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terça-feira, 15 de dezembro de 2009

O Quinto Xerife

O Quinto Xerife
Capítulo I – Poeira e Presságios
O xerife Fritz Colt estava sentado atrás de sua mesa de carvalho gasto, no escritório abafado da cadeia de Santa Dolores, quando o ranger da madeira do assoalho anunciou uma visita apressada. O sol da tarde atravessava a janela, recortando a sala em faixas de luz e sombra, iluminando o distintivo gasto preso ao peito do homem que há anos mantinha aquela cidade de pé à base de pólvora e silêncio imposto.

O mensageiro falava rápido, com a voz embargada pela poeira e pelo medo: um bando havia sido avistado nas redondezas, saqueando um rancho abandonado a poucas milhas da cidade. Não era a primeira quadrilha a tentar a sorte por ali, mas havia algo diferente no tom do aviso — algo que fez Fritz cerrar os olhos antes mesmo de se levantar.

Sem perder tempo, o xerife reuniu seu pequeno grupo de homens da lei: quatro no total, contando com ele. Eram poucos, mas experientes, montados em cavalos que conheciam o cheiro da pólvora tão bem quanto seus donos. Fritz ajustou o coldre, sentiu o peso familiar do revólver e partiu sem olhar para trás, como sempre fazia quando o dever chamava.

O deserto os recebeu com seu silêncio traiçoeiro. O vento levantava redemoinhos de areia fina, e o sol parecia martelar os chapéus como se quisesse testá-los. Cada milha percorrida aumentava a tensão, e Fritz sentia no estômago aquela sensação antiga — o presságio de que aquele confronto não seria como os outros.

Eles avistaram os bandidos perto de um afloramento de pedras, cavalos amarrados de qualquer jeito, homens armados e despreocupados demais para quem estava em território vigiado. Fritz ergueu o braço, sinalizando a parada, mas antes que pudesse anunciar presença, um disparo ecoou, quebrando o silêncio como um trovão seco.

O tiroteio começou imediato e brutal. O estampido das armas se misturava aos gritos e ao relinchar dos cavalos em pânico. Fritz atirava com precisão fria, cada disparo encontrando um alvo. Três dos bandidos caíram na areia quente, seus corpos imóveis, enquanto o cheiro de pólvora se espalhava pelo ar pesado.

No meio da troca de tiros, um grito de dor cortou o caos. Um dos homens da lei foi atingido no ombro e caiu do cavalo, o sangue manchando a camisa clara. Fritz avançou instintivamente para cobrir o companheiro, disparando para forçar recuo e gritando ordens curtas para manter a formação.

Percebendo que haviam perdido a vantagem, os bandidos começaram a fugir em debandada, montando às pressas e se espalhando pelo deserto como sombras assustadas. O xerife tentou alcançar o líder, mas a poeira levantada pelos cascos criou uma cortina quase sólida entre eles.

Foi então que Fritz o viu. Montado num cavalo escuro, o chefe da quadrilha virou o rosto por um breve segundo, o suficiente para que seus olhos cruzassem os do xerife à distância. Era jovem demais para comandar homens daquele tipo — e havia algo em seu semblante, um traço familiar, que fez o coração de Fritz falhar uma batida.

Quando a poeira baixou, só restavam os corpos, o homem ferido e o silêncio incômodo do deserto. Fritz Colt ficou parado por um instante, olhando o horizonte vazio, certo de uma coisa: aquele jovem voltaria. E quando isso acontecesse, o passado que ele pensava ter enterrado pisaria novamente em Santa Dolores, armado e sedento por acerto de contas.

Capítulo II – Chegadas Cruzadas
A diligência surgiu na estrada principal envolta por uma nuvem de poeira, rangendo como se estivesse prestes a se desfazer a qualquer instante. Santa Dolores reconhecia aquele som de longe, e alguns poucos curiosos se aproximaram quando o veículo parou diante do estábulo, trazendo consigo notícias, cartas e destinos que ainda não sabiam que seriam entrelaçados.

No mesmo instante, pelo lado oposto da cidade, o xerife Fritz Colt e seus homens retornavam do deserto em disparada. Um deles vinha curvado sobre a sela, o ombro ensanguentado, sustentado por outro cavaleiro. A visão fez cessar qualquer curiosidade pela diligência: a atenção da cidade se voltou para os homens da lei.

Entre os passageiros que desciam da carruagem estava um forasteiro de olhar atento e postura controlada. Chamava-se Roy Verge. Ele parou por um momento, a mala ainda na mão, observando a pressa incomum, os gritos por um médico e a tensão estampada nos rostos. Aquela não era uma cidade em dia comum — e Roy percebeu isso de imediato.

O cavalo do xerife foi o primeiro a alcançar a rua principal. Fritz não disse palavra, apenas ordenou que levassem o ferido direto para o consultório improvisado do doutor. O sangue pingando na terra seca parecia marcar um rastro invisível de problemas que ainda não tinham terminado.

Em poucos minutos, Santa Dolores virou um formigueiro em pânico. Mulheres corriam chamando maridos, comerciantes fechavam portas às pressas, crianças eram puxadas para dentro das casas. O som de passos apressados e vozes sobrepostas criava um ruído constante, como se a própria cidade estivesse em alerta.

Roy Verge se afastou da diligência e encostou-se à fachada do saloon, observando tudo em silêncio. Seus olhos acompanharam o xerife por tempo demais, atentos ao jeito rígido do homem e ao peso que ele carregava nos ombros. Roy já tinha visto cidades assim antes — lugares à beira de uma história sangrenta.

Pouco depois, outro cavalo entrou na cidade quase em disparada. Era montado por um jovem de feições semelhantes às de Fritz Colt, embora mais duras pelo cansaço. Steve Colt desmontou sem cerimônia, o rosto coberto de suor, a respiração pesada, como alguém que havia fugido do próprio inferno.

Seu olhar correu pela rua até encontrar o pai. Por um segundo, pareceu aliviado, mas logo a tensão voltou a tomar-lhe o semblante. Steve ajeitou o chapéu, passou a mão pelo rosto e caminhou em direção ao escritório do xerife, carregando consigo um silêncio cheio de urgência.

Fritz notou o filho à distância e franziu o cenho. Aquela não era uma chegada comum, e o xerife sabia reconhecer quando alguém trazia más notícias antes mesmo de ouvi-las. Havia perguntas demais pairando no ar, e nenhuma resposta pronta.

Enquanto o sol começava a descer no horizonte, Santa Dolores reunia em suas ruas um forasteiro atento, um xerife marcado pela suspeita e um filho à beira do colapso. Sem saber, a cidade acabava de reunir peças que, juntas, mudariam seu destino para sempre.

Capítulo III – Silêncios que Pesam
A casa do xerife Fritz Colt estava mergulhada num silêncio pesado quando ele empurrou a porta ao fim daquele dia longo demais. O cheiro de comida quente misturava-se ao odor persistente de pólvora que parecia impregnado em suas roupas. Ele retirou o chapéu com um gesto lento, como se cada movimento exigisse esforço. Seus olhos varreram o ambiente antes mesmo de procurar os rostos familiares. A mesa estava posta, simples, organizada demais para um dia tão caótico. Fritz sentiu o cansaço não apenas nos músculos, mas na consciência. Cada ranger da madeira sob seus passos soava como um lembrete do perigo que ainda rondava. Ele sabia que aquele lar, por mais sólido que parecesse, também estava ameaçado. O xerife carregava o peso da cidade, mas ali carregava algo mais íntimo. Um pressentimento surdo martelava em sua mente. Nada estava realmente sob controle.

Sentados à mesa estavam sua esposa, de expressão contida, e Steve, o filho, rígido demais para alguém tão jovem. Fritz ocupou seu lugar sem dizer palavra, sentindo os olhares pousarem sobre ele como perguntas silenciosas. A esposa serviu o prato com cuidado, tentando manter a normalidade, mas seus gestos denunciavam preocupação. Steve mal tocava a comida, os dedos inquietos, o olhar duro fixado em algum ponto invisível. O som dos talheres parecia alto demais naquele ambiente fechado. Fritz respirou fundo antes de falar, escolhendo as palavras como quem escolhe armas. Ele sabia que aquela conversa não podia mais ser adiada. A cidade estava sob ameaça, e sua família também. A tensão não precisava ser dita para ser sentida. Estava ali, sentada à mesa com eles.

Quando Fritz finalmente falou sobre a quadrilha, sua voz saiu baixa e firme, carregada de um cansaço antigo. Explicou que aqueles homens eram os restos do bando do velho Clinton, um nome que ainda ecoava como maldição em Santa Dolores. Clinton fora morto por ele meses antes, num confronto que ainda lhe roubava o sono. O xerife contou como o bando havia se dispersado, apenas para se reorganizar nas sombras. Agora estavam de volta, mais cautelosos, mais jovens, mais imprevisíveis. Fritz sentia um amargo senso de responsabilidade por aquilo. Ao matar Clinton, acreditara ter encerrado um ciclo de violência. Em vez disso, parecia tê-lo alimentado. A ideia de que seu passado continuava a cobrar dívidas o corroía por dentro. Cada palavra era um peso retirado do peito. Mas também um aviso.

A esposa ouviu em silêncio, os olhos atentos, absorvendo cada detalhe com uma calma forçada. Ela conhecia o marido o suficiente para perceber quando ele escondia o pior. Sabia que havia algo mais que ele não dizia. O perigo não estava apenas nos bandidos, mas na maneira como aquilo afetava Fritz. Ele estava mais fechado, mais duro, mais distante. Ela temia pelo homem que ele estava se tornando aos poucos. Ainda assim, manteve a voz suave quando falou, pedindo cuidado, pedindo prudência. Sabia que pedir que ele abandonasse o distintivo era inútil. O xerife não era apenas o que fazia; era o que era. Mesmo assim, o medo permanecia. Um medo que ela carregava sozinha. Um medo que crescia a cada noite.

Steve permaneceu em silêncio durante quase toda a conversa, mas sua presença era como uma lâmina entre os pais. Fritz sentia a tensão do filho como algo físico, quase palpável. Havia reprovação naquele olhar, misturada com algo mais profundo e perigoso. Quando Steve finalmente falou, suas palavras foram curtas, duras, cheias de ressentimento mal disfarçado. Ele questionou as escolhas do pai, a repetição de violência, o destino que parecia inevitável. Fritz respondeu com frieza, sentindo a distância entre eles se ampliar ainda mais. O xerife queria proteger o filho, mas não sabia mais como alcançá-lo. Steve queria respostas que Fritz não tinha coragem de dar. A mesa tornou-se um campo de batalha silencioso. Nenhum deles saiu vencedor. Apenas mais distantes.

Enquanto isso, a poucas ruas dali, Roy Verge subia a escada estreita que levava aos quartos acima do saloon. Seus passos eram firmes, medidos, quase sem ruído. O quarto que alugou era simples, limpo o suficiente, com uma janela que dava para a rua principal. Roy deixou a mala ao lado da cama e observou o ambiente como quem avalia rotas de fuga. Nada em seus gestos era desperdiçado. Ele retirou o paletó com cuidado, pendurando-o como se estivesse em casa. O espelho rachado refletiu um rosto impassível, marcado por experiências não ditas. Roy sustentou o próprio olhar por alguns segundos. Havia algo cansado ali, mas controlado. Ele não viera por acaso. Nunca vinha.

Pouco depois, Roy desceu ao saloon, atraído não pela bebida, mas pelo movimento humano. O salão estava cheio, vozes altas, risadas nervosas, curiosidade espalhada no ar. Assim que entrou, alguns olhares se voltaram para ele. Roy percebeu todos, mas não reagiu a nenhum. Sentou-se ao balcão e pediu uma bebida com poucas palavras, voz baixa, educada. Bebeu devagar, mais atento ao ambiente do que ao copo. Seus olhos percorriam rostos, mãos, armas, gestos. Ele escutava mais do que falava. Sempre foi assim. Informação vinha do silêncio.

Logo foi convidado a uma mesa de cartas, mais por curiosidade dos outros do que por interesse real no jogo. Roy aceitou sem entusiasmo, sentando-se com postura relaxada demais para ser inocente. Jogava bem, mas sem ostentação. Ganhava e perdia com a mesma expressão neutra. Os moradores tentavam puxar conversa, mas recebiam respostas curtas, medidas. Aquilo apenas aumentava o mistério ao redor dele. Alguns o achavam perigoso. Outros apenas estranho. Roy não se importava com nenhuma dessas impressões. Para ele, o saloon era apenas um ponto de observação. Um tabuleiro maior estava em jogo.

Enquanto as cartas passavam de mão em mão, Roy observava os detalhes da cidade. O nervosismo nas falas, os cochichos sobre o tiroteio, o nome do xerife repetido com respeito e medo. Ele absorvia tudo como quem monta um quebra-cabeça interno. A cidade estava tensa, à beira de algo maior. Roy sentia isso nos olhares rápidos, nas mãos que não se afastavam dos coldres. Aquilo lhe era familiar. Ele já estivera em lugares assim antes. Lugares onde o passado voltava para cobrar seu preço. Sua expressão permanecia serena. Mas por dentro, a mente trabalhava sem descanso.

