domingo, 25 de abril de 2010

A Perseguição

Caçador e minerador (Liam Neeson) sofre acidente de avião em região inóspita do Alaska. Ao seu lado se forma um pequeno grupo de sobreviventes que tentam encontrar algum povoado ou região habitada. No caminho são atacados por uma matilha de lobos selvagens. "A Perseguição" tem todos os elementos que esperamos encontrar em filmes assim, de luta pela sobrevivência: bela fotografia (a região onde a produção foi realizada é muito bonita), bons atores, situações de risco e perigo mas faltou aquele "algo a mais". Talvez o assunto já esteja um pouco saturado no cinema ou então o problema seja com o personagem de Liam Neeson - sempre sorumbático, deprimido por causa da morte da mulher. Sem ser particularmente heróico o papel se perde no meio da nevasca não conseguindo criar vínculo com o espectador. Outro problema é a forma como o roteiro lida com os lobos - aqui muito próximos de predadores mitológicos, quase lobisomens. São malvados e cruéis, se tornando forçada sua presença em cena. O pior acontece no desfecho, quando finalmente acontece o clímax o filme termina abruptamente, sem desfecho. É aquele tipo de "final aberto" que tem se tornado modinha em Hollywood - para aborrecimento de quem quer saber o que acontece na conclusão do filme.

O diretor de "A Perseguição" é o cineasta Joe Carnahan. Seu maior êxito comercial é o terrível "Esquadrão Classe A" (também com Neeson). Aqui pelo menos ele se conteve mais e procura disponibilizar um argumento mais pé no chão, sem os arroubos de besteirol que encontramos no seu filme anterior. Pelo menos o bom senso aqui prevaleceu. Em resumo é isso. "The Grey" tinha tudo para ser muito bom mas faltou alguma coisa. Não empolga, não cativa mas pode até vir a funcionar em casa numa noite sem nada para fazer. Entretenimento regular mas esquecível.

A Perseguição (The Grey, EUA, 2012) Direção: Joe Carnahan / Roteiro: Joe Carnahan, Ian Mackenzie Jeffers / Elenco: Liam Neeson, Dermot Mulroney, Frank Grillo / Sinopse: Um avião cai no meio das paisagens mais hostis do Alasca. Os sobreviventes então tentam sobreviver em meio ao frio, ao tempo impiedoso e ao ataque de um grupo de lobos famintos e selvagens.

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.

sábado, 24 de abril de 2010

Drive

Drive é um filme seco, cru e pra falar a verdade bem cruel. O clima é totalmente insípido. O personagem Driver (que não tem nome e é interpretado por Ryan Gosling) é esquisito, quase não fala e não parece transparecer emoções. Até seu "quase relacionamento" com Irene (feito pela sempre gatinha Carey Mulligan) é destituído de calor verdadeiramente humano. A postura em cima desses personagens me deixou surpreso mas não vi isso como algo negativo por parte do roteiro. Na realidade entendi a intenção dos roteiristas em elaborar quase um "não personagem", ou seja, alguém sem passado, sem nome, sem objetivos, que apenas existe mas não interage bem com outras pessoas (a não ser quando se trata de ser violento e cruel).

Talvez por ser tão árido o filme seja bem melhor nas cenas de assalto e perseguições. A sequência inicial, por exemplo, é uma das melhores coisas de todo o filme pois achei realmente muito bem feita e editada. O elenco de apoio também é um dos pontos altos do filme. Cheio de estrelas da tv como Christina Hendricks (Mad Men), Bryan Cranston (Breaking Dad) e Ron Perlman (Sons of Anarchy). Fiquei impressionado também pela participação de Albert Brooks, fazendo um personagem completamente fora de seu habitual, um sujeito envelhecido e violento, que dá o tom ao resto da estória. Enfim, é isso. Drive não é um filme fácil, leve e nem pipoca. No saldo final esse é seu grande mérito.

Drive (EUA, 2011) Direção: Nicolas Winding Refn / Roteiro: Hossein Amini, baseado em obra de James Sallis / Elenco:: Ryan Gosling, Carey Mulligan, Bryan Cranston e Christina Hendricks / Sinopse: Um dublê de Hollywood, interpretado por Ryan Gosling, tem um outro emprego. Ele é piloto de fuga no submundo do crime em Los Angeles. A trama se aprofunda quando ele resolve ajudar a sua vizinha (Carey Mulligan), que tem um namorado ex-presidiário.

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Namorados Para Sempre

Em uma época em que o cinema parece ser um jovem que só lê gibis, "Blue Valentine"é um sopro de ar fresco nessa situação infanto juvenil. O filme tem temática adulta, é muito humano, sensível, realista e para falar a verdade até mesmo barra pesada. Isso porque ao longo do filme somos apresentados a duas linhas narrativas que retratam o mesmo casal em momentos distintos de sua vida, ao se conhecerem e ao vivenciarem a destruição de seu relacionamento. Como quase sempre acontece nas relações humanas tudo é lindo e maravilhoso no começo do namoro mas conforme a vida passa os dois acabam descobrindo que o amor, se um dia chegou a existir, simplesmente desapareceu. Uma situação tão realista que todos vão de uma forma ou outro se identificar.

Esse título nacional é simplesmente absurdo e só pode ter sido criado por alguém que não viu o filme! "Namorados Para Sempre" é tudo o que o filme não é. Aliás se eu fosse utilizar a mesma fórmula idiota do tradutor nacional colocaria o nome do filme de "Não Somos Mais Namorados e o Casamento é uma Droga". Isso porque é justamente essa frase que resume o enredo aqui. Todo argumento inteligente de um filme bom tem uma tese por trás. Na minha forma de entender a tese por trás de "Blue Valentine" é a de que não existe possibilidade de sucesso em um relacionamento de duas pessoas que estão em momentos diversos da vida. Ela, estudiosa e exercendo uma profissão está em um ponto diferente da vida dele, que nunca estudou, é uma pessoa sem ambições e estagnado. O fato é que conforme mostrado no filme as pessoas mudam ao longo do tempo, conhecem outras pessoas interessantes, criam outros vínculos e nesse processo o que poderia ser interessante em uma época já não é mais em outra fase da vida. E isso se refere a tudo, inclusive amores. Quantas vezes você não já se viu nessa situação? O namoradinho da adolescência já não é mais a pessoa que seria adequada a você nesse momento de sua vida. O filme discute justamente essa questão, pois muitas vezes o amor do passado pode se tornar facilmente o fardo do presente. Reflita sobre isso.

Namorados Para Sempre (Blue Valentine, EUA, 2010) Direção: Derek Cianfrance / Roteiro: Derek Cianfrance, Joey Curtis / Elenco: Ryan Gosling, Michelle Williams, John Doman / Sinopse: Jovem casal passa por várias dificuldades em seu prematuro e instável relacionamento.

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Os Descendentes

Sinceramente achei um filme de mediano para fraco, totalmente morninho. O filme em si se resume a duas situações: A esposa de George Clooney no filme está em coma irreversível e segundo seu próprio desejo deixado em uma declaração antes de estar nesse estado quer que seus aparelhos sejam desligados definitivamente. O segundo ponto é a venda de um imenso terreno no Havaí herdado por antepassados da grande família de Clooney (primos, primas, tios, tias e parentada em geral). No final as duas sub tramas irão se encontrar no clímax do filme. Como foi rodado nas ilhas havaianas há muitas tomadas belas das paisagens locais, trilha sonora cheia de músicas das ilhas e aquele ritmo cadenciado, sem muita pressa que acaba ficando chato.

O filme cai no marasmo várias vezes. Não consegui me interessar muito sobre a situação do personagem de Clooney. Esse aliás parece só funcionar em papéis mais relax, do tipo "quarentão garotão". Quando migra para personagens que exigem mais ele geralmente derrapa. É o que acontece aqui em minha opinião. Achei ele apático, meio disperso, como se não estivesse muito aí sobre tudo o que está acontecendo. Enfim, "Os Descendentes" é realmente um filme bem banal, com cara de telefilme sobre doença. Nada muito marcante e facilmente esquecível. Não merece as indicações que recentemente recebeu ao Oscar.

