terça-feira, 15 de dezembro de 2009

O Quinto Xerife

O Quinto Xerife
Capítulo I – Poeira e Presságios
O xerife Fritz Colt estava sentado atrás de sua mesa de carvalho gasto, no escritório abafado da cadeia de Santa Dolores, quando o ranger da madeira do assoalho anunciou uma visita apressada. O sol da tarde atravessava a janela, recortando a sala em faixas de luz e sombra, iluminando o distintivo gasto preso ao peito do homem que há anos mantinha aquela cidade de pé à base de pólvora e silêncio imposto.

O mensageiro falava rápido, com a voz embargada pela poeira e pelo medo: um bando havia sido avistado nas redondezas, saqueando um rancho abandonado a poucas milhas da cidade. Não era a primeira quadrilha a tentar a sorte por ali, mas havia algo diferente no tom do aviso — algo que fez Fritz cerrar os olhos antes mesmo de se levantar.

Sem perder tempo, o xerife reuniu seu pequeno grupo de homens da lei: quatro no total, contando com ele. Eram poucos, mas experientes, montados em cavalos que conheciam o cheiro da pólvora tão bem quanto seus donos. Fritz ajustou o coldre, sentiu o peso familiar do revólver e partiu sem olhar para trás, como sempre fazia quando o dever chamava.

O deserto os recebeu com seu silêncio traiçoeiro. O vento levantava redemoinhos de areia fina, e o sol parecia martelar os chapéus como se quisesse testá-los. Cada milha percorrida aumentava a tensão, e Fritz sentia no estômago aquela sensação antiga — o presságio de que aquele confronto não seria como os outros.

Eles avistaram os bandidos perto de um afloramento de pedras, cavalos amarrados de qualquer jeito, homens armados e despreocupados demais para quem estava em território vigiado. Fritz ergueu o braço, sinalizando a parada, mas antes que pudesse anunciar presença, um disparo ecoou, quebrando o silêncio como um trovão seco.

O tiroteio começou imediato e brutal. O estampido das armas se misturava aos gritos e ao relinchar dos cavalos em pânico. Fritz atirava com precisão fria, cada disparo encontrando um alvo. Três dos bandidos caíram na areia quente, seus corpos imóveis, enquanto o cheiro de pólvora se espalhava pelo ar pesado.

No meio da troca de tiros, um grito de dor cortou o caos. Um dos homens da lei foi atingido no ombro e caiu do cavalo, o sangue manchando a camisa clara. Fritz avançou instintivamente para cobrir o companheiro, disparando para forçar recuo e gritando ordens curtas para manter a formação.

Percebendo que haviam perdido a vantagem, os bandidos começaram a fugir em debandada, montando às pressas e se espalhando pelo deserto como sombras assustadas. O xerife tentou alcançar o líder, mas a poeira levantada pelos cascos criou uma cortina quase sólida entre eles.

Foi então que Fritz o viu. Montado num cavalo escuro, o chefe da quadrilha virou o rosto por um breve segundo, o suficiente para que seus olhos cruzassem os do xerife à distância. Era jovem demais para comandar homens daquele tipo — e havia algo em seu semblante, um traço familiar, que fez o coração de Fritz falhar uma batida.

Quando a poeira baixou, só restavam os corpos, o homem ferido e o silêncio incômodo do deserto. Fritz Colt ficou parado por um instante, olhando o horizonte vazio, certo de uma coisa: aquele jovem voltaria. E quando isso acontecesse, o passado que ele pensava ter enterrado pisaria novamente em Santa Dolores, armado e sedento por acerto de contas.

Capítulo II – Chegadas Cruzadas
A diligência surgiu na estrada principal envolta por uma nuvem de poeira, rangendo como se estivesse prestes a se desfazer a qualquer instante. Santa Dolores reconhecia aquele som de longe, e alguns poucos curiosos se aproximaram quando o veículo parou diante do estábulo, trazendo consigo notícias, cartas e destinos que ainda não sabiam que seriam entrelaçados.

No mesmo instante, pelo lado oposto da cidade, o xerife Fritz Colt e seus homens retornavam do deserto em disparada. Um deles vinha curvado sobre a sela, o ombro ensanguentado, sustentado por outro cavaleiro. A visão fez cessar qualquer curiosidade pela diligência: a atenção da cidade se voltou para os homens da lei.

