terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Argo

Para entender a trama de Argo é necessária uma pequena explicação sobre o contexto histórico em que o enredo se desenvolve. Durante anos os Estados Unidos deu apoio a um líder fantoche no Irã chamado Mohammad Reza Pahlavi. Esse foi um dos mais brutais ditadores do Oriente Médio – uma região muito rica nesse tipo de déspota sanguinário. Com apoio americano o Xá Reza Pahlavi torturou, matou e executou centenas de milhares de opositores ao seu regime. Tamanha opressão criou uma consciência popular entre o povo do Irã que clamava por mudanças políticas em seu país. E ela veio sob a forma de uma revolução de conteúdo religioso liderada pelo carismático e popular líder islâmico Iatolá Komeini. Assim que esse tomou o poder o antigo ditador Pahlavi fugiu para os EUA em busca de asilo político. O povo revoltado então resolveu invadir a embaixada americana no Irã, fazendo todos os seus funcionários como refém até que os americanos lhe entregassem de volta o antigo ditador. Seis desses funcionários conseguiram fugir antes da tomada da embaixada e encontraram refúgio na casa do embaixador canadense na capital Iraniana. É justamente aqui que começa a trama de “Argo”, quando a CIA resolve resgatar esses diplomatas. Mas como fazer isso dentro de um clima tão instável como aquele?

Nesse ponto surge o plano do agente Tony Mendez (Ben Affleck), A CIA tinha consciência que agentes deveriam entrar no Irã para resgatar essas pessoas mas sem conflito. Deveria ser realmente um serviço limpo, sem mortes, de inteligência. Após vários planos que logo se mostravam falhos, Mendez sugeriu um no mínimo ousado e inusitado. Entrar no Irã disfarçados como membros de uma equipe de cinema. Assim eles estariam no país em busca de locações para as filmagens de uma ficção científica típica da década de 70 chamada “Argo”. Para parecer real a CIA realmente teria que armar toda uma encenação ainda nos EUA usando a imprensa para divulgar “Argo”. Dessa forma não levantariam suspeitas de que tudo não passava de um plano de resgate da agência. Um roteiro vagabundo foi adquirido, atores contratados e até mesmo uma conferência de imprensa montada. No comando dessa operação apenas Mendez (Affleck), um especialista em maquiagem chamado John Chambers (John Goodman) e um produtor veterano, Lester Siegel (Alan Arkin) sabiam da verdade, da realidade dos fatos. Embora o enredo pareça muito fantasioso o fato é que tudo aconteceu mesmo de verdade, foi uma história real. Essa operação muito criativa só foi reconhecida pela CIA muitos anos depois. Inclusive nos créditos finais surge a narração do próprio presidente americano da época, Jimmy Carter, explicando os eventos e agradecendo ao verdadeiro agente Tony Mendez pelo seu trabalho.

“Argo” é o segundo candidato ao Oscar de Melhor filme desse ano cujo enredo gira em torno de uma operação secreta da CIA. O primeiro foi o polêmico “A Hora Mais Escura”. Ambos tem semelhanças entre si, pelo próprio contexto em que se passa a estória mas “Argo” se mostra superior em vários aspectos. Curiosamente o ator Kyle Chandler está em ambos os filmes fazendo o mesmo tipo de personagem, um diretor da agência de inteligência americana. Aqui em “Argo” outro destaque do elenco é o excelente ator da série “Breaking Bad”, Bryan Cranston. Quem acompanhou a série sabe de seu inegável talento. Aqui seu personagem não é muito presente em cena mas se destaca por estar no centro de controle da operação em Washington. “Argo” é um projeto pessoal de Ben Affleck. Durante anos ele foi considerado apenas mais um canastrão em Hollywood mas depois que passou a dirigir filmes foi surpreendendo cada vez mais. Certamente o talento que lhe falta como intérprete foi compensado pela sua habilidade em dirigir bem. Recentemente inclusive levou o Globo de Ouro de melhor direção justamente por esse filme. Além disso a produção foi agraciada pelo mesmo prêmio como melhor filme (Drama) do ano. Será que desbancará “Lincoln” na noite do Oscar, levando a mais cobiçada estatueta do cinema? Há grandes possibilidades disso realmente acontecer. “Argo” certamente poderá sair consagrado na noite de premiação da Academia. Só nos restar esperar.

Argo (Argo, EUA, 2012) Direção: Ben Affleck / Roteiro: Chris Terrio / Elenco: Ben Affleck, Bryan Cranston, John Goodman,  Kyle Chandler,  Alan Arkin,  Victor Garber / Sinopse: Um agente da CIA elabora um plano ousado para resgatar um pequeno grupo de diplomatas americanos que precisam sair do Irã o mais rapidamente possível. Ele se disfarça de produtor de cinema, fingindo estar procurando locações para seu novo filme de ficção chamado “Argo”, para assim retirar os americanos do país. Vencedor do SAG Award de Melhor Elenco.

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

A Hora Mais Escura

Recentemente comentei aqui no blog o livro “Não Há Dia Fácil”, escrito por um dos membros da equipe especial SEAL das forças militares americanas que foi ao Paquistão e lá matou o terrorista Osama Bin Laden. “A Hora Mais Escura” conta a mesma história só que bem mais detalhada e sob o ponto de vista de uma agente da CIA que participou de toda a operação que foi criada para capturar e matar o líder da Al-Qaeda. “Zero Dark Thirty” foi indicado a vários Oscars, inclusive o de melhor filme mas tem sido alvo de polêmicas os EUA. Isso porque grande parte do começo da produção se concentra em mostrar os métodos de tortura da CIA para a obtenção de informações dos terroristas presos. Nesse campo os agentes norte-americanos não ficam em nada a dever aos torturadores de porão dos regimes de ditadura das chamadas repúblicas bananeiras (como alguns ianques se referem aos países latino-americanos abaixo da linha do Equador). Assim como aconteceu com Brasil, Argentina e Chile no auge de suas ditaduras militares, as prisões controladas pelo governo americano usaram e abusaram de métodos de tortura para se chegar ao mais famoso terrorista da história. Para alguns analistas o filme de certa forma louvaria esses métodos, mostrando, mesmo que indiretamente, sua eficácia – até porque foi assim que se conseguiu chegar até a casa de Bin Laden no Paquistão.

Estaria a diretora Kathryn Bigelow (a mesma de “Guerra ao Terror” e ex-esposa de James Cameron) dando aval a esse tipo de prática? Sinceramente não consegui ver dessa forma. Na realidade o filme adota uma postura neutra em relação a isso, nem condenando abertamente e nem avalizando esse tipo de prática. O roteiro na verdade apenas mostra o que aconteceu e tenta não passar nenhum juízo de valor sobre isso. Talvez essa falta de condenação com o que ocorre na tela tenha sido o fator que incomodou tanto. A verdade pura e simples é que após 11 de setembro de 2001 a pressa e o desespero de se colocar as garras em Bin Laden passaram a ser justificativas para várias práticas ilegais e criminosas. A pressão da opinião pública fez com que o governo dos EUA partisse para o vale tudo. Nisso se jogou pela janela anos e anos de tradição liberal e de defesa dos direitos individuais das leis e da constituição daquele país. A impressão que passa é que no calor dos acontecimentos simplesmente se ignorou vários fundamentos que formam os ideais mais caros da democracia americana. Para se ter uma idéia todos os presos acusados de terrorismo sequer tiveram direito a julgamentos judiciais. Devido processo legal, contraditório, direito de defesa e vários outros preceitos foram totalmente desprezados. A única “lei” que imperou nessa busca foi a da tortura e da violência sem freios.

O filme adota um tom quase documental. Os personagens são membros da CIA com um único objetivo. Curiosamente o filme mostra dois aspectos bem interessantes: o primeiro mostra bem que a CIA não colocou as mãos em Bin Laden antes, não por falta de informações, mas por excesso delas – no meio de tantos dados ficou realmente complicado entender bem a organização que Bin Laden liderava e quais eram as ligações que poderiam levar até ele. Também mostra que mesmo os mais ferrenhos defensores do terrorismo sucumbiam à força do suborno, do dinheiro vivo. Numa das cenas mais emblemáticas, um membro da CIA consegue uma informação preciosa simplesmente jogando um carro de alto luxo nas mãos do informante. No final das contas a cena que melhor resume “A Hora Mais Escura” é aquela quando o presidente Obama surge na TV negando com veemência que haja tortura promovida contra prisioneiros em Guantanamo. Ao ver aquilo uma agente da CIA dá um sorrisinho irônico, obviamente pensando consigo mesmo sobre a lorota presidencial. “A Hora Mais Escura” é um bom espelho para que os americanos se vejam como realmente são. Talvez por isso tenha sido tão polêmico pois nem sempre se olhar no espelho é uma atitude confortável ou agradável, principalmente para quem viola as leis de seu próprio país.

A Hora Mais Escura (Zero Dark Thirty, EUA, 2012) Direção: Kathryn Bigelow / Roteiro: Mark Boal / Elenco: Jessica Chastain, Kyle Chandler, James Gandolfini, Ricky Sekhon, Joel Edgerton, Scott Adkins, Mark Strong, Jennifer Ehle, Chris Pratt, Taylor Kinney / Sinopse: Agente da CIA começa a participar das investigações que tentam encontrar o paradeiro do terrorista Osama Bin Laden. Usando de métodos de tortura a agência tenta colocar as mãos no líder da Al-Qaeda. Indicado aos Oscars de Melhor Filme, Atriz (Jessica Chastain), Roteiro Original, Edição e Edição de Som. Vencedor do Globo de Ouro de Melhor Atriz na categoria Drama para Jessica Chastain.

Pablo Aluísio e Júlio Abreu. 

Queen - Live Aid

Queen - Live Aid
Quando o Queen aceitou o convite para tocar no Live Aid todos ficaram surpresos. O grupo não lançava um disco há muito tempo e os boatos que circulavam eram de que a banda iria se separar em breve. O próprio Freddie Mercury não vinha bem de saúde, com a voz prejudicada por algumas infecções que tinha sofrido nos últimos meses. Mesmo com tantas coisas contra a apresentação, a banda aceitou o convite e a razão foi explicada depois pelo cantor Freddie Mercury.

Durante uma entrevista para um jornalista americano ele disse: "Eu fui criado e educado em uma colégio inglês na Índia. Havia dois mundos bem diferentes. A dos ricos, onde tudo havia em excesso e a dos pobres, onde faltava tudo. Isso me criou uma consciência social que nunca me deixou!" Amigos próximos depois diriam que Mercury sentia-se muito culpado por causa de sua riqueza em um mundo onde muitos não tinham nem o que comer. Tão ressentido ficava com a situação de pobreza extrema em certos lugares que Freddie Mercury não conseguia sequer assistir a um documentário sobre pessoas famintas e crianças morrendo de fome na África.

Ele não suportava aquilo, simplesmente se levantava e desligava a TV. Era demais para sua sensibilidade suportar. Assim quando surgiu a ideia do Live Aid, Freddie Mercury decidiu que o Queen iria participar apesar de todos os problemas. Não importava que Brian May e Roger Taylor quase não se falavam mais, não importava as brigas internas, nada importava. O Queen era seu grupo musical e Mercury fazia questão que ele se apresentasse. Durante o dia em que o grupo iria subir ao palco Freddie deixou todos surpresos por andar no meio do público, interagindo com as pessoas e os fãs. Enquanto os demais membros do Queen ficavam trancados em suas suítes no hotel, Mercury resolveu interagir com as pessoas que estavam no festival. Ele tomou lanches nas barraquinhas, conversou com jornalistas, foi uma pessoa completamente humilde e acessível. Nada parecido com a fama de diva que alguns diziam ter. O resultado de tanto boa vontade se materializou no palco pois até hoje os críticos concordam que o concerto do Queen foi o melhor de todo o festival.