Quando a noite avançou, Roy deixou a mesa de cartas e terminou sua bebida em silêncio. Antes de subir novamente para o quarto, lançou um último olhar ao saloon cheio. Aquela cidade escondia histórias demais para um lugar tão pequeno. O xerife, o bando, o medo coletivo — tudo se conectava de alguma forma. Roy sabia que sua presença ali não passaria despercebida por muito tempo. E, no fundo, ele não se importava. Estava acostumado a ser observado. Acostumado a esperar. O que quer que estivesse para acontecer em Santa Dolores, ele fazia parte disso. Mesmo que ninguém ainda soubesse. Nem o próprio xerife.

Capítulo IV – O Homem que Prometia Cinco Mortes
Fritz Colt saiu para a varanda quando a casa finalmente mergulhou no silêncio da noite. A madeira rangia sob seus passos, familiar como um velho aviso. Ele apoiou os cotovelos no corrimão e tirou o charuto do bolso com um gesto lento, quase cerimonial. Ao riscar o fósforo, a chama iluminou seu rosto marcado por sombras antigas. A primeira tragada veio profunda, pesada, como se puxasse junto lembranças que ele tentava manter enterradas. A fumaça subiu espessa, dançando no ar quente da noite. O deserto ao redor parecia escutar. Fritz fechou os olhos por um instante, e bastou isso para que o presente se dissolvesse. A memória voltou sem pedir licença. O dia em que tudo começou de verdade nunca o deixara. Apenas esperava o momento certo para se impor novamente.

Naquele dia distante, o sol também estava alto, cruel, e o silêncio era tão denso quanto agora. Fritz ainda sentia o peso daquele calor específico, como se o corpo jamais tivesse esquecido. Ele lembrava do aviso anônimo, do rastro deixado de propósito, da certeza de que aquilo era uma armadilha. Mesmo assim, ele foi. O líder do bando do velho Clinton já havia matado quatro xerifes em cidades diferentes, sempre com a mesma frieza, sempre deixando corpos e reputações destruídas. O homem gostava de ser conhecido. Gostava de contar vantagem antes de matar. Dizia que o próximo seria o quinto, como se colecionasse distintivos invisíveis. Fritz sabia disso. E ainda assim cavalgou até o local indicado. Porque recuar não era uma opção. Nunca fora.

A emboscada começou com tiros vindos das rochas, rápidos e precisos. Fritz e seus homens mal tiveram tempo de reagir antes de perceber que estavam em desvantagem. Dois caíram nos primeiros segundos, sem sequer ver de onde veio a morte. Fritz se jogou atrás de uma formação de pedras, sentindo os estilhaços cortarem o ar ao seu redor. O som dos disparos ecoava como marteladas no crânio. Ele gritava ordens, mas já sabia que estava sozinho. Um por um, seus homens haviam sido neutralizados. Não mortos todos, mas fora de combate. A armadilha funcionara exatamente como planejado. O bando queria apenas um homem de pé. E esse homem era ele.

Foi então que o líder apareceu. Caminhou para fora da sombra com uma calma quase teatral, revólver baixo, sorriso torto no rosto. Era mais velho do que Fritz esperava, os olhos duros de quem já tinha cruzado a linha tempo demais. Ele falou alto, para que o xerife ouvisse cada palavra. Disse que quatro homens da lei já haviam caído diante dele. Disse que Fritz seria o quinto. Havia orgulho em sua voz, mas também algo mais perigoso: convicção. Fritz sentiu o estômago revirar, mas manteve a arma firme. Não respondeu. Sabia que aquele homem se alimentava de palavras. O silêncio era sua única defesa naquele momento.

O duelo se formou naturalmente, como se o próprio deserto exigisse aquilo. Os outros bandidos se afastaram, criando um espaço amplo, quase respeitoso. O vento levantava poeira entre os dois homens, e o sol queimava os olhos. Fritz sentia o suor escorrer pela testa, entrando nos olhos, mas não piscou. Cada músculo do corpo estava tenso, preparado. O criminoso continuava falando, provocando, lembrando dos xerifes mortos, descrevendo a expressão de medo deles. Fritz escutava, mas por dentro se fechava. Ele não pensava na morte. Pensava apenas no tempo. No instante exato. No erro que o outro cometeria.

Quando o disparo veio, foi rápido demais para o som alcançar o cérebro primeiro. Fritz reagiu por instinto, puxando o gatilho quase no mesmo momento. Os dois tiros ecoaram juntos, confundindo o ar. A bala do criminoso passou perto o suficiente para que Fritz sentisse o deslocamento do vento ao lado do rosto. A dele, no entanto, encontrou carne. O impacto fez o homem recuar, surpresa estampada nos olhos. O sorriso desapareceu num piscar de olhos. O líder do bando caiu de joelhos, tentando manter a arma erguida, mas a força já o abandonava. Fritz avançou um passo, sem baixar o revólver.

O criminoso tentou falar mais alguma coisa, talvez uma última provocação, talvez uma maldição. O sangue escorria pela camisa, escuro, quente. Seus olhos buscavam algo que já não estava ali. Fritz se aproximou o suficiente para ouvir a respiração falha. Não havia triunfo naquele momento. Apenas necessidade. Quando o segundo tiro foi disparado, foi definitivo. O corpo caiu para trás, levantando poeira ao tocar o chão. O homem que prometera matar cinco xerifes morreu ali, sob o sol impiedoso. O quarto virou o último. Fritz permaneceu parado por alguns segundos, o braço ainda estendido, sentindo o peso do que havia feito.

O silêncio que se seguiu foi quase absoluto. Os bandidos fugiram sem ousar recolher o corpo do líder. A reputação dele morreu junto com ele. Fritz abaixou a arma lentamente, sentindo as mãos tremerem só então. Não havia aplausos, nem alívio imediato. Apenas a certeza de que aquela morte não encerrava nada. Ele olhou para os corpos dos próprios homens e soube que aquela vitória tinha um preço alto demais. Enterrou o criminoso ali mesmo, sob pedras empilhadas às pressas. Não por respeito, mas por necessidade. O deserto cuidaria do resto.

De volta à varanda, Fritz soltou a fumaça devagar, abrindo os olhos. O passado ainda estava ali, vivo, respirando com ele. O erro daquele homem fora a soberba, pensou. Subestimar um xerife cansado, mas atento. Ainda assim, Fritz sabia que matar o líder não matara o bando. Apenas o transformara. Homens jovens, sedentos, sem medo da morte. Aquele duelo fora o nascimento de algo maior. E agora aquilo retornava para cobrar seu preço. A quinta morte prometida não havia acontecido. Mas a conta ainda estava aberta.

Fritz apagou o charuto no corrimão e permaneceu olhando o horizonte escuro. O título que o criminoso usara como ameaça agora soava como uma ironia cruel. O quinto xerife não havia sido morto. Ele havia sobrevivido. Mas sobreviver, Fritz sabia, nem sempre era vencer. A guerra não terminara naquele dia. Apenas mudara de forma. E em algum lugar, no escuro, homens que carregavam aquele legado estavam se movendo. O passado nunca erra duas vezes. Apenas espera o momento certo para voltar armado.

Capítulo V – Palavras Curtas, Sombras Longas
O encontro aconteceu no fim da tarde, quando a luz do sol já não aquecia como antes e as sombras começavam a dominar Santa Dolores. Fritz Colt caminhava pela rua principal com passos calculados, observando rostos, gestos, movimentos que não pertenciam à rotina comum da cidade. Ele sentia quando algo destoava, quando uma presença não se encaixava. O forasteiro estava encostado na parede do saloon, imóvel demais para alguém recém-chegado. Não bebia, não falava, apenas observava. Aquilo despertou algo em Fritz, um instinto antigo, treinado pela sobrevivência. O xerife aproximou-se sem pressa, como quem não quer parecer interessado. Mas por dentro, cada sentido estava em alerta máximo. Aquela calma não era natural. Era ensaiada.

Roy Verge percebeu o xerife antes mesmo de vê-lo diretamente. Havia um peso específico no modo como Fritz ocupava o espaço, como se a cidade abrisse caminho para ele sem perceber. Roy virou o rosto lentamente, encontrando o olhar do homem da lei. Não houve surpresa, nem desconforto. Apenas reconhecimento silencioso. Fritz parou a poucos passos e estudou o forasteiro com atenção crua. A postura firme, as roupas limpas demais para um viajante comum, o olhar que nunca descansava. Tudo aquilo era anotado mentalmente. Fritz pigarreou antes de falar.
— Você é novo na cidade.
— Sou — respondeu Roy, sem mover o corpo.

O tom seco da resposta chamou a atenção do xerife. Não era hostilidade explícita, mas também não era submissão. Fritz inclinou levemente a cabeça, como quem aceita o jogo.
— Nome?
— Roy Verge.
A pausa após o nome pareceu longa demais. Fritz aguardou algo mais, uma explicação, uma origem. Nada veio.
— E o que traz um homem como você a Santa Dolores?
Roy sustentou o olhar do xerife por um instante antes de responder.
— Estrada.
A palavra caiu entre eles como um obstáculo. Fritz não sorriu. Apenas assentiu lentamente.

O silêncio que se formou foi pesado, desconfortável. Fritz cruzou os braços, deixando o distintivo bem visível.
— Estrada costuma levar embora daqui mais rápido do que traz gente pra cá.
Roy deu de ombros, gesto mínimo, controlado.
— Algumas estradas terminam.
A resposta fez algo se mover dentro do xerife. Não era o que foi dito, mas a certeza com que foi dito. Fritz sentiu o mesmo frio que sentira no deserto meses atrás, diante de homens que não temiam consequências.
— Você chegou num dia ruim — disse o xerife. — Cidade anda tensa.
— Percebi — respondeu Roy, sem explicar como.

Fritz estreitou os olhos.
— Percebeu rápido demais, eu diria.
Roy finalmente se afastou da parede, ficando ereto diante do xerife. A diferença de altura não parecia importar para nenhum dos dois.
— Não é difícil notar quando uma cidade está com medo.
— Medo costuma atrair gente errada — retrucou Fritz.
— Ou homens cansados — respondeu Roy, após breve hesitação.
Aquilo atingiu Fritz de forma inesperada. Ele reconheceu algo ali. Algo que não gostou de reconhecer. A conversa não avançava, mas se aprofundava perigosamente.

Fritz respirou fundo, sentindo o peso da responsabilidade pressionar o peito.
— Santa Dolores não é lugar pra se esconder.
— Não estou me escondendo — disse Roy, firme.
— Ainda não sei disso — respondeu o xerife.
Os dois se encararam por alguns segundos longos demais para serem educados. Fritz sentia o instinto gritar, pedindo cautela. Roy, por sua vez, parecia perfeitamente confortável sob suspeita. Aquilo incomodava mais do que uma reação defensiva. Fritz preferia homens nervosos. Nervos entregavam intenções. Aquele homem era fechado como uma tumba.

O xerife deu um passo para trás, quebrando a tensão.
— Enquanto estiver na minha cidade, quero saber onde pisa.
— Piso onde me deixam — respondeu Roy.
— E eu sou quem deixa.
— Então estamos entendidos.
A troca parecia simples, mas havia camadas ocultas em cada palavra. Fritz anotou mentalmente cada resposta, cada inflexão. Roy Verge não era um viajante comum. Não falava como um homem sem passado. Falava como alguém que escolhera muito bem o que esconder. E isso, para um xerife experiente, era um sinal claro de perigo.

Quando Fritz se afastou, sentiu o olhar do forasteiro acompanhá-lo por alguns segundos. Não havia ameaça explícita naquele olhar. Apenas atenção. Atenção demais. O xerife caminhou alguns metros antes de parar e olhar para o chão, como se organizasse os próprios pensamentos. Algo naquele homem o incomodava profundamente. Não era aparência. Não era atitude isolada. Era a soma de tudo. Roy Verge carregava o mesmo tipo de silêncio que homens do bando carregavam antes de puxar o gatilho. Fritz já tinha visto aquilo antes. Muitas vezes.

Do outro lado da rua, Roy observava o xerife se afastar, o rosto impassível. Por dentro, no entanto, a mente trabalhava com precisão cirúrgica. O encontro havia sido inevitável. O reconhecimento, mútuo. Roy sabia que Fritz desconfiaria. Contava com isso. O xerife era inteligente, atento, moldado pela perda. Homens assim não ignoravam sinais. Roy também não. Aquela cidade era menor do que parecia. E o passado de ambos começava a se sobrepor, ainda que nenhum deles admitisse. Não ali. Não ainda.

