domingo, 30 de agosto de 2009

Mickey Rourke e os anos 80

Essa semana me deparei involuntariamente com um fórum de filmes onde se discutia Angel Heart, clássico dos anos 80, dirigido por Alan Parker e estrelado por Mickey Rourke e Robert De Niro. Os usuários, em sua grande maioria jovens na faixa etária abaixo dos 20 anos, trocavam mensagens elogiando o filme, alguns bem admirados por sua excelente qualidade. Não é para menos. Angel Heart que no Brasil recebeu o título de "Coração Satânico" foi um dos melhores filmes que eu já assisti na minha vida e isso não é nenhum exagero. Essa história eu conheço bem porque a vivenciei nos anos 80. Na época eu ainda era bastante jovem mas já era viciado em cinema, indo sempre pelo menos uma vez por semana aos antigos cinemas do centro da cidade onde morava (e que lamentavelmente não existem mais). Quando Angel Heart estreou nos cinemas eu estava lá, era 1987 e Mickey Rourke logo se tornou um dos meus grandes ídolos.

Eu já admirava o trabalho desse ator há tempos. Para quem não sabe Mickey Rourke nos anos 80 foi o mais próximo que o cinema conseguiu de produzir um novo James Dean ou um novo Marlon Brando. A carreira de Rourke nos anos 80 foi simplesmente fantástica, um filme excelente atrás do outro. Lembro-me muito bem do impacto que "Rumble Fish" teve sobre mim. Aquele personagem de Rourke, um motoqueiro entediado da vida e que procurava redenção, foi simplesmente mitológico. O incrível em Rourke era que ele parecia ter saído de algum filme dos anos 50 (que eu simplesmente adorava, pois já naquela época era fã da cultura Vintage, com ídolos como Elvis, Dean, Brando, etc). Até seus filmes ditos menores causavam impacto como o cult "Diner", um dos roteiros mais bem escritos que já vi. Curiosamente não gostava apenas de 9 semanas e meia de amor, que era justamente o seu filme mais popular no Brasil. Sempre achei que tinha cara de "comercial de TV" ou algo parecido. Adrian Lyne realmente era um espertalhão.

A lista de bons e ótimos filmes que Rourke estrelou nos 80´s é extensa. O Ano do Dragão, Prece para um Condenado e Barfly (em que apresentou uma de suas maiores atuações) são apenas alguns exemplos. Todos esses filmes marcaram muito os cinéfilos da minha geração e eu tive o privilégio de assistir tudo nos cinemas. Angel Heart foi sua consagração. O filme é simplesmente excelente, desde sua fotografia, passando pela trilha sonora magnífica e o mais importante: um roteiro que era simplesmente um primor, do tipo que é cada vez mais raro na Hollywood atual. Mickey Rourke como um detetive típico dos anos 50, trouxe para as telas uma atuação que deveria ter sido premiada com o Oscar na minha modesta opinião. De quebra Angel Heart ainda trazia Robert De Niro em um de seus momentos mais marcantes da sua carreira. Nota 10 com louvor.

Fiquei verdadeiramente empolgado com Angel Heart e naquele tempo tinha a firme convicção que Mickey Rourke se tornaria sem sombra de dúvidas um ídolo ao estilo James Dean ou Brando. Infelizmente não sabia que depois desse filme Rourke iria descer ladeira abaixo na carreira. Depois de se consagrar no filme de Alan Parker, Rourke colocou na cabeça que queria estrelar um filme sobre boxe, seu esporte preferido e sua maior paixão. Assim ele filmou Homeboy, um grande fracasso de bilheteria. Depois disso a carreira desandou de vez. Estrelou o péssimo Orquídea Selvagem, em busca do sucesso perdido e depois desse filme afundou nos anos 90. Eu particularmente fiquei muito desapontado com o rumo que Rourke tomou a partir desse ponto, tirando o bom "O Homem que Fazia Chover" de Coppola ele nada mais fez de relevante ou importante. O ponto mais baixo de sua carreira aconteceu quando contracenou com Jean Claude Van Damme em um daqueles filmes horríveis dele. A partir desse dia me conscientizei que apesar de sua brilhante carreira nos anos 80 Mickey Rourke era apenas mais um "ex futuro Marlon Brando".

Depois de anos estrelando filmes B sem importância, finalmente no ano que passou ele reviveu graças ao excelente "O Lutador", com várias referências pessoais à sua própria biografia. Até chegou a ser indicado ao Oscar (perdendo injustamente para Sean Penn em Milk). Fiquei feliz e contente ao ver meu antigo ídolo saindo da tumba. Mickey, apesar dos inúmeros erros ao longo da carreira, tem talento de sobra e isso ninguém pode negar. Obviamente os anos pesaram a ele, depois de algumas cirurgias plásticas mal sucedidas Mickey nem de longe lembra o antigo galã rebelde dos anos 80. Está com o rosto desfigurado, com o cabelo esquisito e em algumas fotos aparece com péssimo visual. Uma pena. Confesso que após "O Lutador" pensei que ele iria trilhar um caminho de bons personagens para assim recuperar seu antigo prestígio mas Rourke ao se envolver em projetos como Homem de Ferro 2 deixa várias perguntas não respondidas no ar. De qualquer forma torço por ele e espero que consiga novamente se reerguer. Mickey Rourke, para mim, é como um velho amigo do passado, um colega dos agora longínquos  anos 80. Para quem foi o ator mais cool daquela década que deixou saudades espero que ele consiga atingir seus objetivos.

Pablo Aluísio.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

A Realeza nas Telas!

A monarquia britânica sempre esteve em alta nas telas dos cinemas e em programas de TV. Ultimamente porém tem aumentado e muito o interesse sobre as vidas das famílias imperiais da Europa e em especial da família real inglesa. Vários filmes e um seriado em especial tem reavivado o interesse na longa história dos reis e rainhas britânicas. Além de acompanhar The Tudors, recentemente assisti vários filmes enfocando o tema de forma brilhante: A Duquesa, A jovem Vitória e O Homem que não Vendeu sua Alma. Começando pela telinha, recomendo um dos melhores seriados atualmente intitulado The Tudors. Estrelado pelo ator Jonathan Rhys Meyers no papel de Henrique VIII, The Tudors é uma ótima produção que vem conquistando cada vez mais audiência na Europa e EUA. Como todos sabem o rei Henrique VIII representou como poucos o auge do absolutismo da monarquia na Europa. Irascível, tirano e perseguidor, Henrique entrou para a história ao romper com a Igreja Católica em seu país por uma questão pessoal o que o levou a fundar a Igreja Anglicana da Inglaterra.

O seriado agora se encontra na terceira temporada, no período posterior a morte de sua terceira esposa, Jane Seymour. As temporadas seguintes enfocaram a longa luta de Henrique para anular seu casamento com sua primeira esposa, Catarina, e contrair matrimônio com Ana Bolena, sua amante. A luta de Henrique contra a Igreja e o Papa, que se negou a anular sua primeira união, é analisada em detalhes, embora a série não seja 100% fiel aos fatos. A intenção dos produtores nunca foi mesmo a de ser historicamente impecável, apenas de contar uma bela história de amor e poder. Nesse ponto foram extremamente bem sucedidos, pois a série é bem recomendada até mesmo para quem nunca gostou muito de história na escola. Nesse caso o seriado pode muito bem ser encarado como um belo romance de época.

A mesma trama envolvendo a corte de Henrique VIII é também o foco do filme O Homem que não vendeu sua Alma. Embora a época do auge Tudor seja tratado de forma honesta o filme se perde um pouco ao analisar a história de Thomas More, o chanceler real, que se negou a romper com sua fé católica em favor de Henrique e que pagou caro por ter mantido firme sua posição. O filme foi premiado com o Oscar e é um marco da história do cinema, porém é um pouco superficial do ponto de vista histórico. Embora Thomas More sem dúvida seja um personagem cativante, que procurou manter firme suas convicções até o fim, o filme deixou de retratar o lado mais sombrio de sua biografia, pois é fato que ele mandou centenas de pessoas para a fogueira, principalmente luteranos. Ao invés de mostrar tanto o seu lado positivo como negativo, a narrativa se concentrou apenas no lado virtuoso de More, o que pode levar muitos a considerá-lo um tipo de mártir do catolicismo. A própria Igreja Católica inclusive ignorou esse lado mais obscuro e o canonizou em 1935. Enfim, por ser parcial demais o Homem que não vendeu sua Alma não é dos mais indicados para os que querem conhecer a fundo o período Tudor na história inglesa.

Para os que desejam algo mais ameno dois recentes filmes são altamente recomendados. O primeiro é A Duquesa. Aqui somos apresentados à história da Duquesa de Devonshire que é brilhantemente interpretada pela atriz Keira Knightley. Essa nobre é uma antepassada da própria Princesa Diana e ficou famosa pela intensa luta que travou em favor de vários direitos feministas. O filme é belíssimo, de encher os olhos com a maravilhosa produção de época. Nesse mesmo estilo temos ainda a nova produção de Martin Scorsese, A Jovem Vitória. A película mostra os primeiros anos de reinado da Rainha Vitória, que simbolizou para muitos o auge do Império Britânico e deu nome a toda uma era, a chamada Era Vitoriana. O filme em si é uma aula de bom gosto, lindos figurinos e impecável reconstituição de época. Ótimo. Em suma, ficam aí as dicas para quem deseja ter belos momentos de entretenimento e descontração com bastante estilo e elegância.

Pablo Aluísio.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Jamais Foram Vencidos

Que tal reunir em um mesmo filme John Wayne e Rock Hudson? Os dois tinham sido os maiores recordistas de bilheteria durante os anos 50 e 60 e agora reuniam forças no western "Jamais Foram Vencidos". O filme pode ser considerado um faroeste temporão, já que foi realizado no final dos anos 60, quando a juventude não mais se importava muito com esse gênero cinematográfico. Embora Wayne ainda mantivesse seu prestígio inabalado, Hudson vinha passando por dificuldades na carreira. Como era um galã acima de tudo, os papéis iam cada vez mais rareando com a chegada da idade e ele próprio representava naquela altura um tipo de ator que definitivamente estava saindo de moda. Ao invés do galã de visual impecável, o cinema americano agora adotava atores com grande talento mas com aparência de homens comuns, como Al Pacino, Dustin Hoffman e Robert De Niro. Atores que não tinham a estampa dos velhos ídolos como Rock Hudson. Em sua autobiografia o próprio Hudson comenta a chegada dessa nova geração de "monstrinhos" como ele apelidou os novos atores em ascensão.

Realmente era bem complicado unir duas gerações tão diferentes em um mesmo filme. Por isso o convite de estrelar um western ao lado do mito John Wayne veio bem a calhar naquele momento de sua vida. O filme em si era interessante e mostrava um oficial confederado (Hudson) que não aceitava a derrota de seu amado sul durante a guerra civil americana. Tão transtornado ficara com a perda da guerra que em um ato de profunda indignação resolve queimar sua propriedade, juntar tudo o que tinha e rumar para o México com a esperança de começar uma nova vida. Impossível não fazer uma analogia sutil com a própria carreira de Rock Hudson. Tal como o personagem de seu filme ele naquele momento era coisa do passado e deveria rumar para um novo destino. E tal como o sulista ferido ele realmente em pouco tempo deixaria o seu passado para trás (o cinema) e trilharia um novo caminho na carreira ao estrelar uma série de TV, em busca de um novo recomeço. Nunca o ditado "A Vida Imita a Arte" foi tão bem aplicado como nesse caso.

