sexta-feira, 14 de janeiro de 2000

Cine Review - Labirinto

Labirinto
O filme Labirinto (Labyrinth) foi lançado nos Estados Unidos em 27 de junho de 1986, com direção de Jim Henson, criador dos Muppets e uma das figuras mais importantes da fantasia audiovisual do século XX. O elenco é liderado por David Bowie, em uma de suas performances mais icônicas no cinema, interpretando Jareth, o Rei dos Duendes, e por Jennifer Connelly, então ainda muito jovem, no papel de Sarah. Completam o elenco principal diversos personagens criados com animatrônicos e marionetes desenvolvidos pelo Jim Henson’s Creature Shop. A história acompanha Sarah, uma adolescente sonhadora e frustrada com suas responsabilidades familiares, que acidentalmente deseja que seu irmão bebê seja levado por Jareth. Quando percebe as consequências de suas palavras, ela é lançada em um mundo fantástico repleto de criaturas estranhas, desafios e enigmas, sendo obrigada a atravessar um enorme labirinto para resgatar o menino. O ponto de partida do filme estabelece uma jornada de amadurecimento, onde fantasia e realidade se misturam, sem jamais revelar o desfecho dessa aventura.

No momento de seu lançamento, Labirinto recebeu uma reação crítica bastante mista por parte da imprensa americana. O The New York Times descreveu o filme como “visualmente inventivo, mas narrativamente irregular”, destacando o trabalho técnico enquanto questionava a força dramática da história. O Los Angeles Times elogiou a imaginação visual e o design de produção, afirmando que o filme era “um espetáculo artesanal raro em uma indústria cada vez mais dependente de efeitos mecânicos”. Já a revista Variety observou que a obra parecia indecisa quanto ao seu público-alvo, oscilando entre um tom infantil e elementos mais sombrios. Muitos críticos reconheceram o charme singular do universo criado por Jim Henson, mas apontaram dificuldades no ritmo e na construção do roteiro, especialmente para espectadores adultos.

O The Washington Post comentou que o filme possuía “momentos de puro encanto visual”, mas carecia de uma narrativa mais envolvente, enquanto a The New Yorker classificou a produção como “uma fantasia belamente construída que nem sempre encontra uma base emocional sólida”. A atuação de David Bowie dividiu opiniões: alguns críticos elogiaram seu carisma e presença magnética, enquanto outros consideraram o tom exagerado e deslocado. Ainda assim, houve consenso quanto à originalidade estética do filme, com elogios frequentes aos cenários, figurinos e criaturas. No balanço geral da época, Labirinto foi visto como uma obra criativa e ambiciosa, porém falha em alcançar plenamente seu potencial, resultando em uma recepção crítica morna e sem grande entusiasmo imediato.

Comercialmente, Labirinto teve um desempenho abaixo do esperado. Produzido com um orçamento estimado em cerca de US$ 25 milhões, o filme arrecadou aproximadamente US$ 12,9 milhões nas bilheterias dos Estados Unidos, tornando-se um fracasso comercial inicial. No mercado internacional, a arrecadação ajudou a amenizar as perdas, mas não foi suficiente para transformar o filme em um sucesso financeiro na época de seu lançamento. O resultado decepcionante impactou negativamente os planos de Jim Henson para projetos semelhantes no cinema, reforçando a percepção do estúdio de que fantasias elaboradas desse tipo enfrentavam dificuldades comerciais em meados dos anos 1980. Apesar disso, o filme encontrou uma segunda vida no mercado de vídeo doméstico e nas exibições televisivas ao longo dos anos seguintes.

Nos dias atuais, Labirinto é amplamente reconhecido como um filme cult, sendo muito mais valorizado do que em sua estreia. A obra passou a ser celebrada por sua estética artesanal, pela trilha sonora marcante e pela performance memorável de David Bowie. Críticos contemporâneos frequentemente destacam o filme como um exemplo raro de fantasia autoral dentro do cinema comercial dos anos 1980. A jornada de amadurecimento de Sarah passou a ser reinterpretada sob leituras simbólicas e psicológicas, aumentando o prestígio crítico da obra. Hoje, Labirinto é considerado um clássico cult, frequentemente citado como uma das produções mais queridas e singulares da filmografia de Jim Henson.

