sexta-feira, 9 de março de 2001

Montgomery Clift - Crônicas, Textos e Curiosidades

Montgomery Clift - Crônicas, Textos e Curiosidades

O Acidente de Montgomery Clift
Em 1956 Montgomery Clift estava filmando ao lado da amiga Elizabeth Taylor a produção "A Árvore da Vida". Para celebrar Liz convidou Monty a um jantar em sua casa. A recepção seria realizada por ela e seu marido na época, Mike Wilding. Montgomery Clift já vinha com problemas envolvendo bebidas. Ele estava bebendo cada vez mais, ao ponto até de interferir em sua vida profissional e em eventos sociais como aquele abusava ainda mais do copo. O jantar foi muito festivo, além de Elizabeth Taylor havia outras estrelas de cinema na ocasião, como Rock Hudson. Monty parecia animado e alegre durante a festa, algo que estava se tornando cada vez mais raro.

Tarde da noite, entrando pela madrugada, finalmente o ator resolveu ir embora. Ele estava completamente embriagado mas como havia chegado sozinho em seu carro pretendia voltar também dirigindo ele próprio seu veículo. A questão era que pelo seu estado de embriaguez não havia muita possibilidade de algo assim dar certo. Bebida e volante nunca combinam. Para piorar a estrada que levava à casa de Elizabeth Taylor era sinuosa e mal iluminada. Primeiro partiu Kevin McCarthy, um dos convidados de Liz e logo em seguida saiu Monty. Numa das primeiras curvas Kevin olhou pelo retrovisor e ainda conseguiu ver o carro de Montgomery Clift saindo pela tangente da pista, indo de encontro a um poste telefônico. A batida foi certeira. O automóvel ficou em frangalhos e o ator estava severamente ferido.

Ao ouvir o barulho da batida Elizabeth Taylor saiu em disparada para o local do acidente. Monty estava encoberto por um banho de sangue. Sem cinto de segurança seu rosto foi de encontro ao volante e partes do para-brisa cortaram seu rosto. A situação era bem grave. Logo uma ambulância foi chamada e ele foi levado ao hospital. Seus ferimentos foram graves e atingiram vários nervos faciais, o que para um ator era uma notícia terrível pois sua capacidade de expressão ficaria comprometida. A produção do filme que estava participando foi suspensa e Monty passaria os meses seguintes sofrendo severas dores de cabeça decorrentes da grande pancada que sofreu. Para amenizar as dores começou a tomar grande quantidade de drogas pesadas, além de aumentar seu consumo de bebidas. Depois do acidente Montgomery Clift jamais foi o mesmo. Entrou em quadro de depressão e começou a lentamente se auto destruir.

Para piorar ele que sempre era considerado um dos atores mais bonitos do cinema começou a enfrentar problemas para arranjar novos trabalhos, uma vez que seu rosto agora exibia diversas cicatrizes que nem os melhores maquiadores conseguiam esconder. Além da queda de sua aparência física havia outros problemas sérios, como uma constante dor de cabeça que nunca o deixava em paz. Isolado e sofrendo ele começou um caminho sem volta. De fato essa terrível fase de sua vida acabou sendo conhecida como o "mais longo suicídio da história de Hollywood". Ele morreria precocemente em julho de 1966, sem nunca ter superado esse trauma em sua vida.

Pablo Aluísio.

Elizabeth Taylor e Montgomery Clift
É interessante notar que Liz Taylor foi amiga de praticamente todos os grandes ídolos do cinema de sua época. Nutria sincera amizade com James Dean, Marlon Brando e Rock Hudson. Era de fato uma pessoa mestre em transformar colegas de trabalho em amigos próximos de longa data. Com Montgomery Clift não foi diferente. Clift foi um dos vértices da trindade sagrada de atores dos anos 1950, formada ainda por Brando e Dean. Se diferenciava deles por ter uma personalidade muito mais reservada, torturada e gentil. Enquanto Dean era associado com delinquentes juvenis e Brando encarnava toda a rebeldia rude de seu tempo, Clift era discreto, tímido e muito na dele. O que ligava os três atores era o fato de serem considerados os mais promissores atores jovens de sua geração, além de possuírem um talento nato lapidado no Actors Studio de Nova Iorque.

A amizade de Montgomery Clift com Elizabeth Taylor foi longa e muito verdadeira. Isso porque não demorou muito para Liz se colocar na posição de conselheira pessoal e íntima de Clift, algo que os anos provariam não seria nada fácil. Monty tinha muitos problemas emocionais em sua vida privada. Não conseguia se acertar com nenhuma garota por longo tempo (o que daria origem a infundadas fofocas de que era gay) e tampouco conseguia superar seus problemas de alcoolismo e depressão. O relacionamento com o pai também era fonte de vários problemas. O estilo refinado e educado do ator também lhe trazia algumas dificuldades de relacionamento na terra do exibicionismo barato que era Hollywood.

Segundo várias biografias no começo de tudo Montgomery Clift realmente deu vazão a uma paixão platônica em relação a Elizabeth Taylor. Isso ficou bem evidente no set de filmagens de "Um Lugar ao Sol". Não é de se admirar pois Liz e Clift era jovens radiantes, estavam subindo os degraus do Olimpo em Hollywood e viviam negando para a imprensa que havia um romance entre eles. De fato não havia, muito por causa da falta de coragem por parte de Clift em avançar o sinal e tentar algo com sua parceira de cena. Liz poderia ceder, mas ela tinha uma personalidade tão ofuscante que Clift se viu na sombra dela rapidamente. Para não perder sua amizade resolveu não arriscar. Afinal de contas se tentasse consumar um romance com ela e não desse certo, certamente perderia sua amizade.

Com o passar dos anos Montgomery Clift foi ficando cada vez mais absorvido em si mesmo, em seus problemas. Liz foi testemunhando sua queda lentamente. Mesmo assim resolveu ficar o mais perto possível do ator, tentando colocar ele de volta ao bom caminho. E foi justamente após uma festa em sua casa que Clift sofreu um terrível acidente de carro, por estar dirigindo completamente embriagado. O acidente deformou parte de seu rosto e praticamente destruiu sua carreira em Hollywood. Foi justamente Liz que tentou escalar Clift em vários filmes seus após esse acidente, justamente para que ele não ficasse desempregado e nem deprimido em sua casa.

Esse ato fez com que Montgomery Clift ficasse tão próximo a ela que mais parecia um irmão mais jovem da atriz. Infelizmente nada disso evitou a morte precoce de Montgomery Clift em julho de 1966 em Nova Iorque. Ele tinha apenas 45 anos mas uma vida de excessos havia cobrado seu preço e Monty mais parecia um velho ao morrer. Tinha fortes dores de cabeça em decorrência da batida de seu carro e tentava controlar tudo com forte medicação e muita bebida. Essa mistura explosiva acabou com o restante de sua saúde. Para Clift a morte acabou sendo um alívio de seus demônios pessoais. A tragédia deixou a atriz abalada e ela procurou resumir o amigo de uma forma bem carinhosa ao se referir a ele como "uma alma bondosa e terna".

Pablo Aluísio.

Montgomery Clift - O Pequeno Aristocrata
Edward Montgomery Clift nasceu em uma família aristocrata de Omaha, Nebraska, a mesma cidade que deu ao mundo outro gênio da atuação, Marlon Brando. Entre os dois atores haveria sempre uma coincidência de destinos. Eles nasceram na mesma década (Clift em 1920 e Brando em 1924) e na mesma cidade. Durante os anos 1950 se tornariam grandes astros do cinema americano, elogiados por suas grandes atuações nas telas. Apenas as origens sociais eram diferentes. Enquanto Montgomery Clift nasceu no lado rico de Omaha, em uma família bem tradicional da cidade, Brando era apenas o filho de um caixeiro viajante, membro de uma família bem disfuncional que vivia no lado pobre de Omaha, do outro lado da linha do trem.

Mesmo assim o destino e a sétima arte os uniriam, até mesmo porque a riqueza da família Clift seria tragada por causa da grande depressão que arrasaria a economia americana em 1929, durante a quebra da bolsa de valores de Nova Iorque. O pai de Monty, um rico especulador de ações, perderia praticamente tudo com a crise. Arruinados financeiramente, a família Clift mudou-se então para Nova Iorque, deixando o meio oeste durante os anos 1930. Essa mudança de cidade iria também mudar para sempre o destino de Montgomery Clift. Criado para ser um dândi da elite de Nebraska, ele precisou rever seus conceitos na grande cidade, na grande Maçã, como Nova Iorque era conhecida.

Ao invés de estudar em colégios privados tradicionais ele foi parar em uma escola pública do Brooklyn. Monty que sempre havia estudado com jovens ricos e bem educados de Omaha, se viu de repente no meio de um pessoal mais barra pesada, que partia para a briga nos intervalos. Nova Iorque era realmente uma selva e para sobreviver por lá o jovem Monty precisou se impor, não por meio de sua educação refinada, mas sim pela força dos punhos. Sem dúvida foi uma mudança brutal, de um meio aristocrático, para um realidade bem mais pé no chão.

Em meio a tantas mudanças algo no novo colégio mudaria para sempre sua vida. Ele se apaixonou pelo teatro. O departamento teatral da escola era muito bom, muito original, um ambiente que valorizava o talento dos alunos que mostravam o interesse pela arte de interpretar. Monty foi fisgado desde os primeiros dias. Ele sabia que Nova Iorque era um dos lugares mais efervescentes do mundo em termos teatrais. Havia muitas peças sendo encenadas na Broadway e no circuito Off-Broadway. As oportunidades estavam em todos os lugares. Vendo que poderia arranjar trabalho no meio teatral da cidade ele se empenhou nas peças escolares em que atuou. Seu objetivo era ganhar experiência para partir para a Broadway, até porque trabalhar havia se tornado uma necessidade em sua casa, pois seu pai enfrentava muitas dificuldades para arranjar um emprego.

Pablo Aluísio.

Montgomery Clift: Além do Sexo!
Durante muitos anos se especulou sobre a verdadeira sexualidade do ator Montgomery Clift. Recentemente o assunto voltou à tona pois um ex-gigolô em Hollywood lançou um livro supostamente mostrando a vida sexual de astros de cinema durante as décadas de 40, 50 e 60. Clift é um dos enfocados. O autor provavelmente não se deu muito bem com o ator e talvez por isso tenha escrito uma imagem nada lisonjeira dele nas páginas do livro. Mont é retratado como um esnobe, um sujeito cheio de "não me toques". Curiosamente apesar de ter sido esnobado por Clift o autor do livro garante que ele era gay! Mas com que provas? De fato a alcunha de esnobe em relação a Clift não me surpreende. Ele era uma pessoa discreta, tímida na vida privada. Geralmente os tímidos são confundidos com esnobes. Não faz diferença. O fato é que Clift teve uma vida sexual das mais discretas em Hollywood. Tentativas de tachá-lo de gay nunca tiveram comprovação inequívoca. Na realidade não são poucos os que acham que ele na realidade era assexuado (uma definição que só há pouco tem se tornado mais comum).

Montgomery Clift realmente não era visto com mulheres em sua passagem por Hollywood. Ator consagrado de teatro resolveu ir para a capital do cinema atraído pelos bons cachês. Mesmo assim nunca se considerou um membro ativo daquela comunidade. Pouco ia a festas e eventos sociais e procurava manter sua privacidade a todo custo. Tanta discrição acabou despertando suspeitas. Como não era visto com mulheres em público logo se começou a especular se era gay. O interessante é que ao contrário de outros gays famosos em Hollywood, como Rock Hudson, por exemplo, tampouco existem testemunhos de algum ex amante do astro. O que parece ter realmente acontecido foi um simples desinteresse sexual por parte de Montgomery Clift, seja por homens, seja por mulheres. Era neutro ou como se diz atualmente, assexuado, desinteressado por sexo.

Clift tinha grandes paixões platônicas geralmente por mulheres. Sua paixão não realizada por Elizabeth Taylor era conhecida. Taylor sempre casando e descasando nunca deu uma chance para Mont e o considerava apenas um grande amigo. Equivocadamente ela pensava que ele era gay mas tampouco chegou a ver ele com qualquer homem em todo o tempo que conviveu ao seu lado. A eterna solteirice de Clift incomodou inclusive seu pai. 