Entre os passageiros que desciam da carruagem estava um forasteiro de olhar atento e postura controlada. Chamava-se Roy Verge. Ele parou por um momento, a mala ainda na mão, observando a pressa incomum, os gritos por um médico e a tensão estampada nos rostos. Aquela não era uma cidade em dia comum — e Roy percebeu isso de imediato.

O cavalo do xerife foi o primeiro a alcançar a rua principal. Fritz não disse palavra, apenas ordenou que levassem o ferido direto para o consultório improvisado do doutor. O sangue pingando na terra seca parecia marcar um rastro invisível de problemas que ainda não tinham terminado.

Em poucos minutos, Santa Dolores virou um formigueiro em pânico. Mulheres corriam chamando maridos, comerciantes fechavam portas às pressas, crianças eram puxadas para dentro das casas. O som de passos apressados e vozes sobrepostas criava um ruído constante, como se a própria cidade estivesse em alerta.

Roy Verge se afastou da diligência e encostou-se à fachada do saloon, observando tudo em silêncio. Seus olhos acompanharam o xerife por tempo demais, atentos ao jeito rígido do homem e ao peso que ele carregava nos ombros. Roy já tinha visto cidades assim antes — lugares à beira de uma história sangrenta.

Pouco depois, outro cavalo entrou na cidade quase em disparada. Era montado por um jovem de feições semelhantes às de Fritz Colt, embora mais duras pelo cansaço. Steve Colt desmontou sem cerimônia, o rosto coberto de suor, a respiração pesada, como alguém que havia fugido do próprio inferno.

Seu olhar correu pela rua até encontrar o pai. Por um segundo, pareceu aliviado, mas logo a tensão voltou a tomar-lhe o semblante. Steve ajeitou o chapéu, passou a mão pelo rosto e caminhou em direção ao escritório do xerife, carregando consigo um silêncio cheio de urgência.

Fritz notou o filho à distância e franziu o cenho. Aquela não era uma chegada comum, e o xerife sabia reconhecer quando alguém trazia más notícias antes mesmo de ouvi-las. Havia perguntas demais pairando no ar, e nenhuma resposta pronta.

Enquanto o sol começava a descer no horizonte, Santa Dolores reunia em suas ruas um forasteiro atento, um xerife marcado pela suspeita e um filho à beira do colapso. Sem saber, a cidade acabava de reunir peças que, juntas, mudariam seu destino para sempre.

Capítulo III – Silêncios que Pesam
A casa do xerife Fritz Colt estava mergulhada num silêncio pesado quando ele empurrou a porta ao fim daquele dia longo demais. O cheiro de comida quente misturava-se ao odor persistente de pólvora que parecia impregnado em suas roupas. Ele retirou o chapéu com um gesto lento, como se cada movimento exigisse esforço. Seus olhos varreram o ambiente antes mesmo de procurar os rostos familiares. A mesa estava posta, simples, organizada demais para um dia tão caótico. Fritz sentiu o cansaço não apenas nos músculos, mas na consciência. Cada ranger da madeira sob seus passos soava como um lembrete do perigo que ainda rondava. Ele sabia que aquele lar, por mais sólido que parecesse, também estava ameaçado. O xerife carregava o peso da cidade, mas ali carregava algo mais íntimo. Um pressentimento surdo martelava em sua mente. Nada estava realmente sob controle.

Sentados à mesa estavam sua esposa, de expressão contida, e Steve, o filho, rígido demais para alguém tão jovem. Fritz ocupou seu lugar sem dizer palavra, sentindo os olhares pousarem sobre ele como perguntas silenciosas. A esposa serviu o prato com cuidado, tentando manter a normalidade, mas seus gestos denunciavam preocupação. Steve mal tocava a comida, os dedos inquietos, o olhar duro fixado em algum ponto invisível. O som dos talheres parecia alto demais naquele ambiente fechado. Fritz respirou fundo antes de falar, escolhendo as palavras como quem escolhe armas. Ele sabia que aquela conversa não podia mais ser adiada. A cidade estava sob ameaça, e sua família também. A tensão não precisava ser dita para ser sentida. Estava ali, sentada à mesa com eles.

