dessa fusão de desejos nasceria um dos mais populares personagens da história do cinema, um arqueólogo que viveria algumas das melhores cenas de aventuras já escritas – claro que você já sabe que estamos falando de Indiana Jones. O herói aventureiro teria de tudo um pouco. Por parte de Spielberg ele herdaria a vocação para a aventura e situações extremas de ação, tal como James Bond. Já pelo lado de Lucas, Indiana surgiria em um mundo de realismo fantástico, onde ficção e realidade se misturavam com raro brilhantismo, tal como acontecia nas produções antigas que eram exibidas nas matinês para a garotada! “Caçadores da Arca Perdida” seria o primeiro filme do personagem. A escolha do ator foi das mais complicadas. O preferido de Lucas e Spielberg era o ator Tom Selleck mas esse recusou porque estava obrigado contratualmente com a série Magnum, grande sucesso da TV americana. Sem muitas alternativas o papel acabou caindo nas mãos de Harrison Ford, na época no auge de sua popularidade, colecionando êxitos por causa de seu mais famoso personagem, o aventureiro espacial Han Solo do universo de Guerra nas Estrelas. Embora não tenha sido a primeira opção o fato é que o ator incorporou excepcionalmente bem o espírito do personagem, tal como imaginado pela dupla Lucas e Spielberg.

A trama girava em torno da luta de Indiana Jones em recuperar a famosa Arca da Aliança. Esse artefato místico e histórico foi citado no velho testamento pois tinha guardado na antiguidade os pedaços dos Dez Mandamentos dados por Deus a Móises. Dotada de poderes sobrenaturais fantásticos, a peça de valor inestimável era desejado pelos nazistas pois de posse dela, finalmente a Alemanha poderia derrotar os aliados durante a II Guerra Mundial. “Caçadores da Arca Perdida” é uma aventura perfeita que marcou muito em seu lançamento pois soube como poucos captar aquele clima de aventura dos antigos filmes. A estória era simplesmente magistral mostrando todo o talento da dupla criadora que lhe deu vida. Assim que chegou aos cinemas o filme logo se tornou um grande sucesso de bilheteria, ganhando também a aprovação dos principais críticos da época. Tanto sucesso justificou o grande número de indicações ao Oscar que recebeu, incluindo melhor flme, roteiro e direção (para Steven Spielberg) mas acabou vencendo apenas nas categorias técnicas (efeitos especiais, som, edição, direção de arte e efeitos sonoros). A Academia, sempre tão conservadora, não quis premiar a produção por causa de seu inegável espírito de aventura infanto-juvenil. Não faz mal uma vez que isso não prejudicou a perenidade que “Caçadores da Arca Perdida” possui até os dias atuais. Uma das melhores aventuras que o cinema já produziu em todos os tempos.

Os Caçadores da Arca Perdida (Raiders of the Lost Ark, EUA, 1981) Direção: Steven Spielberg / Roteiro: George Lucas, Lawrence Kasdan, Philip Kaufman / Elenco: Harrison Ford, Karen Allen, Paul Freeman, Ronald Lacey, John Davies, Denholm Elliott, Alfred Molina, Wolf Kahler, Anthony Higgins / Sinopse: “Caçadores da Arca Perdida” mostra as aventuras do arqueólogo Indiana Jones para descobrir e recuperar a famosa Arca da Aliança. Esse artefato místico e histórico foi citado no velho testamento pois havia guardado na antiguidade os pedaços dos Dez Mandamentos dados por Deus a Móises. Dotada de poderes sobrenaturais fantásticos, a peça de valor inestimável era desejado pelos nazistas pois de posse dela, finalmente a Alemanha poderia derrotar os aliados durante a II Guerra Mundial.

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.

