domingo, 5 de setembro de 2010

George Harrison: Living in the Material World

Depois de ficar anos à sombra da dupla Lennon / McCartney finalmente um documentário de alto nível foca as luzes em George Harrison. Eu já assisti dezenas e dezenas de documentários sobre os Beatles antes mas como era de se esperar todos eles enfocavam muito mais John Lennon e Paul McCartney. George sempre era meio deixado de lado pois a personalidade da dupla principal do grupo ofuscava todo o resto. A própria personalidade de Harrison contribuiu de certa forma para que ele ficasse conhecido como o "Beatle quieto". Espiritualizado, seguidor de religiões orientais, Harrison acreditava em uma vida mais interior. Isso é bem demonstrado no filme com George caminhando pelo jardim de sua mansão no interior da Inglaterra, no depoimento de seu filho que afirma que Harrison odiava o fato dele estudar em uma escola militar e vários outros pequenos detalhes que mostram a verdadeira maneira de pensar e agir do artista. Aqui Martin Scorsese não inventa. Ele realizou um documentário ao velho estilo mesmo, intercalando depoimentos, fotos, imagens (várias caseiras) em um rico filme com quase 4 horas de duração.

Como todo filme criado do mosaico de depoimentos de várias pessoas diferentes que conviveram com Harrison em diferentes fases de sua vida, aqui o espectador vai também acabar se deparando com algumas contradições entre o que foi dito sobre o artista. Só para citar um exemplo: quando se enfoca o fim do primeiro casamento de George com Patty Boyd, surgem versões diferentes sobre o que realmente aconteceu e como George teria reagido ao fato de ter sido traído justamente pelo colega Eric Clapton. Esse ameniza a situação afirmando que George lidou muito bem com o término de seu casamento, se portando como um "gentleman". Já Patti diz algo completamente diferente ao afirmar que George teria ficado "furioso" com o acontecimento. No final das contas quem tem razão? No fundo não importa. O que é relevante é justamente encontrar impressões divergentes sobre a mesma pessoa. Isso acontece com todos e não seria diferente com George Harrison. Eu recomendo o filme primeiramente para os fãs dos Beatles pois quem não é fã e não conhece muito bem a história do grupo pode ficar um pouco perdido (por exemplo, não são bem explicadas as razões que levaram os Beatles a se separarem, etc). No apagar das luzes o grande mérito dessa produção é mostrar um sujeito que primava muito pela sua própria espiritualidade. Em vida ele sempre procurava da melhor forma possível encontrar o caminho de sua paz espiritual. Sua busca pelo interior cósmico enquanto vivia no mundo material é uma das histórias mais fascinantes da biografia dos Beatles. Nesse ponto o filme é muito bem sucedido. Ele capta extremamente bem essa face do músico inglês. Espero sinceramente que Harrison tenha encontrado finalmente a paz que tanto procurou em vida. Hare Krishma George!

George Harrison: Living In The Material World (Inglaterra, 2011) / Diretor: Martin Scorsese / Participações, depoimentos e arquivos de gravação com Paul McCartney, Terry Gilliam, Ringo Starr, John Lennon, Eric Idle, George Harrison / Produção: Olivia Harrison, Martin Scorsese, Nigel Sinclair / Sinopse: Documentário sobre a vida do ex-beatle George Harrison com muitas imagens inéditas de sua vida cotidiana e seu lado mais espiritualizado.

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.

sábado, 4 de setembro de 2010

The Doors - When You're Strange: Um Filme sobre The Doors

Tive o prazer de assistir esse ótimo documentário ontem. Claro que não seria em apenas um filme que iriam esgotar o assunto, principalmente em se tratando de Jim Morrison, um artista que pode ser visto sob diversos pontos de vista (poeta, músico, popstar, louco, drogado, dândi etc). O que When You´re Strange consegue é dar uma ótima síntese sobre o cantor, algumas vezes de forma muito resumida e rápida, tenho que reconhecer, mas que serve como um válido ponto de introdução ao rockstar enfocado. Sempre é muito bem-vindo rever imagens históricas que capturaram Morrison nos palcos, nos bastidores e gravando em estúdio. Cantor e poeta, Morrison levava bem à sério a filosofia de viver com intensidade da geração sessentista. Aqui ele surge de forma visceral, alucinado, sem freios, tentando romper as portas da percepção.