Labirinto (Labyrinth, Estados Unidos, Reino Unido, 1986) Direção: Jim Henson / Roteiro: Terry Jones e Jim Henson (história baseada em conceito de Jim Henson, com personagens desenvolvidos pelo Jim Henson Company) / Elenco: David Bowie, Jennifer Connelly, Toby Froud, Shelley Thompson, Brian Henson, Ron Mueck / Sinopse: Uma jovem é forçada a atravessar um mundo fantástico repleto de criaturas e enigmas após fazer um desejo impulsivo, enfrentando desafios que colocam à prova sua coragem, imaginação e senso de responsabilidade.

Erick Steve.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2000

Cinema Review - Verão de Fogo

Título no Brasil: Verão de Fogo
Título Original: Summer City
Ano de Lançamento: 1977
País: Austrália
Estúdio: South Australian Film Corporation
Direção: Christopher Fraser
Roteiro: Christopher Fraser
Elenco: Mel Gibson, John Jarratt, Steve Bisley, Debra Lawrance, Philippa Coulthard, Noel Ferrier

Sinopse:
Durante o verão australiano, um grupo de jovens surfistas passa seus dias entre ondas, festas, romances e pequenas transgressões. Enquanto aproveitam a liberdade e a energia da juventude, eles também enfrentam conflitos pessoais, rivalidades e as consequências de decisões impulsivas. Aos poucos, o clima descontraído dá lugar a situações mais sombrias, revelando o fim da inocência e a transição dolorosa para a vida adulta.

Comentários:
O primeiro filme de Mel Gibson para o cinema foi "O Último Verão", uma fita sobre quatro amigos que resolvem viajar pela Austrália em busca da onda perfeita. Os personagens eram surfistas (inclusive Gibson) e o roteiro era, para ser bem educado, completamente primário. Um filme que foi renegado pelo próprio Gibson anos depois. Durante uma entrevista o ator, perguntado sobre seu primeiro filme, foi enfático, descartando a produção, a chamando de ridícula. Realmente o título original era bem adequado, "Summer City", pois esse era inevitavelmente um filme vazio de verão, com surf, praias, garotas e nada mais. Não era mesmo nenhuma obra cinematográfica mais relevante. Se não fosse pela participação de Mel Gibson no elenco esse filme já teria sido esquecido completamente.

Pablo Aluísio. 

Cinema Review - Força de Ataque Z

Título no Brasil: Força de Ataque Z
Título Original: Attack Force Z
Ano de Lançamento: 1981
País: Austrália
Estúdio: International Film Management
Direção: Tim Burstall
Roteiro: Ron McLean, Tim Burstall
Elenco: Mel Gibson, Sam Neill, John Phillip Law, Chris Haywood, Steve Bisley, Peter Cummins

Sinopse:
Durante a Segunda Guerra Mundial, um pequeno grupo de comandos aliados recebe uma missão praticamente suicida no Pacífico: infiltrar-se em território ocupado pelos japoneses para resgatar um general capturado e destruir uma base estratégica inimiga. Liderada por oficiais experientes, a equipe enfrenta traições, conflitos internos e combates intensos em meio à selva, onde a sobrevivência depende tanto da estratégia quanto da lealdade entre os homens.