Pablo Aluísio. 

domingo, 27 de janeiro de 2013

Johnny & June

Johnny Cash (1932 - 2003) foi um artista diferente. Ele surgiu na mesma geração de grandes cantores descobertos por Sam Phillips na pequenina Sun Records em Memphis. Dessa gravadora despontou toda uma geração inovadora e revolucionária na música americana, grandes nomes como Elvis Presley, Jerry Lee Lewis e Carl Perkins, tiveram sua primeira grande oportunidade lá. O que diferenciava Cash de todos esses outros intérpretes era o teor de suas músicas e o acentuado lirismo country que as embalava. Cash tinha um universo muito pessoal, suas canções geralmente retratavam a vida dos que estavam à margem da sociedade, como os presidiários, os pobres e os sofridos. Essa sua preferência pelo lado mais outsider da sociedade americana legou a ele um público muito fiel e devoto. A carreira de Cash também foi muito produtiva pois ele sempre estava gravando discos, fazendo shows, programas de TV e até cinema, era um verdadeiro workaholic em sua profissão. Transpor uma vida tão rica assim para um único filme não seria nada fácil. Por isso os produtores de “Johnny & June” optaram, de forma muito acertada, em focar o roteiro e o filme em cima do conturbado relacionamento de Johnny Cash com June Carter, também uma cantora que fazia parte de uma extensa linha familiar de artistas Country and Western.

O resultado do que se vê na tela é muito bom, beirando o excepcional. Joaquin Phoenix no papel principal conseguiu passar muito da personalidade de Cash. Ele tinha essa sensação de nunca se enquadrar, de nunca se sentir plenamente aceito. Phoenix inegavelmente deu muito brilho ao seu papel de Johnny Cash. Até mesmo pequenos detalhes, como maneirismos do cantor e a forma como ele segurava e tocava seu violão, o ator levou para seu trabalho no filme Já Reese Witherspoon também está muito satisfatória no papel de June Carter, muito embora ainda ache que seu Oscar de Melhor Atriz foi um pouco excessivo. Certamente ela está bem mas não a ponto de receber uma premiação tão importante. Provavelmente tenha sido premiada mais pela relevância de seu nome dentro da indústria do que pela atuação em si. Embora seja uma obra tecnicamente muito bem realizada o filme só desliza um pouco quando mostra Cash enfrentando problemas com drogas. Nesse ponto o filme perde muito de seu charme, se tornando um tanto quanto maniqueísta e forçado. Fora isso nada a reclamar. A trilha está recheada das imortais canções do homem de preto e conta ainda com cenas de shows muito bem realizadas. Após seu lançamento "Johnny & June" foi premiado com o Globo de Ouro de Melhor Filme na categoria Comédia / Musical. Um prêmio, esse sim, bem merecido.

Johnny & June (Walk the Line, EUA, 2005) Direção: James Mangold / Roteiro: Gill Dennis, James Mangold / Elenco: Joaquin Phoenix, Reese Witherspoon, Ginnifer Goodwin, Robert Patrick, Shelby Lynne, Dan Beene, Larry Bagby, Lucas Till, Ridge Canipe, Hailey Anne Nelson./ Sinopse: Cinebiografia do cantor e compositor Johnny Cash (Joaquim Phoenix) mostrando seu conturbado relacionamento amoroso com June Carter (Reese Witherspoon).

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.

sábado, 26 de janeiro de 2013

Lincoln

“Lincoln” é um belo filme. Não há outra conclusão. Steven Spielberg se supera e entrega um filme digno do grande político americano que entrou para a história por dois fatores essenciais: a abolição da escravidão e a vitória na Guerra Civil. Esses foram os pilares que fizeram de Abraham Lincoln (1809 – 1865) um dos maiores presidentes da história dos EUA. O filme começa com Lincoln conversando de modo bastante informal com dois jovens soldados negros da União em um acampamento lamacento. Já aqui podemos perceber a grandiosidade do trabalho de Daniel Day-Lewis. Ele literalmente incorpora o modo de agir, falar e pensar do político. Lincoln era um homem de fala suave, contemplativa, um sujeito que saiu da mais extrema pobreza para o cargo mais importante de sua nação. Era um intelectual que se fez praticamente sozinho, que se educou, foi em busca de conhecimento e se tornou advogado. Seu pai era um homem rústico do campo que não tinha educação formal. Lincoln foi atrás de cultura. Aprendeu a ler sem ir à escola e lendo um livro aqui e outro acolá foi trilhando o caminho da instrução. Um homem assim se conhece bastante pelo modo de ser, de se comportar. A postura contida, conciliadora foi captada com raro brilhantismo por Day-Lewis. Sua transformação é impressionante. Lincoln tinha traços fortes, que hoje soam tão bem conhecidas por todos. Day-Lewis não é fisicamente parecido com ele mas com sua inspirada atuação conseguiu absorver todos esses  aspectos. É realmente um trabalho impressionante que merece todos os prêmios e reconhecimentos.

Infelizmente o filme se foca apenas em um período específico da trajetória do Presidente, quando ele tentava de todas as formas aprovar a décima terceira emenda da Constituição americana. Seu teor era abolir qualquer forma de escravidão ou servidão involuntária dentro do solo norte-americano. O curioso aqui é ver o lado mais humano de Lincoln quando ele torna concreta a frase “Os fins justificam os meios”. Sem o número de deputados necessários ele se utiliza de todos os meios possíveis para passar a emenda, libertando assim milhões de seres humanos da escravidão racial. Há todo um jogo de bastidores, com troca de favores e cargos públicos para se chegar aos votos necessários. Se lá nos EUA isso ainda é motivo de espanto aqui no Brasil é coisa comum, corriqueira, da ordem do dia. De qualquer modo o momento chave é quando ele decide promover a abolição, mesmo com todas as pressões em sentido contrário. Essa foi uma decisão baseada em seus valores morais e de caráter e o filme mostra muito bem isso, expondo a personalidade de Lincoln de forma magistral. O Jogo político que se trava no congresso vai ser especialmente apreciado por estudantes de direito e ciência política pois mostra sem rodeios os mecanismos nada sutis que fazem nascer as leis de uma nação. Muitos reclamaram desse aspecto do filme, por acharem que isso o torna chato e arrastado, mas esse tipo de argumento é um absurdo pois o protagonista era um político e seria impossível fazer um filme sem adentrar nesse tipo de relação entre o parlamento e o presidente.

A produção e a reconstituição de época são, como não poderiam deixar de ser, perfeitas. O presidente surge em cena não apenas como o grande homem da história mas também como um ser humano normal, preocupado com o destino de seus filhos, enfrentando problemas de relacionamento com sua esposa e muitas vezes em grande dilema pessoal em suas decisões. Esse lado desmistificador é o grande achado do roteiro, pois humaniza o personagem histórico, que apesar de sua grandiosidade, se aproxima assim do espectador, que se identifica com ele, com seus pequenos dramas domésticos que acabam se misturando com os assuntos de Estado. Nunca esse presidente esteve tão humano como agora. O elenco de apoio é excepcional com destaque para Tommy Lee Jones, econômico e como sempre eficiente em suas atuações. Se há algo a se criticar em tudo o que vemos em Lincoln talvez seja apenas o fraco enfoque do assassinato do líder da nação. Tudo soa apenas sugerido e não mostrado. O diretor não mostra o momento em que é baleado e nem os acontecimentos que o levaram a tão trágico destino. Provavelmente Spielberg tenha tomado essa decisão para não macular o mito. Não faz mal pois não há nenhum grande problema nisso. O diretor realmente está de parabéns por essa obra excepcional. Um filme à altura do grande homem que foi Abraham Lincoln.

Lincoln (Lincoln, EUA, 2012) Direção: Steven Spielberg / Roteiro: Tony Kushner, John Logan, Paul Webb, baseados na obra “Team of Rivals” de Doris Kearns Goodwin / Elenco: Daniel Day-Lewis, Tommy Lee Jones, Joseph Gordon-Levitt, Sally Field, James Spader, Lee Pace / Sinopse: Abraham Lincoln, Presidente dos Estados Unidos, enfrenta duas questões cruciais em seu governo: aprovar a emenda à constituição americana que libertará os escravos negros da nação e vencer a Guerra Civil contra os Estados do Sul que formam a Confederação. Além de lidar com esses temas nacionais ainda terá que contornar os problemas domésticos de sua família pois sua esposa não aceita que seu filho mais velho vá a guerra, embora ele deseje ardentemente isso. Vencedor do Globo de Ouro de Melhor Ator para Daniel Day-Lewis. Indicado aos Oscar de Melhor Filme, Atriz Coadjuvante (Sally Field), Ator Coadjuvante (Tommy Lee Jones), Ator (Daniel Day-Lewis), Direção (Steven Spielberg), Fotografia, Figurino, Edição, Trilha Sonora, Efeitos Sonoros, Roteiro Adaptado e Direção de Arte.

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.

Pink Floyd – The Final Cut

Algumas bandas de rock não conseguiram sobreviver a certos discos. O Pink Floyd, por exemplo, saiu destruído de “The Final Cut”, a mais louca egotrip da vida de Roger Waters. Essa história na realidade começa com o álbum anterior da banda, o famoso “The Wall”. Nesse projeto Roger Waters já tinha dominado completamente o poder dentro do grupo. Ele fazia as composições, os arranjos e se enfurecia com qualquer sugestão que não fosse de seu agrado. Por essa época ele passou a hostilizar abertamente o tecladista Richard Wright, que enfrentava problemas pessoais e de saúde. Sua dependência química o impedia de ser um membro mais produtivo e assim Waters se viu no direito de literalmente o expulsar do grupo, embora ele fosse um dos fundadores do Pink Floyd. Mesmo com tantos problemas “The Wall” se tornou um enorme sucesso popular, louvado e reverenciado pela crítica especializada trazendo assim um  enorme poder a Waters dentro do grupo, que a partir daí não poderia mais ser contestado. Os executivos da gravadora só tinham ouvidos a ele e assim o músico começou a se sentir o verdadeiro “dono” do Pink Floyd. Quando começaram as sessões de “The Final Cut” os demais membros restantes do Floyd encontraram um Roger Waters ainda mais alucinado, egocêntrico, centralizador, agindo como um verdadeiro ditador, nem um pouco disposto a ouvir os demais integrantes. Assim como havia feito em “The Wall” ele começou a destratar na frente de todos o guitarrista David Gilmour e o baterista Nick Mason. Sua opinião sobre a forma como as músicas deveriam ser gravadas tinham ganhado status de lei dentro do estúdio. As brigas eram enormes e violentas e Waters não queria ouvir mais ninguém. Ele trouxe todo o repertório do disco já previamente composto, avisou aos demais membros que iria cantar todas as músicas e teria a direção musical completa do novo álbum. Aos demais só restava seguir suas instruções ao pé da letra. Obviamente que Mason e Gilmour se uniram contra tamanha dominação. Não adiantou muito.