Jamais Foram Vencidos / Nunca Foram Vencidos (The Undefeated, EUA, 1969) / Direção de Andrew V. McLaglen / Roteiro de James Lee Barrett e Stanley Hough / Elenco: Rock Hudson, John Wayne, Ben Johnson e Tony Aguilar / Sinopse: Após a Guerra Civil americana graduado oficial confederado procura recomeçar sua vida em meio a um clima hostil e selvagem.

Pablo Aluísio.

sábado, 22 de agosto de 2009

Paul Newman

Quando Paul Newman faleceu em setembro do ano passado muitos jornalistas escreveram que ele seria o último membro da geração de Marlon Brando e James Dean. Não era bem assim. Newman pode ser considerado no máximo uma espécie de caçula daquele grupo fantástico de atores que despontaram nas telas de cinema nos anos 50. Embora no começo de sua carreira o ator tenha sido fortemente influenciado pelo estilo de interpretação de Brando e cia, ele só se firmou e criou identidade na segunda metade daquela década. Foi com "Marcado pela Sarjeta" que Newman finalmente encontrou o seu próprio estilo, criando a imagem que todos conhecemos. Esse tenso drama havia sido escrito inicialmente para ser estrelado por James Dean, que chegou inclusive a elogiar o personagem em entrevistas antes do trágico acidente que o vitimou. Com o falecimento de Dean, o papel foi parar nas mãos de Newman que não desperdiçou a grande oportunidade.

Seu segundo grande papel porém só veio após três outros longas, em Mercador de Almas. Essa é a primeira grande interpretação do ator. O personagem em si é um presente, um sujeito sem qualquer tipo de valor moral, que quer apenas subir na vida, não importando em nenhum momento os meios para atingir seus objetivos. Com ele Newman foi premiado no prestigioso Festival de Cannes e consolidou-se como um dos mais talentosos astros de Hollywood. Depois disso foi uma sucessão de grandes momentos: Desafio a Corrupção, O Doce Pássaro da Juventude. Rebeldia Indomável e o famoso filme em que foi dirigido por Hitchcock, o drama de espionagem Cortina Rasgada. No final da década de 60 estrelou ainda o grande sucesso de toda a sua filmografia: Butch Cassidy, onde ao lado do parceiro Robert Redford recriou um dos grandes mitos da história do western americano. A parceria inclusive renderia outro grande sucesso, Golpe de Mestre, delicioso filme que foi merecidamente consagrado pelo Oscar.

Elencar a longa lista de grandes filmes soa desnecessário. Newman foi um caso raro de astro que não perdeu o pique ao longo dos anos. Mesmo quando já estava com uma certa idade nunca deixou de estrelar boas produções. Também foi singular em sua vida pessoal. Foi casado por longos anos com a atriz Joanne Woodward, tendo inclusive estrelado vários filmes ao seu lado ao longo da carreira. Quando perguntado como conseguia ser fiel em Hollywood, Newman se saía com uma tirada bem humorada: "Para que fazer besteira com hambúrgueres se tenho um filé de primeira em casa?" Porém como nenhuma história é perfeita, Newman também sofreu sua cota de tragédias pessoais, sendo a mais marcante a morte de seu filho Scott, por overdose de drogas, na década de 70.

No mês passado completou-se um ano de sua morte. Paul Newman deixou sua marca certamente. Ao contrário da introspecção de um Montgomery Clift, dos dramas pessoais de um James Dean ou da paixão de um Marlon Brando, Newman preferiu abraçar personagens menos profundos e atormentados, fazendo geralmente sobreviventes do dia a dia, pessoas que tentavam vencer as adversidades da vida da melhor forma possível e com os meios que tinham ao alcance das mãos. Foi reconhecido tardiamente pela academia ao ganhar o Oscar por "A Cor do Dinheiro", filme que estrelou ao lado de Tom Cruise. De qualquer forma antes tarde do que nunca. No fim da vida anunciou sua aposentadoria com muita dignidade ao afirmar: "Eu não sou capaz de trabalhar mais, não no nível em que eu quero. Você começa a perder sua memória, você começa a perder sua confiança, você começa a perder sua invenção. Então eu acho que o livro fechou para mim". De qualquer forma uma coisa é certa, o ciclo de sua obra jamais se fechará pois certamente sempre será renovada no interesse das novas gerações de cinéfilos que conhecerão sua extensa e rica filmografia nos anos que virão.

Pablo Aluísio.

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

500 Milhas

Esse filme estrelado por Paul Newman é bem curioso. Passa longe de ser um de seus mais conhecidos trabalhos no cinema mas também tem curiosidades que o fazem único. A primeira delas é o fato do tema do filme ser uma das grandes paixões do ator em sua vida pessoal: o automobilismo. Apaixonado por carros de corrida, Newman nunca mais abandonou as pistas depois das filmagens desse longa, tanto que anos depois acabou fundando sua própria equipe, a Newman / Racing, que acabou se tornando uma das principais escuderias da Formula Indy. De fato, ao se assistir 500 milhas percebemos bem que estamos na presença de um astro que bancou uma produção complicada apenas para homenagear sua grande paixão.

O filme até tenta colocar uma certa profundidade em seu roteiro. O personagem de Newman, por exemplo, se envolve com uma mulher divorciada (interpretada por sua esposa na vida real, Joanne Woodward) mas esse lado do filme logo naufraga. Mesmo tentando o ator não consegue convencer nas cenas dramáticas. Newman aparece apático e sem empolgação nesses momentos, algo completamente diverso do que ocorre nas cenas em que corre nas pistas. No volante de um carro possante Newman se transforma completamente e aí entendemos a razão de ser da produção, pois no fundo tudo se resume ao fato do ator se divertir no circo da Indy. As próprias locações refletem isso. Não satisfeito em filmar no templo de Indianapolis, Paul Newman faz um verdadeiro tour pelas principais pistas e categorias da época. Obviamente para quem gosta do esporte certamente é um prato cheio.

O grande destaque fica mesmo nas cenas de corrida. Nesse ponto o diretor demonstra que as tomadas e os ângulos de câmera que foram produzidas justificaram plenamente a existência do filme. Realmente as cenas de competição estão entre as melhores já mostradas nas telas de cinema. São empolgantes e bem documentadas. O interessante é que além de extremamente bem fotografadas dentro dos circuitos, o filme mostra ainda um panorama bem abrangente de toda a movimentação que cercava todos esses grandes prêmios. Enfim, Winning jamais será mais lembrado que os grandes clássicos da carreira de Newman, mas certamente mostra um dos aspectos mais curiosos e interessantes da personalidade do ator. Não vai mudar sua vida mas também não será nada penoso se divertir por duas horas no volante ao lado de Paul Newman.

500 Milhas (Winning, EUA, 1969) Direção de James Goldstone / Produção de John Foreman / Roteiro de Howard Rodman / Com Paul Newman, Joanne Woodward, Robert Wagner e Richard Thomas Jr.

Pablo Aluísio

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

O Oeste Selvagem

Buffalo Bill and the Indians (no brasil, O Oeste Selvagem) é um filme inteligente, bem escrito, do aclamado diretor Robert Altman que aqui prova mais uma vez seu grande talento como cineasta. O roteiro conta a histórica verídica do grande mito do western americano Buffalo Bill. O personagem por si só já era extremamente rico em detalhes e nuances e caiu como uma luva nessa película que brinca com o imaginário popular ianque. Para quem não sabe Buffalo Bill (nome artistico de William Cody) foi um verdadeiro Barão de Munchausen da história dos Estados Unidos. Pródigo em contar lorotas e inventar histórias sobre si mesmo que nunca aconteceram na vida real, Bill criou toda uma mitologia em torno de si.

Um dia teve a brilhante ideia de criar todo um show em cima de suas fantasias e acabou criando um espetáculo com alto teor circense composto por cowboys falsos, índios de araque e bandidos de mentirinha. Era denominado Oeste Selvagem e foi uma mina de ouro para seu criador, o tornando extremamente rico e bem sucedido. Embora fosse um mentiroso contumaz Bill acabou criando, sem querer, todos os clichês que até hoje conhecemos da mitologia do western. Os filmes mudos, surgidos no nascimento do cinema, eram claramente inspirados nas encenações do espetáculo de Buffalo, que também teve sua mitológica figura explorada por vários filmes do gênero nos anos seguintes à sua morte.

Em Buffalo Bill and the Indians, somos levados a conhecer um período bem interessante da vida de Bill, quando ele contratou um mito de verdade do velho oeste para estrelar seu show, o cacique Touro Sentado, famoso por seus feitos contra o exército americano. As cenas em que ambos contracenam mostram verdadeiros duelos entre o personagem de ficção auto inventado e o homem que realmente vivenciou toda a luta pela conquista do oeste selvagem (Touro Sentado). O farsante e o real em lados opostos. Enquanto um vive de contar mentiras sobre si mesmo o outro tenta apenas sobreviver com o pouco de dignidade que ainda lhe resta e de quebra tenta ajudar seu povo, nessa altura da história completamente subjugado pelos brancos. O choque entre a dura realidade e a mais pura fantasia escapista é o grande mérito dessa brilhante e ácida crítica em cima da construção de mitos irreais, que é bem típica da sociedade consumista e vazia dos norte-americanos.

Paul Newman na pele do deslumbrado ídolo está perfeito, numa daquelas atuações que dificilmente esquecemos. A própria surrealidade do cotidiano de Bill (que gostava de namorar cantoras de óperas fracassadas), reforça e torna ainda mais forte sua caracterização. Por fim temos uma participação extremamente inspiradora do grande mito Burt Lancaster. Fazendo o papel de uma pessoa do passado de Bill (que obviamente conhece todas as suas invencionices), Lancaster empresta uma dignidade ímpar a essa película. Sem dúvida Buffalo Bill and the Indians é um excelente filme que nos leva a pensar em vários temas relevantes, como a própria destruição da cultura indígena e a dignidade desse povo que foi massacrado impiedosamente pelos colonos americanos. Um libero que merece ser conhecido por todos.

O Oeste Selvagem (Buffalo Bill and the Indians, EUA, 1976) / Direção de Robert Altman / Roteiro de Arthur Kopit e Alan Rudolph / Elenco: Paul Newman, Joel Grey and Kevin McCarthy / Sinopse: Buffalo Bill (Paul Newman) é um empresário circense que contrata o lendário Touro Sentado para fazer parte de seu show itinerante.

Pablo Aluísio.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Rio Lobo

Hoje assisti o filme Rio Lobo, com o grande mito do Western John Wayne. Curiosamente não me lembrava se já o tinha assistido antes ou não. John Wayne fez tantos filmes e tive o privilégio de acompanhar tantos momentos brilhantes desse ator, seja pela TV ou pelo extinto vídeo cassete, que sinceramente bateu uma dúvida se já o tinha assistido ou não. De qualquer forma foi um grande prazer reencontrar o velho Duke novamente. Sou fã de carteirinha de longa data do eterno cowboy, tanto que cheguei a manter um site dedicado apenas ao ator por anos. Algumas cenas me soaram familiares como a parte inicial do filme, onde um grupo de soldados do exército confederado rouba um trem de carregamento de ouro dos ianques. Porém para minha surpresa esse é apenas o primeiro ato da película, que se desenvolve excepcionalmente bem nos dois outros atos da trama. Nem vou me alongar em explicar a sinopse pois esse tipo de coisa é facilmente encontrado na net, apenas vou descer alguns comentários pertinentes sobre o filme.

