quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

O Gangster

O Gângster
Esse foi o último grande filme da carreira de Ridley Scott. Uma produção impecável com elenco classe A que prende a atenção do espectador da primeira à última cena. A história do filme (baseada em fatos reais) se passa em Nova Iorque na década de 70. A morte de um chefão do tráfico do Harlem abre espaço para o surgimento de um novo líder, Frank Lucas (Denzel Washington). Ambicioso e metódico ele logo descobre como subir dentro da hierarquia das ruas. Após eliminar ou comprar seus mais potenciais inimigos começa a colocar em prática um plano para trazer a mais fina e pura heroína para o mercado americano. Usando como meio de transporte os próprios aviões militares americanos que voltavam da guerra do Vietnã, Lucas fez fortuna em pouco tempo. Estima-se que chegou a ganhar mais de um milhão de dólares ao dia, uma cifra realmente surpreendente. Dono de um faro comercial e organizacional fora do comum o traficante Frank Lucas logo se tornou o principal importador da drogas aos Estados Unidos. Seu produto dominou todo o mercado de drogas. Com tanto dinheiro e poder em jogo era questão de tempo até chamar a atenção da polícia de Nova Iorque.

Em um departamento policial corroído por todo tipo de corrupção o detetive Richie Roberts (Russell Crowe) parecia ser realmente uma rara exceção. Policial honesto, logo percebeu que algo grande estava acontecendo no submundo do tráfico das ruas da cidade. Após intensas investigações acabou descobrindo todo o itinerário e a complexa rede de intermediários da heroína que chegava até os viciados nova-iorquinos. A heroína além de ser extremamente pura era de uma qualidade excepcional, vendida a um preço muito barato, revelando um grande esquema de distribuição por trás de tudo. “O Gangster” é um tipo de filme que nos faz lembrar como era interessante o cinema americano, principalmente na década de 70. Os temas eram geralmente relevantes, mostrando problemas atuais em tramas bem desenvolvidas, fundadas em ótimos roteiros. A dupla central de atores aqui está excepcionalmente bem. O Frank Lucas de Denzel Washington é um sujeito contraditório naquilo que entende defender e no que faz em seu dia a dia. Grande direção de Ridley Scott que ultimamente tem derrapado bastante em suas escolhas. Um filme atual com o sabor das antigas produções dos anos 70. Excelente.

O Gangster (American Gangster, Estados Unidos, 2007) Direção: Ridley Scott / Roteiro: Steven Zaillian / Elenco: Denzel Washington, Russell Crowe, Chiwetel Ejiofor, Josh Brolin, Lymari Nadal, Ted Levine / Sinopse: O filme conta a história de um dos maiores traficantes de Nova Iorque durante a década de 70. Faturando milhões ele conseguiu criar uma grande rede de distribuição e transporte da heroína vinda da Ásia para ser vendida no mercado americano. Filme indicado aos Oscars de Melhor de Direção de Arte e Atriz Coadjuvante (Ruby Dee). Indicado também aos Globos de Ouro de Melhor Direção, Melhor Filme Drama e Ator (Denzel Washington).

Pablo Aluísio.


Em Cartaz: O Gângster
O drama policial O Gângster (American Gangster) estreou nos cinemas em 2007, dirigido por Ridley Scott e estrelado por Denzel Washington e Russell Crowe. Baseado na história real do traficante Frank Lucas, que dominou o mercado de heroína em Harlem nos anos 1970 através de métodos incomuns de importação e distribuição, o filme investe num retrato épico do crime organizado nos Estados Unidos e da luta da lei contra essa realidade. A produção marcou um retorno ao gênero policial clássico, abordando tanto os aspectos comerciais quanto morais do crime de alto nível. 

Em termos de bilheteria, O Gângster foi um sucesso comercial. Na sua estreia na América do Norte, o longa arrecadou cerca de US$ 43 milhões, garantindo o primeiro lugar nas bilheterias e se tornando a maior abertura na carreira de Denzel Washington e Russell Crowe até então. Ao final de sua circulação nos cinemas norte-americanos, acumulou mais de US$ 130 milhões, e com as receitas internacionais ultrapassou cerca de US$ 269 milhões mundialmente, números expressivos para um drama criminal sem apelo de franquia tradicional. 

A reação da crítica na época do lançamento foi majoritariamente positiva, com muitos elogiando o estilo narrativo, as performances e a direção. Agregadores como Rotten Tomatoes indicaram que 81 % dos críticos deram avaliações favoráveis, apontando o filme como “um retorno áspero e envolvente aos clássicos filmes de gângster, com atuações em plena forma”. Metacritic apresentou uma meta-nota de 76, sinalizando “críticas geralmente favoráveis”. 

Alguns críticos importantes da época publicaram comentários que refletiram o tom dessa recepção. Roger Ebert, do Chicago Sun-Times, escreveu que “este é um relato envolvente, contado de forma suave e eficaz” — elogiando tanto a direção de Scott quanto a contribuição de Crowe à narrativa. Outros comentaristas ressaltaram que o filme trazia “um espetáculo de grandes temas e personagens maiores que a vida, interpretados por dois dos melhores atores do cinema”, enfatizando a força de Washington e Crowe como protagonistas. 

Houve também vozes críticas mais reservas: alguns jornalistas acharam que a atuação de Washington não atingiu todo o potencial esperado, ou que o ritmo narrativo nem sempre se sustentou, como observou parte da imprensa europeia, dizendo que ele “não parecia relaxar nem habitar o papel tão satisfatoriamente quanto em performances anteriores”. Ainda assim, a maioria dos textos publicados em 2007 indicava que O Gângster era um dos melhores filmes policiais daquele ano, sendo elogiado pelo equilíbrio entre entretenimento, profundidade temática e rigor estilístico.

Colateral

Colateral
Hollywood parece ter fascinação por assassinos profissionais. Um exemplo é esse filme chamado “Colateral”. Na trama o taxista Max (Jamie Foxx) acaba pegando como passageiro Vincent (Tom Cruise), um sujeito que parece ser uma boa pessoa, simpático e generoso. Com notas de dinheiro ele convence Max a leva-lo em diferentes endereços pois ele tem alguns “serviços” a cumprir antes de voltar para sua cidade de origem. Até ai tudo bem, o problema é que Vincent é um assassino profissional que temo como objetivo matar uma série de pessoas que irão testemunhar contra um perigoso cartel de traficantes. Assim seu objetivo é muito simples: ir ao encontro dessas pessoas, executar uma a uma, e depois do serviço concluído pegar o primeiro avião de volta. Max, o taxista, nada mais é do que um “efeito colateral”, um sujeito que estava no local errado, na hora errada. Desde que ele não atrapalhe os planos de Vincent será prontamente liberado. O problema é que por princípios éticos Max resolve intervir para tentar salvar uma das vitimas de Vincent. Má idéia.

“Colateral” é um bom filme de assassino profissional. Tom Cruise deixa de lado seu bom mocismo e enfrenta pela primeira vez um papel de vilão em uma grande superprodução. Seu famoso sorriso acaba funcionando para o papel pois ele logo se torna uma marca registrada de sua psicopatia. O enredo funciona em tempo real, praticamente contando apenas com a situação básica em que o assassino, com o motorista de táxi como refém, sai pelas ruas da cidade de Los Angeles para cumprir seu serviço contratado. A cada morte um novo desafio, novos problemas a superar. O diretor Mann consegue com muita habilidade evitar o marasmo que o filme poderia cair ao apenas mostrar uma sucessão de execuções sumárias. Ao invés disso joga com o suspense e o clima de tensão a todo momento, deixando o espectador realmente grudado na tela à espera dos próximos acontecimentos. Por essas e outras razões recomendamos esse “Colateral” um filme que no fundo apenas mostra um “profissional” tentando cumprir sua meta da melhor forma possível. Nada pessoal.
   
