domingo, 31 de janeiro de 2016

Elvis First Album

Hoje andei ouvindo novamente o primeiro álbum de Elvis Presley. Fazia tempo que tinha parado para ouvir com maior atenção. É curioso. Remoendo minhas velhas lembranças me recordo que comprei o segundo disco antes desse, o que me levou a ter uma impressão de que o primeiro álbum de Elvis era bem menos rico musicalmente do que o segundo. De certa maneira isso é uma verdade já que as sessões que deram origem a "Elvis" (1956) contaram com mais recursos, mais músicos, mais instrumentos, enfim, mais capricho. Além disso não podemos esquecer que o First Album contava com várias canções dos tempos da Sun Records e essa gravadora, como bem sabemos, era uma pequena empresa, quase fundo de quintal. Recursos tecnológicos e produção requintada realmente não eram bem com eles (pobre Sam Phillips!).

Pois bem. O disco abre com "Blue Suede Shoes" que é definitivamente um dos maiores clássicos da história do Rock mundial. É interessante que li muitas e muitas vezes certos jornalistas dizendo que Carl Perkins, autor da música, era o predestinado para seguir o sucesso de Elvis. Um acidente o tirou de cena e abriu caminho para que Elvis se tornasse quem foi! Será mesmo? Olhando para trás, hoje mais maduro, não posso deixar de pensar que esse pensamento é de uma bobagem sem tamanho. Quem em sã consciência realmente criou tamanha abobrinha que perdurou por anos e anos a fio em revistas e livros? Santa bobagem, Batman. Mas enfim.... são clichês do jornalismo. Confesso aqui publicamente que nunca gostei muito de "I'm Counting on You" do Don Robertson. Ele era genial em músicas românticas, mas aqui Elvis não chegou a uma gravação irrepreensível. Ficou algo pelo meio do caminho. Talvez sua simplicidade seja um pouco demais da conta.

"I Got A Woman" é aquela música profana que Ray Charles criou em cima de uma linha de melodia gospel. Ele sabia o que fazia. Bem no meio do sul racista e evangélico ele ousou criar algo tão fora dos padrões como essa música. Se já era herege no piano de Charles imaginem o choque que causou na voz de Elvis Presley com toda aquele gingado considerado indecente pelos puritanos. Era certamente uma coisa do capeta encarnado. Depois dela vem "One-Sided Love Affair" do Bill Campbell. Certamente é o primeiro belo arranjo do álbum, uma harmonia maravilhosa entre o vocal inconfundível de Elvis, piano, bateria e demais instrumentos. Estão numa sincronia ímpar. Provavelmente seja a melhor gravação em termos técnicos de todo o álbum, só perdendo talvez nesse quesito para "I'm Gonna Sit Right Down and Cry (Over You)", sim, aquela música que os Beatles tentaram copiar sem sucesso em seu programa de rádio na BBC. Se nem os Beatles conseguiram recriar essa sonoridade imaginem o nível que a música como um todo apresenta. Obra prima.

Já a dobradinha "I Love You Because" e "Just Because" nunca fez muito minha cabeça. A primeira é muito, digamos, melancólica (de um jeito ruim de ser). Falta também um melhor equilíbrio entre vocal e instrumentos de apoio. Elvis está muito à frente o que sempre me intrigou pois ele ao longo da carreira sempre fez questão que sua voz fosse encoberta pelo seu grupo musical (opinião aliás com a qual o Coronel Parker não concordava). A segunda é um skiffle. Até aí nada demais. O problema é que os ingleses acabaram com o tempo se tornando os mestres desse ritmo. Como Elvis não era inglês... Deixemos isso de lado. "Tutti Frutti" talvez seja uma das músicas de Elvis mais conhecidas no Brasil, mas nos Estados Unidos e no resto do mundo ela é mais associada a Little Richard que a compôs e a gravou originalmente. Certa vez Elvis se referiu ao rock como "chiclete". Provavelmente estava lembrando dessa gravação. Maledicências à parte, não há como negar, a gravação de Pelvis é um dos pontos altos do álbum. Só ele tinha essa capacidade de mastigar e engolir a letra de uma música como ouvimos aqui. A cultura adolescente surgiu assim, em gravações como essa, não se engane.

Por fim, não podemos deixar de mencionar a clássica "Blue Moon". Poucos sabem, mas esse take quase foi jogado na lata de lixo da Sun Records porque afinal de contas Elvis esqueceu a letra bem no meio da sessão. Sam Phillips porém viu mais a frente. Ele percebeu que havia uma grande linha melódica ali - e Steve Sholes, produtor de Elvis na RCA Victor também percebeu a mesma coisa. Resultado? Ela foi encaixada no disco. Tinha tudo para ser um take alternativo descartado, acabou virando um clássico absoluto! Nada mal. Então é isso. Nada como ouvir de novo um disco que mudou a história da música para sempre. Ainda acho que o álbum seja esquelético em suas propostas sonoras?! Tudo depende do ponto de vista usado, meu caro, realmente tudo depende...

Pablo Aluísio.

Batman: Sangue Ruim

Nova animação da DC e Warner que está chegando direto em DVD no Brasil e Estados Unidos. Já está virando uma tradição esse tipo de lançamento, uma vez que se vai preparando o terreno para a chegada do blockbuster "Superman Vs Batman" nos cinemas. Enquanto o tão aguardado lançamento não chega os fãs do Batman vão se divertindo com esse tipo de animação de venda direta ao consumidor. Nessa trama Batman enfrenta uma nova geração de vilões liderados por um estranho sujeito que responde pelo nome de "O Herege". Na verdade ele não passa de um projeto de clonagem mal sucedido que resultou em um indivíduo extremamente forte e poderoso, mas completamente desprovido de qualquer tipo de valor moral. Logo na primeira cena ele enfrenta o Batman e depois dessa luta feroz o Homem-Morcego desaparece de circulação. Logo boatos se espalham de que ele teria sido morto, principalmente após a própria Batwoman testemunhar o local onde ele estava ser destruído completamente. Para evitar que todos realmente comecem a pensar que Batman estaria realmente morto, Dick Grayson, seu antigo Robin, resolve assumir seu uniforme. O problema é que com o sumiço do herói todos os vilões começam a encher as ruas de Gotham City para dominar a cidade.

Uma boa animação, ao estilo tradicional, que traz toda uma nova galeria de vilões que eu não conhecia (não sei ao certo informar se são realmente novos ou se nos quadrinhos já são figurinhas fáceis e banais de encontrar, já que não leio quadrinhos). De qualquer maneira o que mais chama a atenção nesse desenho é a fartura de personagens secundários dentro do universo Batman, com destaque para Katherine Kane, a filha de um militar que desenvolve uma série de traumas psicológicos em sua vida por causa do passado (tal como Bruce Wayne). Em busca de alguma paz ela resolve assumir a identidade da Batwoman para também livrar as ruas dos criminosas. Essa personagem aliás nunca foi tão popular como a Batgirl ou qualquer outro vilão das histórias do Batman, mas ultimamente tem sido feito um esforço da DC Comics em revitalizar sua popularidade, aumentando sua participação em quadrinhos e animações (nos EUA ela inclusive ganhou um novo título mensal na editora). O resultado é bem divertido, nada que vá se tornar memorável, mas que cumpre sua promessa de entreter o espectador com um produto no mínimo bem feito.

Batman: Sangue Ruim (Batman: Bad Blood, EUA, 2016) Direção: Jay Oliva / Roteiro:  J.M. DeMatteis, Grant Morrison / Elenco:  Jason O'Mara, Yvonne Strahovski, Stuart Allan / Sinopse: Após ser encurralado por um novo grupo de vilões, o herói Batman é levado prisioneiro para passar por uma série de torturas físicas e psicológicas, desaparecendo das ruas, o que faz aumentar os boatos e as desconfianças de que na verdade estaria morto. Para manter a criminalidade sob controle, o antigo Robin Dick Grayson (atualmente usando a identidade do Asa Noturna) resolve usar o uniforme do Batman para tentar descobrir seu paradeiro.

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.

sábado, 30 de janeiro de 2016

Randolph Scott - Fort Worth

Mais um bom faroeste com o astro do western Randolph Scott. Aqui ele interpreta um tipo incomum em sua filmografia. Scott é Ned Britt. No passado ele fora um pistoleiro temido no velho oeste, principalmente no norte do Texas. Com o tempo ele passou a entender que seria morto mais cedo ou mais tarde pois sempre haveria alguém tentando ter a honra de ter matado o mais rápido do gatilho. Assim ele decide abandonar as armas, se dedicando a ser um jornalista. Isso mesmo. Com uma prensa mecânica em uma carruagem, Ned e sua pequena equipe se tornam jornalistas itinerantes, indo de cidade em cidade para publicar seu pequeno diário.

Depois de muito rodar ele acaba parando em sua terra natal, a pequena Fort Worth, no mesmo Texas que um dia deixou para tentar o começo de uma nova vida. Seu retorno acaba também trazendo problemas. Sua antiga namorada (e amor de sua vida) está para casar com o seu melhor amigo. Para piorar tudo, a presença de alguém disposto a publicar um jornal na cidade logo desperta ódios, principalmente dos bandidos e malfeitores da região. A liberdade de imprensa já existia nos Estados Unidos naqueles tempos pioneiros, porém não eram poucos os jornalistas que acabavam sendo mortos por aquilo que escreviam. Afinal de contas o oeste ainda era selvagem.

O interessante é que o personagem de Scott evita a todo custo em voltar a usar as armas. Ele acredita sinceramente que o poder das palavras é mais forte e imponente do que o poder das armas de fogo. Sua relutância em voltar ao velho estilo - de acertar todas as rivalidades com um cano fumegante - logo o deixa vulnerável contra os facínoras de Fort Worth. Ele só muda de ideia mesmo quando seu sócio é morto covardemente na própria sede do jornal Fort Worth Star que dirige. A partir daí não sobra outra alternativa. O velho e bom Randolph Scott então resolve acertar as contas ao velho estilo, em duelos face a face (algo que certamente fez a festa dos fãs do ator na época).

Embora seja um western bem na média do que Scott era acostumado a estrelar - ou seja, uma fita B, mas com muito bom gosto e com todos os elementos necessários presentes - o que mais me chamou a atenção nesse filme foi o bom roteiro, com inúmeras reviravoltas envolvendo todos os personagens. Ora Scott pensa contar com seu velho amigo, ora descobre que está entrando em uma verdadeira cilada, com traição à vista. E para não faltar nada mesmo, o filme ainda traz ótimas sequências de ação, como a corrida em direção a uma locomotiva em chamas e uma grande sequência de acerto de contas de Scott com todos os vilões do filme. Em suma, um faroeste para fã do gênero nenhum colocar defeito. Scott era realmente muito eficiente nesse tipo de produção. Bons tempos aqueles.