Confrontado o ator simplesmente explicou: "Minha vida já é complicada demais sem outra pessoa, por isso não me envolvo mais seriamente com alguém. Mesmo assim darei 10 mil dólares a qualquer um que comprove que não gosto de garotas". Depois que sofreu um grave acidente de carro Montgomery Clift ficou ainda mais recluso e retraído. Sentindo fortes dores de cabeça e sofrendo com as consequências do acidente as chances de sair para cortejar com qualquer pessoa, seja homem ou mulher, ficaram nulas. Clift morreu solteirão e carregando uma injusta fama de homossexual quando na verdade ele simplesmente parecia estar além do sexo.

Pablo Aluísio.

Montgomery Clift - Reflexões de um Ator 
As pessoas de Hollywood criaram um certo preconceito contra atores de Nova Iorque. Mal você entra no set de filmagens e os cochichos começam como se estivessem dizendo "Lá vem aquele sabichão que pensa saber tudo sobre atuação". É cansativo. De minha parte procuro apenas fazer o melhor trabalho sem pisar nos calos de ninguém. Não quero ensinar a absolutamente ninguém como atuar melhor. Cada um teve sua própria escola de vida e não serei eu que irei falar como se atua em cada cena. Ser formado no Actor´s Studio joga uma imagem em cima de você. As pessoas pensam coisas erradas de mim. Não sou um sabichão e tampouco quero dizer o que se deve ou não fazer em um filme. Cada um que procure o que é melhor para si mesmo.

A maior diferença que vejo entre atores de Nova Iorque e os daqui da Califórnia é que lá temos uma visão um pouco maior do que seria a arte da atuação. Em Hollywood as coisas funcionam sob uma mentalidade comercial, de indústria mesmo. Em Nova Iorque queremos apenas aprofundar nossas próprias capacidades dramáticas, seja no palco, seja nas telas de cinema. Há uma compreensão diferente do que é ser ator. Eu amo o teatro. Fiz muitas peças importantes em Nova Iorque, porém devo reconhecer que também é muito árduo. Um ator de teatro em Nova Iorque se apresenta duas vezes por dia, mais de dez vezes por semana. É muito estafante. Em Hollywood já fiz também vários filmes e não achei tão puxado. Há mais tempo para você descansar e aproveitar melhor a vida. Também temos aqui os melhores hotéis para se hospedar. Adoro os hotéis de Los Angeles. Se pudesse moraria em um até o fim da minha vida. Você não precisa se preocupar com nada e tudo está à mão. Ser ator em Nova Iorque significa alugar um pequeno apartamento no Brooklyn e torcer para chegar a tempo no horário certo da peça.

Eu trabalho como ator desde os 17 anos. Admito que estou cansado. Mesmo com tantos anos de experiência ainda tenho que lidar com diretores que não confiam muito em mim. O que supostamente eu deveria fazer para mostrar a eles que consigo atuar bem? Quando você é jovem os produtores não colocam fé em você. Quando você é mais velho todos pensam que você já era! É uma profissão dura! Você nunca parece ter a idade certa ou o tipo que os estúdios procuram. Para cada filme que você consegue ser escolhido há vinte testes onde você é descartado. Você entra para a audição e os caras, sentados em suas cadeiras, com enormes charutos na boca, dizem: "Você é muito baixo!" ou "Você é muito alto!". "Está gordo", "Está magro". Ser ator é viver jogando roleta russa. Tudo no final depende da pura sorte. Ser escalado para um filme significa que você terá dinheiro pelos próximos meses. Não ser escalado significa que você terá que contar com a ajuda dos amigos, ou então almoçar na ajuda humanitária da igreja católica da esquina.

Eu sempre mantive minha família longe da minha carreira de ator. Há muita fofoca em Hollywood. Isso é uma das coisas que mais odeio aqui da Califórnia. Todos parecem preocupados com fofocas! É muito primário e bobo para dizer a verdade. Eu não quero, por exemplo, que minha mãe seja entrevistada por essas revistas. O que ela poderia dizer? Que eu fui um lindo bebê? Quem se importa com algo assim? Eu devo ser avaliado pelos meus trabalhos, minhas atuações, não como levo minha vida particular. Quero ter bons filmes para atuar e belos diálogos para declamar, embora isso esteja cada vez mais raro de encontrar. Não tenho grandes amigos entre atores de Hollywood, mas admiro muito duas atrizes em particular. Elizabeth Taylor é uma delas. Ela é a única atriz com quem trabalhei que me deixava verdadeiramente motivado para contracenar. Uma estrela! A outra que merece meus elogios é Marilyn Monroe. É uma pessoa incrível, com grande sensibilidade.

Montgomery Clift.

Rio Vermelho (1948)
1. Red River (no Brasil, "Rio Vermelho") é considerado um dos grandes clássicos do western americano. Dirigido pelo mestre Howard Hawks e estrelado pelos mitos  John Wayne e Montgomery Clift, , o filme é considerado o épico definitivo sobre a figura do cowboy dos Estados Unidos, no auge de sua atividade no século XIX.

2. A interpretação de Montgomery Clift no filme surpreendeu John Wayne que chegou a confessar numa entrevista que jamais poderia supor que ele fosse tão bom atuando. Na verdade Wayne não conhecia muito Clift e sua capacidade dramática. Pensando que se tratava de mais um ator de Nova Iorque ele ficou realmente surpreso com as qualidades do jovem Clift, a tal ponto que chegou a dizer que precisava melhorar mais por causa da "nova concorrência" que surgia no mercado.

3. O filme foi realizado em 1946, mas só chegou nas telas em 1948. A demora se deu por dois motivos básicos. Primeiro o diretor Howard Hawks foi extremamente criterioso na edição da versão final. Ele não queria um filme longo e também não desejava que faltasse algo importante na estória. Por essa razão teve que se empenhar em chegar em um ponto meio termo. O outro problema foi legal. O milionário excêntrico Howard Hughes entendeu que havia semelhanças demais com outro clássico "O Proscrito", o que fez atrasar ainda mais seu lançamento nos cinemas.

4. Pode-se dizer que John Wayne ficou um pouco intimidado pela presença de Clift. Ele tinha receios, segundo o roteirista Borden Chase, de que o filme lhe fosse roubado por Monty. Por essa razão Wayne tentou interferir na edição final da fita, algo que foi impedido por Hawks, o que acabou criando um mal estar entre ambos.

5. Houve um certo receio do estúdio de que John Wayne e Montgomery Clift não se dessem bem trabalhando juntos. Eles tinham posições políticas bem diferentes, com Wayne sendo um conservador e Clift um liberal, e não tinham medo de expor suas ideias para a imprensa. Isso fez com que o diretor Howard Hawks proibisse discussões sobre esses temas no set de filmagens. De uma forma ou outra essa censura e a tensão causada por ela fez com que Clift se recusasse a trabalhar novamente com Wayne quando foi convidado a atuar em "Onde Começa o Inferno".

6. Para parecer mais convincente na tela o ator Montgomery Clift resolveu se empenhar em um curso intensivo de equitação antes das filmagens começarem. Ele já havia montado antes, mas morando em Nova Iorque, ficou sem a experiência necessária. Durante três meses ele praticou equitação em um rancho perto de Los Angeles, sob supervisão do professor Noah Beery Jr. Quando começaram as filmagens Monty demonstrou ter intimidade com montarias, o que fez com que arrancasse um elogio de John Wayne ao dizer: "Você monta muito bem rapaz!".

Pablo Aluísio.

Montgomery Clift - Hollywood Boulevard - Texto I
Montgomery Clift sempre teve um relacionamento muito complicado com seu pai. Isso se referia à sua vida pessoal e profissional. O pai queria que Monty arranjasse um trabalho convencional, que estudasse para ser advogado ou médico. Monty não queria saber de passar sua vida dentro de um consultório ou escritório. Ele queria atuar. O pai achava que ser ator era algo completamente indigno, até vergonhoso. Atuação era coisa de prostitutas e vagabundos na mente dele. Monty porém via isso como uma visão grotesca e antiga, que sequer merecia comentários. Por isso resolveu ser ator em Nova Iorque. Estudar para isso.

Em relação à vida amorosa também havia muitos conflitos. O pai queria que ele se casasse, que formasse uma família. Monty detestava essa ideia. Na verdade ele não queria ser como seu pai, tendo uma vida completamente enfadonha, vivendo de migalhas em um casamento infeliz. Tão ruim era a ideia do casamento que Monty jamais se casaria. Ele adorava ser solteiro, explorar outras possibilidades. Além disso o que ele menos desejava era uma esposa mandona, que o controlasse. A vida de casado era completamente fora de seus planos. E obviamente isso o levou a ter brigas e mais brigas com o pai, até o dia em que o ator viu que era hora de morar sozinho. Ele alugou um apartamento em Nova Iorque foi à luta.

Depois de passar por um exame extremamente concorrido finalmente foi aceito no Actors Studio. Essa foi uma escola lendária de arte dramática, fundada por Elia Kazan e outros grandes professores e diretores, tanto de teatro como de cinema. Estudando e trabalhando em peças pela cidade, Monty foi firmando sua reputação como ator talentoso e profissional. Sempre era pontual nos ensaios e nunca esquecia suas falas. No Actors Studio conheceu Marlon Brando. O colega estava indo para Hollywood, após se consagrar nos palcos de teatro de Nova Iorque. Monty não tinha, pelo menos naquele momento, esse tipo de ambição. Ele queria antes se tornar um grande ator de teatro, para só depois, quem sabe, virar um ator de cinema.

Isso duraria pouco. Monty era um ator profissional e vivia de seu trabalho. Sempre que surgia uma boa proposta de trabalho ele tinha que levar em consideração. Em 1948 um produtor de Hollywood chamado Lazar Wechsler entrou em contato com a agente de Monty em Nova Iorque. Ele queria contratar o ator para atuar no filme "Perdidos na Tormenta" que seria dirigido por Fred Zinnemann. O cachê era excepcionalmente bom, o equivalente a quatro meses de trabalho duro como ator de teatro em Nova Iorque. Monty engoliu todas as reservas que tinha contra os filmes e pegou o primeiro avião para a costa oeste. Ele estava prestes a fazer seu primeiro filme na cidade, algo que definitivamente mudaria sua vida dali em diante. 

Pablo Aluísio.  

Montgomery Clift - Texto III
O primeiro filme de Montgomery Clift em Hollywood foi "Perdidos na Tormenta". Esse foi filme foi realizado em 1948, uma produção da Metro-Goldwyn-Mayer que tinha como tema o pós-guerra na Europa. Um tema muito adequado pois a II Guerra Mundial havia terminado apenas três anos antes. O diretor Fred Zinnemann queria trazer para o público americano a situação em que se encontrava os países europeus depois de um dos conflitos armados mais sangrentos da história. Foi uma excelente iniciativa pois capturava em tela a situação de Berlim, a antiga capital do III Reich de Hitler, agora reduzida a uma pilha de escombros depois dos intensos bombardeios dos aviões aliados. E foi justamente para esse caos que a equipe de filmagem foi enviada. Clift interpretava no filme um militar americano chamado Ralph Stevenson. Após o fim da guerra ele era enviado justamente para Berlim, onde acabava ajudando um garoto de origem tcheca a encontrar sua mãe.

Filmar ali foi uma grande experiência para o ator. Embora ele tivesse conhecimento de tudo o que havia acontecido na II Guerra, era algo bem diferente estar ali, bem no meio do povo alemão derrotado, tentando sobreviver de todas as formas. O filme também serviu como propaganda americana ao colocar soldados e militares dos Estados Unidos como pessoas prontas a ajudar os sobreviventes da guerra, os retratando como pessoas amigáveis e prestativas, militares honestos e de boa índole. Após seu lançamento o filme foi bastante elogiado, vencendo um Oscar numa categoria importante, a de Melhor Roteiro (prêmio dado aos roteiristas Richard Schweizer e David Wechsler). Além disso foi indicado ainda ao Oscar nas categorias de Melhor Direção e Melhor Ator, justamente para Montgomery Clift, que estreava assim com reconhecimento em Hollywood. Afinal ser indicado ao Oscar por seu primeiro filme era algo para poucos...

Após uma estreia tão bem sucedida Clift assinou contrato para trabalhar em mais um filme, dessa vez no estúdio United Artists. É interessante notar que a MGM ofereceu a Clift um contrato de sete anos e meio (o que era o padrão na época para grandes astros), mas o ator recusou, afirmando que queria ter toda a liberdade para escolher os filmes em que iria atuar. A United Artists havia sido fundada por atores, atrizes e artistas e tinha fama de produzir filmes mais voltados para a arte, ao invés da fábrica de lucros de outros estúdios, como a própria MGM, conhecida por ser uma das grandes majors da indústria cinematográfica americana.