Colateral (Collateral, Estados Unidos, 2004) Direção: Michael Mann / Roteiro: Stuart Beattie / Elenco: Tom Cruise, Jamie Foxx, Jada Pinkett Smith, Mark Ruffalo, Peter Berg, Bruce McGill / Sinopse: Vincent (Tom Cruise) é um assassino profissional que chega a Los Angeles para cumprir um serviço: matar testemunhas que irão depor em um importante julgamento de traficantes de um poderoso cartel. Em seu caminho acaba fazendo de refém um taxista negro (Jamie Foxx) que tentará de alguma maneira salvar a vida das vítimas dele. Indicado aos Oscars de Melhor Edição e Melhor Ator Coadjuvante (Jamie Foxx).

Pablo Aluísio.


Em Cartaz: Colateral 
O thriller Colateral estreou nos cinemas em agosto de 2004, dirigido por Michael Mann e estrelado por Tom Cruise e Jamie Foxx. O filme marcou uma virada significativa na carreira de Cruise, que interpretou um vilão frio e metódico, distante de sua imagem tradicional de herói. A trama acompanha uma noite em Los Angeles na qual um taxista comum é forçado a conduzir um assassino profissional entre seus alvos, enquanto a cidade se transforma em um labirinto de tensão e paranoia. O lançamento foi cercado de grande expectativa, tanto pelo prestígio do diretor quanto pela escolha ousada de elenco.

Em termos de bilheteria, Colateral obteve um resultado sólido e consistente. Com um orçamento estimado em cerca de US$ 65 milhões, o filme arrecadou aproximadamente US$ 220 milhões em todo o mundo, sendo cerca de US$ 100 milhões nos Estados Unidos. O desempenho foi considerado muito positivo para um thriller adulto e urbano, sem apelo de franquia, confirmando o poder comercial de Tom Cruise e o prestígio de Michael Mann junto ao público internacional.

A recepção da crítica em 2004 foi amplamente positiva, com muitos elogios à direção, ao visual e às atuações. O The New York Times escreveu que o filme era “um thriller elegante e implacável, que transforma a cidade em um personagem vivo”, destacando o uso pioneiro de câmeras digitais para capturar a atmosfera noturna de Los Angeles. Já a revista Time descreveu Colateral como “tenso, moderno e hipnótico, um raro exemplo de suspense inteligente no cinema comercial”.

Grande parte dos elogios concentrou-se na atuação de Tom Cruise. O Los Angeles Times afirmou que o ator entregava “uma performance assustadoramente controlada, talvez a mais interessante de sua carreira até então”, enquanto Roger Ebert, do Chicago Sun-Times, escreveu que Cruise criava “um vilão convincente justamente por sua calma, precisão e ausência total de emoção”. Jamie Foxx também foi bastante elogiado, com vários críticos apontando seu desempenho como um contraponto humano essencial à frieza do personagem de Cruise.

Com o passar dos anos, Colateral consolidou-se como um clássico moderno do cinema policial, frequentemente citado entre os melhores filmes de Michael Mann. As críticas publicadas em 2004 já indicavam que o longa se destacava não apenas como entretenimento de alta tensão, mas como um retrato estilizado da solidão urbana e da violência contemporânea. Hoje, o filme é lembrado tanto pela atuação memorável de Tom Cruise quanto por sua estética inovadora, confirmando o impacto duradouro que teve desde seu lançamento original.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Monster - Desejo Assassino

Monster - Desejo Assassino 
O cinema americano já mostrou a vida sinistra de muitos assassinos em série mas esse "Monster" tem um diferencial importante. Mostra a história real de Aileen Wuornos (Charlize Theron), uma das mais famosas Seial Killers americana, acusada de matar vários homens em sua trajetória. O modus operandi de Aileen era relativamente simples: Ela era prostituta de rua e saía geralmente com caminhoneiros ou homens mais velhos. Assim que o programa era acertado eles iam a lugares remotos. Lá Aileen os matava a tiros e depois os roubava, levando consigo tudo o que conseguia encontrar de valor com seus "clientes". Fruto de uma infância terrível onde sofreu abusos de toda ordem, ela se iniciou muito jovem na prostituição, com apenas 13 anos. 

Todos esses fatos acabaram criando na assassina um transtorno de personalidade conhecido como Borderline. Esse problema mental é causado por histórico de exposição a traumas durante a infância e juventude. As pessoas que desenvolvem essa doença geralmente são impulsivas e não agem de forma racional. Curiosamente mesmo sendo diagnosticada com esse mal ela foi julgada e sentenciada à morte pela justiça americana. Se fosse no Brasil não sofreria pena e nem prisão mas apenas Medida de Segurança. Enviada a uma instituição adequada teria tratamento e acompanhamento médico.

O grande destaque de "Monster", como não poderia deixar de ser, vem da brilhante atuação da atriz Charlize Theron. Vista até  aquele momento como apenas uma beldade nas telas, Charlize aqui surpreende. Com forte maquiagem a atriz fez de tudo para literalmente incorporar a verdadeira assassina. O resultado é excepcional. Theron deixa de existir para dar lugar a Aileen! Ela fez um trabalho primoroso onde reproduz até os mínimos detalhes de ser da verdadeira assassina. Ver uma atuação desse nível e depois ter que encarar essa talentosa profissional fazendo papel de bruxa má em remake de Branca de Neve realmente me deixa perplexo. De qualquer modo Charlize foi reconhecida pelos grandes prêmios pois venceu o Oscar de Melhor Atriz, além de ter sido premiada com o Urso de Prata de Veneza e o Globo de Ouro. 

Também merece destaque a atuação inspirada de Christina Ricci, que interpreta a namorada lésbica de Charlize no filme. Sem medo de me equivocar digo que é o melhor momento de ambas as atrizes em suas vidas profissionais. Nem antes e nem depois conseguiram desenvolver um trabalho melhor do que esse. Em conclusão afirmo que "Monster" não é uma produção fácil e nem leve. Seu tema é pesado e sua trama não é nenhum conto de fadas. Mesmo assim temos aqui uma obra não menos do que brilhante. Uma ótima crônica que tenta registrar para a posteridade a triste existência de Aileen Wuornos. Não deixe de conferir.

Monster - Desejo Assassino (Monster, Estados Unidos, 2003) Direção: Patty Jenkins / Roteiro: Patty Jenkins / Elenco: Charlize Theron, Christina Ricci, Bruce Dern, Scott Wilson, Lee Tergesen./ Sinopse: O filme conta a história real de Aileen Wuornos (Charlize Theron), assassina em série que se tornou famosa nos Estados Unidos por uma longa série de mortes contra homens que a contratava como prostituta. O filme traz uma visão dura e cruel dessa criminosa.

Pablo Aluísio.


Em Cartaz: Monster - Desejo Assassino 
O drama criminal Monster – Desejo Assassino estreou nos cinemas em dezembro de 2003, dirigido por Patty Jenkins e protagonizado por Charlize Theron no papel da assassina em série Aileen Wuornos. Inspirado em fatos reais, o filme retrata a trajetória de Wuornos, uma prostituta que matou sete homens na Flórida no final dos anos 1980 e início dos 1990. Desde seu lançamento, o longa chamou atenção pela abordagem crua e humana de uma figura geralmente tratada apenas como monstro pela mídia, além da transformação física radical de Theron, amplamente divulgada na época.

Em termos de bilheteria, o filme teve um desempenho sólido para um drama independente. Com um orçamento estimado em cerca de US$ 8 milhões, Monster arrecadou aproximadamente US$ 64 milhões em todo o mundo, sendo mais de US$ 34 milhões apenas nos Estados Unidos. O resultado foi considerado excelente para um filme de temática pesada e sem apelo comercial convencional, impulsionado principalmente pelo boca a boca positivo e pela crescente atenção da crítica.

