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segunda-feira, 2 de novembro de 2026

O Homem do Terno Cinzento

O Homem do Terno Cinzento
O filme é extremamente bem feito e roteirizado. Basicamente é um retrato de um homem comum que volta da II Guerra Mundial e tenta criar sua família da melhor forma possível nos anos 1950. Ex-capitão do exército americano, Tom Rath (Gregory Peck), sente na pele os problemas após seu retorno aos Estados Unidos. Passando por dificuldades financeiras, com três filhos e uma esposa insatisfeita e infeliz (interpretada pela atriz Jennifer Jones) ele tenta administrar os problemas familiares e profissionais em meio a uma crise de identidade. O contexto histórico do filme é interessante porque enfoca o pós-guerra, quando milhares de americanos precisou se adaptar aos novos tempos.

Gostei bastante do tom da produção, pois é um filme extremamente sério e realista e não joga panos quentes na situação, principalmente quando se descobre anos depois que o capitão teria tido um filho com uma mulher italiana, na Europa, onde servia o exército. Outro aspecto curioso é a forma como é mostrada uma agência de publicidade naquela época - coisa que acabou sendo justamente o foco do seriado de grande sucesso da AMC, Mad Men. Curiosamente o filme se torna bem atual pois muitos ex-militares americanos ainda encontram dificuldades de se inserirem na vida civil após servirem anos nas forças armadas. Falta de qualificação profissional, desemprego ou subempregos ainda são bastante comum na vida dessas pessoas. Pelo visto mesmo após muitos anos a situação ainda permanece a mesma.

Outro ponto positivo de "O Homem do Terno Cinzento" é seu elenco. Gregory Peck novamente repete seu papel de homem íntegro, embora aqui haja fendas no caráter de seu personagem. Seu estilo de interpretação minimalista até hoje causa impacto. Peck era sutil e conseguia transmitir muito bem as emoções de seus personagens sem recorrer a exageros dramáticos. Já Jennifer Jones derrapa um pouco nas caras e bocas, se tornando um pouco exagerada, mas nada que comprometa o filme como um todo. Eu gosto dessa atriz, recentemente a vi em "A Canção de Bernadette" e ela sempre conseguia mostrar um bom trabalho. Aqui seu trabalho ficou um pouco comprometido. O diretor Nunnally Jonhson era na realidade um roteirista conceituado em Hollywood que ganhou a chance de dirigir alguns filmes (nenhum extremamente marcante). Isso talvez explique o alto nível do roteiro de "O Homem do Terno Cinzento" que procura sempre desenvolver todos os personagens em cena, mostrando seus dramas familiares e pessoais. Enfim, aqui temos um excelente drama dos anos 50. Um ótimo exemplo para se conhecer o que era realizado no gênero pelo cinema americano na época

O Homem do Terno Cinzento (The Man in the Gray Flannel Suit, Estados Unidos, 1956) Direção: Nunnally Johnson / Roteiro: Nunnally Johnson baseado no livro de Sloan Wilson / Elenco: Gregory Peck, Jennifer Jones e Fredric March / Sinopse: Após o fim da Segunda Guerra Mundial, Tom Rath (Gregory Peck) tenta retomar a vida normal nos Estados Unidos, mas encontra dificuldades, tanto no aspecto profissional, como também na vida familiar pois sua esposa, Betsy Rath (Jennifer Jones) apresenta problemas emocionais. Filme premiado no Cannes Film Festival.

Pablo Aluísio. 

terça-feira, 27 de outubro de 2026

Jornada Sangrenta

Jornada Sangrenta
Na véspera do começo da guerra civil americana o tenente Jed Sayre (Audie Murphy) é enviado para um distante forte da cavalaria, nos confins da fronteira. A região é pacificada, pois vigora há muitos anos um tratado de paz entre o governo americano e a nação Navajo. O novo comandante da guarnição também é um novato, o capitão Lee Whitlock (Robert Sterling), que logo demonstra pouca experiência no contato com os indígenas nativos. Após o desaparecimento de uma carroça com armamentos e munições a situação volta a ficar tensa. Acontece que logo surgem boatos de que as armas tinham sido roubadas pelos Navajos. A notícia logo chega aos ouvidos do General B.N. Stone (Ray Collins). Ele, fingindo estar surpreso, exige que a carga seja devolvida ao exército imediatamente. A situação soa estranha para o tenente Jed (Murphy), uma vez que ele acredita na inocência dos índios locais. O que os envolvidos não sabem é que tudo no fundo é uma artimanha do General Stone, um sulista que almeja abandonar o exército da União para se unir às forças da Confederação. Antes de anunciar sua traição porém ele deseja que uma nova guerra entre a cavalaria e os Navajos estoure pois assim as tropas do exército americano ficariam fragilizadas ao enfrentar uma nova guerra com os nativos.

Mais um bom western estrelado pelo ator Audie Murphy. Aqui ele interpreta um tenente com larga experiência que começa a entender que está na verdade no meio de uma grande conspiração envolvendo inclusive o seu general, alguém que deveria seguir ordens, mas que na verdade se trata de um traidor perigoso. Amigo dos Navajos, inclusive de seu chefe, ao qual conhece há muitos anos, ele terá que evitar um verdadeiro massacre gratuito pois acaba descobrindo que os roubos e mortes atribuídos aos Navajos não foram cometidos por eles, mas sim por homens cumprindo ordens do general corrupto.

"Jornada Sangrenta" além de ser um western acima da média, com muita ação e batalhas, ainda traz um belo roteiro, muito bem arquitetado que mostra uma situação que foi bem real no começo da guerra civil quando muitos oficiais de alta patente simplesmente deserdaram para as tropas rebeldes, confederadas do sul, causando um grande problema de evasão nas tropas da União, chamadas de Ianques. Audie Murphy, herói de guerra na vida real, representa toda a lealdade daqueles que lutaram ao lado dos casacos azuis. No final das contas "Jornada Sangrenta" é de fato um bom retrato de um dos momentos mais violentos da história dos Estados Unidos.

Jornada Sangrenta (Column South, Estados Unidos, 1953) Direção: Frederick De Cordova / Roteiro: William Sackheim / Elenco: Audie Murphy, Joan Evans, Robert Sterling, Ray Collins / Sinopse: Um pelotão da cavalaria americana estacionada em um forte da fronteira com a nação Navajo se torna peça de intriga de um perigoso jogo político envolvendo um general traidor que nas vésperas da guerra civil pretende aderir ao exército rebelde confederado do Sul.

Pablo Aluísio.

terça-feira, 20 de outubro de 2026

Santa Fé

Santa Fé
Após o fim da guerra entre o exército confederado e o exército da União, durante a guerra civil americana, um grupo de irmãos, ex-soldados da confederação, vagam pelo oeste em busca de trabalho e oportunidade. O conflito acabou, mas as rivalidades ainda permanecem vivas. Chegando em um pequena cidade do interior, o grupo acaba encontrando dois soldados ianques em um saloon. Após algumas trocas de farpas entre eles, o clima fica pesado e em legítima defesa um dos irmãos mata um dos militares. Imediatamente fogem da cidade, mas são perseguidos pelo xerife local. Encurralados, não encontram outra saída a não ser entrar no primeiro trem que encontram pela frente. A locomotiva está levando homens para trabalhar na ferrovia de Santa Fé que procura ligar as costas do Atlântico ao Pacífico dos Estados Unidos. O gerente da construção é um ex-oficial ianque, o que logo desperta as antipatias dos irmãos Canfields, menos do mais velho, Britt Canfield (Randolph Scott), que decide entrar para a ferrovia, virando uma espécie de gerente de obras. Os seus irmãos porém não entram na empresa e o pior de tudo, planejam um grande assalto contra ela quando o dinheiro dos trabalhadores chegar na construção no dia de seus pagamentos. O destino, como se pode perceber, colocará irmão contra irmão numa situação mais do que delicada.

