sábado, 22 de julho de 2017

The Doors - L.A. Woman - Parte 1

Jim Morrison já estava completamente destruído por todos os excessos quando os Doors se reuniram para a gravação de mais um álbum - que iria se tornar o último com o Rei Lagarto nos vocais. Esse disco, todos os fãs sabem, bem poderia se chamar "The Doors Blues Album" porque realmente a levada é de homenagem ao bom e velho blues. Jim estava particularmente interessado no ritmo e não era apenas porque frequentava todos os dias bares de blues em Los Angeles para encher a cara ao lado de seus parças  caminhoneiros e motoqueiros. O sucesso do disco anterior, "Morrison Hotel", se tornou um inegável êxito de público e crítica, abrindo o caminho para esse tipo de som, se mostrando bem viável para Jim e seus colegas de banda.

De todas as faixas uma das mais representativas é justamente essa "Crawling King Snake". Esse é um blues antigo, clássico, um verdadeiro standart. Presume-se (ninguém tem certeza) que a canção foi composta por cantores de blues de cabarés na década de 1920. Só depois vieram as primeiras gravações. Naquela época os compositores e cantores de blues eram considerados vagabundos, artistas que vendiam suas criações em troca de uma garrafa de whisky, as gravando em pequenos estúdios do tipo fundo de quintal. Assim as origens de músicas como essa acabavam se perdendo nas areias do tempo. A versão de Morrison bebe diretamente (sem trocadilhos infames, por favor!) da gravação de John Lee Hooker dos anos 1940. Em minha opinião essa versão dos Doors é inclusive superior às gravadas por Howlin' Wolf e Muddy Waters, Um registro excelente, com muita alma e espírito (provavelmente vindo diretamente das entidades que norteavam a mente do embriagado Morrison). Melhor do que isso, impossível.

Outro blues, "The Changeling", foi escolhida para abrir o álbum. Aqui Jim Morrison fez um pedido inusitado. Ele queria um arranjo diferenciado, algo que remetesse aos velhos bares de beira de estrada da Louisiana. Assim o produtor da Elektra Records criou um som bem diferente mesmo. Um crítico do New York Times chegou a dizer que a música tinha um som que fazia lembrar uma serpente ou uma cobra à beira da estrada. Jim que adorava répteis provavelmente adorou esse sentido, essa interpretação. Na letra Jim incorpora um andarilho, um homeless (sem-teto)! Um sujeito livre, que vive em todos os lugares em troca de alguns trocados dados pelos transeuntes. Nada das velhas amarras da sociedade. Jim Morrison sempre teve um interesse a mais nos que viviam à margem, os ditos marginalizados pelo status quo.

"The WASP (Texas Radio and the Big Beat)" soava por sua vez como se você estivesse dirigindo por alguma estrada do Texas e sintonizasse uma rádio de blues no dial. A sigla WASP era uma referência aos brancos, aos protestantes, aos anglo-saxões, considerados "a nata" da sociedade americana. Essa sigla inclusive foi usada por organizações racistas para classificar o que era um "verdadeiro americano", pessoas bem acima do restante da escória, ou seja, dos negros, dos latinos, dos imigrantes e de todos aqueles que não se enquadrassem na visão racista e canalha da Klan. Jim obviamente usou o WASP como ironia, como crítica, como uma forma de debochar da mentalidade dessa gente. Jim incorpora um DJ na música e declama versos como esse: "Os negros brilhantemente enfeitados na selva / Estão dizendo "Esqueçam as noites" / Vivam conosco na floresta azulada / Aqui fora no perímetro não há estrelas / Aqui estamos petrificados - imaculados.". Morrison estava particularmente inspirado para escrever letras nesse disco.

Pablo Aluísio.

5 comentários:

  1. The Doors - LA Woman - Parte 1
    Pablo Aluísio
    Todos os direitos reservados.

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  2. Pablo:

    Para mim da a impressão que o Curt Cobain, devido a rebeldia, força da interpretação, beleza, trajetória e, até, o final igualmente trágico aos 27 anos, é um Jim Morrison da década de "90. Você também tem essa impressão?

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  3. Ele foi uma versão mais trágica, mais sangrenta e mais psicótica do Jim Morrison, em versão anos 90, estilo grunge!

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  4. É assim que vejo. Que coincidência estranha, não?

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  5. Sem dúvida... viva rápido e morra tragicamente aos 27...

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