segunda-feira, 1 de dezembro de 2003

Conan Vs He-Man: A Espada e o Machado

Conan Vs He-Man: A Espada e o Machado
O vento de Eternia soprou estranho naquela manhã, como se o próprio mundo pressentisse a ruptura que se aproximava. As nuvens giraram em círculos sobre a planície de Grayskull quando uma fenda luminosa se abriu no ar, rasgando o céu como uma cicatriz viva. Dela surgiu um homem alto, de músculos marcados por cicatrizes antigas, barba escura e olhar endurecido pela guerra. Em sua mão direita, um machado pesado; na esquerda, apenas o punho fechado, sempre pronto para matar.

Conan, o cimério, caiu de joelhos no solo desconhecido. Levantou-se imediatamente, girando o corpo, avaliando o terreno como fazia desde jovem. Não havia muralhas, nem cidades, nem exércitos — apenas um mundo que parecia forte demais para ser fraco e calmo demais para ser seguro. Aquilo lhe bastava para desconfiar.

Pouco depois, o chão tremeu com passos firmes. Do alto de uma colina surgiu uma figura envolta em luz: He-Man, o campeão de Eternia, empunhando a Espada do Poder. Seus olhos se estreitaram ao ver o estrangeiro armado. Aquele homem não era servo de Esqueleto, mas trazia consigo algo igualmente perigoso: a aura crua de um predador.

— Estranho — disse He-Man, com voz firme —, você está em Eternia. Abaixe sua arma e diga quem é.

Conan respondeu apenas com um sorriso torto. Palavras raramente resolviam algo no mundo de onde vinha.

O primeiro golpe partiu de He-Man, não por ódio, mas por dever. A espada desceu em arco luminoso, capaz de dividir rochas. Conan rolou para o lado e respondeu com o machado, que encontrou a lâmina mágica com um impacto seco, poderoso, quase impossível. O choque ecoou pelo vale e fez as aves fugirem em pânico.

He-Man avançava como um deus guerreiro, cada golpe carregado de força sobrenatural. Conan resistia com técnica, instinto e uma fúria que não vinha de magia, mas de sobrevivência. O cimério não buscava justiça, nem proteger reinos — lutava porque viver era lutar.

A batalha se prolongou. O solo rachava sob os pés de He-Man; pedras eram lançadas ao ar quando Conan desviava por centímetros da morte. O machado do bárbaro não brilhava, não cantava — mas cada golpe era honesto, pesado, definitivo. Para Conan, um erro era morte. Para He-Man, era apenas um aprendizado. Essa diferença começou a pesar.

Em determinado momento, He-Man conseguiu lançar Conan contra uma formação rochosa. O impacto fez o cimério cair de joelhos. O campeão de Eternia ergueu a espada.

— Você é forte — disse He-Man —, mas este mundo não pertence à barbárie. Termine isso agora e pouparei sua vida.

Conan cuspiu sangue no chão e se levantou lentamente. Seus olhos ardiam.

— Já servi reis, já enfrentei monstros e já vi deuses sangrarem — respondeu. — Nenhum deles me ofereceu piedade.

O cimério avançou novamente. O combate tornou-se mais feroz, mais próximo, quase corpo a corpo. He-Man começou a perceber algo inquietante: Conan não recuava mais. Não calculava defesa. Apenas avançava, como se aceitasse a própria morte — contanto que pudesse levar o inimigo com ele.

Foi então que o erro aconteceu.

Confiante em sua força, He-Man ergueu a espada acima da cabeça para um golpe final, chamando o poder de Grayskull. A luz explodiu ao redor dele, cegando por um instante. Conan, ferido e exausto, fez o que sempre fizera diante de forças maiores: avançou direto para o perigo.

O cimério passou sob a lâmina em descida e girou o corpo com o último resquício de força que lhe restava. O machado descreveu um arco curto e definitivo.

O golpe foi mortal.

He-Man cambaleou. A luz ao seu redor vacilou, como uma chama atingida pelo vento. A Espada do Poder caiu de sua mão, cravando-se no chão com um brilho fraco, quase triste. O campeão de Eternia caiu logo depois, imóvel.

O silêncio tomou o vale.

Conan permaneceu ali por longos instantes, respirando com dificuldade. Observou o corpo do guerreiro caído — não como um inimigo, mas como alguém digno. Não houve triunfo, nem celebração. Apenas a constatação fria de que sobrevivera mais uma vez.

O portal começou a se reabrir ao longe, instável. Conan limpou o machado na grama e caminhou sem olhar para trás. Eternia perdera seu campeão. O cimério ganhara apenas mais uma cicatriz invisível.

Em algum lugar, os deuses observaram em silêncio.

Porque naquele dia, não venceu a magia.
Venceu a vontade indomável de um homem que se recusava a morrer.

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