Os Descendentes (The Descendants, EUA, 2011) Direção: Alexander Payne / Roteiro: Alexander Payne e Nat Faxon / Elenco: George Clooney, Matthew Lillard, Judy Greer e Shailene Woodley / Sinopse: O filme conta a história de um rico proprietário de terras do Havaí que precisa reestabelecer sua ligação com as duas filhas depois que a sua esposa sofre um acidente de barco.

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Tão Forte e Tão Perto

Garoto Nova-iorquino (Thomas Horn) tem um relacionamento muito especial com seu pai (Tom Hanks) um joalheiro que adora ciência e enigmas. Sua vida infelizmente acaba virando de cabeça para baixo após os atentados terroristas de 11 de setembro de 2001. O filme "Tão Forte e Tão Perto" foi considerado o azarão do Oscar desse ano. Ninguém esperava que o filme acabasse sendo indicado entre os melhores do ano. Muitos consideram a produção fraca e sem maiores méritos. Eu discordo. Gostei do enredo, de seu desenvolvimento e principalmente de sua conclusão. Filmes que mostram relacionamentos entre pai e filho costumam desandar para o dramalhão ou então para a xaropada mas "Tão Forte e Tão Perto" não cai nessa armadilha. O filme se apoia bastante na figura do garoto (que tem muita pinta de sofrer da síndrome de Asperger). Tentando resolver o último enigma deixado por seu pai ele vira Nova Iorque ao avesso e acaba conhecendo pessoas, lugares e novas situações. O ator mirim Thomas Horn recebeu algumas críticas por ser pouco carismático ou chato. Acho injusto uma vez que seu personagem é dessa forma e não poderia ser diferente.

Uma das maiores curiosidades de "Tão Forte e Tão Perto" é o elenco de apoio formado por grandes nomes. Tom Hanks faz o paizão bonachão. Espero que ele na vida real não esteja tão gordo como mostrado no filme. Sua participação é pequena mas essencial. Já a mãe é interpretada por uma envelhecida Sandra Bullock que também não aparece muito mas que mantém o bom nível quando surge em cena. Já o terceiro grande nome do elenco é justamente aquele que literalmente rouba todo o filme: Max Von Sydon. Sem dizer uma única palavra o ator apresenta uma de suas grandes performances. Sem diálogos a dizer ele tem que expressar todas as emoções apenas com um olhar, um gesto. Só grandes atores passam por isso de forma grandiosa como Sydon. O filme é dele e tudo indica que foi feito para ele. Quando surge em cena o enredo que vai devagar cresce em interesse e qualidade. Só isso já basta para indicar "Tão Forte e Tão Perto" um filme bem humano e belo que vale a pena ser assistido.

Tão Forte e Tão Perto (Extremely Loud and Incredibly Close, EUA, 2011) / Direção : Stephen Daldry / Roteiro : Eric Roth / Elenco : Tom Hanks, Sandra Bullock, Thomas Horn, Max von Sydow, John Goodman, James Gandolfini e Viola Davis / Sinopse : Oskar é um garoto de 9 anos que perdeu o pai no trágico 11 de setembro e vive tentando entender sua dor e seus sentimentos. O garoto encontra em meio às coisas do pai uma chave em um envelope com um nome: Black. A curiosidade e seus instintos naturais o levam a uma busca pela fechadura da misteriosa chave.

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.

terça-feira, 20 de abril de 2010

Cowboys & Aliens

Eu gosto de Cowboys. Eu gosto de Aliens. Mas esse Cowboys e Aliens não passa de uma enorme bobagem. Uma aventura infanto juvenil com roteiro quase inexistente e muitos efeitos especiais para esconder isso. Eu como fã do gênero western achei tudo um grande desperdício de paciência, tempo e dinheiro. O filme até que começa bem - Daniel Craig surge no meio de deserto sem lembrar de onde veio ou para onde vai. Encontra alguns vilões no meio do caminho e chega numa cidade perdida no meio do nada. Analisando assim poderíamos até pensar que estamos vendo um remake de algum faroeste com Clint Eastwood ou Randolph Scott mas a esperança logo que se vai, justamente quando os tais aliens surgem em cena. Nada tenho contra a ideia em si de fundir gêneros cinematográficos tão diversos, o problema é que esse tipo de coisa exige talento e inteligência. Definitivamente duas coisas ausentes por aqui. Muitas pessoas foram atraídas justamente pela proposta nada comum de unir ficção com faroeste mas certamente se decepcionaram pois o filme é uma típica produção vazia, sem qualquer conteúdo. Provavelmente em quadrinhos funcione melhor mas até nisso parece ter naufragado uma vez que muitos leitores da graphic novel que deu origem ao filme também reclamaram bastante do resultado nas telas. Ora, se nem aos leitores desse tipo de publicação o filme agradou para que serviu então esse "Cowboys & Aliens"?

Mas afinal alguma coisa se salva? Para falar a verdade mantive a atenção por pelo menos 30 minutos. Como fã de faroestes eu realmente queria que tudo desse certo mas passado esse tempo o filme desandou de uma vez, virando uma grande besteira digital. Parece que o produtor Spielberg perdeu toda e qualquer imaginação e originalidade com filmes como esse. Nos anos 80 ele produziu grandes filmes pipocas como "De Volta Para o Futuro" mas parece que perdeu a mão, o jeito da coisa para produzir esse tipo de diversão. Tudo não passa de uma salada indigesta ora roubando ideias de filmes clássicos de faroeste (como ir atrás do parente raptado), ora roubando de filmes famosos de ficção (o plágio mais óbvio é claro vem da franquia Predador). Tecnicamente falando o filme é bem feito, temos que reconhecer, mas o excesso de Aliens gerados digitalmente logo cansam também. Enfim, tudo se resume em uma grande bobagem mesmo que mais parece um videogame vazio. Não recomendo a pessoas maiores de 14 anos pois tudo parece ter sido feito para os mais jovens, crianças e pré adolescentes. Esses talvez achem alguma graça, quem sabe.

Cowboys & Aliens (Cowboys & Aliens) Direção: Jon Favreau / Roteiro: Roberto Orci, Alex Kurtzman / Elenco: Daniel Craig, Harrison Ford, Olivia Wilde / Sinopse: Cowboy (Daniel Graig) surge no meio do deserto sem se lembrar de nada. Em pouco tempo chega a um pequeno vilarejo onde enfrentará diversas aventuras que jamais sonhou imaginar.

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Super 8

Se você for fã da filmografia dos anos 80 de Spielberg, então Super 8 vai ser um presente e tanto. Esse é um filme dos anos 80 que não foi feito nos anos 80. Spielberg produziu uma obra cheia de referências aos seus filmes mais famosos naquela década (com toques que vão de ET a Goonies, entre outros). Como todos sabem os filmes dele dos 80´s eram cheios de garotos com dramas familiares que acabam se envolvendo em um grande evento fantástico. É justamente isso que acontece aqui em Super 8. Por isso o roteiro não é nada original, o que de certa forma não se torna um defeito, pois não deixa de ser divertido ver tantas citações à obra do eterno Peter Pan do cinema americano.

Já o diretor JJ Abrams embarca na ideia e entrega um produto coeso. Obviamente todos os clichês MOW (Monster of Week) estão presentes mas apesar do tema batido, temos de reconhecer que ainda mantém o interesse do espectador (principalmente pela acertada decisão de nunca revelar muito da criatura antes do final). O elenco é bacaninha, os atores mirins não são irritantes, pelo contrário, e seguram bem a bola. Kyle Chandler que interpreta o principal personagem adulto é um bom ator, cuja carreira já acompanhava desde a série Friday Night Lights. Aqui ele repete o tipo estressadinho. Enfim, no fundo esse é um filme de monstro dos anos 80, com tudo de bom ou ruim que isso significa. Não vai mudar sua vida e está longe de ser algo genial, mas como puro entretenimento escapista funciona bem - e deixa a gente com saudades do Spielberg da década de 80, o que convenhamos já é uma grande coisa.

Super 8 (Super 8, EUA, 2011) / Diretor: J.J. Abrams / Roteiro: J.J. Abrams / Elenco: Elle Fanning, Amanda Michalka, Kyle Chandler, Ron Eldard e Noah Emmerich / Sinopse: Garotos na década de 70 resolvem realizar um pequeno filme caseiro usando sua câmera Super-8. O que não desconfiavam é que estariam embarcando na maior aventura de suas vidas.

