sábado, 19 de dezembro de 2009

História - 1967 e o Verão do Amor

Em 1967 ocorreu a primeira transmissão ao vivo por satélite da história. O evento contou com a presença dos Beatles que naquela ocasião cantaram uma música inteiramente composta apenas para a apresentação: All You Need is Love. A canção pacifista e lírica trazia uma mensagem positiva por parte do grupo britânico ao mundo. A transmissão foi gerada diretamente pela BBC de Londres para 26 países ao redor do mundo. Anos depois Elvis Presley utilizaria da mesma tecnologia para cantar ao vivo ao mundo em seu show Aloha From Hawaii. A mensagem dos Beatles certamente repercutiu, pois foi justamente em 1967 que aconteceu o famoso verão do amor (The Summer of Love). Em poucos meses de intervalo um grande grupo de artistas surgiu e outros, já consagrados, lançaram discos fenomenais, gerando na música mundial uma verdadeira transformação cultural.

O Rock deixou seu lado mais juvenil de lado e investiu pesado no psicodelismo. O álbum primordial nessa transformação foi justamente o antológico LP dos Beatles, Sgt Peppers Lonely Hearts Club Band. Esse disco certamente mudou o mundo da música para sempre, pois da noite para o dia o Rock, antes um gênero visto com reservas pela crítica musical, passou a servir de referência e paradigma do bom gosto e qualidade sonora. Porém a revolução não parou no quarteto britânico. Outros grupos essenciais ao psicodelismo surgiram com seus primeiros álbuns comerciais nas lojas: Pink Floyd e The Doors. O Pink Floyd, liderado pelo enigmático (e alucinado) líder Syd Barrett, chegava aos ouvidos do grande público com um disco diferente de tudo o que havia no mercado: The Piper At The Gates of Dawn. Embora o grupo se tornasse nos anos que viriam o maior símbolo do Rock Progressivo, em 1967 ele ainda era na essência um grupo psicodélico por excelência. Outro grupo também rompeu barreiras sonoras: Os Doors. Investindo fundo em poesia, o grupo de Jim Morrison trazia em suas letras temas que jamais antes havia sido explorado pelo mundo do Rock.

Para muitos críticos 1967 significou antes do que qualquer coisa uma verdadeira virada artistica do mundo da música. A lista de grandes astros que surgiu nesse ano fala por si: Jimi Hendrix, Janis Joplin, The Velvet Underground, David Bowie, Jimi Hendrix, Bee Gees, Creedence Clearwater Revival e Genesis. Em poucos períodos da história tivemos a oportunidade de ver tanta gente talentosa surgindo ao mesmo tempo. Realmente 67 foi um ano que jamais será esquecido do ponto de vista cultural.

Pablo Aluísio.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Pink Floyd - Wish You Were Here

Wish You Were Here foi o disco sucessor do grande sucesso do Pink Floyd, The Dark Side Of The Moon. Por essa razão as expectativas em torno de seu lançamento eram enormes. De qualquer forma havia por parte da banda e público uma certa confiança que o fantástico trabalho desenvolvido em Dark Side teria um sucessor à altura. Realmente era consenso entre todos que o Pink Floyd havia finalmente encontrado seu caminho. Depois da saída do líder Syd Barrett o grupo ficou meio perdido, sem saber que rumo tomar. Em razão disso participou de projetos experimentais, compôs trilhas sonoras para filmes etc, mas depois do grande sucesso do álbum The Dark Side Of The Moon o caminho estava definido. Foi justamente na década de 70 em que o Pink Floyd finalmente entrou na galeria das grandes bandas de rock. Abraçando o Rock Progressivo definitivamente (embora alguns neguem que o Pink Floyd seja na essência um grupo dessa vertente do rock), o Floyd iria seguir uma linha de trabalho nesses anos que era de certo modo à prova de falhas, tanto do ponto de vista comercial como artístico. O álbum da virada talvez tenha sido Atom Heart Mother, ainda um tanto experimental, mas mostrando claramente uma coerência de estilo. O disco fez sucesso, embora hoje Roger Waters e David Gilmour não o considere isento de críticas. Depois dele Meddle consolidou esse novo estilo musical do grupo o que desembocaria na consagração com Dark Side.

Com Wish You Were Here o grupo deu continuidade aos trabalhos. O álbum só possui 5 faixas, o que era o número médio de músicas utilizadas em EPs (compactos duplos) na época. Além dessa singularidade as canções eram de longa duração, o que para o convencionalismo reinante naqueles anos era sinal de morte nas paradas, pois nenhuma rádio iria tocar canções tão longas como aquelas em sua programação. Para bandas comerciais todas essas regras eram seguidas à risca, mas não para o Pink Floyd, que já trazia há tempos em seus discos faixas nesse estilo. Afinal ser Progressivo era prezar pela virtuose, pela minuciosa elaboração de arranjos, numa simbiose bem próxima ao gênero erudito e clássico. O grande destaque do disco é a canção Shine On You Crazy Diamond, que abre e fecha o álbum. Dividido em partes, tal como acontece nas músicas e peças eruditas, a música virou símbolo da melhor fase do grupo. A canção havia sido composta em homenagem a Syd Barrett, naquela altura completamente entregue à doença mental que o levou a sair da banda. Reza a lenda que Syd chegou a aparecer nos estúdios durante a gravação de um dos álbuns do Pink Floyd, completamente careca e fora de si. O fato chocou tanto os membros do grupo que eles resolveram homenagear seu antigo líder com essa faixa.

Já a canção título do álbum não foi, como alguns pensam, também composta para Syd. O próprio Roger Waters esclareceu que Wish You Were Here foi na realidade composta em homenagem a seu pai, morto em combate. Embora esse fato tenha dado origem a um dos mais fracos trabalhos do grupo, com The Final Cut, aqui tudo soa maravilhosamente bem e coeso. Sem dúvida a canção é um dos clássicos absolutos da banda britânica. O álbum fecha seu ciclo com duas outras ótimas canções, Welcome To The Machine (uma crítica à indústria musical e à sociedade industrial como um todo) e Have a Cigar (outra canção com temática crítica em relação ao chamado Show Business). Embora tenha sido rotulado como um álbum conceitual baseado em perda e saudade, Wish é muito mais do que isso. É um trabalho complexo, extremamente rico do ponto de vista musical e que deve ser conhecido por quem gosta de boa música. Um sucessor digno da grandiosidade de The Dark Side of The Moon.

Wish You Were Here (1975)
1. Shine On You Crazy Diamond (Parts I–V)
2. Welcome to the Machine
3. Have a Cigar
4. Wish You Were Here
5. Shine On You Crazy Diamond (Parts VI–IX)

Pablo Aluísio.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Pink Floyd - The Dark Side Of The Moon

Esse álbum é a obra prima do Pink Floyd. Até hoje impressiona pela criatividade, inovação e som atemporal. Fruto de um trabalho verdadeiramente coletivo, onde todos os membros da banda colaboraram de igual para igual, o Dark Side representa finalmente o caminho que o Floyd vinha procurando desde a saída de seu fundador e mentor Syb Barrett. Enlouquecido pelo abuso de drogas o primeiro líder do Pink Floyd saiu muito cedo de cena deixando os demais membros perdidos, sem saber qual rumo tomar. Nos primeiros anos sem Barrett o Floyd tentou trilhar vários caminhos, gravou trilhas sonoras, flertou com a música puramente instrumental e tentou unir música erudita com Rock. Todas essas experimentações levaram o grupo a ter um som único, inigualável, diferente de tudo o que havia na época. Experimentalismo como dogma musical. Foi quando o Rock Progressivo cruzou o caminho dos rapazes do Floyd que eles finalmente entenderam por onde deveriam seguir. E foi justamente lá, no ladro escuro da Lua, que eles finalmente se encontraram musicalmente. O disco nasceu do trabalho árduo de todos os músicos. Antes de Roger Waters enlouquecer com acessos de egomania, a banda conseguiu trabalhar como nunca antes (ou depois). Durante seis meses eles tentaram tudo, experimentaram de tudo, até chegarem a um material que consideravam o ideal para a composição de seu novo disco. O resultado dessa ajuda mútua e solidariedade é um dos discos mais importantes da história do rock. Se há algum trabalho que mereça o adjetivo de “perfeito” esse é certamente “Dark Side of The Moon” do Pink Floyd.

Depois de vários meses de ensaio e gravação o disco finalmente chegou nas lojas em março de 1973. Sua sonoridade ímpar caiu como uma bomba nuclear no mercado fonográfico. Os críticos levaram meses para entender a proposta do disco (alguns não entenderam até hoje) e o Dark finalmente ganhou status de grande arte. Não é para menos, temos aqui um álbum para ser digerido aos poucos, em camadas, sem pressa nenhuma. É como degustar aquele vinho raro de sua adega. Não cabem interpretações superficiais e rasteiras em um trabalho dessa envergadura. Até hoje o disco levanta debates acalorados. Até questões básicas, como por exemplo, qual seria seu tema principal, levanta debates sem fim. Afinal qual é o conceito por trás de “The Dark Side Of The Moon”? É um disco sobre o enlouquecimento de Syd Barrett? É uma sonorização do filme “O Mágico de Oz”? É uma apologia ao uso de drogas lisérgicas? É uma busca de autoconhecimento através da música? Do que diabos o álbum trata? Bom, não responderei a essas perguntas pois cabe a cada ouvinte formular sua própria tese baseado na experiência de ouvir o disco. Tirando as questões metafísicas e filosóficas de lado e focando apenas na questão puramente comercial (Money?), é importante dizer que esse é um dos trabalhos musicais mais bem sucedidos da história com mais de 50 milhões de cópias vendidas após todos esses anos. Sinceramente falando? Esqueça tudo isso e o coloque para tocar – “The Dark Side Of The Moon” é aquele tipo de obra que deve ser mais sentida do que explicada. O sentimento supera a razão nesse caso. Palavras são tão insuficientes. Ouça e embarque em sua própria jornada pessoal. Boa viagem! 

Pink Floyd - The Dark Side Of The Moon (1973)
Speak to Me
Breathe
On the Run
Time
The Great Gig in the Sky
Money
Us and Them
Any Colour You Like
Brain Damage
Eclipse

Pablo Aluísio.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Pink Floyd - The Piper at the Gates of Dawn

A genialidade e a loucura são as duas faces de uma mesma moeda e o fundador e líder do Pink Floyd, Syd Barrett, comprovou isso com sua própria vida. Antes de enlouquecer completamente pelo uso abusivo das drogas lisérgicas tão em moda na época, ele teve tempo de registrar seu talento para a posteridade gravando o primeiro álbum de seu grupo chamado The Piper at the Gates of Dawn. O grupo formado em 1965 já tinha longa tradição no underground britânico, explorando um som inovador e de vanguarda, estando à frente de seu tempo com um som extremamente experimental e ousado. Syd Barrett, à frente do Floyd, não teve medo de arriscar, testando sonoridades, acrescentando sons eletrônicos, fazendo com que o Pink Floyd se tornasse uma experiência única, sem paralelos com nenhum outro grupo de rock da época. Tanto experimentalismo fez com o conjunto só tivesse a oportunidade de gravar seu primeiro disco no final de 1967. Nos estúdios, com todas as possibilidades da tecnologia de gravação à disposição, Barrett levou até as últimas consequências suas idéias.