O roteiro que havia atraído Clift daria origem ao filme "Rio Vermelho", considerado hoje em dia como um dos maiores clássicos de western de todos os tempos. Obviamente que Montgomery Clift, o ator de Nova Iorque, não tinha pretensões de virar um ídolo cowboy das telas. O que o levou a contracenar com o mito John Wayne, sendo dirigido pelo mestre Howard Hawks, foi realmente o inspirado roteiro, um épico sobre os verdadeiros cowboys americanos, um espécie em extinção. Fisicamente o filme iria exigir bastante de Monty, por isso ele passou por um treinamento antes de entrar no set de filmagens. Aprendeu a montar, cavalgar e usar o laço. Para um sujeito que nunca havia deixado Nova Iorque era realmente algo necessário. E ele não poderia fazer feio ao lado justamente de John Wayne, um ícone dos filmes de faroeste.

Pablo Aluísio.

quarta-feira, 7 de março de 2001

Montgomery Clift - Filmografia (1958 - 1966)

Corações Solitários 
Esse filme também é conhecido como "Corações Solitários". Na história um Jovem jornalista desempregado chamado Adam White (Montgomery Clift) aceita trabalhar em um jornal escrevendo a coluna "Corações Solitários". Nela leitores pedem conselhos sentimentais. Inicialmente o jornalista pensa ser tudo uma bobagem, sem maior importância para sua carreira, mas conforme vai se envolvendo nas histórias acaba descobrindo os dramas pessoais de cada pessoa que lhe escreve. Como se já não bastasse os problemas profissionais ele ainda tem que lidar com sua noiva (Dolores Hart) que está perdendo a paciência com sua indefinição, pois ela quer se casar logo, mas ele vacila sobre essa decisão.

O argumento desse filme é muito interessante. Existe um subtexto envolvendo o personagem de Clift, um jovem idealista, com seu editor, um sujeito cínico e descrente com a humanidade em geral, que rende ótimos diálogos. Em um deles, impagável, o editor diz a Clift o seguinte: "Não se engane, as pessoas em geral são animais, não existe bondade no mundo". A tese de um e do outro acabará sendo testada justamente nos leitores da coluna "Corações Solitários" - inclusive no personagem de uma dona de casa insatisfeita, casada com um homem impotente.

Como facilmente se percebe, o texto que foi baseado em uma famosa peça da época, é forte, tratando de temas polêmicos. Clift novamente dá show com seu personagem, um jornalista bom e decente que tenta driblar inclusive seu passado nebuloso (que acabará voltando à tona para lhe assombrar). Outro destaque é a presença da starlet Dolores Hart. Ela ficou famosa por aparecer em um filme com Elvis Presley chamado "A Mulher Que eu Amo" (Loving You). Sua história é bem curiosa, pois pouco tempo depois ela largaria a carreira e o cinema para virar uma freira católica em sua cidade natal. Ela ainda está viva e hoje é uma irmã beneditina de um mosteiro americano. Em suma, "Corações Solitários" tem excelente elenco, inteligente roteiro e um final aberto que nos deixa a seguinte pergunta: Afinal quem tinha razão, o editor ou o jornalista? Assista para responder.

Por um Pouco de Amor / Corações Solitários (Lonelyhearts, Estados Unidos, 1958) Direção: Vincent J. Donehue / Rioteiro: Dore Schary, baseado na peça de Howard Teichmann / Elenco: Montgomery Clift, Myrna Loy, Maureen Stapleton, Robert Ryan / Sinopse: Adam White (Montgomery Clift) é um jovem jornalista escritor que aceita o convite para escrever uma coluna sentimental no jornal de sua cidade. No começo ele não leva muito à sério a nova função, mas aos poucos vai descobrindo os dramas reais de pessoas sofrendo com inúmeros problemas emocionais. Filme indicado ao Oscar e ao Globo de Ouro na categoria de melhor atriz coadjuvante (Maureen Stapleton).

De Repente No Último Verão
Catherine Holly (Elizabeth Taylor) é uma jovem sofrendo de problemas mentais. Em busca de tratamento ela é atendida e acompanhada pelo Dr Cukrowicz (Montgomery Clift). um especialista na área, que atua sob as ordens da dama da sociedade Violet Venable (Katherine Hepburn) que teme que Catherine divulgue um segredo sórdido envolvendo o passado de sua família. O filme começa logo impactando. As duas primeiras cenas juntas duram mais de 50 minutos (praticamente mais da metade do filme). Nelas temos dois grandes "duelos" em cena: Katherine Hepburn e Montgomery Clift e logo em sequência esse ao lado de Liz Taylor. Curioso é que em ambas Clift apenas serve de escada para que as atrizes possam declamar longos textos sobre Sebastian (o personagem cujo rosto nunca aparece mas que é citado em praticamente todos os diálogos do roteiro). Esse começo arrebatador sintetiza tudo: é um filme de diálogos e interpretação, nada mais. Sua gênese teatral não é disfarçada e nem amenizada até porque estamos tratando de Tennessee Williams, um dos grandes dramaturgos da cultura americana.

Achei Elizabeth Taylor extremamente bonita e talentosa no filme. Ela já estava entrando nos seus 30 anos mas ainda continuava belíssima. Mostra talento em cada cena mas não fica à altura de Hepburn (essa realmente foi uma das maiores atrizes da história). Já Montgomery Clift deixa transparecer as cicatrizes e deformações de seu rosto, após o grave acidente que sofreu ao sair de uma festa na casa da amiga Liz Taylor. Ele está contido no papel mas consegue dar conta muito bem do recado mesmo com as várias dores que sofria (atuou praticamente sedado durante todo o filme). O texto é rico e claramente trata da questão homossexual do personagem Sebastian. E foi justamente por essa razão que foi censurado nas telas. A censura partiu do próprio estúdio. A razão foi tentar conseguir uma classificação etária melhor, além de evitar maiores polêmicas com os chamados setores da "boa decência" da sociedade americana, bem atuantes na época de lançamento do filme. A questão da homossexualidade do personagem Sebastian inclusive ficou tão truncada no roteiro final (do aclamado Gore Vidal) que muitos nem se darão conta disso. Por isso recomenda-se conhecer melhor a peça no qual o filme foi adaptado para entender melhor a motivação dos personagens. Os textos de Tennessee Williams eram considerados fortes demais para os padrões morais da época e geralmente chegavam no cinema atenuados ou suavizados. De qualquer forma o resultado não pode ser classificado como menos do que grandioso. Todos brilham em cena – na realidade se trata de uma rara oportunidade de ver tantos talentos juntos em um só filme, o que torna a produção simplesmente imperdível para qualquer cinéfilo que se preze.

De Repente No Último Verão (Suddenly, Last Summer, Estados Unidos, 1959) Direção: Joseph L. Mankiewicz / Roteiro: Gore Vidal baseado na peça "The Roman Spring of Mrs. Stone" de Tennessee Williams / Elenco: Elizabeth Taylor, Katharine Hepburn, Montgomery Clift, Albert Dekker e Mercedes McCambridge./ Sinopse: A história se passa em Nova Orleans, em 1937. Katharine Hepburn, indicada ao Oscar pela sétima vez, está no papel da rica viúva Violet Venable, que quer que um cirurgião (Montgomery Clift) faça uma lobotomia em sua sobrinha Catherine (Elizabeth Taylor, também indicada ao Oscar). Catherine sofre de terríveis pesadelos e impulsos violentos desde a morte do primo, filho de Violet, quando os dois viajavam pela Europa no último verão. Aos poucos os mistérios que cercam sua condição são desvendados.

Rio Violento
Um filme clássico que une o talento de direção de Elia Kazan com a excelente performance de um grande ator como Montgomery Clift só poderia despertar muito o interesse dos cinéfilos. E foi justamente isso o que aconteceu com esse "Rio Violento". O filme procurava responder a uma questão extremamente pertinente: Até que ponto o progresso da sociedade justificava a mudança compulsória do modo de vida das pessoas? Qual era igualmente o limite de intervenção do Estado na existência das pessoas comuns? Até que ponto essa interferência era legítima ou legalmente justificável?

No filme Montgomery Clift (excepcionalmente bem) interpreta o personagem Chuck Glover, um agente do governo dos Estados Unidos que tem a missão de retirar uma senhora idosa que mora em uma ilha no rio Tennessee. Ela se recusa a abandonar o local pois foi ali que nasceu e criou seus filhos, enterrou seu marido e viveu ao lado de negros libertos e demais moradores do local. Lutando por seus valores tradicionais e por aquilo que lhe é mais importante a senhora resolve enfrentar até mesmo o poder do governo americano. E isso obviamente criou uma disputa jurídica que iria repercutir em todo o sistema judiciário norte-americano.

O filme apresente um excelente elenco. Aliás essa sermpre foi uma característica marcante nos filmes de Elia Kazan. A atriz Jo Van Fleet está simplesmente maravilhosa. Interpretando a matriarca Ella Garth, ela tem duas grandes cenas que a fazem ser o grande destaque de todo o filme. Em uma delas explica ao personagem de Montgomery Clift a dignidade de quem viveu e trabalhou no rio Tennessee há gerações. Devo dizer que poucas vezes vi Clift ser superado em cena, mas aqui ele realmente foi colocado de lado, até mesmo pela força do texto que a atriz tem a declamar. Socialmente consciente, tocando em temas tabus para a época (como o racismo do sul dos Estados Unidos), "Rio Violento" é um dos melhores trabalhos de Kazan. Ele foi um diretor que via o cinema como algo a mais e não apenas um mero entretenimento. Por isso seus filmes sempre tinham alguma mensagem a passar ao público.

Rio Violento (Wild River, Estados Unidos, 1957) Direção: Elia Kazan / Elenco: Montgomery Clift, Lee Remick, Jo Van Fleet / Sinopse: Chuck Glover (Clift) é um jovem agente do governo dos Estados Unidos que tem a missão de retirar um grupo de moradores de uma ilha no meio do rio Tennessee. As pessoas não querem ir embora de lá, deixando suas casas e sua história para trás. Porém é do interesse do Estado que elas deixem aquelas terras. Filme indicado no Berlin International Film Festival.

Os Desajustados
Esse foi o último filme completo da Marilyn. Ela ainda chegou a iniciar as filmagens de "Something s Got To Give" ao lado de Dean Martin mas o filme não foi concluído. Seus atrasos, faltas e confusões no set fizeram com que a Fox a despedisse no meio da produção. Pouco tempo depois, pressionada, abandonada e depressiva veio a encontrar sua morte em um quarto solitário de sua casa. Assim Os Desajustados se tornou seu último momento no cinema. Eu acho um filme triste, melancólico e depressivo até. Afirmam algumas biografias da estrela que Arthur Miller escreveu o conto que deu origem ao filme inspirado justamente na sua vida com a Marilyn. Os excessos da vida da atriz aparecem na tela, apesar de Marilyn Monroe ainda aparecer linda nas cenas, ela está bem acima do peso e abatida. Muitas vezes a atriz surge em cena com o olhar perdido no horizonte, sem convicção. Fisicamente ela também mostra sinais de desgaste. Numa cena de praia, por exemplo, em que ela aparece de biquíni a atriz exibe uma barriguinha bem saliente.

As brigas com o marido no set também foram constantes. Em certa ocasião deixou Arthur Miller abandonado no meio do deserto (onde o filme estava sendo filmado) se recusando a deixá-lo entrar em seu carro. O diretor John Huston teve então que voltar para ir pegá-lo, caso contrário morreria naquele lugar seco e inóspito. Marilyn também continuava com seu medo irracional dos sets de filmagens. Antes de entrar em cena ela ficava nervosa, em pânico. Errava muito suas falas e fazia o resto do elenco perder a paciência com suas atitudes. Seu medo de atuar nunca havia desaparecido mesmo após tantos anos de carreira. Interessante é que apesar de Marilyn não sair das revistas e jornais por causa dos acontecimentos ocorridos nas filmagens o filme não conseguiu fazer sucesso o que é uma surpresa e tanto pelo elenco estelar e pela publicidade extra que recebeu dos tablóides. Muitos atribuem o fracasso ao próprio texto de Arthur Miller que não tinha foco e nem uma boa dramaturgia. Aliás desde que se casou com Marilyn o autor parecia ter perdido o toque para bons textos. Tudo soava sem inspiração, sem talento. "Os Desajustados" também foi a última produção com o mito Clark Gable. Envelhecido e decadente sofreu bastante com os problemas do filme, o levando a um esgotamento físico e mental, vindo a falecer pouco depois. Acusada de ter contribuído para o colapso de Gable, Marilyn sentiu-se culpada e ganhou mais um motivo para sua depressão crônica. De qualquer forma só pelo fato de "Os Desajustados" ter sido o último filme de Monroe e Gable já vale sua existência. Não é tecnicamente um excelente filme mas está na história do cinema pelo que representou na vida de todos esses grandes mitos que fizeram parte de sua realização.