Quando Fritz finalmente falou sobre a quadrilha, sua voz saiu baixa e firme, carregada de um cansaço antigo. Explicou que aqueles homens eram os restos do bando do velho Clinton, um nome que ainda ecoava como maldição em Santa Dolores. Clinton fora morto por ele meses antes, num confronto que ainda lhe roubava o sono. O xerife contou como o bando havia se dispersado, apenas para se reorganizar nas sombras. Agora estavam de volta, mais cautelosos, mais jovens, mais imprevisíveis. Fritz sentia um amargo senso de responsabilidade por aquilo. Ao matar Clinton, acreditara ter encerrado um ciclo de violência. Em vez disso, parecia tê-lo alimentado. A ideia de que seu passado continuava a cobrar dívidas o corroía por dentro. Cada palavra era um peso retirado do peito. Mas também um aviso.

A esposa ouviu em silêncio, os olhos atentos, absorvendo cada detalhe com uma calma forçada. Ela conhecia o marido o suficiente para perceber quando ele escondia o pior. Sabia que havia algo mais que ele não dizia. O perigo não estava apenas nos bandidos, mas na maneira como aquilo afetava Fritz. Ele estava mais fechado, mais duro, mais distante. Ela temia pelo homem que ele estava se tornando aos poucos. Ainda assim, manteve a voz suave quando falou, pedindo cuidado, pedindo prudência. Sabia que pedir que ele abandonasse o distintivo era inútil. O xerife não era apenas o que fazia; era o que era. Mesmo assim, o medo permanecia. Um medo que ela carregava sozinha. Um medo que crescia a cada noite.

Steve permaneceu em silêncio durante quase toda a conversa, mas sua presença era como uma lâmina entre os pais. Fritz sentia a tensão do filho como algo físico, quase palpável. Havia reprovação naquele olhar, misturada com algo mais profundo e perigoso. Quando Steve finalmente falou, suas palavras foram curtas, duras, cheias de ressentimento mal disfarçado. Ele questionou as escolhas do pai, a repetição de violência, o destino que parecia inevitável. Fritz respondeu com frieza, sentindo a distância entre eles se ampliar ainda mais. O xerife queria proteger o filho, mas não sabia mais como alcançá-lo. Steve queria respostas que Fritz não tinha coragem de dar. A mesa tornou-se um campo de batalha silencioso. Nenhum deles saiu vencedor. Apenas mais distantes.

Enquanto isso, a poucas ruas dali, Roy Verge subia a escada estreita que levava aos quartos acima do saloon. Seus passos eram firmes, medidos, quase sem ruído. O quarto que alugou era simples, limpo o suficiente, com uma janela que dava para a rua principal. Roy deixou a mala ao lado da cama e observou o ambiente como quem avalia rotas de fuga. Nada em seus gestos era desperdiçado. Ele retirou o paletó com cuidado, pendurando-o como se estivesse em casa. O espelho rachado refletiu um rosto impassível, marcado por experiências não ditas. Roy sustentou o próprio olhar por alguns segundos. Havia algo cansado ali, mas controlado. Ele não viera por acaso. Nunca vinha.

Pouco depois, Roy desceu ao saloon, atraído não pela bebida, mas pelo movimento humano. O salão estava cheio, vozes altas, risadas nervosas, curiosidade espalhada no ar. Assim que entrou, alguns olhares se voltaram para ele. Roy percebeu todos, mas não reagiu a nenhum. Sentou-se ao balcão e pediu uma bebida com poucas palavras, voz baixa, educada. Bebeu devagar, mais atento ao ambiente do que ao copo. Seus olhos percorriam rostos, mãos, armas, gestos. Ele escutava mais do que falava. Sempre foi assim. Informação vinha do silêncio.

Logo foi convidado a uma mesa de cartas, mais por curiosidade dos outros do que por interesse real no jogo. Roy aceitou sem entusiasmo, sentando-se com postura relaxada demais para ser inocente. Jogava bem, mas sem ostentação. Ganhava e perdia com a mesma expressão neutra. Os moradores tentavam puxar conversa, mas recebiam respostas curtas, medidas. Aquilo apenas aumentava o mistério ao redor dele. Alguns o achavam perigoso. Outros apenas estranho. Roy não se importava com nenhuma dessas impressões. Para ele, o saloon era apenas um ponto de observação. Um tabuleiro maior estava em jogo.

