domingo, 27 de setembro de 2026

Imperador Romano Calígula

Imperador Romano Calígula 
Caio Júlio César Augusto Germânico, conhecido pela história como Calígula, foi o terceiro imperador romano e governou entre os anos 37 e 41 d.C., durante uma das fases mais controversas da dinastia júlio-claudiana. Nascido em 31 de agosto do ano 12 d.C., na cidade de Âncio, na Itália, era filho de Germânico, um dos mais populares generais romanos, e de Agripina Maior, neta do imperador Augusto. Seu apelido, Calígula, significa aproximadamente “pequena botinha” e surgiu durante sua infância, quando acompanhava o pai nas campanhas militares na Germânia, vestindo um pequeno uniforme de soldado. O apelido, originalmente carinhoso, tornou-se tão conhecido que acabou substituindo seu nome oficial na memória histórica. Durante a juventude, Calígula viveu em meio às intrigas políticas da família imperial, especialmente durante o governo de Tibério, sucessor de Augusto. A morte de seu pai, em 19 d.C., e posteriormente a perseguição contra sua mãe e seus irmãos marcaram profundamente sua vida. Vários membros de sua família foram presos, exilados ou morreram em circunstâncias suspeitas, enquanto o próprio Calígula permaneceu durante algum tempo sob a vigilância de Tibério. Em 31 d.C., foi chamado para viver junto ao imperador na ilha de Capri, onde permaneceu até a morte de Tibério, em março de 37. Quando Tibério faleceu, Calígula, então com aproximadamente 24 anos, foi reconhecido como sucessor e recebeu o apoio do Senado e da população de Roma. Sua ascensão despertou enormes expectativas, pois muitos romanos viam nele o herdeiro de Germânico, considerado um símbolo de virtude militar e de proximidade com o povo.

Os primeiros meses do governo de Calígula foram recebidos com entusiasmo extraordinário. O novo imperador tomou medidas para demonstrar que pretendia romper com os aspectos mais impopulares do governo de Tibério, cuja administração final havia sido marcada por julgamentos políticos, acusações de traição e execuções de membros da aristocracia. Calígula concedeu anistia a pessoas condenadas durante o reinado anterior, chamou de volta alguns exilados e procurou homenagear a memória de sua mãe e de seus irmãos falecidos. Também organizou grandes espetáculos públicos, distribuiu dinheiro à população e promoveu celebrações em homenagem à família imperial. O Senado, inicialmente, recebeu o novo príncipe com grande satisfação, e a população de Roma demonstrou entusiasmo nas ruas. A posição de Calígula era particularmente favorável porque reunia o prestígio de Germânico e a legitimidade dinástica herdada de Augusto. Entretanto, essa popularidade começou a sofrer abalos ainda em 37, quando o imperador enfrentou uma grave enfermidade, cuja natureza exata permanece desconhecida. Alguns autores antigos afirmaram que, após a doença, seu comportamento teria mudado profundamente, tornando-se mais cruel, imprevisível e desconfiado. Essa interpretação, porém, deve ser tratada com cautela, pois os relatos foram escritos em grande parte por autores pertencentes à elite senatorial, frequentemente hostil ao imperador. A doença pode ter contribuído para mudanças em sua administração, mas não existe documentação médica capaz de esclarecer o episódio. O que se observa historicamente é que, depois dos primeiros meses, as relações entre Calígula e setores importantes da aristocracia romana tornaram-se cada vez mais tensas. O imperador passou a concentrar maior autoridade em suas próprias mãos, demonstrando pouca disposição para compartilhar decisões políticas com o Senado.