Esse é a premissa inicial desse western "Santa Fé", mais um bom momento da filmografia do ator Randolph Scott. Aqui ele surge não apenas como ator, mas também como produtor da fita que foi realizada pela Columbia Pictures. O enredo explora a expansão rumo ao velho oeste, com a construção das estradas de ferro. Essa inovação tecnológica foi a grande responsável pelo avanço da nação americana uma vez que constituiu uma grande revolução nos meios de transporte dos Estados Unidos, a um custo relativamente baixo, com ótimos resultados comerciais aliada a muita eficiência.

Quem assistiu a série da AMC "Hell on Wheels" vai notar inúmeras semelhanças entre essa película e o enredo do seriado. Basta perceber que o tema é concentrado na construção da estrada de ferro rumo ao oeste selvagem. O gerente de obras é um ex-confederado. Até mesmo o responsável pela segurança do acampamento dos trabalhadores é um sueco! Ao meu ver são semelhanças demais para ignorar. E tanto lá como aqui temos um caso amoroso envolvendo o ex-confederado e uma bonita mulher, responsável pela administração das obras. Enfim, temos roteiros quase iguais. Fica por demais óbvio que, ou o roteiro desse western clássico ou então o texto original escrito pelo autor inglês James Vance Marshall, serviram de inspiração para a nova série. De uma maneira ou outra, fica aqui mais uma dica, "Santa Fé", um faroeste com o sabor das antigas matinês. Mais um bom western estrelado por Randolph Scott.

Santa Fé (Santa Fe, Estados Unidos, 1951) Direção: Irving Pichel / Roteiro: Kenneth Gamet baseado no livro de James Vance Marshall / Elenco: Randolph Scott, Janis Carter, Jerome Courtland / Sinopse: Um ex-soldado confederado chamado Britt Canfield (Randolph Scott) vai trabalhar na ferrovia de Santa Fé ao mesmo tempo em que seus irmãos planejam um grande assalto na empresa. A situação colocará ambos em lados opostos da lei.

Pablo Aluísio.

segunda-feira, 5 de outubro de 2026

O Nono Mandamento

Título no Brasil: O Nono Mandamento
Título Original: Strangers When We Meet
Ano de Lançamento: 1960
País: Estados Unidos
Estúdio: Bryna Productions
Direção: Richard Quine
Roteiro: Evan Hunter
Elenco: Kirk Douglas, Kim Novak, Walter Matthau, Ernie Kovacs, Barbara Rush, Virginia Bruce

Sinopse:
Larry Coe (Kirk Douglas) é um arquiteto bem sucedido. Ele mora com a esposa e filhos em um bairro elegante de Los Angeles. Ao levar o filho para tomar o ônibus escolar ele conhece casualmente Margareth (Kim Novak), mãe de um dos alunos que também estuda na mesma escola. Logo surge uma forte atração entre eles, o problema é que ambos são casados e isso vai despertar não apenas uma paixão avassaladora, como também uma série de problemas familiares e sociais. 

Comentários:
Filme excelente, um drama romântico que discute a questão do divórcio, das relações fora do casamento e do próprio desgaste que um relacionamento de longa data pode causar. Mostra porque tantas pessoas são infelizes em seus matrimônios. No caso temos um homem e uma mulher que são mais do que infelizes em seus casamentos, mesmo tentando manter as falsas aparências na sociedade. Quando se conhecem se apaixonam, mas ficam presos às convenções sociais. O estigma do adultério passa a rondar esse novo romance. A questão toda é discutida com extrema elegância por esse roteiro. Kirk Douglas segue seu tipo habitual, com muita jovialidade, mas quem se sai melhor no quesito atuação é mesmo a atriz Kim Novak. Sua personagem é bem ambígua, sedutora, mas ao mesmo tempo reservada. Adúltera, mas tentando salvar um casamento falido. Cheia de culpas pessoais, mas igualmente muito apaixonada! No final quem ganha mesmo é o espectador pois esse é um dos melhores filmes sobre o tema. Tudo levado em um clima adulto e sem falsos moralismos, típicos daquela época em que o filme foi produzido. Merece todos os meus aplausos! 

Pablo Aluísio.

San Francisco - A Cidade do Pecado

Título no Brasil: San Francisco - A Cidade do Pecado
Título Original: San Francisco
Ano de Lançamento: 1936
País: Estados Unidos
Estúdio: Metro-Goldwyn-Mayer (MGM)
Direção: W.S. Van Dyke
Roteiro: Anita Loos, Robert E. Hopkins
Elenco: Clark Gable, Jeanette MacDonald, Spencer Tracy, Jack Holt, Jessie Ralph, Ted Healy

Sinopse:
A história do filme se passa no ano de 1906, na cidade de San Francisco, na Califórnia. Uma jovem cantora cai nas graças do público e passa a ser disputada entre um rico empresário da cidade e um agente de novos talentos que deseja a todo custo assinar um contrato de exclusividade com ela. Filme premiado no Oscar na categoria de Melhor Som (Douglas Shearer). 

Comentários:
Clark Gable não queria fazer esse filme. Era praticamente um musical e Gable não se sentia confortável nesse gênero cinematográfico. Além disso ele não gostava de San Francisco. Boatos maliciosos da época diziam que ele havia dito as seguintes frases: "Não quero ir para San Francisco. Odeio esse lugar! É uma cidade cheia de homossexuais!". Pura homofobia, claro, se a frase for verdadeira. De qualquer forma ele estava preso a um contrato com a poderosa MGM e não poderia recusar. Assim engoliu todas as suas opiniões negativas sobre a cidade, fez as malas e foi para San Francisco rodar a película. É um filme divertido, mas devo dizer que faltou mesmo uma grande estrela feminina no elenco, alguém como Marilyn Monroe, por exemplo. E Gable, vamos ser sinceros, não pareceu mesmo muito interessado no filme. Está no controle remoto. Enfim, hoje em dia, vale como curiosidade da cinamotografia musical dos anos 1930 e por ter Gable no elenco. Nada muito além disso. 

Pablo Aluísio.

terça-feira, 4 de agosto de 2026

Pistoleiros do Entardecer

Pistoleiros do Entardecer
Grande filme. Esse western mostra muito bem a diferença que faz um grande diretor. Veja, tinha tudo para ser mais um faroeste de rotina da carreira de Randolph Scott mas isso seria óbvio demais. Sam Peckinpah consegue reverter certas máximas do gênero ao mesmo tempo em que é respeitoso à mitologia do velho oeste. Ao contrário de usar personagens que são indiscutivelmente mocinhos ou bandidos, o diretor coloca em cena sujeitos dúbios, que transitam entre cometer crimes ou protagonizar momentos de grande honra pessoal. É o caso de Gil Westrum (o último personagem da carreira de Randolph Scott que abandonaria o cinema logo após). Gil tem como objetivo roubar o ouro que foi contratado a transportar mas como acompanhamos no desenrolar do filme esse é apenas o ponto de partida de tudo o que acontecerá nas montanhas.

É bom frisar porém que a estética da violência que seria marca registrada do diretor ainda não está presente nesse filme, o que era de se esperar. Filmado na primeira metade dos anos 60 o cineasta ainda não havia levado às últimas consequências suas escolhas estéticas e cinematográficas. Mesmo assim o filme é surpreendentemente bem roteirizado, com um clímax excelente, de tirar o chapéu. No final quem melhor define a essência do filme é a personagem Elsa (interpretada pela atriz Meriette Hartley). Ela explica que sempre foi levada a crer que havia o bem e o mal absolutos na vida, mas que depois de tudo o que passou compreendeu que na vida há pessoas que transitam de um lado ao outro, em uma zona cinzenta, tal como os personagens desse western. Uma conclusão simplesmente perfeita.

