sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

Filmografia Comentada: Montgomery Clift

Aqui pretendo disponibilizar textos sobre alguns dos filmes estrelados por Montgomery Clift. O ator foi um dos três grandes ícones jovens da década de 50 (ao lado de Marlon Brando e James Dean). Frágil, sensível e excelente intérprete fez grandes atuações ao longo da carreira, fruto de seu trabalho com grandes diretores. Sempre adorei filmes clássicos e acho importante compartilhar com os leitores do blog alguns breves comentários sobre seus filmes.

Corações Solitários
Jovem jornalista desempregado (Montgomery Clift) aceita trabalhar em um jornal escrevendo a coluna "Corações Solitários". Nela leitores pedem conselhos sentimentais. Inicialmente o jornalista pensa ser tudo uma bobagem mas conforme vai se envolvendo nas histórias acaba descobrindo os dramas pessoais de cada pessoa que lhe escreve. Como se já não bastasse os problemas profissionais ele ainda tem que lidar com sua noiva (Dolores Hart) que está perdendo a paciência com sua indefinição (ela quer se casar logo mas ele vacila sobre essa decisão). O argumento de "Corações Solitários" é muito interessante. Existe um subtexto envolvendo o personagem de Clift (jovem idealista) com seu editor (cínico e descrente com a humanidade em geral) que rende ótimos diálogos. Em um deles, impagável, o editor diz a Clift "Não se engane, as pessoas em geral são animais, não existe bondade no mundo". A tese de um e do outro acabará sendo testada justamente nos leitores da coluna "Corações Solitários" - inclusive no personagem de uma dona de casa insatisfeita casada com um homem impotente. Como facilmente se percebe o texto (baseado em uma famosa peça da época) é forte. Clift novamente dá show com seu personagem, um jornalista bom e decente que tenta driblar inclusive seu passado nebuloso (que acabará voltando à tona para lhe assombrar). Outro destaque é a presença da starlet Dolores Hart. Já conhecia ela de um filme com Elvis Presley (Loving You). Sua história é bem curiosa pois pouco tempo depois ela largaria a carreira e o cinema para virar uma freira católica em sua cidade natal. Ela ainda está viva e hoje é uma irmã beneditina de um mosteiro americano. Em suma, "Corações Solitários" tem excelente elenco, inteligente roteiro e um final aberto que nos deixa a pergunta: Afinal quem tinha razão, o editor ou o jornalista? Assista para responder.

Rio Violento
Genial essa obra do grande Elia Kazan. O filme procura responder a uma questão extremamente pertinente: Até que ponto o progresso justifica a mudança compulsória do modo de vida das pessoas? No filme Montgomery Clift (excepcionalmente bem) interpreta um agente do governo dos EUA que tem a missão de retirar uma senhora idosa que mora em uma ilha no rio Tennessee. Ela se recusa a abandonar o local pois foi ali que criou seus filhos, enterrou seu marido e viveu ao lado de negros libertos e demais moradores do local. Lutando por seus valores tradicionais e por aquilo que lhe é mais importante a senhora resolve enfrentar até mesmo o poder do governo americano. Em um elenco ótimo, a atriz Jo Van Fleet está simplesmente maravilhosa. Interpretando a matriarca Ella Garth ela tem duas grandes cenas que a fazem ser o grande destaque de todo o filme. Em uma delas explica ao personagem de Montgomery Clift a dignidade de quem viveu e trabalhou no rio Tennessee há gerações. Devo dizer que poucas vezes vi Clift ser superado em cena mas aqui ele realmente foi colocado para escanteio, tamanho a grandeza de Fleet em cena. Socialmente consciente, tocando em temas tabus para a época (como o racismo do sul dos EUA), Rio Violento é um dos melhores trabalhos de Kazan (e isso definitivamente não é pouca coisa). Simplesmente grandioso.

Os Deuses Vencidos
Eu considero esse filme simplesmente obrigatório para todos os cinéfilos. O elenco é estrelar e o roteiro muito bem desenvolvido, resultando numa produção memorável. “Os Deuses Vencidos” foi baseado no famoso livro de autoria de Irwin Shaw. A proposta é mostrar aspectos da II Guerra Mundial sob o ponto de vista de alguns combatentes, tanto do lado dos aliados como também dos soldados do Eixo. Tudo mostrado sem cair nos clichês típicos dos filmes de guerra, que sempre procuraram mostrar os soldados americanos como heróis virtuosos e os alemães como monstros assassinos e sanguinários. A intenção é realmente construir um mosaico mais próximo da realidade, mostrando que em ambos os lados lutaram pessoas comuns, com sonhos e objetivos que foram interrompidos de forma brutal pela guerra. Olhando sob esse ponto de vista realmente não existia grande diferença entre um militar americano ou alemão. Todos queriam voltar para casa o mais rapidamente possível, sobreviver aos combates e retornar para a vida que tinham antes da guerra começar. O filme tem longa duração, com quase três horas de duração, e é fácil entender o porquê. São duas estórias paralelas que se desenvolvem ao mesmo tempo. Na primeira somos apresentados ao tenente alemão Christian Diestl (Marlon Brando) na França ocupada. Essa parte é bem interessante pois o ator na época fez questão de mostrar o oficial nazista como um ser humano comum e não como o vilão caricato dos filmes de guerra que conhecemos. Nem é preciso dizer que Marlon se saiu muito bem em mais uma atuação marcante de sua filmografia. Na outra estória, passada no lado dos militares aliados, acompanhamos dois soldados americanos (Dean Martin e Montgomery Clift) que são convocados e mandados para a Normandia. Essa parte do roteiro foca bastante na vida dos que participaram da maior batalha da guerra, no evento que ficaria conhecido pela história como “Dia D”. Dean Martin repete seu papel contumaz de "Mr Cool". Aqui ele interpreta um cantor da Broadway que faz de tudo para escapar da guerra e do front mas que não consegue escapar de ir para o campo de batalha. Já Montgomery Clift apresenta uma grande interpretação como um soldado judeu que sofre nas mãos de seus colegas de farda durante seu treinamento. Seu papel me lembrou muito o que ele representou em "A Um Passo da Eternidade". Seu aspecto não é nada bom em cena. Os sinais físicos do alcoolismo já são nítidos e Clift aparece muito magro e abatido, com aspecto doentio. Mesmo assim está fabuloso em suas cenas. Ponto para Marlon Brando que fez de tudo para que o colega fosse escalado para o filme pois sabia que isso iria lhe ajudar a superar a crise pessoal pelo qual vinha passando. A direção foi entregue ao veterano das telas Edward Dmytryk; Com experiência em filmes de guerra como “A Nave da Revolta” o  diretor sabia que estava trabalhando com dois atores muito sensíveis e carismáticas proveniente do Actor´s Studio. Assim procurou abrir uma linha de diálogo com ambos. Ele já tinha trabalhado com Clift em seu filme anterior, “A Árvore da Vida” e por isso sentiu-se tranquilo em relação a ele. Já com Brando procurou manter uma relação no nível profissional. Sabia que Marlon Brando poderia ser tanto um ator maravilhoso no set como um terror para os cineastas que trabalhavam com ele. No final se deram bem e tudo correu sem maiores problemas. O resultado de tantos talentos juntos se vê na tela pois “Os Deuses Vencidos” é hoje em dia considerado um filme essencial dentro do gênero. Um verdadeiro clássico. 