John Wayne está perfeito em sua caracterização de eterno justiceiro do velho oeste. O elenco de apoio também é muito bom, com destaque para o Tarzan Mike Henry, que havia largado o papel do Rei das Selvas após sofrer um ataque de um macaco em fúria nos sets de filmagem. Curioso notar que o filme é da fase final da carreira do astro, já entrando na década de 70 e os velhos filmes de cowboy já eram considerados fora de moda por essa época. Mero detalhe. Em nenhum momento sentimos que o filme esteja datado ou ultrapassado, nada disso, ele é brilhantemente fotografado, com ótimas tomadas externas. Não poderia ser diferente, Rio Lobo foi dirigido pelo ótimo e lendário diretor Howard Hawks, o mesmo que colecionou tantos momentos inspirados ao lado de Wayne em sua carreira, como por exemplo, os eternos clássicos Rio Bravo, El Dorado e até o simpático Hatari!. Howard inclusive costumava transitar bem em todos os gêneros, dos épicos às comédias de costumes como bem podemos conferir no delicioso filme estrelado pela eterna Marilyn Monroe, "Os Homens Preferem as Loiras".

Rio Lobo foi a última parceria entre John Wayne e Howard Hawks e posso dizer que a despedida foi à altura do talento dos dois. Ambos morreriam na segunda metade dos anos 70 (Hawks em 1977 e Wayne em 1979) e deixariam muitas saudades nos amantes dos velhos westerns. Definitivamente a velha escola do gênero não sobreviveria a essa década, pois nos anos 80 os filmes de faroeste iriam cair em um injusto ostracismo, com meros lampejos de sobrevida em filmes como Silverado e similares. Recentemente assisti novamente ao último filme de John Wayne, chamado providencialmente de "O último pistoleiro" e fiquei realmente triste. Os heróis ao estilo de Wayne, durões, certos em suas opiniões, inabaláveis em suas convicções, com extrema força moral, deixaram definitivamente de existir. Em seu lugar surgiram atores que representavam vulnerabilidade, dúvida, incerteza moral. John Wayne, o símbolo máximo do velho oeste deixou saudades. Ainda bem que sempre poderemos relembrar essa grande fase dourada de Hollywood pela extensa fimografia que ele nos legou.

Rio Lobo (Rio Lobo, EUA, 1970) Direção de Howard Hawks / Roteiro de Burton Wohl e Leigh Brackett / Elenco: John Wayne, Jorge Rivero e Jennifer O'Neill / Sinopse: Após a guerra civil americana um Coronel americano parte em busca do paradeiro de um traidor de guerra.

Pablo Aluísio.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Distrito 9

No meio do lugar comum que impera em Hollywood atualmente, Distrito 9 é uma pequena amostra de que um pouco de originalidade não faz mal nenhum, principalmente para quem deseja assistir algo diferente. O filme, que só saiu após o projeto de Halo de Peter Jackson ser cancelado pela produtora, inova em vários aspectos e trata o tema Aliens de forma bem diferente. Com ares de filme independente Distrito 9 tenta mostrar da forma mais realista possível o que aconteceria se uma nave extraterrestre chegasse à terra com uma população de alienígenas. Longe de ser uma ameaça esses ETs nada mais seriam do que verdadeiros refugiados acolhidos pelo governo da África do Sul. O roteiro, por mais estranho que possa parecer, começa de forma interessante mas infelizmente logo se perde em soluções fáceis, tipicamente Hollywoodianas.

No começo o tom adotado é de um reality show que acompanha um simples funcionário público na tarefa de retirar grande parte da população de extraterrestres de uma área de isolamento chamada Distrito 9. O filme se desenvolve até bem nesse ponto. O espectador inclusive vai demorar um pouco para se situar no começo frenético do filme. O personagem principal não é nenhum pouco atraente, mais parecendo aquele ator da série The Office. Chato e terrivelmente convencional vamos sendo apresentados a ele, bem no meio de preparativos para a tal evacuação do Distrito 9 (tudo transformado agora em uma grande favela terceiro mundista). O problema do filme reside justamente no segundo ato do filme. Se no começo tínhamos um ponto de partida original, no desenrolar dos acontecimentos vamos sucessivamente perdendo as esperanças pois os clichês vão se amontoando aos montes, um atrás do outro. Não falta, por exemplo, a eterna perseguição "gato e rato" típica dos filmes de Hollywood, a luta para conseguir o antídoto que salvará o mocinho, as más intenções do governo americano, os interesses bélicos das grandes corporações, as explosões e tiros e, claro, os africanos do terceiro mundo, malvados, armados até os dentes e que só servem mesmo para traficarem drogas.

Nesse ponto o filme desanda. O próprio governo da Nigéria barrou a entrada do filme em seu país e em nota explicou a medida: "O filme ilustra os nigerianos como gangsters e canibais. Além disso mostra mulheres nigerianas mantendo relações sexuais com não humanos. Também diz que os nigerianos se alimentam de carne humana e acreditam em rituais mágicos e no vodu". Realmente tenho que concordar que a forma como são retratados os cidadãos nigerianos (e de países pobres da África) é realmente assustadoramente preconceituosa e maniqueísta. A impressão que deixou foi que apesar dos esforços do diretor estreante Neill Blomkamp em fazer algo novo, a força do estúdio falou mais alto e seu produtor Peter Jackson, sem poder contar com seus orcs de plantão, resolveu transferir esse papel para os africanos de uma forma em geral. Mas exagerou na dose de preconceito. Enfim o filme nada mais é do uma boa idéia que ficou pelo meio do caminho.

Distrito 9 (District 9, EUA, 2009) Director: Neill Blomkamp / Roteiro: Neill Blomkamp, Terri Tatchell / Elenco: Sharlto Copley, David James, Jason Cope / Sinopse: ETs são restritos a um gueto na terra aonde são rigidamente controlados por autoridades da terra.

Pablo Aluísio.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Bastardos Inglórios

Bastardos Inglórios é o novo filme do cineasta Quentin Tarantino. Como sempre acontece em seus filmes, Tarantino inverte a lógica dos gêneros nos quais se envolve e procura produzir algo original e único. É justamente o que acontece aqui. Embora o filme não fuja de muitos clichês dos clássicos filmes de guerra o diretor procura deixar sua marca registrada em cada minuto de exibição da película. Assim embora os vilões do filme sejam naturalmente (como sempre) soldados e oficiais alemães sem alma e piedade, um toque singular de seu roteiro procura trazer sempre algo de novo nessas velhas caracterizações. E é justamente na figura do Coronel nazista Hans Landa (brilhantemente interpretado por Christoph Waltz) que se encontra o melhor de todo o filme. Hans Landa traz todas as características que eram valorizadas nas fileiras da SS. Embora sádico e impiedoso ao extremo, era possuidor também de uma finesse e gentileza típicos das melhores famílias prussianas. Com encanto pessoal e charme promovia as maiores atrocidades e barbaridades em nome do Reich mas sem jamais perder a postura e elegância tanto valorizada nas fileiras dos principais oficiais do comando alemão. A atuação do ator Christoph Waltz, desconhecido do grande público, é certamente, como já escrevi antes, brilhante e digna de aplausos. Como Tarantino procurou valorizar as cenas em que há longos diálogos, a presença de excelentes atores como Waltz praticamente segura boa parte do filme como um todo, sua interpretação prende a atenção do espectador e em nenhum momento ficamos cansados ou entediados nos duelos travados nas cenas mais vitais do filme.

Embora esse seja o ponto forte de Bastardos Inglórios, ele também tem sua dose de problemas. Os principais são os equívocos históricos cometidos. Claro que um diretor como Tarantino ao se deparar com material envolvendo a II Guerra Mundial não cometeria tantos pecados históricos se não fosse proposital. Mas mesmo agindo assim, conscientemente, temos que nos ater pelo menos aos fatos históricos mais notórios. A forma como Tarantino trata a figura histórica de Adolf Hitler é simplesmente caricatural e boba. Depois que brilhantes filmes sobre o líder nazista foram lançados, como a "A Queda", por exemplo, fica complicado aceitar uma visão tão superficial e ultrapassada como a que o diretor tenta nos passar. Para piorar o caldo desanda de uma vez nos minutos finais do filme, deixando decepcionado quem pretendia assistir um filme sério de guerra. Muitos irão se perguntar nessa hora: Então tudo não passava de uma bobagem?! Para finalizar temos Brad Pitt. Bom, a participação do ator, a despeito do uso massivo de sua imagem nos posters e na publicidade do filme, não passa de coadjuvante. Pitt, embora importante para o desenvolvimento da estória e do roteiro, aparece pouco, em momentos pontuais. Os bastardos, grupo que dá nome ao filme e do qual o personagem de Brad faz parte, também não chega a dominar a trama em nenhum momento. Embora esteja creditado como o ator principal e estrela, Pitt é totalmente ofuscado por outros atores, em especial Christoph Waltz. Nas cenas que compartilham juntos podemos notar bem a diferença do nível de atuação, pois não há como negar que em sua presença Pitt simplesmente desaparece. Enfim, como diversão ligeira Bastardos Inglórios cumpre sua função, como retrato histórico é um desastre, e como meio de promoção de seu astro principal é apenas tímido.

Bastardos Inglórios (Inglourious Basterds, EUA, 2009) Direção: Quentin Tarantino / Roteiro: Quentin Tarantino / Elenco: :Brad Pitt, Christoph Waltz, Mélanie Laurent, Diane Kruger, Eli Roth, Michael Fassbender / Sinopse: Na França ocupada pelos Nazistas durante a II Guerra Mundial um grupo de soldados americanos e judeus são designados para caçar e matar o maior número de alemães possível.

Pablo Aluísio.

domingo, 16 de agosto de 2009

O Grande Segredo

Gary Cooper foi um dos grandes astros de Hollywood nos anos dourados do cinema americano. Como cinéfilo sempre me interessei em assistir filmes antigos e clássicos e Cooper sempre despertou minha atenção em especial. Isso é fácil de explicar porque quanto mais raro se torna a filmografia de um ator do passado mais me interesso em sua carreira e em conhecer seus filmes. Gary Cooper se enquadra perfeitamente nessa situação. Embora tenha feito mais de cem filmes em sua longa carreira em Hollywood raros são os títulos disponíveis do ator para assistir no Brasil. Como todo grande astro ele tinha grande prestígio entre os fãs de cinema no passado, porém o que se percebe é que o fato de ter morrido há quase cinquenta anos dificulta e muito o acesso aos seus filmes. Tirando seus grandes sucessos (como o clássico do Western Matar ou Morrer ou então Sargento York), que foram regularmente lançados por aqui, nada mais se encontra. A realidade é que existe uma lacuna enorme de títulos pois quase 90% de sua obra cinematográfica permanece inédita em nosso país. Então foi com grande satisfação que recentemente tive a oportunidade de assistir um de seus filmes menos conhecidos. Trata-se de O Grande Segredo, filme de espionagem de 1946, lançado logo após o final da II Grande Guerra Mundial. O interessante dessa película é que aqui Cooper foi dirigido por um dos grandes diretores da história do cinema, Fritz Lang. Só por essa razão o filme já seria extremamente curioso, para não dizer obrigatório. Confesso que pouco sabia sobre o roteiro, a repercussão ou a importância desse momento de Cooper no cinema, que para minha surpresa foi quase que completamente esquecido.