Os Desajustados (The Misfits, Estados Unidos, 1960) / Direção de John Huston / Elenco:: Clark Gable, Marilyn Monroe, Montgomery Clift, Thelma Ritter, Eli Wallach / Sinopse: Roslyn Taber (Marilyn Monroe) é uma mulher sensível, que está se divorciando. Gay Langland (Clark Gable) e um cowboy frio, que passou a vida pegando cavalos e mulheres divorciadas. Ela não aceita a captura de cavalos selvagens para virarem comida de cachorro, enquanto que ele não vê nada demais. No meio de tudo isto nasce uma paixão entre os dois.

O Julgamento de Nuremberg
A Alemanha nazista foi palco das maiores atrocidades da história da humanidade. O holocausto foi um momento único de terror e desumanidade na trajetória do homem sobre a Terra. Após o fim da Segunda Guerra Mundial todos aqueles que de alguma forma colaboraram com o regime nazista de Adolf Hitler foram julgados na cidade de Nuremberg. Infelizmente alguns líderes nazistas conseguiram escapar dessa corte internacional se suicidando ou então fugindo para outros países distantes. O braço direito de Hitler, Himmler, por exemplo, foi capturado, mas se matou com cianureto em sua cela antes que pudesse enfrentar seu julgamento. Ficaram impunes e não pagaram por seus crimes horrendos, infelizmente.

Na verdade histórica não houve apenas um julgamento em Nuremberg, mas vários, com muitos réus dos mais diversos setores da Alemanha nazista. Esse filme se concentra no julgamento de membros do poder judiciário (juízes em sua maioria) e promotores públicos que não apenas colaboraram com o nazismo como chancelaram leis e decretos do Reich completamente absurdos, como os que previam pena de morte para arianos que se envolvessem com não-arianos e judeus ou que traziam normas sobre esterilização dos indesejados ao regime como comunistas, doentes mentais e membros de etnias consideradas inferiores pela doutrina nazista. No banco de réus se encontrava justamente um dos maiores juristas do direito alemão, o Dr. Ernst Janning (Burt Lancaster), homem culto, amante das artes e um autor e magistrado consagrado que a despeito de sua vasta cultura jurídica e humanista não hesitou em colaborar diretamente com os ideais de Hitler, inclusive enviando milhares de inocentes para campos de concentração do Terceiro Reich.

O roteiro do filme é primoroso, mostrando essa enorme contradição em que intelectuais e homens da mais fina cultura se tornavam meros instrumentos de morte para a máquina de extermínio nazista. O argumento também ousa perguntar até onde teria ido a responsabilidade do povo alemão pelos terríveis crimes de guerra promovidos pelos homens de Hitler. Isso é bem exemplificado pelos próprios réus no processo. Embora ocupassem altos cargos dentro do Reich todos negaram de forma incisiva que jamais souberam do que se passava dentro dos muros dos campos de extermínio.

O juiz americano Dan Haywood, indicado para julgar esses criminosos de guerra, é magnificamente interpretado por Spencer Tracy. Seu personagem é um sujeito provinciano do interior dos EUA, que fica chocado com a extrema brutalidade que toma conhecimento durante os depoimentos de testemunhas. Não menos talentosos em cena estão Richard Widmark como o promotor, membro das forças armadas americanas e Maximilian Schell, interpretando o advogado de defesa. Elenco fabuloso que conta ainda com grandes atores dando vida às testemunhas do caso, com destaque para  Montgomery Clift como uma das vítimas da política nazista de pureza racial. O filme exige um certo comprometimento do espectador uma vez que sua duração ultrapassa as três horas, mas quem se propor a assistir a “O Julgamento de Nuremberg” será muito bem recompensado pois certamente se trata de uma obra prima da história do cinema.

O Julgamento de Nuremberg (Judgment at Nuremberg, EUA, 1961) Direção: Stanley Kramer / Roteiro: Abby Mann / Elenco: Spencer Tracy, Burt Lancaster, Richard Widmark, Maximilian Schell, Montgomery Clift, Judy Garland, William Shatner, Marlene Dietrich / Sinopse: O filme narra os acontecimentos que ocorreram durante um dos mais famosos julgamentos realizados na cidade de Nuremberg após o fim da Segunda Guerra. No banco dos réus juízes e promotores alemães que colaboraram com a política nazista de extermínio e esterilização de raças consideradas inferiores.

Freud - Além da Alma 
O drama psicológico Freud – Além da Alma estreou nos cinemas em dezembro de 1962, dirigido por John Huston e estrelado por Montgomery Clift no papel de Sigmund Freud. O filme concentra-se nos primeiros anos da carreira do médico vienense, quando ele desenvolve as bases da psicanálise ao investigar casos de histeria e repressão sexual. Desde o lançamento, a produção chamou atenção por seu tom sério, introspectivo e intelectual, afastando-se do cinema biográfico tradicional ao focar mais nos conflitos mentais e morais do que em eventos históricos grandiosos.

Em termos de bilheteria, o filme teve um desempenho modesto. Produzido com um orçamento relativamente alto para um drama adulto e denso, Freud – Além da Alma não atraiu grandes multidões, especialmente nos Estados Unidos. Seu tema complexo, ritmo deliberadamente lento e abordagem sombria limitaram o apelo popular, fazendo com que o longa fosse visto mais como uma obra de prestígio artístico do que como um sucesso comercial.

A reação da crítica em 1962 foi dividida, refletindo a ousadia e a dificuldade do material. O The New York Times descreveu o filme como “denso, severo e intelectualmente exigente”, elogiando a ambição da obra, mas observando que ela poderia afastar parte do público por sua seriedade quase clínica. A revista Time comentou que o longa era “sombrio e fascinante, embora por vezes excessivamente pesado”, destacando o esforço em traduzir conceitos abstratos da psicanálise para a linguagem cinematográfica.

Grande parte dos elogios concentrou-se na atuação de Montgomery Clift. Muitos críticos afirmaram que ele oferecia uma interpretação “intensa, contida e profundamente atormentada”, adequada ao retrato de um Freud jovem e inseguro, ainda longe da figura consagrada da história. A revista Variety destacou que Clift “confere ao personagem uma vulnerabilidade rara, tornando crível o sofrimento psicológico que move suas descobertas”, enquanto o trabalho de John Huston foi visto como rigoroso e austero.

Com o passar dos anos, Freud – Além da Alma passou por uma reavaliação crítica, sendo hoje reconhecido como um dos filmes mais ambiciosos e intelectuais da década de 1960. As críticas publicadas em 1962 já indicavam que a obra não buscava agradar facilmente, mas provocar reflexão e debate. Atualmente, o filme é lembrado tanto como um retrato incomum do nascimento da psicanálise quanto como um dos trabalhos mais densos e desafiadores da carreira de Montgomery Clift, ocupando um lugar singular na história do cinema biográfico.

Talvez Seja Melhor Assim
Após sofrer um sério acidente de automóvel o ator Montgomery Clift entrou em um verdadeiro inferno astral. As dores constantes que sofria o fez se tornar dependente de drogas pesadas. Para piorar ainda mais o alcoolismo se agravou e Clift encontrou muitos problemas em seguir em frente na profissão. Após ficar quatro anos sem aparecer no cinema ele resolveu voltar, dessa vez para aquele que seria seu último filme na carreira, uma produção francesa e alemã que captou os últimos momentos desse grande ator no cinema. Os filmes de espionagem estavam na moda por causa do sucesso arrebatador da série James Bond então foi quase natural o aproveitamento de Clift, mesmo em ruínas, para estrelar essa tentativa um tanto mal sucedida de tentar repetir sob uma verniz mais séria o tema da espionagem durante a chamada guerra fria. Ele surge em cena muito magro e abatido, praticamente curvado, obviamente passando um aspecto bem doentio, o que poderá certamente chocar seus fãs, principalmente aqueles mais acostumados com seus primeiros filmes, onde interpretava galãs românticos ou trágicos.

Aqui em seu último papel Montgomery Clift interpreta o professor James Bower, um renomado físico que é recrutado pela CIA para ir até a Europa com o objetivo de ajudar na busca de um cientista russo que se tornou peça vital dentro do jogo de espionagem entre americanos e soviéticos. A trama se passa no auge da chamada guerra fria, bem na fronteira entre as duas Alemanhas, na região que foi apelidada pelo primeiro ministro inglês Winston Churchill de “Cortina de Ferro”. O enredo foi retirado do sucesso editorial “The Spy”, também conhecido como 'L'Espion', escrito pelo autor Paul Thomas. Clift, já com a saúde bastante abalada, passou por dificuldades para terminar o filme.

Muito abatido, sem energia, enfrentou seu último trabalho com muita dignidade mas também com muito sacrifício. Em determinado momento cogitou abandonar as filmagens por não aguentar mais se manter sóbrio, requisito necessário para cumprir o contrato que havia assinado. A crítica por sua vez não gostou muito do resultado. O fato da produção ser europeia, com ritmo devagar e características bem diferenciadas da indústria americana, fizeram com que a produção também fosse ignorada pelo público.  Clift não viveria muito após o lançamento do filme vindo a falecer em julho de 1966 em Nova Iorque. O cinema perdia assim um dos mais talentosos atores de sua história.

Talvez Seja Melhor Assim (L'espion, The Defector, Alemanha, França, 1966) Direção: Raoul Lévy / Roteiro: Robert Guenette, Raoul Lévy / Elenco: Montgomery Clift, Hardy Krüger, Roddy McDowall / Sinopse: Pacato professor de física é envolvido numa complexa rede de espionagem que tenciona levar para o ocidente um renomado cientista russo bem no auge da chamada guerra fria entre Estados Unidos e União Soviética.

Pablo Aluísio.

terça-feira, 6 de março de 2001

Montgomery Clift

Montgomery Clift foi um dos atores mais sensíveis e revolucionários do cinema norte-americano, sendo amplamente reconhecido como um dos pioneiros da atuação moderna em Hollywood. Nascido em 17 de outubro de 1920, em Omaha, Nebraska, Clift destacou-se por trazer para a tela uma intensidade emocional rara para sua época, rompendo com o estilo mais rígido e teatral que dominava o cinema clássico. Sua presença delicada, introspectiva e vulnerável redefiniu o conceito de masculinidade no cinema dos anos 1940 e 1950.

Antes de alcançar o estrelato em Hollywood, Montgomery Clift construiu uma sólida carreira no teatro da Broadway ainda muito jovem. Sua formação teatral foi fundamental para o refinamento de sua técnica, baseada na observação psicológica e na verdade emocional dos personagens. Diferente de muitos astros de sua geração, Clift não buscava a imagem do galã tradicional, preferindo papéis que explorassem conflitos internos, fragilidades e dilemas morais profundos.

A estreia cinematográfica de Clift ocorreu de forma marcante em Rio Vermelho (1948), dirigido por Howard Hawks, ao lado de John Wayne. Sua atuação como um jovem sensível em contraste com a figura autoritária de Wayne chamou imediatamente a atenção da crítica. Naquele momento, ficava claro que surgia um novo tipo de ator em Hollywood, mais introspectivo e próximo do realismo psicológico que viria a se consolidar nos anos seguintes.

Ao longo do final da década de 1940 e início dos anos 1950, Montgomery Clift acumulou performances memoráveis em filmes como Tarde Demais (1948), Um Lugar ao Sol (1951) e A Um Passo da Eternidade (1953). Nessas obras, interpretou personagens dilacerados por paixões impossíveis, culpa e repressão emocional. Sua capacidade de expressar sofrimento interno com gestos mínimos e olhares silenciosos tornou-se uma de suas marcas registradas.