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.

domingo, 18 de abril de 2010

A Invenção de Hugo Cabret

Argumento e roteiro: O filme é baseado no livro "A Invenção de Hugo Cabret" cujo teor é nitidamente de realismo fantástico pois mistura personagens reais (como o diretor George Melies) em situações de ficção. Em termos de desenvolvimento temos aqui um começo um pouco cambaleante, quase caindo no chato, mas que conforme o filme avança melhora bastante. Talvez isso seja atribuído ao fato do roteiro não ter sido tão polido quanto a produção, essa sim rica e bonita. De qualquer forma não há maiores danos dessa falta de ritmo na terça parte inicial do filme pois logo ele consegue superar esse problema e finalmente encontra o tom certo conforme o filme avança..

Produção: A grande qualidade de "A Invenção de Hugo Cabret" é sua produção nota 10. Não é complicado de entender porque tiveram tanto capricho nesse aspecto do filme. Rodado para se tornar o primeiro projeto 3D do diretor Martin Scorsese o filme supervaloriza cada cena, cada cenário, cada ambiente, tudo ricamente desenvolvido chegando quase ao ponto da saturação, da poluição visual (são tantos os detalhes que o espectador simplesmente cansa de prestar atenção de tudo). Em resumo, uma produção de alto luxo e rica direção de arte.

Elenco: Aqui se destacam os veteranos Ben Kingsley (finalmente fazendo um personagem carismático depois de aparecer em alguns abacaxis por aí) e Christopher Lee (que consegue se destacar mesmo em um papel mínimo e mal desenvolvido pelo roteiro). Já o elenco infantil é de mediano para fraco, o que é um problema em um filme baseado nas peripécias dos guris. Achei o ator que faz o garoto Hugo (Asa Butterfield) sem carisma, quase beirando a antipatia. Não mostrou nada de muito especial em cena, sendo apenas correto. A garotinha Chloe Grace Moretz (que fez a vampirinha do remake "Deixe-me Entrar") se sai melhor mas como o papel dela é limitado não melhora muito sua situação.

Direção: Não é o tipo de filme que estamos acostumados a ver com Martin Scorsese. De fato, "Hugo" é seu filme mais singular. Em vista disso não consegui visualizar maiores marcas da presença do cineasta. A antiga maestria em extrair o melhor de seu elenco aqui está nitidamente atenuada, uma vez que o filme é baseado mesmo em alta tecnologia na criação de cenários e ambientes totalmente virtuais. De certa forma achei a direção mais modesta desde "Gangues de Nova Iorque".Espero que ele deixe de lado essa fase "George Lucas" para retornar aos bons e velhos filmes baseados em atuações e situações reais.

A Invenção de Hugo Cabret (Hugo, 2011) / Direção: Martin Scorsese / Roteiro: John Logan / Elenco: Ben Kingsley, Sacha Baron Cohen, Asa Butterfield, Chloë Grace Moretz, Ray Winstone, Emily Mortimer, Christopher Lee, Helen McCrory, Michael Stuhlbarg, Frances de la Tour / Sinopse: Garoto vive aventuras na estação de trem em Paris. Lá acaba conhecendo uma garotinha que irá lhe levar a ter uma outra perspectiva de vida.

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.

sábado, 17 de abril de 2010

As Aventuras de Tintim

Argumento e roteiro: O roteiro de "As Aventuras de Tintim" é bastante feliz no aspecto de não deixar a bola cair nunca durante a projeção do filme. O ritmo é realmente de história em quadrinhos, com muita ação e bom humor mesclados de forma a não deixarem o espectador se entediar ou perder o interesse pelo que se passa na tela. O ritmo é ágil e adequado a proposta do personagem. Até mesmo o desvendamento do mistério no qual a trama se desenvolve é bem roteirizado. Nunca fui leitor do personagem Tintim mas pelo que ando lendo o filme realmente é fiel à obra original. Então mais um ponto positivo para o roteiro aqui.

Produção: Assim como "A Invenção de Hugo Cabret" aqui a produção ganha importância ímpar. O filme é todo produzido em cima da tecnologia de captação de movimentos, algo que se desenvolveu absurdamente desde os tempos de "O Expresso Polar", um dos primeiros filmes comerciais a usar dessa técnica. Em Tintim se nota muito bem que os personagens ganharam bastante em termos de expressividade, inclusive facial. O ambiente também está extremamente bem feito, inclusive o próprio oceano é recriado com ótima veracidade (sempre houve problemas em recriar água e fumaça digitalmente). Em resumo a produção é de encher os olhos do espectador.

Elenco: Em um filme baseado na tecnologia de captação de movimentos é até complicado avaliar o elenco do filme. Os produtores ainda tentaram emplacar uma indicação para o ator Andy Serkis (que faz o Capitão Haddock, o melhor personagem do filme) mas não conseguiram. Pelo visto a Academia ainda não comprou essa ideia, quem sabe no futuro. De qualquer forma o elenco deve ser reconhecido - principalmente aos que além das vozes também contribuíram fazendo as cenas para posterior recriação digital.

Direção: O maior receio dos fãs de Tintim quando Steven Spielberg anunciou seus planos de fazer um filme sobre o personagem era de que suas conhecidas pieguices e sentimentalismos estragassem o projeto. Bom, podem ficar tranquilos. Spielberg apenas dá o melhor de seu talento e não deixa seus defeitos atrapalharem o resultado final. Na minha opinião esse é o melhor trabalho do diretor em muito tempo. Ele foi muito feliz na transposição do personagem de quadrinhos para a telona. Não se colocou á frente do espírito da obra original e nem tampouco atrapalhou essa adaptação com egos inflados. Foi discreto e fiel ao autor Hergé, o que é uma qualidade e tanto. O final abre margem para futuras continuações, demonstrando que Spielberg tem esperanças de inaugurar uma nova franquia. Se tudo der certo e as sequências conseguirem manter o mesmo nível dessa produção então teremos boas coisas vindo por aí. Vamos aguardar.

As Aventuras de Tintim (The Adventures of Tintin: The Secret of the Unicorn, EUA, 2011) / Diretor: Steven Spielberg / Roteiro: Steven Moffat, Edgar Wright, Joe Cornish, baseado na obra de Hergé / Elenco: Vozes na versão original de: Daniel Craig, Simon Pegg, Jamie Bell, Andy Serkis, Cary Elwes, Toby Jones, Nick Frost, Tony Curran, Sebastian Roché, Mackenzie Crook / Sinopse: adaptação do personagem Tintim do desenhista belga Hergé

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Shame

Uma vez que o casamento se tornou uma instituição fora de moda e cafona as pessoas nos dias atuais procuram alternativas para suprir suas necessidades emocionais e sexuais. "Shame" lida justamente com isso. No filme acompanhamos a rotina de Brandon Sullivan (Michael Fassbender), um nova-iorquino bem situado, com bom emprego e um apartamento bem localizado. Sua vida sexual e emocional se resume a breves encontros com garotas para sexo casual que conhece pela cidade. Seu cotidiano porém muda com a chegada de sua irmã Sissy (Carey Mulligan). Ela é bonita, atraente e assim como Brandon também adota um estilo de vida liberal. "Shame" na realidade é uma pequena crônica sobre a vida sexual do homem moderno. O personagem principal é um solteiro em Nova Iorque, com toda a liberdade moral e sexual a que tem direito. Assim não se furta em aproveitar todas as oportunidades que a grande cidade tem a lhe oferecer. O problema é que diante de tal grau de permissividade sua procura pelo sexo oposto logo acaba se tornando um ciclo vicioso sem limites. A realidade de Brandon em pouco tempo foge de seu controle e ele se torna um viciado em sexo anônimo e pornografia. É a velha metáfora de que a liberdade desacompanhada de responsabilidade e comprometimento pode facilmente se tornar lesiva.