O astro, que sempre se dava melhor em filmes de Western aqui faz um papel bem atípico em sua carreira, interpretando um cientista recrutado pelo órgão governamental de inteligência norte-americano. Sua missão é tentar resgatar uma importante cientista que poderia ser usada pelos alemães para a construção da bomba atômica nazista. O filme tem ótimo desenvolvimento e diálogos. Cooper está bem contido em sua interpretação. Geralmente ele interpretava o tipo caladão e tímido, porém virtuoso ao extremo. Aqui ele troca o rifle pelo giz. Não deixa de ser engraçada a cena em que ele aparece fazendo cálculos para "passar o tempo"! O filme é pura diversão e deve ter empolgado bastante os militares recém chegados na volta ao lar depois do fim da Guerra. Se tenho uma crítica a fazer em relação ao filme é em razão de seu final, que lembra bastante o epílogo do clássico Casablanca. Mas isso é de menor importância. O que realmente importa é que isso em nada comprometeu a ótima experiência de conhecer mais um filme da extensa - e bastante desconhecida - filmografia do mito Gary Cooper. Agora com o surgimento do Blu Ray bem que as produtoras poderiam olhar com mais atenção a quase completa ausência de filmes de Cooper no mercado brasileiro. Os admiradores da época de ouro de Hollywood agradeceriam bastante.

O Grande Segredo (Cloak and Dagger, EUA, 1946) Direção: Fritz Lang / Roteiro: Albert Maltz, Ring Lardner Jr./ Elenco: Gary Cooper, Robert Alda, Lilli Palmer / Sinopse: Gary Cooper interpreta um cientista recrutado pelo órgão governamental de inteligência norte-americana. Sua missão é tentar resgatar uma importante cientista que poderia ser usada pelos alemães para a construção da bomba atômica nazista.

Pablo Aluísio.

sábado, 15 de agosto de 2009

A "inocência" dos anos 50

A foto ao lado é muito significativa. Mostra um típico garotinho dos anos 50 ao lado do ator George Reeves, devidamente fantasiado de Superman, personagem ao qual interpretou em um seriado de TV de grande sucesso na década de 1950. O curioso em relação a Reeves é que sua biografia é uma parábola da própria sociedade americana dos chamados "anos dourados". Uma sociedade que vivia uma fachada de perfeição e prosperidade, mas que no fundo apenas ocultava um lado bem doentio do American Way of Life.

Recentemente o filme Hollywoodland retratou muito bem esse aspecto. Nele somos apresentados à história de George Reeves em Hollywood. Um ator de segundo escalão que, para sobreviver, teve que encarnar o personagem de quadrinhos na TV. Embora hoje estrelar um filme ou um seriado sobre Superman seja considerado a sorte grande para qualquer ator, nos anos 50 isso era simplesmente o fim da picada, o mais baixo que um aspirante ao estrelado poderia chegar. Para Reeves (cujo sobrenome é extremamente parecido com o de outro ator que também interpretou o homem de aço, Christopher Reeve), fazer um seriado para crianças nos anos 50 era o símbolo máximo do fracasso de sua carreira.

Embaixo da fantasia havia um homem que escondia vários problemas em sua vida particular. Sempre em busca de bons papéis George Reeves não pensou duas vezes ao se envolver com a mulher do vice presidente da MGM, Toni Mannix. Se envolvendo romanticamente com uma mulher mais velha, porém poderosa dentro do Star System em Hollywood, Reeves procurava chegar nas melhores produções do cinema na época. Até conseguiu, ao fazer uma ponta em A um Passo da Eternidade, mas parou por aí. Como todo ator que um dia chegou a interpretar um ícone da cultura pop, como Superman, ele ficou marcado para sempre pelo papel, o que tornava extremamente difícil ser levado a sério em outros papéis. Com o cancelamento do seriado o que era previsível aconteceu: Reeves ficou sem trabalho, passando por dificuldades financeiras.

Em 1959, segundo relatos oficiais, George Reeves se matou com um tiro. Sua morte porém sempre gerou dúvidas entre a imprensa e a comunidade em Hollywood. Será que realmente cometeu suicídio? Ao se envolver com uma mulher de um figurão da MGM Reeves também mexeu em um vespeiro. As teorias são muitas: para alguns o que aconteceu realmente foi homicídio, não se sabe cometido pelo vice presidente da MGM ou por sua esposa, que havia sido trocada por George Reeves por uma mulher mais jovem. A verdade provavelmente jamais será descoberta.

O filme Hollywoodland, estrelado por Ben Afleck (provavelmente em seu primeiro papel não canastrão em anos) e Adrien Brody, é uma pequena obra prima que deve ser descoberta. Retrata como poucos a hipocrisia reinante no círculo das grandes estrelas na capital do cinema durante os anos 50. Mostra o sórdido jogo de interesses existente por baixo da luzes das marquises de cinema, o uso de favores sexuais em troca de bons papéis, a verdade sobre os astros da época que não se faziam de rogados para chegar ao topo da carreira. Recentemente vários livros estão surgindo no mercado mostrando o verdadeiro lado obscuro de muitos mitos da época, como Marilyn Monroe e Clark Gable, desmascarando o jogo sujo da indústria cinematográfica dos Estados Unidos. Certamente esse não era exclusividade apenas do ator que um dia foi mais rápido que uma bala e mais veloz do que um trem.

Pablo Aluísio.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

A Ilha do Medo

Esse novo filme de Martin Scorsese é o típico filme que engana. Você vai ao cinema pensando que vai assistir um tipo de gênero e acaba encontrando outro completamente diferente. Eu, por exemplo, fui assistir convencido que iria me deparar com um bom filme de suspense policial, com muito clima noir. Pensei que iria assistir algo no estilo de Chinatown, mas acabei vendo um curioso derivado de Um Estranho no Ninho. Dito isso quero deixar claro que o filme não é ruim, em hipótese alguma. Ele passeia muito bem pelos estilos com desenvoltura e prende a atenção do espectador. Não é para menos já que Scorsese é um dos diretores mais brilhantes da história do cinema.

Então se você vai ao cinema assistir A Ilha do Medo pensando tratar-se de um filme de terror, suspense policial ou trama de espionagem, esqueça. O roteiro usa desses gêneros apenas para contar uma outra estória, bem mais pesada e trágica do que o típico filme de detetives. Não vou aqui estragar a surpresa de ninguém, por isso quanto menos contar melhor. O que posso adiantar é que Di Caprio está muito bem no papel (não chega a ser excepcional mas apresenta uma boa atuação). Ben Kingsley também mantém o alto nível do elenco mas é Max Von Sydow que se sobressai, apesar de suas cenas serem pequenas e esporádicas. Em termos de produção, atuação e direção não há o que reclamar, Scorsese é praticamente um gênio e nesses aspectos técnicos só se poderia esperar o melhor mesmo.

O grande ponto negativo do filme realmente é seu roteiro. Não que seja ruim, longe disso, mas é previsível. Quem tiver o mínimo de atenção logo irá matar o "segredo" do filme. Várias dicas são deixadas ao longo da projeção - algumas inclusive bem óbvias. Em certo sentido me lembrei de um dos meus filmes preferidos, Coração Satânico, onde também havia um pretexto inicial do roteiro que desbancava para uma grande reviravolta nos momentos finais. Mas o que era sobrenatural em Angel Heart aqui se torna introspectivo, pesado e principalmente psicológico. Por isso digo que quem mais irá apreciar o filme no final serão os estudantes e estudiosos de psiquiatria e psicologia. Esses realmente terão um prato cheio para debater depois da exibição.

Pablo Aluísio.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Wyatt Earp

Geralmente as pessoas mistificam certos personagens da história e se aborrecem seriamente quando certas passagens das vidas desses mitos são desmistificadas. Um caso bem exemplificativo disso aconteceu quando Kevin Costner resolver levar para as telas a biografia do lendário xerife do velho oeste, Wyatt Earp. O uso da expressão lendário aqui não é mero enfeite, Earp realmente foi um dos personagens mais conhecidos e celebrados do chamado Oeste Selvagem. Ao lado de seus irmãos e do amigo, o dentista, pistoleiro e tuberculoso Doc Holliday, Wyatt enfrentou uma quadrilha de bandidos no famoso Ok Curral, duelo esse que jamais foi esquecido na vasta mitologia do western americano e que consagrou seu nome para sempre na história dos Estados Unidos. Kevin Costner poderia muito bem apenas endossar a velha lenda mas corajosamente preferiu filmar uma biografia bem mais realista e de acordo com o que realmente aconteceu. O filme, que tem mais de 3 horas de duração, é um primor de qualidade. Na época foi recebido com certas reservas, talvez justamente por ser "real demais".

E afinal, o que tanto aborreceu a alguns segmentos da sociedade ianque? Primeiramente o fato de que certos aspectos da biografia de Earp vieram à tona pela primeira vez no cinema com esse filme. Por exemplo, em todos os filmes que retrataram Wyatt antes ele sempre era mostrado como um homem da lei, acima do bem e do mal. Honesto, correto e incorruptível. A verdade histórica porém não foi bem assim. No filme descobrimos que Wyatt antes de virar xerife teve que fugir de sua terra natal para não ser preso por roubo de cavalos. Isso mesmo, o xerife modelo do oeste americano era na realidade um ladrão de cavalos foragido. Durma-se com um barulho desses. Outros aspectos nada lisonjeiros na biografia de Wyatt Earp vão desfilhando pelas cenas: sua dureza com os que o desafiavam, sua fria relação com sua segunda companheira (a primeira esposa faleceu de tifo ainda muito cedo) e os não explicados assassinatos da antiga quadrilha que matou dois dos irmãos Earp. Tudo no filme é retratado de forma corajosa e sem meias palavras. Para quem gosta de história como eu, um roteiro honesto e definitivamente leal à veracidade dos fatos como esse é um prato cheio, um grande prazer. Enfim, Wyatt Earp é item obrigatório para todos aqueles que desejam conhecer a verdade por trás dos mitos do velho oeste, sem enfeites ou fantasias. O velho xerife, mostrado com a veracidade e a velocidade de um colt 45, se revela por inteiro no quadro pintado por Kevin Costner. É a biografia definitiva sobre Wyatt Earp no cinema. Por essa razão se ainda não assistiu, não perca a oportunidade.

Wyatt Earp (EUA, 1994) Direção: Lawrence Kasdan / Roteiro: Dan Gordon, Lawrence Kasdan / Elenco: Kevin Costner, Dennis Quaid, Gene Hackman / Sinopse: Cinebiografia do famoso xerife e homem da lei Wyatt Earp (Kevin Costner). Ao lado de seus irmãos e do amigo Doc Holliday (Dennis Quaid), Earp se envolveu no famoso duelo do OK Curral, que entrou na história do velho oeste.

Pablo Aluísio.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Deixa Ela Entrar

Essa pequena obra prima é uma das gratas surpresas do ano nas telas de cinema do Brasil. "Deixa Ela Entrar" tem todo os ingredientes que vão agradar aos fãs de terror, além dos que gostam de bom cinema de uma forma em geral. Baseado em um livro de sucesso do escritor John Lindqvist o filme tem um desenvolvimento único e cativante, que prende a atenção do espectador desde o primeiro momento. Como o filme é sueco ficamos salvos dos velhos clichês que imperam nos filmes de vampiro provenientes de Hollywood. Não há profusão de sangue e nem de efeitos especiais, tudo é realizado e mostrado de forma sutil e delicada, com cadência, o que exalta ainda mais as virtudes do roteiro inteligente e bem escrito. O argumento em si é simples. Logo no começo do filme somos apresentados à tediosa rotina de vida do garotinho Oskar (Kare Hedebrant). Ele vive em um conjunto habitacional de prédios em sua cidade na Suécia. De dia frequenta o colégio, onde logo vira alvo de bullying de alguns garotos de sua classe. Solitário e sem amigos uma noite ele encontra uma garotinha de 12 anos chamada Eli (Lina Leandersson) no pátio em frente ao local onde mora. Logo nasce uma bela amizade entre os dois. Ao mesmo tempo a pequena cidade onde vive vira inexplicavelmente palco de inúmeras mortes de moradores locais, embora isso pareça ter pouca importância para Oskar nos divertidos momentos em que passa ao lado de sua amiguinha. O que ele provavelmente nem desconfie é que ambas as situações tem ligação entre si.