Comentários:
Um desses filmes de sua fase australiana final foi o filme de guerra "Força de Ataque Z". A história se passava na II Guerra Mundial, quando um comando de militares australianos embarcavam numa missão contra as forças do Japão imperial. Gibson interpretava uma capitão chamado John Kelly nessa produção que se não chegava a ser uma obra prima, pelo menos cumpria bem seus objetivos no quesito diversão. No elenco havia ainda outro bom ator que também iria fazer carreira no cinema americano, o versátil Sam Neill. Mel Gibson e Sam Neill aparecem juntos no início de suas carreiras, antes de se tornarem estrelas internacionais. A produção se insere na tradição australiana de filmes de guerra de baixo orçamento, com forte foco em ação e camaradagem.

Pablo Aluísio. 

quarta-feira, 12 de janeiro de 2000

Cine Review - Tuff Turf: O Rebelde

Tuff Turf: O Rebelde
Quem é mais jovem provavelmente só conhece o ator James Spader por causa da série "Lista Negra". Porém quem é fã veterano de cinema lembra de outra fase da carreira desse ator. Lembra dos anos 80 quando ele se especializou em fazer papéis de jovens riquinhos e malvados, principalmente nos filmes memoráveis de adolescentes dirigidos pelo genial John Hughes. Pois bem, esse filme "Tuff Turf: O Rebelde" é justamente dessa época. Claro que os melhores filmes sobre rebeldes foram feitos nos anos 1950, mas é aquela coisa, certos nichos cinematográficos resistem ao passar dos anos. Nunca morrem e estão sempre se renovando, de uma maneira ou outra.

Não é dos melhores filmes do Spader nessa fase de sua vida, temos que reconhecer bem isso. Entretanto fez um sucesso considerável no Brasil por ter sido lançado em VHS por aqui pelo selo SBT Vídeos. Isso mesmo, o Silvio Santos entrou no mercado das locadoras de vídeos nos anos 80 e promoveu demais essa fita em seu canal de TV. Talvez justamente por essa razão esse filme tenha ficado tão conhecido entre os jovens brasileiros. No geral é uma fita B que até tem seus bons momentos, mas certamente durante a década de 1980 o James Spader fez coisa muito, mas muito melhor.

Tuff Turf: O Rebelde (Tuff Turf, Estados Unidos, 1985) Direção: Fritz Kiersch / Roteiro: Jette Rinck, Greg Collins O'Neill / Elenco: James Spader, Kim Richards, Paul Mones, Matt Clark / Sinopse: O novo garoto da escola, o novato, deve lutar contra uma gangue de jovens valentões do bairro depois de roubar a garota do líder dasse grupo de delinquentes.

Pablo Aluísio.


Em Cartaz: Tuff Turf - O Rebelde
Tuff Turf – O Rebelde chegou aos cinemas em 1985, dirigido por Fritz Kiersch e estrelado por James Spader, com Kim Richards no papel feminino principal. O filme se insere diretamente na onda de dramas juvenis dos anos 1980, explorando conflitos de classe, violência urbana e romance proibido. A história acompanha um jovem rico que se muda para um bairro dominado por gangues e acaba se envolvendo em confrontos físicos e emocionais que testam sua identidade e seu lugar naquele ambiente hostil.

Do ponto de vista comercial, Tuff Turf teve uma bilheteria modesta, sem alcançar o sucesso de títulos contemporâneos mais populares do gênero, como The Karate Kid ou Footloose. Ainda assim, o filme conseguiu boa circulação nos cinemas de bairro e posteriormente ganhou visibilidade no mercado de vídeo doméstico, onde encontrou um público fiel entre adolescentes e jovens adultos. A trilha sonora, com forte presença de rock e new wave, também ajudou a manter o filme em evidência além de sua passagem inicial pelas salas.

A recepção crítica em 1985 foi predominantemente negativa, embora não totalmente hostil. O The New York Times descreveu o longa como “um drama juvenil previsível, sustentado mais pelo estilo do que pela substância”, observando que a narrativa seguia fórmulas já conhecidas do cinema adolescente da época. Já a Variety comentou que o filme era “energeticamente encenado, mas dramaticamente raso”, destacando que o roteiro não aprofundava de forma convincente os conflitos sociais que propunha abordar.

