O Acidente de Montgomery Clift
Em 1956 Montgomery Clift estava filmando ao lado da amiga Elizabeth Taylor a produção "A Árvore da Vida". Para celebrar Liz convidou Monty a um jantar em sua casa. A recepção seria realizada por ela e seu marido na época, Mike Wilding. Montgomery Clift já vinha com problemas envolvendo bebidas. Ele estava bebendo cada vez mais, ao ponto até de interferir em sua vida profissional e em eventos sociais como aquele abusava ainda mais do copo. O jantar foi muito festivo, além de Elizabeth Taylor havia outras estrelas de cinema na ocasião, como Rock Hudson. Monty parecia animado e alegre durante a festa, algo que estava se tornando cada vez mais raro.
Tarde da noite, entrando pela madrugada, finalmente o ator resolveu ir embora. Ele estava completamente embriagado mas como havia chegado sozinho em seu carro pretendia voltar também dirigindo ele próprio seu veículo. A questão era que pelo seu estado de embriaguez não havia muita possibilidade de algo assim dar certo. Bebida e volante nunca combinam. Para piorar a estrada que levava à casa de Elizabeth Taylor era sinuosa e mal iluminada. Primeiro partiu Kevin McCarthy, um dos convidados de Liz e logo em seguida saiu Monty. Numa das primeiras curvas Kevin olhou pelo retrovisor e ainda conseguiu ver o carro de Montgomery Clift saindo pela tangente da pista, indo de encontro a um poste telefônico. A batida foi certeira. O automóvel ficou em frangalhos e o ator estava severamente ferido.
Ao ouvir o barulho da batida Elizabeth Taylor saiu em disparada para o local do acidente. Monty estava encoberto por um banho de sangue. Sem cinto de segurança seu rosto foi de encontro ao volante e partes do para-brisa cortaram seu rosto. A situação era bem grave. Logo uma ambulância foi chamada e ele foi levado ao hospital. Seus ferimentos foram graves e atingiram vários nervos faciais, o que para um ator era uma notícia terrível pois sua capacidade de expressão ficaria comprometida. A produção do filme que estava participando foi suspensa e Monty passaria os meses seguintes sofrendo severas dores de cabeça decorrentes da grande pancada que sofreu. Para amenizar as dores começou a tomar grande quantidade de drogas pesadas, além de aumentar seu consumo de bebidas. Depois do acidente Montgomery Clift jamais foi o mesmo. Entrou em quadro de depressão e começou a lentamente se auto destruir.
Para piorar ele que sempre era considerado um dos atores mais bonitos do cinema começou a enfrentar problemas para arranjar novos trabalhos, uma vez que seu rosto agora exibia diversas cicatrizes que nem os melhores maquiadores conseguiam esconder. Além da queda de sua aparência física havia outros problemas sérios, como uma constante dor de cabeça que nunca o deixava em paz. Isolado e sofrendo ele começou um caminho sem volta. De fato essa terrível fase de sua vida acabou sendo conhecida como o "mais longo suicídio da história de Hollywood". Ele morreria precocemente em julho de 1966, sem nunca ter superado esse trauma em sua vida.
Pablo Aluísio.
Elizabeth Taylor e Montgomery Clift
É interessante notar que Liz Taylor foi amiga de praticamente todos os grandes ídolos do cinema de sua época. Nutria sincera amizade com James Dean, Marlon Brando e Rock Hudson. Era de fato uma pessoa mestre em transformar colegas de trabalho em amigos próximos de longa data. Com Montgomery Clift não foi diferente. Clift foi um dos vértices da trindade sagrada de atores dos anos 1950, formada ainda por Brando e Dean. Se diferenciava deles por ter uma personalidade muito mais reservada, torturada e gentil. Enquanto Dean era associado com delinquentes juvenis e Brando encarnava toda a rebeldia rude de seu tempo, Clift era discreto, tímido e muito na dele. O que ligava os três atores era o fato de serem considerados os mais promissores atores jovens de sua geração, além de possuírem um talento nato lapidado no Actors Studio de Nova Iorque.
