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domingo, 25 de outubro de 2026

Os Outros Messias da Época de Jesus

Os Outros Messias da Época de Jesus
A Judeia do século I d.C. era uma região marcada por tensões religiosas, políticas e sociais, na qual a expectativa pela chegada de um Messias ocupava um lugar importante na vida de muitos judeus. Submetida ao domínio romano desde a conquista de Pompeu, em 63 a.C., a região enfrentava impostos, disputas entre governantes locais e autoridades imperiais, além de conflitos envolvendo diferentes grupos religiosos. A palavra Messias, derivada do hebraico mashiach, significa “ungido” e originalmente designava alguém consagrado para uma função especial, como um rei ou sacerdote. Com o desenvolvimento de determinadas tradições judaicas, o termo passou a estar associado também à esperança de um futuro governante escolhido por Deus, que restauraria Israel, faria justiça e libertaria o povo da opressão. Entretanto, não existia uma única concepção messiânica compartilhada por todos os judeus. Alguns esperavam um descendente do rei Davi que restabeleceria a soberania nacional; outros valorizavam a expectativa de um sacerdote ideal, de um profeta semelhante a Moisés ou de uma intervenção divina que transformaria radicalmente o mundo. Essas esperanças encontravam expressão em textos bíblicos, interpretações proféticas e movimentos religiosos diversos. A presença romana tornou essas expectativas particularmente intensas, pois muitos associavam a libertação religiosa à recuperação da autonomia política. Nesse ambiente, surgiram pregadores, líderes populares e personagens que atraíram seguidores por anunciarem uma intervenção iminente de Deus ou por serem considerados libertadores. Nem todos esses indivíduos se proclamaram explicitamente Messias, e, em vários casos, são as autoridades romanas ou os historiadores posteriores que os descrevem como agitadores ou pretendentes a uma liderança régia. Jesus de Nazaré foi uma das figuras mais importantes desse contexto, mas não foi o único líder religioso a despertar esperanças de transformação. Conhecer os demais personagens ajuda a compreender melhor a diversidade religiosa da Judeia e o cenário histórico no qual surgiu o cristianismo.

Um dos personagens mais conhecidos desse período foi João Batista, pregador judeu que atuou nas proximidades do rio Jordão no início do século I. Os Evangelhos cristãos apresentam João como aquele que preparou o caminho para Jesus, anunciando arrependimento e a proximidade do Reino de Deus. Sua atividade também é mencionada pelo historiador judeu Flávio Josefo, que o descreve como um homem que convocava seus compatriotas à virtude e à purificação moral por meio do batismo. João não é apresentado de maneira inequívoca por Josefo como alguém que reivindicava o título de Messias, e por isso é mais correto considerá-lo um pregador profético inserido no ambiente de expectativas religiosas da época. Sua influência despertou preocupação em Herodes Antipas, governante da Galileia e da Pereia, que acabou ordenando sua execução. Outro personagem importante foi Judas, o Galileu, associado a uma revolta contra o recenseamento realizado por Quirino, governador romano da Síria, por volta de 6 d.C. Segundo Josefo, Judas e o fariseu Sadoc incentivaram a resistência à tributação e defenderam que Deus era o único soberano de Israel. Sua atuação está relacionada ao surgimento de uma corrente de resistência ao domínio estrangeiro, frequentemente associada pelos historiadores às origens do movimento zelota, embora a evolução desses grupos tenha sido complexa. Não há evidência segura de que Judas tenha se proclamado Messias, mas sua defesa da soberania divina revela como a religião podia inspirar oposição política a Roma. Também merece destaque Teudas, um líder popular mencionado por Josefo, que reuniu seguidores e prometeu conduzi-los até o rio Jordão, aparentemente esperando que ocorresse um sinal extraordinário. O governador romano Fado enviou tropas contra o grupo, e Teudas foi capturado e executado, provavelmente na década de 40 d.C., já depois da morte de Jesus. Sua atividade demonstra que movimentos proféticos continuaram a aparecer mesmo após o período tradicionalmente associado ao ministério de Jesus. Esses casos mostram que o ambiente religioso judaico era bastante diversificado e que nem todos os líderes populares podem ser classificados como pretendentes messiânicos em sentido estrito.

Outro personagem importante foi Simão da Pereia, que surgiu após a morte de Herodes, o Grande, em 4 a.C., portanto algumas décadas antes do ministério de Jesus. Segundo Flávio Josefo, Simão era um antigo escravo de Herodes que se proclamou rei, reuniu seguidores e atacou propriedades e instalações ligadas à antiga dinastia. Seu movimento foi derrotado pelas forças romanas, e ele acabou morto durante os confrontos. Também nesse período apareceu Atronges, um pastor que, segundo Josefo, assumiu o título de rei e organizou uma resistência armada contra as forças que procuravam restaurar a ordem após a morte de Herodes. Atronges e seus irmãos lideraram ataques contra soldados romanos e contra grupos associados à antiga administração herodiana. Embora esses dois personagens tenham reivindicado a realeza, não há provas de que se apresentassem especificamente como o Messias anunciado nas tradições proféticas judaicas. Sua importância está em demonstrar que a expectativa de um governante capaz de libertar o povo podia assumir uma dimensão política e militar. Décadas depois, durante o governo do procurador Pôncio Pilatos, entre aproximadamente 26 e 36 d.C., outros movimentos populares provocaram a reação das autoridades romanas. Josefo relata que Pilatos reprimiu grupos de samaritanos reunidos em torno de um homem que prometia revelar objetos sagrados no monte Gerizim. Esse episódio ocorreu entre os samaritanos, uma comunidade religiosa distinta dos judeus da Judeia, embora compartilhassem parte de suas tradições antigas. O líder em questão não é identificado por Josefo como Messias, e seu movimento deve ser entendido com cautela, sem atribuir-lhe uma identidade que as fontes não confirmam. Ainda assim, esses acontecimentos ajudam a perceber que a esperança de uma intervenção divina e a reunião de multidões em torno de líderes religiosos não eram fenômenos isolados. A administração romana acompanhava com desconfiança qualquer mobilização capaz de reunir grandes grupos e desafiar sua autoridade. Em uma região submetida a tensões constantes, profecias, sinais religiosos e reivindicações de realeza podiam rapidamente adquirir consequências políticas. Por isso, os governadores romanos frequentemente recorriam à força para dispersar movimentos que consideravam ameaças à estabilidade.

Entre os líderes associados à expectativa messiânica, Jesus de Nazaré ocupa uma posição singular porque seu movimento deu origem ao cristianismo, uma religião que posteriormente se difundiu por todo o Império Romano e muito além dele. Os Evangelhos apresentam Jesus anunciando o Reino de Deus, realizando curas, reunindo discípulos e interpretando as Escrituras judaicas à luz de sua mensagem. Seus seguidores passaram a reconhecê-lo como o Messias, ou Cristo, palavra de origem grega que também significa “ungido”. Entretanto, a concepção cristã de Messias desenvolveu características próprias, sobretudo a interpretação da morte de Jesus e da crença em sua ressurreição como acontecimentos centrais para a salvação. Durante sua vida, a relação entre sua mensagem e as expectativas políticas de libertação era complexa, e os estudiosos discutem como diferentes grupos de seus contemporâneos o compreenderam. A inscrição colocada na cruz, conforme os relatos dos Evangelhos, associava sua execução à acusação de ser “rei dos judeus”, uma expressão com evidente significado político sob o domínio romano. A crucificação era uma punição utilizada pelas autoridades romanas contra escravizados, rebeldes e pessoas consideradas ameaças à ordem imperial. Ao contrário de líderes que organizaram revoltas armadas, os Evangelhos não descrevem Jesus comandando um exército para expulsar os romanos. Sua execução, contudo, ocorreu num contexto em que as autoridades estavam atentas a qualquer reivindicação de realeza. Depois de sua morte, seus discípulos passaram a proclamar que ele havia ressuscitado e que era o Messias esperado. Essa convicção foi decisiva para a formação das primeiras comunidades cristãs. É importante, porém, distinguir a perspectiva religiosa dos cristãos das informações que podem ser estabelecidas pela investigação histórica. A existência de Jesus e sua execução por crucificação sob Pôncio Pilatos são amplamente aceitas pelos historiadores, enquanto os significados teológicos atribuídos a esses acontecimentos pertencem à interpretação religiosa. O contexto dos demais movimentos proféticos ajuda a situar Jesus em seu ambiente histórico, mas não torna todos esses líderes equivalentes em suas mensagens, objetivos ou consequências.

A expectativa messiânica não desapareceu com a morte de Jesus e continuou a influenciar a história judaica nas décadas seguintes. Um dos movimentos mais importantes ocorreu durante a grande revolta judaica contra Roma, iniciada em 66 d.C. e encerrada, em sua fase principal, com a destruição de Jerusalém e do Segundo Templo em 70 d.C. Entre os acontecimentos posteriores destacou-se a atuação de Simão bar Giora, um dos líderes militares da revolta, que comandou forças rebeldes e chegou a exercer grande influência em Jerusalém. Ele é descrito pelas fontes como um comandante que disputou o poder com outros líderes judeus, mas não existe consenso para classificá-lo como pretendente messiânico. Já Simão bar Kokhba surgiu durante a revolta contra Roma de 132 a 135 d.C., portanto mais de um século depois do nascimento de Jesus. Bar Kokhba liderou uma grande insurreição e foi reconhecido como Messias por alguns de seus contemporâneos, entre eles o influente rabino Akiva, segundo tradições judaicas posteriores. A revolta foi derrotada pelo imperador Adriano, e a repressão romana provocou consequências profundas para a população judaica da região. Bar Kokhba não pertence à mesma geração de Jesus, mas seu movimento demonstra a permanência das esperanças de libertação nacional e restauração religiosa. Ao analisar todos esses personagens, é fundamental reconhecer os limites das fontes antigas: Flávio Josefo fornece informações valiosas sobre diversos líderes e movimentos, mas escreve a partir de uma posição particular e nem sempre esclarece as crenças exatas de cada grupo. Os Evangelhos, por sua vez, possuem objetivos religiosos próprios, enquanto os textos rabínicos e outras tradições foram preservados e desenvolvidos em períodos posteriores. Portanto, não é correto afirmar que todos os indivíduos mencionados se proclamaram Messias, pois alguns foram reis autoproclamados, outros pregadores proféticos e outros líderes de resistência. O conjunto desses movimentos revela, entretanto, uma Judeia profundamente marcada pela expectativa de mudança, pela interpretação religiosa da história e pela oposição, em diferentes graus, à dominação estrangeira. É nesse cenário plural que devemos compreender Jesus de Nazaré e os demais líderes de sua época, distinguindo cuidadosamente o que as fontes registram, aquilo que os historiadores conseguem reconstruir e as interpretações religiosas que se desenvolveram ao longo dos séculos.