Na maioria das músicas foi extremamente feliz, embora o excesso de psicodelismo e experimentalismo tenha prejudicado algumas das faixas, como por exemplo "Pow R. Toc H.", maluca demais até mesmo para um sujeito com um parafuso a menos como Barrett. Entre os destaques do disco temos "Astronomy Domine" que iria definir para sempre o som do grupo britânico, trazendo influência a todos os seus álbuns posteriores, com destaque para a obra prima Dark Side Of The Moon; "Interstellar Overdrive" que mostraria o virtuosismo instrumental dos membros da banda, "Chapter 24", uma das faixas mais acessíveis aos ouvintes e a ultra psicodélica "Bike", lembrando muito faixas do disco Sgt Peppers dos Beatles como "Being For The Benefit Of Mr Kite". Infelizmente a fase Syd Barrett iria durar pouco. O líder do Pink Floyd logo iria perder o sentido de realidade, sendo afastado do grupo meses depois. Sem a mente pensante de Barrett os membros restantes do Floyd iriam passar por uma fase de transição, sem saber direito que rumo tomar. Com Roger Waters e David Gilmour à frente do grupo, o Pink Floyd só iria reencontrar seu rumo definitivo anos depois, em plenos anos 70, onde se consagraria com alguns dos discos mais essenciais da história da música, gerando o nascimento do Rock Progressivo. Mas essa é uma outra história, que começou bem antes, aqui nesse álbum, fruto dos delírios geniais de Syd Barrett.

Pink Floyd - The Piper at the Gates of Dawn
Astronomy Domine
Lucifer Sam
Matilda Mother
Flaming
Pow R. Toc H.
Take Up Thy Stethoscope and Walk
Interstellar Overdrive
The Gnome
Chapter 24
Scarecrow
Bike

Pablo Aluísio.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Paul Newman

Quando Paul Newman faleceu em 26 de setembro de 2008 muitos jornalistas escreveram que ele seria o último membro da geração de Marlon Brando e James Dean. Não era bem assim. Newman pode ser considerado, no máximo, uma espécie de caçula daquele grupo fantástico de atores que despontaram nas telas de cinema nos anos 50. Embora no começo de sua carreira o ator tenha sido fortemente influenciado pelo estilo de interpretação de Brando e cia, ele só se firmou e criou identidade na segunda metade daquela década. Foi com "Marcado pela Sarjeta" que Newman finalmente encontrou o seu próprio estilo, criando a imagem que todos conhecemos. Esse tenso drama havia sido escrito inicialmente para ser estrelado por James Dean, que chegou inclusive a elogiar o personagem em entrevistas antes do trágico acidente que o vitimou. Com o falecimento de Dean, o papel foi parar nas mãos de Newman que não desperdiçou a grande oportunidade.

Seu segundo grande papel porém só veio após três outros longas, em “Mercador de Almas”. Essa é a primeira grande interpretação do ator. O personagem em si é um presente, um sujeito sem qualquer tipo de valor moral, que quer apenas subir na vida, não importando em nenhum momento os meios para atingir seus objetivos. Com ele Newman foi premiado no prestigioso Festival de Cannes e consolidou-se como um dos mais talentosos astros de Hollywood. Depois disso foi uma sucessão de grandes momentos: “Desafio a Corrupção”, “O Doce Pássaro da Juventude”, “Rebeldia Indomável” e o famoso filme em que foi dirigido por Hitchcock, o drama de espionagem “Cortina Rasgada”. No final da década de 60 estrelou ainda o grande sucesso de toda a sua filmografia: “Butch Cassidy”, onde ao lado do parceiro Robert Redford recriou um dos grandes mitos da história do western americano. A parceria inclusive renderia outro grande sucesso, “Golpe de Mestre”, delicioso filme que foi merecidamente consagrado pelo Oscar.

Citar a longa lista de grandes filmes estrelados por Paul Newman soa desnecessário. Newman foi um caso raro de astro que não perdeu o pique ao longo dos anos. Mesmo quando já estava com uma certa idade nunca deixou de estrelar boas produções. Também foi singular em sua vida pessoal. Foi casado por longos anos com a mesma mulher, a talentosa atriz Joanne Woodward, tendo inclusive estrelado vários filmes ao seu lado ao longo da carreira. Quando perguntado como conseguia ser fiel em Hollywood, Newman se saía com uma tirada bem humorada: "Para que fazer besteira com hambúrgueres se tenho um filé de primeira em casa?" Porém como nenhuma história é perfeita, Newman também sofreu sua cota de tragédias pessoais, sendo a mais marcante a morte de seu filho Scott, por overdose de drogas, na década de 70.

Paul Newman deixou sua marca certamente. Ao contrário da introspecção de um Montgomery Clift, dos dramas pessoais de um James Dean ou da paixão de um Marlon Brando, Newman preferiu abraçar personagens menos profundos e atormentados, fazendo geralmente sobreviventes do dia a dia, pessoas que tentavam vencer as adversidades da vida da melhor forma possível e com os meios que tinham ao alcance das mãos. Foi reconhecido tardiamente pela academia ao ganhar o Oscar por "A Cor do Dinheiro", filme que estrelou ao lado de Tom Cruise. De qualquer forma antes tarde do que nunca. No fim da vida anunciou sua aposentadoria com muita dignidade ao afirmar: "Eu não sou capaz de trabalhar mais, não no nível em que eu quero. Você começa a perder sua memória, você começa a perder sua confiança, você começa a perder sua invenção. Então eu acho que o livro fechou para mim". De qualquer forma uma coisa é certa, o ciclo de sua obra jamais se fechará pois certamente sempre será renovada no interesse das novas gerações de cinéfilos que conhecerão sua extensa e rica filmografia nos anos que virão.

Filmografia Essencial:
Marcado pela Sarjeta
O Mercador de Almas
Gata em Teto de Zinco Quente
Desafio à Corrupção
Doce Pássaro da Juventude
O Indomado
Rebeldia Indomável
Butch Cassidy & Sundance Kid
Golpe de Mestre
O Veredito
A Cor do Dinheiro
Na Roda da Fortuna
Estrada Para Perdição

Pablo Aluísio.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Doris Day

Recentemente andei navegando na internet atrás de informações da atriz Doris Day. Quem gosta de filmes dos anos 50 e 60 vai imediatamente relembrar seus antigos clássicos onde geralmente interpretava garotas românticas que procuravam a felicidade sem perder sua grande virtude. No meio ela acabou sendo inclusive apelidada de "A Virgem Profissional" por isso pois ao contrário de Marilyn Monroe sempre representou o lado mais doce e angelical das mulheres dos anos dourados nas telas. Pois bem, eu estava procurando informações sobre seus filmes quando me deparei com várias reportagens em sites americanos mostrando uma foto atual dela, aos 84 anos, tirada por um paparazzi quando ele saía de uma loja de vendas de produtos veterinários na Califórnia.

O pior nem é o fato de usar sua imagem assim, sem nenhuma autorização, mas sim o uso de uma linguagem debochada e vulgar nos textos. É completamente ridículo, na minha forma de pensar, que um pseudo jornalista de um desses sites de fofocas fique fazendo observações imbecis e chacotas em torno da imagem que ela tem atualmente. Nem ao menos possuem a dignidade de respeitar as pessoas mais velhas. O que essas pessoas queriam? Que Doris aparentasse da mesma forma que nos anos 50?! O tempo passa para todos e o fato dela estar envelhecida em nada a desmerece. Pelo contrário, pela vida que levou Doris é uma vencedora pois enfrentou diversos dramas ao longo dos anos e os superou com muita dignidade.

Seu último marido faleceu e seu filho morreu de câncer há alguns anos atrás. Com tantos dramas pessoais Doris mudou seu nome - é conhecida como Clara nas vizinhanças - e mora solitária em seu rancho. Assim como outra diva do cinema, Brigite Bardot, ela também abraçou a causa animal e hoje compartilha sua vida com vários gatos e cães. O direito norte-americano é extremamente falho nesse ponto. As pessoas famosas são invadidas em sua vida pessoal e viram motivo de escárnio pelos urubus da imprensa marrom. No Brasil as leis são mais duras em relação ao direito constitucional de se resguardar a vida privada e familiar de cada indivíduo. Do que interessa ao público o fato de Doris hoje viver isolada e solitária em sua propriedade? É um direito dela, não sujeito a aprovação ou desaprovação de qualquer um que seja. Se ela desejou se retirar da vida pública todos devem respeitar sua escolha e ninguém tem absolutamente nada com isso. Deixem essa grande artista, que tanto trabalhou no cinema e no mundo da música, desfrutar de sua velhice em paz e longe dos holofotes. Só assim o que determina a carta magna (a nossa e a deles) será plenamente respeitada.

Pablo Aluísio.

domingo, 13 de dezembro de 2009

O Príncipe Encantado

Nobre regente (Laurence Olivier) conhece jovem corista (Marilyn Monroe) em um show de variedades e a convida para jantar em sua residência oficial em Londres. O encontro acaba trazendo inúmeras consequências para ambos durante os dias seguintes. Essa sinopse não esconde a verdadeira vocação de "O Príncipe Encantado". É um texto teatral e o filme não nega sua origem. Grande parte das cenas se passa em ambiente fechado e em cena duelam (no bom sentindo) o formalismo profissional de Laurence Olivier e o adorável amadorismo de Marilyn Monroe. Os acontecimentos de bastidores, das filmagens, há anos povoam o imaginário dos cinéfilos. Marilyn, como era de se esperar, causou todo tipo de problemas para Olivier, tantos que essa conturbada filmagem acabou virando um filme próprio que recebeu várias indicações ao Oscar esse ano:: "My Week With Marilyn".

As histórias do set são saborosas mas e o filme? Sim, é uma boa comédia, muito bem produzida com lindos figurinos, cenários, muita pompa e luxo. Marilyn Monroe está encantadora. Apesar dos problemas de saúde ela surge em cena linda e aparentando muita saúde (o que me deixou surpreso). No saldo final considerei sua atuação muito superior á de Laurence Olivier, esse está particularmente travado na interpretação do nobre regente dos balcãs. Já Monroe não, está natural, espontânea. Não causa admiração a declaração que Laurence Olivier fez muitos anos depois da realização do filme reconhecendo que Marilyn estava ótima em "O Príncipe Encantado". Concordo plenamente. Aliás se tem algo que prejudica o filme é justamente a mão pesada do diretor Olivier. Ele demonstra claramente não ter o timing perfeito para Marilyn. O filme se alonga além do que seria razoável e tem barrigas (quebras de ritmo que o levam a certos momentos de monotonia). Pra falar a verdade quem salvou a produção foi realmente Marilyn que em muitos momentos simplesmente carrega o filme nas costas. Quem diria que a amadora Monroe daria uma rasteira no grande Laurence Olivier? Pois deu, e foi em "O Príncipe Encantado". O filme é dela no final das contas. Assista e confira!

O Príncipe Encantado (The Prince and The Showgirl, EUA - Inglaterra, 1957) / Direção de Laurence Olivier / Roteiro de Terence Rattigan / Fotografia de Jack Cardiff / Trilha sonora de Richard Addinsell / Com Laurence Olivier, Marilyn Monroe, Sybil Thorndike, Jeremy Spencer, Richard Wattis / Sinopse: Nobre regente (Laurence Olivier) conhece jovem corista (Marilyn Monroe) em um show de variedades e a convida para jantar em sua residência oficial em Londres. O encontro acaba trazendo inúmeras consequências para ambos durante os dias seguintes.