Pistoleiros do Entardecer (Ride the High Country, Estados Unidos, 1962) / Direção: Sam Peckinpah / Roteiro:N.B. Stone Jr./ Com Randolph Scott, Joel McCrea, Mariette Hartley, Ron Starr e Edgar Buchanan / Sinopse: Um envelhecido ex-xerife, Steve Judd (Joel McCrea), é contratado para transportar uma remessa de ouro através de um território perigoso. Ele contrata um velho parceiro, Gil Westrum (Randolph Scott), e seu protegido, o jovem Heck Longtre (Ron Starr), para ajudá-lo. Porém Steve não imagina que Gil e Heck planejam roubar o ouro, com ou sem a ajuda dele.

Pablo Aluísio.

O Xerife do Oeste

O Xerife do Oeste
"O Xerife do Oeste" faz parte da última fase da carreira do ator John Wayne. É um dos últimos trabalhos do Duke. O fato é que Wayne se recusava a se aposentar pois acreditava que a aposentadoria acabaria com ele. Além disso sempre afirmava que iria trabalhar até o final de seus dias pois era a única coisa que sabia fazer na vida. Ostracismo, nem pensar. Curiosamente mesmo já envelhecido, beirando os 70 anos, o ator ainda conseguia passar carisma e prender a atenção do espectador, arrecadando boas bilheterias, isso em uma época em que o western já mostrava claros sinais de esgotamento. "O Xerife do Oeste", também conhecido como "Cahill" repete de certa forma os velhos clichês do gênero. John Wayne sabia o que o público queria dele e procurava não inventar muito. Assim ele fez questão de realizar mais um faroeste ao velho estilo, com o roteiro que poderia muito bem ter sido escrito nos anos 50. E quando digo "realizar" não é força de expressão, o filme é dele, foi produzido por seu filho, Michael Wayne, e a produção contou com dinheiro saído do próprio bolso do ator. Alguns estudiosos da carreira de John Wayne inclusive vão mais longe e afirmam que diretor apenas assinou pois foi Wayne quem realmente dirigiu as cenas.

Tanto empenho pessoal valeu a pena. "Cahill" é o que eu chamo de um produto honesto. Os fãs de John Wayne receberam justamente aquilo que esperavam, ou seja, o velho cowboy ainda liquidando seus inimigos sem fazer muita força (e sem despentear a peruca impecável), um vilão asqueroso (o ótimo George Kennedy, velho companheiro de Wayne dos filmes antigos) e um pouco de humor em pequenas pitadas aqui e ali. Só não gostei muito do final, que tem um moralismo um tanto quanto questionável. Mas isso é o de menos, "O Xerife do Oeste" vale a pena, principalmente para quem quer matar saudades do antigo astro de Hollywood. A lenda do velho oeste vive!

O Xerife do Oeste (Cahill U.S. Marshal, Estados Unidos, 1973) / Direção: Andrew V. McLaglen / Com John Wayne, George Kennedy e Gary Grimes / Sinopse: De volta a sua cidade, o xerife (John Wayne) encontra dois de seus assistentes mortos num assalto e na cadeia quatro presos, entre eles seu filho, acusados de ter participado da chacina. O obstinado agente da justiça passa a perseguir um grupo de bandidos.

Pablo Aluísio.

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

O Manto Sagrado

O Manto Sagrado
Clássico filme épico, passado nos tempos da Roma Antiga. Na história, o tribuno romano Marcellus Gallio (Richard Burton) acaba tendo um um atrito, em um leilão de escravos, com o futuro imperador Calígula (Jay Robinson). Como punição, ele é então enviado para a distante Judéia, onde começa a prestar serviço militar na cidade de Jerusalém, durante a Páscoa. Lá acaba tomando contato com o turbulento quadro político local, onde o povo judeu espera por um Messias que o libertará do poder do Império Romano. Ao lado de seu escravo Demetrius (Victor Mature), acaba participando da crucificação de um homem chamado Jesus que se diz filho de Deus. Após sua morte na cruz, ele ganha seu manto em um jogo de dados. O contato com a relíquia e a mensagem do Nazareno porém mudará completamente sua vida.

"O Manto Sagrado" pode ser analisado sobre três pontos de vista diferentes. Você pode assistir sob um aspecto religioso, histórico ou cinematográfico. Sob o ponto de vista religioso é uma obra bem intencionada, que procura mostrar o surgimento do cristianismo logo nos primeiros meses após a morte de Jesus Cristo. A mensagem em si, de não violência, de renúncia, inclusive da vida, como vemos nos casos dos mártires que se recusam a negar Cristo em troca de não serem condenados à morte, são relevantes e pertinentes. A figura de Pedro surge também bem fiel aos escritos e tradições dos primeiros anos da nova fé. Assim olhando puramente a mensagem que o filme tenta passar ao seu público, não há o que criticar.

O fato porém é que nem só de boas intenções pode viver o cinema. Assim temos que analisar a produção também sob o ponto de vista da história e nesse aspecto não há como negar que o roteiro apresenta várias falhas. Só para citar um exemplo, temos uma cena em que o próprio Imperador Tibério recebe a notícia da morte de um suposto Messias em Jerusalém e fica bastante abalado com o fato. Chega ao ponto de fazer um pequeno discurso sobre o perigo da nova fé que poderia destruir os alicerces da sociedade romana como um todo! Ora, historiadores concordam que Tibério sequer tomou conhecimento da existência de Jesus, já que até sua morte o cristianismo ainda não tinha tomado as proporções que iriam atingir em épocas posteriores, como a de Nero. Na verdade, como se trata de um romance apenas inspirado em fatos históricos, temos que esperar por esse tipo de licença poética, onde personagens que realmente existiram surgem em cenas de pura ficção.

Finalmente, sob o ponto de vista puramente cinematográfico, não há do que reclamar. "O Manto Sagrado" é um típico épico feito em Hollywood dos anos 1950, com cenas grandiosas, impactantes, muito luxo no figurino e um texto sentimental, que não tem vergonha de ser piegas em certos momentos. Há uma clara tentativa do roteiro em agradar diversos públicos, pois ao lado do sentimento religioso temos também um pouco de romance e aventura. A ação surge principalmente na cena em que os homens de Marcellus Gallio tentam libertar Demetrius das masmorras do Império e na perseguição de cavalos logo após. Além disso temos também nuances do debate político que imperava naqueles tempos antigos. O mais importante porém é que essa produção é uma ótima forma de conhecer o tipo de entretenimento, com verniz religioso, que fazia sucesso nos cinemas dos anos 1950. O público adorava esse tipo de filme. O lançamento de cada produção desse estilo rendia ótimas bilheterias em todo o mundo.

O Manto Sagrado (The Robe, Estados Unidos, 1953) Estúdio: 20th Century-Fox / Direção: Henry Koster / Roteiro: Albert Maltz, Philip Dunne, baseados na obra de Lloyd C. Douglas / Elenco: Richard Burton, Jean Simmons, Victor Mature, Jay Robinson / Sinopse: Romano, enviado para uma distante província do império como punição, acaba vivenciando a crucificação, morte e ressurreição de um judeu conhecido como Jesus de Nazaré. Filme indicado ao Oscar nas categorias de melhor filme, melhor ator (Richard Burton) e melhor direção de fotografia (Leon Shamroy). Filme vencedor do Oscar nas categorias de melhor figurino (Charles Le Maire, Emile Santiago) e melhor direção de arte (Lyle R. Wheeler, George W. Davis). Filme premiado pelo Globo de Ouro na categoria de melhor filme - drama.