A recepção crítica foi amplamente entusiasmada, com elogios quase unânimes à atuação de Charlize Theron. O The New York Times escreveu que a atriz entregava “uma interpretação feroz, perturbadora e profundamente compassiva”, destacando a complexidade emocional trazida à personagem. Já a revista Time afirmou que Theron estava “irreconhecível e absolutamente hipnotizante”, sugerindo que sua atuação transcendia qualquer vaidade ou glamour normalmente associados a estrelas de Hollywood.

Entre os críticos mais influentes, Roger Ebert, do Chicago Sun-Times, declarou que “Charlize Theron não interpreta Aileen Wuornos; ela se torna Aileen Wuornos”, acrescentando que a atuação era “uma das mais corajosas e completas do cinema americano recente”. A revista Variety descreveu o filme como “um estudo de personagem implacável e emocionalmente devastador”, elogiando também a direção segura de Patty Jenkins em seu filme de estreia.

No circuito de prêmios, Monster – Desejo Assassino confirmou o impacto apontado pela crítica. Charlize Theron venceu o Oscar de Melhor Atriz, além do Globo de Ouro, do Urso de Prata em Berlim e de diversos prêmios da crítica internacional. Com o passar dos anos, o filme consolidou-se como um marco do cinema biográfico contemporâneo, frequentemente citado como exemplo máximo de transformação artística e entrega total a um personagem. As reações da imprensa em 2003 já indicavam que Monster não era apenas um retrato de violência, mas um filme profundamente incômodo sobre marginalização, abuso e desespero humano.

Aileen: A História de uma Serial Killer

Título no Brasil: Aileen: A História de uma Serial Killer
Título Original: Aileen: Queen of the Serial Killers
Ano de Lançamento: 2025
País: Estados Unidos
Estúdio: Netflix
Direção: Emily Turner
Roteiro: Emily Turner
Elenco: Aileen Wuornos, Nick Broomfield, Arlene Pralle, Lori Grody, Bill Nelson, Mike Trella

Sinopse:
O documentário acompanha os últimos meses de vida de Aileen Wuornos, uma das mais notórias assassinas em série dos Estados Unidos, enquanto aguarda sua execução no corredor da morte da Flórida. Por meio de entrevistas diretas com Aileen, familiares, amigos e autoridades, o filme investiga sua trajetória marcada por abusos, violência e marginalização, além de questionar o sistema judicial e o tratamento dado à acusada. A obra oferece um retrato íntimo, perturbador e humano de uma figura amplamente demonizada pela mídia.

Comentários:
Esse documentário sobre essa assassina em série entrou recentemente no catálogo da Netflix. De certa maneira é uma nova releitura de um documentário bem mais antigo feito quando ela foi executada, lá em 2002. Fizeram uma nova edição, melhoraram, com investimento novo, mas sinceramente falando... nesse campo de documentários True Crime existe uma verdade praticamente absoluta. Nesse nicho impera o Discovery através de seu canal ID (Investigação Discovery). Nada que assisti sobre esses assassinos supera o material da Discovery. Os caras são especialistas nesse campo. São os melhrores, não tem o que dizer. A Netflix e outras plataformas tentam superar, mas nunca vão ser melhores. Sobre a Aileen Wuornos, por exemplo, havia assistido um excelente documentário do ID com cinco episódios. Aquilo sim foi definitivo sobre o tema. Esse aqui do texto soa apenas como uma pálida imitação sem o mesmo brilho. 

Pablo Aluísio. 

terça-feira, 6 de janeiro de 2026

O Homem do Colorado

O Homem do Colorado
Também conhecido como "No Velho Colorado", esse western conta uma história que se passa nos últimos dias da guerra civil americana, quando um coronel do exército da União chamado Owen Devereaux (Glenn Ford) encurrala um grupo confederado em um vale deserto. Sem saída os sulistas levantam a bandeira branca de rendição, mas o velho coronel os ignora, abrindo fogo com seus canhões, matando todos de forma covarde. Quando a guerra chega ao seu final, ele é honrado como um herói (apesar dos crimes que cometeu no campo de batalha). Logo é escolhido para ser o novo juiz de uma cidade do Colorado e leva seu capitão favorito, Del Stewart (William Holden), para ser o novo xerife. De volta à vida civil porém o coronel começa a apresentar desvios de comportamento, fruto dos traumas sofridos durante a guerra civil. Seu desequilíbrio mental se torna um sério problema quando tenta resolver disputas por terras ricas em ouro na região.

Glenn Ford se notabilizou pelos grandes personagens que interpretou na era de ouro do cinema americano. Em termos de western sua filmografia certamente é rica e importante. Aqui em "O Homem do Colorado" (relembrando que passou anos depois na TV como "No Velho Colorado") ele interpreta um personagem bem diferente, um coronel veterano que começa a enlouquecer aos poucos. De fato dentro da trama ele é o verdadeiro vilão do enredo. O roteiro é muito bem desenvolvido mas também apresenta alguns problemas morais ao meu ver. Há na história um grupo de veteranos que acaba indo para a criminalidade pois depois de dar baixa no exército não encontram mais trabalho e nem tampouco terras para começarem uma nova vida pois perderam o direito de extrair o ouro por terem servido por três anos na guerra. Sem alternativas viram criminosos sociais, roubando, promovendo assaltos e até mortes!

E para surpresa geral o roteiro se torna simpático em relação a esse bando de criminosos, chegando ao ponto de colocar o personagem do xerife ao lado deles! É um argumento complicado de aceitar. Mesmo assim, com esse problema ético, o filme é acima da média. Ford e Holden estão em grande forma e seguram as pontas muito bem, do começo ao fim. De qualquer maneira fica a indicação de "O Homem do Colorado", um faroeste típico dos anos 50, muito bem realizado e movimentado, que certamente vai agradar aos fãs do gênero.

O Homem do Colorado / No Velho Colorado (The Man from Colorado, Estados Unidos, 1948) Estúdio: Columbia Pictures / Direção: Henry Levin / Roteiro: Robert Hardy Andrews, Ben Maddow / Elenco: Glenn Ford, William Holden, Ellen Drew / Sinopse: Veterano da guerra civil, com histórico de crimes de guerra, acaba ganhando uma posição de juiz numa cidade do Colorado, onde começa a apresentar problemas emocionais e mentais no cargo. E isso se torna mais complicado no meio de uma disputa por terras onde se descobre ouro. Filme indicado ao Writers Guild of America na categoria Melhor roteiro de filme de western.

Pablo Aluísio.


Em Cartaz: O Homem do Colorado
O western O Homem do Colorado estreou nos cinemas em 1948, dirigido por Henry Levin e estrelado por William Holden e Glenn Ford. Produzido pela Columbia Pictures, o filme se destacou por fugir do maniqueísmo tradicional do gênero ao retratar a transformação psicológica de um herói da Guerra Civil em um homem dominado pela violência e pela paranoia. Ambientado no período de reconstrução do Oeste americano, o longa chamou atenção desde o lançamento por sua abordagem sombria e adulta, pouco comum nos westerns da época.

Em termos de bilheteria, o filme teve um desempenho respeitável, sem se tornar um grande sucesso comercial. Para os padrões da Columbia no final dos anos 1940, O Homem do Colorado foi considerado um resultado satisfatório, especialmente por se tratar de um western mais psicológico do que aventureiro. O interesse do público foi impulsionado pela presença de William Holden, então em ascensão, e pelo duelo dramático com Glenn Ford, já um nome consolidado do gênero.

A reação da crítica em 1948 foi amplamente positiva, com muitos jornais destacando o tom incomum do filme. O The New York Times escreveu que se tratava de “um western surpreendentemente intenso, que troca o romantismo habitual por um estudo sério do poder e da corrupção”, elogiando a coragem da produção em abordar temas mais sombrios. A revista Variety afirmou que o longa era “bem acima da média do gênero, com interpretações fortes e uma história de peso dramático real”.