A imagem tradicional de Calígula como um governante completamente dominado pela loucura foi construída principalmente por historiadores antigos, como Suetônio, Tácito e Dião Cássio, cujos relatos apresentam diferentes graus de hostilidade em relação à sua administração. Segundo essas narrativas, Calígula teria demonstrado comportamento extravagante, promovido humilhações públicas de senadores e exigido manifestações exageradas de submissão. Entre as histórias mais conhecidas está a afirmação de que teria planejado nomear seu cavalo Incitato para o consulado, episódio frequentemente utilizado para ilustrar sua suposta insanidade. Entretanto, não há confirmação segura de que essa nomeação tenha efetivamente ocorrido; a história pode representar uma crítica simbólica à maneira como o imperador desprezava a dignidade dos magistrados senatoriais. Outra tradição afirma que Calígula teria exigido honras divinas ainda em vida, aproximando sua imagem dos deuses e promovendo manifestações religiosas em seu próprio benefício. O culto imperial, contudo, já existia antes dele, e a maneira como era praticado variava entre Roma e as províncias. Em algumas regiões orientais, era comum atribuir honras divinas aos governantes, enquanto em Roma essa prática encontrava maior resistência entre determinados setores da aristocracia. Calígula também enfrentou dificuldades financeiras após os gastos realizados no início do governo e a organização de grandes espetáculos. Para obter novos recursos, promoveu medidas fiscais e confiscos que atingiram membros ricos da sociedade romana. As relações com o Senado deterioraram-se ainda mais, pois muitos senadores consideravam suas atitudes uma ameaça às tradições republicanas que, apesar de já subordinadas ao imperador, continuavam sendo importantes para a identidade política da aristocracia.

No campo militar, Calígula também protagonizou episódios que contribuíram para a construção de sua reputação controversa. Em 39 d.C., iniciou preparativos para uma campanha na Germânia, aparentemente relacionada à necessidade de reafirmar a autoridade romana nas fronteiras e fortalecer sua posição perante o exército. No ano seguinte, deslocou-se para a região do Canal da Mancha, onde reuniu tropas com a intenção declarada de realizar uma expedição contra a Britânia. A campanha, entretanto, não resultou na invasão da ilha. Autores antigos ridicularizaram o episódio, afirmando que o imperador teria ordenado aos soldados que recolhessem conchas marinhas como se fossem troféus de uma vitória sobre o oceano. Essa história tornou-se uma das anedotas mais famosas sobre Calígula, mas seu significado histórico permanece discutido. É possível que tenha ocorrido algum tipo de operação militar ou demonstração de força, posteriormente apresentada pelos adversários do imperador de maneira satírica. Enquanto isso, a administração imperial enfrentava tensões religiosas e políticas em diferentes regiões. Na Judeia, a tentativa de instalar uma estátua do imperador no Templo de Jerusalém provocou uma grave crise. A ordem foi recebida com oposição entre a população judaica, que considerava a medida uma violação de suas tradições religiosas. O governador da Síria, Públio Petrônio, procurou evitar uma revolta e retardou a execução da determinação. A morte de Calígula, em 41 d.C., impediu que a crise chegasse a um desfecho militar. Esse episódio demonstra que, apesar das narrativas sobre extravagâncias pessoais, seu governo também esteve envolvido em questões administrativas, diplomáticas e religiosas de grande importância para o Império Romano.

O governo de Calígula terminou violentamente em 24 de janeiro de 41 d.C., quando o imperador foi assassinado em uma conspiração organizada por membros da Guarda Pretoriana e outros participantes ligados à corte. Entre os principais envolvidos estava Cássio Quereia, um oficial da guarda que, segundo as fontes antigas, nutria ressentimentos pessoais contra o imperador. Calígula foi atacado durante uma passagem próxima ao teatro, após participar de atividades relacionadas aos jogos e às celebrações imperiais. Sua esposa, Cesônia, e sua filha, Júlia Drusila, também foram mortas durante os acontecimentos que se seguiram. O assassinato provocou uma crise sucessória, pois Calígula não havia deixado um herdeiro masculino adulto reconhecido. Entretanto, os soldados da Guarda Pretoriana encontraram seu tio Cláudio, irmão de Germânico, e o proclamaram imperador. O Senado chegou a discutir a possibilidade de restaurar a República, mas não conseguiu estabelecer um governo alternativo. Cláudio assumiu o poder e, posteriormente, puniu alguns dos responsáveis pela conspiração. A morte de Calígula marcou o fim de um reinado de apenas quatro anos, mas sua figura continuou a exercer enorme fascínio sobre historiadores, escritores e artistas. As fontes antigas ajudaram a consolidar a imagem de um imperador cruel e demente, embora a historiografia moderna procure distinguir os acontecimentos comprováveis das anedotas e das acusações políticas. Calígula certamente entrou em conflito com a aristocracia, promoveu medidas autoritárias e esteve associado a decisões controversas, mas os detalhes mais extremos de sua reputação permanecem sujeitos a debate. Seu governo revela as dificuldades de um sistema imperial ainda recente, no qual o poder do príncipe dependia tanto do exército e da população quanto da relação com o Senado. A trajetória de Calígula, de herdeiro popular de Germânico a imperador assassinado, permanece como um dos episódios mais dramáticos da história política da Roma Antiga.