Pablo Aluísio.

terça-feira, 14 de julho de 2026

Jamais Foram Vencidos

Jamais Foram Vencidos
Que tal reunir em um mesmo filme John Wayne e Rock Hudson? Os dois tinham sido os maiores recordistas de bilheteria durante os anos 50 e 60 e agora reuniam forças no western "Jamais Foram Vencidos". O filme pode ser considerado um faroeste temporão, já que foi realizado no final dos anos 60, quando a juventude não mais se importava muito com esse gênero cinematográfico. Embora Wayne ainda mantivesse seu prestígio inabalado, Hudson vinha passando por dificuldades na carreira. Como era um galã acima de tudo, os papéis iam cada vez mais rareando com a chegada da idade e ele próprio representava naquela altura um tipo de ator que definitivamente estava saindo de moda. Ao invés do galã de visual impecável, o cinema americano agora adotava atores com grande talento mas com aparência de homens comuns, como Al Pacino, Dustin Hoffman e Robert De Niro. Atores que não tinham a estampa dos velhos ídolos como Rock Hudson. Em sua autobiografia o próprio Hudson comenta a chegada dessa nova geração de "monstrinhos" como ele apelidou os novos atores em ascensão.

Realmente era bem complicado unir duas gerações tão diferentes em um mesmo filme. Por isso o convite de estrelar um western ao lado do mito John Wayne veio bem a calhar naquele momento de sua vida. O filme em si era interessante e mostrava um oficial confederado (Hudson) que não aceitava a derrota de seu amado sul durante a guerra civil americana. Tão transtornado ficara com a perda da guerra que em um ato de profunda indignação resolve queimar sua propriedade, juntar tudo o que tinha e rumar para o México com a esperança de começar uma nova vida. Impossível não fazer uma analogia sutil com a própria carreira de Rock Hudson. Tal como o personagem de seu filme ele naquele momento era coisa do passado e deveria rumar para um novo destino. E tal como o sulista ferido ele realmente em pouco tempo deixaria o seu passado para trás (o cinema) e trilharia um novo caminho na carreira ao estrelar uma série de TV, em busca de um novo recomeço. Nunca o ditado "A Vida Imita a Arte" foi tão bem aplicado como nesse caso.

Em relação ao filme em si, se trata de um bom faroeste. Tem alguns problemas relacionados ao ritmo da história, mas que não comprometem o resultado final. A estética que vinha surgindo no cinema naquela época também se faz sentir aqui. Os personagens já são mais realistas, alguns com figurinos sujos de poeira e tudo mais. Não havia mais espaço para o cowboy impecável das velhas produções da antiga Hollywood. O próprio Rock Hudson abriu mão de seu costumeiro visual belo e arrumado. Aqui surge de cabelos despenteados, uniforme empoeirado e roupas velhas e surradas, da guerra civil. Já John Wayne entrega um personagem mais de acordo com seu tipo habitual. No final das contas os dois fizeram um bom filme e de certa maneira combinaram bem na tela, algo que muitos se surpreenderam ao assistirem ao filme em seu lançamento original. 

Jamais Foram Vencidos / Nunca Foram Vencidos (The Undefeated, Estados Unidos, 1969) / Direção de Andrew V. McLaglen / Roteiro de James Lee Barrett e Stanley Hough / Elenco: Rock Hudson, John Wayne, Ben Johnson e Tony Aguilar / Sinopse: Após a Guerra Civil americana graduado oficial confederado procura recomeçar sua vida em meio a um clima hostil e selvagem.

Pablo Aluísio.

segunda-feira, 13 de julho de 2026

Zona Proibida

Zona Proibida
A história se passa numa região rica em diamantes na África do Sul. A empresa que controla o lugar proíbe a entrada de estranhos dentro de suas valiosas terras. Durante um sáfari, o guia Mike Davis (Burt Lancaster) acaba rompendo essa linha vermelha, entrando na Zona Proibida. Ele, na realidade, vai atrás de um de seus clientes, que parece ter se perdido. Na verdade o tal sujeito queria mesmo roubar diamantes. Localizados, são presos, torturados e interrogados pela milícia violenta que controle tudo por ali. Anos depois Davis retorna para a África do Sul. Ele não apenas quer vingança. Quer a fortuna, pois só ele sabe onde se localiza uma região onde diamantes literalmente brotam da terra! E isso vai dar origem a um jogo muito sujo, envolvendo traição, violência e chantagem. 

Com estética de cinema noir, embora grande parte do filme se passe no deserto, esse filme clássico é uma boa pedida para quem estiver em busca de conhecer o tipo de filme que Lancaster fazia na primeira fase de sua carreira, ainda nos anos 1940. Eu achei a trama (sórdida, como sempre) bem elaborada. E também pude perceber que o filme é bem violento, ainda mais se levarmos em conta a década em que ele foi produzido. O roteiro só derrapa mesmo na pieguice quando força um sentimento de amor entre o personagem de Lancaster e uma dama da noite, interpretada pela atriz Corinne Calvet. Aquilo ali foi um tiro no pé, pois é inconsistente e nada convincente, além de piegas demais. De qualquer forma não chega a estragar o filme. O que o salva no final das contas é a história de ganância e violência que gira em torno dos diamantes. Naquele ambiente só brota o pior que o ser humano tem a oferecer. 

Zona Proibida (Rope of Sand, Estados Unidos, 1949) Direção: William Dieterle / Roteiro: Walter Doniger, John Paxton / Elenco: Burt Lancaster, Paul Henreid, Claude Rains, Corinne Calvet / Sinopse: África do Sul. Primeira metade do século XX. Homens gananciosos lutam pela posse de uma enorme riqueza natural, os diamantes. Para colocar as mãos nessa fortuna vale qualquer coisa, até mesmo perder a própria alma. 

Pablo Aluísio.

segunda-feira, 29 de junho de 2026

Ben-Hur

Ben-Hur 
O filme Ben-Hur foi lançado em 18 de novembro de 1959, dirigido por William Wyler e estrelado por Charlton Heston, Stephen Boyd, Jack Hawkins, Haya Harareet, Hugh Griffith e Martha Scott. Baseado no romance Ben-Hur: A Tale of the Christ, de Lew Wallace, o filme narra a trajetória de Judah Ben-Hur, um rico príncipe judeu que vive em Jerusalém durante o domínio romano. Traído por seu antigo amigo Messala, agora comandante das legiões romanas, Ben-Hur é condenado injustamente às galés, enquanto sua mãe e sua irmã são presas. Após sobreviver a inúmeras provações, ele conquista a liberdade e retorna determinado a se vingar de Messala. Paralelamente, a narrativa acompanha discretamente momentos da vida de Jesus Cristo, cuja presença influencia profundamente o destino do protagonista. O filme culmina na lendária corrida de bigas e em um emocionante desfecho marcado pela redenção e pelo perdão. Com cenários monumentais, milhares de figurantes e uma produção grandiosa, Ben-Hur tornou-se um dos maiores épicos da história do cinema.

Quando foi lançado, Ben-Hur recebeu uma recepção crítica extraordinariamente positiva. O The New York Times descreveu o filme como “uma realização magnífica que redefine o conceito de espetáculo cinematográfico”. O Los Angeles Times elogiou a direção de William Wyler, destacando sua capacidade de equilibrar grandiosidade e emoção humana. A revista Variety classificou a produção como “um triunfo absoluto do cinema épico”, exaltando a qualidade técnica, o elenco e a impressionante corrida de bigas. Diversos críticos afirmaram que a produção estabelecia um novo padrão para os filmes históricos de Hollywood. Charlton Heston recebeu elogios por sua interpretação intensa e carismática de Judah Ben-Hur, enquanto Stephen Boyd foi amplamente reconhecido pela força dramática de Messala. A fotografia, a trilha sonora de Miklós Rózsa e a direção de arte também foram celebradas. O consenso crítico foi praticamente unânime ao considerar Ben-Hur um marco da história do cinema.