domingo, 11 de outubro de 2026

Papa Clemente IX

Papa Clemente IX
Giulio Rospigliosi, conhecido como Papa Clemente IX, foi o 238.º papa da Igreja Católica, exercendo seu pontificado entre 20 de junho de 1667 e 9 de dezembro de 1669. Nascido em 28 de janeiro de 1600, em Pistoia, na região da Toscana, Itália, pertencia a uma família nobre e recebeu uma formação intelectual sólida, estudando literatura, filosofia e teologia. Desde jovem, demonstrou talento para as letras e para a diplomacia, habilidades que seriam fundamentais em sua carreira eclesiástica. Antes de chegar ao papado, Rospigliosi atuou como diplomata da Santa Sé, desempenhando missões importantes em diferentes cortes europeias. Também trabalhou na administração pontifícia e serviu ao papa Alexandre VII, que o nomeou cardeal em 1657. Sua experiência política e diplomática tornou-o um candidato respeitado quando os cardeais se reuniram para eleger o sucessor de Alexandre VII, falecido em maio de 1667. O conclave terminou com sua eleição, e ele escolheu o nome Clemente IX. Seu pontificado ocorreu durante o período barroco, quando a Igreja Católica continuava exercendo enorme influência religiosa e cultural na Europa, mas enfrentava disputas políticas com as monarquias e conflitos internos relacionados à interpretação da doutrina. Clemente IX ficou conhecido por seu temperamento conciliador, sua generosidade e seu interesse pelas artes. Diferentemente de alguns pontífices envolvidos em confrontos prolongados com governantes europeus, procurou utilizar a diplomacia para reduzir tensões e preservar a autoridade espiritual da Santa Sé. Seu governo foi curto, durando pouco mais de dois anos, mas deixou uma reputação de moderação e preocupação com a paz.

Uma das principais questões enfrentadas por Clemente IX foi o conflito entre a Igreja Católica e o jansenismo, movimento teológico que provocava intensas controvérsias na França e em outras regiões da Europa. O jansenismo, associado aos escritos do bispo Cornélio Jansênio, enfatizava determinados aspectos da doutrina da graça divina, do pecado original e da capacidade humana de alcançar a salvação. Suas posições foram consideradas incompatíveis com ensinamentos defendidos por setores importantes da hierarquia católica, provocando condenações e disputas que envolviam teólogos, bispos, religiosos e autoridades políticas. A França de Luís XIV era um dos principais centros dessa controvérsia, pois o governo francês desejava preservar a unidade religiosa do reino e limitar movimentos considerados ameaçadores à autoridade eclesiástica e política. Clemente IX procurou encontrar uma solução que evitasse uma ruptura ainda maior entre Roma e setores da Igreja francesa. Em 1668, foi alcançado um entendimento que ficou conhecido como Paz Clementina. O acordo envolveu a aceitação formal das determinações pontifícias por importantes representantes do clero francês, acompanhada de uma postura que permitia reduzir a confrontação pública e as medidas disciplinares imediatas contra determinados religiosos. A solução não eliminou o jansenismo nem encerrou definitivamente as divergências doutrinárias, mas diminuiu temporariamente as tensões. O episódio demonstrou a disposição de Clemente IX para combinar a defesa da autoridade papal com a busca de uma acomodação diplomática. Sua atuação também revelou as dificuldades enfrentadas pelo papado em uma época na qual os reis europeus exerciam crescente influência sobre as igrejas de seus territórios.

No campo das relações internacionais, Clemente IX procurou promover a cooperação entre os governantes católicos e defender os interesses da cristandade diante da expansão do Império Otomano. Durante o século XVII, os Estados europeus estavam frequentemente envolvidos em guerras territoriais, disputas dinásticas e rivalidades religiosas, circunstâncias que dificultavam a formação de alianças duradouras. O pontífice buscou incentivar a união entre as potências católicas, embora dispusesse de recursos limitados para obrigar os soberanos a seguir suas orientações. A diplomacia papal tinha uma importância particular porque Roma continuava sendo um centro de negociações e de influência moral, mesmo quando as monarquias absolutistas procuravam agir de maneira cada vez mais independente. Clemente IX também acompanhou os acontecimentos relacionados às guerras envolvendo a República de Veneza e os otomanos, especialmente a luta pelo controle de Creta, onde a cidade de Cândia resistia a um prolongado cerco otomano. A guerra de Creta fazia parte de uma disputa mais ampla pelo domínio do Mediterrâneo oriental e mobilizava recursos militares e financeiros de diferentes Estados. O papa procurou apoiar os esforços cristãos, mas não conseguiu impedir a queda de Cândia em 1669, durante os últimos meses de seu pontificado. A conquista otomana encerrou uma longa resistência veneziana na ilha e representou uma importante transformação no equilíbrio regional. Apesar dos limites de sua influência, Clemente IX demonstrou preocupação constante com a situação das comunidades cristãs e com a preservação dos interesses da Santa Sé. Sua política externa refletiu as dificuldades de um papado que buscava manter relevância diplomática em uma Europa cada vez mais dominada por Estados centralizados e por interesses nacionais.

Clemente IX também se destacou por seu interesse pela cultura, pela literatura, pela música e pelas artes visuais. Antes de sua eleição, já havia demonstrado inclinação para a poesia e para a produção literária, características incomuns entre alguns dos governantes eclesiásticos de sua época. Durante seu pontificado, apoiou artistas e músicos e procurou manter Roma como um dos grandes centros culturais do barroco europeu. A cidade possuía igrejas monumentais, palácios, praças e coleções artísticas que expressavam a riqueza da tradição católica e a influência do mecenato pontifício. A arte barroca, caracterizada pelo movimento, pela dramaticidade e pela riqueza decorativa, desempenhava uma função religiosa e política, transmitindo mensagens de fé e autoridade. Clemente IX valorizava esse ambiente cultural e demonstrava interesse por espetáculos teatrais e musicais. Também é tradicionalmente associado ao desenvolvimento e à reorganização de espaços urbanos e religiosos de Roma. Sua atitude pessoal era frequentemente descrita como simples e generosa, e relatos históricos destacam sua preocupação com os pobres e com pessoas necessitadas. O papa procurava exercer a caridade como parte de suas responsabilidades religiosas, distribuindo auxílio e demonstrando atenção aos problemas sociais da população romana. Embora não tenha tido tempo para desenvolver um programa de reformas abrangente, sua reputação de homem culto e conciliador contribuiu para que fosse lembrado de maneira favorável por muitos contemporâneos. Seu pontificado demonstrou que a liderança papal não se limitava às questões doutrinárias e diplomáticas: envolvia também o patrocínio cultural, a administração de Roma e a representação pública da Igreja Católica em uma época de intensa produção artística.

O pontificado de Clemente IX terminou repentinamente com sua morte, em 9 de dezembro de 1669, em Roma, aos 69 anos. As circunstâncias de seu falecimento provocaram pesar entre aqueles que apreciavam seu estilo moderado de governo e sua reputação de generosidade. Como seu pontificado havia durado pouco mais de dois anos, muitas das questões que enfrentou permaneceram sem solução definitiva, especialmente as controvérsias religiosas francesas e os conflitos entre as potências europeias. Após sua morte, os cardeais reuniram-se novamente em conclave para escolher seu sucessor, elegendo Emilio Bonaventura Altieri, que assumiu o nome Clemente X em abril de 1670. Clemente IX deixou uma herança histórica associada à tentativa de reduzir conflitos por meio da negociação e à valorização da cultura e da assistência aos necessitados. Sua atuação na controvérsia jansenista foi particularmente significativa porque demonstrou como o papado precisava equilibrar a defesa da doutrina com as realidades políticas dos Estados católicos. A Paz Clementina não resolveu todos os problemas, mas ofereceu um período de acomodação que adiou novos confrontos. Na política internacional, o papa enfrentou as limitações de uma Santa Sé que já não possuía a capacidade de impor sua vontade às grandes monarquias europeias. Mesmo assim, continuou exercendo influência como mediador e como representante de uma tradição religiosa que ultrapassava as fronteiras nacionais. Sua personalidade culta, sua preocupação com a caridade e sua disposição para buscar entendimentos contribuíram para sua reputação de pontífice conciliador. Embora seja menos conhecido pelo público moderno do que papas de períodos posteriores, Clemente IX ocupa um lugar importante na história da Igreja do século XVII. Seu breve governo ilustra os desafios enfrentados pelo papado durante a consolidação das monarquias absolutistas e revela como diplomacia, religião e cultura permaneciam profundamente interligadas na Europa barroca.

sexta-feira, 6 de junho de 2025

Papa Francisco: Um Homem de Palavra

Papa Francisco: Um Homem de Palavra 
Infelizmente o nosso querido Papa Francisco se foi. Ficam as lembranças e as saudades. Esse documentário feito pelo prestigiado diretor Wim Wenders traz uma série de imagens preciosas desse popular e carismático pontífice da história do catolicismo. O diretor acompanhou o Papa em viagens internacionais (como a que ele fez no Brasil) para mostrar o impacto da presença do Papa nos mais diferentes países por onde caminhou. Sem dúvida o Papa Francisco foi um dos mais carismáticos líderes religiosos do mundo! Era realmente um homem que levava multidões por onde passava. E seu impacto na mídia internacional foi algo impressionante de se acompanhar. 

Além dessas belas e inesquecíveis imagens esse documentário também traz trechos de entrevistas com Francisco. Em clima mais ameno, diria quase lírico, o Papa vai falando sobre os mais diversos temas. Francisco era um homem que tratava os temas mais espinhosos com uma leveza incrível. Em minha forma de pensar, isso acontecia por algumas razões bem pessoais de sua personalidade. Ele não apenas era um homem bom, como também conseguia transmitir essa bondade e gentileza com suas mensagens de acolhimentos e inclusão social. Um Papa que jamais esqueceremos. E esse filme é um dos seus mais carinhosos retratos. Vá em paz querido Papa Francisco! 

Papa Francisco: Um Homem de Palavra (Pope Francis: A Man of His Word, Estados Unidos, 2018) Direção: Wim Wenders / Roteiro: Wim Wenders, David Rosier / Elenco: Papa Francisco (creditado como Pope Francis), Ignazio Oliva, María Eufemia Goycoechea, Papa Bento XVI, Papa João Paulo II (em imagens de arquivos) / Sinopse: Documentário dirigido pelo talentoso cineasta Win Wenders que traz momentos do Papa Francisco em suas viagens internacionais. Também traz uma rara e exclusiva entrevista com o líder da Igreja Católica. 