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.

sábado, 12 de dezembro de 2009

Audazes e Malditos

Braxton Rutledge (Woody Strode) é um sargento negro do exército americano que é acusado de matar um oficial superior. Como se isso não bastasse ainda é apontado também como o assassino e estuprador de uma jovem garota. Para defendê-lo é indicado como advogado de defesa o tenente Tom Cantrell (Jeffrey Hunter). Instaurada a corte marcial todos tentarão desvendar o que realmente teria acontecido. "Audazes e Malditos" é mais um belo western do consagrado diretor John Ford. Geralmente filmes de cavalaria americana sempre dão bons filmes e com Ford na direção não poderia sair outro resultado. Porém o filme se diferencia dos demais que John Ford fez sobre o exército americano. Muita coisa que vemos em sua famosa trilogia da cavalaria não se repete aqui. Em "Audazes e Malditos" temos um autêntico filme de tribunal, só que obviamente passado no velho oeste. Embora haja conflitos entre soldados e Apaches (mostrados em flashbacks) a ação propriamente dita não se desenrola no meio do deserto mas sim em depoimentos, testemunhos e evidências que são apresentadas durante a corte marcial do sargento.

Para um filme assim Ford teve que convocar um bom elenco de atores. Jeffrey Hunter está muito bem no papel do tenente que tenta de todas as formas inocentar o acusado. Para falar a verdade não me recordo de nenhuma outra atuação dele tão boa quanto essa. Era sem dúvidas um bom ator que ficou imortalizado não apenas no papel de Jesus Cristo em "Rei dos Reis" como também por ter sido o primeiro piloto da nave Enterprise no episódio de estreia da série "Jornada nas Estrelas" que na época foi considerada "cerebral" demais para os padrões da TV americana. Uma pena que tenha morrido tão jovem. Outro destaque é a presença de Woody Strode como o sargento negro acusado de assassinato e estupro. Sua postura é das melhores e ele mostra que era excelente ator em pequenos detalhes, no olhar, na convicção e na dignidade. Por todas essas razões recomendo "Audazes e Malditos" não apenas aos fãs de John Ford, esse genial cineasta, mas também a todos que gostam de edificantes tramas jurídicos. Certamente não irão se arrepender.

Audazes e Malditos (Sergeant Rutledge, EUA, 1960) Direção: Jonh Ford / Roteiro: James Warner Bellah, Willis Goldbeck baseado no conto "Shadow of the Noose" de John Hawkins e Ward Hawkins / Elenco: Jeffrey Hunter, Woody Strode, Constance Towers, Carleton Young / Sinopse: Baxton Rutledge (Woody Strode) é um sargento negro do exército americano que é acusado de matar um oficial superior. Como se isso não bastasse ainda é apontado também como o assassino e estuprador de uma jovem garota. Para defendê-lo é indicado como advogado de defesa o tenente Tom Cantrell (Jeffrey Hunter). Instaurada a corte marcial todos tentarão desvendar o que realmente teria acontecido

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Um Certo Capitão Lockhart

Última parceria entre James Stewart e o diretor Anthony Mann, "The Man From Laramie" é um faroeste dos bons. O filme é uma adaptação do conto do escritor Thomas T. Flint que publicou originalmente seu texto nas páginas do Saturday Evening Post. Nos anos 50 era comum a publicação de textos com estórias do velho oeste nos grandes jornais americanos. O sucesso foi tão bom que eles depois começaram a publicar esses textos em forma de livros de bolso (até aqui no Brasil os livrinhos de faroeste de bolso foram extremamente populares). O roteiro também aproveita para se inspirar levemente na peça Rei Lear - o que fica evidente nas relações familiares em torno da família do rico fazendeiro Alec Waggoman (Donald Crisp). Idoso, extremamente rico e ficando cego, ele se preocupa sobre sua sucessão pois seu filho, Dave, é um mimado irresponsável que não sabe lidar com o poder que tem.

James Stewart novamente nos brinda com uma excelente interpretação. Seus personagens em faroestes sempre foram cowboys menos viris do que os interpretados pelo Duke (John Wayne) mas não eram menos éticos e virtuosos. Aqui ele faz um ex capitão do exército americano que acaba se envolvendo em um conflito contra Dave, o herdeiro do clã Waggoman. O curioso é que o roteiro, muito bem trabalhado, traz inúmeras reviravoltas e uma sub trama muito interessante envolvendo contrabando de rifles automáticos para a tribo Apache. O filme é bem cadenciado, com preocupação de se desenvolver todos os personagens e o resultado final é muito eficiente, o que surpreende pois a duração é curta, pouco mais de 90 minutos, o que demonstra que para se contar uma boa estória não é necessário encher a paciência do espectador com filmes longos demais.

Um Certo Capitão Lockhart (Man From Laramie, The, 1955) Direção: Anthony Mann / Roteiro: Philip Yordan, Frank Burt, Thomas T. Flynn / Elenco: James Stewart, Arthur Kennedy e Donald Crisp / Sinopse: Will Lockhart (James Stewart) chega a uma pequena cidade do Novo México para descarregar uma carga de mantimentos para o comércio local. Na volta resolve retirar de uma salina próxima um novo carregamento mas é impedido de forma violenta por Dave Waggoman (Alex Nicol), filho de um rico fazendeiro da região.

Pablo Aluúsio.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Albuquerque

Cole Armin (Randolph Scott) é um cowboy texano que vai até a cidade de Albuquerque para trabalhar ao lado de seu tio, John Armin (George Cleveland). um bem sucedido homem de negócios na região. Durante a viagem a diligência onde se encontra é assaltada por uma quadrilha de bandidos. Quando finalmente chega em seu destino acaba descobrindo que seu tio John teve participação no roubo. Em pouco tempo tio e sobrinho entram em choque por causa do crime ocorrido, ficando em lados opostos da lei. "Albuquerque" é um western ao velho estilo onde tudo funciona muito bem. O roteiro é caprichado, bem desenvolvido, criando situações ora mais dramáticas, ora mais bem humoradas. O lado romântico também não é deixado de lado e aqui Randolph Scott corteja a mocinha Celia Wallace (Catherine Craig). O elenco de apoio é excepcionalmente bom com destaque para George Cleveland como o tio Armin, um vilão mais cerebral do que visceral (tanto que não pega em armas, apenas planeja de longe formas de prejudicar o seu sobrinho). George 'Gabby' Hayes, um veterano nas telas com quase 200 filmes também está excelente como Juke, um velho barbudo e ranzinza que trabalha para o personagem de Randolph Scott. Ele funciona muito bem como alívio cômico dentro da trama.

"Albuquerque" ficou muito conhecido pelo público americano por causa das inúmeras reprises televisivas ao longo de todos esses anos. Na década de 50 a Paramount, produtora do filme, negociou com a Universal a venda dos direitos autorais de mais de 700 faroestes, todos para serem exibidos no canal NBC no período vespertino. "Albuquerque" fazia parte desse pacote. Passando constantemente na TV norte-americana o filme foi criando uma espécie de intimidade com o público, se tornando uma obra muito conhecida e querida entre os fãs americanos de western. Até no Brasil o filme também foi bem reprisado nos primórdios da TV brasileira. Por aqui quando em sua exibição na extinta TV Tupi a produção recebeu o título pomposo de "O Romântico Defensor". Enfim é isso. "Albuquerque" certamente tem todos os ingredientes que fazem um bom western. Além disso seu clima nostálgico é completamente irresistível. Um faroeste dos bons que merece ser conhecido pelos fãs do gênero.

O Romântico Defensor (Albuquerque, EUA, 1948) Direção: Ray Enright / Roteiro: Gene Lewis baseado no romance "Dead Freight for Piute", de Luke Short / Elenco: Randolph Scott, Barbara Britton, George 'Gabby' Hayes, Lon Chaney Jr, Catherine Craig, George Cleveland / Sinopse: Cole Armin (Randolph Scott) é um cowboy texano que vai até a cidade de Albuquerque para trabalhar ao lado de seu tio, John Armin (George Cleveland). um bem sucedido homem de negócios na região. Durante a viagem a diligência onde se encontra é assaltada por uma quadrilha de bandidos. Quando finalmente chega em seu destino acaba descobrindo que seu tio John teve participação no roubo. Em pouco tempo tio e sobrinho entram em choque por causa do crime ocorrido, ficando em lados opostos da lei.

Pablo Aluísio.

Grito de Horror

Seguramente um dos piores filmes sobre lobisomens que já vi - e olha que já vi muita porcaria com esse monstro clássico. De fato, ultimamente tem saído muitos filmes trash sobre Lobisomens, a maioria deles indo parar direto para o mercado de DVD. São filmes bem ruinzinhos, mal feitos, com roteiros nem um pouco brilhantes. Eu pensei de forma equivocada que esse aqui seria uma exceção. Ledo engano. O filme é oportunista até no título. Usando do nome de um filme famoso sobre o tema que surgiu nos anos 80, dirigido por Joe Dante, essa produção de quinta categoria tenta pegar os desavisados. É complicado até mesmo começar a criticar tamanha a falta de qualidade. O elenco é todo formado por jovens inexpressivos, o tal de London Liboiron é um Daniel Radclife com sérias restrições orçamentárias. Sem muito talento faz caras e bocas constrangedoras. A mocinha, bem, dessa nem vou falar. A mãe loba é uma loira até bonita mas sem nada de marcante.

A produção do filme é horrível. Sinceramente tem algo de muito errado num filme de terror de lobisomens em que eles mal aparecem. Quando surgem em cena as câmeras não focam direito neles, obviamente com o objetivo de esconder a pobreza dos efeitos especiais. Os monstros não são digitais, ao invés disso temos literalmente os atores usando máscaras e macacões ao estilo daquelas séries japonesas com Jaspion e Jiraya. Um horror! O "roteiro" (desculpem usar essa palavra) tenta de todas as formas copiar "Crepúsculo" que aliás é infinitamente superior a esse abacaxi, o que dá uma ideia do que é o filme, um horror (no mal sentido). Fujam, corram para as colinas e não percam seu tempo com esse oportunismo descarado!

Grito de Horror (The Howling: Reborn, EUA, 2011) Direção de Joe Nimziki / Roteiro Joe Nimziki, James Robert Johnston / Elenco: London Liboiron, Lindsay Shaw e Jesse Rath / Sinopse: Sinopse: Na trama, um adolescente saindo do colegial finalmente consegue a garota que ele queria há anos, mas, para seu azar, descobre que está amaldiçoado e se transformará em um lobisomem.

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Colt .45

Fitinha rápida estrelada por Randolph Scott para a Warner. Aqui ele interpreta Steve Farrell, um vendedor de armas da fábrica Colt que é roubado em pleno escritório do xerife por um bandido perigoso chamado Jason Brett (Zachary Scott, bem canastrão). Em posse dessas armas roubadas o criminoso forma um bando que fica conhecido como a "Quadrilha do Colt" e começa a assaltar diligências, bancos e moradores da região. Randolph Scott então sai em encalço do grupo de malfeitores. O filme é o que se pode chamar de "Bang Bang" autêntico pois o roteiro realmente foca na ação e nos tiroteios. A fita é curtinha (72 minutos) e foi feita assim visando aumentar as exibições nas matinês dos cinemas dos anos 50. O roteiro é bem simples e vai direto ao ponto, sem firulas.

O elenco de Colt .45 chama atenção por causa da presença de Lloyde Bridges (o pai de Beau e Jeff Bridges). Seu papel é um tanto secundário mas ele se esforça para ser notado. Como sua esposa a estrelinha Ruth Roman, amiga pessoal de Randolph Scott que apesar da extensa filmografia (mais de cem filmes!) nunca conseguiu se tornar uma estrela de primeira grandeza. O diretor Edwin L. Marin era muito produtivo mas morreu pouco tempo depois da realização desse filme. Era um diretor de estúdio e fazia o que lhe era pedido pelos produtores. Realizador competente conseguiu bons resultados mesmo em produções B. Enfim, um faroeste bang bang legítimo, eficiente e divertido. Vale a pena assistir.