A amizade de Montgomery Clift com Elizabeth Taylor foi longa e muito verdadeira. Isso porque não demorou muito para Liz se colocar na posição de conselheira pessoal e íntima de Clift, algo que os anos provariam não seria nada fácil. Monty tinha muitos problemas emocionais em sua vida privada. Não conseguia se acertar com nenhuma garota por longo tempo (o que daria origem a infundadas fofocas de que era gay) e tampouco conseguia superar seus problemas de alcoolismo e depressão. O relacionamento com o pai também era fonte de vários problemas. O estilo refinado e educado do ator também lhe trazia algumas dificuldades de relacionamento na terra do exibicionismo barato que era Hollywood.
Segundo várias biografias no começo de tudo Montgomery Clift realmente deu vazão a uma paixão platônica em relação a Elizabeth Taylor. Isso ficou bem evidente no set de filmagens de "Um Lugar ao Sol". Não é de se admirar pois Liz e Clift era jovens radiantes, estavam subindo os degraus do Olimpo em Hollywood e viviam negando para a imprensa que havia um romance entre eles. De fato não havia, muito por causa da falta de coragem por parte de Clift em avançar o sinal e tentar algo com sua parceira de cena. Liz poderia ceder, mas ela tinha uma personalidade tão ofuscante que Clift se viu na sombra dela rapidamente. Para não perder sua amizade resolveu não arriscar. Afinal de contas se tentasse consumar um romance com ela e não desse certo, certamente perderia sua amizade.
Com o passar dos anos Montgomery Clift foi ficando cada vez mais absorvido em si mesmo, em seus problemas. Liz foi testemunhando sua queda lentamente. Mesmo assim resolveu ficar o mais perto possível do ator, tentando colocar ele de volta ao bom caminho. E foi justamente após uma festa em sua casa que Clift sofreu um terrível acidente de carro, por estar dirigindo completamente embriagado. O acidente deformou parte de seu rosto e praticamente destruiu sua carreira em Hollywood. Foi justamente Liz que tentou escalar Clift em vários filmes seus após esse acidente, justamente para que ele não ficasse desempregado e nem deprimido em sua casa.
Esse ato fez com que Montgomery Clift ficasse tão próximo a ela que mais parecia um irmão mais jovem da atriz. Infelizmente nada disso evitou a morte precoce de Montgomery Clift em julho de 1966 em Nova Iorque. Ele tinha apenas 45 anos mas uma vida de excessos havia cobrado seu preço e Monty mais parecia um velho ao morrer. Tinha fortes dores de cabeça em decorrência da batida de seu carro e tentava controlar tudo com forte medicação e muita bebida. Essa mistura explosiva acabou com o restante de sua saúde. Para Clift a morte acabou sendo um alívio de seus demônios pessoais. A tragédia deixou a atriz abalada e ela procurou resumir o amigo de uma forma bem carinhosa ao se referir a ele como "uma alma bondosa e terna".
Pablo Aluísio.
Montgomery Clift - O Pequeno Aristocrata
Edward Montgomery Clift nasceu em uma família aristocrata de Omaha, Nebraska, a mesma cidade que deu ao mundo outro gênio da atuação, Marlon Brando. Entre os dois atores haveria sempre uma coincidência de destinos. Eles nasceram na mesma década (Clift em 1920 e Brando em 1924) e na mesma cidade. Durante os anos 1950 se tornariam grandes astros do cinema americano, elogiados por suas grandes atuações nas telas. Apenas as origens sociais eram diferentes. Enquanto Montgomery Clift nasceu no lado rico de Omaha, em uma família bem tradicional da cidade, Brando era apenas o filho de um caixeiro viajante, membro de uma família bem disfuncional que vivia no lado pobre de Omaha, do outro lado da linha do trem.
Mesmo assim o destino e a sétima arte os uniriam, até mesmo porque a riqueza da família Clift seria tragada por causa da grande depressão que arrasaria a economia americana em 1929, durante a quebra da bolsa de valores de Nova Iorque. O pai de Monty, um rico especulador de ações, perderia praticamente tudo com a crise. Arruinados financeiramente, a família Clift mudou-se então para Nova Iorque, deixando o meio oeste durante os anos 1930. Essa mudança de cidade iria também mudar para sempre o destino de Montgomery Clift. Criado para ser um dândi da elite de Nebraska, ele precisou rever seus conceitos na grande cidade, na grande Maçã, como Nova Iorque era conhecida.
Ao invés de estudar em colégios privados tradicionais ele foi parar em uma escola pública do Brooklyn. Monty que sempre havia estudado com jovens ricos e bem educados de Omaha, se viu de repente no meio de um pessoal mais barra pesada, que partia para a briga nos intervalos. Nova Iorque era realmente uma selva e para sobreviver por lá o jovem Monty precisou se impor, não por meio de sua educação refinada, mas sim pela força dos punhos. Sem dúvida foi uma mudança brutal, de um meio aristocrático, para um realidade bem mais pé no chão.