O filme tem um roteiro extremamente impactante. Em tempos de moda, o vampirismo ganha uma nova conotação e um novo enfoque, completamente originais. Curiosamente os produtores suavizaram um pouco o teor do livro original que é bem mais pesado e mais enigmático. Flashbacks que explicam a história de Eli foram completamente omitidos em prol de uma maior leveza no desenvolvimento da trama. Outro aspecto que foi mudado foi o próprio sexo de Eli. No original se tratava de um garoto, andrógino ao extremo, que acaba se envolvendo com Oskar, mas a direção do filme resolveu dar características femininas ao personagem principal para não chocar o público. Além disso o homem que auxilia Eli no filme não tem sua origem explicada. Já no livro o papel desse companheiro é bem claro: se trata de um pedófilo que havia tentado violentar Eli no passado e que agora lhe serve como escravo. Nenhuma dessas mudanças porém comprometem em absoluto as qualidades desse filme. "Deixa ela entrar" é inovador, original e traz um sopro de qualidade ao tão batido tema dos filmes de vampiros. Em tempos de Crepúsculo e outras bobagens é sempre bom assistir um filme que respeite a longa tradição dos sugadores de sangue da noite, mesmo que no final, temos que admitir, essa herança tenha sido salva justamente por uma garotinha pré adolescente. Em tempo: já está acertado o remake do filme em Hollywood. Só nos resta rezar para que tudo não seja destruído nas mãos dos produtores americanos.

Deixa Ela Entrar (Låt den rätte komma in, Suécia, 2008) Direção: Tomas Alfredson / Roteiro: John Ajvide Lindqvist, John Ajvide Lindqvist / Elenco: Kåre Hedebrant, Lina Leandersson, Per Ragnar / Sinopse: Garotinho de nome Oskar (Kåre Hedebrant) sofre bullying escolar mas encontra apoio em sua nova vizinha, a garota Eli (Lina Leandersson)

Pablo Aluísio.

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Sangue em Sonora

Filmado em locações no Estado americano de Utah em 1966 o filme Sangue em Sonora trazia um Marlon Brando estrelando um western de estrutura tradicional, o que de certa forma era um surpresa já que o ator era conhecido não só por seu talento mas também por sempre procurar trabalhar em projetos mais ousados e polêmicos. O que teria acontecido então para Brando embarcar em um projeto tão, digamos assim, comum? Conforme explicou em sua própria autobiografia "Canções que minha mãe me ensinou" o que o levou a filmes como esse foi a simples necessidade de ganhar muito dinheiro para bancar os problemas financeiros que enfrentou. Nos anos 60 Brando teve que enfrentar uma incrível série de contratempos. Suas ex-esposas o processaram, a guarda de seus filhos exigia que o ator desembolsasse somas cada vez maiores para pagar os advogados e sua querida ilha Tetiroa só lhe trazia prejuízos. Mal conseguia construir seu hotel um furacão vinha e destruía com tudo (o ator pretendia transformar o local em ponto turístico ambiental mas jamais concretizou seus planos por causa da irascível natureza da região). Assim, atolado em dívidas, Marlon Brando se dispôs a se deslocar para uma locação de difícil acesso para as tomadas de cena. Em seu livro Brando recorda que ficou surpreso ao chegar lá e saber que tinha sido o mesmo local onde Wayne havia filmado um conhecido western na era de ouro do cinema. O problema era que o local ficava muito próximo de uma base americana de testes nucleares. Para Brando muito provavelmente foi nesse local que John Wayne teria sido contaminado por depósitos de lixo nuclear (urânio), o que teria sido decisivo para o desenvolvimento do câncer que vitimaria Wayne anos depois. Brando afirmaria depois: "Não deixava de ser uma ironia o fato do grande defensor da indústria armamentista nuclear norte-americana ter sido morto justamente por ter sido contaminado por seu lixo deixado no local". Não era novidade para ninguém que ambos os atores se detestavam na vida pessoal, pois Brando era um típico liberal enquanto John Wayne era um defensor reacionário dos ideais do partido Republicano.

Deixando de lado todos esses problemas de egos tão comuns nos grandes atores de cinema, vamos ao filme em si. Como afirmei antes o filme tem uma estrutura comum e simples. O diretor Sidney J Furie não quis arriscar muito, até porque na época não passava de um novato com poucos filmes significantes no currículo. Trabalhar com Brando também não era nada fácil, pois o ator tinha um histórico de problemas com diretores nos sets de filmagens. A sorte de Furie foi que na ocasião Brando estava envolvido em tantos problemas que simplesmente não quis infernizar ainda mais sua vida com confusões de bastidores. Assim as filmagens transcorreram sem grandes incidentes, tudo resultando em um filme que é um bom western, embora muito longe do que se esperaria de um gênio da atuação como Brando. Na realidade só existem dois bons momentos para Brando em toda a (curta) duração do filme. A cena inicial do filme, por exemplo, com Brando na Igreja, gera bons momentos ao roteiro, porém a melhor parte acontece depois quando Brando enfrenta o vilão Chuy Medina (interpretado por um irreconhecível John Saxon) na taberna. A queda de braço com escorpiões realmente foi uma excelente ideia, que casou muito bem com a proposta do filme que no fundo não passa de um Western de rotina com altas doses de Tequila. Sangue em Sonora não é nem de longe o mais brilhante momento do mito Brando nas telas da década de 60 mas mantém o interesse e diverte, o que no final é o que realmente importa.

Sangue em Sonora (The Appaloosa, EUA. 1966) Direção: Sidney J. Furie/ Roteiro: James Bridges, Roland Kibbee / Elenco: Marlon Brando, Anjanette Comen, John Saxon / Sinopse: Matt Fletcher (Marlon Brando) chega em uma cidade perdida na fronteira entre EUA e México. Lá pretende encontrar com um amigo do passado que agora está casado e com família. Os eventos porém se interpõe em seu caminho o lançando em uma luta de proporções gigantescas.

Pablo Aluísio.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Mestres do Passado: Vincent Price e Christopher Lee

Recentemente tive a oportunidade de assistir a dois filmes clássicos de terror estrelados por dois dos maiores símbolos do gênero no passado: Christopher Lee e Vincent Price. Sempre fui fã de filmes de terror desde a minha adolescência. Naqueles anos acompanhava os filmes que passavam pelas madrugadas nos canais abertos de TV. Estou falando da segunda metade dos anos 80 onde tive a oportunidade de assistir alguns dos grandes filmes que Hollywood produziu nesse estilo. Entre os que mais gostava estavam os filmes estrelados por Christopher Lee onde ele interpretava o ícone maior dos vampiros: o Conde Drácula. Em tempos de Crepúsculo, True Blood e The Vampire Diaries, fica complicado para um jovem dos dias atuais conhecer a vasta filmografia de um dos grandes estúdios de terror da História: A Hammer.

A Hammer era uma produtora inglesa que não contava com muitos recursos financeiros mas compensava isso com muita imaginação e estilo. Um exemplo é "Drácula: O Perfil do Diabo" que assisti essa semana. O filme é um dos menos conhecidos da longa linhagem que foi estrelada por Christopher Lee, mas traz todas as características que fizeram da Hammer uma das produtoras mais cultuadas pelos fãs de terror até hoje. O roteiro é simples e mostra Drácula, renascido novamente após ser destruído no filme anterior (pensou que era apenas o Jason que não morria em seus filmes?) e que agora tem que retornar ao seu castelo o mais rápido possível mas é impedido porque um padre teria exorcizado sua entrada. O argumento nesse caso é o que menos importa. O interessante é admirar a direção de arte dos estúdios Hammer e o capricho que eles tinham na produção. Até mesmo a falta de efeitos especiais conta a favor. Como não havia técnica desenvolvida naquela época tudo era superado com ideias bem boladas e imagens bem editadas.

A interpretação de Christopher Lee no papel de Drácula é outro destaque. Longe dos vampiros românticos da atualidade o Drácula da Hammer não tinha nada de cavalheiresco ou nobre, era apenas um monstro de capa, que nem pensava duas vezes em puxar o cabelo das mulheres quando achava necessário! Também não era de muito bate papo, Lee inclusive mal fala durante toda a projeção, apenas o mínimo necessário, geralmente dando ordens aos seus servos. Pois é, quem te viu e quem te vê, os vampiros do passado não davam moleza nenhuma para as suas partners em cena. Embora ele novamente vá atrás de sua "amada imortal" também nesse filme, o faz sem nenhum gesto de romantismo ou galanteio. Simplesmente a enfeitiça e tenta levar a donzela para seu castelo no alto da montanha, demonstrando que o velho conde de bobo não tinha nada...

E por falar em interpretação não poderia deixar de citar um dos grandes mestres do terror: Vincent Price. Ontem assisti um de seus clássicos: "A Casa dos Maus Espiritos"! Ao contrário do Drácula monossilábico de Lee, o personagem de Vincent Price nesse filme esbanja elegância e sofisticação. Fazendo o papel de um milionário que convoca um estranho grupo para passar a noite em uma casa assombrada ao preço de dez mil dólares, Price demonstra como era um ótimo ator, mesmo nas produções mais simples. O filme, que foi dirigido pelo ótimo William Castle, tem um roteiro cheio de humor negro. Para quem gosta certamente encontrará um prato cheio, inclusive em seu próprio título pois ao final descobrimos quem são realmente os tais "maus espíritos"! Com desenvolvimento rápido e esperto o filme fez grande sucesso de bilheteria e inspirou vários clássicos que viriam, como o próprio Psicose de Hitchcock. Seu roteiro é tão interessante que o filme acabou ganhando um remake intitulado "A Casa na Colina", que não chega nem aos pés do original. Também convenhamos o mestre Vincent Price carrega o filme nas costas e é responsável direto por seu grande êxito. Enfim, duas amostras de uma época em que os filmes de terror tinham um charme inigualável. Morra de inveja Robert Pattinson...

Pablo Aluísio.

domingo, 9 de agosto de 2009

O Segredo do Abismo

Título no Brasil: O Segredo do Abismo
Título Original: The Abyss
Ano de Produção: 1989
País: Estados Unidos
Estúdio: Twentieth Century Fox
Direção: James Cameron
Roteiro: James Cameron
Elenco: Ed Harris, Mary Elizabeth Mastrantonio, Michael Biehn

Sinopse:
Equipe formada por mergulhadores, exploradores e cientistas é contratada para descer até as profundezas do oceano com o objetivo de resgatar um submarino nuclear desaparecido. Uma vez na fossa oceânica descobrem que há no local uma estranha presença de seres desconhecidos da ciência. Intrigados tentarão levar o resgate até o final, embora sejam surpreendidos pela natureza daquelas entidades alienígenas. Filme vencedor do Oscar na categoria de Melhores Efeitos Especiais. 