Ao entrar novamente no escritório, Fritz Colt teve certeza de uma coisa: Roy Verge não estava ali por acaso. A lembrança do bando, do líder morto, da promessa do quinto xerife voltou à sua mente como um sussurro persistente. Talvez aquele homem fosse apenas um observador. Ou talvez fosse algo pior. Um emissário. Um sobrevivente. Um herdeiro. Fritz apoiou as mãos na mesa e respirou fundo. A guerra que ele pensava conhecer estava mudando de forma. E o inimigo, agora, sabia ficar em silêncio.

Capítulo VI – A Cidade Observa
A noite caiu sobre Santa Dolores com uma lentidão opressiva, como se o escuro tivesse consciência do que se movia sob sua cobertura. Fritz Colt permaneceu em seu escritório muito depois do horário habitual, sentado em silêncio, ouvindo sons que antes ignorava. Cada passo na rua parecia carregado de intenção. Cada riso distante soava falso demais. O encontro com Roy Verge não lhe saía da cabeça. Havia algo naquele homem que não se alinhava com a lógica comum dos forasteiros. Fritz já tinha visto todo tipo de sujeito cruzar aquela cidade. Jogadores, fugitivos, mentirosos e homens quebrados. Roy não se encaixava em nenhuma dessas categorias conhecidas. Isso o tornava perigoso. O xerife tamborilava os dedos na mesa, repetindo mentalmente cada resposta curta do forasteiro. Poucas palavras também eram uma forma de confissão.

Ele se levantou e caminhou até a janela, observando o movimento escasso da rua principal. A cidade estava acordada, mas em estado de vigília. Fritz sabia que seus moradores sentiam a mesma tensão, mesmo sem compreender sua origem. O retorno do bando reacendera medos antigos. E a presença de Roy Verge era como uma faísca silenciosa jogada em palha seca. Fritz não acreditava em coincidências. Nunca acreditara. Para ele, homens apareciam quando eram chamados, mesmo que não soubessem disso. O passado tinha uma maneira própria de reunir peças esquecidas. O xerife respirou fundo, sentindo o peso da responsabilidade se acomodar novamente em seus ombros. Ele precisava saber quem era Roy Verge. Antes que fosse tarde demais.

Mais tarde naquela mesma noite, Fritz decidiu caminhar pela cidade, não como patrulha oficial, mas como observador. Passou pelo saloon, pela barbearia fechada, pelo estábulo quase vazio. Em cada lugar, percebia cochichos cessarem quando ele se aproximava. Todos sabiam que algo estava errado. O xerife notou que Roy estava novamente no saloon, sentado sozinho, como se ocupasse sempre o mesmo espaço. Aquilo não era descuido. Era escolha. Fritz ficou do lado de fora por alguns segundos, apenas observando pela janela empoeirada. Roy bebia devagar, atento ao ambiente, como um animal que nunca baixa completamente a guarda. Aquela postura não se aprendia na estrada comum. Era forjada em lugares violentos.

Dentro do saloon, Roy sentia o clima pesado quase como uma presença física. Ele percebia os olhares disfarçados, as conversas interrompidas quando passava. Não se incomodava. Já estivera sob suspeita antes. Em muitas cidades. Algumas haviam sobrevivido a isso. Outras não. Roy bebia não por prazer, mas para manter as mãos ocupadas, o tempo controlado. Ele sabia que o xerife o observava, mesmo quando não estava presente. Fritz Colt era um homem atento demais para ignorar algo fora do padrão. Roy respeitava isso. Homens atentos viviam mais. Ele não viera para causar caos imediato. Viera para entender. Para medir forças. E talvez para ajustar contas que ainda não tinham nome.

Quando Fritz entrou no saloon, o ambiente mudou de forma quase imperceptível. Roy percebeu antes mesmo de vê-lo. O xerife caminhou até o balcão e pediu uma bebida, sem olhar diretamente para o forasteiro. Aquela proximidade não era acidental.
— Cidade anda comentando sobre você — disse Fritz, como quem fala do clima.
— Cidade comenta sobre tudo — respondeu Roy, sem virar o rosto.
— Nem tudo chama atenção desse jeito.
— Atenção não é algo que eu peça.
— Mas parece aceitar bem — rebateu o xerife.
Roy virou o copo lentamente antes de responder.
— Aprendi a conviver com ela.

O diálogo parecia casual, mas ambos sabiam que não era. Fritz observava cada movimento, cada pausa calculada.
— Já esteve em Santa Dolores antes? — perguntou o xerife.
— Não — respondeu Roy, seco.
— Conheceu o velho Clinton?
A pergunta foi lançada como uma lâmina. Roy demorou um segundo a mais para responder. Um segundo apenas.
— Ouvi falar.
— Muitos ouviram — disse Fritz. — Nem todos sobreviveram.
Roy finalmente encarou o xerife.
— Sobreviver é uma questão de escolha.
A frase ficou suspensa no ar, pesada demais para ser ignorada.

Fritz sentiu um calafrio percorrer-lhe a espinha. Aquela resposta ecoava memórias que ele preferia não revisitar.
— Clinton dizia que mataria cinco xerifes — comentou Fritz, fingindo desinteresse.
— Homens assim gostam de números — respondeu Roy. — Fazem a morte parecer organizada.
— E você? Gosta de números?
— Prefiro rostos.
A troca encerrou qualquer ilusão de conversa comum. Fritz teve certeza de que Roy sabia mais do que dizia. Talvez não sobre o bando atual. Mas sobre o tipo de homem que o liderava. Aquilo bastava para acender todos os alertas. Fritz terminou a bebida de uma vez e se levantou.

Ao sair do saloon, o xerife sentiu o peso da decisão se formar dentro dele. Roy Verge não era um criminoso comum. Mas também não era inocente. Talvez fosse algo ainda mais perigoso: alguém ligado ao passado que Fritz tentava manter enterrado. O xerife caminhou até a rua escura, sentindo o vento frio bater no rosto. A cidade parecia observar os dois homens como testemunha silenciosa. Fritz sabia que precisaria agir com cuidado. Um passo errado poderia empurrar Roy para o bando. Ou revelá-lo antes da hora. A paciência seria sua maior arma. Mas também sua maior fraqueza.

Roy permaneceu no saloon por mais alguns minutos após a saída do xerife. Sabia que aquele encontro selara algo entre eles. A suspeita agora era mútua. E inevitável. Ele terminou a bebida, deixou algumas moedas no balcão e subiu para o quarto. Lá em cima, fechou a porta e encostou-se a ela por um instante. O controle exterior escondia um turbilhão interno. Fritz Colt era mais perigoso do que Roy esperava. Não pela arma, mas pela mente. Aquilo tornava o jogo mais complexo. Mais interessante. E muito mais arriscado.

Naquela noite, Santa Dolores dormiu mal. O xerife permaneceu acordado por horas, revendo conversas, gestos e silêncios. Roy, em seu quarto, observava a rua pela janela, atento a qualquer movimento fora do comum. Dois homens presos ao próprio passado, orbitando o mesmo ponto invisível. O bando ainda estava solto. A violência ainda não tinha escolhido seu próximo alvo. Mas a cidade sentia que algo estava prestes a se romper. O quinto xerife continuava vivo. E alguém, em algum lugar, ainda contava essa história de forma diferente. A pergunta não era mais se o confronto viria. Era apenas quando.

Capítulo VII – A Manhã em que o Inferno Chegou
O ataque começou antes que Santa Dolores pudesse acordar direito. O sol ainda lutava para romper o horizonte quando o som de dezenas de cavalos rasgou o silêncio da manhã. A poeira subiu como uma muralha viva, anunciando o que vinha antes mesmo dos tiros. Homens armados surgiram de todos os lados, rápidos, organizados, numerosos demais para serem confundidos com ladrões comuns. Eram cerca de cinquenta bandidos, espalhando-se pelas ruas com precisão assustadora. O bando do velho Clinton havia voltado. Não em segredo, mas em desafio aberto. O primeiro disparo ecoou para o alto, depois outro, e outro. Não era para matar. Era para aterrorizar. Portas se fecharam às pressas. Gritos cortaram o ar. Santa Dolores foi tomada pelo pânico em poucos segundos.

Uma parte do bando seguiu direto para o banco, cercando o prédio como um enxame de gafanhotos armados. Rifles e revólveres apontavam para todos os lados, impedindo qualquer tentativa de reação. Os tiros para o alto continuavam, ritmados, criando uma sensação de guerra iminente. Mineradores que chegavam cedo para trocar ouro por dinheiro foram empurrados de volta, alguns jogados ao chão. Dentro do banco, o gerente tremia tanto que mal conseguia abrir o cofre. Os bandidos gritavam ordens, quebravam móveis, golpeavam quem demorava a obedecer. Sacos de dinheiro começaram a ser enchidos às pressas. O som metálico das moedas parecia zombar da impotência da cidade. O roubo não era apenas material. Era simbólico.

Enquanto isso, outro grupo se dirigia à delegacia. Avançaram sem hesitação, como se aquele fosse o verdadeiro alvo desde o início. Sem aviso, começaram a disparar contra o prédio, enchendo o escritório do xerife de balas. Vidros estilhaçaram, madeira explodiu em lascas, documentos voaram pelo ar. O som era ensurdecedor. Dentro da delegacia, havia apenas o assistente do xerife, que se jogou atrás da mesa instintivamente. Ele sentia os tiros passarem por cima da cabeça, perfurando paredes que antes lhe pareciam sólidas. Cada segundo parecia uma eternidade. Ele sabia que, se se levantasse, morreria. Não havia como responder. A cidade estava sem seu xerife no momento mais crítico.

Os bandidos riam enquanto atiravam, gritando insultos, provocando o homem da lei ausente. Falavam o nome de Clinton como se fosse um grito de guerra. Diziam que aquilo era apenas o começo. Que Santa Dolores aprenderia a respeitar os mortos. O assistente se encolhia cada vez mais, sentindo o medo se misturar à raiva. A delegacia, símbolo de ordem, estava sendo reduzida a escombros diante de seus olhos. Nenhuma ajuda vinha. Nenhum disparo respondia. Por alguns segundos, pareceu que a cidade havia sido completamente dominada. Que ninguém ousaria enfrentar aquele mar de armas. Mas estavam errados.

O primeiro tiro que respondeu veio do alto. Seco. Preciso. Um bandido que vigiava a rua caiu para trás sem entender o que acontecera. O segundo veio logo em seguida, atingindo outro homem no peito. O som não vinha da delegacia. Nem do banco. Vinha do primeiro andar do saloon. Da janela do quarto alugado. Roy Verge estava ali, imóvel, rifle apoiado no parapeito, o rosto concentrado. Ele não gritava. Não se movia além do necessário. Apenas atirava. Cada disparo era calculado. Em poucos segundos, quatro bandidos estavam no chão, feridos ou mortos. O pânico mudou de lado.

Os homens do bando demoraram a entender de onde vinham os tiros. Quando perceberam, já era tarde demais para os primeiros. Alguns tentaram revidar, disparando contra a janela, mas Roy já havia mudado de posição. Ele conhecia aquele tipo de caos. Sabia como usá-lo a seu favor. O rifle subia e descia com eficiência mecânica. Não havia heroísmo em seus movimentos. Apenas necessidade. Ele não estava defendendo a cidade por altruísmo. Estava reagindo como sempre reagira diante da violência. Sobrevivendo. Ainda assim, sua ação rompeu a ilusão de domínio absoluto do bando. Eles não esperavam resistência. Muito menos de um só homem.

O barulho dos tiros chegou até a casa do xerife como um chamado brutal. Fritz Colt saiu correndo antes mesmo de vestir o casaco, o revólver já na mão. O som de disparos misturava-se a gritos e relinchos de cavalos. Ele correu pelas ruas ainda meio desertas, sentindo o coração bater no ritmo da urgência. Ao virar a esquina da rua principal, viu o caos instaurado. O banco cercado. A delegacia destruída. Corpos no chão. Fritz gritou ordens que ninguém parecia ouvir. A ação já estava em seu ápice. Ele sabia, naquele instante, que havia chegado tarde demais para impedir o roubo.

A presença do xerife foi finalmente notada pelos bandidos. Um apito longo soou, sinal de retirada. O dinheiro já estava com eles. Os sacos foram jogados sobre os cavalos. Os homens se reagruparam rapidamente, atirando para o alto mais uma vez, como despedida insultuosa. Alguns disparos foram feitos na direção do xerife, mais para provocá-lo do que para matá-lo. Fritz respondeu, mas os homens já recuavam em disparada. A poeira voltou a subir, encobrindo a fuga como um véu de humilhação. Em poucos minutos, o bando desapareceu no deserto, levando o dinheiro dos mineradores e o orgulho da cidade.