Grande parte dos elogios concentrou-se na atuação de William Holden. Críticos da época observaram que o ator oferecia “uma interpretação perturbadora e convincente de um homem que se desfaz moralmente diante dos olhos do espectador”. Já o Los Angeles Times comentou que Glenn Ford funcionava como “o contraponto humano e ético da narrativa, equilibrando a descida do protagonista à brutalidade”, destacando o conflito moral no centro do filme.

Com o passar dos anos, O Homem do Colorado passou a ser visto como um precursor do western psicológico e revisionista, antecipando temas que seriam explorados com mais força nas décadas seguintes. As críticas publicadas em 1948 já indicavam que o filme era algo diferente dentro do gênero, mais preocupado com caráter e consequências do que com heroísmo simples. Hoje, ele é lembrado como um dos westerns mais ousados de seu período, valorizado tanto pela crítica quanto por historiadores do cinema.

O Estouro da Manada

O Estouro da Manada
Alguns filmes da era de ouro do western americano eram verdadeiras homenagens ao estilo de vida do cowboy, aquele bravo que atravessava as mais inóspitas regiões para levar seu gado até a fronteira, onde era finalmente comercializado e vendido para os grandes centros. Esse “O Estouro da Manada” é uma das mais sinceras odes que já assisti em relação ao vaqueiro das pradarias. No enredo um garoto mimado e chato, filho do dono da ferrovia, chamado Chester, se perde no meio do deserto, um dos lugares mais hostis do mundo. Nessa região ele é encontrado por acaso pelo cowboy Dan Matthews (Joel McCrea). O vaqueiro está atrás de um mustang negro selvagem que ele gosta de chamar de “Midnight”. De inicio o garoto rico se faz de arrogante e esnobe com o velho cowboy, mas conforme ambos vão convivendo juntos a relação de amizade muda de tom. A busca pelo cavalo e o trabalho duro de se tocar o gado no meio do deserto acaba criando no jovem rapaz um espírito completamente diferente, de honradez e trabalho. O antes prepotente e irascível garoto acaba se transformando em um homem de verdade, forjado no cotidiano da vida dos cowboys americanos, aqui personificado com maestria pelo ídolo Joel McCrea.

O filme tem lindas sequências ao ar livre. “O Estouro da Manada” foi rodado no Vale da Morte na Califórnia, um dos lugares mais secos do planeta. Mesmo assim a natureza em todo seu esplendor acaba proporcionando para a filmografia da produção um lindo cenário natural. No fundo o roteiro trata sobre o aprendizado de um jovem com um homem mais velho que acaba lhe ensinando grandes valores através de pequenas coisas que acontecem no cotidiano de um cowboy.  Enquanto tenta chegar em Santa Fé para entregar a manada o cowboy Dan e seu pupilo vão aprendendo sobre a vida e os valores do homem que vive de seu trabalho, tocando o gado pelas terras sem fim do oeste americano.

Para os fãs do ator Joel McCrea o filme é uma ótima opção. Seu personagem é um vaqueiro que tem o sonho de abrir um rancho próprio para uma criação de cavalos. Por isso ele tentará durante todo o filme capturar Midnight, o cavalo selvagem puro sangue que sempre consegue lhe escapar. A seqüência final, com o estouro de uma enorme manada pelo deserto é maravilhosamente bem realizada. Um clímax mais do que adequado para esse filme que louva com muito sucesso o mais simbólico personagem do velho oeste americano: o cowboy!

O Estouro da Manada (Cattle Drive, Estados Unidos, 1951) Direção: Kurt Neumann / Roteiro: Jack Natteford, Lillie Hayward / Elenco: Joel McCrea, Dean Stockwell, Chill Wills, Leon Ames, Henry Brandon, Howard Petrie / Sinopse: Garoto rico e mimado é esquecido no meio de deserto após o trem que o transportava lhe esquecer durante uma parada. Perdido no meio do nada, ele é salvo por um cowboy, Dan (Joel McCrea), que está no local tocando uma manada de gado em direção a Santa Fé. Juntos, atravessando o deserto, o jovem rapaz irá começar a mudar sua atitude e mentalidade ao tomar conhecimento do modo de viver dos cowboys americanos.

Pablo Aluísio.

Em Cartaz: O Estouro da Manada
O western Cattle Drive estreou nos cinemas em 1951, dirigido por Kurt Neumann e estrelado por Joel McCrea, com Dean Stockwell em um papel de destaque ainda adolescente. Produzido pela 20th Century Fox, o filme acompanha uma longa travessia de gado pelo Oeste americano, durante a qual um jovem problemático aprende, por meio do trabalho duro e da convivência, valores como responsabilidade e liderança. Desde o lançamento, o longa foi apresentado como um western de tom clássico, com forte componente moral e educativo.

Em termos de bilheteria, Cattle Drive teve um desempenho modesto, porém respeitável, típico de produções do gênero naquele início dos anos 1950. Não figurou entre os maiores sucessos do estúdio, mas encontrou bom público em sessões regulares e circuitos regionais, especialmente entre espectadores habituais de westerns. Para a Fox, o filme cumpriu seu papel como um produto sólido, com retorno seguro e boa circulação internacional.

A recepção crítica na época foi geralmente positiva, ainda que discreta. A revista Variety descreveu o filme como “um western competente e bem ritmado, sustentado por personagens claros e um conflito moral direto”, destacando sua eficiência narrativa. Já alguns jornais americanos ressaltaram o equilíbrio entre ação e drama humano, observando que o filme evitava excessos melodramáticos comuns em histórias de formação juvenil.

Grande parte dos elogios concentrou-se na atuação de Dean Stockwell, que chamou atenção da crítica por sua maturidade dramática. Um comentário recorrente na imprensa afirmava que o jovem ator oferecia “uma interpretação convincente e surpreendentemente intensa para sua idade”. Joel McCrea, por sua vez, foi elogiado por manter seu tradicional estilo sóbrio e firme, funcionando como uma figura de autoridade moral dentro da narrativa.

Com o passar dos anos, Cattle Drive (1951) passou a ser visto como um western clássico de formação, representativo da fase em que o gênero valorizava disciplina, amadurecimento e ética do trabalho. As críticas publicadas na época já indicavam que o filme não buscava inovação, mas sim reafirmar valores tradicionais do western hollywoodiano. Hoje, ele é lembrado principalmente pelo início promissor da carreira de Dean Stockwell e como um exemplo sólido do cinema de estúdio americano do pós-guerra.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

O Gordo e o Magro - Procura-se Um Marido

Título no Brasil: Procura-se um Marido
Título Original: Oliver the Eighth
Ano de Lançamento: 1934
País: Estados Unidos
Estúdio: Hal Roach Studios
Direção: Lloyd French
Roteiro: Stan Laurel
Elenco: Stan Laurel, Oliver Hardy, Mae Busch, Betty Healy, James Finlayson, Charles Middleton

Sinopse:
Stan e Ollie vivem tranquilamente como barbeiros quando um anúncio nos classificados do jornal chama atenção do Gordo Oliver Hardy. Uma mulher viúva e muito rica, procura um bom homem para se casar com ela! Uma oportunidade única para se dar bem, mas as coisas, como se verá adiante, não serão como ele espera! 

Comentários:
Certamente a dupla O Gordo e o Magro foi a mais querida do cinema americano em sua era de ouro. Era realmente uma parceria ótima, com Stan Laurel funcionando como a mente pensante da dupla (ele escrevia os roteiros) e Oliver Hardy como um ótimo companheiro de cena, funcionando de forma perfeita como um ator escada para o amigo. Eles fizeram muitos filmes juntos, a maioria com ótima bilheteria, algo que se repetiu no Brasil onde também eram muito queridos pelo público em geral. Aqui temos uma comédia típica deles, um tipo de humor inofensivo e até mesmo bem inocente, fruto de um tempo que não existe mais. Ainda assim, mesmo nos dias atuais, diverte. Stan Laurel era muito talentoso, um daqueles comediantes que não precisavam fazer esforço nenhum para ser engraçado. O mesmo valia para Oliver Hardy. Enfim, uma dupla de gênios do humor cinematográfico. Merecem todo o reconhecimento e aplausos. 