Domador de Motins (Fort Worth, EUA, 1951) Direção: Edwin L. Marin / Roteiro: John Twist / Elenco: Randolph Scott, David Brian, Phyllis Thaxter / Sinopse: Após viajar numa caravana em que um garotinho morre esmagado depois do estouro incontrolável de uma manada, o cowboy e jornalista Ned Britt (Scott) decide voltar para sua terra natal, Fort Worth. Lá reencontra o grande amor de seu passado e seu antigo melhor amigo,  Blair Lunsford (David Brian), um homem que se tornou extremamente rico, com ambições políticas. O problema é que ele parece ter enriquecido através de métodos ilegais e ilícitos. Será que a amizade entre Ned e Blair sobreviverá agora que tudo parece ter mudado na velha cidade?

Pablo Aluísio.

Peter Cushing - The Brides of Dracula

Essa sugestão vai para quem gosta de um bom filme de terror clássico. O filme se chama "As Noivas do Vampiro" de 1960. Com direção de Terence Fisher e produção dos estúdios ingleses da Hammer esse é um dos mais subestimados filmes da companhia. O curioso é que embora faça parte da franquia original (aquela mesma que começou com Christopher Lee dois anos antes) o roteiro explora não a presença do Conde, mas sim dos infectados com a sua praga. Logo na primeira cena é explicado ao espectador que Drácula está morto, mas que seus súditos continuam a espalhar o mal pelo mundo.

Marianne Danielle (Yvonne Monlaur) é uma jovem professora que segue viagem pela sinistra Transilvânia. Ao parar em um pequeno vilarejo ela descobre que seu cocheiro simplesmente foi embora - muito provavelmente apavorado com a possibilidade de ser atacado naquele lugar sombrio. Abandonada numa taverna local, sem ter para onde ir, ela acaba aceitando o gentil convite da Baronesa Meinster (Martita Hunt) para passar a noite em seu castelo. Mal sabe a professorinha que a antiga construção medieval guarda um segredo terrível: o filho da Condessa vive acorrentado em seus aposentos pois é na verdade um vampiro.

A partir daí as coisas se desenvolvem de certa maneira como o esperado. A jovem fica horrorizada ao saber que aquele jovem rapaz vive como um animal acorrentado. Com pena dele acaba lhe libertando ao roubar a chave da Condessa. Depois de livre, o caos se instala. O jovem Barão Meinster (David Peel) sai em busca de sangue humano, afinal de contas ele é uma criatura da noite que precisa se alimentar. Apenas a chegada do Van Helsing (Peter Cushing) poderia deter aquela ameaça terrível.

"As Noivas do Vampiro" (ou como também é conhecido "As Noivas do Drácula") é um excelente exemplo do cinema da Hammer. Tudo é muito bem produzido. Os cenários, figurinos e ambientações são de extremo bom gosto. A direção de arte então é realmente de encher os olhos. A Hammer ficou famosa justamente por causa desse capricho especial que trazia em suas produções. O filme gira em torno justamente do Dr. Van Helsing que precisa enfrentar não apenas o Conde Meinster como também um grupo de jovens que também se tornam vampiras por suas mãos (daí o título do filme).

É aquele tipo de filme que acabou se tornando uma grande influência dentro do cinema. Se você prestar bem atenção, por exemplo, vai ver que esse visual de jovens vampiras vitorianas usando camisolas, sendo sensuais e temidas ao mesmo tempo, foi copiado a exaustão por todos os demais filmes de terror (na verdade até hoje em dia não conseguimos ver tais vampiras vestidas de outro modo). Assim o que vemos aqui é um verdadeiro percurssor de toda uma linhagem de filmes de terror. Uma pequena obra prima do gênero, muito bem realizada e saborosamente nostálgica.

As Noivas do Vampiro (The Brides of Dracula, Inglaterra, 1960) Direção: Terence Fisher / Roteiro: Jimmy Sangster, Peter Bryan / Elenco: Peter Cushing, Martita Hunt, Yvonne Monlaur, David Peel, Freda Jackson / Sinopse: Jovem professora de crianças acaba caindo em uma armadilha mortal ao aceitar o convite para passar a noite no castelo Meinster, na verdade um reduto de vampiros. Filme premiado pela  Academy of Science Fiction, Fantasy & Horror Films na categoria Melhor Lançamento Clássico de DVD.

Pablo Aluísio.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

A Casa das Amarguras

Título no Brasil: A Casa das Amarguras
Título Original: Ten North Frederick
Ano de Produção: 1958
País: Estados Unidos
Estúdio: Twentieth Century Fox
Direção: Philip Dunne
Roteiro: Philip Dunne, baseado no romance de John O'Hara
Elenco: Gary Cooper, Diane Varsi, Suzy Parker, Geraldine Fitzgerald, Ray Stricklyn
  
Sinopse:
Joseph B. 'Joe' Chapin (Gary Cooper) é um advogado bem sucedido, paí de uma família tradicional, que começa a ter ambições políticas. Ele pretende se candidatar a um alto cargo público. Suas pretensões porém acabam esbarrando em problemas familiares diversos. Sua filha fica grávida de um músico trompetista de uma banda de jazz. Ele é pobre, descendente de italianos e não condiz com os requisitos de Joe para se tornar o marido de sua filha. Seu outro filho, Joby (Ray Stricklyn), também não quer seguir os passos do pai, preferindo estudar música ao invés de ser enviado para Yale para se formar em Direito. Para piorar Joe descobre estar apaixonado por uma jovem que poderia ser sua filha. Tantos conflitos de uma só vez acabam minando sua vida política e familiar. Filme indicado ao Globo de Ouro na categoria de Melhor Ator - Revelação (Ray Stricklyn). Vencedor do Locarno International Film Festival na categoria de Melhor Filme.

Comentários:
Drama familiar estrelado pelo astro Gary Cooper. Já em fase final de carreira, beirando os 60 anos de idade, o bom e velho Cooper acabou realizando uma de suas melhores atuações nesse filme ao velho estilo. A carga dramática é o seu grande atrativo. O roteiro mostra a vida de um homem que vê a ruína e o fracasso se instalarem em sua vida profissional e familiar. Ao se deparar com problemas ele acaba escolhendo os caminhos errados, se desvirtuando do que seria certo. As coisas começam a andar mal quando sua filha fica grávida de um músico de jazz band. O sujeito é um pobretão, filho de imigrantes italianos e sem grande futuro pela frente. Como se isso não fosse ruim o bastante Ann Chapin (interpretada pela doce e elegante Diane Varsi) está grávida dele. Um escândalo que coloca em risco até mesmo as ambições políticas de Joe Chapin (Cooper) em se tornar um figurão do mundo da política. Tentando abafar a situação ele suborna o músico e o manda sumir de vista, destroçando emocionalmente a vida sentimental de sua própria filha. Depois força a barra para que seu único filho homem, Joby (Stricklyn), vá para Yale estudar Direito contra sua vontade. Manipulando a vida dos filhos, causando frustrações e infelicidades neles, tentando controlar a tudo e a todos, a vida de Joe começa a entrar em um ciclo de fracassos e planos que nunca dão certo. Ele também termina se apaixonando pela colega de quarto de sua própria filha, a bela Kate Drummond (Suzy Parker, sensual e apaixonada na medida certa), mas a diferença de idade entre ambos torna tudo praticamente impossível. O diretor Philip Dunne era um hábil cineasta na realização desse tipo de drama mais pesado, com tintas excessivas. Curiosamente ele tentaria três anos depois da realização dessa produção trazer um pouco mais de carga dramática para a carreira do roqueiro Elvis Presley no filme "Coração Rebelde". Não foi tão bem sucedido. Já ao lado do veterano Cooper as coisas funcionam muito bem. O filme tem densidade dramática adequada, ótimas atuações de todo o elenco e o toque final mostrando e explorando a hipocrisia que reina dentro da sociedade como um todo. Um pequeno clássico que anda esquecido e que merece ser redescoberto pelos admiradores do cinema clássico americano.

Pablo Aluísio.

 

Gary Cooper - Ten North Frederick

Muito bem, se você é fã de cinema e procura conhecer a era de ouro de Hollywood é importante fugir do lugar comum. Veja o caso do ícone Gary Cooper. Muitos o conhecem por obras primas como "Por Quem os Sinos Dobram", "Sargento York" ou "Matar ou Morrer". São filmes maravilhosos, não restam dúvidas sobre isso, porém Cooper foi muito além desses filmes mais conhecidos. Ao longo da carreira ele desfilou seu talento em 119 filmes! Infelizmente a maioria deles esquecidos hoje em dia. Assim abro um pequeno espaço aqui para escrever sobre um drama familiar da filmografia de Cooper que poucos comentam, mesmo em fóruns de cinema. Estou me referindo ao drama familiar "Ten North Frederick" (que no Brasil recebeu o título de "A Casa das Amarguras").

Gary Cooper interpreta Joe Chapin. Aparentemente um homem bem sucedido. O roteiro começa a contar sua vida  justamente pelo seu funeral. Os familiares e amigos vão chegando em sua bonita mansão enquanto a imprensa cobre todos os eventos. Os elogios a ele são os melhores possíveis, porém dentro de sua família, entre quatro paredes, todos lamentam alguns aspectos sobre o verdadeiro Chapin. Ele deixou esposa e um casal de filhos. Ao que tudo indica, por baixo da fachada de família rica, bonita e feliz, existe uma série de traumas psicológicos, amarguras e tristezas. A partir do momento que sua filha começa a relembrar o passado, em seu quarto, ao lado do irmão, o roteiro recua no tempo, em um grande flashback, para mostrar os cinco últimos anos da vida de Chapin e todos os acontecimentos que o levaram a ter uma morte relativamente precoce.

Nesse caso o título nacional até que foi bem adequado. Realmente aquela seria uma casa de amarguras. Embaixo da hipocrisia reinante do funeral vamos entendendo os erros e tropeços de Chapin, tanto em sua vida pública como na familiar. Ele tem aspirações políticas e impulsionado pela esposa, uma mulher fria, calculista e ambiciosa, entra no jogo partidário para conseguir a nomeação a uma disputa por um importante cargo público. Para ser escolhido vale tudo, até subornos e propinas (pelo visto a corrupção não é exclusividade tão brasileira como muitos pensam!). Nesse processo o próprio Chapin vai perdendo sua honra e sua dignidade. Em pouco tempo perceberá que está entrando em um jogo extremamente sujo.