De Repente no Último Verão
O filme começa logo impactando. As duas primeiras cenas juntas duram mais de 50 minutos (praticamente mais da metade do filme). Nelas temos dois duelos em cena: Katherine Hepburn vs Mont Clift e logo em seqüência Liz Taylor vs Clift. Curioso é que em ambas Mont apenas serve de escada para que as atrizes declamem longos monólogos sobre Sebastian (o personagem cujo rosto nunca aparece mas que é citado em praticamente todos os diálogos do roteiro). Esse começo arrebatador sintetiza tudo: é um filme de diálogos e interpretação, nada mais. Sua gênese teatral não é disfarçada e nem amenizada até porque estamos tratando de Tennessee Willams, um dos grandes dramaturgos da cultura americana. Achei Elizabeth Taylor extremamente bonita no filme. Ela já estava entrando nos seus 30 anos mas ainda continuava belíssima. Mostra talento em cada cena mas não fica à altura de Hepburn (essa realmente foi uma das maiores atrizes da história). Já Montgomery Clift deixa transparecer as cicatrizes e deformações de seu rosto, após o grave acidente que sofreu ao sair de uma festa na casa da amiga Liz Taylor. Ele está contido no papel mas consegue dar conta muito bem do recado mesmo com as várias dores que sofria (atuou praticamente sedado durante todo o filme). O texto é rico e claramente trata da questão homossexual do personagem Sebastian mas justamente por essa razão teve que ser amenizado nas telas por causa da censura interna que imperava entre os estúdios. De qualquer forma o resultado não pode ser classificado como menos do que grandioso. Todos brilham em cena – na realidade se trata de uma rara oportunidade de ver tantos talentos juntos em um só filme. Simplesmente imperdível.

Rio Vermelho
Assistir a esse filme foi um enorme prazer para mim. Primeiro porque eu sou um fã incondicional do ator Montgomery Clift. Segundo porque eu acho este um dos mais belos westerns de todos os tempos e terceiro porque John Wayne e Howard Hawks estão no auge de suas carreiras. Esta é uma película realmente nota dez, em todos os aspectos e por isso se tornou um filme atemporal, inesquecível e clássico. Montgomery Clift era um caso à parte. Considerado um dos maiores atores jovens de seu tempo, ao lado de Marlon Brando e James Dean, Clift era um profissional à frente de sua época. Cria do teatro americano, local onde ele sentia-se realmente à vontade, ele relutou muito antes de ingressar no cinema. Temia perder sua identidade e ser engolido pelo Star System. Sempre foi um ator independente e conseguiu se impor à indústria, fez poucos filmes, mas todos escolhidos a dedo, e muitos destes títulos se tornaram clássicos absolutos da história. do cinema americano. Basta lembrar de "Um lugar ao sol" e "A um passo da Eternidade", por exemplo. Complexo e torturado por demônios internos, Clift acabou por tabela imprimindo uma densidade ímpar em suas atuações. O conflito interno do ator era automaticamente passado para seus papéis. Aqui ele se sobressai mesmo interpretando um personagem sem grande profundidade, em sua estréia nas telas, curiosamente em um western estrelado pelo maior nome do gênero, John Wayne. O contraste entre a determinação e rudeza de Wayne com a sensibilidade de Clift se torna um dos grandes trunfos do filme. E o Duke? Bem, ele está novamente ótimo no papel de um velho rancheiro dono de milhares de cabeças de gado, que tem como único objetivo levá-las, em uma grande caravana, para o Estado do Missouri. Conforme o tempo passa e as dificuldades se tornam maiores o personagem de Wayne vai ficando cada vez mais obcecado, tornando insuportável a vida de seus homens. O clímax ocorre em uma feroz luta entre Wayne e Clift. Um duelo entre os velhos e os novos paradigmas do velho oeste. A cena entrou para a história do cinema americano. Em relação à inspirada direção um famoso crítico americano resumiu a opinião da época: "Tendo como pano de fundo as belas paisagens do meio oeste americano, o mestre Howard Hawks faz um dos melhores faroestes dos últimos tempos, não se limitando, no entanto, a falar apenas do expansionismo capitalista americano, povoando terras desertas em meados do século 19. Vai além: realizando um belo painel sobre as relações humanas, através dp choque de personalidades de Dunson (Wayne) e Garth (Montgomery Clifi). Criados como pai e filho, protagonizam uma estória de amor e ódio absolutamente emocionante". O filme concorreu aos Oscar de melhor roteiro e Montagem. Uma injustiça não ter ganho nenhum, mas se a Academia não o premiou ele acabou recebendo outro tipo de reconhecimento, e este bem mais importante, o reconhecimento popular daqueles que o assistiram e jamais esqueceram ao longo de todos esses anos.