A aclamação refletiu-se na temporada de premiações. Ben-Hur recebeu 12 indicações ao Oscar e venceu 11 estatuetas, estabelecendo um recorde que permaneceu isolado por quase quatro décadas. Entre os prêmios conquistados estão Melhor Filme, Melhor Diretor para William Wyler, Melhor Ator para Charlton Heston, Melhor Ator Coadjuvante para Hugh Griffith, além de Fotografia, Direção de Arte, Figurino, Efeitos Especiais, Som, Montagem e Trilha Sonora. O filme também venceu o Globo de Ouro de Melhor Filme – Drama, enquanto Charlton Heston recebeu uma indicação ao prêmio de Melhor Ator. Publicações como The New Yorker destacaram a rara combinação entre espetáculo visual e profundidade emocional. A famosa corrida de bigas passou imediatamente a ser considerada uma das maiores sequências de ação já filmadas. Até hoje, o desempenho de Ben-Hur no Oscar permanece empatado com Titanic e The Lord of the Rings: The Return of the King como o maior número de vitórias da história da premiação.

Do ponto de vista comercial, Ben-Hur foi um fenômeno mundial. Produzido pela Metro-Goldwyn-Mayer com um orçamento de aproximadamente US$ 15 milhões — o mais alto da história até então — o filme arrecadou cerca de US$ 74 milhões em sua exibição inicial, tornando-se a maior bilheteria de 1959 e uma das maiores de todos os tempos quando ajustada ao contexto da época. O enorme sucesso salvou a MGM de uma grave crise financeira e devolveu ao estúdio sua posição de destaque em Hollywood. O público ficou impressionado com a escala da produção, os cenários monumentais, a corrida de bigas e a qualidade técnica do filme. Relançamentos posteriores nos cinemas e diversas edições para televisão, VHS, DVD, Blu-ray e mídia digital ampliaram ainda mais sua popularidade. Assim, Ben-Hur tornou-se um dos maiores sucessos comerciais da história do cinema clássico.

Atualmente, Ben-Hur é considerado uma das maiores obras-primas da história do cinema. O filme aparece regularmente em listas dos melhores épicos já produzidos e continua sendo estudado em escolas de cinema por sua direção, fotografia, montagem e uso inovador de efeitos práticos. A corrida de bigas permanece um exemplo quase insuperável de ação realizada sem recursos digitais, impressionando novas gerações de espectadores. A atuação de Charlton Heston é considerada um dos grandes desempenhos de sua carreira, enquanto William Wyler é frequentemente citado como um dos maiores diretores da Era de Ouro de Hollywood. Embora adaptações posteriores da obra tenham sido produzidas, nenhuma alcançou o prestígio artístico ou o impacto cultural da versão de 1959. Mais de seis décadas após seu lançamento, Ben-Hur continua sendo um símbolo da grandiosidade do cinema clássico e uma referência obrigatória para qualquer amante da sétima arte.

Ben-Hur (Ben-Hur, Estados Unidos, 1959) Direção: William Wyler / Roteiro: Karl Tunberg (com contribuições não creditadas de Maxwell Anderson, S. N. Behrman, Gore Vidal e Christopher Fry), baseado no romance Ben-Hur: A Tale of the Christ, de Lew Wallace / Elenco: Charlton Heston, Stephen Boyd, Jack Hawkins, Haya Harareet, Hugh Griffith e Martha Scott / Sinopse: Após ser traído por um antigo amigo romano, um nobre judeu perde tudo e embarca em uma jornada de sofrimento, vingança e redenção, tendo como pano de fundo a Judeia do século I e os acontecimentos da vida de Jesus Cristo.

Erick Steve. 

terça-feira, 23 de junho de 2026

Johnny Guitar

Johnny Guitar
François Truffaut definiu "Johnny Guitar" como "um filme onde os cowboys desmaiam e morrem como uma bailarina". Recebido friamente em seu lançamento o filme foi ao longo das décadas ganhando cada vez mais status, principalmente pela visão revisionista de críticos e grande teóricos da sétima arte como Truffaut. O enredo é de certa forma banal, mostrando a luta de duas mulheres pelo mesmo homem, ao mesmo tempo em que chega na cidadezinha um forasteiro, conhecido apenas como Johnny Guitar (Sterling Hayden). Mas o que transformou Johnny Guitar em um cult movie? Para muitos seria a presença de um elenco maravilhoso, a começar pela diva e estrela Joan Crawford. Atriz de presença forte e marcante, ela certamente roubou muito da atenção do filme para si, mostrando porque se tornou uma das grandes stars da era de ouro em Hollywood.

Para outros "Johnny Guitar" se tornou marcante por causa da direção brilhante e diferenciada do "maestro da sétima arte" Nicholas Ray. Nesse sentido ele imprime uma situação curiosa no filme, pois abraça certamente todos os clichês do gênero ao mesmo tempo os eleva a um patamar de pura arte, como bem definiu  François Truffaut, mostrando que de uma forma ou outra, o filme é na verdade um louvor ao western como linguagem cinematográfica. De fato o filme apresenta vários inovações tecnológicas, entre elas o uso do chamado Trucolor, um sistema de cores do estúdio Republic, que hoje em dia já não existe mais. Assim se você estiver em busca de um western realmente histórico, cultuado por críticos de sua época, fica a dica de "Johnny Guitar", uma produção que se propõe a ser diferente, embora no fundo consagre todos os grandes dogmas do estilo western.

Johnny Guitar (Johnny Guitar, Estados Unidos,1954) Direção: Nicholas Ray / Roteiro: Philip Yordan, Roy Chanslor / Elenco: Joan Crawford, Sterling Hayden, Mercedes McCambridge / Sinopse: Uma dona de saloon no velho oeste é acusada injustamente de roubo e assassinato ao mesmo tempo em que tenta lidar com seus sentimentos e vida amorosa. Filme indicado pelo Cahiers du Cinéma na categoria de melhor filme do ano de 1954.

Pablo Aluísio.

terça-feira, 16 de junho de 2026

O Oeste Selvagem

O filme "Buffalo Bill and the Indians" (no Brasil, O Oeste Selvagem) é um filme inteligente, bem escrito, do aclamado diretor Robert Altman que aqui prova mais uma vez seu grande talento como cineasta. O roteiro conta a histórica verídica do grande mito do western americano Buffalo Bill. O personagem por si só já era extremamente rico em detalhes e nuances e caiu como uma luva nessa película que brinca com o imaginário popular ianque. Para quem não sabe Buffalo Bill (nome artístico de William Cody) foi um verdadeiro Barão de Munchausen da história dos Estados Unidos. Pródigo em contar lorotas e inventar histórias sobre si mesmo que nunca aconteceram na vida real, Bill criou toda uma mitologia em torno de si. Um dia teve a brilhante ideia de criar todo um show em cima de suas fantasias e acabou criando um espetáculo com alto teor circense composto por cowboys falsos, índios de araque e bandidos de mentirinha. Era denominado Oeste Selvagem e foi uma mina de ouro para seu criador, o tornando extremamente rico e bem sucedido. Embora fosse um mentiroso contumaz, Bill acabou criando, sem querer, todos os clichês que até hoje conhecemos da mitologia do western. Os filmes mudos, surgidos no nascimento do cinema, eram claramente inspirados nas encenações do espetáculo de Buffalo, que também teve sua mitológica figura explorada por vários filmes do gênero nos anos seguintes à sua morte.

Em "Buffalo Bill and the Indians", somos levados a conhecer um período bem interessante da vida de Bill, quando ele contratou um mito de verdade do velho oeste para estrelar seu show, o cacique Touro Sentado, famoso por seus feitos contra o exército americano. As cenas em que ambos contracenam mostram verdadeiros duelos entre o personagem de ficção auto inventado e o homem que realmente vivenciou toda a luta pela conquista do oeste selvagem (Touro Sentado). O farsante e o real em lados opostos. Enquanto um vive de contar mentiras sobre si mesmo o outro tenta apenas sobreviver com o pouco de dignidade que ainda lhe resta e de quebra tenta ajudar seu povo, nessa altura da história completamente subjugado pelos brancos. O choque entre a dura realidade e a mais pura fantasia escapista é o grande mérito dessa brilhante e ácida crítica em cima da construção de mitos irreais, que é bem típica da sociedade consumista e vazia dos norte-americanos.