“The Final Cut” foi gravado praticamente como um disco solo de Roger Waters. Aproveitando algumas canções do “The Wall” que tinham sido arquivadas com material novo que ele compôs, Waters criou uma homenagem ao seu pai que havia morrido durante a II Guerra Mundial. A própria capa era significativa nesse ponto, reproduzindo as medalhas que seu pai havia recebido por bravura no campo de batalha. Tratando os demais membros do Floyd como seus meros empregadinhos, Waters teve mais uma vez a certeza que estava gravando outra obra prima suprema do rock progressivo inglês. Estava enganado. O disco se mostrou desastroso, considerado um dos piores do grupo em muitos anos. O vocal de Waters surgia mais insuportável do que nunca e como ele havia colocado Gilmour para escanteio o resultado final em termos de instrumentação e arranjos soavam ridículos. Desesperado pela péssima reação de público e crítica, Waters surpreendeu a todos com o anúncio do fim do Pink Floyd! A declaração era um absurdo pois Wright, Gilmour e Mason jamais tinham sido consultados sobre isso! O que se seguiu foi a implosão do Pink Floyd. Gilmour, Mason e Wright de um lado e Waters do outro. Eles foram à imprensa para informar que o grupo seguia em frente, agora sem Roger Waters. Como não poderia deixar de ser tudo foi parar nos tribunais com todos processando a todos. Seria o fim da maior banda de rock progressivo da história? Felizmente não. Os três integrantes unidos venceram Waters no processo em que se discutia a propriedade do nome Pink Floyd. Apesar de Waters pensar que era o proprietário e dono da marca a justiça decidiu que ela pertenceria na verdade aos três remanescentes membros do conjunto. Ainda bem, pois começava ali uma nova fase, mais democrática e mais igualitária, com David Gilmour como líder. Sim, Roger Waters tentou destruir a banda com “The Final Cut” mas eles conseguiram sobreviver, mais uma vez.

Pink Floyd - The Final Cut (1983)
The Post War Dream
Your Possible Pasts
One of the Few
The Hero's Return
The Gunner's Dream
Paranoid Eyes
Get Your Filthy Hands Off My Desert
The Fletcher Memorial Home
Southampton Dock
The Final Cut
Not Now John
Two Suns in the Sunset

Pablo Aluísio e Erick Steve.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Proposta Indecente

Responda rápido sem pensar muito: você aceitaria que sua mulher passasse uma noite de amor ardente com um milionário bonitão com a cara do Robert Redford? Não, nem pensar? E se ele oferecesse um milhão de dólares pela noite? Você recusaria ou não? Seja sincero! São essas as perguntas feitas pelo argumento do filme “Proposta Indecente”, um dos grandes sucessos do cinema na década de 1990. O tema virou assunto de bate papo, ponto de discórdia e até mesmo piada de salão. Afinal não tardou a aparecer aqueles engraçadinhos afirmando que por um milhão de dólares não cederia a esposa pois ela na realidade valia muito menos do que isso! Deixando as piadinhas infames de lado esse filme “Proposta Indecente” forma ao lado de “Assédio Sexual” um tipo de produção que acabou se tornando recorrente naqueles anos, a dos filmes baseados em pura polêmica. A fórmula era até simples: os roteiristas pensavam em um tema polêmico e escreviam uma estória e um enredo em torno dele. Durante certo tempo a aposta deu muito certa até porque a própria polêmica ajudava a vender o filme pois era um tipo de propaganda boca a boca grátis. Afinal a pergunta ficou no ar por vários meses – quem afinal deixaria a mulher ter uma noite de amor com outro homem por uma quantia irrecusável?

Para segurar um tema desses e não cair no ridículo a atriz que faria o papel da esposa tinha que realmente ser uma beldade que valesse tanto dinheiro. Demi Moore foi a escolhida. Ainda jovem e bonita e com aquela voz rouca e sensual ela virava a cabeça de Robert Redford, que em um acesso de desejo lançava a proposta de um milhão de dólares para o maridão deixar ele se deitar com sua esposa por uma noite apenas. Já Woody Harrelson faz o sujeito que teria que aceitar ou não a traição remunerada. Para piorar seu personagem era uma pessoa que não conseguia acertar na vida e estava passando por sérias dificuldades financeiras. Pelo visto já deu para perceber que os roteiristas amarraram todas as pontas para piorar ainda mais a situação do pobre rapaz. O estúdio sabia que tinha em mãos um filme que além de polêmico tinha que ser muito sensual. Para isso contrataram Adrian Lyne de “Nove Semanas e Meia de Amor”. Ele deu um visual suave às cenas, com muitas cores sensuais pelo cenário. Tudo soava como paixão e luxúria. Demi Moore foi particularmente privilegiada pelas lentes de Lyne que usando de uma luz ideal para o tom de pele da atriz, conseguiu valorizar toda a sua sensualidade. Tirando a polêmica de lado e se concentrando apenas em seus méritos cinematográficos, “Proposta Indecente” se mostra apenas mediano. Esse tipo de argumento que fica girando apenas em torno de uma questão acaba ficando saturado no desenrolar da estória. Tudo acaba se resumindo em aceitar ou não a milionária proposta. Mesmo assim o filme não deixa de ser ainda hoje curioso. A pergunta não deixa de ser intrigante, mesmo atualmente. E aí você deixaria sua mulher nos braços de um outro homem apenas por uma noite, por um valor, esse sim, indecente?

Proposta Indecente (Indecent Proposal, EUA, 1993) Direção: Adrian Lyne / Roteiro: Jack Engelhard, Amy Holden Jones / Elenco: Robert Redford, Demi Moore, Woody Harrelson, Seymour Cassel, Oliver Platt, Billy Bob Thornton / Sinopse: Milionário maduro e enxuto (Robert Redford) fica encantado por uma jovem esposa (Demi Moore) de um pobre sujeito (Woody Harrelson) que não consegue acertar na vida e está com sérias dificuldades financeiras. Em um acesso de desejo incontido o ricaço resolve fazer uma proposta indecente, oferecendo um milhão de dólares para dormir com a esposa do pobretão por apenas uma noite. Será que a traição realmente não tem preço?

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

O Voo

Denzel Washington tem uma regularidade impressionante em sua carreira. Enquanto outros atores derrapam mais cedo ou mais tarde, geralmente fazendo filmes ruins em busca de fartas bilheterias, Denzel segue em sua linha, sem fazer concessões de nenhum tipo. Esse tipo de postura acaba se revertendo em uma seqüência de bons filmes. De fato ver o nome no cartaz de Denzel Washington já virou um motivo para se comprar o ingresso de cinema sem receio de ir ver um produto medíocre. É um padrão de qualidade que nunca decai. Esse seu novo filme “Flight” segue pelo mesmo caminho. O enredo conta a estória de Whip Whitaker (Denzel Washington), um excelente e experiente piloto de aviação comercial que após uma noite de bebedeiras, drogas e sexo com uma aeromoça de sua tripulação segue para mais uma viagem rumo a Atlanta. O problema é que dessa vez ele não consegue se recuperar completamente da noite de farras e chega bêbado na aeronave. Para piorar antes de sair de seu quarto resolve se encher de cocaína, cheirando várias carreiras de pó em sequência. Completamente “alto” ele tenta levar seu avião em frente mas uma pane mecânica joga a situação no caos completo. Sem alternativas resolve fazer um pouso de emergência que trará sérias conseqüências para todos, inclusive para ele próprio.

Como se pode perceber o tema central do filme é o alcoolismo e o vício em drogas do protagonista. Ele não consegue parar de beber e se drogas, sempre chamando seu traficante a qualquer hora (personagem interpretado por John Goodman com aquele humor que lhe é peculiar). Por isso o órgão responsável pelo controle aéreo nos EUA começa uma série de investigações que o levará ao banco dos réus. Afinal qual foi a causa do acidente do avião que ele pilotava? Um defeito da própria aeronave ou o fato do piloto estar completamente embriagado e drogado? A trama a partir de então girará justamente em torno dessa questão. Denzel Washington está novamente muito bem em seu personagem. Sua caracterização nunca cai na caricatura ou no ridículo e ele sai ileso do filme. Por esse excelente desempenho ele foi inclusive indicado ao Oscar de Melhor Ator. Seu personagem é aquele tipo de sujeito que ainda está em fase de negação completa e não aceita que os outros imponham limites aos seus excessos envolvendo drogas e bebidas. É curioso que um drama assim sobre alcoolismo seja dirigido pelo cineasta Robert Zemeckis, uma vez que sua especialidade sempre foram os filmes de ficção para adolescentes como a franquia “De Volta Para o Futuro”. Apesar de não ser bem sua praia ele até que não se sai mal, muito embora a conclusão do filme possa vir a incomodar alguns pela falta de veracidade (sim, ter ética hoje em dia virou sinônimo de atitude pouco plausível, para espanto de todos nós). No saldo final “The Flight” mantém o bom nível dos filmes estrelados por Denzel Washington, um ator que ao contrário de seu personagem nesse filme, nunca falha!

O Voo (Flight, EUA, 2012) Direção: Robert Zemeckis / Roteiro: John Gatins / Elenco: Denzel Washington, James Badge Dale, Don Cheadle, John Goodman, Kelly Reilly, Bruce Greenwood, Melissa Leo / Sinopse: Depois de uma noite de bebedeiras, sexo e drogas um piloto comercial tenta pilotar um avião rumo a Atlanta, mesmo estando completamente embriagado e drogado. Indicado ao Oscar de Melhor Ator (Denzel Washington) e Melhor Roteiro Original.

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

O Lado Bom da Vida

Alguns filmes são bem cativantes. O roteiro procura se apoiar em personagens carismáticos para assim conquistar o espectador. “O Lado Bom da Vida” segue bem por esse caminho. Embora já tenha sido classificado como uma comédia romântica a produção é bem mais do que isso. Seria limitar demais suas qualidades ao se enquadrar apenas nesse gênero cinematográfico, isso apesar de todo o argumento ser realmente construído em torno de um romance improvável. O casal do filme é dos mais incomuns. Ele é Pat Solatano (Bradley Cooper), um bom sujeito, que simplesmente enlouqueceu após pegar sua jovem esposa no flagra, transando com um velho professor de história no banheiro de sua casa. Para piorar o que já era ruim no momento em que estava com seu amante sua esposa ouvia justamente a música de seu casamento. Após ser internado por longos meses por ter sido diagnosticado como bipolar ele retorna finalmente para a casa dos pais. A idéia é recomeçar a vida sob uma nova perspectiva. Ela é Tiffany (Jennifer Lawrence), jovem viúva que também perde a razão após o falecimento de seu jovem marido. Perdida, sem rumo, ela também volta a morar com seus pais e tenta um recomeço. Procurando por uma válvula de escapa acaba se entregando a uma sucessão de amantes anônimos. O sexo casual porém não ameniza sua dor interna, só a piora. Ambos parecem ter suas vidas destruídas, tomam remédios controlados e sofrem de transtornos psicológicos. Tanta identificação acaba os aproximando.