Em meio a tantas mudanças algo no novo colégio mudaria para sempre sua vida. Ele se apaixonou pelo teatro. O departamento teatral da escola era muito bom, muito original, um ambiente que valorizava o talento dos alunos que mostravam o interesse pela arte de interpretar. Monty foi fisgado desde os primeiros dias. Ele sabia que Nova Iorque era um dos lugares mais efervescentes do mundo em termos teatrais. Havia muitas peças sendo encenadas na Broadway e no circuito Off-Broadway. As oportunidades estavam em todos os lugares. Vendo que poderia arranjar trabalho no meio teatral da cidade ele se empenhou nas peças escolares em que atuou. Seu objetivo era ganhar experiência para partir para a Broadway, até porque trabalhar havia se tornado uma necessidade em sua casa, pois seu pai enfrentava muitas dificuldades para arranjar um emprego.
Pablo Aluísio.
Montgomery Clift: Além do Sexo!
Durante muitos anos se especulou sobre a verdadeira sexualidade do ator Montgomery Clift. Recentemente o assunto voltou à tona pois um ex-gigolô em Hollywood lançou um livro supostamente mostrando a vida sexual de astros de cinema durante as décadas de 40, 50 e 60. Clift é um dos enfocados. O autor provavelmente não se deu muito bem com o ator e talvez por isso tenha escrito uma imagem nada lisonjeira dele nas páginas do livro. Mont é retratado como um esnobe, um sujeito cheio de "não me toques". Curiosamente apesar de ter sido esnobado por Clift o autor do livro garante que ele era gay! Mas com que provas? De fato a alcunha de esnobe em relação a Clift não me surpreende. Ele era uma pessoa discreta, tímida na vida privada. Geralmente os tímidos são confundidos com esnobes. Não faz diferença. O fato é que Clift teve uma vida sexual das mais discretas em Hollywood. Tentativas de tachá-lo de gay nunca tiveram comprovação inequívoca. Na realidade não são poucos os que acham que ele na realidade era assexuado (uma definição que só há pouco tem se tornado mais comum).
Montgomery Clift realmente não era visto com mulheres em sua passagem por Hollywood. Ator consagrado de teatro resolveu ir para a capital do cinema atraído pelos bons cachês. Mesmo assim nunca se considerou um membro ativo daquela comunidade. Pouco ia a festas e eventos sociais e procurava manter sua privacidade a todo custo. Tanta discrição acabou despertando suspeitas. Como não era visto com mulheres em público logo se começou a especular se era gay. O interessante é que ao contrário de outros gays famosos em Hollywood, como Rock Hudson, por exemplo, tampouco existem testemunhos de algum ex amante do astro. O que parece ter realmente acontecido foi um simples desinteresse sexual por parte de Montgomery Clift, seja por homens, seja por mulheres. Era neutro ou como se diz atualmente, assexuado, desinteressado por sexo.
Clift tinha grandes paixões platônicas geralmente por mulheres. Sua paixão não realizada por Elizabeth Taylor era conhecida. Taylor sempre casando e descasando nunca deu uma chance para Mont e o considerava apenas um grande amigo. Equivocadamente ela pensava que ele era gay mas tampouco chegou a ver ele com qualquer homem em todo o tempo que conviveu ao seu lado. A eterna solteirice de Clift incomodou inclusive seu pai.
Confrontado o ator simplesmente explicou: "Minha vida já é complicada demais sem outra pessoa, por isso não me envolvo mais seriamente com alguém. Mesmo assim darei 10 mil dólares a qualquer um que comprove que não gosto de garotas". Depois que sofreu um grave acidente de carro Montgomery Clift ficou ainda mais recluso e retraído. Sentindo fortes dores de cabeça e sofrendo com as consequências do acidente as chances de sair para cortejar com qualquer pessoa, seja homem ou mulher, ficaram nulas. Clift morreu solteirão e carregando uma injusta fama de homossexual quando na verdade ele simplesmente parecia estar além do sexo.
Pablo Aluísio.