As atuações, no entanto, receberam atenção especial. James Spader foi citado por alguns críticos como um ator carismático, ainda em início de carreira, capaz de transmitir vulnerabilidade e arrogância ao mesmo tempo. Jornais regionais americanos chegaram a afirmar que Spader “tem presença de astro, mesmo quando o material não o favorece”, enquanto Kim Richards foi vista como adequada ao papel, embora limitada por um roteiro pouco desenvolvido.

Com o passar dos anos, Tuff Turf – O Rebelde passou a ser reavaliado como um típico produto de seu tempo, mais lembrado por sua estética oitentista — figurinos, trilha sonora e clima urbano — do que por seus méritos narrativos. Embora não tenha sido um sucesso crítico nem comercial em 1985, o filme conquistou status de cult menor, especialmente entre fãs de James Spader e do cinema juvenil da década. Hoje, é visto como um retrato cru e estilizado das ansiedades adolescentes daquele período, ainda que preso às convenções de sua época.

Cinema Review - Tim - Anjos de Aço

Título no Brasil: Tim - Anjos de Aço
Título Original: Tim
Ano de Lançamento: 1979
País: Austrália
Estúdio: Australian Film Commission
Direção: Michael Pate
Roteiro: Michael Pate
Elenco: Mel Gibson, Piper Laurie, Alwyn Kurts, Pat Evison, Paul Sonkkila, Frank Gallacher

Sinopse:
Tim Melville (Mel Gibson) é um jovem com deficiência intelectual que trabalha como jardineiro e leva uma vida simples e protegida. Sua rotina muda quando ele conhece Mary Horton (Piper Laurie), uma mulher americana madura, solitária e emocionalmente fragilizada. Entre os dois nasce uma relação delicada e inesperada, que desafia convenções sociais e preconceitos. O filme acompanha o crescimento emocional de Tim e o impacto transformador desse vínculo para ambos.

Comentários: 
Antes de ir embora para a América Mel Gibson rodou um novo filme na Austrália. O filme se chamava "Tim - Anjos de Aço". Esse roteiro deu oportunidade para Gibson mostrar que era muito mais do que apenas um patrulheiro rodoviário em um mundo destruído. Seu personagem se chamava Tim Melville, um rapaz com retardo mental que trabalhava em pequenos serviços, como jardineiro, etc. Interpretar alguém excepcional, com necessidades especiais, foi um grande desafio para Mel que pegou gosto pelo drama e pelos enredos mais edificantes. Claro, ele estava prestes a se tornar um dos mais populares atores do gênero ação nos Estados Unidos, mas ao mesmo tempo sempre iria procurar por desafios como esse em sua futura carreira.

Pablo Aluísio. 

terça-feira, 11 de janeiro de 2000

The Beatles - Nova música dos Beatles?

Nova música dos Beatles?
O Paul McCartney soltou essa informação em uma recente entrevista na BBC. Haveria sim uma música inédita dos Beatles a ser lançada no mercado. Mas afinal que música seria essa? Acredita-se que seja a velha conhecida "Now and Then". Se for mesmo não tem novidade nenhuma nessa questão. 

Pior do que isso, essa canção já havia sido descartada por George Harrison no projeto Anthology. Seria a música trabalhada pelos 3 Beatles sobreviventes a ser lançado no "Anthology 3" nos mesmos moldes de "Free as a Bird" e "Real Love". Só que na época George Harrison achou a música fraca demais e disse que não iria trabalhar nela. Paul ficou desapontado e o CD saiu sem nenhuma novidade. 

Ao meu ver "Now and Then" é uma demo amadora muito mal acabada por John Lennon. Não haveria sentido em lança-la agora. John estava testando músicas para o álbum "Milk and Honey" e essa era uma das músicas que ele tentava finalizar. A questão é que se trata de um esboço, um borrão. Acredito que nem John Lennon estaria disposto a lança-la no mercado do jeito que estava. Era algo muito cru e primitivo. 