Pablo Aluísio. 

domingo, 4 de janeiro de 2026

Os Filmes de Leonardo DiCaprio - Parte 5

J. Edgar
O novo filme de Clint Eastwood é bem parecido com o personagem que retrata: cinza e burocrático. Explico. A primeira coisa que me chamou atenção nessa produção foi sua fotografia preto, cinza e branco, em clara intenção do cineasta em evitar ao máximo o uso de objetos ou roupas coloridas em cena. A impressão que tive foi que Eastwood queria realizar um filme preto e branco mas como isso seria comercialmente ruim ele acabou rodando esse filme em cores neutras, quase um filme colorido em preto e branco! Já a burocracia do resultado final é fácil explicar: Hoover era um burocrata de Washington, um sujeito de bastidores, que através de várias chantagens com poderosos ao longo dos anos conseguiu se manter como diretor do Bureau Federal de Investigação (FBI). Assim o que vemos em cena basicamente é um homem tramando arapucas e golpes atrás de sua escrivaninha. Claro que o público brasileiro vai ter dificuldade em gostar do filme pois a história é obviamente americana demais, com várias referências históricas que vão passar batido ao público daqui. Outra coisa que me incomodou foi a maquiagem de Leonardo Di Caprio. Achei pouco convincente, mal projetada e nada parecida com o personagem real.

Outro aspecto que tenho a criticar de J. Edgar é o sensacionalismo. Clint Eastwood sempre foi um diretor elegante e fino, mas aqui parece ter ficado absorvido demais com o suposto caso homossexual de Hoover com um agente do FBI. Tantas coisas melhores a explorar na vida do retratado e ele literalmente perde tempo mostrando Hoover trocando olhares apaixonados com seu amado, Hoover trocando carícias com o bofe, Hoover dando beijocas.... Chegou inclusive ao ponto de colocar Hoover de vestido e tudo em cena - precisava mesmo disso? Por que não explorou melhor a conturbada relação de Hoover com os Kennedys e outros presidentes americanos? Ficar mostrando a toda hora o namorico do chefão do FBI cansou um pouco. Enfim, filmar a vida de J. Edgar Hoover não seria mesmo fácil. Tentar mostrar tudo em apenas um filme? Praticamente impossível. Seria melhor de Eastwood focasse em algum evento isolado da vida dele mas como não o fez, o filme acabou realmente ficando incompleto e burocrático. De qualquer forma vale a pena assistir para conhecer a história de J. Edgar Hoover, um personagem tão fascinante quanto sinistro.

J. Edgar (J. Edgar, Estados Unidos, 2011) Direção: Clint Eastwood / Roteiro: Dustin Lance Black / Elenco: Leonardo DiCaprio, Birol Tarkan Yildiz, Armie Hammer, Naomi Watts, Lea Thompson, Josh Lucas, Ed Westwick, Dermot Mulroney, Judi Dench, Stephen Root, Jeffrey Donovan, Michael Gladis / Sinopse: Cinebiografia sobre o ex-diretor do FBI, J. Edgar Hoover (Leonardo DiCaprio), que mostra tanto sua escandalosa carreira, marcada por uma administração dura do FBI e casos de chantagem, quanto seu duradouro romance com Clyde Tolson (Armie Hammer).

Django Livre
Em “Bastardos Inglórios” Quentin Tarantino tentou revisitar, com muito bom humor, um dos mais populares gêneros do cinema da era de ouro, o dos filmes de guerra. Exagerado, over, beirando a paródia completa, “Bastardos Inglórios” dividiu opiniões, sendo odiado por uns e amado por outros. Embora seu desfecho fosse absurdo pelo menos era surpreendente, não há como negar. Agora é a vez do Western servir de alvo para as lentes de Tarantino. “Django Livre” se propõe a ser uma paródia do chamado Western Spaguetti, gênero que se tornou muito popular (inclusive no Brasil) na época de seu auge. A tônica dessas produções era o exagero das cenas de violência e o uso abusivo de trilhas marcantes e onipresentes em cada cena. Os roteiros passavam longe de ser grande coisa mas eram eficientes. Agora o cineasta Tarantino tenta trazer o espírito daquelas produções de volta às telas, tudo mesclado com seu inconfundível toque pessoal.

É curioso porque assim que o projeto foi anunciado esperei por um verdadeiro delírio por parte do diretor pois se o Spaguetti era uma paródia do western americano, o que esperar de uma paródia da paródia? Obviamente um exagero completo, um delírio absoluto! Mas não é isso o que acontece. “Django Livre” pode até mesmo ser considerado conservador em certos aspectos. Não há dúvidas que existem produções Spaguetti que são bem mais violentas ou ousadas que “Django Livre”. Nesse ponto Tarantino foi passado para trás. Assim sobra pouca coisa para se surpreender. Quem é fã do gênero, que acompanha filmes de faroeste com freqüência, simplesmente não vai se impressionar com nada no filme de Tarantino. Nem é ousado e nem surpreendente. Mesmo assim não é um produto ruim, longe disso, só é menos revolucionário do que se esperava (ou melhor dizendo, não é revolucionário em nada).

Um bom western? Sim, não há como negar. O melhor vem dos talentosos atores em cena. O elenco está muito bem, em especial Christopher Waltz e Leonardo DiCaprio. Jamie Foxx como Django não chega a empolgar e nem está tão intenso quanto era de se esperar. Spike Lee reclamou do retrato que foi feito da escravidão negra nos EUA mas sua posição é obviamente um exagero. Os negros aliás estão no centro da trama e o próprio Django é um bom protagonista para o público afrodescendente se identificar. Recentemente “Django Livre” venceu o Globo de Ouro de Melhor Roteiro mas depois de assistir ao filme achei o prêmio um pouco desmerecido. A trama é até banal, sem surpresas, e o filme tem inclusive um problema no último ato que se tornar desnecessário e constrangedor, para não dizer bobo! Os diálogos, que sempre foram a marca registrada do diretor, aqui estão bem escritos mas muito abaixo das outras obras da filmografia de Tarantino. São um pouco acima da média mas nada excepcionais. Além disso o desenrolar da estória é comum, ordinário. Tarantino parece que tremeu nas bases ao se envolver com a mitologia do western.

Ao invés de jogar as bases do gênero para o alto, como fez em “Bastardos Inglórios”, ele aqui não consegue em momento algum se desvincular das regras dos faroestes mais tradicionais. Até a divisão em três atos está de acordo com os dogmas do estilo. Tarantino não alça vôo em momento algum, prefere ficar no chão, ao lado das regras mais caras ao velho e bom western. Não se aproxima de sua tão falada desmistificação, pelo contrário, louva ao seu modo todos os fundamentos desse tipo de filme e se rende à tradição. Assim não vejo motivo algum para toda a badalação que está sendo feita em torno de “Django Livre” pois em essência ele se apresenta como um western dos mais tradicionais, sem qualquer marca mais relevante que o torne uma obra prima ou algo do gênero. Definitivamente não foi dessa vez que o cineasta maravilhou ou deixou surpreendidos os fãs de faroestes. Em conclusão temos aqui um bom western que sobressai pelo elenco inspirado. A trama é sem surpresas e o roteiro bem abaixo do esperado. Não é um filme ofensivo contra os negros, longe disso, e pode ser visto como bom passatempo, muito embora um corte mais bem cuidadoso em sua duração cairia bem. Deve ser conferido mas sem esperar nada grandioso.