Pablo Aluísio. 

domingo, 4 de maio de 2025

Urbano II e a Primeira Cruzada

Em 1070 a cidade santa de Jerusalém caiu nas mãos dos muçulmanos. O império Turco imediatamente proibiu o cristianismo na região, punindo com a morte quem não seguisse a religião do Islã. O fato chocou os cristãos da Europa. Não haveria mais como ir para a Terra Santa em peregrinação. Os seguidores de Maomé não iriam mais admitir essa heresia sob o ponto de vista de sua religião. A crise entre cristãos e muçulmanos não parou por aí. O Império Bizantino (que era cristão, também conhecido como Império Romano do Oriente) também sofria com a expectativa de uma grande invasão dos turcos. O desastre era iminente.

Diante de toda essa situação o Papa Urbano II resolveu agir. Ele pensou que todos os cristãos da Europa precisavam se unir para lutar contra a ameaça militar que vinha do Oriente. A solução em sua opinião era a organização de uma grande cruzada de cristãos para irem em direção à Terra Santa, para libertar Jerusalém das mãos do califado islâmico. Havia uma grande massa de pessoas pobres e sem perspectivas dentro do continente europeu. Muitos deles eram criminosos e tinham desperdiçado sua existência em crime e pecado. Para o Papa a violência entre cristãos deveria acabar definitivamente. A luta deveria ser travada contra o mundo muçulmano que colocava em perigo a existência do cristianismo.

Assim o Papa Urbano II proclamou em discurso: "Ricos e pobres devem igualmente partir, devem parar de se matar uns aos outros e, em vez disso, lutar uma guerra justa, realizando a obra de Deus; Deus os guiará. Quem morrer em combate receberá a absolvição e a remissão dos pecados. Aqui, a vida é miserável e malvada com homens que se entregam até destruir o próprio corpo e a própria alma; aqui, eles são pobres e infelizes, lá, serão felizes, ricos e verdadeiros amigos de Deus."

O Papa pensava que seu pronunciamento iria despertar a honradez de senhores feudais, reis e nobres, mas isso não aconteceu. Apenas as camadas mais populares responderam ao apelo papal. Assim as massas mais pobres das cidades da Europa começaram a se organizar. O problema é que não havia liderança entre eles e em pouco tempo a anarquia tomou conta da Primeira Cruzada que seria conhecida pela história como A Cruzada dos "Mendigos"!

Essa massa de pessoas, sem treinamento militar, sem hierarquia e sem disciplina começou a marchar indo em direção a Jerusalém. Sem recursos muitos começaram a pilhar as cidades por onde passavam. O pânico tomou conta as populações. Havia anarquia e crime entre seus participantes. Nem mesmo a suposta liderança de um homem chamado Pedro, o Eremita, conseguiu evitar o desastre completo. Por três anos esses cruzados - na verdade uma massa de pessoas pobres e desesperadas - destruíram tudo por onde passavam. Para o Papa Urbano II a convicção inicial havia sido esquecida. Os efeitos foram bem piores do que ele pensava e não havia qualquer controle sobre o que acontecia. A igreja assim retirou seu apoio. 

Por fim, o que era previsível aconteceu. Ao encontrar o exército turco aqueles pessoas que se diziam cruzados foram facilmente trucidados pelos islâmicos. Os homens foram mortos, as crianças e mulheres se tornaram escravos. Antes de matar todos os cruzados os muçulmanos lhes davam uma ótima chance de viver: eles poderiam se converter ao Islã, caso contrário teriam suas cabeças cortadas! E assim foi com milhares de pessoas. O Papa percebeu que apenas a boa fé não era suficiente. Era necessária a participação dos nobres, dos reis e de seus exércitos profissionais, não uma multidão de pessoas sem qualquer preparo. Em sua forma de pensar a ideia da cruzada não era ruim, mas teria que acontecer com planejamento e disciplina, caso contrário a matança seria inevitável.

Pablo Aluísio.

sábado, 26 de abril de 2025

Papa Francisco

Papa Francisco
Hoje foi sepultado o Papa Francisco. Sempre será lembrado por esse que escreve essas linhas como um bom homem que procurou priorizar os mais pobres, os marginalizados da sociedade. Não por acaso adotou o nome de Francisco, baseado na vida de Francisco de Assis, o santo conhecido em sua época como "o pobrezinho", um homem também de espírito elevado que procurava seguir os ensinamentos de Jesus ao pé da palavra. Ao ler que Jesus havia falado que devíamos abdicar de todos os bens terrenos, ele assim o fez, vivendo uma vida de pobreza e humildade. 

Um aspecto interessante do Papado de Francisco é que ele também sempre será lembrado como, muito provavelmente, o mais progressista (entenda-se esquerdista) de todos os Papas que já passaram pelo Vaticano. E isso se deu depois de dois Papas bem conservadores, João Paulo II e Bento XVI. Não é de se admirar que seus posicionamentos tenham criado certa controvérsia entre os conservadores (tanto os verdadeiros como os falsos). Eu nunca pensei assim, sempre o vi como um Humanista, acima de tudo, mas respeito os que pensam de forma diversa. 

Penso de modo diferente. Todas as pessoas possuem seu contexto de vida e isso delimita seus posicionamentos políticos e ideológicos na vida. Francisco foi um humanista cristão puro pois viveu os horrores da Ditadura Militar na Argentina. Ao ver seus amigos padres jesuítas sendo mortos pelos militares, não haveria outro posicionamento a se tomar. Claro que ele adotou um modo de pensar mais de acordo com a esquerda, não haveria como pensar diferente, ao viver tamanho brutalidade durante a sanguinária Ditadura Militar em seu país, mas no fundo ele priorizou mesmo o humanismo, não o esquerdismo. Foi acima de tudo uma defesa! Não se poderia compactuar com aqueles assassinos. 

Mas deixemos tudo isso de lado. Francisco foi acima de tudo um bom homem. Sim, ele muitas vezes bateu de frente com a visão mais conservadora da Igreja, mas isso também era de esperar. Para uma organização que já tem 2 mil anos de existência há de se supor que ela também seja moldada pelas mudanças dentro da própria sociedade. Não há como parar no tempo, com pensamentos e posições presas na rocha! Na cultura humana isso simplesmente não existe. Há de se ter algum avanço para frente. Francisco tentou esse tipo de posicionamento, embora tenha sofrido com isso uma intensa campanha de difamação, calúnia e destruição de reputação. Nesse aspecto também foi um herdeiro de Pio XII que também foi muito difamado e caluniado, tanto em vida como após sua morte. 

Tudo isso agora é história. E de história a Igreja Católica é imbatível. Tradição e história formam os alicerces dessa religião que já passou por tudo, mas ainda está aí. Penso que Francisco, como já frisei, será lembrado como um bom homem e um Papa controvertido. Tudo de acordo com o que ele pensava e pregava. Afinal dizia que devemos romper com certos tipos de mentalidades do passado. Ele estava mais do que certo nesse aspecto. Ao seu modo foi um homem livre e esse será, no meu ponto de vista, seu grande legado como Papa. 

Pablo Aluísio.

domingo, 23 de fevereiro de 2025

Imperador Romano Heliogábalo

Foi certamente um dos imperadores romanos mais depravados e dementes da história. E também um dos mais jovens. Ele subiu ao poder após os problemas de sucessão do violento Caracala. Naquele período da Roma imperial já havia uma certa anarquia na escolha dos imperadores. Acabava subindo ao trono quem tinha apoio do exército e da guarda pretoriana. No meio do caos a sucessão acabou indo parar nas mãos desse jovem. E os romanos iriam se arrepender amargamente de terem escolhido essa figura trágica e lamentável como o novo imperador.

Seu nome real era Vário Avito Bassiano e seu nome imperial de Heliogábalo veio da fixação que tinha por essa divindade oriental. Ele acreditava que Heliogábalo era o único Deus. Diante disso implantou uma violenta persequição religiosa contra cristãos e até mesmo pagãos, seguidores dos deuses romanos tradicionais. Vestindo trajes de pura seda, espalhafatosos e com jeito afeminado de ser, podia ser tão violento como qualquer outro gladiador das arenas romanas. Ele se deliciava ao ver o sofrimento das pessoas. Sua personalidade tinha traços claros de psicopatia. Ao acordar já ia perguntando aos seus auxiliares mais próximos: "Quem vamos matar hoje? Quero me divertir!"

Pedófilo, adorava a parte de sua divindade que exigia sacrifícios humanos de jovens rapazes. Ele violentava esses adolescentes romanos indefesos e depois oferecia suas vidas para o estranho Deus Sírio. Em pouco tempo todos estavam sabendo que o novo imperador era um pederasta violento e atroz.Também chocou a todos quando tomou como amante um escravo forte que havia sido gladiador. O imperador não escondia de ninguém que ele era seu amante. Publicamente trocavam gestos de carinhos e perversão. As famílias romanas ficaram horrorizadas com aquele espetáculo grotesco.

Também era sádico. Mandou matar todo romano que pudesse representar uma ameaça ao seu poder. Com o ímpeto da juventude mandou matar senadores e transformou suas esposas em prostituas. Fazia encenações grotescas, colocando mulheres nuas em desfiles de bigas de cavalos, chocando as famílias romanas mais tradicionais. Promovia orgias, como nos tempos de Calígula e depois de satisfazer suas maiores perversões sexuais mandava que feras selvagens como leões e tigres fossem soltos em cima de seus convidados. Não tinha o menor respeito pela vida humana e promovia massacres em populações que demonstrassem a menor reação contra seu governo.

Começou rapidamente a ser odiado pelo povo. Heliogábalo também tinha problemas ao seu lado. Seu irmão Alexandre Severo era bem mais admirado pelos militares. O jovem imperador assim tentou seguir os passos de Caracala, tentando matar o próprio irmão, mas sem sucesso. Conforme o tempo foi passando e todos perceberam que era um maníaco inútil, conspirações começaram a surgir de todos os lados. Acabou sendo encurralado por soldados no palácio. Sua mãe tentou defendê-lo, mas acabou tendo o mesmo destino do filho. Ambos foram decapitados. Depois seus corpos nus foram arrastados pelas ruas de Roma, com aplausos da plebe. Os patrícios também celebraram a morte daquele louco violento. Depois de serem trucidados pelas ruas, seus restos mortais foram jogados no Rio Tibre.