Quanto Mais Quente Melhor

“Ninguém é Perfeito!” – a última linha de diálogo de uma das comédias mais maravilhosas já realizadas fechava com chave de ouro esse delicioso momento da carreira de Marilyn Monroe. Curiosamente a frase também poderia ser usada para se referir também a ela! Afinal Marilyn não era perfeita! Longe disso! Em “Quanto Mais Quente Melhor” ela mostrou todas as suas imperfeições. Chegava atrasada nas filmagens, não sabia suas falas, criava confusões com seus colegas de trabalho e enlouquecia Billy Wilder que já não sabia mais o que fazer com ela! Chegou a declarar a um jornalista que lhe perguntou como iam as filmagens: “É como estar dentro de um avião caindo, com uma louca entre os tripulantes!” Wilder como se percebe não era apenas um grande cineasta mas um criador de frases espirituosas!  A despeito de tudo isso o resultado final entrou para a história do cinema. Os bastidores da produção aliás são tão saborosos quanto o próprio filme. Quando o filme ficou pronto após as caóticas filmagens e Wilder conferiu o resultado pela primeira vez na sala de exibição do estúdio ele ficou simplesmente maravilhado. Era incrível mas Marilyn, a mesma que causou todos os tipos de problemas no set, era a mesma que aparecia linda e com fantástico talento cômico em cena. Monroe tinha essa qualidade mítica – ela conseguia transpor para as telas momentos raros, excepcionais, mesmo estando emocionalmente abalada, psicologicamente perturbada e fisicamente esgotada. Era um fenômeno da natureza. Se isso não é talento certamente não sei o que significa essa palavra! O próprio Wilder reconheceu isso publicamente em diversas entrevistas e numa delas disparou: “Marilyn é uma amadora profissional. Ela tem dois pés esquerdos e espero que isso nunca seja corrigido. Não quero que ela vá a uma analista para sair de lá ‘consertada’. O que faz Marilyn esse mito é justamente essa característica dela!”

Ao lado da eterna Monroe temos em “Quanto Mais Quente Melhor” dois atores igualmente excepcionais. Tony Curtis e Jack Lemmon. Curtis vinha de uma sucessão de excelentes produções que tinham se tornado grandes sucessos de bilheteria. Cria da Universal Studios ele finalmente alcançava o auge em sua carreira. Era um ator com raro timing de comediante (embora não fosse um) e conseguia como poucos interpretar o tipo mais esperto, beirando a malandragem. Como tinha ótimo visual enlouquecia o público feminino. Aqui ele esbanja carisma e química ao lado de Marilyn, isso apesar dos problemas que teve com a atriz. Infelizmente cometeu algumas grosserias com ela depois afirmando numa entrevista que “Beijar Marilyn era como beijar Hitler”! Uma frase infeliz que magoou bastante a atriz. Já Jack Lemmon foi um poço de tranqüilidade e calma mesmo nas conturbadas filmagens. Esse foi seguramente um dos melhores comediantes de todos os tempos em Hollywood. Seu humor era muito sofisticado, delicado, fino mesmo e não havia espaço para vulgaridades. Além de ótimo ator era um pianista de mão cheia que chegou inclusive a gravar alguns excelentes discos instrumentais. Um talento raro. Assim não é de se espantar que mesmo com o caos reinante na produção do filme tenhamos hoje um dos grandes clássicos do cinema americano, eleito por vários críticos como a “melhor comédia da história”. Marilyn Monroe, Tony Curtis, Jack Lemmon e Billy Wilder em um só filme não poderia resultar em outra coisa. O filme recebeu cinco indicações ao Oscar inclusive de direção (Billy Wilder) e ator (Jack Lemmon) mas só foi premiado por figurino, uma injustiça! Deveria ter sido consagrado já em sua época e não anos depois como aconteceu. Infelizmente a Academia também não era perfeita!  


Quanto Mais Quente Melhor (Some Like a Hot, EUA, 1959) Direção: Billy Wilder / Roteiro: Robert Thoeren, Michael Logan / Elenco: Marilyn Monroe, Tony Curtis, Jack Lemmon, George Raft / Sinopse: Joe e Jerry (Lemmon e Curtis) são dois músicos que casualmente acabam testemunhando um crime cometido por gangsters perigosos. Para escapar da morte resolvem fugir vestidos de mulher num grupo musical formado apenas por garotas, dentre elas a cantora loira Sugar (Marilyn Monroe) que começa a desconfiar da dupla!

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Touchback

Esse é um sensível drama que explora um aspecto que geralmente diz respeito a todos nós. O roteiro estuda aquela sensação sempre presente de que nada nos satisfaz, que poderíamos ser bem melhores, vivendo em outro lugar, com pessoas diferentes. É a eterna sensação de insatisfação que atinge muitas pessoas e as impedem de serem plenamente felizes. Na estória somos apresentados ao jovem jogador de futebol americano, Scott Murphy (Brian Presley). Ele é um atleta popular no colégio, namora a garota mais bonita e tem o que promete ser um futuro extremamente promissor pela frente até que em um jogo decisivo, no último minuto da partida, sofre um bloqueio de dois jogadores adversários e quebra sua perna em várias partes. Inutilizado para o esporte vê sua vida e seus planos ruírem. Anos depois se vê numa terrível situação financeira, sem poder sustentar sua própria família. Desesperado parte para um ato impensado. Revelar mais seria estragar as surpresas do filme.