Django Livre (Django Unchained, EUA, 2012) Direção: Quentin Tarantino / Roteiro: Quentin Tarantino / Elenco: Jamie Foxx, Christopher Waltz, Leonardo DiCaprio, Samuel L. Jackson, Sacha Baron Cohen, Joseph Gordon-Levitt, Kurt Russell, Kerry Washington, Walton Goggins, James Remar, Don Johnson, Anthony LaPaglia, Tom Savini, James Russo. / Sinopse: King Schultz (Christoph Waltz) é um caçador de recompensas que se une a um escravo chamado Django (Jamie Foxx) para sair na caça de três irmãos que estão com a cabeça a prêmio. Depois do serviço concluído eles resolvem ir atrás da esposa de Django que agora se tornou propriedade de um cruel fazendeiro do sul chamado Calvin Candie (Leonardo DiCaprio). Se fazendo passar por traficantes de escravos eles tentarão resgatar a amada de Django.

O Grande Gatsby
Anos 1920. Nick Carraway (Tobey Maguire) se forma na universidade de Yale e vai até Nova Iorque com o sonho de um dia tornar-se um grande escritor. Enquanto não escreve o livro que mudará sua vida resolve arranjar um emprego na bolsa de valores da cidade. Morando no outro lado da baía ele acaba ficando curioso sobre o seu vizinho, um milionário recluso e misterioso chamado Jay Gatsby (Leonardo DiCaprio). Todas as semanas Gatsby dá grandes festas em sua enorme mansão, em eventos que acabam atraindo todos os tipos de pessoas de Nova Iorque, desde figurões, políticos, estrelas de cinema até gangsters ou qualquer um que queira diversão barata e em larga escala. Apenas Gatsby permanece envolto em uma sombra de mistério nesse clima de grande euforia. Isso faz com que vários boatos sejam espalhados sobre ele como a de que seria um espião alemão, um assassino famoso ou um representante do Kaiser. Nada disso porém se confirma. Intrigado pela curiosidade Nick então resolve conhecer a misteriosa figura. Convidado a uma das festas de Gatsby ele acaba entrando no mundo muito particular do milionário esbanjador e descobre, para sua surpresa, que ele tem especial interesse por sua prima, a doce e mimada Daisy Buchanan (Carey Mulligan), que mora do outro lado da baía. Casada com um herdeiro rico e rude, mal desconfia Nick que ela e Gatsby tem um passado em comum.

Aqui temos a mais nova adaptação para o cinema do famoso livro "O Grande Gatsby" escrito pelo genial F. Scott Fitzgerald. O texto é considerado uma das maiores obras primas da literatura mundial, tendo sido adaptado pelo cinema algumas vezes, sendo a mais conhecida a adaptação feita nos anos 70 com Robert Redford no papel principal. Essa nova incursão no universo de F. Scott Fitzgerald porém se mostra bem decepcionante. O diretor Baz Luhrmann (de "Moulin Rouge", "Austrália" e "Romeu + Julieta") imprime um ritmo um tanto histérico ao enredo, algo que não condiz com as intenções do autor original que sempre se mostrou muito fino, elegante e charmoso ao contar sua estória. E esse é um dos principais problemas dessa nova versão. Falta justamente essa elegância, esse mistério que é tão conhecido dos leitores de F. Scott Fitzgerald. Tentando modernizar o texto para agradar ao público jovem de hoje o cineasta perdeu a própria essência do livro original. Luhrmann tem à sua disposição uma produção luxuosa mas comete pecados em série. Em um deles imprime um ritmo frenético, tolo muitas vezes, para as situações. Também usa e abusa de computação gráfica, o que torna o filme artificial e sem veracidade. Por falar em ambientação histórica o cineasta querendo adotar uma postura moderninha inseriu várias canções atuais no meio do enredo, ignorando a rica música da época em detrimento de canções pop sem qualquer relevância. 

Para piorar o elenco também não está bem. Leonardo DiCaprio imprime ao seu Gatsby uma postura equivocada, onde sai o charme misterioso do personagem original para dar espaço a um inconsequente falastrão. Deu saudades de Robert Redford certamente. Carey Mulligan que sempre considerei uma boa atriz também não conseguiu passar para a tela as nuances psicológicas que movem Daisy. Outra coisa que dá nos nervos é a forma como Baz Luhrmann trata o espectador. Ele se propõe a contar todos os mínimos detalhes da trama em flashbacks desnecessários e bobinhos que nos levam a pensar que ele está convencido que o público que está vendo o filme é na verdade bem idiota para entender a trama. Enfim, temos aqui uma nova versão de Gatsby que ficou pelo meio do caminho, perdido em suas pretensões. Sempre fui da opinião de que se vai adaptar um grande livro para o cinema que o faça direito! Infelizmente não é o caso desse filme.

O Grande Gatsby (The Great Gatsby, Estados Unidos, 2013) Direção: Baz Luhrmann / Roteiro: Baz Luhrmann, Craig Pearce, baseados na obra de F. Scott Fitzgerald / Elenco: Leonardo DiCaprio, Tobey Maguire, Carey Mulligan, Joel Edgerton, Steve Bisley / Sinopse: Jovem aspirante a escritor, Nick (Maguire) acaba ficando fascinado pelo figura de seu vizinho, um milionário de passado misterioso chamado Gatsby (DiCaprio). Após uma aproximação ele acaba descobrindo que o ricaço tem um passado em comum com sua prima, Daisy (Mulligan).

O Lobo de Wall Street
O filme conta a história real de Jordan Belfort ( Leonardo DiCaprio), um vigarista escroque que desejava ficar rico a todo custo. Como conseguir? O mercado de ações logo lhe pareceu o ambiente ideal. Usando de sua lábia de vendedor barato ele começou a negociar ações de empresas do tipo fundo de quintal cobrando por ela pequenas fortunas. Seu alvo eram os aposentados, pessoas mais simples, inocentes, que não conheciam o mercado da bolsa de valores. Em pouco tempo saiu de um escritório de quinta categoria para o ápice em Wall Street, ganhando rios de dinheiro com suas lorotas de mercado. Depois disso vieram as mulheres, as drogas e problemas, muitos problemas decorrentes de seu estilo de vida.

Martin Scorsese gosta de retratar os tipos mais comuns de sua Nova Iorque querida. Depois de ficar anos filmando a história de mafiosos da cidade ele resolveu partir para outro tipo de criminoso, o corretor de bolsa de valores de Wall Street. Para isso comprou os direitos do livro escrito por Belfort que o escreveu enquanto estava atrás das grades cumprindo prisão por inúmeros crimes que cometeu em Wall Street. O interessante é que Scorsese repete certos cacoetes que já havia explorado em filmes como "Cassino" onde colocava sua droga preferida, a cocaína, como símbolo de status e sucesso. O próprio Scorsese foi um viciado inveterado e todas as vezes que resolve lidar com a coca em seus filmes adota um ritmo alucinado, como se ele próprio estivesse cheirado. O filme como um todo é bom, mas tem esse viés narcótico. De qualquer maneira se sobressai novamente o talento de Leonardo DiCaprio, que consegue se sobressair em qualquer tipo de filme. O sujeito é realmente extremamente talentoso.

O Lobo de Wall Street (The Wolf of Wall Street, EUA, 2013) Direção: Martin Scorsese / Roteiro: Terence Winter, baseado no livro de Jordan Belfort / Elenco: Leonardo DiCaprio, Jonah Hill, Margot Robbie / Sinopse: O filme retrata a história de um corretor da bolsa de valores de Nova Iorque que começa a enganar seus clientes para fazer uma fortuna rápida e fácil. Filme indicado ao Oscar nas categorias de Melhor Filme, Melhor Ator (Leonardo DiCaprio), Melhor Ator Coadjuvante (Jonah Hill), Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Direção.