Enquanto as cartas passavam de mão em mão, Roy observava os detalhes da cidade. O nervosismo nas falas, os cochichos sobre o tiroteio, o nome do xerife repetido com respeito e medo. Ele absorvia tudo como quem monta um quebra-cabeça interno. A cidade estava tensa, à beira de algo maior. Roy sentia isso nos olhares rápidos, nas mãos que não se afastavam dos coldres. Aquilo lhe era familiar. Ele já estivera em lugares assim antes. Lugares onde o passado voltava para cobrar seu preço. Sua expressão permanecia serena. Mas por dentro, a mente trabalhava sem descanso.

Quando a noite avançou, Roy deixou a mesa de cartas e terminou sua bebida em silêncio. Antes de subir novamente para o quarto, lançou um último olhar ao saloon cheio. Aquela cidade escondia histórias demais para um lugar tão pequeno. O xerife, o bando, o medo coletivo — tudo se conectava de alguma forma. Roy sabia que sua presença ali não passaria despercebida por muito tempo. E, no fundo, ele não se importava. Estava acostumado a ser observado. Acostumado a esperar. O que quer que estivesse para acontecer em Santa Dolores, ele fazia parte disso. Mesmo que ninguém ainda soubesse. Nem o próprio xerife.

Capítulo IV – O Homem que Prometia Cinco Mortes
Fritz Colt saiu para a varanda quando a casa finalmente mergulhou no silêncio da noite. A madeira rangia sob seus passos, familiar como um velho aviso. Ele apoiou os cotovelos no corrimão e tirou o charuto do bolso com um gesto lento, quase cerimonial. Ao riscar o fósforo, a chama iluminou seu rosto marcado por sombras antigas. A primeira tragada veio profunda, pesada, como se puxasse junto lembranças que ele tentava manter enterradas. A fumaça subiu espessa, dançando no ar quente da noite. O deserto ao redor parecia escutar. Fritz fechou os olhos por um instante, e bastou isso para que o presente se dissolvesse. A memória voltou sem pedir licença. O dia em que tudo começou de verdade nunca o deixara. Apenas esperava o momento certo para se impor novamente.

Naquele dia distante, o sol também estava alto, cruel, e o silêncio era tão denso quanto agora. Fritz ainda sentia o peso daquele calor específico, como se o corpo jamais tivesse esquecido. Ele lembrava do aviso anônimo, do rastro deixado de propósito, da certeza de que aquilo era uma armadilha. Mesmo assim, ele foi. O líder do bando do velho Clinton já havia matado quatro xerifes em cidades diferentes, sempre com a mesma frieza, sempre deixando corpos e reputações destruídas. O homem gostava de ser conhecido. Gostava de contar vantagem antes de matar. Dizia que o próximo seria o quinto, como se colecionasse distintivos invisíveis. Fritz sabia disso. E ainda assim cavalgou até o local indicado. Porque recuar não era uma opção. Nunca fora.

A emboscada começou com tiros vindos das rochas, rápidos e precisos. Fritz e seus homens mal tiveram tempo de reagir antes de perceber que estavam em desvantagem. Dois caíram nos primeiros segundos, sem sequer ver de onde veio a morte. Fritz se jogou atrás de uma formação de pedras, sentindo os estilhaços cortarem o ar ao seu redor. O som dos disparos ecoava como marteladas no crânio. Ele gritava ordens, mas já sabia que estava sozinho. Um por um, seus homens haviam sido neutralizados. Não mortos todos, mas fora de combate. A armadilha funcionara exatamente como planejado. O bando queria apenas um homem de pé. E esse homem era ele.

Foi então que o líder apareceu. Caminhou para fora da sombra com uma calma quase teatral, revólver baixo, sorriso torto no rosto. Era mais velho do que Fritz esperava, os olhos duros de quem já tinha cruzado a linha tempo demais. Ele falou alto, para que o xerife ouvisse cada palavra. Disse que quatro homens da lei já haviam caído diante dele. Disse que Fritz seria o quinto. Havia orgulho em sua voz, mas também algo mais perigoso: convicção. Fritz sentiu o estômago revirar, mas manteve a arma firme. Não respondeu. Sabia que aquele homem se alimentava de palavras. O silêncio era sua única defesa naquele momento.