Os Desajustados
Esse foi o último filme completo da Marilyn. Ela ainda chegou a iniciar as filmagens de "Something s Got To Give" ao lado de Dean Martin mas o filme não foi concluído. Seus atrasos, faltas e confusões no set fizeram com que a Fox a despedisse no meio da produção. Pouco tempo depois, pressionada, abandonada e depressiva veio a encontrar sua morte em um quarto solitário de sua casa. Assim Os Desajustados se tornou seu último momento no cinema. Eu acho um filme triste, melancólico e depressivo até. Afirmam algumas biografias da estrela que Arthur Miller escreveu o conto que deu origem ao filme inspirado justamente na sua vida com a Marilyn. Os excessos da vida da atriz aparecem na tela, apesar de Marilyn Monroe ainda aparecer linda nas cenas, ela está bem acima do peso e abatida. Muitas vezes a atriz surge em cena com o olhar perdido no horizonte, sem convicção. Fisicamente ela também mostra sinais de desgaste. Numa cena de praia, por exemplo, em que ela aparece de biquíni a atriz exibe uma barriguinha bem saliente. As brigas com o marido no set também foram constantes. Em certa ocasião deixou Arthur Miller abandonado no meio do deserto (onde o filme estava sendo filmado) se recusando a deixá-lo entrar em seu carro. O diretor John Huston teve então que voltar para ir pegá-lo, caso contrário morreria naquele lugar seco e inóspito. Marilyn também continuava com seu medo irracional dos sets de filmagens. Antes de entrar em cena ela ficava nervosa, em pânico. Errava muito suas falas e fazia o resto do elenco perder a paciência com suas atitudes. Seu medo de atuar nunca havia desaparecido mesmo após tantos anos de carreira. Interessante é que apesar de Marilyn não sair das revistas e jornais por causa dos acontecimentos ocorridos nas filmagens o filme não conseguiu fazer sucesso o que é uma surpresa e tanto pelo elenco estelar e pela publicidade extra que recebeu dos tablóides. Muitos atribuem o fracasso ao próprio texto de Arthur Miller que não tinha foco e nem uma boa dramaturgia. Aliás desde que se casou com Marilyn o autor parecia ter perdido o toque para bons textos. Tudo soava sem inspiração, sem talento. "Os Desajustados" também foi a última produção com o mito Clark Gable. Envelhecido e decadente sofreu bastante com os problemas do filme, o levando a um esgotamento físico e mental, vindo a falecer pouco depois. Acusada de ter contribuído para o colapso de Gable, Marilyn sentiu-se culpada e ganhou mais um motivo para sua depressão crônica. De qualquer forma só pelo fato de "Os Desajustados" ter sido o último filme de Monroe e Gable já vale sua existência. Não é tecnicamente um excelente filme mas está na história do cinema pelo que representou na vida de todos esses grandes mitos que fizeram parte de sua realização.

Um Lugar Ao Sol
George Eastman (Montgomery Clift) é o jovem sobrinho de um rico industrial do mercado de roupas femininas. Seu tio logo o emprega em uma das fábricas como empacotador. Lá conhece a operária Alice (Shelley Winters) e logo se enamora dela. Ao mesmo tempo em que corteja Alice acaba se envolvendo também com Angela Vickers (Elizabeth Taylor) uma rica garota da alta sociedade. O triângulo amoroso trará consequências trágicas para todos os envolvidos. "Um Lugar Ao Sol" é um dos grandes clássicos da carreira de Montgomery Clift e Elizabeth Taylor. O filme mescla muito bem romance, suspense e drama. Vivendo em dois mundos completamente distintos o personagem de Montgomery Clift, um pobre rapaz que anseia subir na vida algum dia, acaba perdendo o controle dos acontecimentos em sua vida emocional, o que o levará a pagar um alto preço por se envolver com duas garotas ao mesmo tempo. George Stevens foi um dos grandes diretores do cinema americano. Austero e detalhista ele filmava muitas tomadas diferentes, de ângulos diversos para só depois montar o filme ao seu bel prazer. Assistindo "Um Lugar ao Sol" é fácil perceber que ele estava literalmente obcecado pelo belo rosto juvenil de Elizabeth Taylor. O cineasta usa e abusa de vários closes do rosto de sua atriz, o que não é nada mal uma vez que Liz estava no auge de sua beleza. Com traços delicados e lindos olhos azuis (que infelizmente não foram captados pois o filme foi rodado em preto e branco) a estrela poucas vezes esteve tão bonita como aqui. O roteiro foi baseado no livro "An American Tragedy" de Patrick Kearney. Embora ficcional a estória foi inspirada em fatos reais acontecidos em Chicago na década de 20. A situação toda é bastante sórdida e demonstra que não existem muitos limites para a maldade da alma humana, embora no filme o personagem Geroge Eastman seja de certa forma amenizado. É fácil compreender a razão. Não haveria como rodar toda uma produção como essa em cima de um mero assassino. Assim tudo foi cuidadosamente suavizado para não chocar muito o público americano dos anos 50. O resultado de tanto capricho veio depois nas bilheterias e nas ótimas críticas que o filme conseguiu. Shelley Winters e Montgomery Clift foram indicados ao Oscar. Embora não tenham sido premiados o filme em si conseguiu vencer em seis categorias (inclusive direção e roteiro), se consagrando naquele ano. Até o gênio Charles Chaplin se rendeu ao filme declarando que havia sido o "melhor filme que já tinha assistido em sua vida". Além disso os bastidores da produção deram origem a muitas histórias saborosas envolvendo Clift e Taylor, que se tornariam amigos até o fim de suas vidas. Depois disso não há muito mais o que escrever. Para os cinéfilos "Um Lugar ao Sol" é mais do que obrigatório. Um filme essencial.