O elenco de Shame é bom e o destaque vai para Carey Mulligan. Além de ser uma gracinha ela é talentosa e carismática. A atriz tem aparecido em diversas produções que se destacaram nos últimos anos como "Educação", "Drive" e "Não me Abandone Jamais". Sua personagem é muito interessante dentro da trama de "Shame" uma vez que logo cria uma desconfortável tensão sexual com seu próprio irmão dentro do apartamento onde vivem. Já Michael Fassbender está apenas correto. O diretor negro Steve McQueen (homônimo do famoso ator) escolheu uma produção naturalista, com uso de longos planos sequência. Sua opção em explorar o nu frontal dos atores pode vir a desagradar algumas pessoas mas particularmente achei uma decisão acertada uma vez que o filme tem como tema a sexualidade de seus personagens e como tal não poderia adotar atitudes de falso moralismo com eles. Aliás sua posição de não levantar qualquer bandeira moralista é um de seus pontos mais positivos. Em suma "Shame" tenta entender a vida sexual das pessoas que vivem dentro de uma sociedade tecnológica e liberal. Só o fato de levantar esse tema para debates já o torna extremamente válido.

Shame (Shame, EUA, 2011) / Direção de Steve McQueen / Roteiro de Steve McQueen e Abi Morgan / Elenco: Michael Fassbender, Carey Mulligan e James Badge Dale / Sinopse: O filme mostra os anseios e problemas de ordem emocional e sexual de dois irmãos na Nova Iorque dos dias atuais.

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Fúria Cega

Título no Brasil: Fúria Cega
Título Original: Blind Fury
Ano de Produção: 1989
País: Estados Unidos
Estúdio: TriStar Pictures
Direção: Phillip Noyce
Roteiro: Ryôzô Kasahara, Charles Robert Carner
Elenco: Rutger Hauer, Terry O'Quinn, Brandon Call

Sinopse:
Nick Parker (Rutger Hauer) é um veterano do Vietnã que perde sua visão no campo de batalha. De volta aos Estados Unidos ele decide visitar um velho amigo de armas mas descobre que ele está envolvido com dívidas de jogos e sendo chantageado por poderosos traficantes de drogas. Nick então resolve ajudar a resolver todos os problemas de seu amigo, mesmo que para isso precise usar de toda a sua perícia nas artes marciais.

Comentários:
Esse filme será exibido hoje pelo cult canal TCM, o que não deixa de ser uma surpresa e tanto, afinal de contas será mesmo que "Blind Fury" já pode ser considerado um cult movie? Como acompanho cinema há tanto tempo me lembro bem da época em que esse filme foi lançado. Naqueles tempos essa palavra "cult" jamais seria aplicado a ele. Era considerada uma fitinha B, de artes marciais, estrelada pelo decadente Rutger Hauer! Acontece que, enquanto a crítica descia a lenha na produção, o público ia descobrindo o filme nas locadoras e, para surpresa de muitos, acabou  agradando bastante aos fãs de filmes de ação. Não irei aqui dizer que "Fúria Cega" é um grande filme, até porque ele não é, isso porém não tira seus méritos de ser um filme muito eficiente dentro de seu nicho cinematográfico. Há boas cenas e Hauer, decadente ou não, sempre foi muito carismático. Se hoje é um cult ou não, fica complicado saber. O que se pode afirmar com certeza que a produção ainda consegue cativar bastante certa parcela do público. Se nunca assistiu não perca a oportunidade de conhecer.

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Cavalo de Guerra

Eu adoro filmes clássicos, antigos, com todos aqueles grandes valores morais que hoje soam ultrapassados para as novas gerações. Esse "Cavalo de Guerra" me pareceu uma tentativa por parte de Steven Spielberg em reviver aquele tipo de cinemão dos anos 30, 40 e 50. Eu torci pelo filme durante suas duas horas e meia de duração, realmente quis gostar da produção mas tenho que confessar que ao final fiquei ligeiramente desapontado. O problema de "Cavalo de Guerra" em minha opinião não é de direção (Spielberg continua o mestre de sempre) e nem de produção (o filme tem, como não poderia deixar de ser, produção de luxo com tudo o que o dinheiro pode comprar). A grande falha aqui é realmente do roteiro. A trama é dispersa demais, o foco é inteiramente colocado em cima do animal e os personagens humanos nunca são bem desenvolvidos ou construídos. Como o cavalo vai passando de mão em mão durante o filme não temos tempo de criar vínculo com seus donos - mal nos acostumamos com alguns deles e de repente o Cavalo é passado para frente, vendido, trocado ou capturado por tropas, sejam inglesas ou alemãs. Sem personagens humanos fortes para nos identificarmos acabamos perdendo um pouco o interesse sobre o que acontece em cena.

Além da falta de bons personagens humanos o filme também sofre da falta de bons e marcantes atores. O elenco é supostamente liderado por Jeremy Irvine mas esse ator é tão sem carisma, tão inexpressivo que acabamos perdendo até mesmo a noção de sua existência no filme. Lá pela parte final quando ele retorna até levamos um pouco de tempo para reconhecer ele de novo - de tão apática que é sua participação. Spielberg também comete erros básicos de biologia. O cavalo Joey parece ter sentimentos humanos, com atos de bravura, de coragem, coisas que soam fora de propósito em um animal irracional. Como eu disse, focar tudo em cima dele não foi uma boa ideia. Enfim, é isso. O produto é muito bonito, bem agradável de ver, mas o diretor esqueceu que o público tem que ter algum personagem humano para criar vínculo, sem isso tudo soa vazio e sem cumplicidade por parte do espectador. Definitivamente não é nem de longe um dos melhores trabalhos do famoso diretor.

Cavalo de Guerra (War Horse, EUA, 2011) / Direção de Steven Spielberg / Roteiro : Lee Hall e Richard Curtis / Elenco: Jeremy Irvine, Emily Watson, David Thewlis e Benedict Cumberbatch / Sinopse: Cavalo é enviado para o front da I Guerra Mundial, passando por diversos donos e vivendo muitas aventuras.

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.

terça-feira, 13 de abril de 2010

Navio Fantasma

Título no Brasil: Navio Fantasma
Título Original: Ghost Ship
Ano de Produção: 2002
País: Estados Unidos
Estúdio: Warner Bros
Direção: Steve Beck
Roteiro: Mark Hanlon
Elenco: Julianna Margulies, Gabriel Byrne, Ron Eldard

Sinopse:
Uma equipe de resgate é contratada para localizar uma embarcação perdida na costa do Alasca mas ao invés disso acaba encontrando um antigo navio dado como desaparecido há mais de 40 anos, o Antonia Graza! Logo a equipe decide então explorar seu convés, o que certamente não será uma boa ideia. Agora todos precisam rezar para sair de lá vivos e inteiros!

Comentários:
Outro filme que tive a oportunidade de conferir no cinema. É a tal coisa, navios desaparecidos sempre fizeram parte do inconsciente coletivo como algo macabro e sombrio. Naturalmente todos pensam nas pessoas que sumiram na vastidão dos mares sem deixar vestígios. E as suas almas, como ficam? Vagando eternamente no oceano? É partindo dessa premissa, que já foi bem explorada por velhos contos de terror, que se construiu o roteiro desse filme. De certa forma já sabia de antemão o que esperar pois era um produto típico do selo Dark Castle Entertainment. Produção mais modesta, com orçamento um pouco abaixo dos padrões, mas que espertamente sabe tirar proveito de efeitos digitais bem bolados e inseridos na trama. Em termos de roteiro e atuação não há maiores novidades, embora a fita até funcione em certos aspectos. Curiosamente o elenco é estrelado por Julianna Margulies que iria virar estrela mesmo muitos anos depois no mundo da TV, ao protagonizar a série de grande sucesso de audiência da CBS, "The Good Wife". Enfim, assista, tome alguns sustinhos e coma sua pipoca sem culpas.

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Um Domingo Qualquer

Velho treinador de futebol americano (Al Pacino) tem que lidar com o desfalque de seu principal quaterback (Dennis Quaid) em um momento crucial do campeonato. O novo dono da posição é um jovem negro e arrogante (Jamie Foxx) que não consegue lidar bem com a fama e o sucesso que acompanham sua repentina escalação ao time principal. Aqui temos uma parceria que há muito tempo se esperava: Al Pacino sendo dirigido por Oliver Stone. O problema é que o tema realmente é norte-americano demais. Stone não esconde em nenhum momento sua paixão pelo esporte, a ponto de transformar seus jogadores em guerreiros, verdadeiros gladiadores modernos. Tudo é focado nesse ponto. As cenas dos jogos são super produzidas, com edição alucinada. Pacino alterna momentos de histerismo completo com introspecção absoluta. Apesar da força de seu nome o filme realmente gira em torno do personagem de Jamie Foxx. Terceiro quaterback da equipe acaba assumindo a posição em um momento crucial do time (Miami Sharks). No começo fica inseguro (a ponto de vomitar em campo) e vacilante mas conforme vão passando os jogos se torna auto confiante a ponto de se tornar totalmente arrogante, desmerecendo os demais colegas de equipe e até mesmo o próprio treinador.