Montgomery Clift - Reflexões de um Ator
As pessoas de Hollywood criaram um certo preconceito contra atores de Nova Iorque. Mal você entra no set de filmagens e os cochichos começam como se estivessem dizendo "Lá vem aquele sabichão que pensa saber tudo sobre atuação". É cansativo. De minha parte procuro apenas fazer o melhor trabalho sem pisar nos calos de ninguém. Não quero ensinar a absolutamente ninguém como atuar melhor. Cada um teve sua própria escola de vida e não serei eu que irei falar como se atua em cada cena. Ser formado no Actor´s Studio joga uma imagem em cima de você. As pessoas pensam coisas erradas de mim. Não sou um sabichão e tampouco quero dizer o que se deve ou não fazer em um filme. Cada um que procure o que é melhor para si mesmo.
A maior diferença que vejo entre atores de Nova Iorque e os daqui da Califórnia é que lá temos uma visão um pouco maior do que seria a arte da atuação. Em Hollywood as coisas funcionam sob uma mentalidade comercial, de indústria mesmo. Em Nova Iorque queremos apenas aprofundar nossas próprias capacidades dramáticas, seja no palco, seja nas telas de cinema. Há uma compreensão diferente do que é ser ator. Eu amo o teatro. Fiz muitas peças importantes em Nova Iorque, porém devo reconhecer que também é muito árduo. Um ator de teatro em Nova Iorque se apresenta duas vezes por dia, mais de dez vezes por semana. É muito estafante. Em Hollywood já fiz também vários filmes e não achei tão puxado. Há mais tempo para você descansar e aproveitar melhor a vida. Também temos aqui os melhores hotéis para se hospedar. Adoro os hotéis de Los Angeles. Se pudesse moraria em um até o fim da minha vida. Você não precisa se preocupar com nada e tudo está à mão. Ser ator em Nova Iorque significa alugar um pequeno apartamento no Brooklyn e torcer para chegar a tempo no horário certo da peça.
Eu trabalho como ator desde os 17 anos. Admito que estou cansado. Mesmo com tantos anos de experiência ainda tenho que lidar com diretores que não confiam muito em mim. O que supostamente eu deveria fazer para mostrar a eles que consigo atuar bem? Quando você é jovem os produtores não colocam fé em você. Quando você é mais velho todos pensam que você já era! É uma profissão dura! Você nunca parece ter a idade certa ou o tipo que os estúdios procuram. Para cada filme que você consegue ser escolhido há vinte testes onde você é descartado. Você entra para a audição e os caras, sentados em suas cadeiras, com enormes charutos na boca, dizem: "Você é muito baixo!" ou "Você é muito alto!". "Está gordo", "Está magro". Ser ator é viver jogando roleta russa. Tudo no final depende da pura sorte. Ser escalado para um filme significa que você terá dinheiro pelos próximos meses. Não ser escalado significa que você terá que contar com a ajuda dos amigos, ou então almoçar na ajuda humanitária da igreja católica da esquina.
Eu sempre mantive minha família longe da minha carreira de ator. Há muita fofoca em Hollywood. Isso é uma das coisas que mais odeio aqui da Califórnia. Todos parecem preocupados com fofocas! É muito primário e bobo para dizer a verdade. Eu não quero, por exemplo, que minha mãe seja entrevistada por essas revistas. O que ela poderia dizer? Que eu fui um lindo bebê? Quem se importa com algo assim? Eu devo ser avaliado pelos meus trabalhos, minhas atuações, não como levo minha vida particular. Quero ter bons filmes para atuar e belos diálogos para declamar, embora isso esteja cada vez mais raro de encontrar. Não tenho grandes amigos entre atores de Hollywood, mas admiro muito duas atrizes em particular. Elizabeth Taylor é uma delas. Ela é a única atriz com quem trabalhei que me deixava verdadeiramente motivado para contracenar. Uma estrela! A outra que merece meus elogios é Marilyn Monroe. É uma pessoa incrível, com grande sensibilidade.
Montgomery Clift.
Rio Vermelho (1948)
1. Red River (no Brasil, "Rio Vermelho") é considerado um dos grandes clássicos do western americano. Dirigido pelo mestre Howard Hawks e estrelado pelos mitos John Wayne e Montgomery Clift, , o filme é considerado o épico definitivo sobre a figura do cowboy dos Estados Unidos, no auge de sua atividade no século XIX.