Colt .45 (Colt .45, EUA, 1950) Dirreção: Edwin L. Marin / Roteiro: Thomas W. Blackburn / Elenco Randolph Scott, Ruth Roman, Lloyde Bridges e Zachary Scott / Sinopse: Steve Farrell (Randolph Scott), um vendedor de armas da fábrica Colt que é roubado em pleno escritório do xerife por um bandido perigoso chamado Jason Brett (Zachary Scott, bem canastrão). Em posse dessas armas roubadas o criminoso forma um bando que fica conhecido como a "Quadrilha do Colt" e começa a assaltar diligências, bancos e moradores da região. Farrell então sai em encalço do grupo de malfeitores.

Pablo Aluísio. 

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

O Laço do Carrasco

O Major confederado Matt Stewart (Randolph Scott) acaba liderando uma tropa que decide roubar um carregamento de ouro do exército da União durante a guerra civil americana. O problema é que após ter em mãos toda essa fortuna acabam descobrindo que a guerra finalmente havia chegado ao fim! A partir daí o que fazer? Entregar o ouro ao exército da União o que os levaria inexoravelmente à morte por enforcamento ou ficar com todo o carregamento para eles? O choque de ambições seria inevitável. Assim Scott e seus subordinados (entre eles Lee Marvin) terão que lidar com a situação ao mesmo tempo em que lutam para preservar o ouro que agora é cobiçado por um bando de assassinos e ladrões. Mais um western produzido e estrelado pelo astro Randolph Scott. Na década de 1950 o ator decidiu que iria produzir seus próprios filmes. Como já havia ganho bastante dinheiro no cinema percebeu que tinha um público cativo e que por isso valia a pena investir em suas próprias películas. Além do mais nenhum investimento no mercado financeiro lhe traria tanto retorno como esse. A decisão foi mais do que acertada. Geralmente trabalhando com os grandes estúdios para distribuição Randolph Scott acabou fazendo fortuna pessoal com seus westerns. Realizando em média três filmes por ano o ator foi ficando cada vez mais milionário. Quando se aposentou das telas em 1962 estimava-se que já era dono de uma fortuna avaliada em mais de 100 milhões de dólares!

"O Laço do Carrasco" ainda é um de seus filmes mais lembrados por fãs de western hoje em dia. O enredo é bem interessante mas o diretor e roteirista Roy Huggins não o desenvolve muito bem, pois muito potencial dessa estória foi desperdiçada na minha opinião. O principal erro é que ao invés de mostrar o desenlace dessa questão optou-se por priorizar mais o chamado Bang Bang (tiroteios e emboscadas). Scott segue com sua caracterização típica. Não há uma preocupação melhor em desenvolver os personagens do ponto de vista psicológico como acontecia nas parcerias entre Scott e o diretor Budd Boetticher. Aqui temos nitidamente um western de matinê - que aliás foi o ponto forte de Scott, onde ele realmente fez fortuna com filmes rápidos, ágeis e eficientes. Enfim, "O Laço do Carrasco" é um bom western dos anos 50 muito embora poderia sim ser bem melhor do que realmente é. Não é assim um dos melhores trabalhos de Randolph Scott mas merece ser visto (ou revisto) sempre que possível.

O Laço do Carrasco (Hangman's Knot, EUA, 1952) / Diretor: Roy Huggins / Roteirio: Roy Huggins / Elenco: Randolph Scott, Donna Reed, Lee Marvin / Sinopse: O Major confederado Matt Stewart (Randolph Scott) acaba liderando uma tropa que decide roubar um carregamento de ouro do exército da União durante a guerra civil americana. O problema é que após ter em mãos toda essa fortuna acabam descobrindo que a guerra finalmente havia chegado ao fim! A partir daí o que fazer? Entregar o ouro ao exército da União o que os levaria inexoravelmente à morte por enforcamento ou ficar com todo o carregamento para eles? O choque de ambições seria inevitável.

Pablo Aluísio.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Os Brutos Também Amam

Quando eu era garoto, ouvi certa vez meu pai dizer que o filme "Os Brutos Também Amam" (Shane - 1953) era um faroeste diferente. Aquela opinião ficou anos martelando em minha cabeça. E, quando alguns anos mais tarde, assisti ao famoso western, concordei com meu pai. O clássico, baseado no best-seller de Jack Schaefer, é um dos maiores e mais emocionantes faroestes já produzidos. E o sucesso não foi à toa. "Shane" é um faroeste realmente diferente e emocionante que foi pensado e carinhosamente engendrado em cima de valores morais raros para aquela época, como: amizade, lealdade e honra. O início do filme é de uma beleza rara, onde a natureza exuberante faz as honras da casa, desfilando, um a um, os astros do filme. O silencioso Shane (Alan Ladd) abre o clássico cavalgando, lentamente, sob as bençãos e a beleza indizível da cordilheira de Grand Tetons no Vale do Wyoming. O forasteiro, solitário e caladão, chega bem devagar ao pequeno rancho parnasiano da família Starrett, tendo como testemunha o pequeno par de olhos curiosos do pequeno Joey Starrett (Brandon De Wilde). Shane é calado e de poucas palavras - ele fala apenas o que interessa deixando sempre no ar um duvidoso passado do qual está claramente tentando esquecer. Apesar da enorme introspecção e doses cavalares de mistério, Shane só quer um pouco de água, comida e descanso, em troca de trabalho.

Aos poucos, o pistoleiro, semelhante a um diácono, vai conquistando a amizade e a confiança da família Starrett, mas principalmente do pequeno Joey que se encanta pelo forasteiro. Em pouco tempo, Shane já é quase um membro da família, ajudando o patriarca Joe Starrett (Van Heflin) nos trabalhos mais pesados, e também nas horas vagas, ajudando o pequeno Joe a atirar. O carisma e o charme do pistoleiro vão encantando Marian Starrett (Jean Arthur) esposa de Joe que aos poucos vai manifestando pelo pistoleiro, um misto de paixão, admiração e curiosidade. O diretor George Stevens conduz com maestria essa troca de olhares - e até de sentimentos - porém, sempre preservando o sentimento de honestidade e lealdade de Shane para aquela pequena família que o acolheu, mas principalmente para seu amigo, Joe Starrett. O filme jorra lirismo por todos os poros.

Todo esse céu de brigadeiro, no entanto, começa a mudar quando a família Starrett recebe a visita de Rufus Ryker (Emile Meyer) e seu bando. Rufus, que é o Barão do gado da região, tenta convencer Joe a vender suas terras e ir embora. Porém, quando percebe que Joe tornara-se amigo de um pistoleiro (Shane), ele e seu bando vão embora. A partir daí o conflito entre o Barão do gado, Rufus Ryker, e os colonos, explode. O Barão, para garantir o seu monopólio do gado e sentindo-se ameaçado por Shane, manda buscar na cidade de Cheyenne o pistoleiro frio e sanguinário, Jack Wilson (Jack Palance). Shane então, resolve despir-se de suas vestes de homem bom e de família e começa a mostrar a sua cara. Os acontecimentos e escaramuças da bandidagem, o colocará frente a frente com o seu velho conhecido e implacável Jack Wilson num duelo inesquecível. O final é emocionante e mostra toda a categoria de um diretor que, alguns anos depois, dirigiria três mitos: James Dean, Liz Taylor e Rock Hudson, no clássico, "Assim Caminha a Humanidade". E, com relação a Shane...meu pai tinha toda a razão.

Os Brutos Também Amam (Shane, EUA, 1953) Direção: George Stevens / Roteiro: A.B. Guthrie Jr, Jack Sher baseado na obra de Jack Schaefer / Elenco: Alan Ladd, Jean Arthur, Jack Palance, Van Heflin, Ben Johnson, Elisha Cook Jr., Brandon de Wilde / Sinopse: Shane (Allan Ladd) é um cowboy errante e solitário que chega num pequeno rancho e conquista a amizade dos moradores locais, incluindo uma bela jovem e um garoto.

Telmo Vilela Jr.

domingo, 6 de dezembro de 2009

Onde Começa o Inferno

John T. Chance (John Wayne) é um xerife de uma pequena cidade do velho oeste. Ele tem como auxiliares Dude (Dean Martin), um sujeito com sérios problemas de alcoolismo e Stumpy (Walter Brennan) um velho manco que já não mete medo em ninguém. Juntos passarão por um teste de fogo ao prenderem Joe Burdette (Claude Akins), irmão de um perigoso fora da lei da região. Sitiados em sua própria delegacia eles tentam manter o bandido preso até a chegada do delegado federal que irá levar o facínora à julgamento por assassinato. "Rio Bravo" foi um dos maiores westerns da carreira de John Wayne e isso definitivamente não é pouca coisa. O filme tem um roteiro excelente que desenvolve de forma excepcional a crescente ansiedade dos três homens da lei que tentam manter atrás das grades um perigoso assassino que conta com a ajuda de uma grande quadrilha para tirá-lo de lá. A história fascinou tanto o diretor Howard Hawks que ele voltaria a realizar outro western famoso, "El Dorado", com praticamente o mesmo argumento, embora sejam filmes diferentes. Hawks realmente tinha especial paixão pelo conto que deu origem ao filme (escrito por BH McCampbel) por trazer vários temas caros à mitologia do faroeste como por exemplo a redenção, a dignidade dos homens da lei e a crescente tensão psicológica que antecede o confronto final.

O filme já começa inovando com uma longa sequência de mais de 4 minutos sem qualquer diálogo (algo que anos depois seria copiado por Sergio Leone em "Era Uma Vez no Oeste"). Quando Dude (Dean Martin) finalmente surge em cena logo ficamos chocados com sua aparência de alcoólatra, sujo, esfarrapado, lutando para manter o pouco de dignidade que ainda lhe resta. Aliás é bom frisar que a interpretação de Dean Martin para seu personagem é muito digna, passando mesmo uma sensação de dependência completa da bebida. Há inclusive uma ótima cena em que ele tenta sem sucesso enrolar um cigarro de fumo e não consegue por causa dos tremores em sua mão (curiosamente o único close de todo o filme). John Wayne mantém sua postura irretocável em um personagem tópico de seus westerns. Já o velhinho Stumpy (Walter Brennan) é um grande destaque. Servindo como alívio cômico ele acaba roubando várias cenas com sua simpatia e bom humor. Em suma, "Rio Bravo" merece todo o status que possui. É envolvente, tenso, bem escrito, com excelente desenvolvimento psicológico de seus personagens e acima de tudo diverte com inteligência. Um programa obrigatório para cinéfilos.

Onde Começa o Inferno (Rio Bravo, EUA, 1959) Direção: Howard Hawks / Roteiro: Jules Furthman, Leigh Brackett baseado na curta história de B.H. McCampbell / Elenco: John Wayne, Dean Martin, Ricky Nelson, Angie Dickinson, Walter Brennan, Ward Bond / Sinopse: John T. Chance (John Wayne) é um xerife de uma pequena cidade do velho oeste. Ele tem como auxiliares Dude (Dean Martin), um sujeito com sérios problemas de alcoolismo e Stumpy (Walter Brennan) um velho manco que já não mete medo em ninguém. Juntos passarão por um teste de fogo ao prenderem Joe Burdette (Claude Akins), irmão de um perigoso fora da lei da região. Sitiados em sua própria delegacia eles tentam manter o bandido preso até a chegada do delegado federal que irá levar o facínora à julgamento por assassinato.