No fundo o roteiro de "Um Domingo Qualquer" foca sobre as características de personalidade que formam o caráter de um verdadeiro líder de equipe. Isso é bem demonstrado na relação do quaterback Foxx com os demais jogadores. A partir do momento em que se torna queridinho da mídia ele passa a se auto vangloriar em demasia e o pior começa a criticar abertamente outros membros do time. Obviamente que em um esporte coletivo isso é literalmente dar um tiro no pé! A direção de Oliver Stone (que faz pequenas aparições como um comentarista esportivo) é centrada muito em uma edição que de certa forma imita as transmissões de jogos de canais como ESPN. Tudo muito rápido, nervoso, tentando captar a paixão e o calor do momento das partidas. Funciona? Sim, em termos. Dramaticamente era de se esperar um melhor aproveitamento de Al Pacino em cena mas isso não acontece. Como eu disse Stone preferiu mesmo glorificar a NFL. Se você gosta de filmes esportivos pode vir certamente a apreciar. Já os que querem ver o talento de Al Pacino podem ficar um pouco decepcionados. No final vale a pena assistir embora não seja dos melhores trabalhos de Oliver Stone.

Um Domingo Qualquer (Any Given Sunday, EUA, 1999) / Direção: Oliver Stone / Elenco: Al Pacino, Cameron Diaz, Dennis Quaid, James Woods, Jamie Foxx, LL Cool J, Matthew Modine, Charlton Heston, Aaron Eckhart e Tom Sizemore / Sinopse: Um íntimo olhar sobre os bastidores do futebol americano, passando desde os jogadores até os treinadores, a mídia e os donos de times, que controlam o jogo como um grande negócio que lucra milhões de dólares todo ano.

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.

domingo, 11 de abril de 2010

Vestígios do Dia

Terminei de rever "Vestígios Do Dia". Fazia tempo que tinha visto pela última vez então foi um prazer renovado. Nem é preciso dizer que mesmo após todos esses anos o filme não perdeu nem uma cota de seu charme, de sua delicadeza e de sua elegância. Na minha opinião ainda continua sendo uma grande obra prima do cinema. Muita gente não consegue até hoje captar a essência desse roteiro, o que é uma pena, pois a mensagem é tão sutil e delicada que passa despercebida a muitos. Não chegam a entender que "Vestígios do Dia" tem um dos enredos mais românticos já filmados. O mais interessante de tudo é que o filme consegue fazer isso sem nenhum tipo de afeto físico entre os protagonistas. Tudo é apenas sugerido, insinuado. Não há um beijo sequer entre eles, por exemplo. Isso porém acaba não tendo importância pois a emoção e o sentimento são tão presentes que esse tipo de coisa acaba sendo um mero detalhe.

A atração entre o mordomo (Hopkins) e sua governanta (Emma Thompson) é latente mas não assumida abertamente por causa das convenções sociais a que ambos estão submetidos. Além disso Hopkins brilha como uma pessoa que simplesmente não consegue expressar suas emoções. Criado para ser um mordomo a vida inteira e possuir uma educação exemplar ele acaba perdendo a capacidade de se revelar a quem quer que seja, mesmo para a mulher que sente atração e nutre sentimentos românticos. Assim é erguido um muro invisível que não deixa que ambos se declarem um ao outro. Tudo isso é de uma sutileza fenomenal. Apenas um cineasta com a sensibilidade de James Ivory conseguiria transportar isso para a tela no tom certo.

Desnecessário dizer que o resultado é excelente. O roteiro é um primor, a direção e a reconstituição de época são soberbas mas o melhor vem da interpretação dos atores. Esse filme traz a melhor atuação da carreira de Anthony Hopkins, embora isso possa causar surpresa em muitos é a mais pura verdade. Ele faz um mordomo de um Lord inglês que se apaixona por uma empregada da mansão, feita pela Emma Thompson. É um filme de momentos sutis. Existe uma cena maravilhosa em que Hopkins tenta se declarar à sua paixão mas por questões sociais, timidez, nervosismo e até mesmo preconceito se reprime. Poucas vezes vi um momento tão divinamente interpretado no cinema como esse. É genial. Vestígios do Dia é um primor, um filme feito para pessoas sofisticadas e de muito bom gosto. Como não poderia deixar de ser é uma produção britânica do mais alto nível. O diretor Ivory é um dos meus preferidos de todos os tempos. E é por essa e outras razões que considero "Vestígios Do Dia" uma perfeição da sétima arte. Poucas vezes algo assim tão sutil encontrou um veículo tão competente nas telas. Um primor!

Vestigios do Dia (The Remains of the Day, EUA Inglaterra, 1993) / Direção: James Ivory / Elenco: Christopher Reeve, Anthony Hopkins, Emma Thompson, Caroline Hunt / Sinopse: 1958. James Stevens (Anthony Hopkins), um homem de idade, em um grande carro antigo começa uma viagem pela Inglaterra em direção ao mar. Por muitos anos ele foi o mordomo-chefe de Darlington Hall, uma famosa casa de campo. Neste época sacrificou sua vida pessoal por vários anos para ter um alto desempenho profissional, mesmo reprimindo seus sentimentos e passasse uma frieza que na verdade não era parte da sua personalidade. Ele está indo visitar Sally Kenton (Emma Thompson), que ele não vê há muito tempo e tinha sido governanta em Darlington. Ele pensa que talvez ela possa ser persuadida a retomar a sua antiga posição, trabalhando para o novo proprietário de Darlington, um congressista americano aposentado.

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.

sábado, 10 de abril de 2010

A Difícil Arte de Amar

Revi recentemente esse "A Difícil Arte de Amar". Me recordo que na primeira vez que vi não me deixou muito impressionado. Revendo me pareceu bem melhor agora. A verdade é que quando assisti pela primeira vez era muito jovem, tinha outros interesses e o tema do filme realmente não iria me atrair muito. Aqui temos basicamente uma estória de amor adulta, sem romantismos exacerbados, com clara intenção de retratar um relacionamento tal como na vida real. Os protagonistas Rachel (Meryl Streep) e Mark (Jack Nicholson) são sim apaixonados entre si mas ao mesmo tempo têm que lidar com a dureza da vida cotidiana (problemas de reforma na casa recém comprada após o casamento, dificuldades de grana, filhos chorando e enchendo o saco). O grande atrativo é justamente esse. Nem ele é um dândi romântico (pelo contrário é infiel, barrigudo e nada atraente) e nem ela é uma diva (anda mal arrumada, tem problemas com envelhecimento, filhos e tudo mais que conhecemos bem). No meio de tudo isso tentam manter um casamento meio falido e cambaleante. Igual a provavelmente 90% dos casais no mundo real.

Além do bom roteiro e argumento "Heartburn" tem como maior atrativo ver em cena dois dos grandes intérpretes do cinema americano: Meryl Streep e Jack Nicholson. Embora ambos estejam em grande forma deve-se reconhecer que o filme é de Meryl. Sem sinais de vaidade ela se entregou de corpo e alma a uma personagem sem nenhum glamour. Já Jack está ali como mera escada para Streep. Isso não é demérito e nem significa que ele esteja ruim em cena, pelo contrário, é uma consequência do próprio roteiro que foi concebido assim mesmo. Por fim, para os nostálgicos, o filme traz a famosa trilha sonora escrita e cantada por Carly Simon. A música tema foi um tremendo hit dos anos 80 e certamente todos vão se lembrar dela na primeira audição. Enfim, bom filme, com ótimas atuações mostrando a "vida como ela é".