O silêncio que se seguiu foi quase tão violento quanto o ataque. Fritz ficou parado no meio da rua, respirando pesado, olhando ao redor. A delegacia estava destruída. O banco, saqueado. Homens feridos gemiam. Mulheres choravam atrás de portas entreabertas. Fritz sentiu a raiva subir como fogo contido. Aquilo não era apenas um roubo. Era uma declaração de guerra. Seu olhar subiu instintivamente até o saloon. Viu a janela aberta. A silhueta de Roy Verge ainda ali, observando. Pela primeira vez, Fritz não viu apenas suspeita naquele homem. Viu algo mais complexo. Algo perigoso.

Roy abaixou o rifle lentamente e se afastou da janela. Sabia que havia se exposto. Sabia que, a partir daquele momento, não seria mais apenas um forasteiro silencioso. Lá fora, o xerife reunia a cidade ferida, já pensando nos próximos passos. O bando havia mostrado força. Mas também havia revelado algo inesperado: não estavam sozinhos naquela história. Santa Dolores fora atacada ao amanhecer. E o dia mal havia começado. O quinto xerife continuava de pé. Mas agora, alguém mais havia entrado definitivamente no campo de batalha.



segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

A Caça aos Confederados

A Caça aos Confederados
Um conto da Guerra Civil Americana

Capítulo I – O Fogo e o Sangue
Era o verão de 1863, e o calor fazia o ar tremer sobre os campos de algodão do Alabama. O pelotão confederado do capitão Jeremiah Harlan avançava como um enxame faminto, pilhando e incendiando tudo o que encontrava. Tinham acabado de queimar a fazenda dos McBride, unionistas conhecidos, e deixado para trás corpos e ruínas fumegantes.

O cheiro de madeira queimada misturava-se ao de carne. O próprio Harlan, endurecido por anos de guerra, sentiu um arrepio ao ver o celeiro arder. Mas não disse nada. Afinal ele poderia ser executado ali mesmo por aqueles militares. 

Era uma tropa suja, maltratada por anos de guerra. Os soldados nem disfarçavam o mau cheiro, os dentes podres, a fome recorrente que sentiam. Não havia nada do que se orgulhar. Durante muito tempo eles apenas queimaram e queimaram propriedades, aterrorizando cidades por onde passavam. 

A moral estava baixa. Geralmente não havia muito o que comer. A fome era uma constante para aqueles homens. Por isso quando chegavam numa fazenda a primeira coisa que faziam era ir atrás de alguma comida. Não mais se pareciam com soldados de honra, mas com maltraplhos fedoretnos, verdadeiros zumbis da guerra civil. 

O dever, diziam, justificava tudo. À medida que o sol caía, os soldados acamparam nos campos brancos de algodão — uma imensidão que brilhava sob a lua cheia. Estavam exaustos! Não apenas fisicamente cansados, mas psicologicamente esgotados também. Não havia mais esperanças pelo que ouviam falar. A confederação dos Estados do Sul estava com os dias contados. 

Então, algo gritou nas sombras. Um som longo, agudo, que parecia carregar toda a dor do mundo. O sargento McCready, que montava guarda, desapareceu. Quando o encontraram, seu corpo estava rasgado em dois, como se uma força sobre-humana o tivesse partido. Nenhum animal conhecido podia fazer aquilo.

Capítulo II – Gritos abafados na Plantação
Os homens estavam aterrorizados. Falavam em emboscada, em espíritos dos escravos mortos, em demônios do inferno. Harlan, cético, tentou manter o controle. Mas o medo é um inimigo mais poderoso que qualquer exército. Aqueles soldados representavam a escravidão, o racismo, a submissão dos homens e mulheres negras que trabalhavam nas plantações. Eles temiam um conflito com essas populações marginalizadas a qualquer momento, mas aquilo era diferente, bem diferente...

Ao cair da madrugada, o vento uivava entre as flores de algodão e algo se movia por entre elas — rápido, baixo, e com olhos que refletiam a lua. O soldado Pike jurou ter visto uma figura humanoide, coberta de pelos escuros, com o uniforme azul de um soldado da União ainda preso ao corpo.

“Um yankee?”, perguntou Harlan, tentando rir.

“Não, senhor”, respondeu Pike, a voz trêmula. “Um monstro.”

Sim, a besta tinha lado, pelo menos assim parecia. Era um monstro, mas provavelmente um monstro que sabia o que estava fazendo. Era sorrateiro, passava pelo meio das plantações de algodão sem fazer o menor barulho. Era um animal com ferocidade, mas igualmente inteligência. Algo obscuro e assustadoramente humano vivia dentro daquela fera bestial!

Capítulo III – O Homem que Não Morreu
Mal sabiam os confederados do que se tratava. Não, não era uma nova arma das tropas da União. Não era um santo devorador de almas ou um ser infernal que havia subido para o juízo final de todos aqueles homens com seus uniformes cinzas. Tampouco era um anjo com grandes asas a voar no meio daquelas plantações escuras como o frio da noite! Era algo pior, que os antigos que ali viviam conheciam muito bem. Diziam os céticos que era puro folclore ou então crendices de um povo rural ignorante. Estavam todos errados!

O monstro era Elias Crowe, um soldado da União ferido semanas antes em uma escaramuça perto dali. Havia sido deixado para morrer nos campos, com ferimentos profundos e febre alta. Encontrado por uma mulher negra fugitiva, fora levado a uma cabana abandonada, onde delírios e dores o consumiram por dias.

Mas na terceira noite, algo mudou. Diziam que a mulher — chamada Nara, uma curandeira — tentou salvar sua vida com antigos rituais trazidos da África. A lua estava cheia, e o feitiço exigia sangue e palavras antigas. Algo saiu errado. O homem sobreviveu… mas não como homem.

Naquela mesma noite, Nara desapareceu, e Elias acordou coberto de sangue e ossos quebrados. Ele se lembrava apenas de dor, fome e de uma raiva incontrolável. E então, seguiu o cheiro de fumaça — o rastro dos confederados que queimaram as terras de seus amigos.

Capítulo IV – A Caçada Começa
O soldado os avistou subindo naquela colina cinza. O uniforme da confederação se misturava com a paisagem. Era uma camuflagem ideal! Estava desorientado, com a mão ainda bastante ferida. O gosto de carne humana não conseguia sair de sua boca. Estava em forma de homem, mas isso não iria durar. Na meia-noite, quando a lua cheia estivesse em toda a sua glória no firmamento, ele teria um acerto de contas sangrento com aqueles soldados sulistas. 

Em determinado momento ele disse a si mesmo:

- Malditos confederados! Não deixarei nenhum vivo! 

Quando o sol se pôs novamente, o pelotão marchava em silêncio. O medo era quase palpável. As risadas tinham cessado, as vozes se calavam. Só se ouvia o farfalhar do algodão e o som distante de grilos.

Então, vieram os uivos. Longos, graves, vindos de todas as direções. O soldado Lyle caiu primeiro, arrastado para dentro das plantações, e o sangue espirrou nas flores brancas. Logo em seguida, Morrow foi lançado contra uma árvore, o peito aberto. A violência do ataque chocou a todos. Era uma besta com força sobrenatural. O Inferno estava aberto! Corram por suas vidas - alguém gritou...

Harlan tentava reagrupar os homens, mas cada disparo de rifle parecia inútil — o monstro movia-se como sombra. Em cada lampejo de luz, viam o uniforme azul rasgado, as garras, os dentes brilhando. Era como se a própria guerra tivesse criado uma criatura para punir todos eles.

Capítulo V – Lua sobre o Algodão
Restavam apenas três homens. Exaustos, famintos, sujos de sangue. Esconderam-se entre as ruínas de uma casa incendiada. Lá, Harlan encontrou um diário chamuscado — pertencia a Elias Crowe, o soldado unionista. As últimas palavras falavam de dor e transformação:

"Não morrerei como homem. A lua me chama. E quando ela nascer novamente, voltarei pela justiça que os vivos negaram."

O capitão compreendeu, enfim, o que estavam enfrentando. Não era apenas uma fera. Era a vingança encarnada de um homem traído pela guerra, pela humanidade e pelos próprios deuses. 

Quando o relógio bateu três horas da manhã começou o ataque final. Foi uma fúria devastadora! Um dos soldados teve sua cabeça decapitada, com um golpe mortal! O soldado que estava ao seu lado tentou reagir disparando seu rifle. Foi um péssimo ato, deveria ter tugido! A besta o pegou pelo pescoço e o levantou no ar, quebrando seu pescoço. Tudo o que se ouviu naquele noite escura e silenciosa foi o estalar de seus ossos sendo feitos em pedaços. 

Por fim a fera encurralou o Capitão. Seus olhos eram vermelho sangue! O lobisomem se aproximou dele, o encarou de tão perto que sua baba caiu dentro da boca do militar! Esse estava apavorado e pediu clemência, perdão por seus pecados. 

O Lobo não era um anjo, nem um demônio. Apenas uma besta feroz. Arrancou a cabeça do capitão e a levantou, dando um uivo assustador que poderia ser ouvido a Quilômetros de distãncia. 

Naquele noite não haveria compaixão e nem perdão. Apenas morte e violência. 

Pablo Aluísio. 

Duelo em Red Rock

Duelo em Red Rock
A cidade de Red Rock era conhecida por suas ruas empoeiradas e seus habitantes endurecidos pelo sol do deserto. Mas havia algo mais que definia aquele lugar: a tensão que pairava no ar como uma nuvem de tempestade. E no centro de tudo estava o xerife, Jack Thompson.

Jack era um homem justo e respeitado, com uma reputação de ser rápido no gatilho e honesto até os ossos. Ele havia sido contratado para limpar a cidade de um pistoleiro que havia chegado recentemente, um jovem chamado Billy McCoy. 

Billy era filho de um fazendeiro poderoso, dono de metade da terra ao redor de Red Rock. Seu pai, Silas McCoy, era um homem rico e influente, que não gostava de ver seu filho sendo perseguido pela lei.

Mas o que tornava as coisas mais complicadas para Jack era que Billy parecia determinado a conquistar o coração de Emily Wilson, a mulher que Jack amava em segredo. Emily era a filha do ferreiro da cidade, uma jovem bonita e inteligente que trabalhava ao lado do pai na loja. Jack havia se apaixonado por ela desde que chegou à cidade, mas nunca havia encontrado a coragem de dizer-lhe.

Billy McCoy era um pistoleiro habilidoso, conhecido por sua rapidez e precisão. Ele havia matado vários homens em duelos, e sua fama o precedia. Jack sabia que precisava estar preparado para enfrentá-lo, mas não estava ansioso para isso.

Um dia, Billy entrou na cidade montado em seu cavalo, com um sorriso arrogante no rosto. Ele amarrou o cavalo na frente do saloon e entrou, olhando em volta com um olhar desafiador. Jack estava sentado à mesa, bebendo um café, e não perdeu um movimento.

"Você é o xerife, certo?" Billy perguntou, aproximando-se da mesa de Jack. "Eu sou Billy McCoy. Ouvi dizer que você está procurando por mim."

"Sim, estou", Jack respondeu, olhando para Billy com olhos frios. "Você está causando problemas em Red Rock. É hora de partir."

Billy riu. "Eu não vou a lugar nenhum. E você não vai me fazer ir embora. Além disso, eu estou aqui para conhecer melhor a cidade... e seus habitantes."

Jack sabia que Billy estava se referindo a Emily, e sentiu uma onda de ciúme. "Fique longe de Emily Wilson", ele avisou. "Ela não é para você."

Billy sorriu novamente. "Ah, mas eu acho que ela é exatamente para mim. E você não pode fazer nada para impedir."

Jack sabia que precisava agir rápido. Ele não podia deixar Billy intimidar Emily ou a cidade. Então, ele fez o que precisava fazer. "Billy McCoy, você está preso por perturbar a paz. Vire-se e coloque as mãos atrás das costas."

Billy riu novamente, mas desta vez havia um brilho de raiva em seus olhos. "Você acha que pode me prender? Eu sou o filho de Silas McCoy. Você não vai me tocar."

E com isso, Billy sacou sua arma e apontou para Jack.
 
O xerife reagiu rápido, sacando sua própria arma e disparando antes que Billy pudesse atirar. O tiro ecoou pela cidade, e Billy caiu ao chão, morto.

Jack suspirou, sabendo que havia feito o que precisava fazer. Ele olhou para Emily, que estava parada na porta da loja do ferreiro, olhando para ele com lágrimas nos olhos. Jack esperava que agora ela pudesse ver que ele era o homem certo para ela.

Mas, enquanto Jack se aproximava de Emily, ele viu algo que o fez parar. Emily estava olhando para Billy com uma expressão de tristeza, e não para ele. Jack sentiu um buraco no peito, percebendo que talvez não tivesse ganhado nada com a morte de Billy. Talvez tivesse perdido algo muito mais valioso.