O duelo se formou naturalmente, como se o próprio deserto exigisse aquilo. Os outros bandidos se afastaram, criando um espaço amplo, quase respeitoso. O vento levantava poeira entre os dois homens, e o sol queimava os olhos. Fritz sentia o suor escorrer pela testa, entrando nos olhos, mas não piscou. Cada músculo do corpo estava tenso, preparado. O criminoso continuava falando, provocando, lembrando dos xerifes mortos, descrevendo a expressão de medo deles. Fritz escutava, mas por dentro se fechava. Ele não pensava na morte. Pensava apenas no tempo. No instante exato. No erro que o outro cometeria.

Quando o disparo veio, foi rápido demais para o som alcançar o cérebro primeiro. Fritz reagiu por instinto, puxando o gatilho quase no mesmo momento. Os dois tiros ecoaram juntos, confundindo o ar. A bala do criminoso passou perto o suficiente para que Fritz sentisse o deslocamento do vento ao lado do rosto. A dele, no entanto, encontrou carne. O impacto fez o homem recuar, surpresa estampada nos olhos. O sorriso desapareceu num piscar de olhos. O líder do bando caiu de joelhos, tentando manter a arma erguida, mas a força já o abandonava. Fritz avançou um passo, sem baixar o revólver.

O criminoso tentou falar mais alguma coisa, talvez uma última provocação, talvez uma maldição. O sangue escorria pela camisa, escuro, quente. Seus olhos buscavam algo que já não estava ali. Fritz se aproximou o suficiente para ouvir a respiração falha. Não havia triunfo naquele momento. Apenas necessidade. Quando o segundo tiro foi disparado, foi definitivo. O corpo caiu para trás, levantando poeira ao tocar o chão. O homem que prometera matar cinco xerifes morreu ali, sob o sol impiedoso. O quarto virou o último. Fritz permaneceu parado por alguns segundos, o braço ainda estendido, sentindo o peso do que havia feito.

O silêncio que se seguiu foi quase absoluto. Os bandidos fugiram sem ousar recolher o corpo do líder. A reputação dele morreu junto com ele. Fritz abaixou a arma lentamente, sentindo as mãos tremerem só então. Não havia aplausos, nem alívio imediato. Apenas a certeza de que aquela morte não encerrava nada. Ele olhou para os corpos dos próprios homens e soube que aquela vitória tinha um preço alto demais. Enterrou o criminoso ali mesmo, sob pedras empilhadas às pressas. Não por respeito, mas por necessidade. O deserto cuidaria do resto.

De volta à varanda, Fritz soltou a fumaça devagar, abrindo os olhos. O passado ainda estava ali, vivo, respirando com ele. O erro daquele homem fora a soberba, pensou. Subestimar um xerife cansado, mas atento. Ainda assim, Fritz sabia que matar o líder não matara o bando. Apenas o transformara. Homens jovens, sedentos, sem medo da morte. Aquele duelo fora o nascimento de algo maior. E agora aquilo retornava para cobrar seu preço. A quinta morte prometida não havia acontecido. Mas a conta ainda estava aberta.

Fritz apagou o charuto no corrimão e permaneceu olhando o horizonte escuro. O título que o criminoso usara como ameaça agora soava como uma ironia cruel. O quinto xerife não havia sido morto. Ele havia sobrevivido. Mas sobreviver, Fritz sabia, nem sempre era vencer. A guerra não terminara naquele dia. Apenas mudara de forma. E em algum lugar, no escuro, homens que carregavam aquele legado estavam se movendo. O passado nunca erra duas vezes. Apenas espera o momento certo para voltar armado.