O filme começa muito bem, principalmente após se conhecerem. Pat (Cooper) e Tiffany (Lawrence) são igualmente esquisitos, estranhos e fora do comum. O começo de seu romance como não poderia deixar de ser foge completamente dos padrões. Essa parte inicial de aproximação se torna a melhor coisa do filme. Porém não há como negar que o filme perde um pouco o pique após dois terços de sua duração. O que era sutil e romântico aos poucos vai perdendo espaço para uma competição de dança ao estilo daqueles programas de TV que fazem sucesso nos EUA. Pat e Tiffany se inscrevem nesse concurso e o pai de Pat, um viciado em apostas interpretado por Robert DeNiro,  transforma a competição em mais uma de suas roletas da sorte. De qualquer modo mesmo perdendo um pouco de seu interesse nessa parte, o filme ainda se mantém bom por causa da excelente dupla central de protagonistas. Já tecemos vários elogios a Jennifer Lawrence. A garota já chamava atenção desde “O Inverno da Alma” e de lá para cá só disponibilizou boas atuações. Da geração jovem ela é seguramente uma das melhores profissionais surgidas nesses últimos anos. Aqui ela mostra todo o seu talento dramático, fazendo uma personagem difícil, que vive no limite que separa sanidade de loucura. Mesmo assim ainda dança graciosamente e mostra timing para o humor por causa das maluquices de Tiffany. Provavelmente esse seja o seu primeiro filme em que ela tira proveito sem pudores de seu sex appeal, pois Tiffany, sua personagem, pode até ser maluquinha mas também é um poço de sensualidade e charme. Ela inclusive está lindíssima com seus belos cabelos negros. Bradley Cooper também é outra grata surpresa. Ele já tinha se destacado no excelente “As Palavras” e aqui volta ao drama para mostrar que não é apenas mais um comediante gaiato como muitos que existem por aí. Ele consegue trazer muita alma para seu perturbado e obsessivo personagem. “O Lado Bom da Vida” é isso, um bom estudo de pessoas complicadas, com muitos problemas, mas que a despeito de tudo isso ainda conseguem seguir em frente, reencontrando inclusive o prazer da paixão e do romance. Uma bela lição de vida.

O Lado Bom da Vida (Silver Linings Playbook, EUA, 2012) Direção: David O. Russell / Roteiro: David O. Russell, baseado no romance de Matthew Quick / Elenco: Jennifer Lawrence, Robert De Niro, Bradley Cooper, Julia Stiles, Chris Tucker / Sinopse: Um casal tenta reencontrar o lado bom da vida após passar por grandes traumas em sua vida amorosa. Vencedor do Globo de Ouro de Melhor atriz para Jennifer Lawrence. Indicado aos Oscars de Melhor Filme, Direção (David O. Russell), Ator (Bradley Cooper), Atriz (Jennifer Lawrence), Ator Coadjuvante (Robert De Niro), Atriz Coadjuvante (Jacki Weaver), Roteiro Adaptado e Edição.

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.

Chuck Berry - St. Louis to Liverpool (1964)

Chuck Berry - St. Louis to Liverpool (1964) - Chuck Berry ficou vários anos na prisão. Finalmente em 1963 ele ganhou a liberdade. Quando saiu da cadeia ele percebeu que os grupos de rock que mais faziam sucesso nas paradas, como Beatles e Rolling Stones, estavam gravando vários de seus antigos clássicos. Assim o interesse em sua música estava renascendo. Ao ser preso nos anos 50 uma das coisas que Berry havia dito era que jamais voltaria a gravar pela gravadora Chess, pois era, em suas próprias palavras, uma empresa comandada por um bando de ladrões.

Pois bem, ao sair da prisão, falido e sem muitas perspectivas, ele acabou cedendo às pressões e voltou para a Chess para gravar esse álbum. Ele engoliu seu orgulho pessoal para ter uma nova oportunidade na carreira. O título procurava fazer uma ponte entre o legado de Berry e as novas bandas, por isso a referência a Liverpool, a terra dos Beatles. É claro que havia ali um oportunismo barato por parte dos produtores, mas para Berry o importante era voltar à ativa, voltar a trabalhar. E como era de se esperar o resultado era genial. Em seus anos preso, Berry aproveitou para compor vários temas, muitos deles gravados aqui pela primeira vez. Um repertório fantástico, capaz de derrubar dúzias de bandinhas da moda.

Ele era realmente genial. Basta dar uma olhada na seleção para verificar que novos clássicos da geração rocker eram lançados nesse álbum como, por exemplo, "Promised Land" (que Elvis Presley regravaria alguns anos depois), "Merry Christmas Baby" (outra que Elvis aproveitaria, um autêntico blues de natal, composto na amargura de se passar uma noite de natal atrás das grades) e "Little Marie", uma espécie de continuação de "Memphis, Tennessee". Enfim, o disco era mais uma obra prima da discografia de Berry, produzido em uma época complicada de sua vida. A despeito de tudo contra, Chuck Berry mais uma vez provava que ainda era capaz de produzir rock de extrema qualidade. Ser genial é isso aí.

Chuck Berry - St. Louis to Liverpool (1964) 1. Little Marie 2. Our Little Rendezvous 3. No Particular Place to Go 4. You Two 5. Promised Land 6. You Never Can Tell 7. Go Bobby Soxer 8. Things I Used to Do 9. Liverpool Drive (instrumental) 10. Night Beat (instrumental) 11. Merry Christmas Baby 12. Brenda Lee.

Pablo Aluísio. 

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

As Palavras

Filme delicado, muito bem escrito e contando com uma ótima trama. Em tempos atuais esse tipo de produção anda bem rara de encontrar, por isso “As Palavras” se torna um programa obrigatório para os cinéfilos de fino trato. O filme abre com um escritor de sucesso, Clay Hammond (Dennis Quaid), lendo trechos de seu novo best seller para uma concorrida platéia. Conforme ele vai narrando a estória de seu romance o espectador vai acompanhando o desenrolar de tudo na tela. Nesse ponto “As Palavras” realmente se torna muito original pois há na verdade três estórias se desenvolvendo ao mesmo tempo. Confuso? Não, longe disso. Na primeira estrutura narrativa acompanhamos o escritor Clay (Quaid) lendo seu livro. Ele acaba conhecendo uma jovem leitora muito bonita e sensual e a convida para seu apartamento. Na segunda narrativa vamos acompanhando a trama de seu livro onde um jovem escritor chamado Rory Jasen (Bradley Cooper) acaba, em um ato de desespero para alcançar o sucesso, plagiando um antigo manuscrito encontrado por ele em uma velha bolsa comprada numa loja de antiguidades em Paris. Por fim, formando a terceira linha de narração, somos apresentados às memórias de um velho homem que recorda de seus tempos no exército americano no pós-guerra. Enviado a Paris ele acaba se apaixonando por uma francesa e com ela tem um inesquecível caso de amor.

Esse é um roteiro muito sutil e inteligente que vai formando um mosaico de situações que no transcorrer do filme acabam se encaixando, formando uma grande ligação entre todas as estórias. O argumento é genial, se revelando particularmente inspirado nas cenas finais quando o espectador é presenteado com um evento revelador. Afinal, o que é ficção, literatura e o que é de fato real? Dennis Quaid, como o escritor que lê seu livro ao vivo, está muito bem. Ator versátil anda em um momento bom na carreira, tanto no cinema em filmes como esse como na TV, estrelando a boa série “Vegas”, onde interpreta um xerife durão na Las Vegas da década de 1960. Bradley Cooper também surpreende em um papel sério e dramático – algo que em nada lembra suas comédias mais comerciais. Agora há de se reconhecer que quem rouba mesmo a cena completamente é o sempre excepcional Jeremy Irons. Interpretando um belo personagem chamado simplesmente de “The Old Man” ele é a alma do filme! Esse é realmente um ator excepcional. Envelhecido, contemplativo, desgastado pelo tempo, seu personagem mescla momentos de solidão, saudade, tristeza e resignação. Poucas vezes vi um personagem tão humano e rico em cena. Seu trabalho é simplesmente perfeito. No fundo “As Palavras” é uma grande homenagem aos escritores de uma forma em geral, pois todos os três elos mais importantes em sua estória são formados por pessoas que exercem justamente essa nobre arte de transformar pensamentos e idéias em palavras escritas. Mais elegante do que isso impossível.

As Palavras (The Words, EUA, 2012) Direção: Brian Klugman, Lee Sternthal / Roteiro: Brian Klugman, Lee Sternthal / Elenco: Bradley Cooper, Dennis Quaid, Jeremy Irons, Zoe Saldana / Sinopse: Três estórias narradas em diversas linhas narrativas mostram aspectos das vidas profissionais e pessoais de três escritores em épocas diferentes de suas vidas.

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

O Homem da Máfia

“O Homem da Máfia” é o novo filme estrelado por Brad Pitt. Filme de gangster sem firulas, com película saturada para parecer um antigo filme policial dos anos 1970 e roteiro cru, que vai direto ao ponto. Na trama dois ladrões pé de chinelo resolvem se unir a um comerciante semi-falido para assaltar um jogo de cartas no bairro onde vivem. O problema é que eles roubam uma turma barra pesada que obviamente não fica nada contente com o roubo e resolvem partir para um acerto de contas violento e sangrento. O elenco é muito bom nessa fita rápida, eficiente e muito interessante. É o que se costuma chamar informalmente de “filme para macho” – muita porrada, tiros e assassinatos. As únicas mulheres do elenco são prostitutas sem nenhuma importância nos acontecimentos centrais. Brad Pitt surge desfilando um pomposo topete em cena, imitando a moda da época. Seu personagem Jackie Cogan é um cara durão, criado nas ruas, que acaba se tornando assassino profissional. Nada pessoal, apenas é contratado para realizar um serviço e faz, sem qualquer sentimento de culpa ou peso na consciência. Um sujeito e se chamar quando as coisas começam a sair do eixo. Especializado em realizar seus objetivos da maneira mais limpa possível ele tem a péssima idéia de chamar um velho assassino de nome Mickey (James Gandolfini) cujos anos de glória há muito passaram. Velho, gordo e bêbado já não consegue mais ser um parceiro de crime de confiança. Para piorar quando chega na cidade para realizar as mortes só mostra interesse pelas garotas de programa do local, pouco se importando com as mortes que terá que fazer. Um divórcio e uma provável prisão por porte de armas também não ajudam em nada.

O alvo de ambos inicialmente é o próprio gerente dos jogos, Markie Trattman (Ray Liotta), que já havia roubado antes os próprios jogos que gerenciava, mas conforme vão apurando o que houve chegam também nos dois bandidos drogados e sem expressão que efetuaram os roubos e no cabeça da quadrilha, um comerciante à beira da falência. A partir daí “O Homem da Máfia” logo se transforma em um banho de sangue, com miolos sendo explodidos em câmera lenta em cenas tecnicamente extremamente bem realizadas. Intercalando tudo temos os discursos dos presidentes Bush e Obama louvando a pretensa superioridade da sociedade americana, enquanto as mortes vão se sucedendo na tela. O uso desses pronunciamentos precedem as matanças e os acertos de contas, numa fina e muito bem colocada ironia que atravessa todo o desenrolar dos acontecimentos. Com a economia em frangalhos os líderes americanos ainda se apegam nas velhas ladainhas do passado. Em ótimos diálogos os personagens marginais vão colocando por terra as bobagens ditas pelos políticos. Numa das mais divertidas o personagem de Brad Pitt esclarece que “A América não é uma nação mas um negócio”, em outra destrói um dos pais da nação, Thomas Jefferson, que apesar de ter escrito na constituição americana que “todos eram iguais” tinha escravos em sua fazenda e abusava sexualmente de suas escravas, ou seja, um hipócrita de marca maior. Perfeitas as colocações, os EUA são bem isso mesmo, capitalismo selvagem do pior tipo, sem nada pessoal no meio, apenas violência e grana no comando de tudo. Nesse ponto “O Homem da Máfia”, um filme violento e irascível, tem mais a dizer que muita bobagem que já foi feita por aí louvando os chamados “Pais da América” – quem diria hein?