Paul Newman na pele do deslumbrado ídolo está perfeito, numa daquelas atuações que dificilmente esquecemos. A própria surrealidade do cotidiano de Bill (que gostava de namorar cantoras de óperas fracassadas), reforça e torna ainda mais forte sua caracterização. Por fim temos uma participação extremamente inspiradora do grande mito Burt Lancaster. Fazendo o papel de uma pessoa do passado de Bill (que obviamente conhece todas as suas invencionices), Lancaster empresta uma dignidade ímpar a essa película. Sem dúvida Buffalo Bill and the Indians é um excelente filme que nos leva a pensar em vários temas relevantes, como a própria destruição da cultura indígena e a dignidade desse povo que foi massacrado impiedosamente pelos colonos americanos. Um libero que merece ser conhecido por todos.

O Oeste Selvagem (Buffalo Bill and the Indians, Estados Unidos, 1976) Direção: Robert Altman / Roteiro: Arthur Kopit e Alan Rudolph / Elenco: Paul Newman, Harvey Keitel, Geraldine Chaplin, Burt Lancaster, Joel Grey, Kevin McCarthy, Allan F. Nicholls / Sinopse: Buffalo Bill (Paul Newman) é um empresário circense que contrata o lendário Touro Sentado para fazer parte de seu show itinerante. Assim ele parte rumo ao interior dos Estados Unidos para mostrar seu novo espetáculo sensacional sobre o velho oeste selvagem. Filme premiado no Berlin International Film Festival.

Pablo Aluísio.

Rio Lobo

Hoje assisti ao filme Rio Lobo, com o grande mito do Western John Wayne. Curiosamente não me lembrava se já o tinha assistido antes ou não. John Wayne fez tantos filmes e tive o privilégio de acompanhar tantos momentos brilhantes desse ator, seja pela TV ou pelo extinto vídeocassete, que sinceramente bateu uma dúvida se já o tinha assistido ou não. De qualquer forma foi um grande prazer reencontrar o velho Duke novamente. Sou fã de carteirinha de longa data do eterno cowboy, tanto que cheguei a manter um site dedicado apenas ao ator por anos. Algumas cenas me soaram familiares como a parte inicial do filme, onde um grupo de soldados do exército confederado rouba um trem de carregamento de ouro dos ianques. Porém para minha surpresa esse é apenas o primeiro ato da película, que se desenvolve excepcionalmente bem nos dois outros atos da trama. Nem vou me alongar em explicar a sinopse pois esse tipo de coisa é facilmente encontrado na net, apenas vou descer alguns comentários pertinentes sobre o filme.

John Wayne está perfeito em sua caracterização de eterno justiceiro do velho oeste. O elenco de apoio também é muito bom, com destaque para o "Tarzan" Mike Henry, que havia largado o papel do Rei das Selvas após sofrer um ataque de um macaco em fúria nos sets de filmagem. Curioso notar que o filme é da fase final da carreira do astro, já entrando na década de 70 e os velhos filmes de cowboy já eram considerados fora de moda por essa época. Mero detalhe. Em nenhum momento sentimos que o filme esteja datado ou ultrapassado, nada disso, ele é brilhantemente fotografado, com ótimas tomadas externas. Não poderia ser diferente, "Rio Lobo" foi dirigido pelo ótimo e lendário diretor Howard Hawks, o mesmo que colecionou tantos momentos inspirados ao lado de John Wayne em sua carreira, como por exemplo, os eternos clássicos "Rio Bravo", "El Dorado" e até o simpático "Hatari!". Howard inclusive costumava transitar bem em todos os gêneros, dos épicos às comédias de costumes como bem podemos conferir no delicioso filme estrelado pela eterna Marilyn Monroe, "Os Homens Preferem as Loiras".

Rio Lobo foi a última parceria entre John Wayne e Howard Hawks e posso dizer que a despedida foi à altura do talento dos dois. Ambos morreriam na segunda metade dos anos 70 (Hawks em 1977 e Wayne em 1979) e deixariam muitas saudades nos amantes dos velhos westerns. Definitivamente a velha escola do gênero não sobreviveria a essa década, pois nos anos 80 os filmes de faroeste iriam cair em um injusto ostracismo, com meros lampejos de sobrevida em filmes como Silverado e similares. Recentemente assisti novamente ao último filme de John Wayne, chamado providencialmente de "O último pistoleiro" e fiquei realmente triste. Os heróis ao estilo de Wayne, durões, certos em suas opiniões, inabaláveis em suas convicções, com extrema força moral, deixaram definitivamente de existir. Em seu lugar surgiram atores que representavam vulnerabilidade, dúvida, incerteza moral. John Wayne, o símbolo máximo do velho oeste deixou saudades. Ainda bem que sempre poderemos relembrar essa grande fase dourada de Hollywood pela extensa fimografia que ele nos legou.

Rio Lobo (Rio Lobo, Estados Unidos, 1970) Estúdio: Twentieth Century Fox / Direção: Howard Hawks / Roteiro de Burton Wohl e Leigh Brackett / Elenco: John Wayne, Jorge Rivero, Mike Henry, Jennifer O'Neill, Christopher Mitchum, Susana Dosamantes / Sinopse: Após a guerra civil americana um Coronel do exército americano chamado Cord McNally (John Wayne) parte em busca do paradeiro de um traidor de guerra.

Pablo Aluísio.

terça-feira, 2 de junho de 2026

Cavalgada Trágica

Cavalgada Trágica
"Cavalgada Trágica" é um dos melhores westerns da carreira de Randolph Scott. Não é de se admirar já que aqui temos novamente Scott dirigido pelo ótimo cineasta Budd Boetticher. O diferencial de Budd para outros diretores de faroestes é que ele tinha profundo respeito pela mitologia do gênero. Admirador do estilo de vida do velho oeste o diretor tirava o máximo de roteiros que em essência eram simples. Esse é um exemplo típico. No filme Randolph Scott interpreta Jefferson Cody, um ex veterano das guerras indígenas que dedica sua vida em uma busca desesperada. Sua esposa há muito fora raptada por tribos Comanches hostis e assim Scott percorre os territórios indígenas na esperança de um dia encontrá-la. Numa dessas buscas acaba libertando a jovem e bela Nancy (Nancy Lowe) cujo marido ofereceu uma recompensa de 5 mil dólares para seu resgate. Claro que com tanto dinheiro em jogo vários caçadores de recompensas sairiam em seu encalço. É justamente isso que motiva Ben (Claude Atkins) e seu bando que querem colocar as mãos na mulher para receberem eles próprios sua recompensa.

Todos os ingredientes que fizeram a fama de Scott no cinema estão lá: o cavaleiro errante, a busca pelo ente querido, as tribos Comanches sedentas por sangue e os bandoleiros com más intenções. A locação é de rara beleza, rochedos de forte impacto na tela, localizados em Alabama Hills em Lone Pine, Califórnia. Além disso o diretor Budd Boetticher capricha no desenvolvimento psicológico dos personagens e no clima de tensão entre eles. O desfecho é brilhante, se tornando mais um dos grandes trabalhos da dupla Scott / Boetticher. Juntos realizaram alguns dos faroestes mais elegantes da história do cinema americano. A cena final com Randolph Scott e o por do sol ao longe, cavalgando nas pradarias é marcante, um momento único, difícil de se esquecer depois.

Cavalgada Trágica (Comanche Station, Estados Unidos, 1960) Direção: Budd Boetticher / Roteiro: Burt Kennedy / Elenco: Randolph Scott, Nancy Lowe, Claude Atkins / Sinopse: No filme Randolph Scott interpreta Jefferson Cody, um ex veterano da guerras indígenas que dedica sua vida em uma busca desesperada. Sua esposa há muito fora raptada por tribos Comanches hostis e assim Scott percorre os territórios indígenas na esperança de um dia encontrá-la. Numa dessas buscas acaba libertando a jovem e bela Nancy (Nancy Lowe) cujo marido ofereceu uma recompensa de 5 mil dólares para seu resgate.