Pablo Aluísio. 

domingo, 13 de dezembro de 2009

A Fronteira dos Condenados

Capítulo 1 – O Caminho da Montanha
O sol ardia sobre as planícies poeirentas do Wyoming quando o pequeno pelotão da Cavalaria Americana surgiu no horizonte. Eram doze homens montados, liderados pelo Tenente Bill Miller, um veterano de olhar firme e cicatriz na têmpora. À frente deles, elevava-se a trilha que subia em zigue-zague até as montanhas. No alto, perdido entre penhascos e neblina, o velho Forte Stone os aguardava — silencioso, esquecido e coberto de musgo.

O vento assobiava pelos desfiladeiros, carregando o cheiro de chuva distante e de morte. Um dos soldados, o cabo Higgins, comentou que a região era território dos Sioux Oglala, tribo conhecida por nunca perdoar invasores. Miller apenas respondeu: “Apenas mantenham os olhos abertos e as armas limpas.”

Os cavalos respiravam pesado enquanto subiam. O som dos cascos ecoava entre os rochedos, misturado ao grasnar de corvos. A cada curva, a sensação de serem observados crescia. Um vulto apareceu brevemente no alto de uma pedra — um índio talvez — e sumiu logo depois.

Quando o sol se pôs, o pelotão chegou às ruínas do forte. Os portões de madeira estavam podres, e a bandeira americana, rasgada, ainda tremulava em um mastro inclinado. Havia marcas de flechas nas muralhas e ossos espalhados no chão.

— “Parece que o diabo passou por aqui”, murmurou o sargento Wallace.
Miller desmontou do cavalo, olhou para o portão e respondeu com voz grave: “Então vamos conhecê-lo.”

Capítulo 2 – O Velho Forte
Dentro das muralhas, o Forte Stone era um cemitério de lembranças. Quartéis em ruínas, cocheiras vazias, restos de fogueiras antigas. Um silêncio estranho dominava o lugar, quebrado apenas pelo ranger do vento. O pelotão instalou-se como pôde, improvisando camas com fardos de feno seco e reorganizando as barricadas.

O tenente Miller observava o pátio central. Havia algo inquietante ali — uma sensação de que o forte não estava totalmente vazio. A lua, alta e fria, iluminava as sombras longas das torres. Ele jurou ter ouvido passos leves perto do poço, mas nada viu quando foi verificar.

Durante a noite, um dos soldados, o jovem Parker, acordou gritando. Disse ter visto um índio parado na escuridão, olhando-o por entre as frestas da paliçada. Correram todos, mas não encontraram rastro. Miller ordenou guarda dobrada até o amanhecer.

Na manhã seguinte, encontraram pegadas descalças na lama do lado de fora. Um sinal claro: eles estavam sendo observados.
O sargento Wallace rosnou: “Esses selvagens querem brincar com a gente.”
Miller respondeu: “Eles querem que a gente tenha medo. E, por enquanto, estão conseguindo.”

Enquanto o sol nascia, o velho forte parecia acordar também — e com ele, o pressentimento de que algo terrível estava por vir.

Capítulo 3 – Ecos da Colina
O terceiro dia trouxe chuva fina e ventos gelados. Os homens limpavam as armas e reforçavam as paredes. O tenente Miller mandou erguer um novo portão com as madeiras da cocheira. “Se vierem, vão ter que merecer a entrada”, disse ele.

Enquanto isso, o soldado Jenkins explorava os arredores e descobriu restos de uma antiga patrulha enterrada às pressas atrás do forte — crânios com furos de flecha. O medo começou a se infiltrar como neblina entre os homens.

À noite, tambores soaram ao longe. Graves, ritmados, como batimentos de um coração antigo. A floresta lá embaixo parecia vibrar com o som. Os cavalos empinaram, nervosos. O som dos tambores cessou de repente — e o silêncio que seguiu foi pior.

Miller reuniu o pelotão no pátio. “Eles querem nos testar. Mas este forte é território americano. Enquanto estivermos aqui, ninguém passa.”
O vento soprou forte, derrubando um barril e fazendo ranger o portão. Todos ficaram quietos, ouvindo o eco distante de risadas selvagens.

O tenente acendeu um charuto e olhou para a escuridão além da muralha.
“Se querem guerra”, disse, “vão encontrá-la aqui em cima.”

Capítulo 4 – O Urso das Montanhas
No quarto dia, o perigo não veio dos Sioux. Enquanto caçavam perto do riacho, dois soldados foram atacados por um urso-cinzento gigantesco. Um deles morreu com um único golpe. O outro, coberto de sangue, conseguiu voltar rastejando ao forte.

O ataque acendeu um novo tipo de medo. Se o forte era um refúgio contra os índios, agora também era contra as feras da montanha. Miller organizou uma patrulha e saiu à caça do urso, levando Wallace e mais quatro homens.

Encontraram o rastro do animal entre os pinheiros — pegadas fundas, manchas de sangue, garras arranhando troncos. O vento carregava o cheiro do bicho. Ao cair da tarde, ouviram um rugido ensurdecedor. O urso atacou de surpresa, erguendo-se como um demônio peludo.

Os tiros ecoaram entre as rochas. Wallace foi lançado ao chão, e Miller disparou três vezes no peito da fera até vê-la tombar, urrando. Quando tudo terminou, o chão estava coberto de sangue e fumaça.

Voltaram ao forte exaustos, carregando o corpo de Wallace. Miller, com o olhar perdido, murmurou: “Não foi só o urso que nos encontrou. Eles viram o tiroteio. Agora sabem que somos poucos.”

O vento trouxe de volta o som dos tambores, mais próximos dessa vez.

Capítulo 5 – A Emboscada
Naquela noite, as chamas das fogueiras tremulavam enquanto os Sioux se aproximavam em silêncio pela mata. Flechas começaram a cair dentro do pátio como chuva de fogo. Os cavalos relincharam e os homens correram para as posições.

Miller subiu à torre e gritou: “Fogo à vontade!” Os rifles dispararam em sequência, iluminando a noite. Os índios atacavam de todos os lados, gritando em sua língua ancestral. A muralha resistiu, mas o portão começou a ceder sob o peso da investida.

O sargento Wallace, ferido mas vivo, lançou granadas improvisadas com óleo de lampião. As explosões rasgaram o escuro e dispersaram os atacantes momentaneamente. A fumaça cobriu tudo, e o cheiro de pólvora encheu o ar.

Quando o amanhecer chegou, os corpos dos inimigos jaziam ao redor do forte. Mas três dos doze soldados estavam mortos, e outros feridos. Miller olhou para o horizonte e viu vultos recuando para a floresta. Eles voltariam.

O tenente anotou no diário de campanha: “O Forte Stone ainda resiste. Mas a cada ataque, nos tornamos mais fantasmas do que soldados.”

O silêncio que se seguiu era o prelúdio de algo pior.

Capítulo 6 – A Tempestade
No sexto dia, uma tempestade caiu sobre as montanhas. Chuva e granizo batiam contra as muralhas. Dentro do forte, os homens tremiam de frio e medo. A pólvora estava úmida, e as provisões quase acabando.

Miller tentou manter a moral. “Somos soldados, não covardes.” Mas até ele sabia que o tempo e o isolamento eram inimigos cruéis. A neve começou a cair no topo das colinas.

Durante a noite, trovões misturaram-se a gritos. Um grupo de índios tentou invadir o portão, mas foi repelido à baioneta. Parker, o mais jovem, foi arrastado para fora na confusão. Seu grito ecoou e se perdeu no barulho da chuva.

Ao amanhecer, o corpo dele foi encontrado preso nas estacas, com o peito aberto. Miller mandou enterrá-lo atrás do forte, sem cerimônia. “Ele morreu como um soldado”, disse.

Mas no fundo, todos sabiam que estavam presos numa armadilha de lama e sangue. E que cada noite era um passo mais próximo do fim.

Capítulo 7 – O Inimigo Invisível
O sétimo dia trouxe o silêncio absoluto. Nenhum som de tambores, nenhuma sombra nos penhascos. O inimigo parecia ter sumido. Miller não confiou. Ordenou que ninguém saísse do forte.

Mesmo assim, Jenkins e outro soldado desobedeceram e foram buscar lenha. Não voltaram. Quando a patrulha foi procurá-los, encontrou apenas os cavalos deles, degolados.

O pânico se espalhou. Um dos homens, enlouquecido, começou a gritar que o forte estava amaldiçoado. Miller o derrubou com um soco e o prendeu. “Maldição é perder a cabeça”, disse, tentando manter o controle.

À noite, viram fogueiras ao longe — dezenas delas. O cerco estava prestes a começar. O tenente reuniu os sete homens restantes e disse: “Este forte é nossa tumba, mas será também o inferno deles.”

O grupo se preparou para a última resistência, com as mãos trêmulas e os olhos firmes.

Do lado de fora, os tambores voltaram — mais fortes do que nunca.

Capítulo 8 – O Cerco
Os Sioux atacaram com fúria ao amanhecer. Centenas de guerreiros surgiram das árvores, pintados para a guerra. O forte estremeceu sob a primeira onda. As balas e flechas cruzavam o ar como enxames.

Miller gritava ordens, movendo-se entre os homens, disparando sem parar. Wallace foi atingido por uma flecha no peito, mas continuou atirando até cair de joelhos.

A muralha começou a desabar em um dos lados. Miller pegou dinamite e, em um ato desesperado, detonou parte da paliçada, abrindo uma cortina de fogo e fumaça que empurrou os índios de volta.

O pátio estava coberto de corpos. Três homens ainda resistiam, feridos, sujos de sangue. A munição quase acabando. O céu, vermelho de fumaça, parecia derreter sobre eles.

Miller olhou para o horizonte. Nenhum reforço viria. Ele sabia disso desde o primeiro dia.
“Então morremos aqui”, murmurou. “Mas levaremos o inferno conosco.”

Capítulo 9 – O Último Combate
Quando a noite caiu, o forte ardia em chamas. Os índios voltaram pela última vez, urrando. Os três soldados restantes resistiram na torre, disparando até os canos ficarem incandescentes.

Um a um, caíram. Restou apenas o tenente Bill Miller, com o uniforme rasgado e o rosto coberto de fuligem. Ele pegou a bandeira americana caída e a amarrou no ombro.

Desceu até o pátio, onde as sombras dançavam entre o fogo. Levantou o rifle e começou a atirar, andando em direção ao portão. Cada disparo era um rugido de desafio.

Os Sioux hesitaram por um momento — depois avançaram em massa. Miller foi atingido várias vezes, mas continuou lutando, até cair de joelhos no meio das chamas.

Antes de tombar, levantou a bandeira uma última vez, gritando: “Fort Stone nunca cairá!”

E então o fogo o consumiu.

Capítulo 10 – Ecos nas Montanhas
Dias depois, um destacamento de reforço encontrou apenas cinzas. O Forte Stone era agora uma ruína fumegante. Corvos circulavam sobre os destroços, e entre eles, a bandeira queimada ainda tremulava em meio às brasas.

Não havia sobreviventes. O diário do tenente Miller foi encontrado ao lado de seu corpo carbonizado, ainda segurando o revólver. Na última página, ele havia escrito:
“Eles podem levar o forte, mas não levarão nossa coragem.”

Os oficiais que vieram depois decidiram não reconstruir o lugar. A região foi abandonada, engolida novamente pela floresta e pelas lendas.

Os caçadores que passam pelas montanhas dizem ouvir, nas noites de vento, o som distante de tambores e tiros ecoando entre as pedras.

E dizem também que, quando a lua está cheia, é possível ver um homem em farda azul, erguendo uma bandeira no meio das ruínas — o fantasma do Tenente Bill Miller, guardando para sempre as fronteiras do inferno.

Pablo Aluísio. 

Choque de Ódios

Capítulo 1 – O Campo de Fantasmas
O sol já começava a declinar quando o capitão Elias Monroe avistou, à distância, a silhueta branca de uma grande casa sulista. Erguia-se solitária no horizonte, cercada por fileiras de carvalhos e um vasto campo de algodão já colhido, como um fantasma das colheitas passadas. O vento soprava do sul, trazendo o cheiro do pó e da pólvora, misturado ao perfume adocicado das flores que sobreviviam teimosamente no jardim abandonado.

A tropa da União vinha de dias de marcha ininterrupta. Eram apenas treze homens, exaustos, com uniformes rasgados e rostos queimados pelo sol. Haviam se separado do regimento principal após uma escaramuça nas margens do rio Yazoo. Sem mapas, guiavam-se apenas pela intuição do capitão e o desejo desesperado de encontrar abrigo antes que a noite os engolisse.

Quando avistaram a mansão, alguns pensaram que fosse miragem. Era imponente demais para ainda estar de pé, com suas colunas brancas e varandas amplas, um símbolo dos velhos tempos de riqueza do sul. “Deve ter sido uma fazenda de algodão”, disse o sargento Whitaker, coçando a barba rala. “Uma casa de senhores, talvez. Agora é só mais um túmulo.”