O Homem da Máfia (Killing Them Softly, EUA, 2012) Direção: Andrew Dominik / Roteiro: Andrew Dominik / Elenco: Brad Pitt, Ray Liotta, James Gandolfini, Scoot McNairy, Ben Mendelsohn, James Gandolfini, Vincent Curatola, Richard Jenkins, Trevor Long, Max Casella, Sam Shepard / Sinopse: Bandidos de quinta categoria resolvem assaltar uma turma barra pesada que joga cartas numa espelunca escondida da polícia gerenciada por Markie Trattman (Ray Liotta). Para acertar as contas com os ladrões pé de chinelo o grupo contrata os serviços do assassino profissional Jackie Cogan (Brad Pitt) que parte para resolver os problemas através de muita violência, sem piedade.

Pablo Aluísio e Erick Steve.

domingo, 20 de janeiro de 2013

Meninas Malvadas

Para muitas pessoas o ensino médio é uma selva. Aqui no Brasil as coisas não são tão feias como nos EUA. Lá realmente o bullying é violento e selvagem, o que talvez explique a onda de violência que assola as escolas daquele país. Ao que tudo indica o jovem americano assimila muito cedo a cultura da violência e selvageria que caracteriza aquela cultura. Tratando o assunto de uma forma menos amena a atriz, roteirista e produtora Tina Fey resolveu colocar no papel algumas das experiências que viveu durante essa fase de sua vida. Não é um retrato autobiográfico mas sim uma comédia adolescente onde ela turbinou, digamos assim, alguns eventos que vivenciou enquanto era uma simples colegial. A estória narra as aventuras do high school de Cady Heron (Lindsay Lohan). Ela passou grande parte de sua vida na África, onde seus pais desenvolviam trabalhos sociais. De volta aos EUA ela é matriculada na escola North Shore, situada numa cidadezinha do Illinois. E é justamente nessa escola que ela vai aprender o que é realmente uma vida selvagem! Claro que se trata de uma metáfora sobre o que se vivencia no colegial americano. Pelo que vemos nos noticiários nada parece ser muito exagerado mesmo. A escola americana parece ser mesmo uma selva!

Tina Fey assim brinca com as semelhanças entre o mundo selvagem e a estrutura social que impera entre os jovens que estudam no ensino médio nos EUA (por lá chamado de High School). Existe é óbvio todos aqueles rótulos que todos recebem logo quando adentram na vida colegial: os populares, os nerds, as rainhas da beleza, os freaks e por aí vai. Além disso há todo um jogo de aparências e falsas amizades que dominam todo o ambiente escolar. No caso do filme entram em choque a simples e simpática Cady (Lohan) e a popular Regina (Rachel McAdams) que pensa mandar em todas as garotas da escola, classificando todas elas de acordo com seus próprios critérios pessoais. Deu para perceber que é uma comédia adolescente com um certo ar pretensioso que beira o estudo sociológico! Mas esqueça esse aspecto, “Meninas Malvadas” apesar de não ser um filme ruim deixa muito a desejar. Longe da qualidade das comédias juvenis da década de 80, em especial aquelas assinadas por John Hughes, o filme naufraga em suas pretensões. Não se torna muito divertido e nem traz muito conteúdo. Na verdade esse projeto muito pessoal de Tina Fey apenas expõe seus defeitos como escritora e observadora das relações humanas. Se vale por alguma coisa é pela presença de Lindsay Lohan, a ruivinha bonitinha que de ídolo teen passou a ser freqüentadora de páginas policiais dos jornais americanos. Rachel McAdams também ajuda a passar o tempo. No saldo final não consegue se tornar marcante e nem um retrato fiel do mundo colegial dos EUA. “Meninas Malvadas” é no final das contas uma boa idéia que ficou pelo meio do caminho.

Meninas Malvadas (Mean Girls, EUA, 2004) Direção: Mark Waters / Roteiro: Tina Fey / Elenco: Lindsay Lohan, Tina Fey, Lizzy Caplan, Rachel McAdams, Lacey Chabert, Amanda Seyfried / Sinopse: Garota que foi criada na África selvagem acaba indo morar nos EUA com seus pais. Matriculada em uma escola de High School ela logo entenderá qual é a verdadeira selva!

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.

Herbie: Meu Fusca Turbinado

Herbie o filme original é de 1968. Comédia simples, modesta, que caiu no gosto do público da época. Não é para menos. O velho fusquinha era muito popular. Originalmente criado por Adolf Hitler que queria um carro popular que pudesse ser adquirido pelos trabalhadores alemães, o Fusca logo se tornou um ícone popular, se tornado o primeiro carro de muita gente, criando assim um vínculo emocional que lhe garantia muito carisma ao longo dos anos. O sucesso dessa primeira versão de Herbie da Disney daria origem a mais quatro filmes e finalmente uma série de TV que passou por várias temporadas. Assim quando os executivos do Mickey resolveram recriar alguns velhos produtos do estúdio pensaram logo em Herbie, que tão bem sucedido havia sido no passado. Ao invés de investir em uma animação – como havia sido inicialmente planejado – resolveram realizar um filme convencional mesmo, com atores de carne e osso. Com orçamento até generoso de 50 milhões de dólares resolveram partir para o remake do filme original, que já andava até mesmo esquecido do grande público.

Como o estúdio ainda tinha sob contrato a atriz Lindsay Lohan resolveram escalar a ruiva para viver a dona de Herbie, Maggie. É a tal coisa, hoje Lindsay está com a carreira em ruínas, principalmente por fazer muita bobagem, uma atrás da outra. E pensar que ela foi uma das mais queridas atrizes jovens dos EUA e depois resolveu afundar com tudo por causa do excesso de drogas e confusões (que inclusive a levaram à prisão em algumas ocasiões). Na trama ela encontra o fusquinha Herbie completamente detonado em um pátio de ferro velho. Ao lado do amigo Kevin (Justin Long) resolve restaurar o antigo carro o trazendo de volta à velha glória do passado. Percebendo que Herbie é veloz e rápido ela acaba se inscrevendo com o carro em uma série de competições de corrida, logo se tornando uma verdadeira campeã das pistas. Bom, já deu para perceber que Herbie é uma grande bobagem! Mais curioso ainda é saber que o primeiro filme também não era lá essas coisas. No fundo é um produto infanto-juvenil bem inofensivo, para as crianças, numa embalagem típica das produções Disney para essa faixa etária. Só não deixe seus filhos virarem fãs da Lindsay Lohan, porque a mocinha não é mais exemplo para ninguém, muito menos para seus filhos menores.
   
Herbie: Meu Fusca Turbinado (Herbie: Fully Loaded, EUA, 2005) Direção: Angela Robinson / Roteiro: Ben Garant, Thomas Lennon / Elenco: Lindsay Lohan, Matt Dillon, Michael Keaton, Mario Larraza, Scoot McNairy, Justin Long. / Sinopse: Garota resgata um velho fusquinha do ferro velho, mal sabendo que se trata de Herbie, o famoso carro campeão de corridas da década de 60.

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.    

sábado, 19 de janeiro de 2013

Garota Fantástica

Após estabilizar sua carreira como atriz e produtora, Drew Barrymore resolveu investir na direção. Esse filme “Garota Fantástica” é sua estréia como cineasta. Na estória acompanhamos Bliss Cavendar (Ellen Page) uma garota normal de 17 anos que mora no Texas. Bonita, sua família quer que ela se inscreva em um concurso de beleza na pequena cidade onde vive. Esse é o desejo, o sonho de sua mãe, mas Bliss gosta mesmo é de participar de uma modalidade esportiva chamada “Roller Derby”. Inspirada em um filme de ficção da década de 70 o esporte coloca duas equipes em uma pista de patinação oval. Juntas elas disputam a posse de uma bola, enquanto competem entre si numa corrida alucinada pelo circuito. Violento e casca grossa o esporte seria o menos indicado para uma garota como Bliss, bonitinha e transparecendo fragilidade.

“Garota Fantástica” é quase um experimento de laboratório de Drew Barrymore. De orçamento modesto a produção teve um lançamento discreto nos cinemas americanos e no Brasil foi lançado diretamente no mercado de DVD. Não é um filme imprescindível na coleção de um cinéfilo mas mantém o interesse, principalmente pela sempre interessante presença de Ellen Page, uma atriz talentosa e simpática que sempre traz algo de bom em suas atuações. Seu melhor papel até agora foi a da adolescente grávida Juno e desde então ela tem intercalado filmes menores com blockbusters Hollywoodianos. Essa aqui se encaixa na primeira categoria – filme pequeno, feito na base da amizade que nutre com Drew Barrymore, contando com um elenco de atrizes novas e esforçadas. A direção de Barrymore também não compromete, demonstrando que ela consegue dirigir um filme, desde que seja simples e modesto como esse. No saldo final vale a pena ser assistido, principalmente pelas movimentadas jogadas radicais desse estranho e bizarro esporte (que pelo que eu saiba ainda não chegou ao Brasil). Então fica a dica desse bom passatempo que vale uma espiada.

Garota Fantástica (Whip It!, EUA, 2010) Direção: Drew Barrymore / Roteiro: Shauna Cross baseado na novela de Shauna Cross / Elenco: Ellen Page, Marcia Gay Harden, Kristen Wiig, Drew Barrymore, Juliette Lewis, Jimmy Fallon, Alia Shawkat, Eve. / Sinopse: Garota jovem de 17 anos resolve participar de um novo esporte radical que combina patinação e corrida sobre patins. Cheio de adrenalina ela tentará ser parte da nova equipe campeã da modalidade.

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.

Os Caçadores da Arca Perdida

Ninguém brilhou mais no céu de Hollywood durante as décadas de 70 e 80 do que George Lucas e Steven Spielberg. Lucas criou toda uma mitologia com sua obra prima, Star Wars, e Spielberg dispensava maiores apresentações. Eram considerados gênios que tinham transformado o cinema novamente em uma grande diversão. Em seu auge criativo Spielberg, por exemplo, realmente foi insuperável por longos anos. Assim quando ambos anunciaram que iram trabalhar juntos pela primeira vez a notícia caiu como uma bomba na indústria de cinema americano. Afinal eram os dois mais populares cineastas daqueles tempos. A idéia nasceu durante as férias em que Lucas e Spielberg passaram juntos no final da década de 70. Spielberg confidenciou a Lucas que gostaria de dirigir um filme de James Bond mas que por razões contratuais provavelmente jamais o faria. Já Lucas disse que adoraria dirigir um filme com o sabor das antigas matinês, das séries que passavam nos cinemas onde o herói sempre se envolvia numa situação perigosa para só então se salvar na semana seguinte, quando a garotada voltava para conferir se ele morria ou não em no filme (claro que não morria!). Dessa fusão de desejos nasceria um dos mais populares personagens da história do cinema, um arqueólogo que viveria algumas das melhores cenas de aventuras já escritas – claro que você já sabe que estamos falando de Indiana Jones. O herói aventureiro teria de tudo um pouco. Por parte de Spielberg ele herdaria a vocação para a aventura e situações extremas de ação, tal como James Bond. Já pelo lado de Lucas, Indiana surgiria em um mundo de realismo fantástico, onde ficção e realidade se misturavam com raro brilhantismo, tal como acontecia nas produções antigas que eram exibidas nas matinês para a garotada! “Caçadores da Arca Perdida” seria o primeiro filme do personagem. A escolha do ator foi das mais complicadas. O preferido de Lucas e Spielberg era o ator Tom Selleck mas esse recusou porque estava obrigado contratualmente com a série Magnum, grande sucesso da TV americana. Sem muitas alternativas o papel acabou caindo nas mãos de Harrison Ford, na época no auge de sua popularidade, colecionando êxitos por causa de seu mais famoso personagem, o aventureiro espacial Han Solo do universo de Guerra nas Estrelas. Embora não tenha sido a primeira opção o fato é que o ator incorporou excepcionalmente bem o espírito do personagem, tal como imaginado pela dupla Lucas e Spielberg.