No caso acredito que Paul McCartney está pensando somente no lado financeiro da questão. Lançada como "A nova música dos Beatles" certamente iria vender muito e colocar os Beatles na mídia, como aliás já fez nesses últimos dias, sendo anunciada até mesmo no Jornal Nacional. Mas a despeito de tudo isso é bom ficar com as barbas de molho. Não tem muita novidade se formos pensar bem. 

Pablo Aluísio. 

George Harrison - O Guitarrista dos Beatles

Ao se falar de George Harrison na época dos The Beatles, é impossível ignorar a sensação de que seu talento foi, por muito tempo, subestimado dentro da própria banda. Enquanto John Lennon e Paul McCartney dominavam a composição e os vocais principais, Harrison ocupava um espaço secundário. Ele era o guitarrista solo, responsável por linhas marcantes e arranjos refinados, mas tinha pouca abertura para apresentar suas próprias canções. Nos primeiros discos, sua contribuição autoral era mínima, muitas vezes limitada a uma ou duas faixas. Isso criava um desequilíbrio criativo evidente. Mesmo sendo parte fundamental da sonoridade do grupo, sua voz artística demorou a ser plenamente reconhecida. A hierarquia interna parecia consolidada desde o início. Lennon e McCartney formavam uma dupla praticamente imbatível. Harrison, por sua vez, precisava lutar por espaço.

Nos álbuns iniciais como “Please Please Me” e “With The Beatles”, a liderança criativa da dupla era absoluta. Harrison ainda buscava amadurecer como compositor, mas também enfrentava resistência natural dentro da dinâmica do grupo. A parceria Lennon-McCartney era incentivada pela gravadora e pelo empresário Brian Epstein, o que reforçava a centralização das composições. Isso não significava falta de talento por parte de George, mas sim um contexto que favorecia dois líderes criativos muito fortes. Muitas vezes, suas músicas nem sequer eram consideradas com a mesma atenção. Ele próprio declarou em entrevistas que precisava insistir para que suas canções fossem ouvidas. Essa situação gerava frustração silenciosa. Ao mesmo tempo, ele continuava evoluindo tecnicamente. Sua guitarra ajudava a definir a identidade musical da banda. Mas como compositor, ainda estava à margem.

A partir de “Help!” e especialmente em “Rubber Soul”, começou a surgir um Harrison mais confiante. Canções como “If I Needed Someone” mostravam que ele estava alcançando um nível sofisticado de composição. Mesmo assim, o espaço no repertório continuava limitado. A estrutura dos álbuns geralmente reservava a maioria das faixas para Lennon e McCartney. George frequentemente tinha direito a apenas duas músicas por disco. Isso contrastava com a qualidade crescente de seu material. Ele também começava a se interessar profundamente pela música indiana. Sua aproximação com Ravi Shankar ampliou os horizontes sonoros do grupo. Apesar disso, internamente ainda era visto como o “terceiro compositor”. O reconhecimento vinha mais de fora do que de dentro. E isso alimentava uma tensão criativa.

No período de “Revolver”, Harrison apresentou “Taxman”, uma crítica mordaz ao sistema tributário britânico. A música abriu o álbum, demonstrando que seu talento já era inegável. Mesmo assim, a dinâmica interna pouco mudou. Lennon e McCartney continuavam ocupando a maior parte do espaço criativo. George, por outro lado, desenvolvia uma identidade própria cada vez mais forte. Sua espiritualidade e introspecção contrastavam com o perfil mais competitivo dos colegas. Em “Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band”, ele contribuiu com “Within You Without You”, mergulhando profundamente na música indiana. A canção foi ousada e inovadora. Porém, ainda era tratada como uma exceção no conjunto do álbum. Sua visão artística parecia paralela à da dupla principal. Ele estava na banda, mas caminhava em outra direção.