2. A interpretação de Montgomery Clift no filme surpreendeu John Wayne que chegou a confessar numa entrevista que jamais poderia supor que ele fosse tão bom atuando. Na verdade Wayne não conhecia muito Clift e sua capacidade dramática. Pensando que se tratava de mais um ator de Nova Iorque ele ficou realmente surpreso com as qualidades do jovem Clift, a tal ponto que chegou a dizer que precisava melhorar mais por causa da "nova concorrência" que surgia no mercado.
3. O filme foi realizado em 1946, mas só chegou nas telas em 1948. A demora se deu por dois motivos básicos. Primeiro o diretor Howard Hawks foi extremamente criterioso na edição da versão final. Ele não queria um filme longo e também não desejava que faltasse algo importante na estória. Por essa razão teve que se empenhar em chegar em um ponto meio termo. O outro problema foi legal. O milionário excêntrico Howard Hughes entendeu que havia semelhanças demais com outro clássico "O Proscrito", o que fez atrasar ainda mais seu lançamento nos cinemas.
4. Pode-se dizer que John Wayne ficou um pouco intimidado pela presença de Clift. Ele tinha receios, segundo o roteirista Borden Chase, de que o filme lhe fosse roubado por Monty. Por essa razão Wayne tentou interferir na edição final da fita, algo que foi impedido por Hawks, o que acabou criando um mal estar entre ambos.
5. Houve um certo receio do estúdio de que John Wayne e Montgomery Clift não se dessem bem trabalhando juntos. Eles tinham posições políticas bem diferentes, com Wayne sendo um conservador e Clift um liberal, e não tinham medo de expor suas ideias para a imprensa. Isso fez com que o diretor Howard Hawks proibisse discussões sobre esses temas no set de filmagens. De uma forma ou outra essa censura e a tensão causada por ela fez com que Clift se recusasse a trabalhar novamente com Wayne quando foi convidado a atuar em "Onde Começa o Inferno".
6. Para parecer mais convincente na tela o ator Montgomery Clift resolveu se empenhar em um curso intensivo de equitação antes das filmagens começarem. Ele já havia montado antes, mas morando em Nova Iorque, ficou sem a experiência necessária. Durante três meses ele praticou equitação em um rancho perto de Los Angeles, sob supervisão do professor Noah Beery Jr. Quando começaram as filmagens Monty demonstrou ter intimidade com montarias, o que fez com que arrancasse um elogio de John Wayne ao dizer: "Você monta muito bem rapaz!".
Pablo Aluísio.
Montgomery Clift - Hollywood Boulevard - Texto I
Montgomery Clift sempre teve um relacionamento muito complicado com seu pai. Isso se referia à sua vida pessoal e profissional. O pai queria que Monty arranjasse um trabalho convencional, que estudasse para ser advogado ou médico. Monty não queria saber de passar sua vida dentro de um consultório ou escritório. Ele queria atuar. O pai achava que ser ator era algo completamente indigno, até vergonhoso. Atuação era coisa de prostitutas e vagabundos na mente dele. Monty porém via isso como uma visão grotesca e antiga, que sequer merecia comentários. Por isso resolveu ser ator em Nova Iorque. Estudar para isso.
Em relação à vida amorosa também havia muitos conflitos. O pai queria que ele se casasse, que formasse uma família. Monty detestava essa ideia. Na verdade ele não queria ser como seu pai, tendo uma vida completamente enfadonha, vivendo de migalhas em um casamento infeliz. Tão ruim era a ideia do casamento que Monty jamais se casaria. Ele adorava ser solteiro, explorar outras possibilidades. Além disso o que ele menos desejava era uma esposa mandona, que o controlasse. A vida de casado era completamente fora de seus planos. E obviamente isso o levou a ter brigas e mais brigas com o pai, até o dia em que o ator viu que era hora de morar sozinho. Ele alugou um apartamento em Nova Iorque foi à luta.
Depois de passar por um exame extremamente concorrido finalmente foi aceito no Actors Studio. Essa foi uma escola lendária de arte dramática, fundada por Elia Kazan e outros grandes professores e diretores, tanto de teatro como de cinema. Estudando e trabalhando em peças pela cidade, Monty foi firmando sua reputação como ator talentoso e profissional. Sempre era pontual nos ensaios e nunca esquecia suas falas. No Actors Studio conheceu Marlon Brando. O colega estava indo para Hollywood, após se consagrar nos palcos de teatro de Nova Iorque. Monty não tinha, pelo menos naquele momento, esse tipo de ambição. Ele queria antes se tornar um grande ator de teatro, para só depois, quem sabe, virar um ator de cinema.