A trama girava em torno da luta de Indiana Jones em recuperar a famosa Arca da Aliança. Esse artefato místico e histórico foi citado no velho testamento pois tinha guardado na antiguidade os pedaços dos Dez Mandamentos dados por Deus a Móises. Dotada de poderes sobrenaturais fantásticos, a peça de valor inestimável era desejado pelos nazistas pois de posse dela, finalmente a Alemanha poderia derrotar os aliados durante a II Guerra Mundial. “Caçadores da Arca Perdida” é uma aventura perfeita que marcou muito em seu lançamento pois soube como poucos captar aquele clima de aventura dos antigos filmes. A estória era simplesmente magistral mostrando todo o talento da dupla criadora que lhe deu vida. Assim que chegou aos cinemas o filme logo se tornou um grande sucesso de bilheteria, ganhando também a aprovação dos principais críticos da época. Tanto sucesso justificou o grande número de indicações ao Oscar que recebeu, incluindo melhor flme, roteiro e direção (para Steven Spielberg) mas acabou vencendo apenas nas categorias técnicas (efeitos especiais, som, edição, direção de arte e efeitos sonoros). A Academia, sempre tão conservadora, não quis premiar a produção por causa de seu inegável espírito de aventura infanto-juvenil. Não faz mal uma vez que isso não prejudicou a perenidade que “Caçadores da Arca Perdida” possui até os dias atuais. Uma das melhores aventuras que o cinema já produziu em todos os tempos.

Os Caçadores da Arca Perdida (Raiders of the Lost Ark, EUA, 1981) Direção: Steven Spielberg / Roteiro: George Lucas, Lawrence Kasdan, Philip Kaufman / Elenco: Harrison Ford, Karen Allen, Paul Freeman, Ronald Lacey, John Davies, Denholm Elliott, Alfred Molina, Wolf Kahler, Anthony Higgins / Sinopse: “Caçadores da Arca Perdida” mostra as aventuras do arqueólogo Indiana Jones para descobrir e recuperar a famosa Arca da Aliança. Esse artefato místico e histórico foi citado no velho testamento pois havia guardado na antiguidade os pedaços dos Dez Mandamentos dados por Deus a Móises. Dotada de poderes sobrenaturais fantásticos, a peça de valor inestimável era desejado pelos nazistas pois de posse dela, finalmente a Alemanha poderia derrotar os aliados durante a II Guerra Mundial.

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Touchback

Esse é um sensível drama que explora um aspecto que geralmente diz respeito a todos nós. O roteiro estuda aquela sensação sempre presente de que nada nos satisfaz, que poderíamos ser bem melhores, vivendo em outro lugar, com pessoas diferentes. É a eterna sensação de insatisfação que atinge muitas pessoas e as impedem de serem plenamente felizes. Na estória somos apresentados ao jovem jogador de futebol americano, Scott Murphy (Brian Presley). Ele é um atleta popular no colégio, namora a garota mais bonita e tem o que promete ser um futuro extremamente promissor pela frente até que em um jogo decisivo, no último minuto da partida, sofre um bloqueio de dois jogadores adversários e quebra sua perna em várias partes. Inutilizado para o esporte vê sua vida e seus planos ruírem. Anos depois se vê numa terrível situação financeira, sem poder sustentar sua própria família. Desesperado parte para um ato impensado. Revelar mais seria estragar as surpresas do filme.

O que torna Touchback muito especial é que ele discute os arrependimentos que levamos em nossas vidas. Ao recordar seu passado Scott tenta entender o que deu errado em sua vida. O futuro que parecia tão brilhante e cheio de vitórias se revela devastador para ele. No final aprenderá uma grande lição sobre sermos felizes com aquilo que temos. O destaque no elenco vai para Kurt Russell. Ele interpreta o treinador do jovem quaterback. Ao longo do filme ele vai passando ao jovem jogador algumas lições de vida que se revelarão bem importantes. No papel do jogador que sofre a grave lesão temos Brian Presley (nenhum parentesco com o famoso cantor). Ele não tem certamente a experiência necessária para interpretar um papel tão dramático como esse mas dentro de suas limitações até que não se sai mal. Melhor em cena está a atriz  Melanie Lynskey, que interpreta sua esposa, Macy. Bonita e charmosa acaba roubando as atenções para si. Assim fica a dica: Touchback, um filme que certamente vai fazer você refletir sobre as escolhas que fez ao longo de sua vida.

Touchback (Touchback, EUA, 2012) Direção: Don Handfield / Roteiro: Don Handfield / Elenco: Brian Presley, Kurt Russell, Melanie Lynskey,  Marc Blucas / Sinopse: Jovem jogador de futebol Americano com futuro promissory vê seus sonhos se desmoronarem após sofrer grave lesão na perna durante uma partida violenta. Sem perspectivas anos depois tentará entender o que deu errado em sua vida.

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.

E Se o Amor Acontece...

Henry McCarthy (Mark Polish) é um escritor de sucesso que resolve voltar para sua cidade natal para fazer o discurso de formatura da turma de 2009, no mesmo colégio onde estudou anos atrás. Suas memórias do tempo em que estudava no ensino médio foram usadas em seu livro de maior sucesso de vendas. Agora de volta na mesma escola ele relembra dos amigos e de uma antiga paixão, a linda e inacessível Scarlet (Winona Ryder), a garota com quem sonhava namorar quando era apenas um jovem de ensino médio. Agora ela vive de um emprego enfadonho e enfrenta um divórcio complicado com seu ex-marido, um treinador de futebol que era o valentão dos tempos em que Henry estudava na escola. Decidido a rever Scarlet, Henry toma uma decisão corajosa e entra em contato com ela. Juntos acabam jantando em um belo restaurante dando início a um relacionamento que deveria ter acontecido há pelo menos 20 anos. Esse argumento de “E Se o Amor Acontece” me lembrou muito o de um outro filme recente chamado “Jovens Adultos” com Charlize Theron. A premissa é basicamente a mesma – tempos depois um autor (no caso de “Jovens Adultos”, autora) volta para sua antiga cidade e sua escola para acertar alguns assuntos inacabados, entre eles reconquistar o amor dos tempos colegiais, que dizem ser duradouro e forte, sobrevivendo aos anos.

A diferença básica entre “E se o Amor Acontece” e “Jovens Adultos” é o fato do personagem principal aqui narrar toda a estória, com um tom de nostalgia e melancolia. Henry, o autor, é interpretado por Mark Polish, que não tem qualquer talento para comédias. O filme aliás sofre dessa estranha dualidade. Enquanto Polish se comporta como se estivesse em um drama, seus colegas são espalhafatosos e exagerados, mais parecendo que estão em alguma comédia pastelão. Sean Astin, por exemplo, interpreta o amigo gay de Polish. Muito afetado e over ele acaba irritando mais do que divertindo. Caricato além da conta. Já o restante do elenco é mais interessante. Para quem tinha saudades de Winona Ryder em um papel central aqui há uma bela oportunidade de revê-la. Ela interpreta Scarlet, a “Deusa” dos tempos de colégio, que agora ganha a vida trabalhando numa farmácia, tendo que aturar um ex-marido truculento e estúpido. Outra participação que chamará certamente a atenção dos saudosistas da década de 80 é a presença do comediante Chevy Chase, aqui fazendo o papel do diretor da escola. Sempre com um curativo do nariz ele não perdeu aquele seu jeito bobão que tanto sucesso fez em filmes como “Férias Frustradas”. O filme em momento nenhum chega a aborrecer mas também não consegue se tornar marcante. No final das contas é apenas uma estória de amor nostálgica corretamente executada. Só indicada mesmo para as mais românticas e as que sentem saudades dos tempos de colégio. Fora isso nada de muito relevante digno de nota.

E Se o Amor Acontece... (Stay Cool, EUA, 2009) Direção: Michael Polish / Roteiro: Mark Polish / Elenco: Winona Ryder, Mark Polish, Sean Astin, Hilary Duff, Chevy Chase, Jon Cryer, Josh Holloway / Sinopse: Escritor de sucesso volta para sua escola com o objetivo de fazer o discurso de formatura da nova turma de ensino médio. O problema é que seu retorno acaba despertando antigas emoções, revivendo velhas paixões do passado.

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

JFK A Pergunta Que Não Quer Calar

Após a morte do Presidente John F. Kenney na cidade de Dallas no ano de 1963 um ousado e esforçado promotor público chamado Jim Garrison (Kevin Costner) inicia uma longa jornada em busca da verdade dos fatos. Para ele nada do que afirma a versão oficial pode ser admitido como verdade do que realmente aconteceu. Para Garrison há toda uma rede conspiratória envolvendo a morte do líder máximo da nação norte-americana. Mas afinal quem realmente matou o presidente John Kennedy? A versão oficial afirma que o presidente americano foi morto por Lee Oswald, que agindo sozinho resolveu liquidar o político durante uma visita amigável ao Texas. Andando pelas ruas de Dallas em carro aberto, acenando para os que o saudavam nas calçadas durante seu trajeto, o líder do chamado mundo livre ficou a mercê de qualquer um que o usasse como alvo. Lee Oswald, um ex-fuzileiro naval que havia morado na Rússia por algum tempo o transformou em seu alvo. Ele agiu sozinho, sem ajuda de ninguém. Exímio atirador, subiu até um edifício onde se armazenavam livros escolares e de lá matou o presidente que vinha passando em frente a sua janela. Sua mira foi praticamente perfeita. Após atingir o presidente no pescoço deu um novo tiro que atingiu a cabeça do presidente. Foi o tiro fatal. Dias depois ao ser levado para uma cadeia próxima, Oswald foi assassinado por Jack Ruby, um membro de baixo escalão da máfia local. Isso é resumidamente tudo o que se apurou nas investigações oficiais. Os americanos ficaram tão perplexos com tudo o que aconteceu que simplesmente nunca acreditaram plenamente nessa versão oficial. Dois em cada três americanos acreditam que Kennedy foi vítima de uma conspiração sem tamanho, envolvendo figurões, agências governamentais, a Máfia, os russos, Fidel Castro e tudo o mais que você possa imaginar. Até teorias envolvendo OVNIS e Kennedy já foram criadas. Não há limites para a imaginação. Foi justamente nesse mundo de conspirações e intrigas que Oliver Stone resolveu ambientar seu “JFK – A Pergunta Que Não Quer Calar”.

Esse filme causou grande repercussão em seu lançamento. Não é para menos pois se propunha a jogar uma luz nesse grande mistério. O problema é que JFK, o filme de Stone, acaba por não responder pergunta nenhuma. O cineasta jogou todas as teorias em seu roteiro, misturou bem, adicionou gasolina para criar uma polêmica interminável e não chegou a nenhuma conclusão. O problema é esse, Stone simplesmente não quis se comprometer. Tudo fica no ar, envolto em mistérios, então depois de ficarmos tanto tempo vendo sua visão (o filme tem longa duração) nos sentimos enganados por ver que tudo aquilo simplesmente não chega a lugar nenhum. Outro grave defeito de JFK é que ele passa longe de ser uma produção historicamente correta. O promotor interpretado por Kevin Costner no filme é muito diferente da pessoa real. No filme ele é retratado como um herói. Na vida real era uma pessoa fascinada com o mundo das conspirações em torno de Kennedy, um aficcionado no assunto. Porém tal como o filme morreu sem chegar a conclusão nenhuma. A tal pergunta que não quer calar definitivamente não foi respondida com essa obra cinematográfica que é boa para levantar a poeira das teorias e teses intermináveis que foram criadas durante todos esses anos, mas totalmente pífia em apresentar resultados concretos. Atirando para todos os lados sem acertar em nada o filme falha completamente em suas pretensões.