Dentro de casa, na vida familiar, tudo também começa a ruir. A filha mais velha, sua preferida, se apaixona por um músico pobre, de origem italiana. Ele certamente não cumpre os requisitos para fazer parte da família Chapin. Joe usa da pior artimanha para afastá-lo de sua filha, o comprando para ficar longe. Pior é que ela está grávida e Joe precisa evitar o escândalo a qualquer preço. Um aborto seria bem-vindo, apesar da degradação moral que traria. O outro filho também tem problemas. Ele sonha ser músico, entrar para a prestigiada Juilliard School em Nova Iorque, algo que Chapin abomina. Ele acaba colocando o filho em Yale para estudar Direito para se tornar advogado no futuro (embora o rapaz odeie essa ideia). Enfim, muitos problemas causados principalmente pelo excessivo controle dos pais sobre a vida dos filhos, praticamente os sufocando, o que só resulta no final das contas em suas próprias infelicidades. Aliás a grande lição do roteiro é justamente essa: há limites para a interferência dos pais sobre a vida dos filhos. O excessivo controle, a opressão e a imposição de vontades só levam a família para o choque e o confronto, nada de bom saindo de tudo isso.

Com a vida ruindo sobra a bebida. Joe Chapin (Cooper) começa a beber excessivamente para afogar as mágoas, ainda mais depois que se apaixona por uma jovem que teria a idade para ser sua filha! Como se pode perceber esse é um drama ao velho estilo, como já não se faz mais como antigamente. Parece que Hollywood perdeu a sensibilidade e o bom gosto para produzir filmes desse estilo. Em termos de elenco todos estão muito bem, mas como não poderia deixar de ser o destaque vai mesmo para Cooper. Bastante envelhecido, com cabelos grisalhos e costas arreadas pelo peso dos problemas da vida, o ator dá um show de interpretação. Seus momentos finais, com a mão trêmula e o aspecto doentio, deveriam ter lhe dado um Oscar pelo precioso trabalho de atuação. Definitivamente Cooper deixou um vazio no cinema americano que jamais foi ocupado depois.

Leia mais sobre A Casa das Amarguras clicando Aqui! 

Pablo Aluísio.

Santos ou Soldados - Missão Berlim

Título no Brasil: Santos ou Soldados - Missão Berlim
Título Original: Saints and Soldiers - Airborne Creed
Ano de Produção: 2012
País: Estados Unidos
Estúdio: Go Films
Direção: Ryan Little
Roteiro: Lamont Gray, Lincoln Hoppe
Elenco: Corbin Allred, David Nibley, Jasen Wade
 
Sinopse:
Segunda Guerra Mundial. Agosto de 1944. Um esquadrão de paraquedistas do exército americano salta no sul da França para dar apoio às tropas aliadas que marcham em direção a Berlim. Três dos militares ficam isolados do resto da tropa por caírem longe do ponto certo. Agora eles precisam sobreviver aos ataques do inimigo, ao mesmo tempo em que decidem ajudar um grupo da resistência que se encontra prisioneiro das tropas nazistas.

Comentários:
Uma pequena produção de guerra que se propõe dar continuidade à franquia "Saints and Soldiers". Eu confesso que me recordo apenas vagamento do primeiro filme (sequer me lembro se cheguei a escrever algo sobre ele), mas de qualquer forma não é complicado de antever o que virá pela frente para o espectador. Em termos gerais os roteiros são simples e o orçamento limitado. A produção fica na fronteira entre um telefilme e um filme barato para o cinema. Não há grandes estrelas e o diretor é praticamente um desconhecido. Mesmo assim, com tantas limitações, ainda é uma fita que dá para assistir sem problemas, desde que você não esteja esperando nada excepcional como, por exemplo, "O Resgate do Soldado Ryan" ou coisas desse nível. Não, você encontrará apenas um filme modesto que se propõe a contar uma boa estória, sem exageros e sem produção luxuosa ou classe A. Olhando sob esse ponto de vista até que essa linha de filmes não é tão mal. Como diversão ligeira compensa suas deficiências.

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

10 Perguntas Sobre Jesus Cristo

1. Qual era a altura de Jesus e como era sua aparência? Não se sabe com exatidão a resposta para esse tipo de questionamento. Os evangelhos não trazem descrições físicas de Jesus pois para seus autores era mais importante espalhar a mensagem de Jesus e não sua aparência física (considerada na antiguidade como algo sem maior importância).

2. Se não se sabe como Jesus realmente aparentava de onde surgiu essa imagem que conhecemos hoje? As mais antigas representações de Jesus na verdade não o retratavam com longos cabelos, mas sim com cabelos curtos, porém essas primeiras representações são datadas de mais de dois séculos após sua morte e não são exatas. A tradição é apontada como a que manteve viva essa imagem tradicional de Jesus. Alguns historiadores inclusive afirmam que essa imagem (nariz alongado, cabelos negros longos e olhar expressivo) na verdade foi baseada no Santo Sudário da Igreja Católica. Enfim, muitas incertezas e poucas certezas sobre como se parecia fisicamente o Messias.

3. Jesus Cristo teve irmãos?
Esse é um tema dos mais controversos. No evangelho supostos irmãos de Jesus são até nomeados, além de haver também referências a irmãs dele (cujos nomes infelizmente os Evangelhos não trazem). Seria irmãos de sangue de Jesus? Filhos de Maria e José? Ninguém sabe ao certo. Para a Igreja Católica se trata de um erro de interpretação pois a família santa seria composta apenas por Maria, José e Jesus. Para outros eles seriam filhos de José de um casamento anterior. Para alguns historiadores não seriam irmãos, mas primos, de acordo com a tradição judaica antiga.

4. Jesus era analfabeto?
De tempos em tempos surgem teses de que Jesus não era alfabetizado e que por essa razão não teria deixado nada escrito de próprio punho. Os que defendem essa teoria dizem que raras pessoas eram alfabetizadas na antiguidade, ainda mais se tratando de um membro da classe mais pobre como Jesus. É um erro. Em várias passagens do evangelho Jesus surge como alguém demonstrando cultura em relação às escrituras (algo que ele teria adquirido com estudo e leitura), além da famosa passagem onde Jesus começa a escrever na areia os pecados dos que estavam à sua volta querendo apedrejar uma pecadora. Com tudo isso é praticamente certo afirmarmos que Jesus realmente sabia ler e escrever.

5. Jesus foi casado com Maria Madalena?
Não existe qualquer evidência histórica de que Jesus tenha sido casado com Maria Madalena. A lenda popularizada pelo livro "O Código da Vinci" de Dan Brown não parece ter qualquer base na história real dos fatos. Além disso os evangelhos não dizem nada sobre Jesus ser casado, uma informação vital que teria sido escrita nos livros sagrados com absoluta certeza. Como não há nada sobre isso tudo o que restam são puras especulações vazias.

6. Onde Jesus pregava? 
Jesus pregava ao ar livre, nas praias, nas ruas, nas casas, em qualquer lugar onde houvesse alguém disposto a ouvir sua mensagem. Foi um pregador do povo e para o povo. Não interessava muito a Jesus ensinar aos sacerdotes do templo, tão orgulhosos e cheios de si, arrogantes ao extremo, considerando-se melhores do que o resto do povo. Jesus procurava os pobres, os excluídos, os miseráveis para levar sua palavra divina. Foi um homem livre, que ia e vinha de acordo com sua vontade, espalhando a mensagem de Deus a quem quisesse ouvir.

7. Como era a personalidade de Jesus?
Retratado muitas vezes com um olhar austero em quadros e pinturas, tudo leva a crer que na vida real Jesus era uma pessoa extremamente agradável, simpática, paciente e bastante comunicativa, afinal de contas ele veio ao mundo para falar sobre Deus e sua graça. Assim é bem deixar de lado a imagem de um Jesus sisudo e com cara de poucos amigos. Jesus era um homem do povo, interagia com todos, ria, participava de festas, casamentos, sempre conversando e sendo amigável com todos. Sua simpatia acabou sendo usada como arma contra ele por certos acusadores. Só para você ter uma ideia de seu jeito de ser.

8. O que Jesus pregou sobre a homossexualidade?
Não há no evangelho nenhuma palavra de Jesus sobre a questão. É curioso, mas nenhum dos evangelistas registrou qualquer palavra ou pensamento de Jesus sobre os homossexuais. Não que eles não existissem na época de Jesus, pelo contrário, havia muitos, porém realmente sobre isso os textos dos evangelhos simplesmente silenciam completamente. Se Jesus algum dia de sua vida pregou sobre o tema isso se perdeu completamente nas areias do tempo.

9. Jesus esteve na Índia?
Uma velha lenda afirma que Jesus teria viajado até a Índia nos chamados anos obscuros de sua vida (onde os evangelhos silenciam completamente sobre sua vida). Existem, é verdade, vários supostos locais onde Jesus teria vivido, em distantes reinos indianos, porém como sempre nada foi provado efetivamente. Existe inclusive um suposto túmulo atribuído a Ele numa distante província indiana. Segundo a lenda local ele teria ido viver seus últimos anos de vida lá, após ser crucificado e ressuscitado. Tudo não passa realmente de lenda.

10. Para a teologia cristã Jesus é filho de Deus ou o próprio Deus?
Essa foi uma questão teológica que durou séculos até que finalmente autoridades da Igreja Católica determinaram que Jesus era o próprio Deus encarnado entre os homens. Esse fundamento de fé foi seguido pelos evangélicos que também defendem que Jesus não era apenas o filho de Deus, mas sim o próprio Deus entre a humanidade. Essa é uma visão teológica seguida por todo o cristianismo tradicional, porém não por todas as religiões. O espiritismo, por exemplo, não defende Jesus como o divino, mas apenas como um espírito evoluído.

Pablo Aluísio.

Os Bad Boys

Michael Bay nunca pensou em realizar filmes com muito conteúdo. Na verdade de todos os cineastas em atividade hoje em dia ele é o mais sincero em dizer que realiza filmes para pura diversão, chicletes de consumo rápido e fácil. Por isso não adianta procurar pelo em casca de ovo, você jamais encontrará um grande roteiro em obras assinadas por Bay. Nem atuações Shakesperianas, nem dramas profundos, nem... nada! Os filmes de Bay são assim mesmo, produções vazias para o grande público - em especial jovens - que não possuem muita coisa na cabeça. Por essa razão também os filmes de Bay via de regra são extremamente bem sucedidos nas bilheterias. Agora verdade seja dita, para quem dirigiu grandes pastéis de vento ao longo de toda a carreira esse "Os Bad Boys" é pelo menos bem divertido.

Claro que grande parte do charme e da qualidade da fita vem dos atores protagonistas. Will Smith é aquele negócio. Ele veio da TV onde interpretava um jovem negro que ia morar com os tios ricaços de Beverly Hills na série popular "Um Maluco do Pedaço". Como fez muito sucesso logo tentou a carreira no cinema (e novamente de deu bem). Smith nesse papel não foge muito do lugar comum, do tipo habitual que vinha apresentando em seus trabalhos anteriores. Na verdade em muitos aspectos ele funciona apenas como escada para Lawrence, esse o verdadeiro comediante da fita. Some-se a isso (em um roteiro tendente para o lado do humor mais acentuado) um monte de carros voando, inúmeras explosões gratuitas (marca registrada do diretor) e você vai entender direitinho a fórmula de Michael Bay para fazer sucesso. Seus filmes são como aquele fast food da esquina: não alimentam, não trazem nada de substancial, mas pelo menos servem para divertir a garotada. Só não vá engordar muito os meninos só consumindo esse tipo de porcaria.