Pablo Aluísio.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

Frank Sinatra - Swing Along With Me

Dando continuidade aos comentários sobre os excelentes álbuns de Frank Sinatra, vou aqui agora tecer algumas linhas a "Swing Along With Me" que popularmente acabou conhecido apenas como "Sinatra Swings" (nome que acabou sendo adotado oficialmente no relançamento do disco). O LP foi lançado em 1961 quando Sinatra já estava rompido com sua antiga gravadora Capitol. Embora tenha sido um período extremamente bem sucedido em termos de vendas e boas críticas, Sinatra rompeu com o selo logo no começo da década de 60. O cantor não era uma pessoa fácil no trato profissional e após várias brigas com a direção da Capitol, muitas delas movidas por interferências da gravadora nos repertórios de seus discos, algo que Sinatra considerava imperdoável, ele finalmente rompeu de forma definitiva com a companhia. Curiosamente é que mesmo após sair batendo a porta da Capitol o cantor continuou soltando várias farpas via imprensa. Em uma entrevista desabafou afirmando que "produzir e lançar meus discos não dão trabalho nenhum pois o sucesso é certo. Eu mesmo poderia fazer isso sozinho". De fato Sinatra não estava blefando quando disse essas palavras.

Poucos dias depois tomou uma importante decisão e resolveu fundar seu próprio selo chamado "Reprise Records". Agindo assim Sinatra pretendia mostrar que poderia ser o artista e o empresário de suas próprias gravações. Após tantos anos ele finalmente assumiria todo o controle que teria direito. O primeiro disco pela Reprise foi "Ring-a-Ding-Ding!" que foi totalmente bem sucedido, vendendo muito bem ao mesmo tempo em que ganhava aplausos da crítica especializada. Como havia muitas contas a pagar pela criação da Reprise, Sinatra não perdeu muito tempo e apenas quatro meses depois de "Ring-a-Ding-Ding!" colocou no mercado mais um disco que foi justamente esse "Swing Along With Me", um dos meus preferidos.

A seleção musical é totalmente agradável, leve e com excelente sonoridade. O disco foi produzido por Sonny Burke que muitos consideravam apenas um engenheiro de som com privilégios. O fato é que Sinatra queria mandar em tudo, sem qualquer tipo de opinião alheia interferindo no que ele queria ou não em seus discos. Como se pode perceber ouvindo o disco seu faro não falhou. O álbum abre com a muito boa "Falling in Love with Love" embora a primeira grande canção só venha logo após, "The Curse of an Aching Heart". Excelente swing com execução perfeita. Também aprecio muito o trabalho vocal de Sinatra em "Don't Cry, Joe (Let Her Go, Let Her Go, Let Her Go)" , uma faixa que relembra em muito seus trabalhos mais melancólicos como "All Alone" ou então "No One Cares". Ira e George Gershwin também estão na seleção com a clássica "Love Walked In", de ritmo sofisticado e suave. De fraco mesmo o álbum só tem a estranha "Granada", com arranjo estranho e melodia que destoa de todas as demais canções do LP. Uma alienígena completa na seleção musical. Embora tenha caído no gosto popular sempre a achei muito kitsch e démodé. Felizmente é sucedida pela dançante "I Never Knew" cuja qualidade é repetida nas demais faixas que fecham o disco. Enfim, recomendo o disco para os que gostam de Sinatra mais pop, mais swing, nesse aspecto o saldo realmente é excelente.

Frank Sinatra - Swing Along With Me (1961) / Falling in Love with Love / The Curse of an Aching Heart / Don't Cry, Joe (Let Her Go, Let Her Go, Let Her Go) / Please Don't Talk About Me When I'm Gone / Love Walked In / Granada /I Never Knew / Don't Be That Way / Moonlight on the Ganges / It's a Wonderful World / Have You Met Miss Jones? / You're Nobody 'Til Somebody Loves You / Produzido por Sonny Burke / Gravado no United Studios, Hollywood, Maio de 1961 / Lançado em Julho de 1961

Pablo Aluísio.

Frank Sinatra - Come Fly With Me

Quando Sinatra assinou com a Capitol Records em 1953 ele tinha algumas ideias em mente. Entre elas o objetivo de levantar seu nome dentro da indústria fonográfica. O cantor sabia que precisava restabelecer sua força comercial no meio para consolidar de vez sua fase de "renascimento" como artista. Nesse meio tempo não perdeu tempo e começou a trabalhar com grandes arranjadores e maestros como Nelson Riddle (o melhor parceiro musical de Sinatra em toda sua carreira) e Gordon Jenkins. Os discos de Sinatra na Capitol eram pensados e programados para serem grandes sucessos comerciais, levar o cantor de volta ao topo das paradas. O Rock´n´Roll batia às portas e para sobreviver no meio Frank tinha que constantemente se reinventar. Por essa razão todos os álbuns de Sinatra na Capitol Records tinham sempre uma idéia básica amarrando as faixas entre si. Eram em essência discos conceituais, bem antes dessa expressão ter sido popularizada em discos como "Sgt Peppers" dos Beatles.

Esse "Come Fly With Me" se encaixa nesse conceito. A ideia partiu do próprio Sinatra que pensou reunir em apenas um álbum várias canções que lembrassem diversas partes do mundo. "Come Fly With Me" (em português "Venha Voar Comigo") era claro nesse sentido - o disco seria um passeio ao redor do mundo através de suas músicas. Para a produção a Capitol indicou o produtor e maestro Billy May. Seria a primeira vez que trabalharia com Frank Sinatra. De início foi meio complicado para ele se acostumar com o modus operandi de Sinatra dentro dos estúdios pois o cantor era perfeccionista e rabugento na mesma proporção durante as sessões de gravação. De fato, Frank era do tipo que não aceitava ordens de absolutamente ninguém e isso geralmente criava atritos entre ele e os produtores que trabalhavam ao seu lado. Ele tanto poderia implicar com uma gravação tecnicamente perfeita como também podia selecionar um take não tão perfeito como o definitivo para entrar no disco. No fundo não ouvia ninguém e seguia apenas sua própria intuição. Se lhe soasse bem ele a incluiria entre as faixas do álbum e ponto final. Não era uma pessoa fácil de se lidar profissionalmente. A despeito disso porém temos que admitir que sua intuição quase nunca falhou como comprovamos em sua discografia oficial, onde seus álbuns saíam com resultado extremamente perfeito em termos técnicos.