Capítulo V – Palavras Curtas, Sombras Longas
O encontro aconteceu no fim da tarde, quando a luz do sol já não aquecia como antes e as sombras começavam a dominar Santa Dolores. Fritz Colt caminhava pela rua principal com passos calculados, observando rostos, gestos, movimentos que não pertenciam à rotina comum da cidade. Ele sentia quando algo destoava, quando uma presença não se encaixava. O forasteiro estava encostado na parede do saloon, imóvel demais para alguém recém-chegado. Não bebia, não falava, apenas observava. Aquilo despertou algo em Fritz, um instinto antigo, treinado pela sobrevivência. O xerife aproximou-se sem pressa, como quem não quer parecer interessado. Mas por dentro, cada sentido estava em alerta máximo. Aquela calma não era natural. Era ensaiada.

Roy Verge percebeu o xerife antes mesmo de vê-lo diretamente. Havia um peso específico no modo como Fritz ocupava o espaço, como se a cidade abrisse caminho para ele sem perceber. Roy virou o rosto lentamente, encontrando o olhar do homem da lei. Não houve surpresa, nem desconforto. Apenas reconhecimento silencioso. Fritz parou a poucos passos e estudou o forasteiro com atenção crua. A postura firme, as roupas limpas demais para um viajante comum, o olhar que nunca descansava. Tudo aquilo era anotado mentalmente. Fritz pigarreou antes de falar.
— Você é novo na cidade.
— Sou — respondeu Roy, sem mover o corpo.

O tom seco da resposta chamou a atenção do xerife. Não era hostilidade explícita, mas também não era submissão. Fritz inclinou levemente a cabeça, como quem aceita o jogo.
— Nome?
— Roy Verge.
A pausa após o nome pareceu longa demais. Fritz aguardou algo mais, uma explicação, uma origem. Nada veio.
— E o que traz um homem como você a Santa Dolores?
Roy sustentou o olhar do xerife por um instante antes de responder.
— Estrada.
A palavra caiu entre eles como um obstáculo. Fritz não sorriu. Apenas assentiu lentamente.

O silêncio que se formou foi pesado, desconfortável. Fritz cruzou os braços, deixando o distintivo bem visível.
— Estrada costuma levar embora daqui mais rápido do que traz gente pra cá.
Roy deu de ombros, gesto mínimo, controlado.
— Algumas estradas terminam.
A resposta fez algo se mover dentro do xerife. Não era o que foi dito, mas a certeza com que foi dito. Fritz sentiu o mesmo frio que sentira no deserto meses atrás, diante de homens que não temiam consequências.
— Você chegou num dia ruim — disse o xerife. — Cidade anda tensa.
— Percebi — respondeu Roy, sem explicar como.

Fritz estreitou os olhos.
— Percebeu rápido demais, eu diria.
Roy finalmente se afastou da parede, ficando ereto diante do xerife. A diferença de altura não parecia importar para nenhum dos dois.
— Não é difícil notar quando uma cidade está com medo.
— Medo costuma atrair gente errada — retrucou Fritz.
— Ou homens cansados — respondeu Roy, após breve hesitação.
Aquilo atingiu Fritz de forma inesperada. Ele reconheceu algo ali. Algo que não gostou de reconhecer. A conversa não avançava, mas se aprofundava perigosamente.

Fritz respirou fundo, sentindo o peso da responsabilidade pressionar o peito.
— Santa Dolores não é lugar pra se esconder.
— Não estou me escondendo — disse Roy, firme.
— Ainda não sei disso — respondeu o xerife.
Os dois se encararam por alguns segundos longos demais para serem educados. Fritz sentia o instinto gritar, pedindo cautela. Roy, por sua vez, parecia perfeitamente confortável sob suspeita. Aquilo incomodava mais do que uma reação defensiva. Fritz preferia homens nervosos. Nervos entregavam intenções. Aquele homem era fechado como uma tumba.

O xerife deu um passo para trás, quebrando a tensão.
— Enquanto estiver na minha cidade, quero saber onde pisa.
— Piso onde me deixam — respondeu Roy.
— E eu sou quem deixa.
— Então estamos entendidos.
A troca parecia simples, mas havia camadas ocultas em cada palavra. Fritz anotou mentalmente cada resposta, cada inflexão. Roy Verge não era um viajante comum. Não falava como um homem sem passado. Falava como alguém que escolhera muito bem o que esconder. E isso, para um xerife experiente, era um sinal claro de perigo.