Comentários:
Analisando de um ponto de vista bem imparcial já podemos encontrar nessa ficção "The Abyss" todos os pontos positivos e negativos que iriam acompanhar James Cameron em toda a sua carreira. Entre os pontos positivos podemos citar o uso de tecnologia de ponta em termos de efeitos especiais. Aqui nessa produção James Cameron já antecipava o que viria a mostrar em "O Exterminador do Futuro 2", ou seja, criaturas que mais parecem fluidos sem definição. Nesse aspecto não há como negar que o filme seja extremamente bem realizado, até mesmo se levarmos em conta o padrão atual da tecnologia digital usada no cinema americano. Por outro lado temos também os velhos erros que sempre acompanharam Cameron desde o começo de sua filmografia, sendo o mais visível deles o próprio roteiro escrito pelo diretor. Os personagens são vazios e as situações bem clichês. James Cameron pode até ser um bom coordenador de equipes especializadas em efeitos especiais, mas como diretor de elenco e escritor de roteiros ele deixa mesmo a desejar. Assim se você estiver em busca de um filme que exponha o lado bom e ruim de Cameron, "O Segredo do Abismo" é sem dúvida uma boa pedida.

Pablo Aluísio. 

sábado, 8 de agosto de 2009

Marilyn Monroe e Tony Curtis

No último fim de semana o ator Tony Curtis foi entrevistado pelo canal E! e afirmou que em breve estará publicando um livro de memórias intitulado “Making of Some Like It Hot” em que relatará os bastidores das filmagens do clássico de Billy Wilder “Some Like It Hot” (Quanto Mais Quente Melhor, no Brasil). Entre as revelações Curtis promete contar toda a verdade sobre o suposto romance que teve com a estrela do filme, a atriz Marilyn Monroe e mais: Tony garante que Marilyn engravidou dele durante o caso amoroso ocorrido nos sets de filmagens, tudo acontecendo debaixo do nariz do marido dela na época, o escritor Arthur Miller. Será verdade? Principalmente depois de tudo o que sabemos sobre a complicada e problemática filmagem de um dos mais famosos filmes de La Monroe.

Todos que participaram da produção de "Quanto Mais Quente Melhor" concordam que as filmagens foram tudo, menos um mar de rosas. Na realidade o caos imperou no set. Marilyn Monroe estava simplesmente impossível durante as gravações levando todos, do diretor a equipe de apoio, à loucura. Atrasos, ataques de estrelismo, esquecimento de falas, brigas e muitas faltas marcaram a atuação de Monroe nesse filme. Certa vez Marilyn chegou ao local de filmagens tão fora de si que todos pensaram que ela iria ter um ataque ou algo parecido. As filmagens foram canceladas e mais um dia foi perdido.

O diretor Billy Wilder, sempre irônico e com um humor mordaz recordou: "Quase enlouqueci com esse filme. Marilyn me deixava horas e horas esperando por ela nos estúdios. Todos a postos, equipe e atores, tudo pronto mas nada dela aparecer. Algumas vezes Marilyn aparecia com até seis horas de atraso e quando aparecia parecia uma morta viva - mal conseguia falar e não sabia nenhuma de suas falas! Sabe, eu tenho uma tia que decora todas as falas, chega nos estúdios na hora certa, é extremamente pontual e profissional. Na bilheteria ela deve valer uns cinco centavos! Entende o que digo? Tivemos que engolir muitos sapos para ter Marilyn Monroe nesse filme!" Só um grande diretor do nível de Wilder para controlar e administrar tantos problemas. Ele completou: "Só consegui dormir normalmente novamente depois que o filme acabou. Sinceramente, nunca mais quero passar por isso de novo, prefiro que meu próximo filme renda cinco centavos na bilheteria!".

Com os demais atores a situação foi ainda mais caótica. Como não aparecia regularmente para trabalhar Marilyn logo ganhou a antipatia de seu partner em cena, Tony Curtis, que após o filme declarou publicamente: "Beijar Marilyn Monroe é como beijar Hitler!" Em outra ocasião durante uma grande discussão com o ator, Marilyn jogou uma taça de vinho em seu rosto, causando um grande tumulto durante as filmagens. Com todo esse histórico fica realmente complicado acreditar que Marilyn teria tido um romance amoroso com Curtis, resultando ainda mais em gravidez. Infelizmente todos os demais envolvidos (como o diretor Billy Wilder e o ator Jack Lemmon) estão falecidos. A última palavra ficará realmente com Tony Curtis.

Marilyn Monroe foi sem a menor sombra de dúvidas um dos maiores mitos da história do cinema. Tinha uma vida pessoal marcada por inúmeros problemas (infância abandonada e infeliz, casamentos desfeitos, romances escandalosos, vício em medicamentos, problemas mentais, entre outros) e por isso é muito complicado nos dias de hoje determinar o que realmente aconteceu e o que são apenas estórias inventadas para faturar em cima de seu mito. Tony Curtis foi um grande nome do cinema também, tendo uma carreira vitoriosa nos anos 50 e 60. Porém com os anos 70 sua carreira no cinema estagnou e ele ficou com sérios problemas financeiros. Estaria apenas tentando ganhar algum dinheiro extra com sua bombástica revelação? Só o tempo dirá...

Pablo Aluísio.

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

The Doors - Bright Midnight

Jim Morrison era um louco alucinado que fazia de tudo um pouco no palco. Fumava Marijuana na frente de todos (até da polícia), brincava com animais domésticos afirmando que iria possuí-los em rituais de zoofilia e outras barbaridades. Era o Rasputin louco do Rock como se dizia na época. Mas nem tudo era alucinação sem controle, quando queria o Sr. Morrison também sabia se apresentar bem, cantar corretamente e não enlouquecer seu grupo de apoio, os Doors. Esse CD, lançado tardiamente, traz um Jim sóbrio, embora em certos momentos seu lado mais diabólico insista em aparecer. Seu grande mérito é registrar que além de causar polêmicas sem fim nos concertos Morrison também era um grande cantor, com pleno domínio de seus malabarismos vocais.

É um material essencial para quem um dia já se interessou pelo som maluco de Morrison. Em pouco mais de dez faixas Jim destila seu lado roqueiro porra louca dos anos 60, alucina em grandes momentos como em Roudhouse Blues e canta suavemente quando possível - nos poucos momentos em que isso seria cabível na alucinada bagagem musical de um dos grupos mais fantásticos da historia musical norte americana. Assim como aconteceu com outros astros do passado, como Elvis e Beatles, a gravadora do The Doors correu atrás de material inédito da banda em seus arquivos e conseguiu resgatar várias faixas gravadas ao vivo em diversos shows do grupo pelos EUA. Saiu em edição limitada e por isso hoje o CD é considerado uma verdadeira preciosidade entres os fãs. Ouça e entenda porque o King Lizard ainda é tão lembrado nos dias de hoje.

The Doors - Bright Midnight: Live in America
1. Light My Fire
2. Been Down So Long
3. Back Door Man
4. Love Hides
5. Five to One
6. Touch Me
7. Crystal Ship
8. Break on Through (To the Other Side)
9. Bellowing
10. Roadhouse Blues
11. Alabama Song (Whisky Bar)
12. Love Me Two Times / Baby Please Don't Go
13. The End / The Celebraton of the Lizard

Pablo Aluísio.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

The Doors - L.A. Woman (1970)

O disco final da banda The Doors, "L.A.Woman", foi gravado em oito canais entre dezembro de 1970 a fevereiro de 1971, no Doors Workshop (Hollywood, CA). Esse era um estúdio pequeno, improvisado no escritório do grupo. Logo no começo dos ensaios Jim percebeu que o som ficava ótimo dentro do banheiro e sugeriu que toda a banda fosse para dentro do sanitário! Com a recusa dos demais membros da banda, o Rei Lagarto não se fez de rogado, gravou todas as faixas sentado em um banquinho ao lado da privada... O disco foi lançado oficialmente nos EUA no final de abril de 1971. A produção ficou com Bruce Botnick e os próprios The Doors. Panelinha nativa. Mesmo contendo três das canções mais famosas dos Doors (a faixa título, Love Her Madly e Riders on the Storm) e ter sido um dos discos mais vendidos da banda (fazendo deles o primeiro grupo de rock americano a receber sete discos de ouro consecutivos), "L.A. Woman" é uma obra que pode não ser rapidamente digerida pelos admiradores do grupo.

Como Morrison Hotel já dava sinais, os Doors haviam se transformado mais do que nunca numa banda de blues, e esse último lançamento é basicamente todo dedicado a esse estilo. A diferença pode ter sido acentuada com a saída do produtor Paul Rothchild, que não gostou do que ouviu nos ensaios das novas canções e decidiu se afastar dos Doors. Assim, resolveram produzir a si mesmos com o auxílio de Bruce Botnick, que havia sido o engenheiro de gravação dos outros discos, e prepararam o novo álbum em um estúdio improvisado no escritório da banda. Num ambiente calmo e familiar (os vocais eram feitos no banheiro, que possuía uma melhor acústica), prepararam as faixas no chamado "estúdio ao vivo", onde todos os instrumentos são tocados e gravados ao mesmo tempo, como num show. O resultado foi simples e excelente, uma grandiosa despedida de Jim Morrison. Curiosidade: o nome Mr. Mojo Risin', repetido diversas vezes durante a canção L.A. Woman, é um anagrama de Jim Morrison. Reordenando as letras é possível formar o nome do vocalista. Além disso é o nome de uma entidade de vodu, muito em voga na cidade de New Orleans, no sul dos EUA.

Sempre foi um dos meus álbuns preferidos. Jim Morrison, barbudo e com cara de Messias insano, mandou ver nessas últimas gravações realizadas ao lado de seu grupo. Aqui os Doors resolveram chutar o balde, demitiram seu antigo produtor e resolveram gravar o que bem entendessem, sem o aborrecimento de ter que lidar com engravatados de gravadora. Jim Morrison acabou realizando o velho sonho de gravar um disco de blues. Encharcado de todos os abusos que você possa imaginar ele literalmente levou seu microfone para dentro do banheiro, sentou no vaso sanitário e assim acabou gravando praticamente todas as faixas, entre uma dose e outra de Bourbon barato! O resultado se revelou marcante, acachapante! Vamos tecer alguns comentários sobre cada canção.

1. The Changeling (Morrison / Manzarek / Densmore / Krieger) - Para muitos um blues visceral. Para outros o único funk feito por brancos que valeu a pena ouvir (pelo amor de Deus, estamos falando aqui do funk americano verdadeiro, não daquelas coisas que são chamadas de funk no Rio de Janeiro e demais cidades pelo Brasil afora!). No final das contas não importa a exata classificação da música, o que importa mesmo aqui é a bela performance de Morrison (visivelmente "alto", dando gritos de empolgação) e sua banda. Curiosamente apesar de ser muito bem executada, com ótimo arranjo, a canção não deu muito trabalho aos Doors. Em poucos takes eles chegaram na versão definitiva. E pensar que esses ótimos solos de guitarra de Robby Krieger foram alcançados quase de primeira mão dentro do estúdio. Virtuosismo pouco é bobagem.

2. Love Her Madly (Krieger) - Acabou sendo escolhida para ser uma das músicas de divulgação do álbum. Com ritmo nitidamente alegre e simpático, com a cara de Krieger, realmente parecia ser a ideal para virar um hit das rádios. A canção tem algumas paradinhas em sua melodia típicas para se ouvir nas praias californianas. Tudo muito soft e relax. Por ter essa característica tão comercial, digamos assim, não a colocaria entre as grandes faixas desse álbum. Dançante, com bom arranjo, mas em essência simplória demais para estar à altura das outras mensagens de Morrison e sua mente privilegiada. Jim aliás a achou "engraçadinha" demais da conta, mas como gostava de Krieger a gravou sem causar maiores problemas para seu amigo de banda.