"Come Fly With Me", a canção que abre o álbum é até hoje extremamente popular, tanto que foi regravada por diversos outros intérpretes ao longo dos anos (nenhuma versão posterior conseguiu chegar perto do talento de Sinatra na música é bom frisar). Como já foi dito todas as canções evocam lugares ao redor do mundo. Essa era a ideia, o conceito do álbum em si. Assim somos levados a caminhar no outono de Nova Iorque em"Autumn in New York", canção que obviamente não consegue se equiparar ou rivalizar em termos de popularidade com outra música de Sinatra sobre a cidade, o hino definitivo do cantor, "New York, New York", mas que tem melodia bonita e levemente melancólica. A cidade luz também não poderia faltar e assim o ouvinte é levado a passear por uma idealizada Paris em "April in Paris", que tem um arranjo com forte presença orquestral acompanhando ótimas notas alcançadas por Sinatra. A cidade inclusive seria duplamente homenageada no relançamento em CD com "I Love Paris" de Cole Porter, faixa não lançada na edição original, o que convenhamos foi um pecado.

O Havaí também não poderia faltar na lista. "Blue Hawaii", canção que depois seria regravada por Elvis Presley, é uma das melhores melodias cantadas por Sinatra. Até o Brasil entrou na dança com a popular "Aquarela do Brasil" de Ary Barroso em versão americana escrita por Bob Russel. Curiosamente a canção acabou sendo mais conhecida lá fora como "Brazil". Eu pessoalmente gosto da versão de Sinatra nesse disco mas como brasileiro afirmo que o excesso de arranjos ao estilo jazz tradicional lhe tirou grande parte de sua personalidade. De qualquer forma não deixa de ser um prazer ouvir Sinatra cantando a terrinha com tanta paixão e convicção. Seu vocal é perfeito.

"Come Fly With Me" chegou nas lojas americanas pela primeira vez em janeiro de 1958 e foi um sucesso, logo chegando ao primeiro lugar das paradas da revista Billboard. Na época Sinatra torcia o nariz pois seus álbuns conseguiam chegar bem nas paradas mas seus singles geralmente fracassavam na parada americana. Ele deveria ter levado em conta que os discos da Capitol só funcionavam melhor mesmo quando apreciados em conjunto - com todas as canções - o que de certa forma desqualificavam seus singles como audição única. De qualquer maneira o LP serviu ainda mais para reerguer uma das melhores vozes da história da música popular americana.

Come Fly With Me - Frank Sinatra - Produção de Billy May - Faixas: "Come Fly With Me" (Sammy Cahn, Jimmy Van Heusen) "Around the World" (Victor Young, Harold Adamson) "Isle of Capri" (Will Grosz, Jimmy Kennedy) "Moonlight in Vermont" (Karl Suessdorf, John Blackburn) "Autumn in New York" (Vernon Duke) "On the Road to Mandalay" (Oley Speaks, Rudyard Kipling) "Let's Get Away from It All" (Matt Dennis, Tom Adair) "April in Paris" (Duke, E.Y. Harburg) "London By Night" (Carroll Coates) "Aquarela do Brasil" (Ary Barroso, Bob Russell) "Blue Hawaii" (Leo Robin, Ralph Rainger) "It's Nice to go Trav'ling" (Cahn, Van Heusen) / Faixas Bônus no relançamento em CD: "Chicago" "South of the Border" (Jimmy Kennedy, Michael Carr) e "I Love Paris" (Cole Porter)

Pablo Aluísio.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

Mickey Rourke e os anos 80

Essa semana me deparei involuntariamente com um fórum de filmes onde se discutia Angel Heart, clássico dos anos 80, dirigido por Alan Parker e estrelado por Mickey Rourke e Robert De Niro. Os usuários, em sua grande maioria jovens na faixa etária abaixo dos 20 anos, trocavam mensagens elogiando o filme, alguns bem admirados por sua excelente qualidade. Não é para menos. Angel Heart que no Brasil recebeu o título de "Coração Satânico" foi um dos melhores filmes que eu já assisti na minha vida e isso não é nenhum exagero. Essa história eu conheço bem porque a vivenciei nos anos 80. Na época eu ainda era bastante jovem mas já era viciado em cinema, indo sempre pelo menos uma vez por semana aos antigos cinemas do centro da cidade onde morava (e que lamentavelmente não existem mais). Quando Angel Heart estreou nos cinemas eu estava lá, era 1987 e Mickey Rourke logo se tornou um dos meus grandes ídolos.

Eu já admirava o trabalho desse ator há tempos. Para quem não sabe Mickey Rourke nos anos 80 foi o mais próximo que o cinema conseguiu de produzir um novo James Dean ou um novo Marlon Brando. A carreira de Rourke nos anos 80 foi simplesmente fantástica, um filme excelente atrás do outro. Lembro-me muito bem do impacto que "Rumble Fish" teve sobre mim. Aquele personagem de Rourke, um motoqueiro entediado da vida e que procurava redenção, foi simplesmente mitológico. O incrível em Rourke era que ele parecia ter saído de algum filme dos anos 50 (que eu simplesmente adorava, pois já naquela época era fã da cultura Vintage, com ídolos como Elvis, Dean, Brando, etc). Até seus filmes ditos menores causavam impacto como o cult "Diner", um dos roteiros mais bem escritos que já vi. Curiosamente não gostava apenas de 9 semanas e meia de amor, que era justamente o seu filme mais popular no Brasil. Sempre achei que tinha cara de "comercial de TV" ou algo parecido. Adrian Lyne realmente era um espertalhão.

A lista de bons e ótimos filmes que Rourke estrelou nos 80´s é extensa. O Ano do Dragão, Prece para um Condenado e Barfly (em que apresentou uma de suas maiores atuações) são apenas alguns exemplos. Todos esses filmes marcaram muito os cinéfilos da minha geração e eu tive o privilégio de assistir tudo nos cinemas. Angel Heart foi sua consagração. O filme é simplesmente excelente, desde sua fotografia, passando pela trilha sonora magnífica e o mais importante: um roteiro que era simplesmente um primor, do tipo que é cada vez mais raro na Hollywood atual. Mickey Rourke como um detetive típico dos anos 50, trouxe para as telas uma atuação que deveria ter sido premiada com o Oscar na minha modesta opinião. De quebra Angel Heart ainda trazia Robert De Niro em um de seus momentos mais marcantes da sua carreira. Nota 10 com louvor.