Isso duraria pouco. Monty era um ator profissional e vivia de seu trabalho. Sempre que surgia uma boa proposta de trabalho ele tinha que levar em consideração. Em 1948 um produtor de Hollywood chamado Lazar Wechsler entrou em contato com a agente de Monty em Nova Iorque. Ele queria contratar o ator para atuar no filme "Perdidos na Tormenta" que seria dirigido por Fred Zinnemann. O cachê era excepcionalmente bom, o equivalente a quatro meses de trabalho duro como ator de teatro em Nova Iorque. Monty engoliu todas as reservas que tinha contra os filmes e pegou o primeiro avião para a costa oeste. Ele estava prestes a fazer seu primeiro filme na cidade, algo que definitivamente mudaria sua vida dali em diante.
Pablo Aluísio.
Montgomery Clift - Texto III
O primeiro filme de Montgomery Clift em Hollywood foi "Perdidos na Tormenta". Esse foi filme foi realizado em 1948, uma produção da Metro-Goldwyn-Mayer que tinha como tema o pós-guerra na Europa. Um tema muito adequado pois a II Guerra Mundial havia terminado apenas três anos antes. O diretor Fred Zinnemann queria trazer para o público americano a situação em que se encontrava os países europeus depois de um dos conflitos armados mais sangrentos da história. Foi uma excelente iniciativa pois capturava em tela a situação de Berlim, a antiga capital do III Reich de Hitler, agora reduzida a uma pilha de escombros depois dos intensos bombardeios dos aviões aliados. E foi justamente para esse caos que a equipe de filmagem foi enviada. Clift interpretava no filme um militar americano chamado Ralph Stevenson. Após o fim da guerra ele era enviado justamente para Berlim, onde acabava ajudando um garoto de origem tcheca a encontrar sua mãe.
Filmar ali foi uma grande experiência para o ator. Embora ele tivesse conhecimento de tudo o que havia acontecido na II Guerra, era algo bem diferente estar ali, bem no meio do povo alemão derrotado, tentando sobreviver de todas as formas. O filme também serviu como propaganda americana ao colocar soldados e militares dos Estados Unidos como pessoas prontas a ajudar os sobreviventes da guerra, os retratando como pessoas amigáveis e prestativas, militares honestos e de boa índole. Após seu lançamento o filme foi bastante elogiado, vencendo um Oscar numa categoria importante, a de Melhor Roteiro (prêmio dado aos roteiristas Richard Schweizer e David Wechsler). Além disso foi indicado ainda ao Oscar nas categorias de Melhor Direção e Melhor Ator, justamente para Montgomery Clift, que estreava assim com reconhecimento em Hollywood. Afinal ser indicado ao Oscar por seu primeiro filme era algo para poucos...
Após uma estreia tão bem sucedida Clift assinou contrato para trabalhar em mais um filme, dessa vez no estúdio United Artists. É interessante notar que a MGM ofereceu a Clift um contrato de sete anos e meio (o que era o padrão na época para grandes astros), mas o ator recusou, afirmando que queria ter toda a liberdade para escolher os filmes em que iria atuar. A United Artists havia sido fundada por atores, atrizes e artistas e tinha fama de produzir filmes mais voltados para a arte, ao invés da fábrica de lucros de outros estúdios, como a própria MGM, conhecida por ser uma das grandes majors da indústria cinematográfica americana.
O roteiro que havia atraído Clift daria origem ao filme "Rio Vermelho", considerado hoje em dia como um dos maiores clássicos de western de todos os tempos. Obviamente que Montgomery Clift, o ator de Nova Iorque, não tinha pretensões de virar um ídolo cowboy das telas. O que o levou a contracenar com o mito John Wayne, sendo dirigido pelo mestre Howard Hawks, foi realmente o inspirado roteiro, um épico sobre os verdadeiros cowboys americanos, um espécie em extinção. Fisicamente o filme iria exigir bastante de Monty, por isso ele passou por um treinamento antes de entrar no set de filmagens. Aprendeu a montar, cavalgar e usar o laço. Para um sujeito que nunca havia deixado Nova Iorque era realmente algo necessário. E ele não poderia fazer feio ao lado justamente de John Wayne, um ícone dos filmes de faroeste.
Pablo Aluísio.

Cinema Clássico
ResponderExcluirPablo Aluísio.