Os Bad Boys (EUA, 1995) Direção: Michael Bay / Roteiro: Michael Barrie, George Gallo / Elenco: Will Smith, Martin Lawrence, Lisa Boyle / Sinopse: Dois tiras, colegas de trabalho, são designados para proteger uma testemunha importante em um perigoso caso envolvendo traficantes de heroína. Logo percebem que a missão não será nada fácil e nem tampouco tranquila.

Pablo Aluísio.

De Volta Para o Futuro Parte III

Terceiro e último filme da série. Também é considerado (com toda a razão) como o mais fraco da trilogia. É a tal coisa, misturar gêneros cinematográficos diversos pode até soar interessante, mas tem que dosar bem as coisas. O exemplo de  "Cowboys & Aliens" está aí para provar que não estou exagerando. Aqui o diretor Robert Zemeckis misturou ficção com western. Funciona? Apenas em termos. Durante uma das entrevistas de promoção do filme o cineasta explicou que o roteiro não passa de um puro capricho seu. Acontece que a Paramount resolveu produzir as duas sequências (Parte II e III) de uma só vez, para economizar custos e aumentar lucros. O problema é que Zemeckis só tinha de fato um roteiro pronto, acabado e lapidado (justamente o do segundo filme). Então surgiu a dúvida de como ele poderia criar algo para a terceira parte. Meio na correria ele teve essa ideia de levar McFly e o Dr. Brown para o velho oeste americano. Como ele adorava filmes de faroeste seria algo no mínimo divertido.

A questão é que apenas uma ideia divertida não garante um bom filme. "De Volta Para o Futuro III" assim usa de todos os meios para trazer elementos clássicos do western (como cenas clichês e nomes de mitos do gênero) para divertir o máximo possível. No fundo, se formos analisar bem, o filme nem é uma ficção e nem um western, mas sim uma comédia de costumes. Conforme o filme vai seguindo em frente vamos percebendo que as tais ideias originais vão sumindo, se esgotando. Para segurar a barra até o The End, Zemeckis então resolveu reciclar tudo o que já havia sido visto nos dois filmes anteriores. É como eu sempre digo: um dos problemas mais recorrentes em franquias de sucesso do cinema americano é a falta de originalidade, a ausência de uma coragem maior para inovar - parece que os produtores têm medo de investir em algo que não seja mais do mesmo (vide esse último "Star Wars" para perceber bem isso). Diante de tudo o que sobra é apenas um prato requentado, sem grandes inovações, a não ser o contexto histórico da América dos tempos dos índios e cowboys. Muito pouco, para falar a verdade.

De Volta para o Futuro Parte III (Back to the Future Part III, EUA, 1990) Direção: Robert Zemeckis / Roteiro: Robert Zemeckis, Bob Gale / Elenco: Michael J. Fox, Christopher Lloyd, Mary Steenburgen / Sinopse: No presente, após retornar de mais uma viagem de volta ao passado, o jovem Marty McFly (Fox) recebe uma carta do Dr. Brown (Lloyd) lhe informando que está agora no passado, no velho oeste americano. Ele encontrou o grande amor de sua vida, a bela e doce Clara Clayton (Mary Steenburgen), mas está enfrentando também alguns sérios problemas. Caberá a McFly voltar para aqueles tempos pioneiros para ajudar seu velho amigo de aventuras. Filme premiado pela Academy of Science Fiction, Fantasy & Horror Films nas categorias de Melhor Música (Alan Silvestri) e Melhor Ator Coadjuvante (Thomas F. Wilson).

Pablo Aluísio.

Espionagem Internacional

Título no Brasil: Espionagem Internacional
Título Original: Triple Cross
Ano de Produção: 1966
País: Inglaterra, França
Estúdio: Cineurop
Direção: Terence Young
Roteiro: René Hardy, baseado no livro de Frank Owen
Elenco: Christopher Plummer, Yul Brynner, Romy Schneider, Trevor Howard
  
Sinopse:
Durante a Segunda Guerra Mundial o ladrão de cofres inglês Eddie Chapman (Christopher Plummer) é preso na França e condenado a 14 anos de prisão. Quando a França é invadida por tropas nazistas ele propõe um acordo com o diretor da prisão onde está encarcerado: como inglês ele pode facilmente se infiltrar nas linhas inimigas, espionando para o Terceiro Reich. Após forjarem sua morte - para evitar futuras suspeitas - Chapman acaba sendo submetido a um intenso treinamento para em breve sair em campo, espionando sua antiga nação em prol da Alemanha de Hitler. Roteiro baseado em fatos reais. Filme premiado pela Bambi Awards na categoria de Melhor Ator coadjuvante (Gert Fröbe). 

Comentários:
"Espionagem Internacional" é um filme de guerra que tenta fugir um pouco do óbvio. Ao invés de mostrar a guerra dos campos de batalha, do front, seu roteiro se concentra em explorar a intensa guerra de espionagem que se criou entre países aliados e países do eixo. Entre as armas usadas nessa linha de frente havia a procura pelo recrutamento de nacionais das nações inimigas. É justamente isso que ocorre quando o serviço de inteligência da Alemanha Nazista resolve trazer para suas fileiras um inglês, o ladrão de cofres Eddie Chapman (Christopher Plummer). Para ele seria uma troca interessante: condenado a 14 anos de prisão nada poderia cair melhor do que começar uma carreira de espião para os alemães, sendo devidamente pago com isso, além da possibilidade de ir embora da prisão de uma vez por todas. Então Chapman começa seu treinamento. Inicialmente ele é submetido a vários testes de lealdade, para só depois ser enviado em uma missão para valer. Acontece que Eddie não se furta a também começar a trabalhar para os ingleses, se tornando dessa maneira um agente duplo, sempre caminhando no fio da navalha. Ora parece passar planos e informações importantes dos britânicos para os nazistas, ora realiza a direção inversa, entregando os alemães para os ingleses. Coisas de alguém que precisa ser muito sutil (e nada ético) para sobreviver naquele meio insano, perigoso e altamente violento. Acaba se saindo tão bem que é condecorado até mesmo com uma Cruz de Ferro, a mais alta condecoração militar alemã. O filme como um todo é muito bom, com boa trama (obviamente focada no mundo da espionagem) e luxos de produção, como por exemplo, contar com os famosos Yul Brynner e Romy Schneider como meros coadjuvantes. Mesmo sendo dirigido por um especialista nesse tipo de produção (o diretor Terence Young que dirigiu vários filmes da franquia James Bond) temos também que admitir que existem certos problemas, principalmente de ritmo e desenvolvimento. A todo momento ficamos torcendo para que uma edição mais eficiente surja, embora depois tenhamos a consciência que isso realmente nunca vai acontecer. Mesmo assim, com eventuais falhas, o filme como um todo é plenamente indicado, principalmente para quem curte esse estilo de história. Uma visão diferente da II Guerra Mundial que certamente agradará aos fãs do tema.

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.

Espionagem Internacional

Ontem assisti "Espionagem Internacional" (Triple Cross, França, Inglaterra, 1966). Aqui temos um filme que se passa na II Guerra Mundial, mas que deixa as grandes batalhas épicas de lado para se concentrar no intenso jogo de espionagem existente entre países aliados (Estados Unidos, Inglaterra e Rússia) e países do Eixo (Alemanha, Japão e Itália). O protagonista é interpretado por Christopher Plummer (sempre excelente) que dá vida ao personagem Eddie Chapman. No começo do filme, logo nas primeiras cenas, somos apresentados a ele e descobrimos do que vive. É um ladrão de cofres inglês que usa de todas as artimanhas para escapar das garras da polícia. Depois de mais um roubo ele finalmente é preso na França. Acaba condenado a uma dura pena de 14 anos de reclusão.

Sua sorte muda quando o país é invadido pela Alemanha. A chegada dos nazistas se mostra uma excelente oportunidade para Chapman finalmente sair da prisão. Ele prontamente se oferece para se tornar espião dos alemães. Já que é inglês e tem talentos de arrombamento e assalto, algo que bem poderia ser aproveitado pelo serviço secreto do Reich. A ideia, que inicialmente parece um tanto absurda, acaba sendo aprovada pelo exército de Hitler. Chapman é liberado e começa um treinamento com outros agentes nazistas. Antes porém que entre em campo para começar os serviços de espionagem ele é colocado à prova, como um teste, para que se saiba se realmente suas intenções são verdadeiras. Poderia um traidor inglês ser leal ao Partido Nazista?

Há dois personagens bem interessantes no filme, na verdade os dois superiores na hierarquia alemã que comandam e coordenam as ações de Chapman. O primeiro deles é o Barão Von Grunen, Coronel do Exército, de origem prussiana, um membro da velha aristocracia alemã. Quem o interpreta é o ator Yul Brynner. De monóculos e trajes militares ele mais se parece com um fanático nazista que não aceita erros ou indisciplina de seus subordinados. No decorrer da história ficaremos sabendo que ele seria mais equilibrado do que se pensava inicialmente, principalmente após se envolver em um atentado contra o próprio Hitler, o que também acaba lhe custando a própria vida e sua honra perante o Terceiro Reich. Sua frase final é das mais interessantes: "Se um exército não consegue nem ao menos explodir direito um quarto onde Hitler estava, então não merece mesmo vencer essa guerra!". A morte por cápsulas de cianureto vem então quase como uma celebração. 

Outra personagem muito interessante é interpretada pela linda atriz (e ícone do cinema) Romy Schneider. Sim, a eterna Sissi de tantos filmes glamorosos. Aqui ela já estava um pouco longe daquela imagem que a consagrou, pois já não era mais tão jovem, mas mesmo assim ainda continuava belíssima. Na verdade sua atuação aqui não faz mesmo tanto jus à sua importância para o cinema da época. Ela está obviamente em um papel secundário, uma Condessa envolvida com espionagem que acaba se interessando romanticamente pelo espião de Plummer. Nada muito convincente, apenas um alívio romântico em um filme de cartas marcadas. Pois bem, nesse ponto você pode pensar que realmente não seria uma boa ideia realizar um filme sobre um traidor (o roteiro aliás é baseado em fatos reais), mas isso é uma visão puramente simplista pois há contornos mais interessante sobre ele do que se possa imaginar. De modo em geral foi um filme que me agradou. Poderia ter sido melhor, com uma edição mais ágil e um ritmo menos lento (o que era comum no cinema inglês da década de 1960), porém nada muito prejudicial. Assim deixo a recomendação para esse filme de espionagem que pelo menos tentou ser diferente e mais original do que os demais, do que era costumeiramente realizado na época.