Pablo Aluísio.

sábado, 5 de dezembro de 2009

Sargento York

Roteiro e Argumento: O filme é baseado na história real do soldado Alvin York. Ele era um simples fazendeiro do Estado rural do Tennessee que foi convocado para lutar na I Guerra Mundial. Religioso passou por uma crise de consciência por ter que ir lutar e matar inimigos na Europa. O interessante é que sua vida no campo foi vital para seu sucesso no conflito pois era exímio atirador. Acabou se tornando conhecido nacionalmente e virou herói após ter matado vários atiradores alemães na França e ao lado de apenas sete homens de seu batalhão ter conseguido a façanha de render quase 140 soldados inimigos. O feito lhe valeu uma medalha do congresso americano e uma notoriedade sem precedentes entre o povo americano. O roteiro explora a vida pacata de York antes do conflito e depois na sua chegada nas trincheiras do front. Em ambas as situações o filme é extremamente bem realizado e sucedido. Provavelmente a riqueza de detalhes do roteiro se deva ao fato dele ter sido adaptado do diário pessoal de York que ele escreveu durante o conflito.

Elenco: O grande destaque do elenco de "Sargento York" é a ótima interpretação de Gary Cooper no papel principal. Aqui ele consegue com grande êxito captar a personalidade simplória do personagem. Um sujeito caipira, sem estudo, que tinha como único objetivo maior na vida comprar uma pequena faixa de terras em sua cidade para se casar com Gracie Williams (interpretada pela bela e simpática Joan Leslie). O fato de Cooper ter nascido em outro Estado interiorano (Montana) certamente lhe ajudou muito nessa caracterização. A excelente atuação de Cooper acabou lhe valendo o Oscar de melhor ator daquele ano. Mais do que merecido, é bom frisar.

Produção: A produção da Warner não mediu esforços para que contar bem a história do famoso Alvin York. Como o clima de patriotismo estava na ordem do dia em razão da II Guerra Mundial o estúdio sabia que tinha um potencial grande sucesso nas mãos e por isso caprichou na produção, investindo nos melhores profissionais disponíveis no mercado. Isso se vê bem nos detalhes da produção, figurino, cenários, equipamentos militares, tudo recriado de acordo com o contexto histórico da I Guerra Mundial.. Embora grande parte do filme tenha sido realizada em estúdio (principalmente nas cenas no Tennessee) o resultado é no final das contas excepcional. Nas cenas de batalha tudo é extremamente bem feito. As trincheiras típicas da I Guerra Mundial foram recriadas com extrema veracidade e fidelidade histórica.

Direção: O filme foi dirigido pelo excelente cineasta Howard Hawks. O que mais chama atenção nesse diretor era sua extrema versatilidade. Hawks passeava com grande êxito pelos mais diferentes gêneros cinematográficos. Realizava ótimas comédias musicais (como "Os Homens Preferem as Loiras") ao mesmo tempo em que revisitava lendas do velho oeste (sua parceria ao lado de John Wayne foi longa e produtiva). Nesse "Sargento York" ele volta a dirigir uma cinebiografia, algo que havia conseguido com grande sucesso na década de 30 com "Scarface, a Vergonha de uma Nação". Sua boa técnica e precisão podem ser conferidas nas duas partes básicas em que "Sargento York" se divide. Na primeira parte, quando York é apenas um caipirão do interior e o filme tem mais toques dramáticos. Já na segunda quando York vai para o front temos nitidamente um filme de guerra. Em ambas as divisões Hawks se sai extremamente bem sucedido, o que reforça bem sua versatilidade na direção. O resultado final é de alto nível.

Sargento York (Sergeant York, EUA, 1941) / Direção: Howard Hawks / Roteiro: John Huston, Howard Koch, Abem Finkel, Harry Chandlee e Tom Skeyhill / Com Gary Cooper, Walter Brennan e Joan Leslie / Sinopse: Cinebiografia de Alvin Cullum York (Gary Cooper) , condecorado soldado americano na I Guerra Mundial. O filme foi vencedor dos Oscar de Melhor Ator (Gary Cooper) e Melhor Montagem, sendo indicado a nove outras categorias.

Pablo Aluísio.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Marlon Brando - Verdades e Mentiras

Marlon Brando é considerado um dos grandes atores do século XX. Com personalidade ímpar o ator foi grande não apenas nos palcos e nas telas mas também nas causas que defendeu. Muita coisa infelizmente ficou encoberta pela celebridade que o acompanhava - celebridade essa que ele particularmente detestava. No meio de tantas polêmicas, muitos boatos, mentiras e histórias não verdadeiras acabaram ganhando status de fato. Vamos agora revelar algumas verdades e mentiras sobre esse mito da cultura pop.

Marlon Brando odiava seus pais?
Durante toda sua vida Brando teve um relacionamento complicado com seus pais, em especial com Marlon Brando Sênior, seu pai. Ambos tinham temperamentos fortes e não aceitavam se submeter uma ao outro. Além disso Brando não perdoava as constantes escapadas do velho que, caixeiro viajante, acabava arrumando várias namoradas nas cidades pelos quais passava. Com a mãe, Marlon também tinha problemas. Desde jovem a mãe de Brando gostava de beber. Com o tempo a bebida se tornou um sério problema virando alcoolismo. Não raro o ator quando garoto tinha que percorrer bares barra pesada atrás de sua mãe. Isso acabou criando traumas nele para o resto de sua vida. Quando o pai estava para morrer Brando pediu que ele tivesse mais alguns segundos de vida para como ele mesmo afirmou em sua autobiografia, "Quebrar todos os dentes de seu velho". Apesar de todas essas brigas e desavenças o ator acabou perdoando as falhas dos pais e conseguiu superar todos os problemas anos depois ao fazer análise como acabou revelando em sua autobiografia.

É verdade que Brando foi expulso de um colégio militar em sua juventude?
Brando foi um garoto problema. Com dificuldades de aprendizado nunca conseguiu ser um sucesso nas escolas pelos quais passou. Assim seu pai resolver matricular o garoto na Academia Militar de Shattuck em Minnesota. Foi nessa Academia, em regime de internato, que o ator passou grande parte de sua juventude. Sob severo regime disciplinar Brando acabou com o tempo se revoltando contra todas aquelas regras de comportamento, tão típicas de uma escola militar. Era indisciplinado, bagunceiro e sempre se metia em confusões. Numa delas sumiu com o badalo do sino da Academia (ele odiava acordar cedo e as badaladas do sino indicavam a hora de acordar pela manhã). Em outra desrespeitou um oficial durante uma formação de rotina. Esse último evento acabou selando sua expulsão da Academia.

O que fez após ser expulso da Academia Militar?

Brando voltou para casa. Seus pais decepcionados perguntaram o que ele iria fazer da vida. Sem perspectivas Brando passou um tempo trabalhando em obras de construção civil como peão. Depois se encheu daquilo tudo e resolveu ir embora para Nova Iorque. Sua irmã Frannie estava morando na grande cidade, tentando se tornar atriz. Cansado dos sermões de seus pais, Marlon acabou decidindo ir embora para a Big Apple. Ele ainda não tinha intenção de ser ator mas apenas de arranjar um emprego qualquer para se estabelecer na nova cidade. Sua opção de se tornar ator só surgiria depois quando Brando sentiu que a atuação lhe poderia render um bom dinheiro sem precisar suar muito a camisa.

Qual foi a grande mentora de Brando em Nova Iorque?
Stella Adler foi uma das primeiras professoras que Brando teve ao chegar em Nova Iorque. Após decidir que tentaria ser ator ele se matriculou em cursos de formação de atores e Stella Adler acabou mudando sua vida. O jovem aspirante a ator ficou encantado pelo talento, carisma e dedicação da grande atriz e professora. Anos depois ao escrever sua autobiografia Brando creditou a Stella muito da inspiração que levou para toda a sua carreira ao longo da vida. Após se formar nesse curso Brando aos poucos foi ganhando experiência em montagens off Broadway. Foram várias montagens até que finalmente encontrasse o papel que iria mudar toda a sua vida: Stanley Kowalski da peça "A Street Named Desire" de Tennessee Williams.

Marlon Brando teve um romance com Marilyn Monroe?
Segundo o próprio ator sim. Na realidade nem foi propriamente um romance mas sim um encontro casual após uma festa em Hollywood. Marilyn nunca escondeu sua atração por Marlon a ponto de colocá-lo em uma lista de dez homens que gostaria de levar para a cama. Assim após se conhecerem em uma noite a própria Marilyn lhe convidou para ir em sua casa. Após esse encontro nada mais de muito importante surgiu entre eles. De vez em quando Marilyn ligava para Brando e ambos passavam várias horas conversando. Marilyn aliás ligou para Brando na noite anterior ao de sua morte supostamente por overdose de pílulas para dormir. Brando jamais divulgou o conteúdo dessa sua última conversa com Marilyn.

O que Brando achava de James Dean e Montgomery Clift?
Brando admirava Montgomery Clift. O achava um grande ator que infelizmente estava sucumbindo à problemas com bebidas e drogas. Após sofrer um acidente de carro que desfigurou parcialmente seu rosto Clift encontrou dificuldades de encontrar trabalho em novos filmes. Brando então resolveu ajudar pessoalmente o colega, exigindo inclusive sua colocação no elenco de "Os Deuses Vencidos". Já sobre Dean, Marlon Brando tinha uma opinião diferente. O achava perturbado e acreditava que Dean o imitava deliberadamente (inclusive nas roupas, nas motos que andava, etc). Dean tentou uma aproximação maior com Brando mas esse o dispensou discretamente, o aconselhando a procurar ajuda psicológica. Deu inclusive o número de seu analista pessoal para Dean.

Marlon Brando era bissexual?
Segundo Anna Kashfi, sua segunda esposa, Brando era bissexual. Seu depoimento porém é discutível uma vez que ela teve muitos problemas (inclusive legais) com o ator no processo de divórcio. Embora fosse assumidamente hétero, se envolvendo com muitas mulheres ao longo da vida, sempre existiu a suspeita que Marlon teria tido pelo menos um romance mais sério com um homem, o diretor francês Christian Marquand. Isso porém nunca foi comprovado, ficando apenas no patamar de mero boato. O fato foi investigado por vários autores de biografias sem se chegar a uma comprovação de que algo além de amizade teria realmente acontecido. Nos anos 50 surgiu uma suposta foto de Brando praticando sexo oral em um homem negro, sem identificação. A foto até ganhou certa repercussão no meio mas depois descobriu-se ser apenas uma montagem (nos dias de hoje se percebe bem que tudo não passa mesmo de uma montagem grosseira). Brando não desmentiu a suposta veracidade da fotografia, se limitando a se divertir com o bizarro registro.

Como era Marlon Brando fisicamente?
Marlon Brando tinha estatura média para a população americana: 1.75. Para compensar isso se dedicou bastante a jogar futebol americano na adolescência ganhando peso e força muscular, que iria ser acentuada em seus primeiros anos em Nova Iorque quando precisou mostrar boa composição física para interpretar tipos rudes como o personagem Stanley de "A Named Street Desire". Infelizmente o ator foi aos poucos deixando a musculação e a partir dos anos 60 e começou a engordar de forma assustadora. Em seus últimos anos Marlon sofreu muito com obesidade mórbida chegando a incríveis 180 kgs.

Brando não gostava de Elvis Presley?
Em sua autobiografia Marlon Brando afirma que achava uma piada o governo americano ter colocado Elvis como selo postal oficial do país. Para Brando o assim chamado Rei do Rock apenas copiou a cultura negra que existia há anos. Ele se ressentiu ainda pelo fato de Elvis ter morrido de uma overdose de drogas e esse fato ser ignorado pelo governo dos EUA justo em uma época de guerra do país no combate às drogas.