Com sua morte, Alexandre Severo foi celebrado e finalmente levado ao poder máximo. As estátuas de Heliogábalo foram então derrubadas e destruídas pelo povo. Foi um dos mais odiados imperadores da história de Roma. As pessoas queriam apagar sua memória. Foi considerado o pior imperador da dinastia Severo, que estava com seus dias contados. No total ficou apenas 4 anos no poder. Seu nome foi devidamente jogado na lata de lixo da história pelos romanos.

Pablo Aluísio.

domingo, 6 de outubro de 2024

Jesus e o Império Romano

Jesus e o Império Romano
Interessante tecer algumas linhas sobre esse título de "Filho de Deus". O que realmente ele significa? Para milhões de cristãos ao redor do mundo não resta dúvidas de que esse título dado a Jesus significaria que ele era exatamente isso, o filho de Deus, enviado para o mundo para morrer pelos pecados do homem. Esse fato demonstraria todo o amor que Deus sente por cada um de nós. Algo poético e muito bonito até, uma construção feita principalmente pela teologia. 

Entretanto os historiadores discordam desse ponto de vista. Filho de Deus era o título dado aos reis na antiguidade. Assim Jesus seria filho de Deus porque no final das contas ele seria o Rei dos Judeus. E isso nada tinha a ver com religião, mas sim com política. Jesus iria expulsar os romanos da Judéia e iria reinar como Rei dos Judeus. Ele, nesse aspecto, seria um revolucionário, não um homem espiritual. 

Por essa razão foi morto pelos romanos e pelas autoridades judias de seu tempo. Um camponês como Jesus jamais seria aceito como rei daquelas pessoas que em última análise estavam escravizando e explorando o povo judeu no século I. Por essa razão quando as autoridades romanas souberam que um pregador popular, um milagreiro, também estava sendo chamado de "Filho de Deus", um título exclusivo para os reis, eles selaram o destino daquele homem chamado Jesus. 

O curioso é que muitas vezes Jesus também se chamava de "Filho do Homem". Essa expressão significa "Homem comum", "Pessoa comum". Basta ler a palavra original em Aramaico, a língua que Jesus falava em sua existência. Filho do Homem era diferente de Filho de Deus. Esse último era o monarca, o Rei. Era algo que as autoridades romanas não iriam aceitar de jeito nenhum. Ao usar esse título Jesus estava desafiando o poder não apenas do Império Romano, mas também das autoridades de Jerusalém. 

E o título de Messias era ainda mais perigoso. O Messias era aquele que iria libertar o povo judeu das garras da dominação romana. Nada mais do que isso. Uma vez expulso o romano invasor ele subiria ao trono, se tornaria Rei dos Judeus, o Filho de Deus, assim escolhido para reinar durante sua vida. Nada de cordeiro de Deus, nada de título espiritual, apenas um homem que iria restaurar a independência do povo judeu. Por essa razão Jesus seria executado pelo governador romano Pilatos. Ele era considerado um Lestat, um criminoso de Estado que planejava um Golpe no Império. 

Pablo Aluísio. 

domingo, 11 de agosto de 2024

Pilatos

Pilatos
Pilatos teria desaparecido da história se nao tivesse sido citado nos textos do Novo Testamento. O máximo de sua carreira política em Roma se deu justamente quando se tornou governador da Judéia e isso definitivamente não era um prêmio para nenhum homem público de Roma. Na realidade era praticamente uma punição. A Judéia era considerada uma província problemática pelos romanos. Situada geograficamente muito longe da capital do império, era vista pelos romanos como uma região de desertos, com povo rebelde, fanático por suas convicções religiosas e por essa razão complicado de dominar. 

Além disso Pilatos nunca se deu bem com o Imperador Tibério. Pilatos era da chamada baixa nobreza romana. Para essa classe de famílias realmente não haveria nada de muito promissor para eles em termos políticos. Ao que tudo indica Tibério o nomeou como governador da Judéia praticamente como uma punição. E definitivamente Pilatos não ficou nada feliz com essa indicação. Ainda assim foi para a Judéia onde se envolveu em inúmeros problemas. 

Logo ao chegar Pilatos mandou pintar a imagem de uma divindade romana nos escudos dos legionários. Isso foi visto pelos judeus como uma provocação pois eles não admitiam imagens de divindades pagãs. O velho problema do fanatismo religioso surgia novamente naquela província distante. Logo estourou uma violenta rebelião que Pilatos esmagou com mão de ferro. Centenas de revoltosos foram executados, das mais diferentes formas, sendo que os líderes foram pendurados em cruzes. Uma mensagem do império para todos os que desejavam seguir pelo mesmo caminho da revolta contra o poder de Roma. 

Pilatos era visto pelo povo como um homem cruel e sanguinário, por essa razão historiadores não acreditam naquela imagem dele que surge dos evangelhos. Ali ele foi retratado como um homem que lavou as mãos em relação à morte de Yeshua (o nome verdadeiro de Jesus). Para historiadores isso seria pura ficção. Pilatos não teria nenhum pudor de mandar Jesus para a cruz, uma vez que ele havia se envolvido numa confusão no templo em plena Páscoa judaica. E o fato de seus seguidores o chamarem de Messias definitivamente não ajudou em nada. O termo Messias era usado para designar os judeus que iriam expulsar o invasor romano de suas terras. Inclusive os historiadores duvidam muito que Pilatos tenha julgado Jesus ou algo do tipo. Jesus era um camponês e Pilatos nem sequer teria perdido tempo ao mandar executá-lo. Ele foi considerado um terrorista político por Roma e por essa razão foi morto na cruz, tal como aconteceu com centenas de outros homens de sua época. 

O que parece ter acontecido é que os escritores do novo testamento, que eram escribas gregos que viviam no Império Romano, tiveram receios de colocar uma péssima imagem de uma autoridade romana em seus escritos. Afinal eles também poderiam ser mortos por isso. Então criaram um Pilatos cheio de compaixão, lavando as mãos sobre a morte daquele judeu.  Nessa caso o medo deles falseou a realidade histórica, algo que muitas vezes aconteceu ao longo da história. 

Pablo Aluísio. 

domingo, 7 de abril de 2024

Henrique VIII e o rompimento com a Igreja

A mensagem reformista de Lutero chegaria às igrejas inglesas? Essa era uma dúvida recorrente na Inglaterra do século XVI. O monarca inglês, que viria a se tornar símbolo do absolutismo real, se considerava um bom católico, um fiel seguidor do Papado romano. Ele inclusive havia escrito textos de teologia reafirmando a autoridade do Papa em Roma em todas as terras e colônias de seu reino. Em 1521 o Rei Henrique VIII escreveu um ambicioso tratado em defesa da fé católica. O texto foi tão veemente que ele inclusive foi homenageado pelo Papa Leão X com o título de defensor da fé verdadeira.

Porém Henrique também tinha um outro lado. Ao mesmo tempo em que aparecia como monarca conservador e tradicional, ele mantinha uma vida persoal devassa, com muitas concubinas e mulheres. Ele era casado com a católica fervorosa Catarina de Aragão. O problema é que ela não lhe dava o tão aguardado herdeiro masculino ao trono. E ele não poderia se separar dela por causa do dogma católico da impossibilidade da dissolução matrimonial do casamento. Baseado no texto do novo evangelho em que Jesus dizia que não cabia aos homens separar aquilo que Deus uniu, o divórcio era inaceitável para a Igreja Católica.

Henrique então partiu para uma ofensiva diplomática feroz para que seu casamento fosse anulado. O Papa Clemente VII avaliou os argumentos do rei inglês e depois de algum tempo negou seu pedido. Henrique VIII ficou furioso. Afinal ele era um monarca absolutista, que tudo podia. Ninguém, nem o Papa, poderia lhe dizer não! Foi então dentro dessa crise pessoal que ele decidiu romper completamente com a Igreja. O Papa contra atacou, declarando que ele era a partir daquele momento um excomungado. A crise se espalhou por toda a Inglaterra. Como um rei que havia defendido a fé católica iria voltar atrás de seus próprios escritos? Na época havia um ditado muito popular que afirmava que "palavra de rei não volta atrás".

Só que nesse caso ela voltou. Henrique confiscou todos os bens e propriedades da Igreja Católica na Inglaterra. Ele mandou prender e matar padres e bispos que se recusavam a seguir sua autoridade. Na crise religiosa sem precedentes decidiu que iria formar uma nova igreja, não baseada nas ideias de Lutero, mas sim nas suas próprias ideias. Deu o nome dessa nova igreja de Anglicana. Os bens e igrejas que tinham sido confiscadas seriam agora dessa nova religião. Ele também proclamou que a partir daquele momento ele seria a autoridade máxima da igreja que estava criando, situação que até hoje prevalece. Ordenou que membros do clero recém nomeados iriam criar a doutrina da nova religião. E depois de todo esse caos se auto proclamou como Líder máximo de sua própria fé. Ele seria o seu próprio Papa. Seu primeiro ato como tal foi declarar nulo seu primeiro casamento. O interessante de tudo é que apesar de todo o rompimento, de todos os casamentos que viriam (seis no total) ele jamais conseguiria seu tão sonhado herdeiro masculino. A coroa iria ser passada para sua filha Elizabeth I, filha de Ana Bolena, que inclusive seria executada por ordens do Rei. Enfim, Henrique VIII rompeu com tudo e com todos, mas jamais conseguiu aquilo que mais queria.

Pablo Aluísio. 

domingo, 28 de janeiro de 2024

Imperador Romano Titus

O imperador romano Titus (ou Tito, como é conhecido na língua portuguesa) reinou por pouco tempo em Roma, mas o seu período foi tão marcante na história do império romano que até hoje historiadores se debruçam sobre sua biografia. Tito era filho do imperador Vespasiano e quando esse morreu sua sucessão foi considerada natural pelo senado. Isso demonstrava que embora formalmente Roma fosse ainda considerada uma República, na prática já se tinha contornos de uma monarquia de sangue. Tanto que Tito e seu irmão Domiciano se tornariam imperadores, simplesmente pelo fato de serem filhos de Vespasiano.

O nome de Tito jamais será esquecido pelo povo judeu. Foi ele que destruiu o templo de Jerusalém. Esse foi o primeiro momento histórico realmente marcante da vida desse imperador. A província da Judeia era considerada uma das mais problemáticas para Roma. Havia rebeliões, conflitos e os judeus nunca aceitaram de fato a dominação romana. Para piorar o quadro político havia a esperança de que um Messias iria libertar o povo judeu da escravidão dos romanos. Esse Messias era uma figura religiosa, fazia parte das escrituras sagradas dos judeus e isso havia se tornado um tormento para os governadores enviados por Roma.