Fiquei verdadeiramente empolgado com Angel Heart e naquele tempo tinha a firme convicção que Mickey Rourke se tornaria sem sombra de dúvidas um ídolo ao estilo James Dean ou Brando. Infelizmente não sabia que depois desse filme Rourke iria descer ladeira abaixo na carreira. Depois de se consagrar no filme de Alan Parker, Rourke colocou na cabeça que queria estrelar um filme sobre boxe, seu esporte preferido e sua maior paixão. Assim ele filmou Homeboy, um grande fracasso de bilheteria. Depois disso a carreira desandou de vez. Estrelou o péssimo Orquídea Selvagem, em busca do sucesso perdido e depois desse filme afundou nos anos 90. Eu particularmente fiquei muito desapontado com o rumo que Rourke tomou a partir desse ponto, tirando o bom "O Homem que Fazia Chover" de Coppola ele nada mais fez de relevante ou importante. O ponto mais baixo de sua carreira aconteceu quando contracenou com Jean Claude Van Damme em um daqueles filmes horríveis dele. A partir desse dia me conscientizei que apesar de sua brilhante carreira nos anos 80 Mickey Rourke era apenas mais um "ex futuro Marlon Brando".

Depois de anos estrelando filmes B sem importância, finalmente no ano que passou ele reviveu graças ao excelente "O Lutador", com várias referências pessoais à sua própria biografia. Até chegou a ser indicado ao Oscar (perdendo injustamente para Sean Penn em Milk). Fiquei feliz e contente ao ver meu antigo ídolo saindo da tumba. Mickey, apesar dos inúmeros erros ao longo da carreira, tem talento de sobra e isso ninguém pode negar. Obviamente os anos pesaram a ele, depois de algumas cirurgias plásticas mal sucedidas Mickey nem de longe lembra o antigo galã rebelde dos anos 80. Está com o rosto desfigurado, com o cabelo esquisito e em algumas fotos aparece com péssimo visual. Uma pena. Confesso que após "O Lutador" pensei que ele iria trilhar um caminho de bons personagens para assim recuperar seu antigo prestígio mas Rourke ao se envolver em projetos como Homem de Ferro 2 deixa várias perguntas não respondidas no ar. De qualquer forma torço por ele e espero que consiga novamente se reerguer. Mickey Rourke, para mim, é como um velho amigo do passado, um colega dos agora longínquos  anos 80. Para quem foi o ator mais cool daquela década que deixou saudades espero que ele consiga atingir seus objetivos.

Pablo Aluísio.

James Dean e o nosso tempo...

Na foto ao lado vemos o ator James Dean e o diretor Nicholas Ray que o dirigiu no clássico "Juventude Transviada". Já dizia o ditado popular que "O tempo é o senhor de tudo". Nada sobrevive a ele e mais cedo ou mais tarde todos, não importa o tamanho da fama que conquistaram em vida, um dia serão apenas nota de rodapé na história (ou nem isso). Isso de certa forma aconteceu com o mito James Dean. Embora nos círculos de cinéfilos ele ainda esteja presente o fato é que para o público em geral (inclusive jovens) o nome James Dean não significa mais muita coisa. Percebi isso recentemente quando vi em uma loja de shopping uma bonita camisa com a estampa do eterno ídolo jovem em exposição. Obviamente sabendo de quem se tratava fiz um pequeno teste e perguntei para a atendente da loja, uma moça bem simpática, se ela conhecia o jovem estampado na roupa. Sua resposta foi: "Deve ser algum modelo americano".

Nesse momento eu senti que o antigo mito jovem realmente está morrendo lentamente na lembrança da sociedade. Também pudera, James Dean morreu de um acidente de carro no longínquo ano de 1955. Faça as contas, lá se vão 56 anos, mais de meio século, desde que enfiou seu porsche Spyder num acidente em um cruzamento poeirento do deserto da Califórnia. O curioso de tudo isso é que Dean foi mais famoso na morte do que em vida. De fato o único filme que tinha sido lançado antes dele morrer foi justamente sua estréia como astro de primeiro time no famoso "Vidas Amargas". Antes ele já tinha aparecido em três produções mas em nenhuma delas fez algo relevante, tudo não passando de mera figuração em cena!

Depois de sua morte o filme "Juventude Transviada" ganhou as telas e Dean foi literalmente santificado pela juventude rebelde dos anos 50. Seus trejeitos, modo de vestir e penteado viraram febre nos chamados "anos da brilhantina". Os pedaços de seu carro destruído foram vendidos como souvenirs e até mesmo pessoas que mal o conheceram em vida lançaram livros com revelações "bombásticas". O jovem interiorano do meio oeste americano caiu nas graças do público após isso, se tornando um verdadeiro mártir da rebeldia sem causa! Nada mal para um sujeito que largou tudo para tentar vencer na vida da ensolarada Hollywood.

De baixa estatura, míope e nem um pouco sociável Dean lutou bastante para alcançar seu lugar ao sol. Infelizmente quando colhia seus primeiros frutos na sua carreira uma tragédia cruzou em sua ascensão ao estrelato. Dean pode hoje estar esquecido nas areias do deserto escaldante em que morreu, mas deixou três pequenas obras que lhe garantirão a imortalidade da sétima arte. Como diria o refrão da famosa música do Eagles, James Dean levou bem a sério o lema "too fast to live, too young to die"

Pablo Aluísio.

terça-feira, 18 de dezembro de 2007

Sargento York

Roteiro e Argumento: O filme é baseado na história real do soldado Alvin York. Ele era um simples fazendeiro do Estado rural do Tennessee que foi convocado para lutar na I Guerra Mundial. Religioso passou por uma crise de consciência por ter que ir lutar e matar inimigos na Europa. O interessante é que sua vida no campo foi vital para seu sucesso no conflito pois era exímio atirador. Acabou se tornando conhecido nacionalmente e virou herói após ter matado vários atiradores alemães na França e ao lado de apenas sete homens de seu batalhão ter conseguido a façanha de render quase 140 soldados inimigos. O feito lhe valeu uma medalha do congresso americano e uma notoriedade sem precedentes entre o povo americano. O roteiro explora a vida pacata de York antes do conflito e depois na sua chegada nas trincheiras do front. Em ambas as situações o filme é extremamente bem realizado e sucedido. Provavelmente a riqueza de detalhes do roteiro se deva ao fato dele ter sido adaptado do diário pessoal de York que ele escreveu durante o conflito.