Não gostei muito das cenas intercaladas com atores - como as sequências do suposto Jim dirigindo no deserto. Preferia que todas as imagens fossem genuínas, sem artifícios desse tipo até porque a simples presença de cenas reais com Jim já seriam mais do que suficientes. E são justamente essas imagens reais que fazem o documentário valer muito a pena. Algumas delas são bastante raras, como aquela em que Jim se junta aos fãs para comprar material promocional do The Who! Incrível esse tipo de coisa ter sobrevivido após tantos anos. Por fim, como bônus, temos a narração em off de Johnny Depp. Achei sua "atuação" um pouco sonolenta, mas nem isso prejudica o resultado final. Indico esse filme a todos os fãs dos Doors (e aos não fãs também, caso eles queiram saber um pouco mais sobre o rock dos anos 60).

When You're Strange: Um Filme Sobre The Doors (When You're Strange, EUA, 2009) / Direção de Tom DiCillo / Roteiro: Tom DiCillo / Elenco: Jim Morrison, John Desnmore, Robbie Krieger e Ray Manzarek./ Sinopse: Documentário sobre o grupo musical de rock The Doors. Liderados por Jim Morrison o grupo se tornou um dos mais importantes da segunda metade dos anos 1960 nos EUA.

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Pink Floyd - Delicate Sound Of Thunder (1988)

Com o sucesso do disco A Momentary Lapse Of Reason, David Gilmour resolveu colocar o pé na estrada ao lado de seus companheiros de banda. Para fazer jus ao nome mitológico do Pink Floyd, Gilmour não mediu esforços e resolveu trazer para os shows ao vivo do grupo o que de melhor havia no mercado em termos de aparatos técnicos e sonoros. A volta do conjunto aos palcos deveria acontecer em grande estilo e ele estava completamente concentrado em provar que o Floyd funcionaria bem, mesmo sem a presença de Waters. A ideia ganhou grandes dimensões conforme as apresentações iam acontecendo e Gilmour então resolveu transformar tudo em um grande projeto multimídia trazendo os novos lançamentos do Pink Floyd ao mercado em todas os segmentos culturais possíveis (na época Delicate foi lançado não apenas como álbum duplo, mas também em filme VHS para venda direta e K7). A idéia era não só ressuscitar a banda mas também conquistar uma nova legião de fãs entre os mais jovens, que apenas conheciam o Floyd de nome. Para isso os concertos ao vivo deveriam ser marcantes. E acredite, Gilmour conseguiu alcançar todos os objetivos que havia traçado.

Delicate Sound of Thunder foi gravado em Long Island, Nova Iorque, numa série de cinco concertos que o grupo fez no Nassau Coliseum. No repertório David Gilmour resolveu não arriscar muito e investiu nos maiores sucessos do Pink Floyd da década anterior. Três das maiores obras do conjunto serviram de referência no projeto ao vivo: Dark Side Of The Moon, Wish You Were Here e The Wall. As novas canções do último disco também foram lembradas, para dar um toque de contemporaneidade aos shows em si. O álbum abre com uma das melhores versões ao vivo de Shine On You Crazy Diamond, canção do disco Wish You Were Here. Como todos sabem essa música havia sido composta em homenagem ao ex-líder Syd Barrett. Depois desse pequeno momento revival somos apresentados ao novo material do disco A Momentary Lapse of Reason. Interessante notar que Gilmour não se fez de rogado e levou as novas faixas em peso para os concertos. Isso prova que ele não teve nenhum receio ou medo com as críticas e comparações que poderiam ser feitas após a saída de Waters. Seguro de si, Gilmour apresentou com orgulho praticamente todo o repertório novo do recém lançado trabalho do Pink Floyd. O destaque fica mais uma vez com On The Turning Away, extremamente bem executada por Gilmour e o grupo de apoio (que contava não apenas com Wright e Mason, mas com uma verdadeira equipe de músicos talentosos que em muito acrescentaram na sonoridade dos novos arranjos).