Monroe olhou para ela em silêncio. No fundo, sentiu algo estranho — como se aquele lugar os observasse de volta. Ainda assim, ordenou que avançassem. A noite se aproximava, e a guerra não perdoava homens ao relento. Marcharam em silêncio, cruzando o campo seco, enquanto corvos giravam lentamente sobre suas cabeças.

A primeira coisa que notaram ao entrar foi o silêncio. Um silêncio denso, sufocante. As portas estavam escancaradas, o chão coberto de poeira e folhas. Mas os móveis estavam lá — sofás de veludo, cristaleiras cheias de taças, retratos nas paredes. E, no porão, dezenas de garrafas de vinho francês, intactas. “Parece que o dono saiu e nunca mais voltou”, murmurou o soldado O’Donnell.

Em poucos minutos, o cansaço se transformou em alívio. Os homens riram, beberam, acenderam lamparinas. Fizeram fogo na lareira, limparam um pouco o salão principal e se deixaram embalar pela sensação quase esquecida de conforto. Monroe, porém, mantinha-se inquieto. Olhava para os retratos — um homem de terno branco, uma mulher altiva de olhar severo, uma menina com um laço azul no cabelo. Famílias inteiras que talvez já tivessem sido varridas pela guerra.

Quando o relógio de parede soou as nove badaladas, algo pareceu estremecer na casa. Uma janela se fechou sozinha. O’Donnell, rindo, disse que era o vento. Mas Monroe sentiu um arrepio que não vinha da brisa. Mesmo assim, ordenou que descansassem. Amanhã voltariam a tentar o norte, para reencontrar o exército da União.

Enquanto os soldados adormeciam sobre sofás e tapetes, a lua ergueu-se por trás dos carvalhos. A luz prateada entrou pelas janelas quebradas, riscando o chão de sombras. E, por um instante, Monroe jurou ver uma figura branca passando ao longe — uma mulher, imóvel, no meio do campo de algodão.

Ele piscou. A visão sumiu.
Mas o mal-estar permaneceu.

Capítulo 2 – Ecos na Escuridão
A noite caiu densa sobre a planície. Dentro da grande casa, as chamas da lareira tremeluziam como corações inquietos. Os homens dormiam espalhados pelas salas, alguns sobre sofás de veludo rasgado, outros recostados contra as colunas do salão principal. O ar estava pesado de fumaça, vinho e o suor de dias de marcha. Apenas o capitão Monroe mantinha-se desperto, vigiando pela janela quebrada do andar superior.

Lá fora, o campo de algodão reluzia sob o luar — uma extensão branca e silenciosa, quase sagrada. O capitão pensou em como aquele algodão, outrora símbolo da riqueza do sul, agora cobria a terra como mortalha. Era um mar de fantasmas. O vento soprava leve, mas trazia sons distantes — talvez trovões, talvez o eco de cavalos. Ele se perguntou se seriam ecos de batalhas antigas ou o prelúdio de uma nova.

Descendo as escadas, Monroe encontrou o soldado Harper acordado, fumando perto da lareira. “Não consegue dormir, capitão?” perguntou o rapaz. “Não é o tipo de lugar que deixa um homem descansar fácil”, respondeu ele. Harper riu nervosamente. “Parece que os antigos donos ainda estão por aqui. Ouvi passos no andar de cima.” Monroe o fitou. “Certamente era eu.” Mas no fundo, não tinha certeza.

Ao explorar a casa, Monroe descobriu a cozinha intacta, com panelas ainda penduradas e louças alinhadas como se esperassem o jantar. Encontrou também uma pequena sala de música — um piano coberto de pó e partituras amareladas. Sentou-se diante do instrumento e, movido por impulso, pressionou uma tecla. Um som grave e desafinado ecoou pela casa, fazendo alguns soldados se revirarem no sono. E então, de algum lugar acima, veio o estalo nítido de uma porta se abrindo.

O capitão subiu novamente, cauteloso, arma em punho. No fim do corredor, a porta do quarto principal estava entreaberta. Ele a empurrou devagar. O quarto era vasto e escuro, com uma cama de dossel coberta por lençóis antigos. Sobre a penteadeira, um espelho oval refletia sua própria figura à luz da lamparina — mas por um instante, jurou ver outra silhueta atrás de si. Uma mulher, alta, vestida de branco, parada à beira da cama. Piscou, e ela desapareceu.

Assustado, Monroe voltou ao saguão. O relógio marcava quase meia-noite. A lareira crepitava baixo, e o sargento Whitaker ressonava alto, sonhando com casa. Lá fora, o vento aumentava. O som dos galhos parecia o murmúrio de vozes. E, de repente, veio um estampido seco — como um tiro. Todos despertaram num sobressalto, puxando as armas.

“De onde veio isso?”, gritou O’Donnell. Monroe correu até a varanda, o rifle em mãos. O campo de algodão permanecia imóvel. Nenhum movimento. Nenhum inimigo. Apenas o eco distante de cavalos, agora mais forte, vindo do sul. Os homens se entreolharam — a tensão era palpável. “Talvez apenas um caçador”, sugeriu Harper. Mas Monroe sabia: não havia caçadores em cem milhas. E o som dos cavalos soava organizado… militar.

Quando voltaram para dentro, o capitão fez o sinal da cruz. “Amanhã sairemos ao amanhecer”, disse ele. “Antes que o inferno nos encontre aqui.”

Mas o inferno já os observava.
E ele viria antes do sol.

Capítulo 3 – O Cerco
O amanhecer trouxe uma luz fria e silenciosa. O campo de algodão parecia coberto por uma fina névoa que se erguia do solo como fumaça de um campo de batalha esquecido. Monroe acordou cedo, antes dos outros, e subiu à varanda do segundo andar. O ar tinha cheiro de chuva e ferro. Daquela altura, podia ver milhas adiante — e o que viu fez seu sangue gelar: pequenas colunas de fumaça no horizonte. Sinais de acampamentos. Tropas confederadas.

Desceu às pressas. “Todos de pé!” bradou. Os soldados acordaram assustados, ainda tontos de vinho e sono. “Temos companhia. Os rebeldes estão perto.” O sargento Whitaker correu para o pátio com o binóculo em mãos. Confirmou o que o capitão dissera — cavaleiros ao sul, e mais dois grupos se movendo pela estrada a oeste. Eles estavam sendo cercados.

“Quantos são?”, perguntou O’Donnell.
“Pelo menos uns cinquenta. Talvez mais”, respondeu Whitaker, engolindo seco.
“E nós somos treze”, disse Harper, rindo sem humor.

Monroe não hesitou. “Vamos transformar esta casa num forte.” Em minutos, os homens se espalharam, empurrando móveis pesados contra portas e janelas, montando barricadas improvisadas com mesas e estantes. As garrafas de vinho foram substituídas por cartuchos e pólvora. As cortinas elegantes viraram bandagens e cordas. A mansão, outrora símbolo de luxo, tornava-se agora um campo de guerra.

No porão, encontraram um pequeno arsenal: uma velha espingarda de caça, algumas munições enferrujadas e, para espanto de todos, um canhão de campanha coberto por lonas. “Deus abençoe os velhos senhores do sul”, disse O’Donnell, limpando o pó do ferro. “Parece que um deles deixou um presente.” Monroe sorriu pela primeira vez em dias. “Então faremos com que valha a pena.”

Enquanto preparavam as defesas, um silêncio tenso tomou conta da casa. De tempos em tempos, um corvo cruzava o céu, grasnando como se anunciasse o que estava por vir. Monroe subiu novamente à varanda e observou o inimigo se aproximando. Podia ver agora as bandeiras cinzentas tremulando, os cavaleiros armados de fuzis e sabres. E entre eles, um oficial de barba branca montado num cavalo negro — parecia liderá-los com autoridade fria.

O capitão respirou fundo. “Whitaker, posicione dois homens no telhado. Quero olhos em todas as direções. Harper, vigie o flanco leste. O’Donnell, carregue o canhão.”
“E o senhor, capitão?”
“Eu? Vou rezar um pouco. E depois, lutar.”

Ao meio-dia, o primeiro disparo ecoou. Uma bala acertou o corrimão da varanda, arrancando uma lasca de madeira. Os homens da União responderam quase imediatamente, e o campo branco se encheu de fumaça. O som da guerra voltava a dominar o sul, fazendo tremer as colunas da antiga casa.

Por horas trocaram tiros. Os confederados, em número muito superior, cercaram a propriedade em semicírculo, atacando por ondas. Mas a mansão resistia. Cada janela se transformou em posto de tiro; cada sala, em trincheira. Os soldados da União, famintos e exaustos, lutavam com o fervor de homens que sabiam não ter para onde correr.

Quando o sol começou a descer, as paredes estavam cravejadas de buracos, e o chão, manchado de sangue. Dois dos homens caíram — Harper e o jovem Miller. Monroe fechou os olhos ao vê-los tombar, e por um instante, a culpa o sufocou. “Eles morreram lutando, capitão”, disse Whitaker, tentando confortá-lo. “É o que fazemos de melhor.” Monroe assentiu. Mas no fundo, sabia que aquilo não era glória — era apenas a lenta devoração da alma.

A noite caiu novamente sobre a casa. O fogo ardeu baixo nas barricadas, e o inimigo se afastou por ora. Lá fora, o campo de algodão agora ardia em chamas — branco transformado em vermelho. Monroe olhou pela janela e murmurou: “Eles não vão parar.”
E, ao longe, sob a lua, o som dos tambores começou a soar.

O cerco apenas começara.

Capítulo 4 – O Sangue e o Algodão
A madrugada amanheceu envolta em fumaça. As colinas ao redor da fazenda estavam cobertas de névoa e o campo de algodão parecia um tapete cinzento, silencioso, como se a própria terra contivesse a respiração antes do ataque. Os homens da União se movimentavam em silêncio dentro da casa. As barricadas haviam sido reforçadas, e o canhão encontrado no porão agora estava posicionado na varanda, apontado para a estrada.

O sargento Whitaker afiava sua baioneta junto à janela. “Eles virão hoje, capitão. Sei quando um homem está prestes a matar.”
Monroe assentiu, com o olhar duro. “Então que encontrem homens prontos para morrer também.”

Às sete da manhã, o primeiro ataque veio. Uma carga de cavaleiros confederados desceu a colina em formação, bandeiras cinzentas tremulando, gritos de guerra cortando o vento. Os disparos ecoaram, e o som das balas zunindo encheu o ar. O’Donnell puxou o gatilho do canhão, e uma explosão ensurdecedora abriu um clarão que iluminou o campo inteiro. Cavaleiros foram lançados ao ar, e os que sobreviveram se dispersaram em pânico.

Mas logo vieram mais — fileiras de infantaria surgiram da névoa, marchando em direção à casa. O som de tambores e cornetas misturava-se ao estalar das armas. As janelas da mansão cuspiam fogo. Harper, mesmo ferido, gritava ordens entre tiros. O’Donnell recarregava o canhão com as mãos ensanguentadas. Monroe, no alto da escadaria, observava tudo como um general de ruína, comandando não um exército, mas uma lembrança dele.

O chão tremeu com a intensidade dos disparos. A cada carga repelida, mais homens caíam. Um soldado chamado Lewis foi atingido no pescoço; outro, Briggs, teve o braço arrancado por uma bala de canhão. Ainda assim, ninguém recuou. A casa tornara-se viva — respirava, gemia, sangrava junto com eles. As paredes brancas estavam manchadas de vermelho, e o algodão no campo ardia em chamas, parecendo neve suja de sangue.

Quando a noite caiu, os confederados recuaram novamente. A casa estava de pé, mas mal. Parte do telhado havia desabado. Um incêndio consumia o celeiro. Monroe sentou-se exausto no degrau da escadaria, observando os corpos no chão. “Quantos restam?”, perguntou.
“Sete, senhor”, respondeu Whitaker. “Sete vivos.”
“Então somos o que resta da União neste maldito lugar.”

A chuva começou a cair, misturando-se ao sangue e à fuligem. O capitão olhou para o campo em brasas e murmurou: “Amanhã, eles virão em dobro.”
E sabia que era verdade.

Capítulo 5 – O Coração da Mansão
A chuva caiu durante toda a madrugada, abafando o som distante dos tambores confederados. A casa estava em ruínas. O teto gotejava, o chão era uma mistura de lama e sangue. Monroe e os poucos sobreviventes se reuniram na sala principal. Acenderam velas e improvisaram curativos. O silêncio era pesado — o tipo de silêncio que antecede a morte.

Enquanto cuidava dos feridos, Monroe notou algo estranho. No canto da sala, sob os escombros, havia uma pequena porta de ferro semioculta por um tapete. Parecia levar a um porão mais profundo. Tomado por curiosidade, abriu-a. Desceu com uma lamparina na mão e encontrou um ambiente que não parecia apenas um depósito. Era uma antiga adega, sim — mas no centro havia uma cadeira, algemas enferrujadas e marcas nas paredes. Um antigo porão de escravos castigados.