Por que Brando e Chaplin não se deram bem ao trabalharem juntos?
Marlon Brando não gostou do estilo de trabalho de Chaplin. Para Brando o antes genial Charles Chaplin estava ultrapassado, sua forma de dirigir um filme era completamente obsoleta. Marlon que vinha da escola do Actors Studio se ressentiu pelo fato de não conseguir abrir um diálogo com Chaplin para discutir seu personagem. Além disso ficou chocado com a forma que Chaplin tratava um de seus filhos no set de filmagem. De forma sádica Chaplin repreendia publicamente seu filho que atuava no filme, o chamando de incompetente e incapaz na frente dos outros atores e da equipe técnica. Em determinado momento o próprio Brando pensou seriamente em largar o filme no meio das filmagens. Para ele, que sempre idolatrou Chaplin, tudo se tornou uma grande decepção. O resultado da parceria entre eles foi o pior possível pois o filme foi um tremendo fracasso de pública e crítica. Anos depois Brando definiu "A Condessa de Hong Kong" como "um de meus desastres" e acabou afirmando que o pai de Carlitos havia sido "um dos homens mais sádicos que já conheci na minha vida"

O que Brando achava da máfia?
Ele realmente encontrou chefões da cosa nostra para filmar "O Poderoso Chefão"? Brando acreditava que a máfia americana não era muito diferente das grande corporações ou até mesmo da CIA. Segundo o ator ambas usavam de violência e corrupção para se impor e se firmar na sociedade. O ator inclusive criticava duramente o tratamento dado pelo governo americano em países de terceiro mundo. Ele até tentou realizar um documentário sobre isso mas cedeu às fortes pressões que sofreu até mesmo dentro da indústria cinematográfica. Durante as filmagens de "O Poderoso Chefão" ele chegou realmente a ser visitado no set por figuras importantes do submundo Um deles inclusive disse que ele não precisava mais se preocupar pois a partir daquele dia nenhum restaurante de Little Italy, em Nova Iorque, iria lhe cobrar pelas refeições. Brando agradeceu a cortesia e o convite e descobriu anos depois que realmente nunca mais teria que pagar contas nos restaurantes daquele bairro de Nova Iorque. O chefão realmente havia falado sério!

Brando recusou todos os Oscar que ganhou?
Todas as pessoas pensam equivocadamente que Brando recusou todos os prêmios de melhor ator que recebeu. Isso é fácil de explicar pois sua recusa pelo Oscar de "O Poderoso Chefão" em protesto ao modo como o cinema americano retratava os nativos daquele país até hoje ficou marcada no inconsciente coletivo. O fato porém é que nos anos 50 ele foi premiado por "Sindicato de Ladrões" e compareceu na cerimônia em traje de gala, tirou fotos entre os premiados, se portando de maneira polida, um exemplo de boa etiqueta. Fez até um agradecimento convencional, tudo bem de acordo com o protocolo da festa. Anos depois afirmou que não sabia onde foi parar a estatueta. Ele apenas se recordava que deu a um amigo mas não sabia direito aonde o Oscar foi parar exatamente. Anos depois o Oscar finalmente ressurgiu numa casa de leilões onde finalmente foi vendido por um preço excelente.

Quem foi o maior amigo de sua vida em sua própria opinião?

Segundo o próprio ator seu melhor amigo foi Wally Cox. Wally era um velho conhecido de Brando desde a sua juventude. Por um desses acasos do destino voltou a se encontrar com ele assim que Marlon foi morar em Nova Iorque. Ambos eram aspirantes a uma carreira no teatro mas exerciam outras profissões para sobreviver. Wally fazia pequenas bijuterias enquanto não encontrava uma chance melhor de atuar. Ele tinha ambições de se tornar um ator cômico. Anos depois quando Brando se tornou um astro de primeira grandeza ele ajudou o velho amigo, inclusive lhe arranjando trabalho em filmes que atuou. Infelizmente mesmo com esse esforço Cox nunca conseguiu despontar para o sucesso. Infeliz pela carreira mal sucedida acabou sucumbindo ao álcool e às drogas, falecendo muito jovem. No livro Brando afirma que sentia bastante a falta do amigo e que nunca o perdoara pela forma como morreu.

Qual foi a causa da morte de Marlon Brando?
Brando há muitos anos sofria de várias doenças. Sua obesidade fora de controle apenas piorou seu quadro. Além de sofrer problemas de pressão arterial o ator também foi diagnosticado com úlcera e diabetes. Em seus últimos anos não saia mais de sua cama. Para sobreviver um verdadeiro sistema de UTI foi colocado em seu quarto na sua mansão em Los Angeles. Depois de várias crises ele finalmente foi levado a um hospital onde veio finalmente a falecer de insuficiência pulmonar aguda. Brando não quis um enterro tradicional e deixou um pedido expresso para que fosse cremado em uma sessão privada em Los Angeles. Alguns jornais divulgaram que o ator também teria pedido que suas cinzas fossem jogadas em Tetiaroa mas isso nunca foi confirmado oficialmente pelo espólio do ator.

Marlon Brando estava falido no final de sua vida?
No meio dos vários boatos após sua morte surgiu a história de que o ator estava falido e morando em um pequeno apartamento de aluguel na cidade de Los Angeles. Depois que seu testamento veio à público todo esse sensacionalismo foi desmentido. Brando deixou cerca de 21 milhões de dólares a seus herdeiros, além de uma mansão localizada em Mulholland Drive avaliada em 10 milhões de dólares. Outro factoide inventado pela imprensa era de que o ator teria vendido seu arquipélago Tetiaroa para pagar advogados para seu filho Christian. O testamento provou que Brando ainda era seu dono tanto que as ilhas entraram na herança deixada pelo ator.

Quantos filhos foram reconhecidos pelo ator?
Em seu testamento Brando reconheceu oficialmente 11 filhos, sendo dois deles ainda crianças que teriam sido frutos do caso amoroso que o ator teve com sua empregada doméstica nos anos finais de sua vida. Mas nem todos tiveram direito à herança deixada pelo ator. Ele desertou pelo menos três deles, por motivos de brigas e desavenças. Além disso deixou de fora o seu neto, filho de Cheyenne, que havia se suicidado após seu irmão Christian ter matado seu marido. Brando reconheceu em seu testamento os seguintes filhos: Christian, filho de Anna Kashfi que também não viveria muito morrendo de pneumonia após cumprir pena por homicidio, Miko Brando e Rebecca (filhos de Castenada), os filhos de Teripaiia, Teihotu e Cheyenne Brando, assim como Nina, Myles e Timothy Brando (filhos de Maria Ruiz). Também mencionou duas outras filhas de nomes Maimiti Brando e Raiatua, sendo que essas quase ninguém conhecia.

Marlon Brando estuprou a atriz Maria Schneider no filme "O Último Tango em Paris"?
Essa revelação chocou o mundo em 2016. Segundo o diretor Bernardo Bertolucci a cena foi feita sem o consentimento da atriz, o que supostamente configuraria o crime de estupro. Nas palavras do diretor: "Queria sua reação como menina, não como atriz. Não queria que Maria interpretasse sua humilhação e sua raiva, queria que sentisse. Os gritos de Não, não, foram reais! Queria que reagisse humilhada. Acredito que odiou Marlon e a mim porque não contamos a ela! Para conseguir algo é preciso ser completamente livre!" - Concluiu.

Pablo Aluísio.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Marilyn Monroe e Joe Di Maggio

Alguns romances parecem que foram escritos nas estrelas. Infelizmente na maioria das vezes apenas parecem mas não se concretizam. Esse parece ter sido o caso de Marilyn Monroe e Joe Di Maggio. Ela, uma das atrizes mais populares da história do cinema. Ele, um mito do beisebol, considerado o "último grande herói" do mais americano dos esportes. Um ícone da nação. Se eram parecidos no quesito fama não poderiam ser mais diferentes em suas personalidades. Di Maggio era um ítalo-americano típico. Turrão, era reservado e tratava a imprensa a patadas. Ciumento e possessivo achava que o lugar da mulher era realmente na cozinha preparando um belo prato de macarronada para o maridão. Monroe era o oposto de tudo isso. Expansiva e louca por publicidade Marilyn sabia que para manter sua popularidade tinha que manter bons contatos com a imprensa. Tinha amigos jornalistas e vira e mexe os presenteava com furos - muitas vezes de sua própria vida pessoal. Como artista adorava os holofotes, sejam quais fossem. Era literalmente uma estrela e como sabemos é da natureza das estrelas sempre brilharem o máximo possível.

Os dois se conheceram meio ao acaso. Di Maggio viu uma foto de Marilyn em uma revista e ficou impressionado pela beleza da atriz. Usou de seus contatos no meio cinematográfico para conhecê-la a qualquer custo. Informada ela não deu muita bola, afinal não acompanhava beisebol e pouco sabia sobre Di Maggio. Após alguns desencontros resolveram se encontrar. Foi um jantar formal, com Joe sempre receoso em tudo ir por água abaixo. Curiosamente apesar da diferença de personalidades acabaram se entrosando. Marilyn há muito almejava encontrar seu par ideal para quem sabe formar uma família de verdade (algo que realmente nunca teve em vida). Finalmente depois de vários encontros finalmente foram para a "terceira base" (uma gíria bem em voga nos EUA). Se deram muito bem sob os lençóis. Tão bem que esse acabou sendo realmente o elo que sempre os mantinham juntos.

Em um impulso típico da atriz acabaram se casando. Di Maggio finalmente tinha seu grande prêmio, a mulher de seus sonhos. Ele tinha sua própria ideia do que seria um casamento ideal e para falar a verdade Marilyn bem se esforçou para corresponder a esses anseios do marido. Se tornou praticamente uma dona de casa. Fazia a comida de Joe enquanto esse ficava na sala assistindo seus faroestes preferidos na TV. Até suportou o bando de amigos beberrões do marido que sempre os visitavam para beber, jogar cartas e contar piadas machistas. Imaginem a cena: um monte de italianos ao redor de uma mesa de bridge sendo servidos com salgadinhos e cerveja por um dos maiores símbolos sexuais do mundo. Olhando bem de perto realmente não havia como dar certo uma coisa dessas. Marilyn já tinha tido uma experiência assim com seu primeiro marido. O fato puro e simples era que ela na realidade queria voltar aos sets de filmagem o mais rápido possível.

Assim após alguns meses Marilyn finalmente retornou aos braços de seu público. Lá estava ela em plena Nova Iorque filmando as famosas cenas do vestido levantado em "O Pecado Mora ao Lado". Di Maggio que já havia tido vários atritos com ela por causa dos roteiros dos filmes que fazia ficou discretamente posicionado atrás das câmeras, meio na surdina. Marilyn obviamente nem tomou conhecimento da presença do marido no local. Di Maggio franziu a testa. O que viu lhe deixou profundamente irritado. Marilyn com as saias esvoaçantes, deixando muito pouco para a imaginação dos homens no local. Rindo e se divertindo ela acabou adorando as cenas. A volta para casa foi tumultuada. Joe pediu explicações - Marilyn retrucou. Depois de muita gritaria finalmente aconteceu o que selou o fim do casamento. Joe Di Maggio, o herói americano, agrediu Marilyn. Ela já tinha suportado muita coisa de Joe mas isso não. Era o fim. Em pouco tempo Monroe pediu o divórcio e se foi. Di Maggio ficou arrasado. Ele ainda tentou várias e várias vezes reatar seu relacionamento mas Marilyn, que quase virou um dia uma típica dona de casa italiana, caiu fora para sempre. Era o fim do casamento dos sonhos da grande nação ianque.