Clift foi frequentemente associado ao chamado “método” de interpretação, embora nunca tenha sido aluno formal do Actors Studio como Marlon Brando. Ainda assim, compartilhava com Brando e James Dean a busca por autenticidade emocional e a rejeição de atuações artificiais. Sua influência sobre gerações posteriores de atores é amplamente reconhecida, sendo considerado um elo fundamental entre o cinema clássico e o cinema moderno.

Em 1956, sua vida e carreira sofreram uma mudança drástica após um grave acidente de automóvel, que lhe causou sérias lesões físicas e emocionais. O episódio afetou profundamente sua aparência e sua saúde, além de agravar problemas pessoais. Muitos críticos apontam esse momento como um divisor de águas em sua trajetória, marcando o início de um período mais sombrio e instável em sua vida profissional.

Apesar das dificuldades, Montgomery Clift continuou a oferecer atuações de grande impacto nos anos seguintes. Filmes como De Repente, no Último Verão (1959) e Os Desajustados (1961) revelam um ator ainda poderoso, embora visivelmente fragilizado. Nesses trabalhos, sua vulnerabilidade real parecia fundir-se com a dos personagens, conferindo uma força trágica singular às suas interpretações.

A vida pessoal de Clift foi marcada por conflitos internos, isolamento e uma luta constante para se encaixar em uma indústria que valorizava imagens públicas cuidadosamente construídas. Reservado e introspectivo, ele evitava os holofotes e tinha dificuldade em lidar com a fama. Sua sensibilidade extrema, embora essencial para sua arte, contribuiu para um estilo de vida solitário e emocionalmente desgastante.

Montgomery Clift faleceu em 23 de julho de 1966, aos 45 anos, encerrando precocemente uma carreira que, mesmo relativamente breve, deixou uma marca profunda no cinema. Sua morte foi vista por muitos como o símbolo trágico de um talento extraordinário consumido por pressões internas e externas. Ainda assim, seu legado artístico permanece intacto.

Montgomery Clift: Aspectos Relevantes de um Ator
1. Introdução: um ator fora do seu tempo
Edward Montgomery Clift nasceu em 17 de outubro de 1920, em Omaha, Nebraska, e tornou-se um dos atores mais influentes e trágicos da história do cinema norte-americano. Ao lado de Marlon Brando e James Dean, Clift é frequentemente apontado como um dos fundadores da atuação moderna em Hollywood. No entanto, diferentemente de seus contemporâneos, sua revolução não se deu pelo confronto explícito ou pela rebeldia aberta, mas pela introspecção, pela fragilidade emocional e pela verdade psicológica que trouxe a cada personagem.

Montgomery Clift não era apenas um ator: era uma ruptura. Sua presença nas telas desafiava o modelo clássico do astro viril, seguro e invulnerável. Ele introduziu um novo tipo de masculinidade, marcada por conflitos internos, sensibilidade extrema e silêncio expressivo. Em uma Hollywood ainda dominada por estúdios rígidos e arquétipos bem definidos, Clift representava a inquietação do pós-guerra e o surgimento de uma geração que já não acreditava em heróis sem falhas.

2. Infância e formação: o teatro como refúgio
Filho de uma mãe dominadora, Ethel Anderson Clift, Montgomery teve uma infância incomum. Sua mãe acreditava que os filhos estavam destinados a uma grandeza especial e os afastou do ensino formal tradicional, optando por uma educação itinerante pela Europa e pelos Estados Unidos. Essa criação contribuiu para o isolamento emocional do ator, mas também lhe proporcionou contato precoce com arte, música e literatura.

Aos 13 anos, Clift já atuava profissionalmente no teatro da Broadway. Diferente de muitos atores que viam o palco como um trampolim para o cinema, ele considerava o teatro sua verdadeira casa. Foi ali que desenvolveu uma disciplina rigorosa e uma abordagem profundamente psicológica da interpretação, muito antes de o chamado “Método” se tornar popular em Hollywood.

Durante os anos 1930 e início dos anos 1940, Montgomery Clift construiu uma sólida carreira teatral, atuando em peças de Shakespeare, dramas contemporâneos e produções experimentais. Seu talento chamou a atenção de diretores e críticos, mas ele resistiu durante anos às propostas de Hollywood, temendo perder o controle artístico de seu trabalho.

3. A estreia no cinema e a recusa ao sistema de estúdios
Montgomery Clift fez sua estreia no cinema relativamente tarde, aos 28 anos, em “Rio Vermelho” (Red River, 1948), dirigido por Howard Hawks e estrelado por John Wayne. Desde sua primeira aparição, ficou claro que algo havia mudado. Enquanto Wayne representava o velho Oeste mítico, Clift surgia como um jovem contido, emocionalmente complexo e moralmente dividido.

O contraste entre os dois atores simbolizou uma transição histórica no cinema americano: o embate entre o heroísmo clássico e a dúvida moderna. Clift não precisava levantar a voz ou impor sua presença; seu poder estava no olhar, na pausa, na tensão interna.

Diferentemente da maioria dos atores da época, Clift recusou contratos de longo prazo com estúdios. Essa decisão lhe deu liberdade artística, mas também instabilidade financeira e conflitos frequentes com produtores. Ele escolhia seus papéis com extremo cuidado, rejeitando projetos que não considerava artisticamente honestos.

4. A consagração crítica: sensibilidade e tragédia
Nos anos seguintes, Montgomery Clift entregou uma sequência de atuações memoráveis. Em “Tarde Demais” (The Heiress, 1949), interpretou um sedutor ambíguo, distante do galã romântico tradicional. Em “Um Lugar ao Sol” (A Place in the Sun, 1951), sua atuação como George Eastman tornou-se um marco definitivo do cinema.

Nesse filme, Clift encarnou o conflito entre ambição social, desejo e culpa moral. Sua performance, marcada por silêncio e tensão contida, redefiniu o melodrama hollywoodiano. Ele não interpretava emoções: ele as vivia diante da câmera.

O sucesso continuou com “A Um Passo da Eternidade” (From Here to Eternity, 1953), no qual viveu o soldado Prewitt, um homem íntegro esmagado pela brutalidade institucional do exército. A recusa do personagem em se submeter à violência gratuita refletia muito da própria ética pessoal de Clift.

5. Vida pessoal, sexualidade e isolamento
Fora das telas, Montgomery Clift vivia uma batalha constante contra si mesmo. Extremamente reservado, evitava entrevistas e eventos sociais. Sua sexualidade, em uma Hollywood profundamente conservadora, era um tema proibido. Embora nunca tenha se assumido publicamente, é amplamente reconhecido por historiadores e biógrafos que Clift era bissexual ou homossexual.

Esse conflito interno contribuiu para sua solidão e para uma sensação constante de inadequação. Diferentemente de James Dean, que transformava sua angústia em rebeldia visível, Clift internalizava sua dor. O resultado era uma intensidade emocional que transbordava na tela, mas o consumia por dentro.

Ele mantinha amizades profundas com figuras como Elizabeth Taylor, que se tornaria uma das pessoas mais importantes de sua vida. Taylor descrevia Clift como alguém de extrema delicadeza emocional, mas também profundamente autodestrutivo.

6. O acidente de 1956: o ponto de ruptura
Em 1956, durante as filmagens de “A Árvore da Vida” (Raintree County), Montgomery Clift sofreu um grave acidente de carro ao deixar a casa de Elizabeth Taylor. Seu rosto ficou severamente ferido, com múltiplas fraturas. Embora tenha sobrevivido, o acidente marcou o início de um período sombrio em sua vida e carreira.

A indústria passou a se referir ao período posterior como “a longa noite de Montgomery Clift”. Além das dores físicas, o ator enfrentou dependência de analgésicos, álcool e uma crescente insegurança em relação à própria imagem. Para um artista cuja expressividade facial era essencial, as cicatrizes representaram um golpe devastador. Ainda assim, Clift recusou-se a abandonar a atuação.

7. A reinvenção artística e a maturidade
Contrariando expectativas, Montgomery Clift entregou algumas de suas atuações mais complexas após o acidente. Em “De Repente, no Último Verão” (Suddenly, Last Summer, 1959), atuou ao lado de Elizabeth Taylor e Katharine Hepburn, interpretando um médico atormentado por dilemas éticos e emocionais.

Sua performance em “Julgamento em Nuremberg” (Judgment at Nuremberg, 1961) é frequentemente considerada uma de suas maiores conquistas. Em poucos minutos de cena, Clift interpretou um homem com deficiência intelectual, vítima do regime nazista. Sua atuação é devastadora em sua simplicidade e humanidade, rendendo-lhe uma indicação ao Oscar.

Nesse período, Clift já não buscava a perfeição estética, mas a verdade emocional absoluta.

8. Relação com o Método e influência no cinema
Embora frequentemente associado ao Actor’s Studio e ao Método, Montgomery Clift nunca foi aluno formal da instituição. Ainda assim, sua abordagem intuitiva, psicológica e profundamente interna influenciou toda uma geração de atores.

Marlon Brando, Paul Newman, Al Pacino e Robert De Niro reconheceram a importância de Clift como precursor de uma atuação menos teatral e mais humana. Ele foi um dos primeiros a mostrar que o silêncio, a dúvida e a vulnerabilidade podiam ser tão poderosos quanto discursos inflamados.

9. Últimos anos e morte
Os últimos anos de Montgomery Clift foram marcados por saúde frágil, projetos irregulares e crescente isolamento. Em 23 de julho de 1966, aos 45 anos, ele morreu em Nova York, vítima de um ataque cardíaco, agravado pelo uso prolongado de medicamentos e álcool.

Sua morte não foi um escândalo, mas um silêncio — condizente com a vida que levou. Hollywood, no entanto, começava a compreender a dimensão de sua perda.

10. Legado: a beleza da imperfeição
Montgomery Clift deixou uma filmografia relativamente curta, mas de impacto duradouro. Ele redefiniu o conceito de ator dramático no cinema americano e abriu espaço para personagens complexos, ambíguos e emocionalmente feridos.

Mais do que um ícone trágico, Clift foi um artista que pagou um preço alto por sua integridade. Sua atuação permanece atual porque fala de conflitos universais: identidade, solidão, desejo e medo.

Em um mundo que ainda celebra máscaras, Montgomery Clift escolheu a verdade — mesmo quando ela doía.

segunda-feira, 5 de março de 2001

James Dean: Crônicas, Curiosidades e Informações

A seguir, segue uma série de textos, crônicas, informações e demais artigos sobre James Dean e seu tempo. O mito rebelde, como se vê, sobreviveu ao passar das décadas. 

James Dean - Hollywood Boulevard - Texto I
Depois da decepção amorosa com Pier Angeli, Dean resolveu voltar à sua velha rotina. Acabaram-se os dias de ternos engomadinhos e cabelos penteados. Ele estava de volta ao seu modo Rebelde. Para esquecer a ex-namorada resolveu cair de cabeça em coisas que gostava de fazer. Uma delas era correr. Nos anos 1950 havia uma série de corridas amadoras em pistas profissionais realizadas geralmente nos fins de semana, principalmente no circuito de Los Angeles. Dean se achou nessas competições. Ele imediatamente se inscreveu em duas corridas, comprou um carro esporte novinho e se preparou para seu primeiro grande teste.

James Dean chamou logo a atenção, mas não pelos motivos certos. Os demais corredores se assustaram com seu estilo ousado demais, quase suicida de competir. Dean se mostrou um adversário ferrenho, que não se intimidava diante de ultrapassagens perigosas e quase impossíveis. Para ele a segurança na pista vinha em segundo lugar pois o que ele almejava mesmo era vencer, acima de tudo.  Sujo de graxa, roupa suada e imunda, Dean achou o máximo o clima que rolava nesse tipo de corrida esporte. Decidiu que iria participar sempre que fosse possível e iria investir em carros melhores e mais velozes, principalmente os da sua marca preferida, a alemã Porsche.

Também resolveu que era hora de reunir sua turma. Durante seu namoro com Pier Angeli, Dean ficou meio isolado pois sua namorada não conseguiu gostar muito de seus amigos. A turminha de Jimmy Dean realmente era formada por jovens fora dos padrões. A maioria deles era de bissexuais que estavam dispostos a se envolver com homens e mulheres, de acordo com seus desejos, fugindo das amarras moralistas de sua época. Certamente não era o tipo de gente que uma católica tradicional como Angeli estava acostumada a frequentar. Nos fins de semana esse grupo de jovens atores se reunia na badalada praia de Malibu para divertidas e extravagantes festas à beira da piscina. Era um meio onde tudo parecia valer, mas Dean conseguiu ultrapassar todas as barreiras, afinal ele era competitivo e não queria ficar atrás de ninguém. Nessas festinhas ele começou a criar o hábito de práticas masoquistas. Dean, sabe-se lá o porquê, começou a associar prazer sexual com dor física. Assim pedia para que seus amantes apagassem seus cigarros em seu peito. A prática bizarra acabou dando a James Dean um apelido no mínimo curioso entre a turma: O cinzeiro humano!