Para ler mais sobre o filme "Espionagem Internacional" click Aqui!

Pablo Aluísio.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Robert Mitchum, o Maconheiro

Robert Mitchum protagonizou um dos maiores escândalos da história da velha Hollywood. O fato aconteceu em setembro de 1948. Mitchum estava em uma casa suspeita em Hollywood Hills, bairro de Los Angeles, ao lado da atriz Lila Leeds, seu namorado e a dançarina Vickie Evans. Todos pareciam estar numa boa, ouvindo música, dançando um pouco, namorando outro tanto, até que foram surpreendidos com fortes batidas na porta da frente. Era a polícia. Uma denúncia anônima - provavelmente de algum vizinho irritado - havia informado que no local estava havendo consumo de drogas.

Todos foram imediatamente revistados. O flagrante se consumou após os tiras encontrarem na sala de estar vários cigarros de maconha. Mitchum e sua turma foram imediatamente algemados e levados para os carros patrulhas. Alertada, a imprensa correu para o local e ainda conseguiu excelentes fotos do momento exato em que todos estavam sendo levados presos. Robert Mitchum ainda tentou convencer os jornalistas a abafarem o caso ali mesmo, no meio da rua, enquanto era levado para o carro da polícia. Ele virou-se para um conhecido que trabalhava no Los Angeles Times e disse: "Ei, não publique nada sobre isso! Se você publicar essa notícia será o fim da minha carreira!".

Era um temor justificado. Ser preso com maconha nos anos 1940 poderia realmente destruir a reputação de qualquer um, ainda mais de um ator de cinema. Mitchum, apesar de nunca ter feito o papel de galã em seus filmes (geralmente ele interpretava bandidos, criminosos e detetives cínicos em filmes noir) sabia que algo daquela magnitude poderia destruir sua carreira, fazendo com que os estúdios não o contratassem mais para trabalhar em novas produções. Seria o fim? Na delegacia Mitchum tentou se explicar. Afirmou que tudo estava sendo um grande mal entendido. Em sua versão ele estava naquele lugar por puro acaso após ir até Hollywood Hills em busca de uma nova casa para alugar. Como não achou nenhuma que atendesse suas expectativas resolveu dar um pulinho na casa da colega Lila Leeds que morava ali perto. Quando chegou a tal festinha já havia começado e se havia maconha no meio da sala ela certamente não lhe pertencia.

Levado perante o juiz o ator repetiu sua versão dos fatos. Chegou a dizer, com extremo cinismo, bem típico de seus personagens no cinema, que mal sabia o cheiro que um cigarro de maconha exalava e por isso era completamente inocente, uma pobre alma que estava no lugar errado, na hora errada. O magistrado não se convenceu e sentenciou Mitchum a uma pena de seis meses na penitenciária de Los Angeles. Claro que a imprensa fez a festa, cobrindo todos os menores detalhes: Mitchum sendo levado para a prisão, vestindo roupa de presidiário, limpando sua cela, etc. Curiosamente o ator a partir de determinado momento não quis mais saber de preservar sua imagem, fazendo inúmeras piadas sobre o ocorrido. Isso acabou criando uma simpatia do público com ele a ponto de todos o perdoarem pelo deslize. Quando saiu da cadeia Mitchum percebeu que sua carreira havia sobrevivido, novos filmes estavam à sua disposição e ele poderia seguir em frente, mas claro, agora sem maconha.

Pablo Aluísio.

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Elvis Presley - The Trouble With Girls

Ontem tive a oportunidade de rever o filme "Lindas Encrencas, as Garotas" (The Trouble With Girls, EUA, 1969) com Elvis Presley. Quando ele rodou essa produção pela MGM já tinha decidido cair fora de Hollywood. Era o fim de uma carreira de ator que não deu muito certo. Elvis tinha um velho sonho de seguir os passos de seu ídolo James Dean ou então Marlon Brando, mas as coisas não saíram muito bem como ele pensava. Os produtores não conseguiam enxergar em Elvis um potencial ator dramático, só um cantor boa pinta cheio de fãs adolescentes platonicamente apaixonadas por ele. Dessa maneira ano após ano Elvis foi estrelando aquelas comédias românticas sem muita consistência onde ele cantava uma música aqui, outra acolá, sem muita razão de ser. Os roteiros eram quase sempre vazios e os enredos bobos demais para atrair a atenção de alguém com mais de 20 anos de idade.

Imerso nesse mar de mediocridade ele foi perdendo a vontade de continuar secando como uma flor no deserto da Califórnia. Por volta de 1968 ele e o Coronel Parker finalmente entenderam que era hora de ir embora. E foi o que fizeram, mas antes havia alguns contratos a cumprir e entre as obrigações de Elvis estava a realização de mais alguns filmes pela MGM (ele havia assinado um contrato longo de sete anos com a empresa, algo que depois se arrependeria). É nesse contexto que surge a realização desse "The Trouble With Girls" (que para variar recebeu um título bem ridículo no Brasil). Revendo hoje em dia até que o filme não é de todo mal. Claro, não estamos falando de algo substancial ou artisticamente relevante, porém há coisas boas nessa produção.

Uma delas vem do próprio visual de Elvis. Ele está de costeletas, já com aquela imagem que iria trazer tanto impacto no seu retorno aos palcos em Las Vegas naquele mesmo ano. O roteiro embora seja uma bagunça até que traz momentos verdadeiramente divertidos. Em um deles Elvis e a atriz Marlyn Mason trocam sopapos e beijos numa tenda circense enquanto tudo vai pelos ares por causa da explosão de fogos de artifícios. Por falar em Mason é interessante notar que pela primeira vez em muitos anos um personagem interpretado por Elvis finalmente se relacionava com alguém de sua idade. Marlyn já é uma mulher adulta, cheia de problemas, com muito stress, bem longe das garotas de biquínis que Elvis perseguia nos filmes anteriores. Nada é muito aprofundado, é claro, até porque o filme é uma comédia musical, porém já era um pequeno sinal positivo de mudanças.

Interessante notar que os dois últimos filmes de Elvis em Hollywood como ator até que são bons, comparados com algumas porcarias que ele andava rodando, principalmente após 1964. O seguinte que Elvis iria filmar e que marcaria sua despedida de Hollywood, "Change of Habit" era até muito bom, bastante superior a qualquer coisa que ele havia feito nos últimos anos. Ele se dava até a ousadias impensáveis antes como desfilar um certo mau-caratismo, com charuto na boca. E como até já afirmei antes em outro texto o filme "The Trouble With Girls" também acabou se salvando na parte musical. Há boas músicas na trilha, embora sejam poucas. Enfim, prestes a colocar os pés fora da capital do cinema Elvis ainda respirou bons ares antes de dizer adeus. Pena que essa mudança tenha vindo tarde demais para salvar sua carreira como ator de cinema.

Leia mais sobre The Trouble With Girls clicando AQUI.

Pablo Aluísio.

Capitão Sky e o Mundo de Amanhã

Título no Brasil: Capitão Sky e o Mundo de Amanhã
Título Original: Sky Captain and the World of Tomorrow
Ano de Produção: 2004
País: Estados Unidos
Estúdio: Paramount Pictures
Direção: Kerry Conran
Roteiro: Kerry Conran
Elenco: Gwyneth Paltrow, Jude Law, Angelina Jolie
  
Sinopse:
1939, Nova Iorque. Uma jornalista começa a ligar os pontos envolvendo o desaparecimento de um importante cientista (um verdadeiro gênio da robótica) e o surgimento de robôs gigantes destruindo toda a cidade. Determinada a descobrir o que realmente estaria acontecendo ela decide pedir ajuda ao seu namorado, um piloto mercenário conhecido por sua coragem. Eles precisam chegar na mente diábólica por trás de tudo antes que a grande metrópole seja definitivamente destruída. Filme premiado pela Academy of Science Fiction, Fantasy & Horror Films na categoria de Melhor Figurino. Também vencedor do Gold Derby Film Awards na categoria de Melhores Efeitos Especiais.

Comentários:
Durante muitos anos se especulou se algum dia teríamos um filme completamente feito por computadores de última geração. Isso começou a se tornar realidade justamente com essa produção "Sky Captain and the World of Tomorrow". A intenção do diretor fica clara desde as primeiras cenas. Tentava-se unir passado e presente em apenas um filme. Do passado veio o roteiro (que lembra e tenta homenagear os antigos seriados cinematográficas das décadas de 1930 e 1940) e do futuro veio a própria concepção do filme em si, todo realizado em realidade virtual (exceto obviamente a atuação dos atores de carne e osso). Pena que tantas ideias criativas e inovadoras não resultaram em um bom filme. Esse fiz questão de assistir no cinema justamente para avaliar em grande escala o impacto das cenas digitais. A fotografia quase toda em preto e cinza tentava mais uma vez criar uma certa nostalgia em cada cena. Em minha concepção o filme falhou em vários aspectos: a trama é boba demais para levarmos à sério, as atuações são vazias e sem alma (muito provavelmente porque todos os atores atuaram em cenários sem vida onde não havia praticamente nada para interagir) e nem mesmo o que deveria ser o grande triunfo do filme (seu visual inovador) empolga. O saldo final é bem decepcionante, chato e arrastado. Na verdade o filme funciona mais como ideia de concepção do que como entretenimento em si. Em suma, é de fato uma decepção futurista e destituída de conteúdo.

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

O Grande Milagre de Jesus de Nazaré

Ao longo de sua existência terrena Jesus de Nazaré realizou inúmeros milagres. Muitos deles - porém não todos - estão devidamente descritos nos evangelhos. São milagres maravilhosos, dignos do Deus encarnado na Terra para viver entre os homens. Em minha visão o maior milagre de Jesus de Nazaré é de fato o milagre histórico. Jesus nasceu humilde em uma província distante dos grandes centros urbanos, em um lugar remoto do mundo antigo dominado pelo Império Romano. Socialmente falando ele era um homem pobre em riquezas materiais, não tinha parentes importantes e nem ligações com as altas autoridades do império. Exercia uma profissão humilde e digna, a de carpinteiro, e pertencia realmente a classe mais popular, ao povo a que veio amar. Jesus de Nazaré realmente viveu no seio de seu povo amado.

Preso injustamente, foi morto e crucificado por Roma, com apoio das autoridades religiosas judaicas da região de Jerusalém. A crucificação era uma das execuções mais violentas e infamantes daqueles tempos por si só tão brutais. Os romanos geralmente crucificavam apenas os autores de crimes bárbaros, aqueles que conspiravam contra o poder do imperador ou então assassinos, ladrões e piratas. Jesus, o Deus feito homem, morreu da forma mais vil e desrespeitosa. Mesmo com aparentemente tudo contra, o nome Jesus Cristo é o mais celebrado da história humana. É o homem mais estudado, reverenciado e amado de todos os tempos. Mesmo sob a ótica de um ateu é complicado entender como Jesus, mesmo após dois mil anos de sua morte numa cruz romana, segue sendo tão importante para a maioria dos seres humanos. Simplesmente não há como negar que há um sopro divino em sua perenidade histórica.