O casamento da estrela e do herói do esporte acabou definitivamente, mas não a paixão de Di Maggio. Ao longo dos anos ele virou literalmente um chiclete no saldo alto da atriz. Sempre pronto a tentar uma reconciliação. Engoliu seu tradicional orgulho italiano e se prestou a passar por verdadeiras humilhações públicas. Marilyn nunca voltou atrás e parece não ter se arrependido disso. Mas como diz o velho ditado o mundo dá voltas. Após diversos fracassos amorosos Marilyn encontrou seu destino no quarto de sua casa em Hollywood. Na cama sozinha ela ainda tentou fazer uma última chamada mas o efeito das pílulas que tomou foram fortes demais. Ela apagou. Em suas últimas semanas Marilyn Monroe estava arrasada. Tinha sido despedida da Fox após inúmeros atrasos e faltas no set de seu último filme. Tentara e fracassara em seu romance duplo com os irmãos Kennedy. Abandonada e ferida Marilyn se afogou em tristeza e depressão. Para alguns uma morte acidental, para outros suicídio e como todo conto de fadas Made in USA esse também teve sua pitada de teorias da conspiração. Teria Marilyn sido assassinada pelo FBI ou pela CIA? Hoje, passado tantos anos isso realmente não importa mais.

No apagar das luzes do mito eterno foi Di Maggio quem acabou sendo o responsável por seu funeral. Afastou da cerimônia as pessoas que ele acreditava terem sido danosas a Marilyn (como Frank Sinatra, por exemplo). Providenciou uma despedida simples e respeitosa, com os poucos verdadeiros amigos da atriz. No final se mostrou inconsolável de uma dor que jamais iria se cicatrizar. Ao longo dos anos Di Maggio recusou milhões de dólares para escrever sua auto biografia. Certa vez confidenciou a um amigo próximo que jamais o faria, porque sabia que a imprensa queria mesmo era saber sobre a vida de Marilyn Monroe e ele certamente não a trairia nesse ponto. Enquanto viveu ele mandou depositar diariamente um ramalhete de flores na lápide da amada. Era uma forma de provar que jamais a esqueceria. No final seu amor por Marilyn mostrou-se realmente eterno e incondicional pois cumpriu sua promessa de nada declarar sobre sua amada. Morreu em 1999 sem falar uma linha sequer sobre seus anos ao lado da atriz mais famosa da história do cinema. O amor realmente desconhece as razões de sua própria existência.

Pablo Aluísio.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Filmografia Comentada: Marilyn Monroe

Maior Sex Symbol da história do cinema Marilyn Monroe está no mesmo patamar que Elizabeth Taylor ou Elvis Presley, sendo qualquer apresentação desnecessária. Sua imagem é um ícone insuperável. Sua força ainda é sentida em todos os setores da cultura pop, seja em livros, filmes ou discos. Excelente comediante foi subestimada em sua época. O tempo porém lhe fez justiça. Hoje Marilyn é maior do que nunca e não mostra o menor sinal de esquecimento. Abaixo alguns filmes comentados da "Deusa".

Nunca Fui Santa
Revi esse filme ontem. Engraçado, Marilyn Monroe brigou com a Fox, brigou com os produtores, fundou sua própria produtora e disse para a imprensa que não mais faria personagens de loiras burras (as mesmas que a tinham consagrado). Depois disso foi para Nova Iorque e se matriculou no Actors Studio. Obviamente a Fox ficou em pânico com medo de perder sua estrela de maior bilheteria. Assim negociações foram feitas e Marilyn conseguiu maior controle de seus filmes. Disse para a imprensa que não faria mais comédias bobas. O hilário disso tudo é que depois de toda essa confusão Marilyn estrelou justamente esse "Nunca Fui Santa" onde ela interpreta numa comédia... mais uma loira burra! Tenho que dar o braço a torcer e dizer que apesar de "Nunca Fui Santa" ser uma comédia nessa pelo menos Marilyn se esforça muito para dar ao público uma interpretação melhor. Ela faz caras e bocas nas cenas mais "dramáticas". O problema é que seu estilo está em total descompasso com seu parceiro de cena, o ator Don Murray, que parece estar em um filme dos três patetas. Enquanto ele é totalmente caricatural, Marilyn parece estar em um dramalhão de Douglas Sirk. Desnecessário dizer que o resultado final fica mesmo confuso. Apesar disso gostei do filme, pois é o roteiro é bem feito e rápido (pouco mais de 90 minutos), com boas cenas externas e um ato final que lembra um pouco uma peça teatral (quando eles param na tal parada de ônibus que dá nome ao título original). Por fim uma curiosidade: Marilyn parece drogada em várias cenas - mas pelo menos nesse caso o roteiro serve de desculpa (já que ela estaria supostamente com sono por não dormir à noite).

Como Agarrar um Milionário 
Curioso como o tempo muda os costumes (ou não). Essa comédia dos anos 50 traz três garotas bonitas que vão a Nova Iorque com o único objetivo de arranjar um marido rico para se casarem. Chegando lá elas alugam uma luxuosa cobertura (mesmo não tendo nenhum dinheiro) e para sobreviverem enquanto os tais maridos ricos não aparecem vão vendendo os móveis do local para comprar comida. O filme foi feito antes da revolução feminista e as garotas são desesperadas para arranjar logo um milionário. O mais curioso de tudo é que mesmo após a luta das feministas, muitas mulheres hoje em dia agem igualzinho às protagonistas desse filme que está prestes a completar 60 anos de seu lançamento. Parece que o mundo não mudou tanto assim depois de todo esse tempo! Tirando esse viés machista o roteiro escrito por Nunnally Johnson, um dos melhores roteiristas da história de Hollywood, tem um timing de bom humor muito afiado e divertido. Na moralista década de 50 nada poderia ser explicitamente mostrado então tudo era sutilmente sugerido. Até mesmo objetos de cena servem para materializar a ironia de certas situações. O texto é nitidamente uma comédia de costumes, pois ao mesmo tempo expõe e satiriza a condição das garotas no filme. Estrelado por três atrizes o filme hoje é mais procurado por causa da presença de Marilyn Monroe em cena. Sua personagem não é a principal (lugar que cabe à mulher de Humphrey Bogart, Lauren Bacall) mas ela claramente chama todas as atenções para si. Bastante jovem, Marilyn faz um tipo cômico, uma garota bonita que não consegue enxergar um palmo à frente do rosto. No livro "A Deusa" há uma hilária passagem em que Marilyn procura o diretor do filme, Jean Negulesco, para lhe fazer mil perguntas sobre sua personagem, quais seriam suas motivações, seu perfil psicológico, etc. Monroe estava cada vez mais interessada no método do Actors Studio e por isso procurava desenvolver bem seus papéis. Surpreso pelo verdadeiro "interrogatório" Negulesco interrompeu a conversa dizendo: "Querida essa é uma simples comédia apenas e tudo o que você precisa saber de seu personagem é que ela é loira, burra e cega como um morcego!". Monroe obviamente não gostou nada da resposta! Já Bacall faz a mais velha das três, uma desiludida divorciada que quer tirar o pé da lama arranjando logo um maridão rico para resolver seus problemas financeiros. Completa o trio a atriz Betty Gable. Com um penteado pra lá de esquisito em relação aos padrões atuais, ela não acrescenta muito em seu papel de dondoca. Não era uma atriz particularmente engraçada ou carismática. O filme como diversão é muito bom, embora bem menos ousado que muitos dos futuros filmes de Marilyn. Como ponto negativo não tem nenhum número musical com a atriz, embora a trilha sonora seja ótima.

O Príncipe Encantado
Nobre regente (Laurence Olivier) conhece jovem corista (Marilyn Monroe) em um show de variedades e a convida para jantar em sua residência oficial em Londres. O encontro acaba trazendo inúmeras consequências para ambos durante os dias seguintes. Essa sinopse não esconde a verdadeira vocação de "O Príncipe Encantado". É um texto teatral e o filme não nega sua origem. Grande parte das cenas se passa em ambiente fechado e em cena duelam (no bom sentindo) o formalismo profissional de Laurence Olivier e o adorável amadorismo de Marilyn Monroe. Os acontecimentos de bastidores, das filmagens, há anos povoam o imaginário dos cinéfilos. Marilyn, como era de se esperar, causou todo tipo de problemas para Olivier, tantos que essa conturbada filmagem acabou virando um filme próprio que recebeu várias indicações ao Oscar esse ano:: "My Week With Marilyn". As histórias do set são saborosas mas e o filme? Sim, é uma boa comédia, muito bem produzida com lindos figurinos, cenários, muita pompa e luxo. Marilyn Monroe está encantadora. Apesar dos problemas de saúde ela surge em cena linda e aparentando muita saúde (o que me deixou surpreso). No saldo final considerei sua atuação muito superior á de Laurence Olivier, esse está particularmente travado na interpretação do nobre regente dos balcãs. Já Monroe não, está natural, espontânea. Não causa admiração a declaração que Laurence Olivier fez muitos anos depois da realização do filme reconhecendo que Marilyn estava ótima em "O Príncipe Encantado". Concordo plenamente. Aliás se tem algo que prejudica o filme é justamente a mão pesada do diretor Olivier. Ele demonstra claramente não ter o timing perfeito para Marilyn. O filme se alonga além do que seria razoável e tem barrigas (quebras de ritmo que o levam a certos momentos de monotonia). Pra falar a verdade quem salvou a produção foi realmente Marilyn que em muitos momentos simplesmente carrega o filme nas costas. Quem diria que a amadora Monroe daria uma rasteira no grande Laurence Olivier? Pois deu, e foi em "O Príncipe Encantado". O filme é dela no final das contas. Assista e confira!

Os Desajustados 
Esse foi o último filme completo da Marilyn. Ela ainda chegou a iniciar as filmagens de "Something s Got To Give" ao lado de Dean Martin mas o filme não foi concluído. Seus atrasos, faltas e confusões no set fizeram com que a Fox a despedisse no meio da produção. Pouco tempo depois, pressionada, abandonada e depressiva veio a encontrar sua morte em um quarto solitário de sua casa. Assim Os Desajustados se tornou seu último momento no cinema. Eu acho um filme triste, melancólico e depressivo até. Afirmam algumas biografias da estrela que Arthur Miller escreveu o conto que deu origem ao filme inspirado justamente na sua vida com a Marilyn. Os excessos da vida da atriz aparecem na tela, apesar de Marilyn Monroe ainda aparecer linda nas cenas, ela está bem acima do peso e abatida. Muitas vezes a atriz surge em cena com o olhar perdido no horizonte, sem convicção. Fisicamente ela também mostra sinais de desgaste. Numa cena de praia, por exemplo, em que ela aparece de biquíni a atriz exibe uma barriguinha bem saliente. As brigas com o marido no set também foram constantes. Em certa ocasião deixou Arthur Miller abandonado no meio do deserto (onde o filme estava sendo filmado) se recusando a deixá-lo entrar em seu carro. O diretor John Huston teve então que voltar para ir pegá-lo, caso contrário morreria naquele lugar seco e inóspito. Marilyn também continuava com seu medo irracional dos sets de filmagens. Antes de entrar em cena ela ficava nervosa, em pânico. Errava muito suas falas e fazia o resto do elenco perder a paciência com suas atitudes. Seu medo de atuar nunca havia desaparecido mesmo após tantos anos de carreira. Interessante é que apesar de Marilyn não sair das revistas e jornais por causa dos acontecimentos ocorridos nas filmagens o filme não conseguiu fazer sucesso o que é uma surpresa e tanto pelo elenco estelar e pela publicidade extra que recebeu dos tablóides. Muitos atribuem o fracasso ao próprio texto de Arthur Miller que não tinha foco e nem uma boa dramaturgia. Aliás desde que se casou com Marilyn o autor parecia ter perdido o toque para bons textos. Tudo soava sem inspiração, sem talento. "Os Desajustados" também foi a última produção com o mito Clark Gable. Envelhecido e decadente sofreu bastante com os problemas do filme, o levando a um esgotamento físico e mental, vindo a falecer pouco depois. Acusada de ter contribuído para o colapso de Gable, Marilyn sentiu-se culpada e ganhou mais um motivo para sua depressão crônica. De qualquer forma só pelo fato de "Os Desajustados" ter sido o último filme de Monroe e Gable já vale sua existência. Não é tecnicamente um excelente filme mas está na história do cinema pelo que representou na vida de todos esses grandes mitos que fizeram parte de sua realização.