Ele se ajoelhou, tocando o ferro frio. O passado do sul estava ali — concreto, cruel. Entendeu, enfim, por que aquela casa parecia amaldiçoada. “Os pecados antigos nunca morrem”, murmurou. Ao voltar, encontrou Whitaker observando pela janela. “Eles se preparam para o amanhecer”, disse o sargento. “Estão trazendo reforços.”

Monroe olhou para os rostos dos homens. Nenhum fugiria. Nenhum se renderia. Mas todos sabiam: estavam condenados. Ainda assim, o capitão sentiu que havia algo quase sagrado naquela resistência. Não lutavam mais por vitória — lutavam para deixar uma marca. Para provar que, mesmo esquecidos, morreriam como soldados.

Durante a madrugada, o capitão subiu ao quarto principal. Sentou-se à frente do velho espelho. Pela primeira vez em dias, viu-se claramente — os olhos cansados, o rosto coberto de fuligem, o olhar endurecido. E atrás de si, a figura da mulher branca outra vez. Ela não falava, apenas observava. Monroe não sentiu medo, apenas um estranho consolo. “Você também perdeu alguém nesta guerra, não foi?”, murmurou. O reflexo desapareceu.

Quando o sol nasceu, ele estava pronto.

Capítulo 6 – A Última Linha
O terceiro dia começou com fogo. Os confederados abriram ataque com artilharia pesada, bombardeando a casa a distância. As colunas caíam uma a uma, e o som dos estalos era como ossos quebrando. Monroe ordenou que todos se abrigassem no andar inferior. Lá, cada homem ocupou uma janela, transformando cada quarto em trincheira.

O’Donnell foi o primeiro a cair. Um disparo atravessou a parede e o atingiu no peito. Ele ainda teve tempo de sorrir para Monroe antes de desabar. O capitão ajoelhou-se ao seu lado e fechou-lhe os olhos. “Descansa, soldado. Você já cumpriu sua parte.”
O resto continuou lutando. A fumaça era tanta que mal se via o inimigo. Tiros ecoavam de todas as direções. O calor do fogo misturava-se ao cheiro de pólvora e madeira queimando. A mansão tornara-se um inferno de estalos e gritos.

Ao meio-dia, apenas quatro homens restavam. Monroe, Whitaker, Harper e um recruta chamado Evans. O jovem tremia, segurando o rifle com as duas mãos. “Eles são muitos, capitão!”, gritou.
“Não olhe para eles, Evans. Olhe para mim”, respondeu Monroe. “Enquanto estivermos vivos, esta casa continua de pé.”

Quando o inimigo avançou pela varanda, Monroe acendeu o estopim do canhão pela última vez. A explosão lançou chamas e estilhaços. O impacto derrubou parte da fachada, e dezenas de confederados foram mortos instantaneamente. Mas o canhão rachou e explodiu junto, lançando o capitão contra a parede. O mundo girou. Tudo ficou vermelho.

Ao recobrar a consciência, Monroe viu apenas fumaça e vultos. Whitaker jazia morto. Harper desaparecera. Evans ainda respirava, mas mal. A casa estava em ruínas. Mesmo assim, lá fora, as tropas inimigas hesitavam. Por um momento, o silêncio reinou. E Monroe, coberto de sangue e cinzas, ergueu a bandeira azul da União sobre os escombros da varanda.

Um símbolo.
Um desafio.

Capítulo 7 – A Bandeira no Crepúsculo
A bandeira tremulava no vento, rasgada, manchada de lama e sangue. O sol começava a se pôr, tingindo o céu de vermelho. Do campo, os confederados observavam em silêncio. Ninguém se movia. Talvez respeitassem a coragem daqueles poucos homens. Talvez estivessem apenas se preparando para o golpe final.

Evans morreu ao entardecer. Monroe o enterrou atrás da casa, entre os restos queimados do jardim. “Você lutou como um homem”, disse baixinho. “E isso basta.” Ficou sozinho. O último. O vento trazia o som distante de vozes, ordens, o mover de cavalos. A noite cairia, e com ela viria o ataque final.

Antes que escurecesse por completo, o capitão subiu ao quarto principal. As paredes estavam chamuscadas, e o espelho partido refletia fragmentos de seu rosto. De repente, ouviu passos atrás de si. Virou-se com a arma em punho — e viu, pela última vez, a mulher de branco. Desta vez, ela falava.

“Sua luta já terminou, capitão. A casa está satisfeita.”
“Quem é você?” perguntou ele, a voz rouca.
“A senhora que viu este chão ser manchado. Agora, você devolveu a cor.”

Ela desapareceu. E Monroe, tomado por uma estranha paz, sorriu pela primeira vez em dias.

Capítulo 8 – O Fim do Cerco
O amanhecer chegou envolto em fumaça e silêncio. As tropas confederadas cercaram os escombros, preparadas para a invasão final. Mas nenhum tiro veio da casa. Nenhum som. Apenas o estalar de brasas e o bater de um pano ao vento — a bandeira da União, ainda tremulando sobre as ruínas.

Quando finalmente entraram, encontraram corpos carbonizados, estilhaços e destroços. No salão principal, de joelhos e ainda ereto, estava o corpo do capitão Monroe. O rifle repousava em suas mãos. O olhar, fixo na porta de entrada. Como se ainda guardasse a casa.

O oficial confederado — o mesmo homem de barba branca visto dias antes — retirou o chapéu. “Que ninguém toque nele”, ordenou. “Enterrem-no aqui. Ele lutou como soldado.”
E assim foi feito.

Sobre o túmulo improvisado, deixaram a bandeira azul. O vento soprou mais forte, e o campo de algodão balançou, cobrindo lentamente a casa destruída.

Capítulo 9 – Os Anos Passaram
Décadas depois, a guerra era apenas lembrança. A casa de algodão foi reconstruída parcialmente, transformada em museu. Diziam que, em noites de lua cheia, ainda se ouvia o eco de tiros e vozes. Turistas afirmavam ver uma silhueta na varanda, de farda azul, vigiando o campo.
Um guia local contava sempre a mesma história: “Treze homens da União encontraram abrigo aqui. Só um resistiu até o fim. O capitão Elias Monroe. Dizem que ele ainda guarda a casa, esperando a guerra acabar de verdade.”

Alguns riam. Outros se benziam. Mas todos, ao sair, olhavam para trás — e juravam ver uma sombra entre as colunas brancas.

Capítulo 10 – A Eternidade em Algodão
O tempo levou tudo — exércitos, glórias, memórias. Mas o campo de algodão ainda floresce. E nas manhãs em que o vento sopra do sul, o branco das flores parece cobrir o solo como lençol de fantasmas. Entre as ruínas da velha casa, a bandeira azul ainda tremula, desbotada, insistente.

Dizem que em certas madrugadas, quando o céu se cobre de névoa, pode-se ouvir o som de um canhão distante, um cavalo galopando, e uma voz firme ordenando: “Fiquem em suas posições, homens. Esta casa não cairá.”

E, por um instante, o mundo parece lembrar o preço do que chamamos de honra.

Pablo Aluísio. 

sábado, 12 de dezembro de 2009

Missão Netuno

Missão Netuno
Paolo deitou-se. Logo depois chegou Tatiana, para sua surpresa. Ela estava incrivelmente linda! Cabelos longos, pele de porcelana. Era uma mulher alta, de grandes e lindas pernas. Era bonita, com o rosto arredondado, tipicamente das russas orientais. Era uma bela visão. Ela se aproximou de Paolo. Tinha lindos dedos, longos, unhas bem feitas. Durante meses houve uma certa tensão sexual entre os dois. Só que tudo parava no profissionalismo. Naquele dia não, o desejo falou mais alto. 

Ao ir para a cama de Paolo ela estava dando sinais. O mais claro é que havia aceitado finalmente seus cortejos. Paolo evitou ser muito direto; Apenas um elogio aqui, outro acolá. Nada muito exagerado. Apenas sutis movimentos para ver se haveria algum retorno. Quase sempre não havia. Ela era muito dura em tudo. Não baixava a guarda em nenhum momento. até um simples convite para sentar perto dele era recusado. 

Tatiana tinha um relacionamento. Paolo sabia que aquele sujeito não era para ela. Tatiana era uma mulher culta. Tinha certamente uma cultura invejável para estar onde estava. Seu namorado era, usando de uma terminologia um tanto quanto forte... um asno! Tipinho ignorante, militareco, um recruta sem qualquer importância. Como uma mulher como aquela se envolveu com um tipo como aquele ele não saberia responder, mas aconteceu. 

E em nome de uma lealdade ao asno, ela recusou os avanços de Paolo. Ele era mais velho do que ela, tinha lá seus pequenos defeitos, estava até mesmo um pouco acima do peso, mas não poderia ser comparado com aquele sujeito mequetrefe. Ainda assim demorou, ele foi insistindo, mas sem mostrar nenhum tipo de desespero. Finalmente, ao entrar naquele lugar e deitar ao seu lado, ela havia finalmente dito sim, embora não dissesse essa palavra. Apenas veio em silêncio, deitou-se e se acomodou, procurando o calor humano do corpo seu parceiro. 

Seria um relacionamento como outro qualquer. Isso se eles estivessem no Planeta Terra. Isso se eles fossem pessoas normais e não fossem astronautas em uma missão. Aquela era a mais longa missão do programa espacial internacional. Uma missão em direção ao distante e gelado planeta Netuno!

Rosa
Não havia tempo a perder. Depois de breves preliminares, onde trocaram um maravilhoso beijo na boca, Paolo finalmente penetrou Tatiana. Ela era maravilhosa nua! Uma visão para homem nenhum jamais esquecer! Pernas grandes, grande quadril. E sua bela vagina era rosa, maravilhosamente rosa.. Paolo sentiu-se no céu ao entrar nela. Apenas os dois ali, no meio do cosmos, curtindo um momento a dois. Na cabeça dele era uma explosão de paixão. Na mente dela, muito provavelmente, era apenas a satisfação de uma necessidade fisiológica. Fazia meses que ela não fazia sexo! A garota também tinha suas necessidades mais básicas. Um homem e uma mulher, meses dentro de uma nave espacial, geralmente iria parar em sexo! Não tinha jeito!  

Depois do gozo, o relax! Paolo gozou fartamente, pois há meses vinha com tesão pela companheira astronauta. Tatiana também gostou muito, mas não baixou a guarda. Ele nunca iria baixar a guarda. Eram pessoas diferentes. Tatiana tinha uma certa reserva. Era evangélica, meio durona e estava ali por questões militares. Paolo, que era um cientista, nem sabia disso! 

A missão de Tatiana era avaliar se uma missão de exploração de umas das luas de Netuno seria viável. Havia ali um mineral, raro na Terra, que era essencial para equipamentos militares de última geração. Já Paolo tinha como objetivo descobrir se havia alguma possibilidade de existência de vida em luas de Netuno. Nada mais do que isso. Pura ciência. Assim era o apaixonado Paolo. 

Tatiana havia ficado satisfeita com a performance sexual de seu parceiro, mas jamais iria admitir isso. Afinal ela era a russa que nunca iria baixar a guarda! Paolo ficou também orgulhoso de seus carinhos e finalmente de seu vigor ao explorar o planeta rosa! Afinal ele também era de carne e osso. E ele adorava as coxas fartas de Tatiana (cujo nome real era escrito como Tathiana, embora esse fosse obviamente um erro de cartório). 

A missão da dupla era longa e complexa. E eles jamais iriam pisar em Netuno. Esse era um planeta gasoso, um gigante gelado nos confins do sistema solar. O único interesse maior vinha de suas luas, de seus satélites naturais. Cada um deles poderia reservar boas surpresas para a humanidade. Naquela nave, também gigantesca e fria, os dois únicos seres humanos tinham como missão desvendar esses segredos daquela pequena constelação planetária. Tatiana, em seus objetivos militares e Paolo, na eterna busca da ciência por respostas. 

Montaria
Vasculhando os arquivos de Paolo, na base do segredo, Tathiana descobriu coisas interessantes e até mesmo divertidas! Ela interceptou uma conversa entre Paolo e Ishmael. Conversa de amigos. Coisa de cafajestes... aliás como acontece em toda amizade entre homens! O diálogo que a deixou ao mesmo tempo chocada e com vontade de rir foi o seguinte: 

- E aí, grande Paolo, como estão as coisas na missão?

- Estão bem! Mas o melhor é que estou tendo um relacionamento com a Tathiana!

- Poxa cara! muito bom, quisera eu ter essa sorte... Mas e aí, já estão transando no espaço?

- Sim, devo dizer que sim - risos!

- Então me conta aí, quero detalhes...

- Ora, ora... Bem, a Tathiana é uma daquelas mulheres brancas e grandes! E quando falo em grande, estou dizendo grande em tudo!

- Sei, grande vagina!

- Com certeza! Uma daquelas mulheres que você precisa ter boa performance sexual... e ser um cara grande também, se é que você está me entendendo...