A Difícil Arte de Amar (Heartburn, EUA, 1986) / Diretor: Mike Nichols / Roteiro: Nora Ephron / Elenco: Meryl Streep, Jack Nicholson, Jeff Daniels, Maureen Stapleton, Milos Forman, Kevin Spacey / Sinopse: Rachel (Meryl Streep) e Mark (Jack Nicholson) são dois jornalistas que se conhecem em um casamento e, pouco tempo depois, se casam. Quando ela está na sua segunda gravidez, descobre que o marido tem um caso. O roteiro é uma visão autobiográfica da separação do casamento da roteirista Nora Ephron com Carl Bernstein (autor de Todos os Homens do Presidente) e foi baseado no best-seller da escritora.

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Rebelião na Índia

Em essência o filme é uma aventura romântica de colonizadores ingleses na Índia. Até ai tudo bem, afinal não foi o primeiro e nem o último a mostrar essa história. O que diferenciou aqui na minha opinião foi uma visão bem corajosa do roteiro de tocar, em plenos anos 50, na questão do racismo. O personagem interpretado por Tyrone Power é mestiço, filho de pai inglês com mãe muçulmana. Isso basta para ser olhado de lado pelos vitorianos oficiais da rainha em sua própria tropa. Como se não bastasse ele ainda se apaixona pela filha do comandante que obviamente fica bem insatisfeito com toda a situação.

Claro que por ser um filme da década de 50 nada é demasiadamente aprofundado. O roteiro é simples, o enredo é eficaz e rápido (o filme tem noventa minutos apenas) mas de qualquer forma só o simples fato de tocar no assunto já desperta o interesse do espectador. Em cena nenhum grande ator. O elenco é liderado pelo galã Tyrone Power (um dos primeiros Zorros do cinema). Ele não era um grande ator (nenhum galã para falar a verdade era) mas não compromete em momento algum. A atriz Terry Moore era bonitinha mas convenhamos bem ordinária no quesito interpretação. Por fim o grande destaque do filme fica mais uma vez pela direção segura de Henry King (que logo após realizaria o clássico "As Neves do Kilimanjaro"). Há uma sequência inicial no filme, em que rebeldes atacam as tropas ingleses em uma montanha, que mostra bem o talento desse grande diretor. Então fica a dica, se você encontrar esse filme um dia para assistir, não deixe de conferir, vale a pena.

Rebelião na Índia ("King of the Khyber Rifles, EUA, 1953) Diretor: Henry King / Elenco: Tyrone Power, Terry Moore, Michael Rennie, John Justin, / Sinopse: Baseado no romance de Talbot Mundy, trata-se da história passada no século 19, na Índia, sobre o capitão Alan King, oficial britânico de origem hindu que luta contra o preconceito no exército. Mas quando a filha de um general é salva por King numa tentativa de sequestro, ele gradualmente vai ganhando confiança. Principalmente quando ele é o único que domina a língua Pashtun e se coloca à disposição de seus superiores para negociar com um perigoso rebelde e assim conquistar a paz entre as tribos locais.

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Confidências à Meia Noite

Bacana saber que a querida Doris Day vai lançar um disco agora na terceira idade. É isso aí - enquanto há vida, há esperança. Fiquei tão interessado (e contente) que resolvi criar esse tópico em homenagem a ela. "Pillow Talk" é certamente um dos melhores filmes de sua filmografia (se não for o melhor). A primeira parceria com Rock Hudson (faria mais dois filmes ao lado dele) rende ótimas cenas de humor. Considerado ousado e sofisticado demais para os anos 50 o filme fez um tremendo sucesso. Rock em sua biografia afirma que esse foi sem dúvida um dos trabalhos que mais gostou de fazer pois o clima no set era o melhor possível, muito descontraído e alegre. Além disso ele criou uma ótima química com Doris nas cenas. Hudson havia recentemente se separado da esposa e procurava por novos caminhos em sua carreira. Depois de estrelar faroestes e dramas com Douglas Sirk e George Stevens, Rock tinha dúvidas se poderia fazer bem um papel de playboy numa comédia romântica sofisticada como essa. Depois de pensar por um tempo resolveu arriscar. O interessante é que o sucesso de "Confidências à Meia Noite" acabou significando uma mudança completa nos rumos de sua filmografia. A partir daqui ele deixaria definitivamente os dramas pesados de lado para se dedicar a filmes leves, divertidos como "Volta meu Amor", "Não me Mandem Flores", "O Esporte Favorito do Homem" e "Quando Setembro Vier".

Já Doris Day atribui ao filme à sua fama de "Virgem profissional" e diz não entender a razão. No filme sua personagem se recusa a ir para a cama com o conquistador barato vivido por Hudson. Isso criou e ajudou muito na imagem de "Sandy" dos anos 60, mas segundo Doris aqui ela não interpretava uma "virgem" mas sim uma mulher independente, inserida no mercado de trabalho, profissional, que pela primeira vez tinha o direito de escolher o homem com quem queria se casar - ou não casar, de acordo única e exclusivamente com sua consciência. O filme foi divisor de águas também porque acabou criando um dos filões mais usados em Hollywood - o da comédia romântica! Antes de Pillow Talk (Conversa de Travesseiro, seu título original) os estúdios não prestavam muito atenção nesse estilo. Com o sucesso do filme eles começaram a investir mais no gênero - que atingiria seu auge vinte anos depois, nos anos 80. Uma fórmula que até hoje não demonstra sinais de desgaste perante o público, principalmente feminino.

Confidências à Meia Noite (Pillow Talk, EUA, 1959) Direção de Michael Gordon / Roteiro de Stanley Shapiro e Maurice Richlin / Elenco: Rock Hudson, Doris Day, Tony Randall / Sinopse: Jovem playboy (Rock Hudson) se faz passar por uma caipirão para conquistar sua vizinha (Doris Day) que implica com ele por causa da linha de telefone que ambos dividem.

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

O Favorito dos Bórgias

Todo rodado na Itália, nos mesmos castelos e locais onde aconteceram os fatos da história real, esse "O Favorito dos Borgias" tem uma produção de encher os olhos. Tudo foi minuciosamente reconstituído, as armaduras, o figurino, tudo de muito bom gosto. Até o estilo ornamental do renascimento foi recriado para o filme. A direção de Henry King é segura, pontual, detalhista e não desperdiça nada em um roteiro muito bem escrito, com ótimos e inspirados diálogos. E por falar em bons diálogos o que é necessário para que eles funcionem perfeitamente? Sim, grandes atores. E é justamente no elenco que esse épico se destaca.

Embora Tyrone Power seja apenas mais um galã (que marcou época mas que mesmo assim não passava disso), temos para contrabalançar suas limitações o grande Orson Welles. Incrível, mas Welles interpreta tudo com uma naturalidade, uma genialidade que me deixou admirado. Enquanto outros atores em cena exageram nas caras e bocas (uma certa característica da época), Orson desfila em cena todas as nuances de seu personagem sem o menor esforço. Consegue ser sutil em meio ao exagero dramático de outros em sua atuação. Ele literalmente rouba todas as cenas ao interpretar Cesare Bórgia, o famoso déspota da história. A atriz Wanda Hendrix, a mocinha do filme, embora fosse linda era inexpressiva do ponto de vista dramático. Mas isso é o de menos. No conjunto esse "O Favorito dos Borgias" é bem acima da média, uma grande diversão que em nenhum momento ofende a inteligência do espectador, mostrando já na década de 40 que diversão não precisa ser necessariamente burra ou idiota, pelo contrário, pode ser muito instrutiva e rica.

O Favorito dos Bórgias (Prince of Foxes, EUA, 1949) Direção de Henry King / Roteiro: Milton Krims / Elenco: Tyrone Power, Orson Welles, Wanda Hendrix, Marina Berti / Sinopse: Andrea Orsini (Tyrone Power) se envolve nas disputas familiares da famosa família Borgia. Em seu caminho tem que encontrar e lidar com o famigerado Cesare Borgia (Orson Welles) que tem grande sede de poder e riqueza.