Também começou a sair com outras atrizes de seu interesse. Uma delas foi a loira Ursula Andress. Nascida em Ostermundigen, Suíça, ela era mais uma atriz européia exótica que Hollywood tentava transformar em estrela. O relacionamento de James Dean com ela porém foi bem diferente do que ele teve com Pier Angeli. Com Andress, Dean conseguiu ser ele mesmo, o que não foi lá muito bom para o namoro. Ursula começou a achar que seu novo namorado era bem estranho e nada fiel. A um jornalista deixou subentendido o bissexualismo do ator ao declarar: "Dean se relaciona com tudo... com qualquer um!". Como estava sendo cotado para ser um dos futuros astros da Warner tudo foi logo abafado para esconder maiores escândalos. Aos amigos Dean confidenciou que Andress não era "uma mulher para ser levada à sério, pois não passava de uma companheira de farras". Como nenhum deles estava disposto a abaixar a cabeça para o outro, o breve romance logo chegou ao fim.

Além das corridas e festas, James Dean também criou uma outra paixão por essa época: as touradas! Tudo começou em Nova Iorque quando ele foi presenteado com uma capa de um famoso Matador mexicano, um conhecido toureiro das arenas espanholas. Dean achou o máximo aquele presente e começou a pesquisar sobre sua vida. Logo estava fascinado pelo violento esporte. Todo fim de semana Dean procurava cruzar a fronteira até o México para assistir algumas competições. Acabou inclusive encontrando outro apreciador delas dentro do mundo do cinema ao conhecer o diretor Budd Boetticher, que havia dirigido vários faroestes de sucesso com Randolph Scott. Dean e Budd tinham gostos parecidos e se envolviam em longas conversas relembrando os grandes toureiros da história. A capa, ainda com sangue do último touro trucidado na arena, era levada por Dean a todos os lugares. Ele a colocava sobre os ombros e ia com ela para onde quer que fosse, mesmo que em hotéis sofisticados de Hollywood. Era um dos privilégios de ser uma celebridade na capital mundial do cinema.

James Dean - Hollywood Boulevard - Texto II
O Amor de Pier Angeli - Infelizmente para James Dean seus primeiros dias em Hollywood foram também os últimos. Seu estrelato foi muito breve, interrompido por um acidente fatal que o vitimou com apenas 24 anos de idade. Em suas últimas semanas de vida os amigos mais próximos começaram a perceber que Dean vinha falando muito de Pier Angeli. A atriz italiana havia sido sua grande paixão. Eles tiveram um intenso caso amoroso que não terminou bem. O jeito rebelde e autêntico de Dean desagradou a mãe de Angeli, uma verdadeira mama napolitana que não gostava nada de ver sua filha andando de mãos dadas com aquele sujeito de gestos rudes, pouca preocupação em agradar e ser educado. Não tardou e a mãe de Pier conseguiu destruir o namoro. Ao invés de Dean ela jogou a filha para cima do cantor almofadinha Vic Damone, com quem ela se casaria em meados de 1954 para tristeza de James Dean. "Como ela pôde se interessar por esse cara?!" - perguntou atônito o ator. De fato, Damone era o extremo oposto de Dean. Enquanto James era rebelde, andava de moto e usava o mesmo velho e surrado casaco, o cantor era o protótipo do engomadinho sem graça, sempre com terno impecável, sorrisinho falso no rosto e uma gentileza que nunca soava como verdadeira.

Claro que Dean sentiu muito ver a mulher que amava sendo levada ao altar por outro homem, mas depois de um tempo ele foi conseguindo superar o sentimento de perda até que casualmente a reencontrou nos corredores dos estúdios da Warner. Rever Pier foi como ter uma bomba jogada em cima dele, como ele confessaria depois a um de seus amigos mais próximos. Em questão de segundos toda aquela paixão voltou de forma intensa. Colocar os olhos em Angeli novamente o fez desabar. Dean voltou a curtir uma fossa tremenda e assim que encontrou seu colega Nick Adams resolveu desabafar dizendo: "Encontrei Pier ontem... foi como se tivessem jogado uma bomba atômica na minha cabeça... ela não é desse mundo, estava linda demais... quando nossos olhares se encontraram novamente eu não consegui me controlar, fiquei nervoso e tremendo. Eu ainda a amo profundamente". Dean não conseguia se conformar porque ele tinha certeza de que ela seria sua verdadeira paixão, a mulher de seus sonhos. Ao que tudo indica Pier também o amava muito. De fato, ela nunca conseguiu superar a perda. Após a morte de Dean o seu casamento entrou em crise e ela separou de Damone pouco tempo depois. Após mais um casamento infeliz (dessa vez com Armando Trovaioli) ela resolveu se matar tomando uma dose excessiva de barbitúricos que acabou causando sua morte em questão de minutos. Um triste fim para um amor tão bonito e sincero!

Sem conseguir superar seu amor por Pier Angeli e sem ter como concretizar esse sentimento, Dean começou a procurar por alguma válvula de escape para superar sua angústia. Quem o conhecia sabia muito bem que corridas velozes era uma das formas de Dean superar seus fantasmas. Ele comprou um novo Porsche 550, prateado, ideal para competições esportivas. O carro era rebaixado e alcançava grande velocidade, quase rente ao asfalto. Dean mandou personalizar o seu novo brinquedo. Mandou colocar o número 130 nas laterais e o apelido "Little Bastard" (Pequeno bastardo) na carroceria. Embora estivesse arrasado em seu íntimo, Dean procurava ocupar sua mente para superar o trauma da perda do grande amor de sua vida. Seria justamente nesse carro que ele sofreria o acidente que o mataria. As características do rápido automóvel se mostrariam letais para Dean. Ao correr com o Porsche numa rodovia comum o carro se tornava quase invisível a longa distância. O outro motorista que vinha em uma via perpendicular simplesmente não o viu vindo em sua direção. A batida assim se tornou inevitável. O "Little Bastard" se tornaria de fato seu túmulo de quatro rodas.

Correr feito um louco pelas estradas, porém não bastava. Dean também voltou para sua velha rotina de boêmia. Quando não estava filmando, comprometido com horários rígidos, o ator habitualmente virava a noite em festas, encontros ou apenas andando pelas ruas de Nova Iorque para terminar sua madrugada no píer, vendo o sol nascer. Ele não gostava de beber, por isso passava toda a noite acendendo um cigarro atrás do outro, enquanto pedia mais uma xícara de café. O que James Dean gostava mesmo era de respirar o lado mais boêmio de sua cidade preferida, Nova Iorque. Pelos bares da cidade, durante muitas madrugadas, ele conhecia novas pessoas, novatos que tentavam um lugar ao sol no concorrido mercado de atuação e trocava figurinhas com outros atores sobre peças, oportunidades de contratos e impressões sobre diretores e produtores. Dean valorizava em especial atrizes de teatro pois tinha muito em comum com elas. Queria trocar experiências e ao contrário do que muitos diziam ele não se revelava um sujeito fechado e tímido nessas ocasiões, muito pelo contrário, conversava bastante, dava risadas e falava pelos cotovelos. Assim também acabou criando sua própria turma, formada por jovens aspirantes ao sucesso teatral como ele.

Outra coisa que chamava muito a atenção de Dean era conhecer e adentrar em outros tipos de comportamentos fora dos padrões, algo que ele jamais havia visto quando morava em uma pequenina cidadezinha de Indiana. Quando soube que haveria uma badalada festa em uma boate local apenas para lésbicas e gays, Dean logo se animou para ir até lá. Claro que James Dean havia tido várias experiências homossexuais ao longo de sua vida, mas até aquele momento nunca havia participado de uma festa apenas para gays. Naquela época isso era considerado algo clandestino, escondido, um tipo de evento que era divulgado em voz baixa. Todos tinham receios de serem presos por atos contra a moralidade pública ou algo parecido. Dean, porém, não estava muito preocupado com isso. Em pouco tempo ele estava circulando dentro da festa, trocando beijinhos e promovendo flertes com os rapazes que frequentavam o salão de dança. Foi uma das últimas festas de sua vida e a Warner teria muito trabalho em esconder sua presença nesse local após sua morte. Valia tudo para manter o mito intacto e sua imagem imaculada, longe de todas as fofocas.

James Dean - Hollywood Boulevard - Texto III
Após o fim das filmagens de "Juventude Transviada" James Dean pegou o primeiro avião para Nova Iorque. Dean queria ir embora de Los Angeles o mais rapidamente possível. Ele só tinha queixas a falar para seus amigos e colegas atores da big apple. Para Dean se fazia pouca arte em Hollywood e muito comércio. Ele odiava ter que lidar com agentes, produtores e executivos que na sua opinião "não passavam de um bando de idiotas!". Para James Dean a verdadeira realização para um grande ator viria nos palcos, no teatro, e não no cinema que ele considerava uma forma de arte menor. E nada melhor para um profissional como ele do que estar na capital mundial do teatro, que era justamente Nova Iorque. Não havia cidade no mundo que ele não amasse mais. Em New York ele tinha toda a cultura do mundo aos seus pés. Se quisesse ler livros raros bastaria dar uma passadinha na maior biblioteca dos Estados Unidos, logo ali a 20 minutos de caminhada de seu apartamento. Se desejasse assistir a uma peça bastava virar a esquina. A Broadway fervilhava de peças maravilhosas e todos os grandes atores, diretores, autores e escritores circulavam pela cidade.

Assim James Dean passava o dia passeando pela metrópole, absorvendo todo aquele clima maravilhoso de arte e cultura em cada canto da cidade. Nas tardes gostava de passar pelo Actors Studio onde reencontrava seus professores a fazia novas amizades com os alunos novos da mais conceituada escola de arte dramática dos Estados Unidos. Havia também encontros inesperados e surpresas muitas vezes constrangedoras. Enquanto almoçava em um pequeno restaurante da quinta avenida Dean esbarrou acidentalmente com Rogers Brackett, o homem com quem vivera no começa de sua carreira. Naquela época Dean não tinha onde morar e nem onde viver. Estava desempregado e sem um tostão, sem maiores alternativas resolveu ir morar no chic apartamento de Brackett. Curiosamente agora as posições sociais estavam invertidas. Enquanto Dean crescia na carreira, Brackett passava por dificuldades financeiras após ser demitido do emprego de publicitário onde havia trabalhado por anos e anos.

A conversa entre ambos foi tensa. Dean obviamente não queria que ninguém soubesse que ele havia morado com um homem em seu passado - isso certamente destruiria sua carreira em Hollywood caso a imprensa soubesse. Já Rogers não temia esse encontro, até porque seu longo relacionamento com Dean era de conhecimento notório entre seus amigos homossexuais. O bate papo começou com amenidades, com Dean afirmando que estava se "prostituindo" em Hollywood por causa dos excelentes cachês que a Warner lhe pagava. Em determinado momento Rogers abriu o jogo com Dean e lhe contou que estava com sérios problemas financeiros, correndo o risco de ser despejado de seu apartamento na cidade. Dean não se comoveu, então Rogers resolveu lhe pedir dinheiro emprestado diretamente, já que ele estava em ascensão em Hollywood e grana certamente não lhe faltava. O pedido de ajuda de seu ex-namorado surpreendeu James Dean. De forma áspera acabou respondendo que não iria lhe emprestar dinheiro, por um motivo muito simples: "As putas não devem pagar e sim os clientes!". O comentário rude por parte de Dean foi imediatamente entendido por Rogers, afinal em muitas ocasiões enquanto dividiam o mesmo teto no passado, Dean havia lhe dito que não passava de ser sua puta particular. Depois da baixaria Dean resolveu então ir embora.