3. Been Down So Long (Morrison / Manzarek / Densmore / Krieger) - Vamos aos fatos: Jim estava interessado mesmo em cantar blues nessas sessões. Embora isso de certa forma aborrecesse o batera Densmore, Morrison queria mesmo se entregar de corpo e alma ao ritmo. Essa "Been Down So Long" é o primeiro grande blues do disco. Morrison visivelmente entregue, se farta com uma canção extremamente bem arranjada, com os demais membros do Doors em momento inspirado. Curiosamente a ordem dos instrumentos foi levemente alterada para essa gravação. Não havia necessidade de órgão e nem piano e por essa razão Ray Manzarek trocou os teclados pela guitarra rítmica. Robby Krieger ficou responsável pelo Slide guitar e um terceiro guitarrista, o músico Marc Benno, ficou na base. Completando a equipe os Doors ainda contaram com Jerry Scheff, o baixista de Elvis Presley. Assim acabaram atendendo às velhas críticas que sempre afirmavam que os Doors precisavam urgentemente de um baixo em suas canções, algo que nunca havia se tornado um problema, mas que agora tinham resolvido suprir contratando o baixista da banda do Rei do Rock.

4. Cars Hiss by My Window (Morrison / Manzarek / Densmore / Krieger) - Foi justamente essa gravação que irritou o baterista Densmore. Anos depois ele declararia numa entrevista: "Tudo bem para um vocalista pois aqueles blues eram ótimos nesse aspecto. Já para um batera como eu, era extremamente chato esse tipo de canção. Não há como inovar ou trazer coisas interessantes. A coisa toda vira um tédio. O ritmo se mantém o mesmo em praticamente todo o tempo". Se para Densmore tudo era tédio puro o mesmo não se pode dizer para o brilhante trabalho de guitarra do mestre Krieger. Ele praticamente sola da primeira a última estrofe, criando um duelo de melodia com a voz de Morrison, que aliás surge perfeita, dando a impressão de estar levemente embriagada - o que convenhamos casa perfeitamente com a proposta da gravação e da letra. Impossível ficar indiferente a esse belo momento dark etílico da carreira do grupo. 

5. L.A. Woman (Morrison / Manzarek / Densmore / Krieger) - Basicamente é uma declaração de amor de Morrison para a cidade de Los Angeles. Em uma de suas últimas entrevistas Jim Morrison explicou que L.A. o tinha acolhido em um momento particularmente complicado de sua vida, quando finalmente resolveu largar a universidade e viver como um vagabundo errante pelos arredores de Venice Beach, e que por essa razão era eternamente grato a ela. "Se disserem que nunca a amei certamente estarão mentindo" - decretou o cantor. Curiosamente em sua letra Morrison acaba humanizando a cidade, a identificando de forma surrealista com uma mulher, tudo sendo criado em um plano puramente subjetivo e poético, de sua maneira muito peculiar de enxergar a realidade. Os lugares da cidade por onde parece caminhar se misturam com os delicados devaneios do corpo de uma mulher amada, misteriosa e Inatingível. Em termos técnicos considero essa uma das melhores gravações da carreira dos Doors. A música tem uma melodia envolvente, que desfila em uma crescente euforia que também vai contagiando o ouvinte, tudo indo desembocar em um excesso de explosões emocionais. Certamente uma obra prima da carreira do grupo. Genial mesmo.

Singles nas lojas:
Love Her Madly / Don't Go No Farther - Em março de 1971 os Doors lançaram seu penúltimo single. O interessante deste compacto simples foi a escolha de uma das canções do disco como lado principal. "Love Her Madly" não tem a importância de "Riders on the Storm" ou ainda "L.A.Woman", mas foi ela a eleita para figurar como música "carro chefe" do disco. Não a considero uma canção altamente relevante dentro da discografia da banda, mas me parece que ela foi escolhida por ser a mais comercial, a mais fácil de ser digerida pelas rádios americanas. No lado B desse single temos uma música que hoje em dia é considerada uma verdadeira raridade. Se você já ouviu "Don't go no farther" por aí se considere privilegiado pois essa faixa sumiu da discografia da banda após seu lançamento nesse single.

Riders On The Storm / Changeling - Em junho de 1971 o grupo lançou o segundo single extraído deste disco. "Riders on the Storm" é uma canção visceral, excepcionalmente bem produzida e que mostra que em poucos anos o grupo atingiu uma maturidade precoce. A letra é bem emblemática e mostra como o cinema influenciou o trabalho poético de Jim, basta ler a letra e ver como tudo se desenrola como um verdadeiro roteiro de um filme, uma cena rápida, bem ao estilo de alguém que frequentou uma escola de cinema, um verdadeiro outsider cinematográfico. Bem, essa canção dispensa maiores comentários, nem vou relembrar o fato dela ter sido inspirada em um fato real ocorrido com Jim em sua infância, quem assistiu ao filme de Oliver Stone, sabe do que estou falando, por isso não vou me repetir aqui. Em suma, essa música é vital, essencial na história do Rock Mundial. No Lado B do single foi colocada "Changeling", um blues ao velho estilo. Todos concordam em um ponto, "L.A.Woman" é basicamente um trabalho de Blues. Jim poderia até mesmo ter chamado esse disco de "The Doors Blues Album" se quisesse. É uma faixa forte, recomendada para bluesmen inveterados.

Enquanto isso, fora dos estúdios...
Os Doors estavam fartos! Depois de tudo o que rolou com a banda, os processos e tudo mais, os quatro procuravam um modo de recolocar as coisas no lugar, A ideia era gravar um disco simples, um disco de blues, sem superproduções, algo bem cool! A verdade era que a esta altura Jim já não se sentia à vontade nos palcos, e os outros integrantes não se sentiam à vontade com Jim. Por tudo isso, os Doors decidiram levar os planos iniciais em diante e começaram a gravar um novo material em estúdio e dar uma longa pausa nas apresentações ao vivo. Em 29 de agosto tocaram no festival da Ilha de Wight (único grande festival de que participaram) e no dia 12 de dezembro fizeram seu último show com o vocalista, no The Warehouse, em Nova Orleans. Em seu livro, o tecladista Ray Manzarek relata que enquanto tocava de olhos fechados a parte instrumental de Light My Fire, sentiu que Jim havia deixado o palco, como fazia várias vezes durante essa passagem. Quando olhou, ele ainda estava de pé junto ao microfone. Foi ali que notou que Jim realmente havia perdido seu vigor e energia, e os Doors estavam realmente no fim. O disco "L.A. Woman" foi lançado em abril de 1971, produzido pela primeira vez pelos próprios Doors e gravado num estúdio improvisado no escritório do grupo. Dias antes do álbum chegar às lojas, Jim embarcou para a França com sua namorada Pamela, visando ficar em Paris por alguns meses.

No dia 3 de julho foi encontrado morto na banheira do apartamento onde estava hospedado. As únicas pessoas que viram o cadáver foram Pamela e o médico legista, que deu como causa de morte ataque cardíaco. Não se sabe e nunca se saberá ao certo os verdadeiros motivos da morte de Jim Morrison, e por isso mesmo há intermináveis rumores dizendo que ele forjou sua morte para fugir das problemas da fama. De qualquer forma, L.A. Woman estourou depois da morte de Morrison, e há quem diga que foi o mais vendido da carreira da banda. Seu corpo nunca voltou da capital francesa. Está até hoje enterrado no cemitério Père-Lachaise, junto com os de personalidades como Frederich Chopin, Alan Kardec e Balzac.

Seu túmulo é o mais visitado de todos, e várias vezes já foi cogitada sua extradição para os EUA, em virtude da baderna que seus fãs fazem no local. Festas regadas a álcool e drogas e casais que usam o lugar para fazer sexo (como no filme Um Lobisomem Americano em Paris) convivem em paz com os rabiscos em sua lápide. Mesmo com a morte de Jim, os outros três integrantes decidiram continuar juntos e manter o nome da banda. O primeiro disco dessa fase se chamou Other Voices (1971), remetendo ao fato de que os cantores seriam outros, mais precisamente Robby e Ray, que revezavam nos vocais. Apesar do disco não ter feito muito sucesso, a banda entrou em turnê e em 72 lançou Full Circle. O título já mostrava que eles não pretendiam mais seguir em frente. O círculo estava fechado, os Doors haviam encerrado carreira.
 
Pablo Aluísio.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

The Doors - Morrison Hotel (1970)

O sucessor do extravagante The Soft Parade é o mais básico dos trabalhos dos Doors, utilizando elementos do hard rock e do blues sem enfeites orquestrais ou eletrônicos. O resultado foi excelente, saudado pela crítica como um retorno às raízes. Muitos foram ainda mais longe, dizendo que a presença de uma música chamada Waiting for the Sun (título do terceiro disco) sugeria que o grupo queria esquecer o suposto fracasso artístico do álbum anterior, fazendo uma ligação direta entre Waiting for the Sun e Morrison Hotel. Apesar de não ter tido nenhum single a estourar nas rádios, em meras três semanas à venda atingiu a categoria de disco de ouro. O título desse álbum ainda não havia sido definido, mesmo com as faixas já gravadas.

Foi quando se lembraram de um pequeno hotel de beira de estrada próximo dali, chamado Morrison Hotel. Mesmo não conseguindo permissão para fotografar no local, o grupo aproveitou o descuido do recepcionista e posou para a foto, que se tornou a antológica capa do disco. Uma curiosidade é que cada lado do LP foi batizado de forma diferente: o lado A se chama Hard Rock Cafe e o B Morrison Hotel. Este é o segundo disco dos Doors de que eu mais gosto (o primeiro? Strange Days). Depois dos exageros de "The Soft Parade" os Doors tentaram se encontrar musicalmente de novo. Deixaram para trás as "cornetas" e resolveram fazer um álbum mais simples e o melhor... mais verdadeiro. "Morrison Hotel" é um disco à prova de críticas, ele deixa qualquer roqueiro ou blueseiro de queixo caído. A começar pela capa, o disco é Jim Morrison puro, da primeira a última faixa. A foto foi tirada numa espelunca de quinta categoria que fica na beira de uma estrada esquecida da California. Lá Jim gostava de tomar seus porres. O lugar já se chamava "Morrison Hotel" antes dele chegar por lá, aliás essa foi a razão que o levou até o lugar. Bem, a capa interna já diz tudo, com Jim com uma garrafa de cerveja nas mãos no balcão do bar.

Repare a cara de poucos amigos de Densmore. Nessa época seu relacionamento com Jim já estava bem deteriorado. Na realidade John nunca gostou muito do rei lagarto e depois de todas as confusões aprontadas pelo vocalista a relação, que nunca foi boa, acabou desbancando para a pura e simples aversão. Outro fator de atrito no conjunto era a insistência de Jim em cantar seus blues. Densmore, mais uma vez, desaprovava esse rumo seguido pelo grupo, pois para o baterista: "Os blues poderiam ser uma boa para Jim, mas eram um tédio para mim". Mas, como sempre acontece nas melhores bandas, essa rivalidade interna acabou ajudando o grupo musicalmente. E esse disco é a prova desse fato. Temos aqui algumas das melhores canções do conjunto. Aliás a mais bela melodia escrita pelos Doors está aqui, chama-se "Indian Summer". Esta é sem dúvida umas das melhores e prova como os Doors estavam entrosados, a instrumentalização é simplesmente perfeita, em seus mínimos detalhes. Vale o disco inteiro.

