sábado, 1 de abril de 2017

Paul McCartney e os Wings

Os Beatles estavam destruídos. Por volta de 1969 Paul já sabia que o grupo não iria mais muito longe. Durante uma reunião na Apple (a empresa fundada pelo grupo) em Londres, Paul propôs que os Beatles tinham que voltar a fazer shows ao vivo. Ele lançou a proposta de fazer concertos em pequenos lugares, para pequenos públicos, talvez até mesmo usando outro nome, que não fosse Beatles. Era uma volta aos primeiros anos, para recuperar o prazer de tocar ao vivo.

A resposta de John Lennon para a proposta de Paul foi a pior possível. Ele encarou o colega de banda e disparou: "Eu acho que você está louco, Paul!". John não tinha a menor intenção de tocar ao vivo de novo com os Beatles. O mesmo acontecia em relação a George Harrison. O pior aconteceu depois quando Lennon e Harrison trocaram socos por causa de uma desavença de negócios. Era isso, os Beatles se odiavam, não queriam mais trabalhar uns com os outros e a chegada de um novo empresário, não aceito por Paul, acabou decretando o fim do conjunto. Paul anunciou publicamente que estava fora e com isso abriu-se uma caixa de Pandora, com inúmeros processos e brigas sem fim.

Paul McCartney sabia que mais cedo ou mais tarde ele teria que voltar para a estrada. Embora tenha ficado financeiramente bem no fim dos Beatles o fato é que ele perdeu muito dinheiro ao longo dos anos. Nem sequer tinha mais os direitos sobre as próprias músicas que havia escrito - algumas delas entre as mais populares do século. O empresário Allen Klein que havia sido contratado por John Lennon enfrentava acusações de que estava roubando os Beatles e a Apple. Foi tudo muito feio, muito trágico.

Paul não queria deixar os Beatles, para falar a verdade. Ele superou várias crises causadas pelos demais membros. Ringo, por exemplo, disse que ia deixar os Beatles ainda na época do White Album. Um dia ele simplesmente se levantou da bateria e foi embora. Só com muita diplomacia por parte de Paul ele decidiu voltar. George Harrison era um dos mais problemáticos. Ele não aceitava as sugestões de McCartney e se irritava com qualquer coisa, qualquer observação. Embora posasse como Hare Krishma, Harrison tinha uma personalidade extremamente difícil, era temperamental, tinha sempre uma frase mordaz para dizer e ofendia Paul diretamente. E John não ajudava em nada. Ele estava obcecado por Yoko Ono. Assim para Paul não sobrou outra alternativa do que pegar seu boné, ir embora e formar uma nova banda de rock. Ela já tinha até nome: Wings! Uma nova fase em sua carreira estava prestes a começar.

Logo no comecinho dos anos 70 Paul McCartney resolveu viajar para os Estados Unidos, para Nova Iorque. Ele tinha planos de gravar seu novo disco lá. O repertório era composto basicamente por canções compostas por Paul em sua fazenda na Escócia. Tudo foi feito da forma mais informal possível. Paul alugou um velho estúdio punk, que pertencia a um dos membros dos Ramones. Não era um estúdio sofisticado, nem tinha conforto algum. Na realidade parecia mais um velho porão cheio de poeira. Para Paul porém tudo estava bem, ele gostou do clima mais rústico do lugar. Obviamente Paul não queria repetir a experiência de seu primeiro disco solo, "McCartney" onde ele tocou todos os instrumentos, gravando o disco praticamente sozinho. Assim ele tinha que contratar músicos para acompanhá-lo. Todos os contatos foram feitos pessoalmente por Paul, sem a interferência de produtores, empresários, etc. Paul ligou pessoalmente para os músicos, os convidando para a sessão de gravação. Não haveria contratos escritos, nem nada do tipo. Paul pagaria pelo dia de gravação e após um aperto de mão hippie tudo estaria resolvido.

O primeiro contratado foi o baterista Denny Seiwell que mal sabia que estava prestes a gravar um disco ao lado do ex-beatle. Paul quis contratá-lo por uma semana. O pagamento foi feito e tudo estava resolvido. Dave Spinozza foi chamado para uma das guitarras. Paul queria que ele gravasse por seis dias, mas Dave já tinha compromissos e ele só poderia tocar por três dias. Por fim outro guitarrista foi contratado, Hugh McCracken. Era uma banda bem básica, sem luxos. Os trabalhos então começaram. Esse pacote de canções não se destacaria dentro da carreira de Paul, a não ser duas faixas que se tornariam hits, a bem elaborada "Uncle Albert / Admiral Halsey" e "Another Day" que se tornaria o primeiro single de grande sucesso da carreira solo de Paul. Depois das sessões em Nova Iorque Paul, Linda e as crianças viajaram para Los Angeles. onde o álbum seria mixado. McCartney resolveu chamar seu novo disco de "Ram", uma expressão que significava manter-se firme, aguentar o tranco. Era justamente o que Paul tinha que passar na época. Em breve ele teria que voltar para Londres para as tediosas sessões de julgamento do fim dos Beatles, onde Paul estava processando Allen Klein, o desonesto empresário dos Beatles. Paul também estava com pressa no lançamento de seu novo disco porque estava completamente sem dinheiro. Klein havia suspenso o pagamento de seus direitos na época dos Beatles e a parte que lhe cabia no selo Apple. Era imperativo colocar o novo disco nas lojas pois Paul estava completamente descoberto na questão financeira.