Veja, mesmo que você seja um historiador isento, imparcial e não religioso, não há como negar a importância de Jesus na história humana. Não existe qualquer exemplo paralelo sequer assemelhado ao que aconteceu com Jesus. Ele é um caso único e singular do ponto de vista histórico. Seu nome tinha tudo para desaparecer nas areias do tempo. Se Jesus Cristo fosse um homem comum sua passagem pela Terra já teria sido esquecida. Se ele fosse um judeu como tantos outros do século I sequer saberíamos que um dia ele pisou em nosso mundo ou existiu. Assim não existe maior prova de sua divindade do que a própria ciência da história. Jesus resistiu a tudo e a todos. Ao longo desses dois mil anos centenas de milhares de pessoas (hoje praticamente todas anônimas) tentaram desmerecer seu legado, seus ensinamentos e sua história de vida. Não foram poucos os que disseram que ele havia sido apenas uma ficção criada por escritores ou que teria sido apenas um farsante, um profeta messiânico como tantos outros que existiam naqueles tempos remotos. Todos esses detratores foram esquecidos, sumiram com o passar dos tempos, enquanto que Jesus jamais foi esquecido.

O fato inegável é que Jesus resistiu. Algo extraordinário aconteceu naqueles dias após suas crucificação, um fato que levou seus seguidores a seguirem em frente com extrema coragem, com a certeza que seguiriam os passos de seu mestre que teria ressuscitado dos mortos, vencendo assim a própria morte na cruz. Muitos ateus afirmam que a ressurreição jamais aconteceu. Que o corpo de Jesus teria sido roubado por seus seguidores. Se isso é verdade porque a maioria deles aceitou com tranquilidade e paz de espírito suas próprias mortes violentas? Pedro, Paulo e praticamente todos os apóstolos que andaram com Jesus tiveram mortes horrendas, mas nenhum deles demonstrou qualquer sinal de medo, covardia ou arrependimento na hora final. Morreram com a graça de Deus enchendo seus corações, certos que iriam finalmente reencontrar seu querido mestre. Fecho esse singelo texto lembrando que o exemplo dos primeiros cristãos, dos mártires que morreram nas arenas romanas, devorados por leões famintos, é o maior testemunho não apenas da existência real de Jesus como também da força de seu espírito santo. Afinal de contas Jesus sempre foi e sempre será a vida eterna prometida na paz de Deus.

Pablo Aluísio.

Galeria de Imagens: James Stewart / John Wayne / John Ford / Randolph Scott


O Homem Que Matou o Facínora - Durante uma pausa nas filmagens do filme "The Man Who Shot Liberty Valance" os atores John Wayne e James Stewart posam ao lado do diretor e mestre John Ford. O filme é até hoje considerado um dos maiores clássicos do faroeste americano. As filmagens foram marcadas pelo choque de personalidades entre Wayne e Ford. Ambos mantinham uma longa tradição de cultivarem uma amizade marcada por muitas afinidades artísticas, interligadas com grandes brigas pessoais. John Ford não aliava a barra para Wayne, sempre o provocando para que desse o melhor de si. Com um microfone na mão gritava a plenos pulmões se referindo a Wayne: "Vamos lá seu paquiderme, essa é a única expressão que tem? Quero que você comece a atuar de verdade!". As broncas pelo visto deram certo já que os filmes que Wayne realizou ao lado de John Ford são até hoje considerados os melhores do gênero.


Randolph Scott em material promocional do filme Carson City. A partir dos anos 1950 Randolph Scott decidiu só realizar faroestes. Quando ele foi para Hollywood anos atrás ele tinha a intenção de realizar todos os tipos de filmes, porém o tempo mostrou que ele poderia se dar muito bem apenas estrelando westerns de orçamentos enxutos. A partir de determinado momento também percebeu que poderia ele próprio produzir suas fitas a um custo relativamente baixo, ganhando bastante lucro com as bilheterias. Foi justamente nesse período que realizou seus maiores sucessos. No começo dos anos 60, quando a idade foi chegando, ele decidiu se aposentar (para muitos de forma precoce). Seu último filme entrou em cartaz em 1962. A partir daí Scott levaria uma vida tranquila, jogando golfe e fazendo viagens ao lado de amigos e familiares. Apesar de ter saído cedo de cena Randolph Scott teve uma vida longa só vindo a falecer em 1987 em sua mansão em Beverly Hills. Ao longo da vida foi casado duas vezes, deixando como herdeiros dois filhos, Sandra e Christopher Scott (que anos atrás escreveu uma carinhosa biografia em homenagem ao pai).

Pablo Aluísio.

Clark Gable e Loretta Young

Um dos casos mais escabrosos da velha Hollywood só veio à tona em 2015. Clark Gable e Loretta Young estrelaram vários filmes juntos. O eterno galã que ficou imortalizado em clássicos do cinema como "E O Vento Levou" tinha fama de conquistador também fora das telas. Invariavelmente tentava levar as atrizes com quem contracenavam para a cama e diante de sua fama e riqueza geralmente se dava bem, conseguindo atingir seus objetivos. Uma exceção aconteceu com Loretta Young. Durante as filmagens de "O Grito na Selva" de 1935 o ator teria decidido que iria levar o romance com Loretta também para a vida real.

O problema é que ela tinha firmes convicções religiosas. Criada dentro do catolicismo não aceitava a ideia de ir para a cama com um homem com quem não estivesse casada. Isso acabava deixando Gable ainda mais interessado em sua conquista porém apesar dos avanços nunca teria conseguido nada com ela. Até que uma noite, após o final de um dia cansativo de filmagens, Gable teria surgido de surpresa em seu camarim. Nessa ocasião ele teria forçado uma grande barra para ter Loretta em seus braços, mas ela teria resistido aos seus avanços. Gable teria então ficado bem contrariado com a recusa, mas recuou diante do surgimento de outros membros da equipe técnica do filme no local.

Depois quando toda a equipe e o elenco estavam viajando de volta das locações para Hollywood o ator finalmente teria conseguido entrar na cabine do trem onde viajava Loretta e, segundo suas próprias palavras em seu livro de memórias, a teria estuprado. A denúncia que o grande astro da era de ouro do cinema americano era também um estuprador já era por si só chocante, mas não era tudo. Ainda havia mais. A atriz teria ficado grávida de Clark Gable. Envergonhada, procurou esconder sua situação tendo nascido desse estupro a sua filha Judy. Mesmo procurado por Loretta secretamente para lhe informar que havia se tornado pai novamente, o ator negou-se a assumir publicamente a paternidade.

Loretta Young então resolveu guardar esse grande segredo por décadas e décadas. Seu maior receio era que a filha ficasse estigmatizada em Hollywood, sofrendo toda a sorte de preconceitos por ter sido fruto de um estupro cometido por um ator famoso. Só depois da morte da filha Judy, em 2015, é que finalmente as memórias de Loretta se tornaram públicas. Ela permitiu em uma carta que a história fosse revelada ao grande público desde que sua filha também já estivesse morta (Loretta morreu em 2000, anos antes da morte da filha, mas revelou tudo para sua nora, com a autorização de que tudo fosse realmente divulgado quando ela também já não estivesse viva). Agora imaginem ficar por tanto tempo guardando algo dessa magnitude enquanto a carreira e a memória de Clark Gable eram louvadas (ele morreu em 1960, após as filmagens do filme "Os Desajustados"). Só uma mulher com grande fibra moral teria conseguido essa verdadeira façanha.

Pablo Aluísio.

Obrigado por Fumar

Título no Brasil: Obrigado por Fumar
Título Original: Thank You for Smoking
Ano de Produção: 2005
País: Estados Unidos
Estúdio: Twentieth Century Fox
Direção: Jason Reitman
Roteiro: Jason Reitman, Christopher Buckley
Elenco: Aaron Eckhart, J.K. Simmons, William H. Macy, Robert Duvall, Katie Holmes, Sam Elliott, Rob Lowe, Adam Brody
  
Sinopse:
Nick Naylor (Aaron Eckhart) é um lobista da indústria do tabaco que não está nem um pouco preocupado com as milhões de mortes causadas pelo fumo todos os anos. Tudo o que interessa a ele é defender o lobby da extremamente bem sucedida máquina industrial do cigarro americano. Para isso ele ignora quaisquer aspectos morais ou éticos daquilo que defende. Sua vida porém vira de cabeça para baixo quando resolve se envolver com a jornalista Heather Holloway (Katie Holmes), que também não está nem aí para valores éticos ou morais, só se envolvendo com ele para descobrir os mais obscuros segredos da indústria no qual trabalha. Filme indicado ao Globo de Ouro nas categorias de Melhor Filme - Comédia ou Musical e Melhor Ator - Comédia ou Musical (Aaron Eckhart).

Comentários:
Excelente comédia de humor negro que havia até agora me passado em branco. Lançado há mais de dez anos ainda não havia assistido. Uma pena. É realmente uma pequena obra prima do gênero. O protagonista (interpretado com maestria pelo ator Aaron Eckhart) é um escroque que defende como lobista a indústria do tabaco. Em torno dele giram os tipos mais incomuns e interessantes. Além da jornalista mau caráter que o leva para a cama apenas para descobrir os podres da indústria de cigarro (papel que coube à gracinha Katie Holmes) ainda há o magnata da indústria do fumo interpretado pelo veterano Robert Duvall, que ironicamente está morrendo de câncer no pulmão. Mesmo assim não larga a mão de ser um verdadeiro canalha cínico e sem sentimentos. Há ainda o executivo estressado (J.K. Simmons, em seu tipo habitual), o senador hipócrita que defende a proibição do comércio de cigarros (William H. Macy, novamente ótimo) e até mesmo o primeiro cowboy, conhecido como o "Homem de Marlboro" (Sam Elliott), que ameaça a indústria, se colocando à disposição de revelar certos segredos para a imprensa. Todos os personagens carregam uma característica em comum: são verdadeiros patifes em busca de um pouco do naco da fortuna gerada pela milionária comercialização de cigarros nos Estados Unidos. Tudo porém é levado em ritmo de humor negro, bem sofisticado, daqueles que fazem você sorrir com uma certa dose de culpa por dentro. Por fim para os cinéfilos um aspecto curioso do roteiro: o lobista Nick sugere ao magnata do tabaco que ele suborne um importante produtor de cinema (vivido por Rob Lowe) para que ele coloque os astros fumando novamente nas telas - algo que era bem comum na era de ouro do cinema americano, durante sua fase clássica. Tudo para que os jovens passem a pensar que fumar seria algo positivo, charmoso, até mesmo glamoroso. Aconteceu no passado e poderia acontecer agora. Realmente não há limites para essa gente.