O Regresso
O filme se passa em uma América colonial, praticamente inexplorada pelo homem branco. No velho oeste essas regiões remotas eram exploradas principalmente por caçadores, muitos deles atrás de peles. O problema é que esse era um território dominado por tribos nativas hostis, que, como era de se esperar, recebiam o homem branco da forma mais violenta possível. Leonardo DiCaprio interpreta Hugh Glass, um desses pioneiros que arriscavam a própria vida para explorar o oeste mais selvagem e bravio que você possa imaginar. O roteiro enfoca justamente aspectos da dura vida desses homens nessas lindas, mas mortais regiões. O lado mais romântico dos filmes de western é deixado de lado. A intenção do diretor Alejandro G. Iñárritu foi criar uma obra realista, tanto do ponto de vista histórico, como também humano.

Os nativos são vistos da forma como eram, sem qualquer tipo de revisionismo. Tanto o homem branco que ia para esses lugares, como os indígenas, estavam em uma luta de civilizações. Essa visão politicamente correta que impera nos dias atuais é uma mera visão acadêmica, sem muita ligação com a brutalidade que imperava naqueles tempos. E é esse realismo brutal que marca a maior qualidade desse filme. Além de mostrar a luta entre os homens há também um conflito ainda mais evidente e violento: a luta entre o homem versus a natureza. Essa foi brilhantemente retratada no ataque do urso cinzento contra o personagem de DiCaprio. Poucas vezes uma ataque de uma fera foi tão bem reproduzido nas telas como aqui. Uma cena para não esquecer. Por fim há todos os méritos puramente cinematográficos desse filme. A fotografia é extremamente bem realizada, conseguindo captar toda a beleza da região onde a produção foi realizada. O elenco é dos melhores, não apenas por DiCaprio, em uma atuação extremamente física (que lhe rendeu o tão cobiçado Oscar) como também pelo vilão, em momento inspirado de Tom Hardy (sim, o próprio Mad Max em uma de suas maiores interpretações). O sujeito não tem quaisquer valores morais ou éticos. No ocaso de um mundo que estava prestes a mudar para sempre, o diretor Alejandro G. Iñárritu conseguiu criar mais uma obra prima de sua filmografia.

O Regresso (The Revenant, Estados Unidos, 2015) Direção: Alejandro G. Iñárritu / Roteiro: Mark L. Smith, Alejandro G. Iñárritu / Elenco: Leonardo DiCaprio, Tom Hardy, Will Poulter / Sinopse: Caçador de peles tenta sobreviver em uma região distante e inóspita do velho oeste americano. Para isso ele precisará enfrentar tribos nativas violentas e ataques de feras selvagens.

O Regresso - Texto II
O caçador de peles Hugh Glass (Leonardo DiCaprio) vê seu grupo ser atacado por nativos selvagens em uma região remota do velho oeste. Eles quase não conseguem sair vivos da brutalidade dos indígenas. Precisando encontrar o caminho de volta para sua base ele acaba sendo atacado de forma violenta por um urso cinzento. Praticamente dado como morto, vira alvo do caçador John Fitzgerald (Tom Hardy) que quer deixá-lo para trás. O instinto de sobrevivência de Glass porém falará muito mais alto. "O Regresso" é um filme brutal. Não há outra definição. Também traz a interpretação mais visceral da carreira do ator Leonardo DiCaprio. Praticamente não há quase diálogos para declamar, mas apenas a fúria da luta entre o homem e a natureza. O realismo das cenas impactam desde o começo. É curioso como há um contraste muito presente entre a beleza do lugar onde a estória se passa e a brutalidade inerente da natureza humana entre brancos e nativos. O discurso politicamente correto também não resiste em nenhum momento. A velha ladainha do choque de civilizações não encontra eco nessa batalha pela sobrevivência.

E por falar em sobreviver a qualquer custo a cena mais lembrada da produção (o ataque do urso selvagem contra Glass) resume muito bem a essência desse roteiro. Nesse mundo primitivo não há espaço para o Éden, mas apenas para a guerra em se manter vivo. "The Revenant" assim se revela uma obra prima. O cineasta mexicano Alejandro G. Iñárritu é certamente o diretor mais promissor de sua geração. Confesso que ele nunca havia me impressionado tanto como agora. Não há qualquer dúvida de que "Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)" é uma obra prima do cinema, porém com esse novo filme ele alcançou um novo pico em sua filmografia, algo que poucos esperavam. Certa vez o lendário xerife Wyatt Earp foi perguntado sobre o que achava dos filmes de western que estavam sendo lançados no cinema. Ele disse que o velho oeste americano era muito mais brutal do que aquilo que se via nas telas. Provavelmente se tivesse tido a oportunidade de assistir "O Regresso" o velho homem da lei teria se sentido muito mais familiarizado. O filme é isso, um retrato extremamente bem feito de um tempo onde apenas os mais fortes conseguiam sobreviver. É brutal, mas também é maravilhoso em todos os aspectos.

O Regresso (The Revenant, Estados Unidos, 2015) Direção: Alejandro G. Iñárritu / Roteiro: Mark L. Smith, Alejandro G. Iñárritu / Elenco: Leonardo DiCaprio, Tom Hardy, Will Poulter, Domhnall Gleeson, Forrest Goodluck, Paul Anderson / Sinopse: Hugh Glass (Leonardo DiCaprio) é um caçador que se vê diante de uma realidade brutal, não apenas por causa do clima hostil onde está, como também pela natureza perversa e cruel dos homens. Apesar de ter tudo contra si ele lutará até o fim pela sua sobrevivência, custe o que custar. Filme vencedor do Oscar nas categorias de Melhor Ator (Leonardo DiCaprio), Melhor Fotografia (Emmanuel Lubezki) e Melhor Direção (Alejandro G. Iñárritu). Também vencedor do Globo de Ouro nas categorias de Melhor Ator - Drama (Leonardo DiCaprio) e Melhor Direção - Drama (Alejandro G. Iñárritu).

Pablo Aluísio.

sábado, 3 de janeiro de 2026

Nascido Para Matar

Nascido Para Matar
Não é uma unanimidade, nem entre os admiradores de Kubrick, um dos grandes mestres do cinema. Entretanto é inegável que foi um dos filmes que captaram com mais exatidão a insanidade e a loucura do militarismo. O roteiro dividiu o filme em dois grandes atos bem separados. Nem é preciso entender de cinema para compreender bem isso. No primeiro ato vemos um grupo de jovens sendo treinados. Como a guerra do Vietnã estava a todo vapor fica bem claro que eles serão levados para o front no sudeste asiático. Um dos recrutas logo vira alvo, saco de pancada, de seu sargento. É um sujeito mais gordinho, desajeitado. Tanto mexem com seu psicológico que ele logo surta e tudo termina em tragédia. 

Depois do impacto da cena que encerra a primeira parte do filme os soldados são finalmente enviados para o Vietnã. E aí o filme ganha uma surpreendente carga emocional e psicológica, se tornando mais cadenciado, mais sensorial. E o momento final acontece quando os americanos enfrentam uma atiradora de elite escondida nos escombros da guerra. Enfim, um grande filme de guerra, o que não quer dizer que seja para todos os tipos de públicos. Tão visceral é que se torna um filme realmente para poucos. Em minha opinião foi mais uma prova da genialidade de Stanley Kubrick e os gênios, como bem sabemos, nem sempre são bem compreendidos.

Nascido Para Matar (Full Metal Jacket, Estados Unidos, 1987) Direção: Stanley Kubrick / Roteiro: Stanley Kubrick, Michael Herr, Gustav Hasford / Elenco: Matthew Modine, R. Lee Ermey, Vincent D'Onofrio / Sinopse: A loucura e a insanidade da guerra do Vietnã impactando a vida de jovens americanos enviados para o campo de batalha. Filme indicado ao Oscar na categoria de melhor roteiro adaptado.

Pablo Aluísio.