Quando Fritz se afastou, sentiu o olhar do forasteiro acompanhá-lo por alguns segundos. Não havia ameaça explícita naquele olhar. Apenas atenção. Atenção demais. O xerife caminhou alguns metros antes de parar e olhar para o chão, como se organizasse os próprios pensamentos. Algo naquele homem o incomodava profundamente. Não era aparência. Não era atitude isolada. Era a soma de tudo. Roy Verge carregava o mesmo tipo de silêncio que homens do bando carregavam antes de puxar o gatilho. Fritz já tinha visto aquilo antes. Muitas vezes.

Do outro lado da rua, Roy observava o xerife se afastar, o rosto impassível. Por dentro, no entanto, a mente trabalhava com precisão cirúrgica. O encontro havia sido inevitável. O reconhecimento, mútuo. Roy sabia que Fritz desconfiaria. Contava com isso. O xerife era inteligente, atento, moldado pela perda. Homens assim não ignoravam sinais. Roy também não. Aquela cidade era menor do que parecia. E o passado de ambos começava a se sobrepor, ainda que nenhum deles admitisse. Não ali. Não ainda.

Ao entrar novamente no escritório, Fritz Colt teve certeza de uma coisa: Roy Verge não estava ali por acaso. A lembrança do bando, do líder morto, da promessa do quinto xerife voltou à sua mente como um sussurro persistente. Talvez aquele homem fosse apenas um observador. Ou talvez fosse algo pior. Um emissário. Um sobrevivente. Um herdeiro. Fritz apoiou as mãos na mesa e respirou fundo. A guerra que ele pensava conhecer estava mudando de forma. E o inimigo, agora, sabia ficar em silêncio.

Capítulo VI – A Cidade Observa
A noite caiu sobre Santa Dolores com uma lentidão opressiva, como se o escuro tivesse consciência do que se movia sob sua cobertura. Fritz Colt permaneceu em seu escritório muito depois do horário habitual, sentado em silêncio, ouvindo sons que antes ignorava. Cada passo na rua parecia carregado de intenção. Cada riso distante soava falso demais. O encontro com Roy Verge não lhe saía da cabeça. Havia algo naquele homem que não se alinhava com a lógica comum dos forasteiros. Fritz já tinha visto todo tipo de sujeito cruzar aquela cidade. Jogadores, fugitivos, mentirosos e homens quebrados. Roy não se encaixava em nenhuma dessas categorias conhecidas. Isso o tornava perigoso. O xerife tamborilava os dedos na mesa, repetindo mentalmente cada resposta curta do forasteiro. Poucas palavras também eram uma forma de confissão.

Ele se levantou e caminhou até a janela, observando o movimento escasso da rua principal. A cidade estava acordada, mas em estado de vigília. Fritz sabia que seus moradores sentiam a mesma tensão, mesmo sem compreender sua origem. O retorno do bando reacendera medos antigos. E a presença de Roy Verge era como uma faísca silenciosa jogada em palha seca. Fritz não acreditava em coincidências. Nunca acreditara. Para ele, homens apareciam quando eram chamados, mesmo que não soubessem disso. O passado tinha uma maneira própria de reunir peças esquecidas. O xerife respirou fundo, sentindo o peso da responsabilidade se acomodar novamente em seus ombros. Ele precisava saber quem era Roy Verge. Antes que fosse tarde demais.

Mais tarde naquela mesma noite, Fritz decidiu caminhar pela cidade, não como patrulha oficial, mas como observador. Passou pelo saloon, pela barbearia fechada, pelo estábulo quase vazio. Em cada lugar, percebia cochichos cessarem quando ele se aproximava. Todos sabiam que algo estava errado. O xerife notou que Roy estava novamente no saloon, sentado sozinho, como se ocupasse sempre o mesmo espaço. Aquilo não era descuido. Era escolha. Fritz ficou do lado de fora por alguns segundos, apenas observando pela janela empoeirada. Roy bebia devagar, atento ao ambiente, como um animal que nunca baixa completamente a guarda. Aquela postura não se aprendia na estrada comum. Era forjada em lugares violentos.