Os Homens Preferem as Loiras
Certa vez Billy Wilder disse que alguns filmes só dariam certos se Marilyn Monroe estivesse neles. Penso que é o caso de "Os Homens Preferem as Loiras", um excelente musical com ótima trilha sonora que diverte, encanta e emociona. Assistir Marilyn Monroe cantando tão bem sua mais famosa canção no cinema "Diamonds Are a Girl´s Best Friend" balança com qualquer cinéfilo que se preze. E como Marilyn estava linda no filme! Ela no auge da beleza e juventude esbanja sex appeal em todas as cenas, sem exceção. Seu jeito de falar sussurrando era extremamente sensual. Sua personagem, a corista e dançarina Lorelai Lee, se parece muito com a que interpretou em "Como Agarrar um Milionário" mas isso realmente não importa. O que fica mesmo é a ótima coreografia, figurinos e roteiro de uma produção que nasceu para ser leve e bem humorada. Outro dia mesmo reclamei da falta de canções de Marilyn em um outro filme. Pois bem, aqui em "Os Homens Preferem as Loiras" temos a oportunidade de assisti-la cantando quatro músicas, todas ótimas é bom dizer. Sempre achei Marilyn Monroe uma cantora subestimada. Eu pessoalmente acho seu timbre vocal lindo (além de ser excepcionalmente sensual). Não consigo entender também pessoas que a criticam afirmando que era apenas um mito sexual e não uma grande atriz! Bobagem, Marilyn Monroe tinha um talento nato para comédias e basta assistir filmes como esse para entender bem esse aspecto de sua carreira. Ela era divertida e não fazia esforço para parecer engraçada em cena (que em suma é o grande segredo dos grandes comediantes). Além disso sua voz sempre me soou relaxante e agradável. Tem que ser muito ranzinza para não gostar de musicais maravilhosos como esse. Mais um ponto positivo na grande carreira do diretor Howard Hawks que sempre foi um dos meus cineastas preferidos. Enfim, não precisa dizer mais nada. Quem ainda não assistiu e não consegue entender a longevidade do mito Marilyn Monroe não perca mais tempo. "Os Homens Preferem as Loiras" está lhe esperando. Assista e se divirta.

Almas Desesperadas
Casal deixa sua pequena filha aos cuidados da sobrinha do ascensorista do hotel onde estão hospedados. O problema é que a nova babá Nell Forbes (Marilyn Monroe) sofre de graves problemas psicológicos e mentais. A aproximação de um outro hóspede (Richard Widmark) na vida de Nell só irá piorar ainda mais a situação que já é extremamente delicada. "Almas Desesperadas" foi o primeiro filme em que Marilyn Monroe realmente estrelou, surgindo como protagonista. Até aquele momento ela se resumia a fazer papéis pequenos, sem grande importância. Tudo muda aqui. Monroe está em praticamente todas as cenas de um roteiro que se passa quase em tempo real, todo em uma só noite, dentro de um quarto de hotel. Muitos biógrafos e críticos afirmam que o papel da babysitter mentalmente perturbada era muito forte para uma Marilyn ainda tão jovem e inexperiente. De fato não deve ter sido nada fácil interpretar um personagem assim com apenas 26 anos mas sinceramente discordo dos que criticam a atuação de Monroe aqui. Achei sua atuação muito digna e correta. Ela em nenhum momento cai no exagero ou na caricatura. Para uma jovem estrela devo dizer que ela se saiu extremamente bem. O filme só funcionaria se Marilyn atuasse de forma satisfatória - e ela fez isso, com muita garra e sensibilidade, tenham certeza."Almas Desesperadas" é em essência um drama com toques de suspense e clima noir. A estrutura narrativa inclusive lembra uma peça de teatro. Os personagens estão concentrados em um ambiente fechado, dentro de uma situação limite. Poderia ter ficado pesado e chato mas não, o filme se desenvolve muito bem em seus curtos 76 minutos. Richard Widmark segue a trilha da boa atuação de Marilyn Monroe e desfila elegância e charme durante as cenas. Aliás seu figurino chama bem a atenção pois revela a moda masculina na primeira metade dos anos 50 com ternos enormes, folgadões, que alguns anos depois viriam a virar moda novamente. Para uma produção B da Fox achei tudo de bom gosto. O hotel onde se passa a estória foi bem recriado e os demais figurinos são bonitos. E por falar em beleza, Marilyn está linda, maravilhosa. Com cabelos mais escuros que o normal os fãs da atriz vão ser brindados com vários closes de seu rosto inesquecível. Mesmo fazendo papel de maluquinha sua sensualidade explode em cada tomada. Não foi à toa que ela se tornou um dos grandes símbolos sexuais do século XX. Embora seu papel não fosse essencialmente sensual ela o tornava assim naturalmente. A Fox inclusive investiu bem nisso a começar pelo poster do filme explorando a sensualidade de Marilyn de forma bem ostensiva e descarada. Em conclusão podemos afirmar que "Almas Desesperadas" não decepciona. É um registro histórico da ascensão de um dos maiores mitos da história do cinema! Só isso já o torna obrigatório.

Torrentes de Paixão
"Torrentes de Paixão" é um thriller de suspense passado nas famosas cataratas do Niagara (situada na fronteira entre EUA e Canadá). Esse é um local bem popular ainda nos dias de hoje para casais em lua de mel. Após realizar "Almas Desesperadas" Marilyn Monroe foi novamente escalada pelos estúdios Fox para um papel bem parecido com o do filme anterior. Bem longe das comédias musicais que fizeram sua fama, Marilyn aqui interpreta novamente uma mulher fatal que não mede esforços para alcançar seus objetivos. Na trama acompanhamos Rose (Marilyn Monroe) e George (Joseph Cotten) um casal que passa férias em Niagara Falls. Ela é uma jovem que não consegue mais impedir seus impulsos sexuais e acaba se envolvendo com um amante local bem debaixo do nariz do marido traído. Ele é um homem com traumas de guerra que não consegue mais satisfazer sua jovem esposa pois retornou do conflito da Coreia completamente impotente, neurótico e irascível. Como não poderia deixar de ser eventos dramáticos vão marcar a passagem deles pelo local. A Rose de Marilyn Monroe como o próprio marido descreve no filme é uma "vagabunda completa". Isso é bem curioso pois diante do desafio de interpretar a jovem esposa infiel, Marilyn Monroe não se fez de rogada e usou e abusou de sua sensualidade latente nas cenas. Aliás é um dos papéis em que a atriz mais se serviu de seu grande sex appeal. Sua exuberância aqui beira a vulgaridade. Numa das sequências mais famosas Marilyn faz aquele que parece ter sido o mais longo rebolado da história do cinema. São quase dois minutos e meio apenas mostrando Monroe caminhando de costas para a câmera. Literalmente um desbunde em plenos anos 50, um dos períodos mais moralistas da história americana. Usando de roupas sensuais e colantes o espetáculo na época foi considerado totalmente indecente. Aliás é bom frisar que Marilyn está linda no filme, inclusive podemos perceber bem sua boa forma em um enorme close up de seu rosto focalizado bem de pertinho. Simplesmente maravilhosa! Com batom exageradamente vermelho e voluptuoso Marilyn esbanja lascívia em cada cena que aparece. De certa forma o diretor Henry Hathaway sabia que tinha em mãos um dos maiores símbolos sexuais de sua era e resolveu mesmo abusar dessa situação. O filme foi realmente pensado nela e feito para ela. Todo o resto se torna secundário. Naquela altura ela já era um mito de popularidade e "Torrentes de Paixão" se aproveita a todo momento disso. Além de Marilyn ainda temos de bônus a bela Jean Peters com toda sua beleza sofisticada e refinada. No final tudo resulta em um belo espetáculo de beleza feminina a desfilar pela tela. Os estetas certamente vão se esbaldar. Assista e entenda como se constrói um sex symbol genuinamente Made in Hollywood.

O Pecado Mora ao Lado
Richard Sherman (Tom Ewell) é um maridão que fica sozinho em seu apartamento após sua esposa e filho irem passar as férias de verão fora de Nova Iorque. Adorando sua provisória liberdade ele começa a soltar a imaginação, imaginando diversas situações inusitadas. A nova vizinha do andar de cima, uma linda e sensual loira (Marilyn Monroe), atiça ainda mais seu imaginário. “O Pecado Mora ao Lado” é um dos filmes mais lembrados de Marilyn Monroe. A cena em que ela deixa sua saia levantada com o vento vindo do metrô abaixo entrou definitivamente no inconsciente coletivo, virando símbolo de toda uma era do cinema americano da década de 50. Para a época a cena era muito ousada e chocou os conservadores. A imagem acabou virando a marca registrada da atriz, inclusive esse vestido sempre é copiado quando se quer fazer alguma referência a Marilyn em filmes, livros e até bonecos que reproduzem esse momento. Recentemente inclusive foi erguida uma estátua gigante da atriz nessa exata sequência. Apesar da importância em sua carreira da “saia ao vento” ela também trouxe vários problemas pessoais para a atriz. Acontece que justamente na noite em que filmaram essa cena o marido de Marilyn na época, o jogador de beisebol aposentado Joe Di Maggio, resolveu aparecer no set sem avisar. Como ele era um italiano casca grossa ficou chocado ao ver sua esposa exibindo as pernas e as calcinhas para um bando de marmanjos no meio da rua. Quando voltaram para casa ele a agrediu fisicamente, o que acabou virando o estopim da separação do casal. Essa seria mais uma crise para o diretor Billy Wilder administrar durante as complicadas filmagens. Marilyn, como sempre, deu muito trabalho ao diretor. Chegava atrasada, esquecia diálogos e tinha acessos de pânico antes de entrar em cena. Uma atitude bem diferente de seu colega de elenco, Tom Ewell, sempre muito profissional. Mesmo assim, como sempre acontecia aliás, quando o resultado chegou nas telas todos viram novamente a estrela da atriz brilhar. Ela está magnífica nesse papel que sequer tem nome, sendo identificada apenas como “The Girl” (a garota). A estrutura do filme não nega sua origem teatral (o roteiro foi escrito em cima da peça "The Seven Year Itch" de George Axerold). Tudo se passa praticamente dentro do apartamento do personagem Sherman. Em 90% do filme temos apenas Tom Ewell em divertidos monólogos ou em dueto ao lado de Marilyn. Basicamente ele imagina diversas situações que podem ou não se materializar na realidade, tudo em cima da chamada “coceira dos sete anos”, quando os maridos caem na rotina de casamentos monótonos e procuram por aventuras com mulheres mais jovens e bonitas. Tudo é desenvolvido com muito humor e ironia, bem ao estilo de Wilder. “O Pecado Mora ao Lado” é um filme divertido, irônico e um marco na carreira do cineasta Billy Wilder, que com apenas uma cena despretensiosa conseguiu construir um verdadeiro ícone cultural da história do cinema americano.

Pablo Aluísio.