Esse modo de agir não seria encarado como uma novidade entre pessoas que conviviam e eram do círculo de amigos de Dean em Nova Iorque. Ele agia muitas vezes de forma rude, sem meias palavras. Quando voltou a Nova Iorque ele prontamente foi bombardeado por telefonemas de amigos que havia feito em seus tempos de Actors Studio. Vários deles estavam desempregados, trabalhando como garçons ou mensageiros de hotel para sobreviver. Muitos procuravam por uma forcinha por parte de Dean para arranjar trabalho na costa oeste. Quem sabe ele não poderia lhes arranjar algumas pontas ou personagens em filmes da Warner Bros... O ator porém deixou bem claro que não iria arranjar papéis para ninguém e nem arranjaria pontas ou algo parecido em filmes de Hollywood. "Não vou arranjar trabalho para ninguém!" - desabafou quando encontrou Dizzy, uma de suas melhores amigas em Nova Iorque.

Dizzy era uma garota na faixa de seus 23 anos que tinha criado um vínculo muito forte com Dean. Ela tinha estudado para ser atriz, mas depois se encantou com as artes plásticas e vivia em Nova Iorque vendendo seus quadros para galerias de arte especializadas em jovens artistas. Nos fins de semana ganhava uns trocados se apresentando em companhias de dança da cidade. Para Dizzy as artes eram essenciais como a própria respiração e por isso ela procurou estudar todas elas. James Dean a adorou desde a primeira vez que conversaram. De fato foi a grande amiga de Dean em Nova Iorque até sua morte. A aproximação logo se tornou irresistível para Dizzy, mas Dean a confrontou dizendo: "Querida, eu adoro estar ao seu lado, mas isso não quer dizer que queira ser seu namorado. Espero que entenda isso. Eu iria magoar você, tenha certeza disso. Eu gosto de meninas, mas também de meninos. Não quero que você sofra por isso". Dizzy foi uma das poucas pessoas que Dean falou abertamente sobre sua bissexualidade. Ele gostava tanto dela como amiga que resolveu deixar tudo claro para evitar maiores mal-entendidos. Foram amigos até o fim da vida de Dean.

James Dean - Hollywood Boulevard - Texto IV
Uma das histórias mais curiosas da carreira do ator James Dean foi sua aproximação com Vampira (nome artístico de Maila Nurmi). Para se destacar em Hollywood na década de 1950 era necessário se criar toda uma personagem em torno de si, assim provavelmente algum produtor iria se interessar. Maila, uma atriz desempregada, assumiu o papel de Vampira por sugestão do marido. Havia uma série de filmes de terror e ficção sendo realizados por pequenos e grandes estúdios e assumir uma caracterização ao estilo de Vampira viria bem a calhar para ser escalada nesses filmes. Obviamente que era tudo um jogo de cena, um ato de marketing para angariar papéis. Maila ia caracterizada como Vampira aonde quer que fosse e foi assim que chamou a atenção do novato James Dean. O ator gostava muito de freqüentar um café que ficava na esquina da Sunset Boulevard em Hollywood. E foi lá que topou pela primeira vez com Vampira.

Dean que gostava de agir e se vestir de forma pouco convencional levou um tremendo susto ao ver aquela mulher alta, toda vestida de preto, fortemente maquiada e caracterizada. Sem pensar duas vezes foi até ela puxar assunto. Ao que tudo indica Dean não matou a charada logo de cara e ficou convencido que Maila fosse devota de alguma seita satânica ou algo do gênero. No bate papo James Dean foi logo avisando que estava “em busca de forças demoníacas”, pois queria conhecer a fundo alguma seita satânica. Vampira obviamente achou sua abordagem muito estranha pois não sabia se ele estava tirando uma onda dela ou se falava sério. Era normal para Dean agir assim, de forma esquisita e pouco comum. De uma forma ou outra o assunto fluiu muito bem e em pouco tempo ambos estavam se considerando grandes amigos. “Ele tinha as mesmas neuroses que eu” – explicou anos depois a atriz. Dean também mostrou muito interesse no universo de filmes de terror, principalmente os estrelados por Boris Karloff, ator que adorava, mas sabia que essa não era bem sua praia – “A Warner nunca me deixaria fazer um filme desses”, explicou.

Ao longo de meses a aproximação de Dean e Vampira evoluiu para um breve flerte casual. Era um caso amoroso do tipo “chove não molha”. Dean se aproximava, ficavam juntos alguns dias e depois o ator desaparecia por semanas, sem dar notícia. Vampira lembra que Dean passava por problemas emocionais na época. “Ele estava apaixonado por Píer Angeli mas a mãe da garota não gostava dele. Dean também não colaborava muito para ser aceito pois continuava o mesmo, sem se passar de bom moço”! Após várias idas e vindas finalmente Dean rompeu com Vampira pela imprensa. Foi uma completa surpresa para ela. Usando da coluna de fofocas de Hedda Hooper ele declarou que Vampira “não passava de uma farsa!”. A atriz também não deixou barato dizendo que James Dean “ficava com qualquer um” (uma óbvia referência ao seu bissexualismo). Segundo Vampira, Dean participou de uma animada festa gay em Malibu na noite anterior à sua morte em um acidente de carro. O ator também seria conhecido em certos redutos gays como “o cinzeiro humano” pois gostava que seus amantes apagassem seus cigarros em seu braço! Resta saber se esse tipo de afirmação era apenas um ato de vingança ou um fato real. Quem pode saber a verdade?! De qualquer modo uma coisa é certa: poucas vezes se viu na história de Hollywood um casal tão incomum quanto James Dean e Vampira, eles eram certamente excêntricos e bizarros e combinavam perfeitamente em sua esquisitice!

A Bissexualidade de James Dean
Quando James Dean chegou na grande cidade vindo de uma cidadezinha do interior de Indiana ele alimentava o sonho de ser um grande ator. O que Dean não sabia é que havia centenas de milhares de jovens que tinham exatamente o mesmo sonho. Nos testes para filmes e peças sempre havia uma multidão de novatos querendo um lugar ao sol. Dean não conseguia trabalho e em pouco tempo se viu em situação bem ruim do ponto de vista financeiro. O aspirante não tinha parentes importantes no meio cinematográfico e nem qualquer tipo de influência com produtores que lhe dessem uma chance. No meio dessa fase complicada Dean conheceu Rogers Brackett. Esse tinha tudo o que faltava a Dean naquele momento. Era bem relacionado, circulava na alta roda dos chefões de estúdio e poderia facilmente facilitar a vida de um jovem como James Dean.

Só havia um detalhe: Brackett era gay! Obviamente não iria ajudar qualquer um a troco de nada. Ao conhecer James Dean ele o achou muito pouco polido, com gestos rudes e sem sofisticação mas achou também o ator muito bonito e de visual atraente. Jogou a isca e Dean a agarrou. Ele certamente sabia o jogo que estava prestes a jogar. Em troca de favores sexuais ele almejava que Brackett o ajudasse de alguma forma dentro da indústria. Os resultados não tardaram a vir. Em pouco tempo James Dean foi escalado para um comercial da Pepsi Cola (Brackett era muito influente no ramo publicitário). Dean não pensou duas vezes e foi morar com Brackett. Ao seu lado passou a frequentar a alta roda, a circular entre tubarões do meio, tudo como mandava o figurino na época. Havia um jogo de sexo e poder em voga e James Dean o jogou em prol de seus interesses profissionais e pessoais.

Depois de se aproximar de Rogers e ficar conhecido as coisas começaram a acontecer para Dean. Após alguns meses ele conseguiu o contrato de sua vida com a Warner Brothers. Os personagens sem expressão ficariam para trás, agora ele teria chance de mostrar seu talento. Duas considerações porém devem ser feitas nesse momento. James Dean não se tornou o mito que foi apenas por causa dessa estória de alcova nos bastidores de sua carreira. É certo que Rogers teve enorme influência para que o ator ganhasse seus primeiros grandes papéis mas a partir daí ele só se firmou por seu talento pessoal, única e exclusivamente. Outro ponto é que Dean não parecia ser gay por opção pessoal. Ele apenas usou o sexo para subir alguns degraus em sua carreira de ator. Sua orientação sexual parecia ser mais dirigida a mulheres mesmo pois foi com elas que ele se relacionou em nível mais profundo. Seus namoros com Pier Angeli e Ursulla Andress ficaram famosos. Ele era na realidade um bissexual de conveniência e um heterossexual por convicção.

De qualquer forma assim que se sentiu firmeza em seus novos filmes Dean tratou de despachar Brackett. Não quis mais aproximação e evitou até mesmo tocar em seu nome novamente. Dean certamente não era um santo e nem cultivava essa personalidade. Depois que morreu muito jovem, aos 24 anos, seu ex-namorado, amante e confessor revelou a um jornalista que estava profundamente arrependido em ter jogado fora as cartas de amor que Dean havia escrito para ele pois certamente valeriam uma fortuna depois que ele virou esse ícone do cinema. Pois é, Dean parece ter levado a máxima "Os fins justificam os meios" até as últimas consequências em sua vida.

James Dean: Um Ator Bissexual
James Dean era bissexual, com claro tendência a ter relacionamentos gays. Há muitos relatos de pessoas próximas o colocando em diversas festas gays em Los Angeles. Em Nova Iorque, a mesma coisa. São depoimentos demais para se ignorar. Dean também havia morado alguns meses com um executivo da TV em NYC. O nome dele era Rogers Brackett. Quando Dean morreu ele declarou: "Eu me arrependo de ter jogado fora as cartas de amor que Dean escreveu para mim por todo esse tempo. Eu perdi muito dinheiro jogando aquele material fora! Em um bom leilão iria ganhar muito!".

Outros Filmes, Livros e Lembranças:

Sinfonia Prateada
A história é bem agradável. Samuel Fulton (Charles Coburn) é um dos homens mais ricos do mundo. Magnata da indústria percebe que sua vida está chegando ao fim e ele não tem a quem deixar sua fortuna milionária. Nunca se casou e nunca teve filhos, pois sua vida sempre foi focada no mundo dos negócios. Nesse momento lembra-se de uma antiga paixão, que já não vive mais. Resolve então transformar em herdeiros a filha e os netos de seu amor do passado, mas antes disso resolve ir conhecer a todos pessoalmente. Se fazendo passar por um velho artista aposentado, vivendo de empregos medíocres, chamado John Smith, ele se hospeda na casa da família para entender se eles merecem mesmo se tornarem seus herdeiros após sua morte. A experiência mudará a vida de todos, mas principalmente a do velho milionário.

"Sinfonia Prateada" é um primor. Dirigido por Douglas Sirk, o filme reúne um ótimo elenco, aliado a uma produção muito bem realizada, embalada por uma estória cativante. Sirk realizou uma fina comédia de costumes, onde mostra que dinheiro e riqueza podem apenas revelar o verdadeiro caráter das pessoas, mas nunca mudar sua verdadeira essência. O milionário que se faz passar por pobre velhinho sem ter onde cair morto é um achado. Interpretado excepcionalmente bem pelo talentoso Charles Coburn, ele é a alma da produção. Em determinado momento resolve testar a verdadeira personalidade da família que está conhecendo (e estudando) para ver como eles se comportam como novos ricos. Doa 100 mil dólares para observar como aquela família reage com um dinheiro desses. Claro que a partir desse momento tudo muda. A família que era unida e muito humana se torna vaidosa, dada a exageros, indo parar na pura cafonice. John Smith, claro, assiste tudo sem revelar sua verdadeira identidade.

 Uma das melhores coisas de "Sinfonia Prateada" é seu elenco. A começar pelos figurantes - isso mesmo! Imagine que numa ponta não creditada temos nada mais, nada menos, do que o mito James Dean em cena! Foi uma das primeiras oportunidades que teve em Hollywood. Ele interpreta o pequeno papel de um jovem desmiolado que pede um complicado sundae para John Smith, naquela altura de seu disfarce trabalhando como balconista de uma pequena mercearia. São poucos minutos em cena mas que entraram para a história do cinema. Já outro astro, Rock Hudson, faz o papel de um pobretão que quer casar com a doce Millicent Blaisdell (Piper Laurie), mas vê suas chances diminuírem consideravelmente após perceber que ela ficou rica da noite para o dia! Embora todos os jovens atores estejam marcantes de uma forma ou outra, temos que admitir que o filme pertence mesmo ao veterano Charles Coburn, que está realmente arrasador em seu personagem - que aliás é o principal de todo o enredo. Em suma, "Has Anybody Seen My Gal" é realmente uma delícia de filme. Encantador, charmoso e nostálgico, é aquele tipo de obra que nos deixam mais leves e felizes no final da exibição.