Dentro do saloon, Roy sentia o clima pesado quase como uma presença física. Ele percebia os olhares disfarçados, as conversas interrompidas quando passava. Não se incomodava. Já estivera sob suspeita antes. Em muitas cidades. Algumas haviam sobrevivido a isso. Outras não. Roy bebia não por prazer, mas para manter as mãos ocupadas, o tempo controlado. Ele sabia que o xerife o observava, mesmo quando não estava presente. Fritz Colt era um homem atento demais para ignorar algo fora do padrão. Roy respeitava isso. Homens atentos viviam mais. Ele não viera para causar caos imediato. Viera para entender. Para medir forças. E talvez para ajustar contas que ainda não tinham nome.

Quando Fritz entrou no saloon, o ambiente mudou de forma quase imperceptível. Roy percebeu antes mesmo de vê-lo. O xerife caminhou até o balcão e pediu uma bebida, sem olhar diretamente para o forasteiro. Aquela proximidade não era acidental.
— Cidade anda comentando sobre você — disse Fritz, como quem fala do clima.
— Cidade comenta sobre tudo — respondeu Roy, sem virar o rosto.
— Nem tudo chama atenção desse jeito.
— Atenção não é algo que eu peça.
— Mas parece aceitar bem — rebateu o xerife.
Roy virou o copo lentamente antes de responder.
— Aprendi a conviver com ela.

O diálogo parecia casual, mas ambos sabiam que não era. Fritz observava cada movimento, cada pausa calculada.
— Já esteve em Santa Dolores antes? — perguntou o xerife.
— Não — respondeu Roy, seco.
— Conheceu o velho Clinton?
A pergunta foi lançada como uma lâmina. Roy demorou um segundo a mais para responder. Um segundo apenas.
— Ouvi falar.
— Muitos ouviram — disse Fritz. — Nem todos sobreviveram.
Roy finalmente encarou o xerife.
— Sobreviver é uma questão de escolha.
A frase ficou suspensa no ar, pesada demais para ser ignorada.

Fritz sentiu um calafrio percorrer-lhe a espinha. Aquela resposta ecoava memórias que ele preferia não revisitar.
— Clinton dizia que mataria cinco xerifes — comentou Fritz, fingindo desinteresse.
— Homens assim gostam de números — respondeu Roy. — Fazem a morte parecer organizada.
— E você? Gosta de números?
— Prefiro rostos.
A troca encerrou qualquer ilusão de conversa comum. Fritz teve certeza de que Roy sabia mais do que dizia. Talvez não sobre o bando atual. Mas sobre o tipo de homem que o liderava. Aquilo bastava para acender todos os alertas. Fritz terminou a bebida de uma vez e se levantou.

Ao sair do saloon, o xerife sentiu o peso da decisão se formar dentro dele. Roy Verge não era um criminoso comum. Mas também não era inocente. Talvez fosse algo ainda mais perigoso: alguém ligado ao passado que Fritz tentava manter enterrado. O xerife caminhou até a rua escura, sentindo o vento frio bater no rosto. A cidade parecia observar os dois homens como testemunha silenciosa. Fritz sabia que precisaria agir com cuidado. Um passo errado poderia empurrar Roy para o bando. Ou revelá-lo antes da hora. A paciência seria sua maior arma. Mas também sua maior fraqueza.

Roy permaneceu no saloon por mais alguns minutos após a saída do xerife. Sabia que aquele encontro selara algo entre eles. A suspeita agora era mútua. E inevitável. Ele terminou a bebida, deixou algumas moedas no balcão e subiu para o quarto. Lá em cima, fechou a porta e encostou-se a ela por um instante. O controle exterior escondia um turbilhão interno. Fritz Colt era mais perigoso do que Roy esperava. Não pela arma, mas pela mente. Aquilo tornava o jogo mais complexo. Mais interessante. E muito mais arriscado.

Naquela noite, Santa Dolores dormiu mal. O xerife permaneceu acordado por horas, revendo conversas, gestos e silêncios. Roy, em seu quarto, observava a rua pela janela, atento a qualquer movimento fora do comum. Dois homens presos ao próprio passado, orbitando o mesmo ponto invisível. O bando ainda estava solto. A violência ainda não tinha escolhido seu próximo alvo. Mas a cidade sentia que algo estava prestes a se romper. O quinto xerife continuava vivo. E alguém, em algum lugar, ainda contava essa história de forma diferente. A pergunta não era mais se o confronto viria. Era apenas quando.


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