Pablo Aluísio.

O Homem do Rifle

Título no Brasil: O Homem do Rifle
Título Original: The Rifleman
Ano de Produção: 1958 - 1963
País: Estados Unidos
Estúdio: Twentieth Century Fox
Direção: Joseph H. Lewis, Arnold Laven
Roteiro: Ed Adamson, Skippy Adelman     
Elenco: Chuck Connors, Johnny Crawford, Paul Fix, Joe Benson, Patricia Blair, Harlan Warde

Sinopse:
Lucas McCain (Chuck Connors) é um viúvo que toca seu rancho ao lado de seu jovem filho. Dono de uma ética e um senso de responsabilidade fora do comum, ele tenta passar para o garoto os mais altos valores de uma vida de trabalho e honestidade no campo. Conhecido na região como homem bom e íntegro, ele resolve modificar um velho rifle Winchester, adicionando maior velocidade de disparo. Algo necessário naqueles tempos perigosos e conflitantes.

Comentários:
O universo das séries televisivas de faroeste nos Estados Unidos foi muito vasto e rico. Infelizmente poucas dessas séries foram exibidas no Brasil em decorrência do nosso atraso tecnológico. Veja o caso desse "The Rifleman". No total foram quase 170 episódios em cinco longas temporadas. O seriado, mostrando a vida de um rancheiro e seu filho, logo caiu no gosto do público americano mas no Brasil passou em brancas nuvens. Apenas com o lançamento das três primeiras temporadas em DVD é que o fã de western de nosso país poderá curtir um pouco do que foi essa série. É tudo muito cativante e nostálgico, explorando bem a vida rural americana no século XIX. Lutando contra as forças da natureza e perigos de toda ordem (como ataques de tribos indígenas selvagens) esses pioneiros conseguiram construir aquela grande nação praticamente apenas com o esforço de seu trabalho pessoal. O sucesso de audiência acabou transformando Chuck Connors em um rosto conhecido e ele tentaria passar para o mundo do cinema mas sem o mesmo êxito. Assim deixamos a dica para conhecer mais esse interessante seriado sobre a vida no velho oeste. Certamente você irá gostar.

Pablo Aluísio.

terça-feira, 26 de maio de 2026

Sangue em Sonora

Filmado em locações no Estado americano de Utah, em 1966, o filme "Sangue em Sonora" trouxe um Marlon Brando estrelando um western de estrutura tradicional, o que de certa forma era um surpresa já que o ator era conhecido não só por seu talento, mas também por sempre procurar trabalhar em projetos mais ousados e polêmicos. O que teria acontecido então para Brando embarcar em um projeto, digamos assim, tão comum? Conforme explicou em sua própria autobiografia "Canções que minha mãe me ensinou" o que o levou a filmes como esse foi a simples necessidade de ganhar muito dinheiro para bancar os problemas financeiros que enfrentou.

Na década de 1960 Brando teve que enfrentar uma incrível série de contratempos. Suas ex-esposas o processaram, a guarda de seus filhos exigia que o ator desembolsasse somas cada vez maiores para pagar os advogados e sua querida ilha Tetiroa só lhe trazia prejuízos. Mal conseguia construir seu hotel um furacão vinha e destruía com tudo. O ator pretendia transformar o local em ponto turístico ambiental mas jamais concretizou seus planos por causa da irascível natureza da região. Assim, atolado com muitas dívidas, Marlon Brando se dispôs a se deslocar para uma locação de díficil acesso para começar as filmagens desse faroeste.

Em seu livro Brando recordou que ficou surpreso ao chegar lá e saber que tinha sido o mesmo local onde John Wayne havia filmado um conhecido western na era de ouro do cinema. O problema era que o local ficava muito próximo de uma base americana de testes nucleares. Para Brando muito provavelmente foi nesse local que John Wayne teria sido contaminado por depósitos de lixo nuclear (urânio), o que teria sido decisivo para o desenvolvimento do câncer que vitimaria o veterano ator anos depois. Brando afirmaria depois: "Não deixava de ser uma ironia o fato do grande defensor da indústria armamentista nuclear norte-americana ter sido morto justamente por ter sido contaminado por seu lixo deixado no local". Não era novidade para ninguém que ambos os atores se detestavam na vida pessoal, pois Brando era um típico liberal enquanto John Wayne era um defensor ferrenho dos ideais do partido Republicano, símbolo do conservadorismo nos Estados Unidos.

Deixando de lado todos esses problemas de egos tão comuns nos grandes atores de cinema, vamos ao filme em si. Como afirmei antes o filme tem uma estrutura comum e simples. O diretor Sidney J Furie não quis arriscar muito, até porque na época não passava de um novato com poucos filmes significantes no currículo. Trabalhar com Marlon Brando também não era nada fácil, pois o ator tinha um histórico de problemas com diretores nos sets de filmagens. A sorte de Furie foi que na ocasião Brando estava envolvido em tantos problemas pessoais que simplesmente não quis infernizar ainda mais sua vida com confusões de bastidores no set de filmagens.

Assim os trabalhos transcorreram sem grandes incidentes, tudo resultando em um filme que é um bom western, embora muito longe do que se esperaria de um gênio da atuação como Brando. Na realidade só existem dois bons momentos para Brando em toda a (curta) duração do filme. A cena inicial do filme, por exemplo, com Brando na Igreja, gera bons momentos ao roteiro, porém a melhor parte acontece depois quando Brando enfrenta o vilão Chuy Medina (interpretado por um irreconhecível John Saxon) na taberna. A queda de braço com escorpiões realmente foi uma excelente idéia, que casou muito bem com a proposta do filme que no fundo não passava de um Western de rotina com altas doses de Tequila. "Sangue em Sonora" não é nem de longe o mais brilhante momento do mito Brando nas telas nos anos 1960, mas mantém o interesse e diverte, o que no final é o que realmente importa.

Sangue em Sonora (The Appaloosa, Estados Unidos, 1966) Direção: Sidney J. Furie / Roteiro: James Bridges, Roland Kibbee / Elenco: Marlon Brando, Anjanette Comen, John Saxon / Sinopse: Matt Fletcher (Marlon Brando) chega em uma cidade perdida na fronteira entre EUA e México. Lá pretende encontrar com um amigo do passado que agora está casado e com família. Os eventos porém se interpõe em seu caminho o lançando em uma luta de proporções gigantescas com bandoleiros e patifes que infestam a região. Filme indicado ao Globo de Ouro na categoria de Melhor Ator Coadjuvante (John Saxon).

Pablo Aluísio.

terça-feira, 5 de maio de 2026

A Volta do Pistoleiro

A Volta do Pistoleiro
Pistoleiro (Robert Taylor) sai da prisão de Yuma e recebe carta de um amigo que precisa de sua ajuda pois está sendo ameaçado por bandidos locais que querem expulsá-lo de seu rancho na fronteira com o México. Robert Taylor foi um dos galãs mais populares de Hollywood nas décadas de 40 e 50, estrelando várias produções de luxo dos principais estúdios. Passeou em vários gêneros desde filmes épicos (Quo Vadis), de capa e espada (Os Cavaleiros da Tavola Redonda, Ivanhoé) até produções de guerra (O Dia D). O problema é que Taylor era aquele tipo de ator que se baseava apenas em sua aparência física, algo que é inerente a todos os galãs aliás. Quando a idade chega eles obviamente são trocados por atores mais jovens e caem no ostracismo. Acontece com todos e aconteceu com Robert Taylor também. No final dos anos 50 ele já demonstrava sinais de declínio na carreira. Tentou sobreviver indo para a TV e até conseguiu uma sobrevida com séries como The Detectives mas a partir de 1962 os trabalhos foram ficando cada vez mais escassos.