Depois de gravar "Ram" Paul se convenceu que precisava formar uma nova banda. Ele sentiu falta de gravar com um conjunto de verdade e não apenas com músicos contratados de estúdio. Inicialmente Paul pensou em formar um super grupo de rock, com Eric Clapton, Pete Townshend, Billy Preston e outros feras do rock mundial. Só a nata da música, porém depois desistiu dessa ideia pois não se sentia muito confortável de ter que passar por tudo de novo, com brigas de egos e confusões, como havia acontecido com os Beatles. Era melhor formar um novo grupo com músicos menos conhecidos, mas que fossem bons o suficiente para fazer um bom trabalho, tanto em estúdio, como em concertos ao vivo. Nesse aspecto um dos nomes que vieram à mente de Paul foi o de Denny Laine, do grupo The Moody Blues. Esse conjunto havia sido empresariado por Brian Epstein, o mesmo empresário dos Beatles, por isso Paul conhecia Laine muito bem, desde os primeiros tempos dos Beatles, quando ambos excursionavam juntos pela Inglaterra. Paul gostava de seu estilo e sabia que o The Moody Blues estava com a carreira praticamente estagnada, sem um sucesso há anos. Convidar Laine assim se tornou algo natural. Para o guitarrista o convite caiu do céu pois ele estava passando por dificuldades financeiras, com pilhas de contas para pagar. Sem trabalhar há muito tempo, a proposta de fazer parte do Wings foi realmente uma salvação.

O outro nome que Paul pensou para o grupo foi o da sua própria esposa Linda. Se John havia colocado Yoko Ono em sua banda, Paul faria o mesmo com sua patroa. O problema é que Linda era uma excelente fotógrafa, mas jamais havia tocado nenhum instrumento. Sua habilidade musical era zero. Ok, Linda havia participado timidamente da gravação de "Let It Be", fazendo vocais de apoio, mas se tornar uma das "instrumentistas" do Wings já era demais. Paul porém estava decidido e Linda entrou para a banda. Ele lhe ensinou alguns acordes no teclado, só para que ela não ficasse o palco parada, sem ter o que fazer. O núcleo central dos Wings estava completo, com Paul, Denny e Linda. Essa seria a sua formação básica, até que Paul teve uma ideia maluca! Será que John Lennon aceitaria fazer parte dos Wings? John era, segundo as próprias palavras de Paul, o único ex-Beatle que gostaria de trabalhar novamente. Eles estavam juntos desde a adolescência e Paul sabia que John era o parceiro ideal. As relações com George estavam péssimas desde as sessões de "Let It Be" e Paul não tinha a menor intenção de trabalhar de novo com ele. Ringo era apenas o baterista, não fazendo grande diferença, mas John... bem, John era o grande parceiro de sua vida! Só que após algumas semanas Paul chegou na conclusão que John jamais aceitaria tal convite depois da separação dos Beatles. Era uma ideia bizarra demais para virar realidade.

Pablo Aluísio. 

7 comentários:

  1. Music! - Pablo Aluísio
    Paul McCartney e os Wings - Parte 1
    Todos os direitos reservados.

    ResponderExcluir
  2. Wings pode ser traduzido, no caso do Paul, como "muletas", pois se existe um artista que não precisava de uma banda este era o Paul McCartney. Para se apresentar ao vivo no máximo músicos de apoio como o Elvis fazia. O Wings só existiu porque o Paul não conseguia se ver sem um banda depois da tsunami que havia sido os Beatles. Ele simplesmente se sentia, se não aleijado, manco.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Pode até ser amigo, mas o WINGS provou ser uma grande banda, deixando muitos clássicos para a eternidade. Sou fão dos WINGS. Me desculpe quem não é.

      Excluir
  3. É incrível saber como um sujeito como Paul McCartney não tinha confiança em seu próprio nome para erguer uma carreira solo! Precisou criar uma banda fake para recomeçar!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Não me leve a mal, mas vc não deve ser daquela época, porque era muito bom curtir os lançamentos dos WINGS. Deny Lane sempre foi um bom músico, Paul não ficaria com ele tanto tempo se não fosse, por isso e muito mais os WINGS não foram banda fake como vc disse, basta ouvir seus discos com atenção. Paul era o cara da banda, mas sempre abriu espaço para os outros músicos da banda. Assista ROCK SHOW.

      Excluir
    2. Mas claro que os discos dos Wings são ótimos, nunca questionei isso. O termo "banda fake", embora seja um pouco duro, quer apenas demonstrar que no fundo, se Paul realmente quisesse, ele não precisaria dos Wings para gravar os discos que fez. Claro que alguns músicos do Wings eram talentosos, se não fossem não teriam trabalhado com Paul, porém realmente o ex-Beatle não precisava deles.

      Excluir
  4. Ainda era um jovem imaturo num turbilhão de acontecimentos incontroláveis. Deve ser difícil.

    ResponderExcluir