Durante as gravações do chamado Álbum Branco, oficialmente intitulado The Beatles, as tensões ficaram ainda mais evidentes. Harrison trouxe composições fortes como “While My Guitar Gently Weeps”. Mesmo assim, enfrentou pouca colaboração efetiva dos colegas. A famosa participação de Eric Clapton na faixa simboliza esse momento. Harrison convidou Clapton para tocar guitarra solo, talvez como forma de ganhar respeito dentro do estúdio. A atitude revela sua insegurança diante da própria banda. Ao mesmo tempo, mostra sua abertura para novas parcerias. Ele estava cansado de ser subestimado. Suas músicas eram cada vez mais maduras e profundas. Ainda assim, a hierarquia permanecia. O espaço criativo seguia desigual.

No projeto “Get Back”, que resultaria no álbum Let It Be, os conflitos vieram à tona de forma explícita. As filmagens mostram Harrison discutindo com McCartney sobre arranjos de guitarra. Em determinado momento, ele chegou a deixar a banda temporariamente. Esse episódio ilustra claramente o desgaste acumulado. George sentia que suas ideias não eram respeitadas. Ele estava artisticamente pronto para voar mais alto. Mas dentro do grupo, ainda era tratado como coadjuvante. A tensão refletia não apenas divergências musicais, mas também emocionais. A parceria Lennon-McCartney já não era tão sólida. E Harrison percebia que seu momento poderia estar fora dali. Sua saída temporária foi um grito silencioso. Um pedido por reconhecimento.

No entanto, ironicamente, foi justamente no último álbum gravado pelo grupo, Abbey Road, que Harrison alcançou seu auge dentro dos Beatles. Ele contribuiu com “Something” e “Here Comes the Sun”, duas de suas composições mais célebres. “Something” foi lançada como lado A de single, algo raro para uma música que não fosse de Lennon ou McCartney. A qualidade da canção foi amplamente reconhecida. Muitos consideram “Something” uma das melhores músicas do catálogo da banda. Ainda assim, esse reconhecimento veio quase no fim da trajetória do grupo. Foi como se Harrison tivesse esperado anos para finalmente ocupar o espaço que merecia. Seu talento já estava plenamente desenvolvido. Mas o tempo dos Beatles estava se esgotando. O reconhecimento interno veio tarde.

Após o fim da banda, Harrison demonstrou o quanto tinha sido artisticamente contido. Seu álbum triplo All Things Must Pass revelou um vasto repertório acumulado. Muitas das músicas poderiam ter sido gravadas pelos Beatles. O sucesso do disco foi uma espécie de resposta silenciosa às limitações que enfrentou. Ele provou que não era apenas o “terceiro Beatle”. Era um compositor completo, com voz própria e visão artística singular. O público percebeu isso imediatamente. Críticos também reconheceram a força de seu trabalho solo. Era como se anos de repressão criativa finalmente explodissem em forma de arte. O título do álbum parecia simbólico. Todas as coisas passam, inclusive as hierarquias. E George encontrou sua libertação.

A sensação de ter sido passado para trás não se resume apenas à quantidade de músicas. Envolve também reconhecimento, espaço e respeito artístico. Harrison cresceu à sombra de dois gigantes criativos. Mas isso não diminui sua importância. Pelo contrário, torna sua trajetória ainda mais impressionante. Ele desenvolveu um estilo próprio dentro de um ambiente competitivo. Trouxe influências orientais ao rock ocidental. Expandiu os limites sonoros da banda. E deixou contribuições que moldaram a música popular. Seu amadurecimento foi gradual, mas consistente. Mesmo diante das dificuldades, nunca deixou de evoluir. Sua persistência é parte essencial de sua história.