Tito então enfrentou o problema de frente. Se a religião dos judeus era um problema, então os romanos iriam destruir seu maior símbolo, o Templo de Jerusalém. Quando os legionários entraram no templo isso foi considerado o maior dos sacrilégios. Tito mandou confiscar todo o ouro que havia ali, além de destruir tudo, colocar o templo literalmente abaixo. Dizem cronistas da época que os sacerdotes se jogaram nas espadas dos legionários romanos, tamanho era o desespero. Muitos morreram. Um desses em seu último momento encontrou Tito cara a cara e lhe disse que ele seria amaldiçoado pelo que havia feito, que não iria durar como imperador e que seu povo iria pagar por tudo o que havia feito aos judeus. Tito lhe virou as costas e mandou que a destruição continuasse, que tudo fosse queimado e demolido. Dizem que entrou a cavalo em um lugar extremamente santo do templo, onde o povo judeu acreditava que o próprio Deus ali habitava. Aquilo era o desrespeito máximo do romano para com a fé do povo judeu.

De volta a Roma Tito enfrentou o maior desafio de seu governo. O vulcão Vesúvio entrou em erupção. Milhares de pessoas morreram. Cidades como Pompeia e Herculano literalmente desapareceram do mapa, soterradas pelas cinzas do vulcão. Os cidadãos romanos que ali viviam morreram sufocados ou queimados vivos pelas chamas do Vesúvio. Pedras de fogo caiam do céu, era um cenário de apocalipse. Poucos escaparam. Os gritos podiam ser ouvidos a distância. Homens, mulheres, idosos, crianças, todos morreram de forma quase instantânea. Tito ficou desesperado. Ele enviou legiões para ajudar, mas os seus soldados morreram asfixiados por gases expelidos pelo Vesúvio. Foi uma enorme tragédia para o povo romano. Seu tão poderoso exército se revelava inútil naquele momento. E não foi apenas isso. Durante três dias e três noites Roma ardeu em chamas, em um incêndio tão grande como aquele que havia destruído a cidade nos tempos de Nero! E como havia profetizado o sacerdote judeu o reinado de Tito foi breve. Ele ficou como imperador por apenas dois anos. Inesperadamente morreu em 81 da era cristã, mesmo sendo ainda jovem. Dizia-se que havia sido envenenado pelo próprio irmão, Domiciano, que agora era o novo imperador após sua morte misteriosa. Tito assim acabou se tornando um imperador de rápida passagem pelo poder máximo do mundo antigo, em um dos momentos mais terríveis da história do império romano.

Pablo Aluísio.

domingo, 24 de dezembro de 2023

O Cavaleiro Medieval

O cavaleiro medieval era altamente motivado. Embaixo de sua armadura havia um ser humano que acreditava piamente nas palavras da escritura sagrada, na Bíblia. Por isso ele deixava praticamente tudo para trás para se juntar às fileiras das cruzadas. Muitas foram as motivações que moveram os cruzados ao longo dos séculos, porém todas elas sempre tinham praticamente o mesmo motivo principal: livrar a terra santa dos infiés muçulmanos que aquelas paisagens distantes ocupavam.

O típico cavaleiro medieval que conhecemos é muito parecido com essa gravura ao lado. Montado em seu cavalo, com um grande espada e uma armadura complexa que o protegia da cabeça aos pés. Essas armaduras eram caras, pesadas e nada confortáveis. Apenas os nobres ricos e os Reis tinham condições econômicas de ostentar algo assim.

Talvez a única exceção tenha sido os cavaleiros templários, porém seus elmos e armaduras eram fornecidos pela Igreja Católica, a mais rica e influente instituição da era medieval. Depois com o passar dos séculos os templários foram ficando imensamente ricos e eles próprios compravam suas armaduras. Os templários não eram apenas guerreiros como os demais cavaleiros das cruzadas. Eles eram também monges e faziam parte da hierarquia da Igreja. Os Templários faziam parte de uma ordem religiosa, tal como os Jesuítas, Franciscanos, etc. A diferença básica é que essa era uma ordem guerreira, feita para ir para a guerra. Eles eram guerreiros em essência, prontos para tudo, para defender suas crenças, mesmo em territórios estrangeiros. Deles provavelmente nasceu  o lema de se ter a cruz em uma das mãos e uma espada em outra.

As mulheres medievais idolatravam os cavaleiros. Por onde eles passavam havia dezenas de mulheres dispostas a tudo para conquistá-los. Por isso logo se criou toda uma arte em volta dessas figuras metálicas. Os trovadores criavam canções e poemas, sempre mostrando o errante cavaleiro conquistando o coração das donzelas. Isso criou toda uma literatura também. Vem daí a figura do "Príncipe encantado" que iria aparecer em muitos contos infantis, chegando até nós pelas adaptações desses contos em filmes da Dinsey, por exemplo. E de fato o cavaleiro medieval era um nobre, seja um prínicipe, um rei ou um membro da chamada nobreza menor. Casar com um deles na Idade Média era tirar a sorte grande entre as mulheres, principalmente as camponesas, que viviam em uma escala social bem menor do que a dos guerreiros medievais.

Pablo Aluísio. 

sábado, 23 de dezembro de 2023

Clóvis I - O Primeiro Rei da França

Esse Rei dos Francos é considerado o primeiro Rei da França. Isso porque seu território correspondeu quase que exatamente o que depois iria se tornar o país da França. Mesmo assim não podemos nos esquecer que Clóvis I reinou em um passado bem distante, há mais de 1500 anos. Seu reinado durou de 481 a 511. Nessa época o Império Romano do Ocidente entrava em colapso. Considerado um Rei Bárbaro pelos Romanos, Clóvis I logo impôs seu poder na região conhecida pelos romanos como Gália. Ali ele uniu sob um mesmo reino diversas tribos dos Francos. Por isso é considerado pelos historiadores o primeiro Rei francês.

Ele também é considerado o fundador da Dinastia merovíngia que iria reinar por dois séculos na França. Foi também o primeiro líder dos francos a se converter ao catolicismo. Isso se deu em razão da influência de sua esposa, Clotilde da Borgonha. Ela era uma devota cristã. Até esse momento Clóvis seguia a religião pagã, com seus diversos deuses e crenças. Tinha adoração por Júpiter e Mercúrio. Ele renegou todos eles adotando a cruz como símbolo de seu reinado. Essa conversão ao cristianismo também trouxe o apoio da Igreja cristã que crescia entre os francos convertidos.

Outro ponto marcante no reinado de Clóvis e que fez com que ele se tornasse o criador do que seria conhecido como França, é o fato de que ele escolheu Paris para ser sua capital. Até então o Reino dos Francos não tinha uma cidade como sua capital. Povo bárbaro e guerreiro, eles tinham capitais itinerantes, usando o lema de que a capital de seu reino era onde o Rei estava. Em Paris ele fundou uma abadia, chamada de São Paulo e São Pedro, nas margens do Rio Sena.

Clóvis I morreu com apenas 46 anos de idade, em 511 e foi sepultado na Basílica de Saint-Denis. Isso deu origem a outra tradição entre os reis franceses, pois praticamente todos eles seriam enterrados nessa mesma igreja, que se tornaria um símbolo da monarquia francesa. Por todas essas razões a indicação de historiadores de que ele foi o primeiro Rei da França, é plenamente justificável.

Pablo Aluísio.

domingo, 17 de dezembro de 2023

Lilith

Lilith
O que é Lilith? Quem foi Lilith? Segundo pesquisas históricas e arqueológicas, a figura de Lilith surgiu na antiga civilização Mesopotâmia. Curioso notar que em suas origens não era ela uma criatura única, um ser do mal chamado Lilith. Na verdade era uma categoria de ser mitológico. Uma estranha e sombria figura que surgia nas madrugadas para levar recém nascidos. Importante frisar que na antiguidade era enorme o número de mortos recém-nascidos, pois a mortalidade infantil era elevadíssima, então os povos daquela época explicavam esses tristes eventos como atos de Liliths, seres alados femininos, com pés de águia, que surgiam na noite para infernizar a vida de jovens casais, levando seus filhos como forma de punir a felicidade alheia. 

Como se trata de uma figura da mitologia antiga logo sua origem foi modificada e adaptada por outros povos. Os judeus, por exemplo, colocaram Lilith na posição de demônio. Não era apenas uma categoria de seres, mas apenas uma única mulher que teria sido a primeira mulher de Adão. Se recusando a servir ao marido como convinha a uma mulher da antiguidade, ela se rebelava, era dona de si, não aceitava ordens e era rebelde. Vendo essa situação logo o Deus Jeová a expulsou do paraíso, a jogou no inferno e arranjou uma nova mulher para Adão que seria Eva. 

Interessante que essa nova versão de Lilith a tornaria muito popular nos dias de hoje, a ponto dela ser um símbolo para o movimento feminista atual, pois seria a mulher dona de seu próprio destino, que não aceitaria mais a opressão do patriarcado. E como a religião judaico-cristã a pintava com tintas de ser das trevas, tudo se encaixaria ainda mais para o símbolo de feminismo desde os tempos da antiguidade, algo bem simbólico que o movimento feminista tanto buscava. Tão popular ela segue sendo que até mesmo em fóruns de internet muitas das jovens feministas e progressistas usam o nickname de Lilith para se comunicar entre si nos fóruns ligados a esse movimento de luta social. 

O mais interessante na história dessa personagem da mitologia antiga é perceber como ao longo dos séculos ela foi mudando de simbologia, sendo atualmente a figura mitológica antiga mais popular. Como produto puramente cultural, pois obviamente não existe demônio nenhum, ela segue sendo usada como símbolo de diversos movimentos ou aspirações, principalmente pelas mulheres mundo afora. Por essa os antigos religiosos não esperavam. 

Pablo Aluísio. 

sábado, 16 de dezembro de 2023

Os Escribas do Velho Testamento

Os Escribas do Velho Testamento
Quem escreveu a Bíblia? Quem são seus autores? A história, a arqueologia e a exegese dos velhos textos já encontraram a resposta. A Bíblia foi escrita por escribas que trabalhavam ora para o sacerdote de Jerusalém, ora para os antigos reis judeus. Dizer que a Bíblia foi escrita pelo Deus Jeová ou foi escrita sob a estrita inspiração de Deus é um conceito puramente teológico. Historicamente, nós temos que ir atrás dos verdadeiros autores desses vários livros que séculos depois foram reunidos em um só, dando origem a Bíblia, tal como a conhecemos atualmente. No mundo antigo, pouquíssimas pessoas sabiam ler e escrever. Estudos afirmam que os primeiros livros bíblicos foram escritos entre 600 a 400 anos antes de Cristo. Saber ler e escrever colocava um trabalhador no topo da elite intelectual de seu tempo. Esses eram os escribas. 