sábado, 26 de setembro de 2026

Elvis Presley - Elvis (1973)

Elvis Presley - Elvis (1973)
O álbum Elvis, lançado em 16 de julho de 1973 pela RCA Victor, ocupa um lugar bastante singular na discografia de Elvis Presley. Também conhecido como The Fool Album, em referência à primeira faixa do disco, o trabalho foi o décimo oitavo álbum de estúdio do cantor e chegou ao mercado durante uma fase de grandes transformações em sua carreira pessoal e profissional. Depois do enorme sucesso do especial televisivo Aloha from Hawaii, transmitido mundialmente por satélite em janeiro daquele ano, Elvis encontrava-se novamente no centro das atenções, embora sua produção de estúdio começasse a apresentar características bastante diferentes das gravações realizadas na década anterior. O álbum foi produzido por Felton Jarvis e reuniu dez canções provenientes principalmente de sessões realizadas em Nashville, em março e maio de 1971, além de gravações mais recentes de 1972. A RCA aproveitou material que permanecia inédito em seus arquivos para oferecer ao público um novo LP de Elvis, numa época em que a companhia havia adquirido os direitos sobre as gravações anteriores do artista. A decisão estava relacionada ao acordo firmado em março de 1973, pelo qual a RCA pagou aproximadamente 5,4 milhões de dólares para assumir o controle do catálogo fonográfico anterior de Elvis. O resultado foi um disco heterogêneo, que mistura baladas românticas, country, música popular internacional e interpretações intimistas. Embora não tenha sido concebido como um álbum inteiramente planejado em estúdio, apresenta momentos de grande interesse artístico. 

A abertura com “Fool” estabelece imediatamente o caráter sentimental do trabalho. A canção, baseada na composição “No Words”, de James Last, recebeu letra de Carl Sigman e foi gravada por Elvis em março de 1972. Sua interpretação combina elementos do country e da balada pop, com arranjo orquestral e uma performance vocal marcada pela intensidade emocional que caracterizava muitas de suas gravações dos anos 1970. “Where Do I Go from Here”, composta por Paul Williams, também pertence às sessões de 1972 e apresenta uma atmosfera melancólica, com Elvis explorando as possibilidades expressivas de sua voz madura. Já “Love Me, Love the Life I Lead” destaca o lado romântico do repertório, apoiando-se numa melodia suave e numa interpretação que valoriza a expressividade vocal. Um dos grandes atrativos do álbum, entretanto, aparece nas gravações mais despojadas realizadas em Nashville. “It's Still Here”, “I Will Be True” e “I'll Take You Home Again, Kathleen” apresentam Elvis ao piano, em interpretações de caráter quase doméstico, com acompanhamento mínimo ou inexistente. Essas gravações revelam um artista disposto a experimentar sem a estrutura elaborada de seus discos comerciais. A presença do piano permite ouvir nuances de sua interpretação que muitas vezes ficavam escondidas em arranjos mais grandiosos. Para os admiradores de Elvis, essas três faixas constituem alguns dos momentos mais pessoais de todo o álbum. 