JFK – A Pergunta Que Não Quer Calar (JFK, EUA, 1991) Direção: Oliver Stone / Roteiro: Oliver Stone, Zachary Sklar / Elenco: Kevin Costner, Gary Oldman, Jack Lemmon, Vincent D'Onofrio, Sissy Spacek, Joe Pesci, Walter Matthau, Tommy Lee Jones, John Candy, Kevin Bacon, Donald Sutherland / Sinopse: Após a morte do Presidente John F. Kenney na cidade de Dallas no ano de 1963 um ousado e esforçado promotor público chamado Jim Garrison (Kevin Costner) inicia uma longa jornada em busca da verdade dos fatos. Para ele nada do que afirma a versão oficial pode ser admitido como verdade do que realmente aconteceu. Para Garrison há toda uma rede conspiratória envolvendo a morte do líder máximo da nação norte-americana. Filme vencedor dos Oscars de Melhor Fotografia e Melhor Edição. Vencedor do Globo de Ouro de Melhor Direção para Oliver Stone.

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.

Um Dia a Casa Cai

Tom Hanks hoje em dia é um ator respeitado e consagrado em Hollywood. Com dois Oscars no currículo ele certamente é um dos profissionais mais cotados dentro da indústria de cinema americano. Um quadro bem diferente de quando era apenas um comediante escrachado que estrelava comédias como “A Última Festa de Solteiro”, “Splash – Uma Sereia em Minha Vida” e “Quero Ser Grande”. Na década de 1980 Tom Hanks não fazia dramas e nem filmes ditos sérios, pelo contrário, sua carreira era completamente direcionada para as comédias de verão, leves, divertidas, sem muita noção. Foi justamente nessa fase de pura diversão descompromissada que ele estrelou esse divertido “Um Dia a Casa Cai”, uma produção de Steven Spielberg em uma das primeiras parceiras ao lado do ator – parceria essa que daria excelentes frutos no futuro como “O Resgate do Soldado Ryan”. Mas isso ainda era tão distante para Hanks por essa época quanto a Lua. Aqui ele apenas repete seu personagem cômico preferido, a do cara normal, que tenta levar a vida da melhor forma possível mas que acaba se enrolando numa situação absurda e sem sentido.

No caso de “Um Dia a Casa Cai” Tom Hanks interpreta Walter, que ao lado da esposa, resolve comprar uma grande e bela casa por uma pechincha! A casa realmente é das mais bonitas mas por baixo da fachada se encontra um imóvel literalmente caindo aos pedaços! Quem já passou por uma reforma de casa sabe o quanto isso pode ser estressante e fonte de problemas! Sem alternativas Walter (Hanks) e Anna (Shelley Long) resolvem começar a reformar toda a casa – e isso abre margem para muitas situações cômicas, das mais diversas e divertidas que a mente dos roteiristas conseguiram criar. Eles não têm muita grana e por isso ficam dentro do imóvel enquanto a reforma segue em frente (algo pra lá de desaconselhável). Algumas das situações que surgem disso são realmente extremamente engraçadas como a queda da escada principal, onde o personagem de Hanks tem um acesso de riso e fúria que se torna desespero total! Afinal não é fácil gastar tanto dinheiro para colocar aquela casa de pé novamente! Os trabalhadores que vão até o imóvel também são divertidíssimos – os encanadores, por exemplo, andam em carrões, não dão a menor bola para Walter e se comportam como verdadeiros pernósticos! Enfim, um retrato muito bem humorado e sarcástico do modo de vida da classe média americana que passa por vários apuros para morar bem. Depois de rever comédias como essa cheguei numa conclusão: nos anos 80 Tom Hanks certamente não tinha o prestígio que tem hoje em dia mas era seguramente um ator muito mais divertido do que agora! Bons tempos aqueles.
   
Um Dia a Casa Cai (The Money Pit, EUA, 1986) Direção: Richard Benjamin / Roteiro: David Giler / Elenco: Tom Hanks, Shelley Long, Alexander Godunov, Maureen Stapleton / SInopse: Walter (Tom Hanks) e Anna (Shelley Long) resolvem comprar uma velha mansão por uma verdadeira pechincha. Mal sabiam no pepino que estavam se metendo. A casa caindo aos pedaços necessita de uma reforma urgente – o que dará origem a várias confusões, colocando em risco inclusive o relacionamento do casal.

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

3000 Milhas Para o Inferno

Covers de Elvis Presley, centenas deles, todos em Las Vegas para uma convenção mundial de imitadores do Rei do Rock! É justamente nesse mar de jumpsuits e colarinhos levantados que Michael Zane (Kurt Russell) e Thomas Murphy (Kevin Costner), líderes de uma gangue de criminosos barra pesada, decidem agir. Seu alvo é o milionário e luxuoso Riviera Hotel & Cassino! O plano é se misturar aos covers, roubar o dinheiro e depois sumir da forma mais rápida e discreta possível! O problema é que entre os próprios membros do grupo há um acerto final de contas pendente! “300 Milhas Para o Inferno” é um filme de ação diferente! Pelo menos assim pensaram seus realizadores. Não há como deixar de admitir que sua ambientação se torna divertida, afinal o filme foi rodado em Las Vegas onde o Rei Elvis reinou em seus últimos anos. Claro que muitos covers são bem ridículos mas isso faz parte da diversão também. No fundo esses artistas nada mais são do que caricaturas de um tempo – a década de 1970 – em que tudo era permitido em termos de roupas e acessórios. O próprio Elvis que desde a juventude se vestia de maneira bem diferenciada, obviamente adorou o estilo e a moda daqueles anos. Depois que morreu e virou o ícone cultural que é, sua imagem se tornou um símbolo do estilo kitsch dos 70´s. E é justamente em cima desse luxo despudorado dos últimos anos de Elvis que os covers fazem a festa!

Apesar de tentar ser diferente a verdade é que “3000 Milhas Para o Inferno” só tem de diferencial mesmo os imitadores de Elvis Presley. Todo o resto, o roteiro, as cenas, os clichês, não apresentam novidades, no fundo não há nada que você já não tenha visto antes em dezenas de outras produções de ação. Claro que a música de Elvis Presley tocando o tempo todo é uma delícia mas só isso não basta para transformar essa produção em um bom filme. Kevin Costner e Kurt Russell são atores bacanas, não há como negar, mas seus personagens são bem vazios e desprovidos de um melhor tratamento. Russell está até bem mais à vontade do que Costner, uma vez que esse é o seu estilo de filme, afinal ele estrelou várias produções de ação ao longo de sua carreira. Além disso quando era apenas um garotinho ele participou de um filme de Elvis Presley! Isso mesmo! Russell já contracenou com o Rei em pessoa! Foi em 1963. Em uma cena muito engraçada ele dava uns pontapés no personagem de Elvis que queria dar em cima de uma enfermeira e precisava de uma desculpa para ir até onde ela trabalhava. Foi um chute e tanto nas canelas mais famosas da história do Rock! Já Kevin Costner aparece bem desconfortável. Não é a praia dele, que sempre preferiu trabalhar em outros gêneros, dramas em sua maior parte. Além disso a calvície pesa na hora de se vestir como Elvis Presley, que afinal de contas entrou para a história por causa de seu volumoso e brilhante topete. Enfim, chega de devaneios. “3000 Milhas Para o Inferno” é mais do mesmo. Nada de novo no front, ou melhor, em Graceland. O velho e bom Elvis merecia coisa melhor!

3000 Milhas Para o Inferno (3000 Miles To Graceland, EUA, 2001) Direção: Demian Lichtenstein / Roteiro: Demian Lichtenstein, Richard Recco / Elenco: Kurt Russell, Kevin Costner, Courteney Cox, Christian Slater, Kevin Pollak, David Arquette, Jon Lovitz, Ice-T / Sinopse: Grupo de criminosos se aproveita de uma grande convenção de imitadores de Elvis Presley em Las Vegas para cometer um grande roubo em um dos hotéis cassinos mais luxuosos da cidade.

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.

Um Tira da Pesada 2

Por falar em filmes policiais engraçadinhos da década de 80 que tal relembrar esse enorme sucesso de bilheteria estrelado pelo comediante Eddie Murphy? Infelizmente hoje em dia Murphy está completamente decadente, aparecendo em verdadeiras bombas, filmes horríveis que geralmente se tornam grandes fracassos mas nos anos 80 ele era o queridinho da indústria cinematográfica americana. Egresso do popular programa de TV Saturday Night Live, Murphy encarnava  um tipo de humor mordaz mas até bem comportado se formos comparar com outros humoristas negros de sua época. Assim, diante de um humor mais leve ele logo caiu no gosto popular dos brancos e se tornou um sucesso de popularidade. Sair da TV e ir para o cinema era apenas questão de tempo e Murphy fez excepcionalmente bem essa transição. Após largar o programa de TV ele assinou com a poderosa Paramount a realização de uma série de filmes, que se tornariam grandes êxitos populares nos anos que viriam. A série “Um Tira da Pesada” foi seu auge. A idéia era colocar um policial negro da barra pesada Detroit na sofisticada Beverly Hills, com toda aquela gente ricaça e esnobe. O choque cultural ao ver os métodos do tira Axel Foley (Murphy) no meio da grã finada era o grande trunfo do filme.

De fato deu muito certo. Se o primeiro já havia sido bem recebido, esse aqui, com muitos mais recursos e publicidade, se tornou um dos mais rentáveis da década. Eddie Murphy se viu assim disputando os cachês milionários da época lado a lado com Sylvester Stallone ou Arnold Schwarzenegger. Tão empolgado ficou com sua enorme fama e sucesso que disparou: “A década de 50 foi de Elvis Presley, a década de 60 dos Beatles e a década de 80 foi de Eddie Murphy”. Não há como negar que Murphy seja realmente talentoso e engraçado principalmente nessas suas primeiras produções no cinema (que também faziam enorme sucesso no milionário mercado de vídeo VHS para consumo domiciliar). O problema é que, como sempre acontece aliás, o sucesso lhe subiu à cabeça e Eddie começou a ter acessos de egolatria, escolhendo projetos equivocados que não mais fizeram sucesso.  Nem sua tentativa de fazer um humor mais ácido com suas apresentações ao vivo (que também viraram vídeos de sucesso) reverteram o lento e gradual declínio de seu sucesso comercial. A década de 80 chegou ao final e com ele os melhores anos da carreira de Eddie Murphy. Ele foi de certo modo substituído pelo gosto do público americano por outro negro, que também vinha da TV e estourou de uma hora para outra nos cinemas. Seu nome? Will Smith. Rei morto, rei posto. Mesmo assim fica a dica: “Um Tira da Pesada 2”, uma produção de uma época em que Eddie Murphy poderia se considerar um Rei em Hollywood, sem exagero algum.

Um Tira da Pesada 2 (Beverly Hills Cop II, 1987) Direção: Tony Scott./ Roteiro: Larry Ferguson, Warren Skaaren / Elenco: Eddie Murphy, Judge Reinhold, Jürgen Prochnow, Ronny Cox, John Ashton, Brigitte Nielsen, Allen Garfield, Dean Stockwell./ Sinopse: Axel Foley (Eddie Murphy) é um tira de Detroit que vai até Beverly Hills para investigar uma quadrilha especializada em tráfico de armas. Chegando lá se une aos tiras mauricinhos do Departamento de Polícia de Los Angeles e se mete em várias confusões.