Pablo Aluísio.

Furyo: Em Nome da Honra

Título no Brasil: Furyo - Em Nome da Honra
Título Original: Merry Christmas Mr. Lawrence
Ano de Produção: 1983
País: Inglaterra, Japão, Nova Zelândia
Estúdio: National Film Trustees
Direção: Nagisa Ôshima
Roteiro: Nagisa Ôshima
Elenco: David Bowie, Tom Conti, Ryuichi Sakamoto
  
Sinopse:
A frágil harmonia existente dentro de um campo de prisioneiros de guerra localizado na ilha de Java é quebrada com a chegada de um oficial inglês, o Major  Jack 'Strafer' Celliers (David Bowie), que não está nem um pouco interessado em colaborar com os japoneses. Como inimigos de guerra, naquele momento em uma luta feroz no Pacífico, os dois oponentes, o Major britânico e o comandante japonês que administra o campo, entram em uma guerra psicológica entre si, tudo com o objetivo de determinar quem sairia vencendo em sua própria guerra particular. Filme indicado à Palma de Ouro no Cannes Film Festival. Vencedor do Awards of the Japanese Academy na categoria de Melhor Filme.

Comentários:
Ao longo de sua vida o cantor David Bowie fez inúmeras participações em filmes, alguns bons, outros medianos e até mesmo alguns lixos. Sua carreira cinematográfica foi irregular, mas não isenta de filmes extremamente interessantes. Quer um exemplo? Veja o caso desse aqui. Esse drama de guerra chamado "Furyo - Em Nome da Honra" (cujo roteiro foi baseado no romance escrito por Laurens van der Post) é certamente um dos melhores filmes da (curta) carreira como ator de David Bowie. Dirigido pelo polêmico Nagisa Ôshima, cuja filmografia foi marcada pelas controvertidas obras O Império dos Sentidos (1976) e O Império da Paixão (1978), o filme explora a tensão crescente entre um oficial britânico interpretado pelo próprio Bowie e o comandante de um campo de prisioneiros na ilha de Java durante a Segunda Guerra Mundial (a trama do filme se passa em 1942, bem no auge do maior conflito armado da história). O interessante de tudo é que Ôshima procura o tempo todo fugir do velho clichê envolvendo soldados aliados sendo torturados e submetidos a todos os tipos de absurdos pelos carrascos japoneses. Claro que esse aspecto também é desenvolvido no roteiro, porém o diretor vai além, criando até mesmo uma polêmica em torno de uma subliminar atração homoafetiva entre os dois personagens principais, algo completamente surreal para um filme passado na II Guerra. Com boa produção, roteiro criativo e excelentes atuações, até mesmo do astro David Bowie, o filme merece ser redescoberto, ainda mais agora com a recente morte do cantor. Para aqueles que acreditam que seu melhor momento nas telas foi "Labirinto" deixo aqui a dica de um filme que causou uma melhor recepção da crítica em seu lançamento (já que em termos de público a fita não foi tão bem como se esperava). Vale a pena conhecer para finalmente reconhecer agora todos os seus méritos e qualidades.

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.

De Volta Para o Futuro Parte II (1989)

Título no Brasil: De Volta Para o Futuro Parte II
Título Original: Back to the Future Part II
Ano de Produção: 1989
País: Estados Unidos
Estúdio: Paramount Pictures
Direção: Robert Zemeckis
Roteiro: Robert Zemeckis, Bob Gale
Elenco: Michael J. Fox, Christopher Lloyd, Lea Thompson, Elisabeth Shue, Thomas F. Wilson
  
Sinopse:
De volta para o futuro, o jovem Marty McFly (Michael J. Fox) e o cientista maluco Doc Brown (Lloyd) descobrem que algo inesperado aconteceu no passado, mudando a realidade do presente deles. Eles então percebem que precisam voltar mais uma vez até 1955 para modificar mais uma vez o passado, colocando tudo no caminho certo de uma vez por todas. Filme indicado ao Oscar na categoria de Melhores Efeitos Especiais (Ken Ralston, Michael Lantieri, John Bell, Steve Gawley). Também vencedor do BAFTA Awards na mesma categoria.

Comentários:
Na primeira vez que assisti "De Volta Para o Futuro II" não gostei muito. Em minha opinião a metalinguagem do roteiro (onde os personagens entravam nos acontecimentos que vimos no primeiro filme) não funcionou muito bem. Com os anos o filme foi me parecendo bem melhor, embora até hoje considere apenas o primeiro filme da série realmente impecável. O terceiro também foi prejudicado pela falta de ideias novas, além das brincadeiras com o western, que nem sempre funcionavam direito. Aliás ambos os filmes foram rodados de forma simultânea pois a Paramount acreditava tanta na franquia que por questão de aproveitamento de custos resolveu rodar logo as duas sequências uma atrás da outra para maximizar seus lucros. Nesse segundo, como já escrevi, o maior problema vinha mesmo do roteiro que ficou excessivamente truncado. Algo semelhante aconteceu com a franquia do Exterminador do Futuro. Em ambos os casos o que temos é uma ótima ideia, realmente genial, que só funcionava muito bem em apenas um filme. Era realmente tudo muito bem bolado, porém também limitado em termos temporais. Tentar esticar uma trama por si simples para algo expansivo demais acabou de certa maneira esvaziando o que havia de mais criativo nesses filmes. Nesse filme, por exemplo, parte do charme do primeiro filme se foi. Temos dois Marty McFly em cena, o do primeiro filme que volta para 1955 e o segundo que volta lá para impedir que uma coisa importante venha a acontecer, mudando definitivamente os rumos do futuro. Esse segundo McFly fica o tempo todo caracterizado como se fosse um espião, com blusão de couro negro e um tipo de rádio amador portátil (pois é, não existia ainda o celular quando o filme foi realizado). De maneira em geral passa longe da qualidade do primeiro filme, embora seja longe de ser um filme ruim. Ele apenas não funciona tão bem quanto todos estavam esperando.

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.

Karate Kid II - A Hora da Verdade Continua (1986)

Título no Brasil: Karate Kid II - A Hora da Verdade Continua
Título Original: The Karate Kid, Part II
Ano de Produção: 1986
País: Estados Unidos
Estúdio: Columbia Pictures
Direção: John G. Avildsen
Roteiro: Robert Mark Kamen
Elenco: Pat Morita, Ralph Macchio, Pat E. Johnson
  
Sinopse:
Para resolver um velho problema de família o mestre Sr. Miyagi (Pat Morita) decide retornar para sua terra natal, Okinawa, no Japão. Sem esperar acaba descobrindo que o jovem Daniel San (Ralph Macchio) também está decidido a lhe acompanhar em sua volta para a velha casa. Juntos eles então vão até a terra do sol nascente. Lá o Sr. Miyagi acaba reencontrando o grande amor de sua vida, além de um grande rival. Já Daniel acaba conhecendo a bela Kumiko (Tamlyn Tomita), se apaixonando imediatamente por ela. Filme indicado ao Oscar e ao Globo de Ouro na categoria de Melhor Música Original ("Glory of Love" de Peter Cetera). 

Comentários:
Considero o melhor filme da franquia. Isso não se deve ao roteiro, que muitas vezes não consegue escapar de ser um mero derivativo do primeiro filme, mas sim pela mudança de ares. Acontece que nessa segunda parte a ação é transportada para o Japão, para Okinawa, uma bela localidade daquele país que um dia serviu de base da Marinha Americana. A imersão do personagem americano Daniel (Macchio) dentro da cultura japonesa acaba criando algumas das melhores situações de toda a franquia. Outro ponto muito positivo vem da participação da linda atriz Tamlyn Tomita como a namoradinha do protagonista. Ela era apenas uma adolescente na época e chama todas as atenções por seu beleza juvenil. Curiosamente Tamlyn Tomita acabaria tendo uma carreira com mais destaque de um modo em geral do que o próprio Ralph Macchio. Ela atuou em produções bem interessantes como "Grande Hotel" e "Bem-Vindos ao Paraíso", além de ter desenvolvido paralelamente ao cinema uma longa e produtiva carreira na TV, atuando em dezenas de séries americanas. Chegou inclusive a virar musa teen com sua participação em "Babylon 5". Beleza e carisma certamente não lhe faltavam. Curiosamente Tomita que era natural de Okinawa acabou sendo revelada justamente por esse filme, indo depois para os Estados Unidos para continuar sua carreira de atriz. Já Macchio também estava em um bom momento, ainda com cara e jeito de adolescente (embora pela idade já não o fosse mais). Sua sintonia com Pat Morita nas inúmeras cenas que seu mestre tenta lhe ensinar os ensinamentos mais importantes da cultura oriental acabam sendo a melhor coisa do enredo do filme. Em suma, aqui está o mais bem acabado filme da franquia, se você curte Karate Kid não deixe de conferir (ou rever) na primeira oportunidade. 

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.

domingo, 24 de janeiro de 2016

O Inferno de São Judas

Irlanda, 1939. O professor William Franklin (Aidan Quinn) chega para ensinar em um reformatório católico. Ele acaba se tornando o único mestre laico da instituição pois todos os demais professores são padres. Os jovens que foram enviados para lá cometeram algum tipo de crime e por essa razão o local tem uma disciplina extremamente rígida e austera. O encarregado de cuidar da ordem é o Padre John (Iain Glen) um sujeito que não admite a menor indisciplina, impondo severas punições, inclusive com uso de violência física e psicológica contra os jovens internados na instituição. Sem dúvida é um filme com temática forte e até mesmo impressionante (acredite, vai marcar você por um bom tempo). Baseado em fatos reais, mostra um reformatório na Irlanda nas vésperas da Segunda Guerra Mundial. Em um ambiente extremamente controlado, onde qualquer sinal de desobediência gera uma reação violenta de volta, surge esse professor com um sentimento mais liberal, mas de acordo com os novos tempos. Franklin (Quinn) realmente acredita em um futuro para aqueles jovens, mesmo que eles tenham cometida alguma falha mais grave em seu precoce passado (até porque muitos não passam de garotos mal entrados na puberdade). O problema é que seu modo de ser logo o coloca em choque contra o Padre John (Glen) um religioso com requintes de sadismo, responsável pela disciplina do reformatório, que segue aproveitando qualquer deslize dos garotos para usar de toda a violência imaginável.