O ciclo se fecha com as canções da época de ouro do Pink Floyd: Money e Time fazem uma dobradinha deliciosa, lembrando seu maior sucesso, Dark Side of The Moon (que depois seria levado na íntegra ao vivo no disco PULSE, outro marco da era David Gilmour). One of These Days por sua vez ganha um nova roupagem sonora, mudança que pode ser sentida também no hit Another Brick in the Wall (Part 2). De todas as releituras porém nenhuma se compara a Comfortably Numb, faixa impecável onde David Gilmour demonstra sem rodeios porque é considerado um dos maiores guitarristas da história do Rock. Um fantástico momento de êxtase sonoro. Delicate Sound of Thunder veio coroar o incrível trabalho de renascimento do Pink Floyd promovido por David Gilmour. Uma iniciativa que merece todos os nossos aplausos. Através de seu esforço pessoal Gilmour mostrou que o Pink Floyd não havia morrido e que ainda era capaz de emitir um delicado som de trovão por onde passasse.

Pink Floyd - A Momentary Lapse of Reason - Parte 1
Dos escombros de uma briga judicial que parecia nunca ter fim o Pink Floyd finalmente ressuscitou na segunda metade dos anos 80. Agora liderados única e exclusivamente por David Gilmour, o novo grupo tinha a proposta de levantar o nome da banda, tão desgastada por causa das brigas entre Gilmour e Roger Waters. Esse último tentou impedir nos tribunais ingleses o uso do nome "Pink Floyd" pelos demais membros do conjunto. Assim David Gilmour precisou lutar muito para que ele e seus companheiros Nick Mason e Richard Wright tivessem o direito de usar o nome em um novo álbum. Esse disco acabou sendo chamado de "A Momentary Lapse of Reason". Apesar de todas as críticas, inclusive de Waters que jamais reconheceu esse LP como sendo do Pink Floyd realmente, devo dizer que gostei bastante da nova proposta. David Gilmour, um dos maiores instrumentistas da história do rock, realmente realizou um trabalho bem sofisticado, muito bom de se ouvir. Não era em absoluto revolucionário, ou qualquer outra coisa do tipo, porém era digno de se usar o mitológico nome da maior banda de rock progressivo da história. O resto são lágrimas ao vento de um ressentido Roger Waters, que deveria ter ficado mesmo calado.

Pink Floyd - A Momentary Lapse of Reason - Parte 2
Poucas coisas podem ser mais chatas do que aquele grupo de fãs do Pink Floyd que vivem de ridicularizar a fase anos 80 de David Gilmour. Eu acho a opinião dessas pessoas completamente bizarra, uma vez que alguns dos meus discos preferidos da banda são dessa época. Aqueles que dizem não haver uma sonoridade genuína do Pink Floyd nesses discos precisa reavaliar urgentemente seus conceitos. "Signs of Life" que abre o álbum "A Momentary Lapse of Reason" é um exemplo disso. É uma música puramente instrumental, que começa com sons de um remo de barco. O que estaria por trás disso. Simples de explicar. Esse disco foi gravado em um estúdio flutuante mantido por Gilmour chamado Astoria. Foi uma forma que o guitarrista e novo líder do Pink Floyd encontrou de trabalhar em paz, longe das pressões do público e da crítica. A melodia foi escrita por Gilmour e o produtor Ezrin e as vozes ao fundo são as do baterista Nick Mason. A voz dele foi duplicada, como se ele estivesse conversando com ele mesmo. Essa faixa me lembra muito a sonoridade de "Atom Heart Mother". É uma lembrança óbvia dos tempos em que o Pink Floyd criava trilhas sonoras incidentais para filmes. Uma ligação com o passado mais do que pertinente.

"The Dogs of War" continuava dividindo opiniões. Eu pessoalmente considero uma faixa forte, lembrando os bons tempos do auge da criatividade do rock progressivo inglês. Muitos a consideram um momento de fragilidade de David Gilmour nesse álbum. Que tolice! A música se revelou ótima para ser tocada ao vivo por causa de sua introdução de impacto. Composta ao lado de Anthony Moore, a letra não era uma referência aos advogados que trabalharam nos inúmeros processos envolvendo Gilmour e Roger Waters como muitos disseram na época de lançamento. Na verdade os tais cães de guerra são os políticos ingleses envolvidos em casos de corrupção. É assim uma composição mais política por parte de Gilmour. Imaginem se ele conhecesse o nível de corrupção da política brasileira! Aí sim ele veria o que é de verdade um mundo cão! Para os que reclamavam dessa nova sonoridade da banda, provavelmente "One Slip" era um prato cheio! Lançada no último single extraído do disco "A Momentary Lapse of Reason" a canção nunca foi uma unanimidade. Já ouvi todo tipo de crítica contra essa música, desde que ela seria um popzinho safado dos anos 80, até que seria "latina demais", principalmente em sua introdução! Provavelmente resolveram pegar no pé do compositor Phil Manzanera, pensando se tratar de algum músico latino. Não é! Phil é inglês e escreveu a música ao lado de Gilmour durante a pré-produção do disco. Enfim, de bobagens e tolices esse mundo de fãs mais radicais do Pink Floyd está realmente bem cheio!