Em Cartaz: Nascido Para Matar
O filme Nascido para Matar estreou em junho de 1987, dirigido por Stanley Kubrick, e rapidamente se impôs como uma das obras mais discutidas sobre a Guerra do Vietnã. Dividido em partes bem distintas — o treinamento brutal de recrutas fuzileiros navais e a experiência no campo de batalha — o longa apostava em um olhar frio, distanciado e profundamente crítico sobre a desumanização provocada pela guerra. O lançamento foi cercado de expectativa, já que Kubrick não dirigia um filme desde O Iluminado (1980) e era conhecido por seu rigor formal e controle absoluto sobre suas produções.

Em termos de bilheteria, o filme obteve um resultado sólido, embora não explosivo. Produzido com um orçamento estimado em cerca de US$ 17 milhões, arrecadou aproximadamente US$ 120 milhões em todo o mundo, desempenho expressivo para um drama de guerra com abordagem dura e nada sentimental. Nos Estados Unidos, o filme atraiu grande público nas primeiras semanas, impulsionado tanto pela reputação de Kubrick quanto pelo debate gerado por seu conteúdo provocador.

A reação da crítica na época foi majoritariamente positiva, ainda que marcada por controvérsias. O jornal The New York Times escreveu que o filme era “um retrato feroz e implacável da mentalidade militar”, destacando a primeira metade como especialmente poderosa. Já a revista Time afirmou que Kubrick havia criado “um dos filmes de guerra mais perturbadores já feitos, justamente por evitar qualquer forma de heroísmo”, ressaltando o tom clínico e analítico da direção.

Alguns críticos, no entanto, mostraram reservas quanto à estrutura do filme. Roger Ebert, do Chicago Sun-Times, observou que “a segunda metade não atinge a mesma intensidade devastadora da primeira”, embora tenha elogiado a ousadia do projeto como um todo. Em contraste, o Los Angeles Times afirmou que Nascido para Matar era “um filme que não oferece conforto ao espectador — apenas confrontação”, vendo essa característica como um de seus maiores méritos artísticos.

Com o passar dos anos, Nascido para Matar consolidou-se como um clássico do cinema de guerra, frequentemente citado ao lado de Platoon e Apocalypse Now. As críticas publicadas em 1987 já indicavam que o filme não buscava consenso fácil, mas sim provocar reflexão e desconforto. Hoje, ele é lembrado como uma obra essencial de Stanley Kubrick, cuja recepção inicial — marcada por elogios, debates e frases contundentes na imprensa — antecipou seu lugar duradouro na história do cinema.

Nascido em 4 de Julho

Nascido em 4 de Julho
Outro excelente drama de guerra que foi lançado nesse ciclo de filmes sobre a intervenção americana no Vietnã foi esse "Born on the Fourth of July" (Nascido em 4 de Julho, no Brasil). Dirigido também por Oliver Stone esse filme procurava dar voz para os milhares de veteranos que voltaram da guerra com problemas físicos e psicológicos, o que de certa maneira acabou destruindo o resto de suas vidas. O roteiro foi baseado na história real do soldado Ron Kovic. Quando a guerra do Vietnã se tornou um fato consumado, Kovic, empedernido por um sentimento patriótico, resolveu se alistar no exército americano. 

Ele era jovem, promissor, tinha uma bela vida pela frente. Mesmo assim resolveu assumir os riscos em nome da bandeira de seu país. O destino porém lhe reservava um momento trágico. Durante uma operação ele foi atingido por um tiro que lhe custaria os movimentos de suas pernas para sempre. Paralítico, teve que encarar a volta para os Estados Unidos. Inicialmente foi recebido como um herói de guerra, mas o tempo pode ser cruel nesse tipo de situação. Abandonado pela garota que ele considerava o grande amor de sua vida (pois são poucas que aceitam o desafio de enfrentar uma situação como essa), o que antes era orgulho começou a virar desespero.

Seguramente esse filme explora um dos aspectos mais tristes na vida de um veterano que retorna ao lar aleijado. Ele que era um atleta, que tinha um verdadeiro sonho americano pela frente, acaba encontrando apenas um futuro sombrio, um verdadeiro pesadelo. Depois que a ficha cai o que sobra é o alcoolismo, a desilusão e em muitos casos até mesmo o suicídio, pois muitos desses jovens não suportam o peso que agora precisam carregar pelo resto de suas vidas. O diferencial de Ron Kovic foi que ele resolveu adotar uma postura ativa e militante, transformando sua vida numa eterna busca pelo fim de guerras injustificadas como foi a Guerra do Vietnã. Ele acabou assim se tornando um dos mais conhecidos pacifistas veteranos, sempre na mídia denunciando tudo o que estava acontecendo. 

Já indo para o campo puramente cinematográfico temos aqui aquela que talvez seja a melhor atuação da carreira de Tom Cruise. Ele deixou o estigma de galã de lado para interpretar Kovic com uma dedicação fora dos padrões. Por essa época Cruise ainda lutava para ser reconhecido pela academia, procurando ganhar seu próprio Oscar, algo que até agora não aconteceu. Indicado três vezes ao prêmio (sendo uma delas por esse filme), Cruise foi deixando o cinema mais artístico de lado para se esbaldar em filmes puramente comerciais como "Missão Impossível". Pena, acredito que ele teria sido premiado mais cedo ou mais tarde se continuasse a investir em produções como essa.

Pablo Aluísio.


Em Cartaz: Nascido em 4 de Julho
O drama Nascido em 4 de Julho estreou nos cinemas em dezembro de 1989, dirigido por Oliver Stone e estrelado por Tom Cruise, em uma das performances mais marcantes de sua carreira. Baseado na autobiografia de Ron Kovic, o filme acompanha a trajetória de um jovem patriota americano que se alista para lutar na Guerra do Vietnã e retorna para casa paraplégico, profundamente desiludido com o governo e com os ideais que antes defendia. O lançamento foi cercado de expectativa, tanto pelo tema político sensível quanto pela transformação de Cruise, até então mais associado a papéis comerciais, em um personagem denso e trágico.

Em termos de bilheteria, o filme foi um grande sucesso comercial e crítico. Com um orçamento estimado em cerca de US$ 18 milhões, arrecadou aproximadamente US$ 161 milhões em todo o mundo, sendo mais de US$ 70 milhões apenas nos Estados Unidos. O desempenho consolidou o filme como um dos dramas mais rentáveis de 1989 e reforçou o prestígio de Oliver Stone como um dos principais cineastas políticos de Hollywood naquele período.

A recepção da crítica foi amplamente positiva no momento do lançamento. O jornal The New York Times escreveu que o filme era “furioso, eloquente e profundamente perturbador”, destacando a forma direta com que Oliver Stone expunha as feridas abertas da guerra do Vietnã. Já a revista Time descreveu a obra como “um épico emocionalmente devastador, contado com raiva, compaixão e urgência moral”, ressaltando o impacto político e humano da narrativa.

Grande parte dos elogios concentrou-se na atuação de Tom Cruise. O Los Angeles Times afirmou que o ator entregava “a melhor e mais arriscada interpretação de sua carreira”, enquanto o Chicago Sun-Times, em crítica assinada por Roger Ebert, declarou que Cruise “desaparece completamente no papel de Ron Kovic, guiando o espectador por uma jornada de dor, revolta e amadurecimento político”. Essas avaliações ajudaram a mudar a percepção crítica sobre o ator, até então visto como um astro essencialmente comercial.

No circuito de prêmios, Nascido em 4 de Julho confirmou sua força: venceu dois Oscars (Melhor Diretor e Melhor Montagem) e recebeu oito indicações, incluindo Melhor Filme e Melhor Ator para Tom Cruise. Com o passar dos anos, o filme consolidou-se como um dos retratos mais contundentes da Guerra do Vietnã já produzidos pelo cinema americano. As frases publicadas nos jornais e revistas de 1989 deixam claro que, desde seu lançamento, a obra foi reconhecida não apenas como um drama poderoso, mas como um manifesto cinematográfico sobre patriotismo, trauma e desilusão.