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.

Tocaia

Na década de 80 a Touchstone Pictures se tornou o braço adulto do império Disney. As produções dessa companhia, embora feitas para o público acima dos 16 anos,  ainda eram leves, divertidas e realizadas para toda a família. Nada de palavrão, nem de situações ofensivas. Tudo era light e soft. Dentro do selo vários atores fizeram bastante sucesso como os dois protagonistas desse delicioso policial com várias pitadas de comédia. Estamos falando da dupla Emilio Estevez e Richard Dreyfuss. Esse tipo de roteiro que explorava a diferença de personalidade entre dois policiais já não era nenhuma novidade na época (basta lembrar de “Máquina Mortífera”) mas a boa química entre esses atores garantiram uma ótima diversão. Na deliciosa trama acompanhamos dois tiras, Chris (Richard Dreyfuss) e Bill (Emilio Estevez), que recebem a missão de vigiar a casa onde mora Maria (Madeleine Stowe), ex-namorada de um criminoso foragido da lei. A chamada tocaia é sempre uma operação de muita paciência e espera e aqui a dupla passa por vários apuros para transformar sua missão em um sucesso. Escondidos na casa em frente e armados com potentes equipamentos de espionagem eles esperam... esperam... e esperam um pouco mais. Tudo em nome da possibilidade de colocar as mãos no criminoso.

Como sempre acontece nesse tipo de filme temos no roteiro dois policiais com personalidades bem opostas. Bill (Estevez), o tira mais jovem, é quadrado, certinho e procura seguir todos os procedimentos e protocolos de sua corporação policial. Já o veterano Chris (Dreyfuss) é o extremo oposto disso. Fanfarrão e pouco avesso a seguir as normas ao pé da letra ele acaba fazendo o impensável ao se relacionar com a mulher que está vigiando. Isso obviamente vai contra todas as regras da polícia. O que poderia se tornar bem cansativo – assistir a uma dupla de policiais em tocaia – logo se torna uma ótima diversão justamente por causa das atitudes fora dos padrões de Chris. “Tocaia” é aquele tipo de filme que você não cria maiores expectativas mas acaba gostando muito por causa do roteiro bem escrito e das situações bem armadas e desenvolvidas. Os atores em cena também ajudam muito. Dreyfuss é ótimo para interpretar personagens assim, a do cara mais velho e nada responsável ou maduro. Idem para Estevez (filho de Martin Sheen e irmão de Charlie Sheen) que faz o tira nerd e careta. Do choque entre eles teremos as melhores cenas do filme. O resultado é dos mais simpáticos e agradáveis e isso tudo se reverteu na excelente bilheteria – que daria origem a uma continuação bem inferior e sem idéias novas. De qualquer forma se você quiser conhecer um policial divertido e bem humorado da década de 80 procure por “Tocaia”, uma produção que diverte bastante e mostra que nem só de “Um Tira da Pesada” vivia o gênero naqueles anos.

Tocaia (Stakeout, EUA, 1987) Direção: John Badham / Roteiro: Jim Kouf / Elenco: Richard Dreyfuss, Emílio Estevez, Madeleine Stowe, Aidan Quinn, Dan Lauria, Forest Whitaker, Earl Billings./ Sinopse: Dois policiais, um jovem e um veterano, ficam de tocaia na frente da casa de uma ex-namorada de um fugitivo perigoso procurado pelo FBI. O que começa como uma simples operação de rotina acaba virando um caos após um dos tiras decidir, de forma irresponsável, se envolver com a mulher que é justamente o foco de sua investigação.

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Doze Homens e Outro Segredo

Essa franquia de sucesso mais parece uma reunião de amigos em um fim de semana do que qualquer outra coisa. E pensar que tudo começou lá na década de 1960 quando Frank Sinatra mandou o estúdio escrever um roteiro que pudesse contar com todos os seus amigos do “bando de ratos”, a saber: Dean Martin, Sammy Davis Jr e todo o resto da trupe. O filme original também tinha esse ar descompromissado que foi repetido aqui nessa nova franquia. Só que sai Sinatra e entra George Clooney. Ator bem relacionado em Hollywood com vários amigos no meio ele conseguiu reunir um time de estrelas do primeiro escalão de Hollywood para rodar inicialmente o remake do filme de Sinatra. Só depois do grande sucesso daquela produção foi que o estúdio teve a oportuna idéia de realizar continuações, até porque em Hollywood o que faz sucesso vira franquia imediatamente. O dinheiro é que manda! O primeiro filme é bem realizado, com direção correta e bom roteiro mas em nenhum momento chega a ser surpreendente ou marcante. No final das contas apenas diverte – e era justamente essa a intenção de seus realizadores. Já essa seqüência para falar a verdade não traz mais nada de novo. A verdade pura e simples é que não tinham mais nenhuma estória para contar então realizaram uma espécie de remake do remake (por mais estranho que isso possa parecer!).

Aqui Danny Ocean (George Clooney) resolve viver longe do mundo da criminalidade. Casado com Tess (Julia Roberts) ele só quer mesmo paz e tranqüilidade. As coisas começam a mudar quando o ex-marido de Tess, o almofadinha Terry Benedict (Andy Garcia), resolve recuperar todo o dinheiro que lhe foi roubado pelo grupo de Danny Ocean no primeiro filme. Ao mesmo tempo Ocean resolve se precaver e muda de idéia, resolvendo reunir novamente seus comparsas para aquele que seria o super roubo de sua carreira. O alvo dessa vez porém fica na Europa. Nesse ínterim a agente do FBI Isabel Lahiri (Catherine Zeta-Jones) começa o seu acerto de contas contra Rusty (Brad Pitt), um dos membros da equipe de Ocean. Seguem-se as costumeiras perseguições, cenas espetaculares e muita ação. Assim temos mais do mesmo. O roteiro se concentra nos preparativos do grande assalto enquanto os demais personagens apenas passeiam em cena. Um dos problemas dessa franquia é justamente esse, o excesso de personagens. Com tanta gente em cena ao mesmo tempo nenhum papel chega a ser bem desenvolvido, nem o de Ocean (Clooney). Júlia Roberts e Catherine Zeta-Jones não acrescentam em nada ao resultado final e mais parecem penetras no clube do Bolinha de Clooney. Os atores também não parecem levar nada à sério, em especial Brad Pitt que mais parece estar de férias na Europa. Se não é para ser levado à sério então porque o espectador vai se importar? Mesmo assim até que funciona como passatempo ligeiro, leve, mesmo que você esqueça tudo o que assistiu dois minutos depois do filme terminar.

Doze Homens e Outro Segredo (Ocean's Twelve, EUA, 2004) Direção: Steven Soderbergh / Roteiro: George Nolfi / Elenco: George Clooney, Andy Garcia, Brad Pitt, Julia Roberts, Matt Damon, Catherine Zeta Jones, Vincent Cassel, Don Tiffany / Sinopse: Mais uma vez o grupo liderado por Dany Ocean (George Clooney Resolve partir para um grande roubo, só que dessa vez na Europa.

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.

Now Is Good

“Now Is Good” é um filme muito, muito triste. Isso não significa que seja ruim, pelo contrário. É uma produção muito interessante. A estória narra a luta de uma jovem inglesa que tenta levar sua vida em frente após ser diagnosticada com um agressivo câncer. Em plena adolescência ela tem que enfrentar toda essa situação de frente, com coragem e determinação. Ao mesmo tempo ela vai vivenciando as experiências típicas da idade, como o primeiro amor e os laços de amizade com sua principal amiga e confidente. Infelizmente tudo isso vem acompanhado da triste realidade de sua doença, que é terminal.  O problema se agravou porque ela, por livre e espontânea vontade, resolveu rejeitar o tratamento por quimioterapia pois a fazia passar muito mal. Assim ela prefere conscientemente viver menos mas privilegiando o pouco de qualidade de vida que ainda lhe resta. Pela sinopse já deu para perceber que estamos na presença de um daqueles dramas de tintas fortes. Não há outra definição pois tudo é muito triste e sofrido. O filme foi bem recebido em seu lançamento na Inglaterra (a produção é inglesa) e ganhou fartos elogios da imprensa britânica. De fato o tema da doença terminal da jovem é mostrado de forma muito delicada e sutil, sem apelações desnecessárias. Sabemos que ela não conseguirá superar sua doença mas isso não a impede de viver seus últimos momentos da melhor forma possível. Tentar ser feliz, acima de tudo. Para isso ela escreve uma lista das coisas que gostaria de fazer antes de morrer. Entre tantas coisas típicas de uma adolescente algumas dessas “tarefas” se sobressaem pela espiritualidade e bom humor e mostram que ela é de fato apenas uma adolescente com sonhos e anseios tão característicos nessa fase da vida.

Dakota Fanning  está muito bem no papel de Tessa, a jovem que sofre de leucemia e que por isso está com seus dias contados. Sua personagem é esperta, espirituosa e apesar da pouca idade procura levar a vida na normalidade. Para se ter uma idéia, uma das primeiras coisas que decide fazer após ser diagnosticada é largar a escola pois em suas próprias palavras “deve existir algum privilégio para doentes terminais”. Como se vê o humor negro britânico continua em alta! Seu partner em cena é um tanto quanto medíocre mas não compromete muito pois “Now is Good” pertence mesmo a Dakota. Esqueça aquela garotinha que você via em filmes de alguns anos atrás. Ela cresceu e mostra muito talento em cada momento que surge em cena. A direção também é extremamente correta, procurando abrir uma ponte de diálogo com os mais jovens.  Apesar do tema forte que pode entristecer alguns espectadores irei recomendar o filme e isso por algumas razões importantes. A primeira delas é conscientizar o público de que o drama mostrado na tela faz parte da vida de centenas de milhares de jovens que são diagnosticados com câncer todos os anos. Assim o filme expõe essa situação tão delicada – e da melhor forma possível, sem exageros melodramáticos e nem sensacionalismo. A segunda e mais importante razão é mostrar como nossa vida aqui nesse plano material é fugaz! Nunca se pode perder a consciência de que estamos de passagem nesse mundo. A vida muitas vezes se comporta como a areia que escorrega entre os dedos de nossas mãos. Por isso nunca a desperdice de forma leviana. Aprenda a cultivá-la da melhor forma possível. Saiba que a vida é um presente da natureza para você e se comporte como tal. Como a própria personagem principal do filme explica, a vida é feita de momentos e alguns desses momentos são preciosos. Por isso saiba sempre dar valor a cada um deles, todos os dias. A morte, por mais devastadora que seja, serve também para nos lembrar de quão preciosa é o milagre da vida! Essa é sem dúvida a grande lição desse filme.

Now Is Good (Idem, Inglaterra, 2012) Direção: Ol Parker / Roteiro: Ol Parker baseado no livro "Before I Die" de  Jenny Downham / Elenco: Dakota Fanning, Kaya Scodelario, Rose Leslie / Sinopse: Jovem adolescente é diagnosticada com leucemia, um agressivo tipo de câncer. Em estado avançado e com pouco tempo de vida ela tenta levar sua juventude com normalidade. Conhece e se apaixona por seu vizinho, um rapaz de bom coração. Agora sua luta será para viver bem o pouco tempo de vida que lhe resta.

Pablo Aluísio.