Delicate Sound Of Thunder (1988)
01. Shine On You Crazy Diamond
02. Learning to Fly
03. Yet Another Movie
04. Round and Around
05. Sorrow
06. The Dogs of War
07. On the Turning Away
08. One of These Days
09. Time
10. Money
11. Another Brick in the Wall (Part 2)
12. Wish You Were Here
13. Comfortably Numb
14. Run Like Hell

Pablo Aluísio.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Pink Floyd - A Momentary Lapse of Reason (1987)

Quando o Pink Floyd lançou o disco The Final Cut muitos previram o seu fim. A obra não agradou ao público, encalhou nas lojas e foi impiedosamente criticada pela imprensa especializada. A mais pura verdade era que The Final Cut não era bem um projeto do Pink Floyd, mas sim de Roger Waters, naquela altura com a egomania completamente descontrolada. Com o sucesso de The Wall, Waters acreditou piamente que poderia fazer o que bem entendesse e que o restante do grupo deveria apenas seguir suas ordens cegamente. Demitiu Richard Wright do Floyd e levou até as últimas consequências sua megalomania galopante. Quando The Final Cut naufragou ele literalmente declarou à imprensa que o Pink Floyd havia chegado ao fim e ponto final.

Embora Roger Waters acreditasse nisso a ideia de colocar um fim na história do Floyd simplesmente não foi aceita pelos demais membros que começaram então uma longa batalha judicial pelo nome do grupo, para assim continuar o legado da banda britânica sozinhos, sem a presença egocêntrica de Roger Waters. Finalmente em 1987 eles conseguiram vencer a luta jurídica e liderados por David Gilmour resolveram arrumar a casa e retomar as redeas do Pink Floyd, sendo o primeiro projeto da era pós Roger Waters justamente a gravação desse belissimo LP, A Momentary Lapse of Reason. Antes de mais nada é bom avisar que Momentary não é unanimidade entre os fãs, muito menos entre as chamadas "viúvas" de Roger Waters. Para esse grupo o disco é totalmente ruim, falso, desprovido de alma, uma invenção completamente bastarda de David Gilmour para ganhar dinheiro em cima do nome mitológico do Pink Floyd. Besteira. Contando com três dos membros originais do grupo (Gilmour, Mason e Wright, reabilitado de seu vício em drogas e participante do disco como músico contratado) o LP é um sopro mais do que bem-vindo para o ressurgimento de um dos melhores conjuntos de rock da história.

Momentary Lapse or Reason abre com uma interessante colagem sonora na faixa Signs of Life. A tentativa aqui é óbvia. Gilmour tenta através de elaborada peça instrumental reviver os antigos bons momentos do Pink Floyd nos anos 70 (não faltou nem a parte de vozes ao fundo, como bem podemos ouvir em discos como Dark Side of The Moon). Learning To Fly mostra o que Gilmour tinha de melhor a oferecer ao grupo naquele momento: a sua tão conhecida habilidade em lidar com belas harmonias, fato amplamente consolidado na linda On The Turning Away. Claro que o disco não é isento de críticas: The Dogs of War, por exemplo, provavelmente não entraria nos melhores discos do Floyd na década de 70. De qualquer forma o disco conseguiu seu objetivo: fez sucesso e evitou que o Pink Floyd morresse após o lançamento de The Final Cut. Pela história e pela importância certamente o Floyd não merecia ter um fim tão inglório. Assim Momentary Lapse of Reason marca o nascimento da chamada fase Gilmour, com shows fantásticos ao redor do mundo, belos arranjos, revitalização do nome do grupo, muito sucesso comercial e consagração do grande público. Para ser sincero a única diferença realmente foi a ausência de Roger Waters, se bem que após The Final Cut poucos lamentaram sua saída. É isso, o momentâneo lapso de razão prevaleceu e nos legou mais um grande momento Floydiano. Obrigado por isso, David.
 