A recepção crítica do disco foi marcada por avaliações distintas, em grande parte devido à natureza irregular de sua seleção musical. A revista AllMusic, em uma análise retrospectiva assinada por Neal Umphred, observa que o álbum reúne sobras de projetos anteriores, mas ressalta que justamente essas gravações menos convencionais permitem conhecer um aspecto diferente do artista. O crítico destaca especialmente “It's Still Here” e “I Will Be True”, nas quais Elvis canta ao piano, sem acompanhamento instrumental, considerando essas interpretações momentos extraordinários que justificam a audição do LP. Essa avaliação ajuda a compreender por que o álbum passou a despertar interesse entre colecionadores e admiradores mais atentos à obra de Elvis. Por outro lado, a seleção de repertório nem sempre foi considerada equilibrada. “Padre”, por exemplo, segue uma linha dramática e grandiosa, enquanto “Love Me, Love the Life I Lead” e “Fool” procuram dialogar com o gosto popular da época. A diversidade de estilos impede que o álbum tenha uma identidade musical tão uniforme quanto a de trabalhos anteriores, como From Elvis in Memphis ou Elvis Country. A inclusão de “It's Impossible”, registrada ao vivo em Las Vegas, também contribui para essa sensação de coleção de momentos distintos, em vez de um projeto concebido como uma unidade artística. Ainda assim, as gravações mais intimistas demonstram a capacidade de Elvis de transmitir emoção mesmo em condições simples de gravação. 

Comercialmente, Elvis chegou ao mercado num período em que a presença do cantor nas paradas americanas continuava significativa, embora os resultados variassem bastante conforme o lançamento. O álbum alcançou a 52ª posição na parada de álbuns da Billboard nos Estados Unidos, enquanto obteve desempenho mais expressivo em determinadas listas de música country. No Reino Unido, o disco também encontrou público, acompanhando o interesse contínuo pela obra do cantor. A faixa “Fool” ganhou destaque como single, embora nos Estados Unidos tenha sido lançada originalmente no lado B de “Steamroller Blues”, canção que havia sido apresentada no álbum Aloha from Hawaii via Satellite. A combinação das duas músicas chegou à 17ª posição da Billboard Hot 100, enquanto “Fool” alcançou a 15ª colocação na parada britânica de singles. A revista Billboard, em sua avaliação da gravação, descreveu “Fool” como uma balada forte, de orientação country-rock, seguindo a linha de outros sucessos românticos de Elvis. O desempenho comercial do LP ficou, portanto, abaixo do alcançado pelo álbum ao vivo Aloha from Hawaii, mas confirmou que o cantor ainda mantinha uma presença considerável no mercado fonográfico internacional. A página oficial de Elvis observa que as vendas do álbum ficaram em torno de 200 mil cópias, resultado que refletiu, em parte, a natureza pouco convencional do lançamento e a apresentação gráfica considerada pouco elaborada. 

Com o passar das décadas, Elvis (The Fool Album) adquiriu importância principalmente entre os admiradores interessados nas gravações menos conhecidas do cantor. Não é geralmente considerado um dos grandes álbuns conceituais de sua carreira, mas oferece uma oportunidade especial de acompanhar Elvis em interpretações mais espontâneas e pessoais. A versão de “Don't Think Twice, It's All Right”, de Bob Dylan, é um dos exemplos mais interessantes dessa liberdade interpretativa. Elvis transforma a composição numa performance acústica descontraída, com fraseado vocal flexível e uma abordagem que se afasta da estrutura mais rígida de algumas de suas gravações comerciais. A edição original apresenta uma versão bastante reduzida da interpretação, enquanto registros mais extensos permitem conhecer melhor o desenvolvimento da sessão. A presença dessa canção também demonstra o interesse de Elvis pelo repertório de outros compositores importantes de sua época. “(That's What You Get) For Lovin' Me”, de Gordon Lightfoot, acrescenta ao disco uma ligação com a tradição da música folk e country norte-americana. Já as três gravações ao piano continuam sendo lembradas como registros especialmente reveladores da personalidade musical de Elvis. O álbum, assim, representa um documento de transição dentro de sua trajetória nos anos 1970: um lançamento comercialmente modesto, mas que preserva interpretações de grande valor histórico e artístico. Para quem deseja conhecer não apenas os grandes sucessos, mas também o lado mais reservado e experimental do Rei do Rock, The Fool Album permanece uma audição indispensável.