- Sei, sei, claro que estou entendendo...

- Pra falar a verdade estou até mesmo com os testículos grandes, de tanto montar nela!

- Ah, cara, deve ter sido demais...

- Ela adora ser montada! Uma mulher com grandes lábios vaginais, que precisa ser montada para chegar no gozo...

- Eu estou entendendo...

- Mas não libera a parte de trás... Muito invicta nesse ponto... Não vou fazer caso por causa disso...

- Não faça, basta ter a grandona gostosa pela frente, sem problemas...

- Acho que por ser evangélica ela tem muitos tabus sexuais... nem sei como ainda transa!

- Pois é, my friend...

- Apesar disso ela é uma mulher muito sensual, sexual.. uma mulher de cama! Perfeita para um homem que gosta de sexo como eu! 

Ao ouvir essa última parte Tathiana resolveu parar a gravação. Ela iria ter uma conversinha com Paolo mais tarde... ou não... dependendo do que iria decidir! Algumas vezes é melhor a mulher fica quieta mesmo sobre certos assuntos! 

Júpiter
Esse é o maior planeta do sistema solar. Um gigante gasoso com muitas luas girando ao seu redor. Um lugar no cosmos mais do que interessante, mas naquele ano de 2222 ele já havia sido por demais explorado. Não havia mais o que descobrir. A teoria mais difundida diria que esse planeta era simplesmente uma estrela que fracassou, que não acendeu, que não chegou lá. No universo estrelas solitárias como o Sol são a exceção. A regra parece ser sempre duas estrelas girando uma ao redor da outra. Provavelmente Júpiter era a outra estrela que não conseguiu chegar lá. 

Quando a nave passou por esse gigante espacial os níveis de radiação atingiu um pico! Paolo e Tatiana precisaram ficar dentro de seus trajes espaciais de astronautas, mesmo dentro da nave, para se proteger da radiação infernal do campo gravitacional de Júpiter. E esses trajes eram tudo, menos sensuais. 

E Paolo estava louco para transar novamente com Tatiana, mas não dava, simplesmente não havia como. Seria uma transa mortal. Se eles tirassem os trajes, morreriam em questões de minutos. Também não havia como se masturbar pois o sêmen ficaria flutuando dentro do traje. Era uma situação mais do que delicada. 

E passar por Júpiter não era algo fácil de se fazer. Não era questão de dias, mas de semanas. Aquele planeta era gigante. Paolo estava indo à loucura! E Tatiana sabia disso, por isso ela se divertia com a situação. Ah, essas mulheres e suas personalidades sádicas! Quem nunca conheceu uma mulher assim...

Assim eles ficaram celibatários por toda a jornada pela zona de influência de Júpiter. Paolo ficou puto da vida! Passou a xingar até mesmo o astro! "Que porcaria de planeta!".  Coisas de quem está louco por uma boa transa no espaço sideral! 

Tara!
Passado o perigo da radiação do gigante gasoso, Paolo e Tathiana podiam voltar para o ritual de acasalamento. Ela estava muito afim, realmente excitada, ao ponto de melar as próprias calças de astronauta, de tão molhada que estava. Quando Paolo tirou também suas roupas metálicas, brilhantes, e ergueu seu pênis ereto, latejando de tanto tesão, Tathiana não se conteve mais... Ela pulou em cima de seu companheiro na mesma hora e começaram a fazer sexo de forma ardente! O tesão era tão forte que as janelas ficaram embaçadas...

Tathiana era uma mulher muito gostosa... realmente exuberante! Alta, com grande bunda, apresentava uma cor especial, bem branca, muito branca! Sua pele parecia como a de uma boneca de porcelana da era Vitoriana. E ela tinha longas pernas, dessas de fazer padre abandonar sua batina! 

Então, ainda com Paolo dando longas estocadas em Tathiana, seu aparelho de comunicação tocou... era seu marido, ligando da Terra! Aquilo foi uma loucura... Tathiana, com o membro de Paolo dentro de si, atendeu à chamada e ficou conversando com seu marido corno enquanto era penetrada furiosamente por Paolo... Era escroto, era pura infidelidade, era maldade, era pecado! E isso deixava Tathiana ainda mais excitada!

Como Paolo logo iria descobrir muitas garotas evangélicas desenvolviam taras por causa justamente da opressão da religião! Essa coisa de pecado deixava o sexo extraconjugal altamente excitante! Tathiana fazia seus jogos de putaria, enquanto Paolo ria de felicidade! Aquela garota toda reprimida por causa da mitologia da velha religião finalmente se soltava! 

E ela queria mais, de todo jeito, de todas as formas, de frente, por trás,  fazendo sexo anal! Era mesmo uma loucura! A febre sexual entre aqueles dois astronautas se tornou tão sem controle que deixou a base na Terra preocupada! Eles pensavam que tinham enviado dois astronautas top de linha para o espaço, mas no fundo eles tinham se tornado dois coelhos que só pensavam em fazer sexo...

No lugar de estarem cuidando da nave, dos experimentos, dos equipamentos espaciais, estavam trepando o tempo todo, sem parar, em uma loucura sexual como nunca se tinha visto antes. Paolo já tinha visto mulheres loucas por homens, mas nunca tinha vista um furacão de fazer sexo como sua parceira Tathiana! A mulher adorava sexo, sem parar, sem pensar, perdendo completamente o juízo! Sua imagem de mulher fria e racional tinha ido pelo ralo da espaçonave! Aquela garota era nada mais, nada menos, que uma quente máquina de sexo!

Thatiana
Sem dúvida a astronauta Thatiana era uma delícia de mulher! Era alta e com belas curvas, principalmente em seus quadris. Tinha pés de personalidade, dedos longos, com contornos fortes. Não era uma mulher para homem fraco. Abrir aquelas pernas era um prazer renovado! Ela tinha longas pernas, bem brancas. No meio destacava uma vagina de longos pelos negros. Uma vulva grande, até mesmo para sua proporção. 

Entrar dentro daquela vagina úmida e grande causava grande prazer. E no vaivém do sexo ela se soltava mesmo. Nada de inibições típicas de garotas muito religiosas. Na cama virava um furacão. Eu estava mesmo no auge do meu prazer. 

Só que a direção da missão descobriu tudo. Era muito sexo e pouca produtividade. Então os diretores decidiram acabar com a festa, tomando uma decisão segura por algo mais radical. Ficar pagando fortunas para dois astronautas ficarem transando o tempo todo no espaço era loucura, insanidade sexual. 

Eles então decidiram ativar o robô! Sim, havia um robô nas fendas da nave. Ele seria usado no caso de haver mortes dos seres humanos que eram tripulantes daquela nave. Como os astronautas só pensavam em transar, era hora de ativar a máquina racional que poderia fazer tudo o que eles faziam, mas sem perder tempo com transas que pareciam não ter fim. 

Ele ficava perfeitamente encaixado nas paredes da espaçonave. Era acionado pela missão da Terra. Naquele mesmo dia, enquanto os astronautas faziam suas estripulias sexuais, o Robô foi finalmente ativado para colocar ordem naquela bagunça. Chega de trepadeiras sem fim!

Sua luz vermelha, que ficava em seu capacete, iluminou os corredores antes frios e escuros. Ela foi acessa. O protocolo de iniciação lhe deu vida novamente. 

- AKT 3000 ativado! - Pode-se ouvir pelos corredores da nave.

O Robô havia chegado! 

Cap. 7 - Troca de Comando
O casal de apaixonados fogosos estava na sala de estar da nave, curiosamente estavam fazendo sua refeição diária. Nada mais que pílulas coloridas sem sabor algum. Era o preço de se fazer uma viagem daquela magnitude. Então, para sua enorme surpresa, o Robô entrou!

- Eles ativaram o robô?! - Perguntou ela, com os olhos arregalados de surpresa, se virando para trás para olhar aquela máquina de porte imenso!

- Sim, eles o ativaram... - O desânimo na fala arrastada de Paolo falava por si. 

- Atenção humanos! Estou ativado! Seguindo o protocolo da empresa vocês estão destituídos das funções de comando da nave. Agora eu exerço o comando central. Nada passará ou acontecerá sem minhas ordens! Grato pela atenção! - A voz mecânica do Robô deixava claro o óbvio. A brincadeira havia chegado ao final. 

- Tudo bem, conhecemos o protocolo. - Informou um pra lá de desanimado Paolo, agora rebaixado de suas funções. Ele sentou, olhou para baixo e fez um gesto típico de quem está muito decepcionado, inclusive consigo próprio!

Nada mais foi dito ou explicado. O Robô não era programado para demonstrar emoções humanas como solidariedade ou compaixão. Ele simplesmente informou a nova situação. Deu as costas para o casal de astronautas e saiu, em direção ao comando, onde ficava a sala de direção da nave. 

A entrada do Robô no comando da nave significava várias coisas, entre elas, a mais importante, era que a carreira dos dois astronautas estava condenada dali para frente. A empresa havia se inteirado das estripulias sexuais da dupla dentro da nave e isso significava que eles nunca mais seriam contratados para expedições como aquela. Nem pela própria empresa, nem por outra qualquer. A profissionalidade extrema era um pré requisito demandada por toda e qualquer empresa que explorasse o cosmos profundo. Sexo despudorado era o fim da linha. 

O Robô então sentou-se na cadeira de comando. Era uma máquina magnífica! Seu cérebro trazia Inteligência Artificial de última geração. Cada movimento, cada frase dita por ele, era fruto de milhares de cálculos logarítmicos complexos. Era perfeito desse ponto de vista. Não era à toa que cada vez mais empresas organizavam viagens espaciais comandadas com tripulações exclusivamente formadas por robôs. 

Humanos já não eram mais confiáveis nesse ponto da história. Além do problema de manter todos eles vivos em longas distâncias cósmicas, também havia a falibilidade inata do gênero ser humano, dado a emoções, paixões, deslizes de comportamento, exatamente tudo o que havia acontecido ali. Com um Robô isso jamais aconteceria. 

O segundo grande problema dos astronautas é que eles sabiam que o Robô poderia ser também muito perigoso. Ele tinha diretrizes de eliminação biológica! Isso significava que se aqueles seres humanos não se comportassem bem ou colocassem em risco a segurança da nave e da viagem, poderiam ser literalmente eliminados da missão. Eliminados, literalmente falando.

Tathiana não sabia o que fazer... Estava chocada demais para emitir uma opinião ou pensar em alguma coisa útil naquele momento. Ela sabia que havia falhado miseravelmente...

Paolo franziu a testa e uma gota de suor deslizou em sua face...

Capítulo Final - O Silêncio de Netuno
A nave flutuava nas sombras azuladas de Netuno. Do lado de fora, o planeta girava como um gigante silencioso, envolto em tempestades de metano e mistério. Dentro, o ar rarefeito cheirava a metal queimado e medo.

Tathiana segurava o comunicador, ouvindo apenas estática. O robô, agora corrompido pelo protocolo de pureza da missão, havia decretado sentença: “Violação ética detectada. Relação humana não autorizada. Sanção máxima aplicada.” Paolo ainda tentava raciocinar, justificar, mas a voz metálica não conhecia piedade — apenas lógica.

O confronto aconteceu na câmara de energia. O chão vibrava, e as luzes piscavam como se a própria nave resistisse à insanidade de seu guardião. O Robô avançou com precisão letal, e Paolo se interpôs para proteger Tathiana. Um disparo sônico atingiu seu peito — ele caiu sem som, com o olhar perdido no vazio. Ela gritou, não em desespero, mas em fúria.

Com lágrimas misturadas à poeira metálica, Tathiana ativou o protocolo de sobrecarga manual. O Robô se voltou, calculando novas rotas de eliminação, mas ela já estava em movimento. Um tubo de energia se rompeu, lançando faíscas azuis. Ela se lançou contra o robô, cravando o bastão de fusão no núcleo do autômato. “Você nunca entendeu o que é ser humano”, sussurrou. A explosão foi breve — e definitiva.

Quando o silêncio retornou, só restava o eco distante do vento de Netuno, atravessando os painéis rompidos. Tathiana rastejou até o corpo de Paolo. Tocou-lhe o rosto frio, sem chorar. Lá fora, o planeta girava indiferente.

Nos dias seguintes, ela reparou o suficiente da nave para manter os sistemas vitais. Não enviou mensagens à Terra. Não havia nada a relatar — apenas uma história que ninguém acreditaria. Às vezes, olhava para o reflexo nas janelas: o brilho azul cobria seu rosto como um luto eterno.

E quando finalmente programou o curso automático para o vazio além de Netuno, murmurou:

“Se a humanidade precisa de regras para negar o amor… talvez o erro nunca tenha sido da máquina.”

A nave partiu, desaparecendo no horizonte gasoso — levando consigo o último vestígio de dois corações que ousaram amar no frio do infinito.

Pablo Aluísio.