Pink Floyd - A Momentary Lapse of Reason - Parte 1
Dos escombros de uma briga judicial que parecia nunca ter fim o Pink Floyd finalmente ressuscitou na segunda metade dos anos 80. Agora liderados única e exclusivamente por David Gilmour, o novo grupo tinha a proposta de levantar o nome da banda, tão desgastada por causa das brigas entre Gilmour e Roger Waters. Esse último tentou impedir nos tribunais ingleses o uso do nome "Pink Floyd" pelos demais membros do conjunto. Assim David Gilmour precisou lutar muito para que ele e seus companheiros Nick Mason e Richard Wright tivessem o direito de usar o nome em um novo álbum. Esse disco acabou sendo chamado de "A Momentary Lapse of Reason". Apesar de todas as críticas, inclusive de Waters que jamais reconheceu esse LP como sendo do Pink Floyd realmente, devo dizer que gostei bastante da nova proposta. David Gilmour, um dos maiores instrumentistas da história do rock, realmente realizou um trabalho bem sofisticado, muito bom de se ouvir. Não era em absoluto revolucionário, ou qualquer outra coisa do tipo, porém era digno de se usar o mitológico nome da maior banda de rock progressivo da história. O resto são lágrimas ao vento de um ressentido Roger Waters, que deveria ter ficado mesmo calado.

Pink Floyd - A Momentary Lapse of Reason - Parte 2
Poucas coisas podem ser mais chatas do que aquele grupo de fãs do Pink Floyd que vivem de ridicularizar a fase anos 80 de David Gilmour. Eu acho a opinião dessas pessoas completamente bizarra, uma vez que alguns dos meus discos preferidos da banda são dessa época. Aqueles que dizem não haver uma sonoridade genuína do Pink Floyd nesses discos precisa reavaliar urgentemente seus conceitos. "Signs of Life" que abre o álbum "A Momentary Lapse of Reason" é um exemplo disso. É uma música puramente instrumental, que começa com sons de um remo de barco. O que estaria por trás disso. Simples de explicar. Esse disco foi gravado em um estúdio flutuante mantido por Gilmour chamado Astoria. Foi uma forma que o guitarrista e novo líder do Pink Floyd encontrou de trabalhar em paz, longe das pressões do público e da crítica. A melodia foi escrita por Gilmour e o produtor Ezrin e as vozes ao fundo são as do baterista Nick Mason. A voz dele foi duplicada, como se ele estivesse conversando com ele mesmo. Essa faixa me lembra muito a sonoridade de "Atom Heart Mother". É uma lembrança óbvia dos tempos em que o Pink Floyd criava trilhas sonoras incidentais para filmes. Uma ligação com o passado mais do que pertinente.

"The Dogs of War" continuava dividindo opiniões. Eu pessoalmente considero uma faixa forte, lembrando os bons tempos do auge da criatividade do rock progressivo inglês. Muitos a consideram um momento de fragilidade de David Gilmour nesse álbum. Que tolice! A música se revelou ótima para ser tocada ao vivo por causa de sua introdução de impacto. Composta ao lado de Anthony Moore, a letra não era uma referência aos advogados que trabalharam nos inúmeros processos envolvendo Gilmour e Roger Waters como muitos disseram na época de lançamento. Na verdade os tais cães de guerra são os políticos ingleses envolvidos em casos de corrupção. É assim uma composição mais política por parte de Gilmour. Imaginem se ele conhecesse o nível de corrupção da política brasileira! Aí sim ele veria o que é de verdade um mundo cão! Para os que reclamavam dessa nova sonoridade da banda, provavelmente "One Slip" era um prato cheio! Lançada no último single extraído do disco "A Momentary Lapse of Reason" a canção nunca foi uma unanimidade. Já ouvi todo tipo de crítica contra essa música, desde que ela seria um popzinho safado dos anos 80, até que seria "latina demais", principalmente em sua introdução! Provavelmente resolveram pegar no pé do compositor Phil Manzanera, pensando se tratar de algum músico latino. Não é! Phil é inglês e escreveu a música ao lado de Gilmour durante a pré-produção do disco. Enfim, de bobagens e tolices esse mundo de fãs mais radicais do Pink Floyd está realmente bem cheio!