Elenco: O grande destaque do elenco de "Sargento York" é a ótima interpretação de Gary Cooper no papel principal. Aqui ele consegue com grande êxito captar a personalidade simplória do personagem. Um sujeito caipira, sem estudo, que tinha como único objetivo maior na vida comprar uma pequena faixa de terras em sua cidade para se casar com Gracie Williams (interpretada pela bela e simpática Joan Leslie). O fato de Cooper ter nascido em outro Estado interiorano (Montana) certamente lhe ajudou muito nessa caracterização. A excelente atuação de Cooper acabou lhe valendo o Oscar de melhor ator daquele ano. Mais do que merecido, é bom frisar.

Produção: A produção da Warner não mediu esforços para que contar bem a história do famoso Alvin York. Como o clima de patriotismo estava na ordem do dia em razão da II Guerra Mundial o estúdio sabia que tinha um potencial grande sucesso nas mãos e por isso caprichou na produção, investindo nos melhores profissionais disponíveis no mercado. Isso se vê bem nos detalhes da produção, figurino, cenários, equipamentos militares, tudo recriado de acordo com o contexto histórico da I Guerra Mundial.. Embora grande parte do filme tenha sido realizada em estúdio (principalmente nas cenas no Tennessee) o resultado é no final das contas excepcional. Nas cenas de batalha tudo é extremamente bem feito. As trincheiras típicas da I Guerra Mundial foram recriadas com extrema veracidade e fidelidade histórica.

Direção: O filme foi dirigido pelo excelente cineasta Howard Hawks. O que mais chama atenção nesse diretor era sua extrema versatilidade. Hawks passeava com grande êxito pelos mais diferentes gêneros cinematográficos. Realizava ótimas comédias musicais (como "Os Homens Preferem as Loiras") ao mesmo tempo em que revisitava lendas do velho oeste (sua parceria ao lado de John Wayne foi longa e produtiva). Nesse "Sargento York" ele volta a dirigir uma cinebiografia, algo que havia conseguido com grande sucesso na década de 30 com "Scarface, a Vergonha de uma Nação". Sua boa técnica e precisão podem ser conferidas nas duas partes básicas em que "Sargento York" se divide. Na primeira parte, quando York é apenas um caipirão do interior e o filme tem mais toques dramáticos. Já na segunda quando York vai para o front temos nitidamente um filme de guerra. Em ambas as divisões Hawks se sai extremamente bem sucedido, o que reforça bem sua versatilidade na direção. O resultado final é de alto nível.

Sargento York (Sergeant York, EUA, 1941) / Direção: Howard Hawks / Roteiro: John Huston, Howard Koch, Abem Finkel, Harry Chandlee e Tom Skeyhill / Com Gary Cooper, Walter Brennan e Joan Leslie / Sinopse: Cinebiografia de Alvin Cullum York (Gary Cooper) , condecorado soldado americano na I Guerra Mundial. O filme foi vencedor dos Oscar de Melhor Ator (Gary Cooper) e Melhor Montagem, sendo indicado a nove outras categorias.

Pablo Aluísio.

Doris Day

Recentemente andei navegando na internet atrás de informações da atriz Doris Day. Quem gosta de filmes dos anos 50 e 60 vai imediatamente relembrar seus antigos clássicos onde geralmente interpretava garotas românticas que procuravam a felicidade sem perder sua grande virtude. No meio ela acabou sendo inclusive apelidada de "A Virgem Profissional" por isso pois ao contrário de Marilyn Monroe sempre representou o lado mais doce e angelical das mulheres dos anos dourados nas telas. Pois bem, eu estava procurando informações sobre seus filmes quando me deparei com várias reportagens em sites americanos mostrando uma foto atual dela, aos 84 anos, tirada por um paparazzi quando ele saía de uma loja de vendas de produtos veterinários na Califórnia.

O pior nem é o fato de usar sua imagem assim, sem nenhuma autorização, mas sim o uso de uma linguagem debochada e vulgar nos textos. É completamente ridículo, na minha forma de pensar, que um pseudo jornalista de um desses sites de fofocas fique fazendo observações imbecis e chacotas em torno da imagem que ela tem atualmente. Nem ao menos possuem a dignidade de respeitar as pessoas mais velhas. O que essas pessoas queriam? Que Doris aparentasse da mesma forma que nos anos 50?! O tempo passa para todos e o fato dela estar envelhecida em nada a desmerece. Pelo contrário, pela vida que levou Doris é uma vencedora pois enfrentou diversos dramas ao longo dos anos e os superou com muita dignidade.

Seu último marido faleceu e seu filho morreu de câncer há alguns anos atrás. Com tantos dramas pessoais Doris mudou seu nome - é conhecida como Clara nas vizinhanças - e mora solitária em seu rancho. Assim como outra diva do cinema, Brigite Bardot, ela também abraçou a causa animal e hoje compartilha sua vida com vários gatos e cães. O direito norte-americano é extremamente falho nesse ponto. As pessoas famosas são invadidas em sua vida pessoal e viram motivo de escárnio pelos urubus da imprensa marrom. No Brasil as leis são mais duras em relação ao direito constitucional de se resguardar a vida privada e familiar de cada indivíduo. Do que interessa ao público o fato de Doris hoje viver isolada e solitária em sua propriedade? É um direito dela, não sujeito a aprovação ou desaprovação de qualquer um que seja. Se ela desejou se retirar da vida pública todos devem respeitar sua escolha e ninguém tem absolutamente nada com isso. Deixem essa grande artista, que tanto trabalhou no cinema e no mundo da música, desfrutar de sua velhice em paz e longe dos holofotes. Só assim o que determina a carta magna (a nossa e a deles) será plenamente respeitada.