Hoje, ao revisitar a trajetória dos Beatles, é impossível ignorar o peso criativo de George Harrison. O tempo fez justiça ao seu legado. Aquilo que parecia secundário revelou-se fundamental. Muitas de suas músicas estão entre as mais amadas do grupo. A narrativa de que ele foi apenas o guitarrista já não se sustenta. Ele foi compositor, inovador e ponte cultural entre o Ocidente e o Oriente. A sensação de ter sido deixado de lado faz parte da mitologia da banda. Mas também evidencia a complexidade das relações internas. Em meio a egos, talentos e pressões externas, Harrison construiu sua própria identidade. E talvez justamente por ter sido subestimado, sua obra soe hoje ainda mais poderosa.

Erick Steve. 

segunda-feira, 10 de janeiro de 2000

Cine Review - Febre de Juventude

Febre de Juventude
A comédia Febre de Juventude estreou nos cinemas em abril de 1978, dirigida por Robert Zemeckis e produzida por Steven Spielberg, que à época já era um dos nomes mais influentes de Hollywood. Ambientado em 1964, o filme acompanha um grupo de adolescentes obcecados pelos Beatles tentando de todas as formas assistir à histórica primeira apresentação da banda na televisão americana, no The Ed Sullivan Show. Desde o lançamento, a obra foi percebida como uma celebração nostálgica da juventude e do impacto cultural da Beatlemania.

Em termos de bilheteria, o filme teve um desempenho modesto, ficando aquém das expectativas comerciais. Apesar do prestígio de Spielberg como produtor, Febre de Juventude não se transformou em sucesso de público imediato, em parte por seu elenco pouco conhecido e por seu humor mais delicado e observacional. Ainda assim, conseguiu boa circulação nos Estados Unidos e encontrou maior acolhida em exibições posteriores, especialmente na televisão.

A reação da crítica em 1978 foi amplamente positiva. O The New York Times descreveu o filme como “uma comédia leve, espirituosa e cheia de afeto pela cultura pop dos anos 1960”, destacando seu ritmo ágil e seu olhar carinhoso sobre a adolescência. A revista Time afirmou que a produção era “barulhenta, doce e surpreendentemente inteligente”, elogiando a forma como o filme capturava a histeria coletiva sem ridicularizar seus personagens.

Os críticos também chamaram atenção para o talento emergente de Robert Zemeckis, apontando que sua direção revelava “energia visual e timing cômico incomuns para um estreante”. A influência de Spielberg foi notada no tom otimista e no dinamismo da narrativa, enquanto o roteiro foi elogiado por equilibrar humor físico com comentários sutis sobre identidade juvenil, consumo cultural e idolatria.

Com o passar dos anos, Febre de Juventude passou a ser visto como um clássico cult, especialmente entre fãs dos Beatles e estudiosos do cinema nostálgico americano. Já em 1978, alguns críticos observavam que o filme possuía um charme que poderia crescer com o tempo. Hoje, ele é lembrado como uma obra simpática e significativa, tanto por antecipar a carreira de Zemeckis quanto por representar uma das produções mais pessoais e afetuosas associadas ao nome de Steven Spielberg fora da direção.

domingo, 9 de janeiro de 2000

Cine Review - O Rapto do Menino Dourado

O Rapto do Menino Dourado
O filme O Rapto do Menino Dourado estreou nos cinemas em dezembro de 1986, dirigido por Michael Ritchie e estrelado por Eddie Murphy, então no auge de sua popularidade. Misturando comédia, aventura e fantasia, o longa apresentava Murphy como um detetive especializado em crianças desaparecidas que se envolve numa missão mística para salvar uma criança sagrada no Himalaia. O lançamento foi cercado de grande expectativa, pois marcava a tentativa de expandir o humor urbano de Murphy para um território mais fantástico e familiar.

Do ponto de vista comercial, o filme foi um grande sucesso de bilheteria. Com um orçamento estimado em cerca de US$ 25 milhões, O Rapto do Menino Dourado arrecadou aproximadamente US$ 79 milhões nos Estados Unidos e ultrapassou a marca de US$ 100 milhões mundialmente. O resultado confirmou o enorme apelo popular de Eddie Murphy na década de 1980, mesmo em um projeto que fugia um pouco do tom mais agressivo de sucessos anteriores como Um Tira da Pesada.