Quando realizou "A Volta do Pistoleiro" Robert Taylor já estava praticando aposentado das telas. Para falar a verdade esse foi seu último filme americano nos cinemas (decadente chegou a filmar na Itália e após um breve retorno à TV morreria dois anos depois em 1969). Aqui temos uma produção B da MGM. Não é um grande western, não tem uma grande produção e o roteiro para falar a verdade é mais do mesmo (a velha estória do pistoleiro rápido do gatilho que parte em busca de vingança). Taylor está visivelmente envelhecido e sem pique, aparentando inclusive problemas de obesidade (sua barriga saliente é constrangedora). De qualquer forma tenta trazer alguma dignidade ao papel usando de seus velhos maneirismos (como o levantar das sobrancelhas e o cerramento dos olhos nos momentos de tensão). No saldo final "Return of the Gunfighter" serve apenas como uma despedida desse galã hollywoodiano dos velhos tempos. Claro que ainda é melhor vê-lo no auge, como em "Quo Vadis" mas essa produção não deixa de ser curiosa também para conferir um dos últimos trabalhos dele nas telas.

A Volta do Pistoleiro (Return of the Gunfighterm Estados Unidos, 1967) / Direção de James Neilson / Roteiro de Robert Buckner e Burt Kennedy / Com Robert Taylor, Ana Martin e Chad Everett / Sinopse: Pistoleiro (Robert Taylor) sai da prisão de Yuma e recebe carta de um amigo que precisa de sua ajuda pois está sendo ameaçado por bandidos locais que querem expulsá-lo de seu rancho na fronteira com o México.

Pablo Aluísio. 

terça-feira, 28 de abril de 2026

Hondo: Caminhos Ásperos

Hondo
Hondo Lane (John Wayne) é um pistoleiro que atravessa o deserto sozinho ao lado de seu cão Sam durante as chamadas guerras Apaches. No caminho acaba encontrando um pequeno rancho onde vivem Angie (Geraldine Page) e seu pequeno filho. Estão sozinhos pois seu marido saiu atrás de parte de seu rebanho mas jamais retornou. O problema é que em breve os Apaches chegarão no local e Hondo não consegue convencer a jovem senhora a abandonar o local onde vive. Esse "Hondo - Caminhos Ásperos" me surpreendeu por alguns motivos. O primeiro é o próprio personagem interpretado por John Wayne. Um pistoleiro de passado nebuloso. Sua caracterização de viajante no meio do nada ao lado de seu cachorro seria imitada anos depois em "Mad Max" e até por Clint Eastwood em "O Estranho Sem Nome". Afinal quem realmente é Hondo? Outro aspecto curioso na produção é a forma como Wayne lida com um papel mestiço. Ele também é metade Apache e se vê envolvido em um conflito que mal consegue entender. No final do filme ao saber que provavelmente os Apaches serão todos liquidados pela cavalaria americana ele diz uma bela frase: "Isso não será apenas o fim dos Apaches mas sim o fim de um modo de viver.... e um bom modo de se viver é bom salientar".

O elenco de Hondo é muito bom. Além de Wayne - em papel marcante - ainda temos a grande Geraldine Page dividindo a tela com ele. Considerada uma das grandes atrizes do cinema americano aqui ela interpreta uma jovem rancheira que se recusa a abandonar seu lar frente à ameaça Apache. Suas cenas com o Duke são muito boas o que garante a qualidade do filme. Wayne e Page ficam praticamente sozinhos no rancho no terço inicial de "Hondo" e se não se entrosassem bem em cena certamente o roteiro perderia parte importante de seu impacto. Felizmente isso não ocorre. Ambos estão perfeitos em seus respectivos personagens. Em suma "Hondo" é um western de primeira, com belas atuações e cenários naturais grandiosos. Vale a pena assistir.

Hondo - Caminhos Ásperos (Hondo, EUA, 1953) / Direção de John Farrow / Roteiro de James Edward Grant e Louis L'Amour / Com John Wayne, Geraldine Page e Ward Bond / Sinopse: Em plena era das guerras apaches pistoleiro errante (John Wayne) tenta convencer jovem rancheira (Geraldine Chaplin) a abandonar o lugar em que vive por sua própria segurança.

Pablo Aluísio.

terça-feira, 17 de março de 2026

Assim São os Fortes

Assim São os Fortes
Um dos aspectos mais curiosos da carreira do ator Clark Gable foi sua pouca aparição em filmes de Western. No auge do gênero, sendo um dos mais populares filões da época, era de se esperar que o galã Gable se utilizasse desse tipo de produção para manter sua popularidade em alta, mas isso não aconteceu. Para falar a verdade Gable sempre foi considerado uma ausente ilustre nos faroestes da época, sempre preferindo participar muito mais de filmes de aventura, romances e dramas urbanos. Talvez ele se sentisse deslocada no velho oeste, quem sabe, a verdade nunca saberemos ao certo. Uma exceção a essa regra é justamente esse bom western chamado "Assim São os Fortes" que fez um belo sucesso na época - o que infelizmente não pareceu ter empolgado o ator a estrelar mais filmes como esse. O filme foi considerado até mesmo ousado para a época, pois mostrava um romance entre um branco (Flint Mitchell, personagem de Gable no filme) e uma indígena! O roteiro é uma adaptação do livro vencedor do Pulitzer, "Across the Wide Missouri" de autoria do aclamado escritor Bernard DeVoto.  Esse é um clássico do mundo da literatura dos Estados Unidos. Uma obra prima.

A história se passa na década de 1830. Flint Mitchell (Gable) é um caçador e desbravador que sai em busca de caças e metais preciosos nas montanhas distantes e desabitadas de Montana e Idaho. As terras são ricas em recursos naturais e logo chamariam a atenção de outros homens brancos gananciosos. Mitchell, por sua vez, deseja apenas levar uma vida bucólica, tirando o necessário da natureza para sua sobrevivência. Em sua expedição acaba conhecendo a tribo dos índios Blackffoot e se apaixona por uma das mulheres da comunidade. Clark Gable se esforça bastante para dar uma certa veracidade ao seu papel. Ao invés de surgir como um galã de cabelo penteado, cheio de brilhantina, ele tenta capturar o estilo de vida desses pioneiros das montanhas. O figurino é o mais adequado, além do modo mais rude de ser. 

 O resultado é muito bom e o filme foi de certa forma subestimado pois não chamou qualquer atenção da Academia (revelando um certo preconceito contra o gênero western em suas premiações). O que mais se destaca na produção é sua linda fotografia. “Assim São os Fortes” foi todo filmado em locações do Colorado, em maravilhosas reservas florestais e se torna logo um colírio para os amantes da natureza. Seu roteiro foca mais nas diferenças de costumes entre brancos e índios e não há tantas cenas de ação ou tiroteios como se vê em outras produções de western da época. Mesmo assim tem um final eletrizante que empolga o espectador. Fica assim a dica desse "Assim São os Fortes" um dos poucos filmes de faroeste estrelados pelo grande ídolo Clark Gable.

Assim São os Fortes (Acroos The Wide Missouri, Estados Unidos, 1951) Direção: William A. Wellman / Roteiro: Talbot Jennings baseado no livro de Bernard DeVoto / Elenco: Clark Gable, Ricardo Montalban, John Hodiak / Sinopse: A estória se passa na década de 1830. Flint Mitchell (Gable) é um caçador e desbravador que sai em busca de caças e metais preciosos nas montanhas distantes e desabitadas de Montana e Idaho. As terras ricas logo chamariam a atenção de outros homens brancos, mas Mitchell deseja apenas levar uma vida bucólica, tirando o necessário da natureza para sua sobrevivência. Em sua expedição acaba conhecendo a tribo dos índios da tribo Blackffoot e se apaixona por uma das mulheres da comunidade.

Pablo Aluísio.