O que torna Touchback muito especial é que ele discute os arrependimentos que levamos em nossas vidas. Ao recordar seu passado Scott tenta entender o que deu errado em sua vida. O futuro que parecia tão brilhante e cheio de vitórias se revela devastador para ele. No final aprenderá uma grande lição sobre sermos felizes com aquilo que temos. O destaque no elenco vai para Kurt Russell. Ele interpreta o treinador do jovem quaterback. Ao longo do filme ele vai passando ao jovem jogador algumas lições de vida que se revelarão bem importantes. No papel do jogador que sofre a grave lesão temos Brian Presley (nenhum parentesco com o famoso cantor). Ele não tem certamente a experiência necessária para interpretar um papel tão dramático como esse mas dentro de suas limitações até que não se sai mal. Melhor em cena está a atriz  Melanie Lynskey, que interpreta sua esposa, Macy. Bonita e charmosa acaba roubando as atenções para si. Assim fica a dica: Touchback, um filme que certamente vai fazer você refletir sobre as escolhas que fez ao longo de sua vida.

Touchback (Touchback, EUA, 2012) Direção: Don Handfield / Roteiro: Don Handfield / Elenco: Brian Presley, Kurt Russell, Melanie Lynskey,  Marc Blucas / Sinopse: Jovem jogador de futebol Americano com futuro promissory vê seus sonhos se desmoronarem após sofrer grave lesão na perna durante uma partida violenta. Sem perspectivas anos depois tentará entender o que deu errado em sua vida.

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.

E Se o Amor Acontece...

Henry McCarthy (Mark Polish) é um escritor de sucesso que resolve voltar para sua cidade natal para fazer o discurso de formatura da turma de 2009, no mesmo colégio onde estudou anos atrás. Suas memórias do tempo em que estudava no ensino médio foram usadas em seu livro de maior sucesso de vendas. Agora de volta na mesma escola ele relembra dos amigos e de uma antiga paixão, a linda e inacessível Scarlet (Winona Ryder), a garota com quem sonhava namorar quando era apenas um jovem de ensino médio. Agora ela vive de um emprego enfadonho e enfrenta um divórcio complicado com seu ex-marido, um treinador de futebol que era o valentão dos tempos em que Henry estudava na escola. Decidido a rever Scarlet, Henry toma uma decisão corajosa e entra em contato com ela. Juntos acabam jantando em um belo restaurante dando início a um relacionamento que deveria ter acontecido há pelo menos 20 anos. Esse argumento de “E Se o Amor Acontece” me lembrou muito o de um outro filme recente chamado “Jovens Adultos” com Charlize Theron. A premissa é basicamente a mesma – tempos depois um autor (no caso de “Jovens Adultos”, autora) volta para sua antiga cidade e sua escola para acertar alguns assuntos inacabados, entre eles reconquistar o amor dos tempos colegiais, que dizem ser duradouro e forte, sobrevivendo aos anos.

A diferença básica entre “E se o Amor Acontece” e “Jovens Adultos” é o fato do personagem principal aqui narrar toda a estória, com um tom de nostalgia e melancolia. Henry, o autor, é interpretado por Mark Polish, que não tem qualquer talento para comédias. O filme aliás sofre dessa estranha dualidade. Enquanto Polish se comporta como se estivesse em um drama, seus colegas são espalhafatosos e exagerados, mais parecendo que estão em alguma comédia pastelão. Sean Astin, por exemplo, interpreta o amigo gay de Polish. Muito afetado e over ele acaba irritando mais do que divertindo. Caricato além da conta. Já o restante do elenco é mais interessante. Para quem tinha saudades de Winona Ryder em um papel central aqui há uma bela oportunidade de revê-la. Ela interpreta Scarlet, a “Deusa” dos tempos de colégio, que agora ganha a vida trabalhando numa farmácia, tendo que aturar um ex-marido truculento e estúpido. Outra participação que chamará certamente a atenção dos saudosistas da década de 80 é a presença do comediante Chevy Chase, aqui fazendo o papel do diretor da escola. Sempre com um curativo do nariz ele não perdeu aquele seu jeito bobão que tanto sucesso fez em filmes como “Férias Frustradas”. O filme em momento nenhum chega a aborrecer mas também não consegue se tornar marcante. No final das contas é apenas uma estória de amor nostálgica corretamente executada. Só indicada mesmo para as mais românticas e as que sentem saudades dos tempos de colégio. Fora isso nada de muito relevante digno de nota.

E Se o Amor Acontece... (Stay Cool, EUA, 2009) Direção: Michael Polish / Roteiro: Mark Polish / Elenco: Winona Ryder, Mark Polish, Sean Astin, Hilary Duff, Chevy Chase, Jon Cryer, Josh Holloway / Sinopse: Escritor de sucesso volta para sua escola com o objetivo de fazer o discurso de formatura da nova turma de ensino médio. O problema é que seu retorno acaba despertando antigas emoções, revivendo velhas paixões do passado.

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.