Pink Floyd - A Momentary Lapse of Reason (1987)
01. Signs of Life
02. Learning to Fly
03. The Dogs of War
04. One Slip
05. On the Turning Away
06. Yet Another Movie" / "Round and Around
07. A New Machine (Part 1)
08. Terminal Frost
09. A New Machine (Part 2)
10. Sorrow

Pablo Aluísio.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Jim Morrison - Verdades e Mentiras

Como todo rockstar que se preze Jim Morrison, o vocalista do grupo The Doors, teve uma vida cheia de histórias mal contadas, fatos misturados com ficção e meias verdades. Visando separar o que realmente é verdade e o que é pura invenção resolvi escrever esse texto desmitificando algumas histórias que envolvem o nome de Jim Morrison.

Jim Morrison realmente mostrou seu pênis ao público?
Um dos fatos mais conhecidos da carreira de Morrison surgiu quando ele se apresentou escandalosamente em Miami na Flórida. Completamente narcotizado e alcoolizado o cantor subiu ao palco sem a menor condição de se apresentar ao vivo e no meio de várias frases desconexas e ofensivas dirigidos à plateia ele supostamente teria mostrado seu órgão sexual ao público. O fato escandalizou muito a sociedade americana e Morrison foi processado até seus últimos dias de vida por isso. Deixando todo o moralismo de lado ficou a pergunta: Houve mesmo exposição indevida por parte de Morrison? A resposta é não. Centenas de fotos foram tiradas naquele momento e nenhuma delas mostra o órgão sexual do cantor exposto ao público. O que existem são realmente poses provocativas por parte de Morrison, inclusive segurando seu pênis no palco mas esse estava devidamente dentro de suas calças. O fato de não se provar que Morrison mostrou sua genitália ou não acabou sendo deixado de lado já que se vivia naquela época uma verdadeira caça às bruxas contra grupos como The Doors. Morrison assim virou alvo fácil dos moralistas de plantão e bode expiatório para a camada mais conservadora da sociedade americana.

O Baterista dos Doors realmente odiava Morrison?
Certamente havia uma certa tensão entre Morrison e Densmore. A origem dos atritos não se resumiam apenas na irresponsabilidade por parte de Jim em relação aos compromissos do grupo mas também do ponto de vista musical. A tensão chegou ao auge durante as gravações do disco "LA Woman" quando o baterista qualificou as músicas do álbum como entediantes e sem pegada. Na ocasião ele afirmou: "Essas músicas de blues podem até ser interessantes para um vocalista como Jim, mas para um baterista como eu são entediantes demais". Depois que Jim se mandou para Paris, Densmore fo um dos principais incentivadores da gravação de um álbum completamente instrumental. Na ocasião chegou a dizer que os Doors não precisavam mais de Jim Morrison. Desnecessário lembrar que o tal disco instrumental foi um fracasso de crítica e de público.

Como era o relacionamento de Jim com sua família?
Jim sempre foi rebelde além do que seria tolerado dentro da família de um oficial da marinha dos EUA. Seu pai estava sempre em pé de guerra com Jim desde a adolescência. Não era para menos, uma vez que Morrison estava sempre envolvido em problemas (chegou inclusive a ser preso ainda na menoridade por um delito menor). Embora fosse considerado inteligente e bom aluno, Jim foi criando ao longo dos anos uma grande aversão à autoridade, principalmente em relação a seu pai. Quando foi para a universidade Morrison finalmente encontrou a liberdade que tanto buscava. Se matriculou em várias disciplinas no campus mas não mostrou qualquer interesse em levar adiante seu curso. Ao invés disso preferia ficar vagando pelas praias de Venice Beach, interagindo com a estranha fauna local. Depois que o grupo estourou nas paradas Jim chegou ao ponto de informar para a imprensa que seus pais estavam mortos. Mais tarde eles acabaram indo a um show do grupo mas Jim se recusou a encontrá-los nos bastidores. Depois disso nunca mais entrou em contato ou falou com eles novamente.

Morrison realmente virou um mendigo na Califórnia antes do sucesso?
Não, muito embora sua situação não fosse muito diferente da de um "sem teto" na época. Morrison foi morar em um depósito abandonado perto de Venice Beach mas só o usava esporadicamente. O resto do tempo passava como um errante nas praias da região. Sempre à vontade, sem camisa, Morrison vagava pelas redondezas atrás de drogas e qualquer tipo de diversão, seja na praia, seja fora dela. Foi sua fase de maior liberdade pessoal. Embora matriculado na universidade não frequentava as aulas e não demonstrava qualquer interesse em se formar em qualquer curso. Foi assim, andando a esmo, que ele acabou conhecendo Ray Manzarek, que iria formar ao seu lado o grupo The Doors. O resto é história.