É um filme realmente muito bom, porém (quase) desliza em alguns aspectos mais maniqueistas. Os padres apresentados no filme são carregados com tintas fortes. O Padre John, por exemplo, é um infame e um calhorda, mais se parecendo com um psicopata nazista do que com um religioso que resolveu dedicar sua vida à Igreja. Seu auxiliar direto é ainda pior, mesmo sendo jovem e aparentando ser mais bondoso o Padre Mac (Marc Warren) não consegue esconder que é na verdade um pedófilo que abusa de um dos jovens internos, o violentando de todas as maneiras durante os intervalos das aulas. No meio de tantos canalhas surge então esse professor Franklin, um homem com formação de esquerda que inclusive chegou a lutar na guerra civil espanhola do lado dos camponeses sem terra. Em outros termos, um comunista de carteirinha. Colocar dois personagens antagônicos dessa maneira, representando cada um de certa maneira sua própria ideologia poderia ter sido o grande desastre do filme. Felizmente os roteiristas amenizam esse discurso, nem exaltando os socialistas como seres superiores e nem muito menos demonizando completamente a Igreja Católica. No final quem ganha é o espectador pois o filme, apesar de derrapar levemente em determinados momentos, conseguiu superar o panfletismo que todos esperavam. É uma obra muito tocante e com boa mensagem, que ainda bem fugiu do discurso barato. Como obra puramente cinematográfica porém não há o que criticar. É certamente um excelente filme, extremamente recomendado.

O Inferno de São Judas (Song for a Raggy Boy, Inglaterra, Irlanda, Dinamarca, 2003) Direção: Aisling Walsh / Roteiro: Aisling Walsh, Kevin Byron Murphy / Elenco: Aidan Quinn, Iain Glen, Marc Warren, John Travers / Sinopse: William Franklin (Aidan Quinn) é um professor de literatura e poesia que vai ensinar numa escola católica justamente quando a Europa começa a se preparar para entrar em um dos maiores conflitos armados da história, a II Grande Guerra Mundial. Roteiro baseado em fatos reais. Filme premiado no Copenhagen International Film Festival e no Irish Film and Television Awards na categoria de Melhor Filme.

Pablo Aluísio.

Lembranças (2010)

Tyler Hawkins (Robert Pattinson) é um jovem nova-iorquino como qualquer outro de sua idade. Ele tenta levar sua vida em frente apesar dos problemas de relacionamento que tem com o pai, um executivo bem sucedido e distante. Sua namorada acaba sendo o grande diferencial no que parece ser uma vida cinzenta, sem grandes alegrias ou atrativos. Tudo porém mudará em questão de segundos numa trágica manhã na cidade. Filme vencedor do Teen Choice Awards na categoria de Melhor Ator - drama (Robert Pattinson). Começa quase como um falso documentário ou algo equivalente. A linguagem procura aproximação com o espectador, usando praticamente uma técnica amadora de filmagem, mostrando a realidade e o cotidiano de um rapaz normal de Nova Iorque. Ele tem seus problemas pessoais e familiares como todo mundo e enfrenta um momento de decisão na vida, a chamada hora da verdade. Como jovem, tem muitos planos para seu futuro, sua vida, mas tudo acaba mudando por causa de um evento histórico que marcaria para sempre o coração de toda a América (a tragédia de 11 de setembro, o maior ataque terrorista da história dos Estados Unidos).

Particularmente gostei do argumento, que nada revela ao espectador até o dia da grande tragédia. Ao mesmo tempo o filme termina exatamente na manhã daquele dia, se concentrando apenas no que acontece poucos dias antes. O roteiro obviamente opta por dar um rosto e uma identidade para todas as vítimas do ataque ao World Trade Center e o faz com bastante delicadeza e cuidado. O filme chamou mais atenção do que normalmente faria por causa da presença do ídolo adolescente Robert Pattinson. Aqui ele desfila seu repertório de gestos inspirados em James Dean. Pouco expressivo, não acrescenta muito em termos de qualidade no quesito atuação, mas tampouco atrapalha. Um bom filme valorizado pelo background histórico de fundo explorando esse dia que entrou para a história e como tal o título original sugere não deve ser esquecido jamais.

Lembranças (Remember Me, EUA, 2010) Direção: Allen Coulter / Roteiro: Will Fetters / Elenco: Robert Pattinson, Pierce Brosnan, Emilie de Ravin, Caitlyn Rund / Sinopse: Um jovem americano comum, com problemas de relacionamento com seu pai e sua namorada, vê o destino mudar completamente sua vida e seus planos para o futuro. História baseada em fatos reais.

Pablo Aluísio.

sábado, 23 de janeiro de 2016

Cruzadas - Sua Importância Histórica

Esse é um assunto dos mais controversos. As Cruzadas Católicas varreram a Europa e o Oriente Médio durante a alta e a baixa Idade Média. Até hoje historiadores debatem sobre o tema. Qual era a sua real motivação, o que fez com que Reis, nobres e cavaleiros deixassem a Europa em direção à Jerusalém para uma verdadeira guerra santa contra os muçulmanos? Sobre isso há várias posições, porém de maneira em geral há dois grupos bem definidos sobre a causa histórica do advento das Cruzadas.

A primeira corrente é a mais incisiva. Esse grupo de historiadores afirmam que o motivo de realização das cruzadas foi puramente econômico. A Igreja Católica e o Papa perceberam que havia uma grave crise social entre os povos europeus. Muitas pessoas sem trabalho, ocupação, praticamente na miséria completa. Para dar um objetivo de vida para todos esses europeus miseráveis e sem futuro organizaram-se as enormes cruzadas com centenas de milhares de europeus marginalizados. Durante as guerras de conquistas da Terra Santa eles teriam sido autorizados a pilhar, saquear e se apropriar de quaisquer bens em mãos de muçulmanos que encontrassem pela frente. A justificativa meramente econômica das cruzadas é de complicada defesa. Isso porque os Cruzados não eram apenas miseráveis, pobres e destituídos, mas também Reis, nobres e membros de classes altas. Certamente eles não teriam nada a ganhar arriscando suas vidas em território desconhecido, perigoso e repleto de islâmicos que também estavam empenhados em matar o maior número possível de cristãos.

Por essa razão as teorias puramente econômicas - extremamente firmadas no pensamento de esquerda, tentando adaptar as teorias de Karl Marx a esses eventos - se mostram bastante falhas. Na verdade ela desconsidera completamente a mente do homem medieval europeu. Esse estava plenamente convencido que era precisa marchar rumo à terra santa para livrar o local onde Jesus havia sofrido sua paixão das mãos dos muçulmanos, que aliás perseguiam cristãos de forma tão violenta quanto os cruzados os tratavam. Era uma guerra com motivações religiosas, principalmente. Os cristãos que viviam na Terra Santa estavam sendo perseguidos e mortos por ordem de altas autoridades religiosas do Islã. Como não aceitavam renegar a Cristo milhares foram mortos de forma violenta. Era precisa fazer alguma coisa para salvá-los. Os Cruzados assim, motivados pelos mais nobres sentimentos se ergueram contra essa carnificina de cristãos inocentes no Oriente Médio. Foram para a guerra por motivos justificados.

As Cruzadas, apesar de serem bastante atacadas por teóricos nos dias atuais, também teve sua importância histórica bem precisa. Elas de certa maneira mantiveram a Europa Cristã, longe da submissão que iria ser imposta pela Islã caso esse conquistasse os principais reinos cristãos da Europa. Imagine o grau de violência que se instalaria dentro da Europa caso dos exércitos islâmicos tomassem todas aquelas nações. Segundo uma mentalidade fundamentalista milhões de europeus seriam massacrados apenas por não aceitarem se converter ao islamismo. Para defender sua religião e o mais importante de tudo, sua liberdade, os reinados cristãos da Europa medieval se armaram e rumaram em direção ao centro do problema que se avizinhava. Obviamente que nem todos os Cruzados estavam cheios desse espírito de religiosidade intensa, mas de modo em geral essa foi a grande motivação para lutar em favor da cruz com uma espada na mão.

Pablo Aluísio.

Charlton Heston e o Brasil

A primeira vez que o ator Charlton Heston ouviu falar do Brasil foi quando foi contratado para atuar na produção "Selva Nua" em 1953, onde interpretava um aventureiro que viajava até a Amazônia brasileira em busca de uma nova vida. Uma vez na América do Sul ele procurava "importar" uma mulher americana para ser sua esposa (interpretada pela atriz Eleanor Parker), mas tinha muitos problemas com ela quando finalmente chegava de viagem. Ele procurava por uma mulher virgem, mas logo descobria que ela era na verdade viúva, desapontando seus planos iniciais. Para promover o filme o estúdio então convidou a jornalista Dulce Damasceno de Brito para entrevistá-lo. Heston estava particularmente interessado nesse encontro porque poderia lhe trazer maiores conhecimentos sobre aquele país tropical distante, de natureza exuberante. Afinal Dulce era brasileira.

Logo que foi apresentado para Dulce o ator começou a lhe fazer várias perguntas sobre o Brasil, algumas sem o menor sentido, como se Dulce tivesse vindo direto da floresta para a entrevista (sendo que ela na verdade morava em São Paulo e não tinha a menor ideia do que ele estava falando). Como muitos americanos o ator achava que o Brasil era uma enorme floresta amazônica com pequenas povoações isoladas no meio da mata. O momento em que Dulce realmente caiu na gargalhada foi quando Heston lhe perguntou sobre as terríveis formigas gigantes assassinas brasileiras conhecidas como "Marabuntas". Era surreal demais para ser verdade. Educadamente Dulce lhe explicou que elas não existiam em São Paulo onde ela morava, até porque aquela era uma grande metrópole e não um vilarejo no meio da selva.

Algo que o próprio Charlton Heston teria oportunidade de conhecer alguns anos depois quando finalmente veio ao Brasil para as filmagens de "My Father", um filme com financiamento italiano que nunca chegou a ser lançado comercialmente em nosso país. Nesse período Heston ficou dois meses no Brasil filmando diversas cenas em São Paulo, Manaus e Belém do Pará. A diversidade de culturas, climas e fauna impressionou o ator que ao reencontrar Dulce novamente em São Paulo disparou: "O Brasil é o país mais bonito do mundo! Estou verdadeiramente impressionado!". Ele já havia estado por aqui em outra ocasião breve, nos anos 70, para promover o filme "SOS Submarino Nuclear", mas aquela havia sido uma curta estadia. Agora com chances maiores de visitar o país o ator ficou realmente surpreso com o país. Confessou a Dulce que só não entendia como um país tão grandioso como o Brasil não conseguia se tornar uma potência mundial - provavelmente Heston não conhecia a classe política brasileira!

De uma maneira ou outra ele e Dulce riram muito quando relembraram de seu primeiro encontro, ainda em Hollywood, quando Heston queria saber mais sobre as formigas gigantes brasileiras. Ele finalmente havia entendido o absurdo da situação. Como todo americano médio o ator não tinha a menor ideia do que significava o Brasil e seu tamanho continental. Ele que pensava que o Brasil não tinha nada além de florestas e mais florestas finalmente havia conhecido o lado urbano e mais desenvolvido do país, com suas grandes cidades como São Paulo e Rio de Janeiro. Nunca é tarde demais para aprender um pouco mais de história e geografia, não é mesmo?

Pablo Aluísio.