Single nas Lojas:
You Make Me Real / Roadhouse Blues - O único single do disco foi lançado em março de 1970. Não precisa falar muito sobre essas músicas, elas podem ser resumidas em uma única palavra: "maravilhosas". Acho que "Roadhouse Blues" deveria ter sido o lado A do single, pois a considero mais significativa. Blues da melhor estirpe, com um ótimo arranjo, não faria feio em New Orleans ou Memphis... Jim prova mais uma vez que entendia do assunto, que conhecia blues como poucos. A melhor versão dessa canção na minha opinião foi lançada na trilha sonora do filme "The Doors" de Oliver Stone. Sem dúvida a banda ao vivo traz mais energia e carisma a essa música. "You Make Me Real" é muito legal. Ponto final. É sem dúvida uma canção alegre, com Jim detonando em uma de suas melhores interpretações. Ray comparece, mais do que nunca, com seu "teclado de churrascaria" (no bom sentido). No mais, outro belo momento da banda captado durante os intervalos das audiências judiciais de Jim Morrison.

Enquanto isso, fora dos estúdios...
Nota: Essa fase da vida de Jim Morrison se resumiu em uma série de tediosas audiências judiciais em que ele tinha de comparecer para se defender das acusações de atentado violento ao pudor e mais uma série de crimes por causa do famoso show de Miami, aquele mesmo em que ele gritou ao microfone: "Vocês querem meu pinto?" O cantor foi condenado. Não haveria saída para ele, a imprensa estava contra Jim, o presidente Richard Nixon já havia começado uma campanha pelos bons costumes e a decência e havia escolhido Morrison como o "bode expiatório" da jogada. O engraçado de tudo era que Nixon poderia ser tudo, menos considerado um homem moralmente honesto. Corrupto, inepto, ignorante e manipulador o presidente americano iria ser chutado da Casa Branca algum tempo depois por causa do escândalo "Watergate". Aliás Nixon sempre foi considerado o pior presidente da história dos Estados Unidos (bem, ele agora tem um forte candidato de oposição, pois segundo alguns especialistas o posto em breve será ocupado pelo "filhinho de papai" George W. Bush).

Mas voltemos a Jim. Morrison foi condenado a dois anos e meio de prisão, além de pagar uma multa. O advogado do cantor então apelou e conseguiu que Jim entrasse em condicional pagando um fiança de 50 mil dólares. Isso foi dos males o menor. Jim ficou perplexo com o que viu no sistema judicial americano. Depois de ver pessoas sendo condenadas (na maioria negros e pobres), Jim desabafou e deu a seguinte declaração: "Já gastei muito tempo e energia nesse julgamento de Miami. Mais de uma ano e meio. Mas acho que foi uma experiência que valeu para alguma coisa, pois antes disso mantinha uma atitude de garoto de escola perante o sistema judiciário americano (teria eu ouvido americano com "k"?). Meus olhos abriram-se um pouco mais. Encontrei vários jovens negros naquele lugar. Eram julgados durante vinte ou vinte e cinco minutos e pegavam vinte ou vinte e cinco anos de prisão. Se eu não tivesse muito dinheiro e uma conta sem limites, já estaria na cadeia condenado a muitos anos, sem apelação. Geralmente se você tem dinheiro, não vai nem preso. O tribunal de Miami levou ao chão várias coisas para mim. Acho tudo muito triste, não há justiça neste país, há sim negócios" Imagina o que teria pensado Jim Morrison se tivesse a possibilidade de conhecer o sistema judiciário do Brasil, hein???

Pablo Aluísio.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

The Doors - The Soft Parade (1967)

Na segunda metade dos anos 60 os Beatles lançaram um disco que abalou o mundo da música: "Sgt.Pepper's Lonely Hearts Club Band", já ouviu falar? Se sua resposta for não, então você é definitivamente um tapado em termos de Rock'n'Roll. O Rock, antes considerado uma arte menor, ganhou status de arte maior com esse trabalho, levando todos, inclusive os mais conceituados críticos musicais a ouvirem esse marco da história mundial. Criou-se assim, pela primeira vez, o conceito de grande arte ao mais popular gênero musical do planeta. De uma hora para outra todas as bandas de rock do mundo se sentiram desafiadas a aprimorar e tentar, se não a superar, ao menos se igualar ao revolucionário disco do grupo inglês.

Os Doors, principalmente Krieger e Manzarek, chegaram a conclusão que deveriam enriquecer seu próximo disco com orquestrações e arranjos mais bem elaborados. Então o grupo se trancou em estúdio e durante mais de um ano tentou todas as combinações e experimentos possíveis. O estúdio gastou uma fortuna, todo mundo ficou esgotado, principalmente Jim que não gostava de super produções. Gravado em oito canais entre novembro de 1968 e junho de 1969, no Elektra Sound Studios (Hollywood, CA) o disco só foi lançado oficialmente nos EUA no dia 18 de julho de 1969. Novamente o grupo foi produzido por Paul A. Rothchild. The Soft Parade foi o disco dos Doors que teve a mais longa e cara produção. Foi lançado em julho de 1969 (depois de quase um ano de preparo), mas não foi bem acolhido pela crítica, talvez motivado pelo escandaloso show de Miami, ocorrido poucos meses antes.

O público também estranhou o resultado, dizendo que a banda não era mais a mesma, que havia se vendido. Mas a verdade é que esse é realmente um disco bem diferente do que os Doors já haviam lançado anteriormente, com arranjos orquestrados e repletos de instrumentos estranhos à banda, como trombone, conga e violino (que aparecem logo na espalhafatosa introdução de Tell All the People). Além disso, uma outra voz é ouvida, já que o guitarrista Robby Krieger canta o refrão da canção Runnin' Blue. Um outro detalhe intrigou os fãs: a autoria das canções, antes creditadas a todos os integrantes, dessa vez era dividida entre Morrison e Krieger. Estariam os Doors passando por uma crise interna? Não era possível dizer. Mas logo o episódio de Miami foi (parcialmente) esquecido e o single "Touch Me" invadiu as rádios e elevou as vendas dos álbum, que se tornou mais um sucesso. Singles nas Lojas : Touch me / Wild child - Em dezembro de 1968 a banda lançou o primeiro single deste disco, aliás o primeiro de quatro, o que foi um recorde para o grupo.

O lado A trazia "Touch Me". Quem ouviu já sacou: Jim estava levemente embriagado quando gravou essa faixa, mas tudo acabou dando um toque especial a música. Outro dado: esta canção é na verdade, uma mistura de muitos takes diferentes, por isso se nota também uma certa diferenciação no vocal de Jim ao longo da canção. "Wild child" é um boa canção, principalmente pela introdução envenenada da guitarra de Krieger e mais uma vez Jim aparece com seu estilo vocal dúbio, de quem acabou de sair de um bar. Em suma: Blues etílico.

Wishful, Sinful / Who scared you? - Em fevereiro de 69, os Doors lançam um novo single, deixando todo mundo surpreendido. "Wishful, Sinful" é uma balada triste, puxada para blues (mais uma vez!). O grande problema dessa canção e das outras do disco, é que há tantos instrumentos ao mesmo tempo que a voz de Jim acabou ficando ofuscada, sendo afogada numa verdadeira overdose musical. No Lado B do compacto foi colocada uma canção fraquinha que acabou não entrando no disco, "Who scared you?" é tudo o que um lado B é: totalmente descartável. Tell all the people / Easy ride - Tá legal, todo mundo fala mal de "Tell all the people", mas absolutamente não concordo com esse tipo de opinião. Gosto muito da canção, aliás a considero a melhor de todo o disco. De todas é a que apresenta a melhor harmonia entre a orquestra. Além disso Jim está em ótima fase vocal, tudo aliado a bonita melodia. Nota 10! "Easy ride" é uma música rápida que cola na sua mente com força. Facilmente assobiável e tudo o mais, ela também é um ótimo momento do disco, por isso dos quatro singles extraídos do disco, este é disparado o melhor de todos.

Running Blue / Do it - Mas quem diabos é este que canta com Jim durante "Running blue"? Ora é Robbie, que como vocalista é um ótimo guitarrista! Essa foi a única vez que Jim dividiu o microfone com alguém da banda (graças a Deus!). Talvez a existência desse quarto single (um exagero!) tenha sido uma forma de homenagear o guitarrista e compositor da banda. Mas sinceramente, Krieger acabou com sua própria música, sendo muito ruim sua participação. Ponto final. No lado B do single "Do it" com algumas inovações durante a execução, mas que nada mais são do que fruto do complexo de Lennon/McCartney de Krieger. O single foi lançado em agosto de 1969.

Enquanto isso, fora dos estúdios...
Nesta fase de gravação de "The Soft Parade" o single "Hello, I Love You" estourou na Europa, levando os Doors à sua primeira e única grande turnê internacional, que passou por países como Inglaterra, Alemanha, Holanda, Dinamarca (foto) e Suécia. Foi uma das excursões mais alucinadas da história do Rock, com muitos escândalos promovidos por Jim Morrison, com muito excesso de drogas, mulheres e bebedeiras, levando o vocalista a bater seus próprios recordes de extravagâncias. Em Londres eles se apresentaram no Roundhouse, uma tradicional casa de shows da Inglaterra. Os britânicos definitivamente não estavam preparados para Jim, ele entrou no palco totalmente narcotizado e bêbado, mas mandou ver em um dos melhores shows da banda. Depois o grupo foi para a Alemanha, em Frankfurt e Jim se sentiu em casa. Conhecida como uma das cidades mais sofisticadas da Europa, aqui a banda fez um show que entrou para a história da cidade. Jim terminou a noite em um bar de strip tease da cidade e a imprensa alemã não deixou este fato passar em branco.

Em Amsterdam aconteceu o pior: Jim estava totalmente fora de controle, O Jefferson Airplane abriu o show dos Doors naquela noite, mas no meio de sua apresentação, Jim apareceu no palco, para surpresa de todos, com uma garrafa de whisky na mão, totalmente embriagado, tentando acompanhar o Airplane que totalmente atônico, ficou sem saber o que fazer! Jim continuou dançando ao som da música da banda, num espetáculo trágico e engraçado ao mesmo tempo! Na verdade ele deu um vexame daqueles, na frente de todo mundo! No final ele mal conseguiu deixar o local, de tão chapado que estava, sendo carregado para o hospital mais próximo. Mas nem por isso os Doors deixaram de realizar o show, a banda entrou sem Jim mesmo, pediu desculpas e interpretou todas as canções sozinhos. Jim estava sempre bêbado e drogado e depois confidenciou a um amigo que "Não se lembrava dos shows dos Doors na Europa"!

Essas apresentações viraram um especial para a TV inglesa chamado The Doors Are Open, que mais tarde também foi lançado em vídeo. Antes do lançamento do quarto disco da banda, o orquestrado e exagerado The Soft Parade, ocorreu o que é tido como o começo da queda de Jim Morrison. Dia 1 de março de 1969 é a data do famoso show de Miami, onde Jim, completamente bêbado, foi acusado de exibir seu pênis para a plateia, incitar baderna e proferir discursos obscenos. Ninguém sabe ao certo se tudo isso ocorreu ou não, mas o vocalista foi a julgamento e acabou condenado a seis meses de detenção. Além disso, praticamente todos os shows agendados foram cancelados e a banda se tornou "persona non grata" em todo o território americano.

Enquanto os advogados apelavam da decisão judicial, tentando abrandar a pena do vocalista, aos poucos os shows foram se tornando mais frequentes outra vez, e a banda começou a gravar suas apresentações para o lançamento de um álbum ao vivo. Esse material foi lançado em 1970 como um LP duplo chamado Absolutely Live, que misturava canções já conhecidas com algumas inéditas. Em seguida, mais um de estúdio, batizado com o nome Morrison Hotel. Os que achavam que os Doors haviam entrado em decadência com The Soft Parade encontraram muito vigor no novo trabalho, que deixava as orquestras totalmente de lado para fazer um rock cru e mais blues do que nunca. Mas essa é uma outra história que vamos contar no mês que vem... até lá.

Pablo Aluísio.