Esses escribas muitas vezes usaram como inspiração para elaboração de seus textos outras tradições religiosas de outros povos da época, como os persas e os babilônicos. É grande a influência da religião de Zaratustra sobre essas histórias mais antigas da Bíblia. Os personagens bíblicos também são de origens diversas. Alguns podem ter tido como base pessoas reais que realmente existiram, pessoas históricas. Mas de modo em geral afirma-se também que a maioria são de pura literatura. 

Moisés seria um dos mais cotados a ser meramente de ficção. Há indícios de um Moisés que criava imagens religiosas, mas esse provavelmente nada tinha a ver com o Moisés dos textos do velho testamento. Ele seria, basicamente, uma criação literária. O povo hebreu, tal como todos os outros povos da antiguidade, precisava também de sua própria mitologia de fundação, de origens daquele povo em questão. E não se pode negar que os escribas fizeram muito bem seu trabalho nesse sentido.

Outro aspecto importante a se considerar é que esses escribas muitas vezes apenas seguiam ordens de seus superiores. E muitas dessas antigas mitologias serviam para pacificar algum conflito social que acontecia naquele momento dentro daquela civilização. Por exemplo, a figura de Abraão. Ele seria apenas um símbolo, um grande patriarca que garantiria a propriedade e posse de terras para um determinado grupo social, deixando de fora os demais. Os filhos legítimos de Abraão teriam direito àquelas terras. Esses eram os judeus. Os descendentes dos filhos bastardos de Abraão não teriam direito de propriedade sobre aquelas terras. Esses formavam o povo árabe. Aliás esse conflito permanece vivo e violento até os dias de hoje, basta lembrar da atual guerra que se trava na Palestina. 

Dessa maneira a mitologia em si, baseada muitas vezes em política do calor do momento e antigas tradições orais, servia para apaziguar um determinado conflito que acontecia naquele momento histórico. Seria essa a origem, a fonte de todos esses textos do velho testamento. Infelizmente nenhum escriba assinou sua obra. Isso não era normal na antiguidade e nem era de interesse de reis e sacerdotes judeus. Com isso se perdeu para sempre o nome desses escritores antigos que eram inegavelmente talentosos em sua arte de escrever. 

Pablo Aluísio.

domingo, 26 de novembro de 2023

Papa Linus

Papa Linus
No decorrer dos séculos muito foi perdido em termos de precisão histórica da Igreja. O Papa Lino foi o segundo Papa da história da Igreja Católica. Foi o sucessor de Sâo Pedro, considerado o primeiro Papa por ter sido o fundador da Igreja de Jesus Cristo. Como grande parte dos escritos originais se perderam nesses séculos pouca coisa segura há para se desvendar sobre esse segundo Bispo de Roma, Lino. Sabe-se que nasceu na Toscana, filho de um homem chamado Herculano. Foi um dos primeiros a se converter ao cristianismo. Na época a nova crença era considerada uma religião perigosa e subversiva pelos imperadores romanos. Há controvérsias se Lino teria conhecido ou andado ao lado de Pedro, mas pode-se afirmar com certeza que ambos viveram no mesmo tempo e na mesma cidade, foram contemporâneos. Como a igreja ainda era uma instituição perseguida não se sabe com precisão quando começou seu pontificado. Não havia documentos escritos para evitar execuções dos líderes do movimento.

Para alguns historiadores porém Lino não seria o único a ostentar o título de Bispo de Roma em sua época. Ao que tudo indica o poder de se levar adiante a palavra de Cristo em um império que a oprimia pertencia a três homens diferentes, Lino,  Anacleto e Clemente. Segundo ainda tradições antigas Pedro teria passado a missão de levar em frente a igreja de Roma diretamente a Clemente, só que esse tinha pouca ambição de ostentar esse título (não se sabe se sua atitude partia de um certo temor de ser morto por autoridades imperiais ou por pura modéstia pessoal). Assim Clemente por ser muito modesto retirou-se logo dessa função. Anacleto por sua vez desapareceu subitamente dos poucos registros que sobreviveram, ficando claro que a partir de determinado momento coube a Lino a condução da Igreja logo após as mortes de Pedro e Paulo.

Não se sabe também com precisão por quanto tempo Lino foi Papa. Há um certo consenso de que ele teria ficado no trono de Pedro por onze anos e oito meses. Apesar da perseguição das autoridades seu pontificado foi considerado pacífico e administrativamente organizado. Ele escreveu um dos primeiros documentos da Igreja, um regulamento que proibia as mulheres cristãs de irem aos cultos sem o véu. Depois que Nero descobriu que Lino era o suposto líder da nova Igreja que nascia, resolveu que ele deveria ser martirizado. Segundo algumas fontes Lino foi morto no ano 78, sob as ordens do cônsul Saturnino. Existe uma lenda que Lino teria feito um exorcismo em sua filha, expulsando um demônio evocando o poder de Jesus.

De qualquer maneira, mesmo sem confirmação histórica precisa, o fato é que o Papa Lino teria deixado uma obra escrita em grego sobre os martírios de São Pedro e de São Paulo, contando também parte de suas histórias. Tal obra teria sido de imensa importância histórica hoje em dia, mas certos estudiosos acreditam que eles sofreram adulterações ao longo da história, sendo os escritos originais perdidos para sempre. A tradicional história do conflito entre São Pedro e Simão, o Mago, teria sido tirado do livro original de Lino. Outra suposição é que os textos teriam sido queimados por autoridades romanas que estavam decididas a destruir o movimento cristão em Roma. Em termos históricos o pontificado de Lino coincide com a invasão e destruição do templo de Jerusálem pelo imperador romano Tito, um fato que causou grande comoção entre os cristãos de Roma. A luta de Lino nos primórdios do cristianismo lhe valeu a canonização. Hoje o Papa é reconhecido pela Igreja Católica como São Lino.

Pablo Aluísio.

sexta-feira, 18 de setembro de 2020

São Francisco de Assis

"Vês a minha Igreja, Francisco? Está em ruínas! Vá e a reconstrói" - foram essas as palavras que Giovanni di Pietro di Bernardone (1182 - 1226) teria ouvido em uma de suas visões. Jovem, filho de um rico comerciante de Assis, que até aquele momento levava uma vida mundana, Francisco (um nome carinhoso dado a ele por sua própria família por causa de sua admiração pela cultura francesa) resolveu abandonar tudo, riqueza, dinheiro e poder para se dedicar a uma missão que marcaria não apenas sua própria vida, mas a do mundo em geral. Hoje ele é conhecido como São Francisco de Assis, um dos mais populares santos da rica tradição da Igreja Católica, mas naqueles tempos obscuros ele era apenas um jovem que resolveu seguir à risca o exemplo de Jesus Cristo. Adotou a pobreza, a caridade e a castidade como ideais de vida e resolveu transformar sua própria vida em uma demonstração viva do próprio evangelho. Sua pequena ordem foi considerada revolucionária em todos os aspectos. Enquanto os monges da época se enclausuravam em mosteiros de díficil acesso, alienados do mundo, Francisco e seus seguidores adotaram a pregação peregrina, indo a cidades e vilas distantes, levando a palavra e os ensinamentos de Jesus a todos, vivendo da caridade, sem ter qualquer bem material. Também foi pioneiro no carinho pelos animais e demais criaturas terrenas. A pequena ordem que fundou, os Franciscanos, até hoje é um das mais importantes ordens religiosas do mundo. Sua mensagem de paz e simplicidade tocou fundo o coração dos homens e Francisco é nos dias atuais tão importante e atual quanto era no século XIII.

De fato é impossível relatar uma vida tão rica em apenas um filme. Por isso esse "São Francisco de Assis", deve ser analisado com extrema cautela. É de se louvar o esforço do excelente diretor Michael Curtiz (o mesmo de "Casablanca") em dirigir esse épico religioso dessa magnitude no final de sua vida. Foi o último filme inteiramente dirigido por ele (já que no seguinte seu trabalho foi concluído por John Wayne, por causa de seu precário estado de saúde). Não há como negar que o resultado ficou muito bonito e principalmente respeitoso com o eterno legado de Francisco. Michael Curtiz merece todo o reconhecimento por mais um filme muito bom.

Mesmo assim não se poder negar que trechos importantes da vida do santo também foram ignorados ou mudados para se adequar melhor no pequeno espaço de tempo disponível. É um problema sem solução. Como escrevi, é simplesmente impossível captar uma alma tão grandiosa como a desse homem apenas em uma produção. Mas a despeito disso certamente a película merece aplausos. Em termos de elenco eu destaco a participação da atriz Dolores Hart que interpretou Santa Clara. Ao que tudo indica ela foi iluminada pelo doce exemplo de vida de Francisco e abandonou uma carreira promissora em Hollywood para se tornar freira beneditina algum tempo depois. Um exemplo maravilhoso em que a vida imita a arte. No saldo geral "São Francisco de Assis" é um belo épico que se não é completo ou definitivo, pelo menos abre as portas para quem sentir curiosidade em conhecer a fundo a história desse Francesco medieval que ainda hoje inspira milhares de pessoas mundo afora.

São Francisco de Assis (Francis of Assisi, Estados Unidos, 1961) Estúdio: Twentieth Century Fox / Direção: Michael Curtiz / Roteiro: Eugene Vale, baseado na obra de Ludwig von Wohl / Elenco: Bradford Dillman, Dolores Hart, Stuart Whitman, Cecil Kellaway, Finlay Currie / Sinopse: Cinebiografia de São Francisco de Assis, santo católico que nascido em família rica e influente, resolveu abandonar todos os bens materiais para cuidar dos pobres e desamparados. Levando uma vida simples, de extrema pobreza e devoção ao cristianismo acabou fundando uma das maiores ordens religiosas da história, a dos Franciscanos.