Sinfonia Prateada (Has Anybody Seen My Gal, Estados Unidos, 1952) Estúdio: Universal Pictures / Direção: Douglas Sirk / Roteiro: Joseph Hoffman, Eleanor H. Porter / Elenco: Piper Laurie, Rock Hudson, Charles Coburn, James Dean, Gigi Perreau / Sinopse: Velho milionário decide "testar" uma família de sua cidade para saber se eles seriam dignos de herdar sua grande herança.

Título no Brasil: A História de James Dean
Título Original: The James Dean Story
Ano de Produção: 1957
País: Estados Unidos
Estúdio: Warner Bros
Direção: Robert Altman, George W. George
Roteiro: Stewart Stern
Elenco: James Dean, Lew Bracker, Martin Gabel, Dennis Hopper, Arlene Martel, Lili Kardell

Sinopse:
Documentário filmado na pequena cidadezinha onde viveu James Dean no interior de Indiana. O diretor Robert Altman foi atrás de parentes, amigos e conhecidos do famoso ator, para colher depoimentos deles sobre o falecido artista. Com base nisso criou um retrato do mais famoso jovem rebelde da história de Hollywood, poucos anos depois de sua morte.

Comentários:
Eu achei realmente muito interessante esse documentário. O diretor Robert Altman teve uma ideia realmente genial. Ele pegou sua câmera, uma pequena equipe com poucas pessoas, um orçamento mínimo (o filme custou apenas 35 mil dólares) e foi para o interior de Indiana, na cidade de Fairmount. Ali ele procurou pelos parentes de James Dean para filmar seus depoimentos, preservando tudo, as memórias em seu filme. A Warner gostou tanto do resultado que resolveu comprar o documentário independente de Altman para exibir nos cinemas americanos na época. De bônus o estúdio resolveu colocar uma cena inédita do filme "Vidas Amargas". Uma raridade para os fãs. Anos depois o próprio diretor lamentou apenas o fato de que o pai de Dean não ter aceitado o convite para aparecer no filme. Ele ainda estava arrasado pela morte precoce do filho (que morreu em um acidente de carro com apenas 24 anos de idade) e por isso disse que não iria dar nenhuma entrevista para Altman. Mesmo assim, com essa lacuna, o filme é por demais interessante. Até pelo fato de ter preservado as opiniões e imagens da família de James Dean, uma vez que todos eles hoje em dia já estão mortos. Pelo resgate histórico é um filme que até hoje vale muito a pena conhecer e assistir.

James Dean - Reflexões de um Rebelde
James Dean sempre teve uma paixão em sua vida, falar ou escrever sobre reflexões de si próprio ou das pequenas nuances da sua existência. Seus rascunhos trazem uma visão bastante complexa para um jovem de apenas 24 anos. O ator em diversos momentos dos escritos fala de sua mãe Milred, dos seus amigos mais íntimos, das durezas de se tornar um ator e o caminho até chegar ao sucesso. Alguns dos pensamentos a seguir foram tirados de cartas e textos pessoais, outros de entrevistas. E aí Jimmy, o que foi que você disse mesmo?

"Talvez possa parecer loucura, egoísmo, ou algo parecido, mas acho que existe apenas uma forma de grandeza para o homem. Se um homem puder ultrapassar o abismo entre a vida e a morte, se conseguir viver depois que morreu, então, talvez tenha sido um grande homem. Quando falam sobre sucesso, falam sobre chegar ao topo. Bem, na minha opinião não há topo. É preciso continuar sempre, nunca parar em ponto nenhum. Para mim, o único sucesso, a única grandeza para o homem, é a imortalidade.”

“Ter o trabalho lembrado na história, deixar alguma coisa nesse mundo que dure séculos... Isso é grandeza! Quero crescer longe do mundo mesquinho que existimos. Quero deixar tudo para trás, todas as coisas mesquinhas sobre assuntos frívolos, coisas que estarão completamente esquecidas daqui a 100 anos, de qualquer forma.”

“Existe um nível, acima do qual tudo é sólido e importante. Tentarei chegar lá e encontrar um lugar perto da perfeição, um lugar onde todo esse mundo confuso deveria estar, e poderia estar, se tivesse tempo de aprender."

"Representar é para mim a maneira mais lógica de me livrar das minhas neuroses. Os atores representam para expressar suas fantasias e os fantasmas de que são prisioneiros"

"Minha mãe morreu deixando tudo nas minhas costas"

"Aprendi desde cedo que um dos impulsos mais profundos do ser humano é o desejo de ser apreciado, a vontade de ser amado, estimado, e ser uma pessoa procurada"

"Gosto dos animais porque me aceitam tal como sou. Ou gostam ou não gostam de nós, mas nunca nos julgam"

"Ao volante me sinto uma estrela, mas com preocupações aterradoras. Por isso devo todas as minhas vitórias à minha ansiedade"

"É próprio do homem ser prisioneiro de miragens que estão fora de seu alcance"

"Não entendo como as pessoas conseguem ficar na mesma sala que eu. Sei que eu não agüentaria a mim mesmo"

"Acho que não existe nada que não se consiga fazer quando a gente se dedica completamente. A única coisa que impede as pessoas de conseguirem o que elas querem, são elas mesmas. Elas colocam muitas barreiras no caminho. É como se tivessem medo de serem bem sucedidas. De uma certa forma, acho que sei porquê. Existe uma quantidade enorme de responsabilidades que vem com o sucesso, e quanto maior o sucesso, maior a responsabilidade. As pessoas não querem este tipo de responsabilidade”

"Existem algumas coisas na vida que simplesmente não podemos evitar, atraímos nosso próprio destino... fabricamos nossa sorte"

Filmografia - James Dean
Baionetas Caladas (1951) ★★★ 
O Marujo Foi na Onda (1952) ★★
Sinfonia Prateada (1952) ★★★ 
Vidas Amargas (1955) ★★★★ 
Juventude Transviada (1955) ★★★★ 
Assim Caminha a Humanidade (1956) ★★★★ 

Comentários:
Reza a lenda que James Dean fez apenas 3 filmes no cinema. Bem, essa informação está errada. Na realidade, ele participou de 6 filmes. Em 3 deles não teve qualquer chance de representar ou ter um papel maior. Ora surgia como figurante, ora surgia como um coadjuvante de terceiro escalão. Apenas nos 3 últimos filmes é que realmente entrou no centro do palco. São os filmes definitivos de sua carreira. Os 3 últimos filmes são clássicos imortais de Hollywood. Infelizmente, como todos sabemos, ele morreu com apenas 24 anos de idade, em um acidente na estrada de Salinas, na Califórnia. Seu legado para sempre será esses poucos clássicos do cinema. Filmes obrigatórios para qualquer cinéfilo que se preze.

Avaliação / Cotações:
★★★★ Excelente
★★★ Bom
★★ Regular
★ Ruim

James Dean - Life
Esse filme "Life" que assisti recentemente me fez pensar como o mundo da arte tangencia a imortalidade. Pense um pouco. James Dean morreu há tanto tempo que fica até mesmo complicado entender porque as pessoas ainda se lembram dele, de que algum dia ele veio a existir... A resposta para esse tipo de pergunta é muito simples: a arte imortalizou James Dean assim como imortalizou Elvis, Lennon, Marilyn e tantos outros. Só a arte tem essa capacidade de eternizar a imagem de um artista. Tudo o mais é corroído pelas areias do tempo.

E o mais interessante de tudo é que o foco do filme não se resume a explorar o James Dean das telas, mas também o ator que ficou imortalizado em uma série de fotos que foram produzidas até sem pretensão, mas que hoje em dia valem uma verdadeira fortuna (obviamente estou me referindo não apenas aos originais como também aos licenciamentos de seu uso em produtos em geral como camisas, revistas, etc). E pensar que o fotógrafo Dennis Stock só estava interessado mesmo em quem sabe a Life se interessar por seu trabalho para ganhar uns trocados. Desempregado, pai de família, a vida não andava nada fácil para ele. Hoje seus herdeiros vão muito bem, obrigado, graças às fotos que tirou de James Dean.

Nos Estados Unidos o espólio de Dean fatura cerca de 6 a 8 milhões de dólares ao ano. Claro que essa grana toda não vem da venda de seus filmes, embora pequena parte provenha realmente disso. O grosso do dinheiro vem porém principalmente do uso de sua imagem em licenciamentos. Tal como Marilyn Monroe, Dean também virou uma espécie de símbolo, de imagem máxima de um determinado comportamento - que no caso dele é a do jovem rebelde sem causa. Como morreu aos 24 ele também será eternamente jovem, pelo menos nas estampas de cadernos, camisas e peças de roupas. Por falar em roupas outro fato que contribui muito para que Dean continue sendo uma máquina de faturar milhões vem do fato dele ser sempre usado em peças publicitárias do mundo da moda, o que não deixa de ser uma ironia pois Dean sempre fora criticado em vida justamente por se vestir de forma desleixada.

Em sua rotina Dean usava um jeans surrado (a calça de todo trabalhador da América) e camisas brancas, bem básicas. Esse aliás acabou virando o uniforme de praticamente todo o rebelde dos anos 50. E havia também o topete, esse imortal. O próprio Elvis se inspirou nele para também usar um dos penteados mais duradouros do século XX. E o curioso de tudo é que Dean já demonstrava que ficaria careca com os anos já que tinham grandes entradas em seu cabelo. Claro que isso nunca aconteceu pois ele morreu jovem e para os que partem cedo sempre fica a eternidade da beleza jovial, preservada para todo o sempre.

Life
Hollywood, 1955. Dennis Stock (Robert Pattinson) é um fotógrafo freelancer que ganha a vida tirando fotos de atores e atrizes famosos. Numa festa ele acaba conhecendo casualmente James Dean (Dane DeHaan), um jovem ator de Nova Iorque, ainda desconhecido do grande público, prestes a ter seu primeiro filme de repercussão a estrear nas telas, "Vidas Amargas". Eles se tornam amigos e próximos e Stock sugere a Dean que ele participe de uma sessão de fotos casuais, de seu cotidiano, pois Stock tentará vender elas para a famosa revista Life. Assim ambos ganhariam, Stock teria uma chance de renda extra e Dean poderia colher alguns frutos com a publicidade da publicação das fotografias. Após hesitar um pouco, Dean aceita a oferta e junto a Stock parte para sua terra natal, Indiana, onde o fotógrafo pretende tirar as melhores fotografias do jovem aspirante a astro do cinema.

Pela história eu já teria todos os motivos para gostar desse filme. O tema é o encontro entre James Dean e o fotógrafo Dennis Stock, que juntos criaram algumas das fotos mais mitológicas da Hollywood clássica em sua era de ouro. Como não conhecer as fotos de Dean andando debaixo da chuva em Times Square? São fotos que ajudaram a criar o mito em torno dele. O curioso é que durante anos as fãs de Robert Pattinson o compararam a Dean, mas aqui ele resolveu interpretar não o lendário rebelde, mas sim o sujeito cheio de dívidas que resolveu tirar as famosas fotos do ator, símbolo máximo da rebeldia no cinema. O Dean que surge no enredo é apenas um jovem desconhecido, com um único filme a estrear, que tem que lidar com a fama prestes a explodir. O ator que interpreta Dean exagera um pouco na dose. O ator não é bem caracterizado porque parece estar o tempo todo afetado, cigarro na boca, cara de tédio extremo. Não existem momentos espontâneos, não parece uma pessoa real. O grande atrativo mesmo é mostrar momentos íntimos de seu namoro com Pier Angeli, o fim do romance e a fossa que Dean viveu após ela resolver se casar com o cantor Vic Damone. Ficou interessante, sem dúvida. Já Pattinson continua apático, o que sempre estraga de certa maneira os filmes de que participa. Mesmo assim, com esses pontuais problemas, é aquele tipo de filme irresistível para qualquer cinéfilo. A história contada é simplesmente cativante demais para se ignorar.

Life (EUA, Canadá, 2015) Direção: Anton Corbijn / Roteiro: Luke Davies / Elenco: Robert Pattinson, Dane DeHaan, Alessandra Mastronardi, Ben Kingsley, Peter Lucas / Sinopse: Dennis Stock (Robert Pattinson) é um fotógrafo desempregado, vivendo de bicos, que vê uma oportunidade de ganhar uma grana extra ao tirar fotos de um jovem ator desconhecido chamado James Dean (Dane DeHaan). Ele estava prestes a se tornar o maior mito rebelde da história do cinema americano de todos os tempos.

Pablo Aluísio.