Pablo Aluísio.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

George Hamilton

Hoje é o aniversário do ator George Hamilton, 74 anos, quem diria! Eu sempre achei ele uma figura das mais divertidas do entretenimento americano simplesmente porque Hamilton nunca se levou à sério, nem como ator, nem como cantor, nem como nada. Na verdade sempre foi um bon vivant, acima de tudo. Vivendo no jet set de Hollywood ele cultivou amizades e amores entre os grandes astros, sem a menor culpa.

Uma das ocasiões que mais ri com o Hamilton foi quando um jornalista perguntou a ele como gostaria de ser lembrado. Levantando as sobrancelhas (um gesto típico de canastrões assumidos) ele respondeu sem hesitação que "gostaria de ser lembrado como o bronzeado mais perfeito de Hollywood". Impagável não é mesmo?

Ele nasceu em Memphis, local que ficou imortalizado como sendo a cidade do coração de Elvis Presley, mas logo cedo foi para Los Angeles. A mãe sonhava com um futuro de grande estrela para Hamilton. O destino porém mostrou que esse não seria o caminho. Ator apenas mediano, Hamilton se destacou mesmo como ótimo relações públicas, dando grandes festas em sua casa onde a realeza do cinema americano sempre se reunia.

No cinema nunca se fez de difícil, aceitando trabalhar no que surgisse pela frente. Isso lhe deu um respeitável currículo de 105 filmes na carreira, formado por alguns belos abacaxis mas também por outros bons filmes despretensiosos, divertidos e engraçados. Como esquecer o vampiro que tem que lidar com os desafios da modernidade em "Amor à Primeira Mordida" ou o Zorro pra lá de afetado em "As Duas Faces do Zorro"? Sempre trabalhando para manter sua fachada de rico e famoso Hamilton fez também muita TV, inclusive brilhando em sucessos como a novelona americana "Dinastia". Para ele o que importa é o trabalho em si e não tanto a qualidade dos projetos em que se envolveu ao longo da vida. Mas no final das contas tudo isso nem importa, o que é bom mesmo é deixar os parabéns para essa figura ímpar de Hollywood. Parabéns George Hamilton!

Pablo Aluísio.

Cinema Clássico - James Dean, Rita Hayworth, Glenn Ford

 

domingo, 16 de dezembro de 2007

Barrabás

Roteiro e Argumento: O roteiro de Barrabás foi escrito baseado no romance do escritor Par Lagervist, vencedor do prêmio Nobel de literatura de 1951. É importante esclarecer que tirando o Novo Testamento não existem fontes históricas sobre quem seria ou o que teria acontecido com Barrabás após a crucificação de Jesus Cristo. Tudo o que se sabe ao certo é que era um rebelde da tribo dos Zelotes que estava preso acusado de assassinato. Assim tudo o que se passa no filme é mera ficção, romance, literatura. De qualquer forma o roteiro, seguindo os passos do livro, é muito bem escrito e lida com vários aspectos da Roma Antiga de forma bem eficiente, sendo mostrados aspectos da escravidão no império, das arenas de gladiadores e do nascimento da nova religião, o cristianismo.

Elenco: Barrabás tem um elenco muito bom a começar por Anthony Quinn no papel título. Sua interpretação é muito adequada. Seu personagem é uma pessoa rude, brutal, fruto do meio, que tenta entender a filosofia do cristianismo em um mundo que até então só lhe exigia violência e força. Outro grande ator em cena é Jack Palance. Ele interpreta um gladiador que treina e depois enfrenta Barrabás na arena (numa ótima cena do filme, muito bem editada e realizada). Palance não aparece muito mas quando surge traz muito ao filme. Outro destaque é a presença da musa italiana Silvana Mangano. Seu papel também é pequeno, geralmente surgindo nas cenas de taberna mas mesmo assim consegue marcar boa presença.

Produção: A produção do filme é do famoso Dino de Laurentis. Esse produtor foi o que mais próximo surgiu na linha deixada por Cecil B. De Mille. Ele não economizava recursos em seus épicos e procurava trazer o melhor, seja em cenários, seja em figurinos luxuosos. O filme foi totalmente rodado na Itália em parceria com a Columbia Pictures. Isso deu uma veracidade maior ao que se passa em cena pois as locações chegaram ao ponto de utilizar antigas construções romanas como as minas no Monte Etna na Sicília e o anfiteatro de Verona. Além disso a experiência dos profissionais de Cinecittà ajudaram muito para melhorar ainda mais esse aspecto do filme. Produção realmente classe A.

Direção: Barrabás foi dirigido por Richard Flescher que já tinha experiência com produções caras e complicadas antes (havia dirigido "20 Mil Léguas Submarinas" cinco anos antes). Seu trabalho é muito bom, algumas cenas lembram até mesmo pinturas da Renascença como a crucificação coletiva na cena final do filme. Também mostrou grande competência na direção de cenas com grande número de extras - como vemos nas cenas de Arena. Ele ainda faria um interessante filme anos depois com Tony Curtis chamado "O Homem que Odiava as Mulheres".

Barrabás (Barabbas, EUA - Itália, 1962) / Diretor: Richard Fleischer / Roteiro: Nigel Balchin, Diego Fabbri, Christopher Fry, Ivo Perelli / Produção: Dino de Laurentis / Roteiro: Nigel Balchin, Diego Fabbri, Christopher Fry, Ivo Perelli / Elenco: Anthony Quinn, Silvana Mangano, Arthur Kennedy, Katy Jurado, Jack Palance, Vittorio Gassman, Harry Andrews, Ernest Borgnine e Valentina Cortese. / Sinopse: Criminoso e assassino judeu chamado Barrabás (Anthony Quinn) é libertado no lugar de um jovem profeta chamado Jesus de Nazaré. Após ser escolhido no lugar do Messias tenta entender a razão de ter sido poupado da morte em detrimento do Nazareno que é crucificado por tropas romanas.

Pablo Aluísio.