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.

terça-feira, 6 de abril de 2010

A Canção de Bernadette

Independente do fato de se acreditar ou não na aparição da virgem Maria na pequena cidade de Lourdes na França o fato é que esse é um grande filme. O mais interessante no inteligente roteiro é que o filme dá voz não apenas aos que acreditaram no fato mas também aos céticos. Toda a situação que ocorreu na cidade após as supostas aparições é mostrada, a reação das autoridades, do clero local e os efeitos que iriam acontecer na cidade com o fluxo enorme de peregrinos em busca de curas milagrosas. Eu particularmente achei totalmente justificado a enxurrada de indicações ao Oscar pois desde a reconstituição do local até os mínimos detalhes tudo foi realizado com grande primor técnico. Destaque também para as locações, figurinos e trilha sonora, essa maravilhosa.

O elenco é todo bom. Do lado dos céticos se destaca o personagem do promotor imperial de Lourdes, interpretado brilhantemente por Vincent Price. Sua cena final, quando se dirige ao local das aparições é certamente um dos melhores momentos do ator no cinema. Já Jennifer Jones no papel de Bernadette enche os olhos. A Atriz foi premiada com o Oscar por sua interpretação e foi mais do que merecida. Ela transparece inocência, pureza e jovialidade num papel complicado, que poderia facilmente cair na caricatura. O diretor Henry King tem uma lista enorme de grandes clássicos em sua filmografia então não foi surpresa nenhuma ao me deparar com a grande qualidade desse "A Canção de Bernadette". Cineasta de mão cheia ele torna o filme obrigatório para todo cinéfilo que se preze. Em resumo temos aqui uma excelente obra prima da década de 40, uma obra que não cai na carolice como era de esperar e que debate fé, fanatismo religioso e crença popular com raro brilhantismo. Excelente clássico que merece ser descoberto (e redescoberto) sempre que possível. Altamente recomendado.

A Canção de Bernadette (The Song of Bernadette, EUA, 1943) Direção: Henry King / Roteiro: George Seaton (a pertir do romance de Franz Werfel) / Elenco: Jennifer Jones, Charles Bickford, Gladys Cooper, Vincent Price, Lee J. Cobb, Anne Revere./ Sinopse: O filme mostra as supostas aparições da Virgem Maria em Lourdes. Na ocasião uma jovem camponesa chamada Bernadette (Jennifer Jones) afirmou ter visto e falado com a mãe de Jesus Cristo numa gruta próxima onde costumava apanhar lenha com suas irmãs.

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

O Homem do Terno Cinzento

O filme é extremamente bem feito e roteirizado. Basicamente é um retrato de um homem comum que volta da II Guerra Mundial e tenta criar sua família da melhor forma possível nos anos 50. Ex-capitão do exército americano Tom Rath (Gregory Peck) sente na pele os problemas após seu retorno aos EUA. Passando por dificuldades financeiras, com três filhos e uma esposa insatisfeita e infeliz (Jennifer Jones) ele tenta administrar os problemas familiares e profissionais em meio a uma crise de identidade. Gostei bastante do tom da produção pois é um filme extremamente sério e realista e não joga panos quentes na situação, principalmente quando se descobre anos depois que o capitão teria tido um filho com uma mulher italiana. Outro aspecto curioso é a forma como é mostrada uma agência de publicidade naquela época - coisa que hoje em dia é justamente o foco do seriado de grande sucesso da AMC, Mad Men. Curiosamente o filme se torna bem atual pois muitos ex-militares americanos ainda encontram dificuldades de se inserirem na vida civil após servirem anos nas forças armadas. Falta de qualificação profissional, desemprego ou sub empregos ainda são bastante comum na vida dessas pessoas. Pelo visto mesmo após muitos anos a situação ainda permanece a mesma.

Outro ponto positivo de "O Homem do Terno Cinzento" é seu elenco. Gregory Peck novamente repete seu papel de homem íntegro, embora aqui haja fendas no caráter de seu personagem. Seu estilo de interpretação minimalista até hoje causa impacto. Peck era sutil e conseguia transmitir muito bem as emoções de seus personagens sem recorrer a exageros dramáticos. Já Jennifer Jones derrapa um pouco nas caras e bocas mas nada que comprometa. Eu gosto dessa atriz, recentemente a vi em "A Canção de Bernadette" e ela sempre conseguia mostrar um bom trabalho. O diretor Nunnally Jonhson era na realidade um roteirista conceituado em Hollywood que ganhou a chance de dirigir alguns filmes (nenhum extremamente marcante). Isso talvez explique o alto nível do roteiro de "O Homem do Terno Cinzento" que procura sempre desenvolver todos os personagens em cena, mostrando seus dramas familiares e pessoais. Enfim, aqui temos um excelente drama dos anos 50. Um ótimo exemplo para se conhecer o que era realizado no gênero pelo cinema americano na época

O Homem do Terno Cinzento (The Man in the Gray Flannel Suit, EUA, 1956) Direção de Nunnally Johnson / Roteiro de Nunnally Johnson baseado no livro de Sloan Wilson / Com Gregory Peck, Jennifer Jones e Fredric March / Sinopse: Basicamente é um retrato de um homem comum que volta da II Guerra Mundial e tenta criar sua família da melhor forma possível nos anos 50. Ex-capitão do exército americano Tom Rath (Gregory Peck) sente na pele os problemas após seu retorno aos EUA. Passando por dificuldades financeiras, com três filhos e uma esposa insatisfeita e infeliz (Jennifer Jones) ele tenta administrar os problemas familiares e profissionais em meio a uma crise de identidade.

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.

domingo, 4 de abril de 2010

Almas Desesperadas

Casal deixa sua pequena filha aos cuidados da sobrinha do ascensorista do hotel onde estão hospedados. O problema é que a nova babá Nell Forbes (Marilyn Monroe) sofre de graves problemas psicológicos e mentais. A aproximação de um outro hóspede (Richard Widmark) na vida de Nell só irá piorar ainda mais a situação que já é extremamente delicada. "Almas Desesperadas" foi o primeiro filme em que Marilyn Monroe realmente estrelou, surgindo como protagonista. Até aquele momento ela se resumia a fazer papéis pequenos, sem grande importância. Tudo muda aqui. Monroe está em praticamente todas as cenas de um roteiro que se passa quase em tempo real, todo em uma só noite, dentro de um quarto de hotel. Muitos biógrafos e críticos afirmam que o papel da babysitter mentalmente perturbada era muito forte para uma Marilyn ainda tão jovem e inexperiente. De fato não deve ter sido nada fácil interpretar um personagem assim com apenas 26 anos mas sinceramente discordo dos que criticam a atuação de Monroe aqui. Achei sua atuação muito digna e correta. Ela em nenhum momento cai no exagero ou na caricatura. Para uma jovem estrela devo dizer que ela se saiu extremamente bem. O filme só funcionaria se Marilyn atuasse de forma satisfatória - e ela fez isso, com muita garra e sensibilidade, tenham certeza.

"Almas Desesperadas" é em essência um drama com toques de suspense e clima noir. A estrutura narrativa inclusive lembra uma peça de teatro. Os personagens estão concentrados em um ambiente fechado, dentro de uma situação limite. Poderia ter ficado pesado e chato mas não, o filme se desenvolve muito bem em seus curtos 76 minutos. Richard Widmark segue a trilha da boa atuação de Marilyn Monroe e desfila elegância e charme durante as cenas. Aliás seu figurino chama bem a atenção pois revela a moda masculina na primeira metade dos anos 50 com ternos enormes, folgadões, que alguns anos depois viriam a virar moda novamente. Para uma produção B da Fox achei tudo de bom gosto. O hotel onde se passa a estória foi bem recriado e os demais figurinos são bonitos. E por falar em beleza, Marilyn está linda, maravilhosa. Com cabelos mais escuros que o normal os fãs da atriz vão ser brindados com vários closes de seu rosto inesquecível. Mesmo fazendo papel de maluquinha sua sensualidade explode em cada tomada. Não foi à toa que ela se tornou um dos grandes símbolos sexuais do século XX. Embora seu papel não fosse essencialmente sensual ela o tornava assim naturalmente. A Fox inclusive investiu bem nisso a começar pelo poster do filme explorando a sensualidade de Marilyn de forma bem ostensiva e descarada. Em conclusão podemos afirmar que "Almas Desesperadas" não decepciona. É um registro histórico da ascensão de um dos maiores mitos da história do cinema! Só isso já o torna obrigatório.