Pablo Aluísio.

sexta-feira, 7 de abril de 2017

Gunpowder

Série: Gunpowder
Episódio: Episode #1.1
Ano de Produção: 2017
País: Inglaterra
Estúdio: BBC - British Broadcasting Corporation
Direção: J Blakeson
Roteiro: Ronan Bennett, Kit Harington
Elenco: Liv Tyler, Derek Riddell, Kit Harington, Peter Mullan, Robert Emms, Thom Ashley
  
Sinopse e comentários:
Minissérie em três episódios produzida pela BBC. O enredo se passa durante o reinado de James I, rei escocês que assumiu o trono inglês por causa de uma eventualidade ocorrida na linha de sucessão do Reino Unido. O principal tema da história é a perseguição religiosa que os católicos sofreram dos protestantes anglicanos naquele período histórico. O Rei em si nem estava disposto a dar início a algo assim, porém influenciado por ministros inescrupulosos e fanáticos, começou a promover perseguições e torturas contra os assim chamados papistas. Um absurdo completo!

Claro que esses primeiros acontecimentos iriam culminar na figura revolucionária de Guy Fawkes, que nesse primeiro episódio ainda é apenas sugerido levemente. Isso apesar do próprio Guy surgir na última cena, esfaqueando um inimigo. Em termos de elenco temos dois nomes que se destacam:  Kit Harington, o Jon Snow de "Game of Thrones" e Liv Tyler, beldade dos anos 90 que andava bem sumida. Aqui ela ressurge já como uma jovem senhora. Como se trata de um produto com o selo BBC não precisa se preocupar em termos de produção. Tudo é do mais absoluto bom gosto, com reconstituição de época perfeita. É uma minissérie realmente acima da média, bem recomendada.

Pablo Aluísio.

domingo, 2 de outubro de 2011

História & Literatura - Edição II

O Barqueiro do Inferno
Esse personagem, segundo historiadores, tem entre 7 a 6 mil anos, desde sua criação original. Ele já era citado no Livro dos Mortos do Egito Antigo. Seria o barqueiro que iria ajudar os falecidos a atravessarem o rio das almas perdidas que ficava entre o mundo dos vivos e o mundo dos mortos. Para realizar essa travessia ele cobrava o valor de duas moedas de prata. Por isso, durante séculos, as pessoas eram enterradas com duas moedas sobre os olhos ou então uma moeda dentro da boca. Era para pagar o barqueiro do inferno.

A mitologia grega deu novos contornos a esse personagem da literatura. Ele ganhou um nome, Caronte, e uma origem. Ele seria na verdade filho de dois deuses, sua mãe era a deusa do caos e seu pai era o deus da escuridão. Ao cair em desgraça com Zeus ele teria sido amaldiçoado. De jovem grego belo e vigoroso, seria transformado em um esqueleto ambulante que passaria a eternidade atravessando os mortos para seu destino final. Ganhou um capuz negro que esconderia sua verdadeira face horrivelmente macabra. Caronte na mitologia grega também ganhou um irmão, chamado Corante, a quem mataria, jogando nas águas vermelhas do rio que atravessava. Por isso se tornaria duplamente amaldiçoado, para todo o sempre.

Séculos depois de sua criação essa estranha figura ainda iria ganhar mais uma releitura, no clássico escrito por Dante Alighieri, A Divina Comédia. Ele seria um dos primeiros personagens a surgir na história do homem que iria até o inferno. Esse barqueiro do inferno, como descrito por Dante, iria entrar definitivamente no inconsciente coletivo da humanidade. E a visão do inferno por Dante também jamais seria esquecida,  a tal ponto que é quase impossível pensar no inferno hoje e não vir à mente as imagens de um lugar em chamas, povoado por demônios e almas em eterno sofrimento. Dante criou o inferno tal como pensamos hoje. E é curioso também perceber que o barqueiro atravessou três grandes religiões, a do Egito antigo, a da Grécia e finalmente a do mundo judaico cristão, sendo também uma das figuras de literatura mais conhecidas do mundo. De certa maneira, Caronte ganhou mesmo a imortalidade, tal como quis Zeus na mitologia grega.

O Faraó Akhenaton e o Deus único
O Faraó Akhenaton está presente, mesmo que de forma indireta, nas maiores religiões monoteístas do mundo em que vivemos. E poucos percebem isso. Ele foi o primeiro grande líder religioso da história - na época o Faraó era não apenas um líder político, mas igualmente um líder religioso - a sustentar a crença em apenas um único Deus. De certa maneira Akhenaton criou o monoteísmo, tal como conhecemos. Nesse aspecto concordam todos os historiadores e arqueólogos modernos. Ele foi, ao seu modo, um Faraó bastante revolucionário em seu tempo.

A religião antiga era povoada de muitos deuses e deusas. Dezenas deles, cada um com sua próprias características divinas. Algo que as religiões da Grécia e da Roma antiga iria herdar. Só que o Faraó Akhenaton pensava diferente. Ele acreditava que havia apenas um único Deus que havia criado todas as coisas e todo o universo. Em um tempo primitivo como aquele ele associou essa entidade divina única ao Sol. Sim, sem o Sol não haveria vida. As plantas não cresceriam, o Rio Nilo não teria suas temporadas de cheia, tornando fértil os campos ao seu redor. Assim se havia um deus apenas, esse seria o Deus Sol. Todos os demais deuses não existiam. Eram apenas criações humanas.

Claro que essas ideias escandalizaram a classe sacerdotal que basicamente vivia das ofertas aos muitos templos que existiam no Egito. Cada um templo era dedicado a um deus do Egito antigo. Com as novas crenças do novo Faraó todo esse sistema era colocado em dúvida. Não tardou para que o clero da época considerasse Akhenaton um maldito, um Faraó herege e amaldiçoado. Esse duelo de teologias levaria o Faraó e seu deus Sol ao banimento no Egito, porém as sementes estavam lançadas, para sempre na história da humanidade. O povo judeu, que vivia como escravo no Egito, adotou essa forma de pensar. E eles também passaram a acreditar na existência de apenas um Deus, claro o seu Deus e não o Deus Sol de Akhenaton. As bases da crença monoteísta, que faz parte da colunas das maiores religiões do mundo atual, foram erguidas por esse singular Faraó do mundo antigo. Quem diria...

Os Arquivos Secretos Russos sobre Hitler
Recentemente os russos admitiram que possuem dois fragmentos que são os últimos resquícios dos restos mortais do ditador nazista Adolf Hitler. Se trata de parte da mandíbula, com dentes preservados e um pequeno fragmento de seu crânio. Os russos investigaram a fundo os últimos momentos do ditador nazista e traçaram um quadro de seus últimos momentos de vida. Como se sabe Hitler se matou quando os Soviéticos invadiram Berlim.

Nos arquivos os agentes russos da época não chegaram a uma conclusão definitiva. Eles não souberam precisar como o líder nazista alemão havia morrido. Havia duas hipóteses. A primeira é que ele teria tomado uma cápsula de cianureto. A segunda dizia que ele teria dado um tiro na cabeça. Depois de morto seu corpo foi levado para fora do bunker onde ele se escondia. Alguns oficiais do exército jogaram gasolina em cima e tocaram fogo. Nesse mesmo lugar uma bomba cairia depois. Quando os russos chegaram havia pouco de seu corpo a recuperar.

Hitler não queria que seu corpo fosse exibido como um trófeu pelos russos. Por isso decidiu que não deveria sobrar nada. Porém sobrou pequenos vestígios de seus restos mortais. Esses foram levados para Moscou e ficaram anos classificados como "arquivo secreto", sem acesso por outras pessoas que não fossem autorizadas pelas autoridades soviéticas. Só em 2008 esses restos mortais foram disponibilizados a cientistas e pesquisadores internacionais. Os testes foram conclusivos. Eles pertenciam mesmo ao ditador nazista. Foi tudo o que sobrou de seu III Reich, que deveria, na visão dos seus seguidores, durar mil anos. 

Lilith, primeira esposa de Adão ou demônio?
Alguns textos antigos trazem a lenda de Lilith. E quem seria essa mulher? Para uma linha do judaísmo mais antigo e envolvido no misticismo, Lilith era na verdade a primeira mulher de Adão, anterior até mesmo ao surgimento de Eva. Lilith nasceu tal como Adão, foi criada da mesma forma que Adão. Já Eva teria nascido de sua costela. Por essa razão Adão teria usado a expressão "Essa sim é carne da minha carne e ossos dos meus ossos". Se Eva era carne de sua carne, então Lilith teria surgida de outra maneira. Criada tal como Adão no começo da humanidade, em seus primórdios.

Em textos judaicos surgidos por volta do século VII, Lilith tem sua história completa contada. Ela teria sido sim a mulher de Adão, a sua primeira mulher. Porém ela tinha uma personalidade rebelde. Quando ia fazer sexo com Adão só aceitava ficar por cima. Era desobediente e dona de si. Por essa razão Adão a baniu do paraíso. Lilith então teria se transformado em um demônio. Perceba que a história dessa personagem corrobora e muito com a visão de que Lilith teria sido a primeira feminista da história.

Já em sua segunda encarnação como demônio, Lilith passaria a matar crianças no berço, como uma forma de vingança, de ira com o que teria lhe acontecido no passado. Artefatos antigos encontrados em Israel, datando de séculos no passado confirma que o povo judeu antigo tinha essa crença. Eram objetos de natureza religiosa e mística, contra a presença de Lilith nos quartos das crianças de berço.

Hoje em dia historiadores da religião antiga acreditam que Lilith foi uma deusa antiga, provavelmente adorada por povos que viviam na Mesopotâmia. Sua tradição teria chegado ao povo hebreu e aí recebeu uma nova conotação, inclusive com novas origens, etc. E de fato antigos deuses geralmente acabavam virando demônios dentro da literatura produzida na religião judaica. Era uma forma de impedir que fossem adorados como deuses dentro seio do povo judeu. 

A batalha de Stalingrado
Recentemente assisti, pelo Youtube mesmo, um documentário sobre a sangrenta Batalha de Stalingrado. É um documentário em 3 partes, cuja oportunidade só tive de ver 2, logo a primeira e a última parte. Na parte 1 acompanhamos as ordens de Hitler para que o sexto exército alemão tomasse de todas as formas a cidade de Stalingrado. Qual seria a razão? Pelo simples motivo da cidade trazer o nome de Stálin. Sim, um mero capricho de Hitler. Ele acreditava que ao tomar a cidade a moral de suas tropas iriam elevar-se. Bobagem.

Os alemães chegaram com 300 mil militares nas portas da cidade soviética. Inicialmente acharam que seria uma vitória fácil. Em 1 semana tomariam a cidade. Erraram feio. Não apenas os soldados do exército vermelho que estavam na cidade lutaram bravamente, como também os civis. Foi uma batalha de muitas baixas de ambas as partes. Uma daquelas batalhas de se lutar porta a porta, casa a casa, ruela por ruela. Os russos colocaram franco atiradores nos altos dos prédios. Esses miravam nas cabeças dos militares do III Reich. Foi um massacre.