Jim forjou sua própria morte?
Muito provavelmente não. O que existem são teorias da conspiração - cada uma mais imaginativa do que a outra. Para quem acredita a mais conhecida é a de que ele forjou sua própria morte em Paris e fugiu para a África por dois motivos: queria seguir os passos de seu ídolo, o poeta maldito Rimbaud e procurava também fugir da lei americana, pois estava condenado por atentado ao pudor e exibição indecorosa nas cortes daquele país após o infame show da Flórida. Muito provavelmente por causa dessas condenações não escaparia da prisão, mesmo que sua pena não fosse muito longa. Esse tipo de teoria não merece maior atenção. É por si só muito imaginativa e criativa mas longe da realidade dos fatos. O primeiro problema seria explicar como as autoridades francesas entrariam dentro da conspiração pois seu corpo seguiu todos os procedimentos burocráticos determinados por lei após sua morte (expedição de atestado de óbito, exame da causa mortis, etc). Assim seu falecimento foi atestado oficialmente, sem possibilidade de qualquer alteração. Além disso praticamente todas as mortes de pessoas famosas nos EUA acabam gerando algum tipo de teoria da conspiração como ocorreu com Elvis, JFK, Marilyn Monroe e James Dean. Com Morrison também não seria diferente o que tira qualquer credibilidade de histórias como essa.

Por que Morrison foi enterrado em Paris?
Ao falecer Jim estava em Paris com sua namorada Pam. Queria escrever e absorver o clima artístico local. Alguns autores afirmam que Jim estava em Paris com receio de ser decretada sua prisão definitiva nos EUA. Como a França não teria tratado de extradição com os EUA ele procurava uma forma legal de não ir parar atrás das grades. O fato é controverso e ainda paira muitas dúvidas sobre as reais intenções de Jim em relação a sua estadia em Paris. Muito provavelmente apenas sua namorada Pamela sabia o que ele realmente desejava com essa viagem.

O que aconteceu com Pamela Courson após a morte de Jim Morrison?
Pamela morreu de overdose de drogas em 25 de abril de 1974. Sobre as reais circunstâncias de sua morte paira uma série de dúvidas no ar. Sua família fez o possível para manter a imprensa longe dos acontecimentos mas pelo que se sabe (inclusive por relatórios oficiais da polícia) Pam teria morrido realmente de uma overdose de heroína no sofá de seu apartamento em Los Angeles. Na ocasião, sem muitos recursos financeiros, ela resolveu dividir os custos do aluguel com dois colegas que havia conhecido algum tempo antes. Ela foi sepultada em Santa Ana, Estado da Califórnia.

Como Jim Morrison é visto hoje pela crítica literária em relação aos seus poemas?
Jim não é unanimidade entre os críticos, principalmente aqueles especializados em poesia moderna e contemporânea. Muitos afirmam que Jim seria apenas um herdeiro tardio da geração beatnik e que teria herdado muito dos traços desses escritores e poetas. Dessa forma não haveria muita originalidade em seu trabalho literário.

Jim desertou da Guerra do Vietnã?
Filho de pai militar da marinha, Jim se matriculou em um número excessivo de cursos no semestre em que deveria se apresentar no serviço militar. Agindo assim conseguiu escapar de uma convocação para servir o exército, o que fatalmente lhe colocaria no front da guerra do Vietnã. Anos depois chegou a confidenciar a amigos mais próximos que teria até mesmo insinuado ao recrutador que era gay para fugir do serviço militar.

Morrison era satanista? Ele se casou em um culto de magia negra?
Jim Morrison chegou a se envolver com mulheres que gostavam desse tipo de seita mas para falar a verdade nunca levou nada muito à sério. Como certa vez disse Ray Manzarek, Jim era maconheiro e vivia rindo e se divertindo com as situações, assim muito provavelmente até mesmo seu suposto casamento em um culto de magia negra com uma de suas admiradoras não passou de uma grande piada pelo cantor.

Pablo Aluísio.