Almas Desesperadas (Don't Bother to Knock, EUA, 1953) Direção de Roy Ward Baker / Roteiro de Daniel Taradash baseado na novela de Charlotte Armstrong / Elenco: Richard Widmark, Marilyn Monroe, Anne Bancroft / Sinopse: Casal que vai a um jantar de gala contrata jovem (Marilyn Monroe) para cuidar de sua filhinha. A babá é sobrinha do ascensorista do hotel e desde que seu namorado morreu na guerra sofre de crises mentais.

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.

sábado, 3 de abril de 2010

A Embriaguez do Sucesso

É incrível descobrir que um filme como esse foi feito em 1957. Isso porque não era tão comum ver um roteiro assim, tão ácido e mórbido naquela época. Os dois atores principais em cena, Tony Curtis e Burt Lancaster, dão show de interpretação. Curtis, visto apenas como um galã da Universal pelos críticos, aqui apresenta um de seus melhores trabalhos. Está literalmente fantástico como o crápula, mentiroso, cafetão, escroque e 171 Sidney Falco. Confesso que nunca vi uma atuação dele tão boa como essa. É uma pena que Curtis não tenha se desenvolvido mais como ator dramático. Ele de certa forma se acomodou em sua imagem de galã de comédias românticas, principalmente a partir do começo da década de 60 e com vários problemas que foram surgindo ao longo dos anos (como vício em drogas) simplesmente deixou a carreira em segundo plano. Se tivesse procurado se desenvolver melhor na arte da atuação teria sido um grande nome na história de Hollywood. Já Lancaster também está excelente fazendo um verdadeiro psicopata frio, cheio de si e com uma indisfarçável paixão incestuosa por sua irmã (na pela de uma atriz fraquinha mas bonita, Susan Harrison). Muitos criticam Lancaster afirmando que ele era um ator de uma nota só (sempre atlético e com um sorriso montado no rosto). Eu não concordo inteiramente com essa opinião. Realmente em algumas produções Lancaster se apoiou em sua imagem como muleta mas nem sempre isso aconteceu. Basta lembrar do famoso (e ótimo) "O Homem de Alcatraz". Nesse "A Embriaguez do Sucesso" o ator tem uma de suas melhores interpretações. A persona que tanto utilizou em outros filmes aqui está ausente, felizmente.

Outro destaque de "Sweet Smell Of Sucess" é a forma que o diretor encontrou para contar sua estória. São ótimas tomadas de cena feitas em locação na cidade de Nova Iorque. Nos anos 50 era comum que os filmes fossem feitos em Hollywood dentro dos estúdios, geralmente com o uso de back projection (os atores atuavam na frente de uma grande tela onde o cenário da locação da cena previamente filmado era exibido). Aqui não, é fácil ver que tudo foi realmente filmado nas ruas da cidade, sem uso e artifícios como esse. Tudo combina, a sordidez da trama, a direção segura, a ótima fotografia em preto e branco e os diálogos (alguns dos melhores que já vi). Para quem gosta de filmes clássicos, com tramas envolventes e clima noir, "Embriaguez do Sucesso" é uma ótima opção.

O Embriaguez do Sucesso (Sweet Smell of Success, 1957) / Direção: Alexander Mackendrick / Roteiro: Clifford Odets (roteiro), Ernest Lehman (roteiro, romance), Alexander Mackendrick / Sinopse: Tony Curtis, Burt Lancaster, Susan Harrison, Martin Milner / Sinopse: O maior colunista jornalístico de Nova York, J.J. Hunsecker, quer a todo custo evitar que sua irmã case-se com Steve Dallas, um músico de jazz. Assim, ele contrata Sidney Falco, um agente inescrupuloso, para atrapalhar o caso dos dois.

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Infâmia

Duas amigas de faculdade mantém um colégio para moças. Uma delas (Hepburn) planeja em breve se casar com seu namorado, um médico local (Garner) até que suas vidas são mudadas tragicamente por uma mentira contada por uma de suas alunas. Seguramente um dos roteiros mais instigantes e corajosos que já vi em um filme rodado nos anos 60. O filme não tem medo de tocar em assuntos que até hoje são tabus e que há 50 anos eram ainda mais fortes. Também é curioso como o argumento do filme é dúbio. Em certo sentido ele realmente deixa completamente desnorteado o espectador pois ao mesmo tempo que ficamos indignados com o acontecimento que vira a vida das protagonistas de ponta cabeça, sabemos de antemão que as acusações possuem um fundo de verdade, mesmo que de forma unilateral por parte de uma delas. Além disso o tema levanta o debate sobre a hipocrisia moral reinante na sociedade.

O elenco está ótimo. Shirley MacLaine, na flor da idade, está linda. Muito charmosa demonstra que já era uma excelente atriz naquela época (e olha que não passava de uma jovem estrela). Já Audrey Hepburn desfila toda sua classe habitual em cena. Incrível como mesmo nas maiores adversidades ela jamais perdia a elegância, nem na trágica cena final. Aliás sua caminhada para fora do cemitério, de cabeça erguida, mostrando toda a sua dignidade diante de tudo o que lhe aconteceu é seguramente uma das maiores cenas de sua carreira. Por fim fica aqui os elogios ao grande William Wyler. Que ele foi diretor de grandes clássicos da história do cinema, todo mundo sabe mas muitos irão se surpreender em ver como ele lida com o delicado tema desse filme. Genial o seu trabalho. "Infâmia", em suma, é uma obra prima que merece ser descoberta por quem ainda não assistiu. Nota dez.

Infâmia (The Children's Hour, EUA, 1961) Direção: William Wyler / Roteiro de Lillian Hellman, John Michael Hayes / Elenco: Audrey Hepburn, Shirley MacLaine, James Garner / Sinopse: Duas amigas de faculdade mantém um colégio para moças. Uma delas (Hepburn) planeja em breve se casar com seu namorado, um médico local (Garner) até que suas vidas são mudadas tragicamente por uma mentira contada por uma de suas alunas.

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

A História do FBI

O roteiro de "The FBI Story" não conta apenas uma história mas várias. Além disso mistura fatos reais com mera ficção. Ao longo de sua extensa duração (duas horas e meia) vamos acompanhando a vida pessoal e profissional do agente 'Chip' Hardesty (James Stewart). Esse personagem é fictício mas os casos que ele desvenda no filme não! Isso é interessante porque os roteiristas foram pragmáticos. Ao invés de focalizarem inúmeros agentes que resolveram todos esses famosos casos criminais eles resolveram juntar tudo em apenas um só personagem. Assim vamos acompanhando Chip resolvendo crimes que envolvem a KKK no sul racista, a morte de Dillinger, de Ma Barker, de agentes nazistas, de comunistas infiltrados em Nova Iorque etc. Como se trata de James Stewart obviamente Chip é um homem honesto, virtuoso, bom pai de família e cidadão exemplar.

Já que estamos prestes a assistir a J. Edgar com Leonardo Di Caprio nada mais interessante do que ver antes esse "The FBI Story", isso porque o próprio J. Edgar Hoover está no filme, de carne e osso, em participação especial. Aliás o tom ufanista do filme o coloca numa posição de herói americano. Hoover é citado inúmeras vezes e o roteiro faz questão de mostrar o FBI antes de Hoover (uma bagunça) e depois de Hoover (uma super agência de investigação). Como era de se esperar o Bureau ajudou intensamente os produtores, abrindo seus centros de treinamento, mostrando agentes reais em cena e tudo o mais que seria possível. Com tanta ajuda oficial não é de se admirar que o resultado final seja bem chapa branca. Embora pareça mais uma propaganda de J Edgar Hoover (muito poderoso e influente na época em que o filme foi realizado), "The FBI Story" tem seus méritos próprios, pois consegue divertir no final das contas sendo bom entretenimento. Vale a pena assistir.

A História do FBI (The FBI Story, EUA, 1959) Direção de Mervyn LeRoy / Roteiro de Richard L. Breen e John Twist / Com James Stewart, Vera Miles e Murray Hamilton / Sinopse: O filme mostra através do relato do agente John Michael ('Chip') Hardesty (James Stewart) a verdadeira história do FBI, desde quando a agência funcionava em uma pequena sala até o momento em que se tornou o principal órgão do governo americano no combate ao crime organizado.

Pablo Aluísio e Júlio Abreu.