A recepção crítica em 1986 foi majoritariamente morna a negativa, especialmente quando comparada ao entusiasmo do público. A revista Variety descreveu o filme como “uma fantasia cômica irregular, que depende quase inteiramente do carisma de Eddie Murphy”, apontando que o roteiro tinha dificuldade em equilibrar humor e mitologia. Já o The New York Times observou que o longa era “visual­mente ambicioso, mas narrativamente confuso”, sugerindo que o potencial da premissa não era totalmente explorado.

Outros jornais foram ainda mais diretos em suas avaliações. O Los Angeles Times escreveu que o filme “oscila entre momentos inspirados de comédia e longos trechos sem energia”, enquanto alguns críticos lamentaram a ausência do humor mais ácido característico de Murphy. Por outro lado, houve elogios pontuais aos efeitos visuais e ao exotismo da ambientação, considerados acima da média para uma comédia da época.

Com o passar dos anos, O Rapto do Menino Dourado passou por uma reavaliação moderada, sendo lembrado com carinho por parte do público que cresceu nos anos 1980. As críticas publicadas em 1986 já indicavam que o filme não seria unanimidade, mas seu sucesso comercial demonstrou que a mistura de fantasia e comédia, aliada ao carisma de Eddie Murphy, era suficiente para conquistar as plateias. Hoje, o longa permanece como um exemplo típico do cinema comercial da década, mais celebrado pelo entretenimento do que pelo reconhecimento crítico.

Cine Review - Ace Ventura

Ace Ventura
A comédia Ace Ventura: Um Detetive Diferente estreou nos cinemas em fevereiro de 1994, dirigida por Tom Shadyac e estrelada por Jim Carrey no papel que o transformaria em uma das maiores estrelas da década. O filme apresenta um detetive excêntrico especializado em casos envolvendo animais, combinando humor físico exagerado, caretas, improviso e um ritmo cartunesco pouco comum no cinema mainstream da época. Desde o lançamento, ficou claro que o longa apostava quase exclusivamente na energia cômica de seu protagonista.

Em termos de bilheteria, o filme foi um grande sucesso comercial. Produzido com orçamento relativamente modesto pela Warner Bros., Ace Ventura arrecadou várias vezes seu custo inicial, tornando-se um dos maiores sucessos do início de 1994. O boca a boca foi decisivo, especialmente entre o público jovem, que respondeu com entusiasmo ao estilo anárquico de Jim Carrey, levando o filme a manter forte presença nas salas por várias semanas.

A reação da crítica na época foi majoritariamente negativa ou cética, contrastando fortemente com o sucesso popular. O The New York Times descreveu o filme como “barulhento, excessivo e dependente demais de caretas”, observando que o humor físico poderia cansar rapidamente. A revista Time comentou que a comédia era “infantil, agressiva e deliberadamente absurda”, embora reconhecesse que Carrey possuía uma presença difícil de ignorar.

Apesar das reservas quanto ao roteiro, Jim Carrey foi amplamente destacado, mesmo por críticos desfavoráveis ao filme. Alguns jornais apontaram que sua atuação era “incontrolável, elástica e singular”, sugerindo que o ator tinha potencial para se tornar um fenômeno cômico. A crítica especializada observou que Ace Ventura funcionava menos como um filme tradicional e mais como uma vitrine para um novo tipo de comediante, fortemente influenciado pelo humor corporal e pela televisão.

Com o passar dos anos, Ace Ventura: Um Detetive Diferente passou por uma reavaliação cultural, sendo hoje visto como um marco da comédia dos anos 1990. Já em 1994, a imprensa reconhecia que, mesmo rejeitado por muitos críticos, o filme havia criado um personagem imediatamente icônico. Seu impacto foi decisivo para consolidar Jim Carrey como estrela global e para definir um estilo de humor que dominaria boa parte da comédia hollywoodiana da década.