Os soldados nazistas tiveram uma péssima surpresa. Primeiro pela morte de 200 mil homens na luta de guerrilha violenta de Stalingrado. Depois quando os 100 mil sobreviventes do exército de Hitler descobriram que havia 1 milhão de soldados russos os cercando. Eles tinham chegado da Sibéria com gosto de gás. O resultado? Os alemães ficaram presos em um lugar que chamaram de "o caldeirão". Os russos vieram por trás e os dizimaram, sem dó e nem piedade. No final da batalha de Stalingrado, dos 300 mil homens da Alemanha, apenas seis mil retornaram para casa. 294 mil soldados e oficiais do III Reich foram mortos e jamais voltaram dessa sangrenta e inesquecível batalha que foi considerada a primeira grande derrota de Hitler na II Grande Guerra Mundial.

Pablo Aluísio.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Zelota - A Vida e a Época de Jesus de Nazaré

Nesse fim de semana terminei a leitura do livro "Zelota - A Vida e a Época de Jesus de Nazaré" do autor iraniano Reza Aslan. Apesar de sua origem, de formação muçulmana, o escritor foi logo cedo morar nos Estados Unidos onde se tornou cristão. Na verdade, como ele próprio confessa no livro, jamais sua família foi muito religiosa, apesar de terem nascido no Irã, um dos berços do radicalismo fundamentalista islâmico. Como cristão ele se apaixonou pela história de Jesus Cristo e quando entrou para a universidade resolveu ir atrás do Jesus histórico e não apenas do Jesus dos evangelhos. Durante anos pesquisou fontes históricas imparciais sobre Jesus e desse estudo nasceu o livro.

Para Aslan o Jesus histórico foi de certa maneira muito diferente do Jesus que chegou até nós. Segundo sua teoria o Jesus da Bíblia é de certa maneira uma criação de Paulo, um judeu de formação helenista que não chegou a conhecer Jesus pessoalmente. Para reforçar sua tese Aslan disseca o mundo político e social em que Jesus viveu e as influências do meio em sua vida. Para o escritor o Jesus real da história tem muito mais a ver com o Messias tradicional pelo qual os judeus há tanto esperavam. E qual era esse Messias? Certamente não era aquele que vinha para divulgar a paz e o amor de Deus entre os homens, mas sim o revolucionário que almejava a expulsão dos romanos da Judeia. E foi por essa razão que o escritor resolveu chamar o livro de Zelota, pois esse foi um movimento religioso político muito importante naqueles tempos. O próprio Jesus seria assim, ele mesmo, uma espécie de  Zelota, alguém que primava pelo Zelo da fé judaica, pelas tradições religiosas de seu povo judeu e pelo Templo. Nada muito além disso.

Aslan assim enxerga o surgimento desse outro Jesus, o do pacifista e do Deus encarnado. Para ele essa foi uma criação dos escritos de Paulo, algo que entrou em choque frontalmente com os primeiros cristãos liderados por Tiago, o Justo, que seria supostamente o irmão de Jesus, também filho de Maria. O autor defende a tese que após a morte de Jesus a chamada igreja primitiva ficou em Jerusalém, comandada e chefiada por Tiago e os demais apóstolos que ainda estavam vivos (entre eles, Pedro). Essa era chamada de assembleia mãe, por ser formada basicamente pelas pessoas que andaram ao lado de Jesus. Quando Paulo começou a pregar e escrever sobre Jesus, criando assim a figura do Cristo, a igreja primitiva de Jerusalém logo entrou em conflito com ele. Havia muitas discordâncias entre os primeiros cristãos, principalmente sobre a real importância de Jesus e a essência de sua mensagem. Paulo tinha uma visão helenista pois escrevia para o mundo grego e romano, para os gentios, enquanto Tiago, Pedro e os primeiros seguidores de Jesus (chamados de hebreus), queriam que a mensagem de Jesus se enquadrasse completamente dentro dos princípios do judaísmo tradicional.

Com a destruição do templo de Jerusalém e a morte de milhares de judeus (entre eles praticamente toda a igreja primitiva dos que andaram ao lado de Jesus) a visão de Paulo enfim se tornou vitoriosa sob o ponto de vista histórico. A pergunta que o autor Aslan então debate é: essa visão teve realmente algo a ver com o verdadeiro Jesus histórico? Citando documentos antigos, trechos da bíblia e estudos acadêmicos, o escritor quer deixar claro em seu livro que há sim uma grande diferença entre o galileu que andou e pregou na Judeia dominada pelos romanos e o Messias que emerge do Novo Testamento. O primeiro teria sido um revolucionário de fato, que queria a expulsão do invasor romano da terra santa enquanto o segundo seria uma adaptação Paulina onde seu fervor nacionalista teria sido amenizado para surgir no lugar um pregador de um mundo mais abstrato, o chamado Reino de Deus, que nada teria a ver de fato com o Império Romano.

O leitor católico deve ler esse livro com uma certa reserva. Sua tese histórica é bem elaborada, porém não me convenceu plenamente. O escritor força a barra muitas vezes, tentando manter sua tese de pé baseada muitas vezes apenas em suposições ou argumentações que nunca foram comprovadas sob o ponto de vista da história. Embora haja referências da antiguidade sobre Jesus, como Josefo que se refere a "Tiago, irmão de Jesus, a quem chamam de Messias" (a mais antiga citação histórica sobre Jesus de Nazaré), o fato é que o evangelho ainda segue sendo a principal fonte sobre a vida e a obra de Jesus. Não adianta ficar discutindo se houve ou não julgamento de Jesus perante Pilatos ou se Jesus era na verdade um mágico que enganava as pessoas. Isso jamais será provado historicamente. A vida de Jesus Cristo está tão intimamente associada a uma convicção religiosa que sempre será uma questão de fé! Como um historiador moderno poderá discutir de forma histórica o advento da ressurreição de Jesus? É simplesmente impossível. Por isso eu até recomendaria o livro para aquele que deseja saber mais sobre o quadro político histórico e social do mundo em que Jesus viveu, mas certamente não indicaria para quem está atrás do Jesus da fé, do coração de cada cristão devoto.

Pablo Aluísio. 

domingo, 28 de agosto de 2011

10 Curiosidades da Guarda Suíça

A Guarda Suíça - Um dos símbolos do Vaticano é a Guarda Suíca, o grupo militar que protege o Papa quando ele está dentro dos portões do Vaticano. A Guarda Suíca está ao lado do Papa desde o ano de 1503. Aqui vão algumas curiosidades sobre ela:

1. Os membros da Guarda Suíça são celibatários? Para os oficiais da Guarda Suíça essa não é uma exigência, porém para ser escolhido a fazer parte como soldado da Guarda Suíça é necessário que se seja solteiro e não comprometido.

2. Qual é o contingente da Guarda Suíça?
A Guarda Suíça é considerado o menor exército do mundo com apenas trinta e um oficiais e setenta e oito soldados. Todos eles precisam fazer juramentos de que defenderão o Papa e os cardeais com suas próprias vidas, até a morte.

3. Quem criou o uniforme da Guarda Suíça?
Foi o próprio Michelangelo, seguindo ordens estritas do Papa da época. O artista assim procurou por uma bela harmonia de cores, tal como se fosse um quadro ou uma pintura. O resultado final ficou extremamente belo. A tradição de manter o mesmo uniforme mesmo após séculos de sua criação remete ao que ocorre com a Guarda Britânica da realeza que também preferiu manter a mesma vestimenta, sem mudanças.

4. Qual é a origem da Guarda Suíça?
No século XV eles formavam um grupo mercenário que vendia suas habilidades militares para os nobres europeus que pagassem melhor. Depois resolveram defender o papado pois todos eram católicos e tinham afinidades com a liga católica. Em 1503 a Guarda chegou ao Vaticano pela primeira vez. Três anos depois foram oficializados como guardas pessoais do Papa em Roma, ligação que dura até os dias de hoje.

5. Qual é a língua falada pelos membros da Guarda Suíça?
Embora o Latim seja a língua oficial do Vaticano, os oficiais e guardas falam o alemão. Ordens e documentos da Guarda Suíça são escritos nessa língua, uma tradição que também foi mantida.

6. Desde sua chegada no Vaticano a Guarda Suíça foi dissolvida em algum momento?
Sim, durante as guerras napoleônicas a Guarda Suíça foi oficialmente dissolvida pelo Papa Pio VI. Acontece que ele estava feito refém do imperador Napoleão Bonaparte. Sabendo que não havia como lutar contra o numeroso exército do imperador francês a Guarda Suíça foi dissolvida para evitar a morte de todos os seus membros. Quando Napoleão foi derrotado pelos ingleses eles voltaram a se unir em defesa do Papado.

7. O Que determinou o Papa Pio XII à Guarda Suíça quando Roma foi ocupada pelos nazistas?
Durante a II Guerra Mundial os nazistas entraram em Roma. Os membros da guarda suíça estavam preparados para defendê-lo até a morte, mas o Papa preferiu agir com bom senso determinando que eles não derramassem sangue dentro dos muros do Vaticano.

8. Quais são os requisitos para se fazer parte da Guarda Suíça?
Os aspirantes a entrar na Guarda Suíça precisam ser do sexo masculino, estarem com boa saúde física e mental, terem no mínimo 1.74 de altura, católicos, com curso completo de ensino médio (no mínimo). Além disso precisam ser solteiros, terem boa reputação social e nenhuma condenação criminal (ficha limpa). Por fim precisam estar na faixa etária entre 18 a 30 anos. Um requisito muito importante é também terem tido algum tipo de treinamento militar, de preferência no exército suíço.

9. A Guarda Suíça tem alguma ligação histórica com os Cavaleiros Templários?
Uma velha lenda dizia que a Guarda Suíça teria sido formada por remanescentes dos cavaleiros templários, mas essa lenda não tem bases históricas sólidas. Na verdade a única ligação entre os dois grupos vem da Suíça, pois foi para lá que os sobreviventes dos Templários fugiram quando sua ordem foi dissolvida pelo Papa. Essa porém é apenas uma coincidência histórica e nada mais.

10. A Guarda Suíça já lutou fora do território do Vaticano?
Sim, no século XVI o Papa Pio V enviou a Guarda Suíça para lutar contra os turcos muçulmanos que ameaçavam os reinos cristãos. Os bravos soldados da Guarda Suíça venceram a batalha, mesmo estando em um número menor em termos de soldados.

Pablo Aluísio.