Elvis Presley - Elvis (The Fool Album) (1973)
Fool
Where Do I Go from Here
Love Me, Love the Life I Lead
It's Still Here
It's Impossible
(That's What You Get) For Lovin' Me
Padre
I'll Take You Home Again, Kathleen
I Will Be True
Don't Think Twice, It's All Right

Erick Steve. 

The Beatles - Let It Be

The Beatles - Let It Be
Música: Let It Be
Artista: The Beatles
Álbum: Let It Be
Selo: Apple Records
Produtor: George Martin (gravação original); Phil Spector (versão do álbum de 1970)
Músicos: Paul McCartney (vocais, piano, baixo); John Lennon (guitarra, vocais de apoio); George Harrison (guitarra solo, vocais de apoio); Ringo Starr (bateria); Billy Preston (órgão Hammond); Linda McCartney (vocais de apoio, na versão do álbum)
Data de gravação: 31 de janeiro de 1969; overdubs em 30 de abril de 1969 e 4 de janeiro de 1970
Data de Lançamento: 6 de março de 1970, como single; 8 de maio de 1970, no álbum Let It Be

Comentários:
“Let It Be” foi composta principalmente por Paul McCartney durante um dos períodos mais turbulentos da história dos Beatles. A inspiração veio de um sonho que McCartney teve com sua mãe, Mary McCartney, falecida quando ele ainda era adolescente, e a figura de “Mother Mary” presente na letra nasceu dessa experiência pessoal. Em meio às tensões que marcavam o relacionamento entre os quatro Beatles durante as sessões do projeto que originalmente se chamaria Get Back, McCartney encontrou na canção uma mensagem de serenidade, aceitação e esperança. A composição apresenta uma estrutura extremamente acessível, baseada em uma melodia ampla e memorável, com forte influência do gospel e da tradição das grandes baladas populares. A expressão “let it be”, repetida como uma espécie de conselho ou mantra, deu à música uma dimensão universal que ultrapassou o contexto particular em que foi escrita. A gravação foi realizada no Apple Studio, em Londres, durante as sessões de janeiro de 1969, quando os Beatles tentavam recuperar a espontaneidade de seus primeiros anos e voltar a tocar de maneira mais direta. Billy Preston participou das sessões ao piano e órgão, contribuindo para a sonoridade da gravação.

“Let It Be” adquiriu uma importância ainda maior porque acabou sendo lançada quando a história dos Beatles estava chegando ao fim. O single chegou ao mercado em 6 de março de 1970, pouco antes de Paul McCartney anunciar publicamente sua saída do grupo, enquanto o álbum Let It Be seria lançado em maio daquele ano, tornando-se o último álbum dos Beatles a ser lançado. A produção do single e a do álbum também apresentam diferenças: a versão do single foi produzida por George Martin, enquanto Phil Spector posteriormente trabalhou nas fitas para a edição do álbum, produzindo uma versão diferente. Comercialmente, a música foi um enorme sucesso e tornou-se uma das gravações mais reconhecidas do repertório dos Beatles. Sua força está na combinação entre a simplicidade da composição, a interpretação vocal emotiva de McCartney, o piano, o órgão de Billy Preston e o crescendo instrumental que conduz a música ao seu encerramento. Com o passar das décadas, “Let It Be” deixou de ser apenas uma canção associada ao fim dos Beatles e passou a representar uma mensagem universal de esperança diante das dificuldades. Sua presença constante em coletâneas, programas de rádio, apresentações e versões de outros artistas consolidou seu lugar entre as grandes canções da música popular do século XX. Seu legado permanece justamente porque, mesmo nascida em um momento de crise e separação, conseguiu transformar uma experiência pessoal de perda e um período de instabilidade em uma mensagem musical de conforto que continua reconhecida mundialmente.

Erick Steve. 

sexta-feira, 25 de setembro de 2026

Coração Selvagem

Título no Brasil: Coração Selvagem
Título Original: Heart of the Beast
Ano de Lançamento: 2026
País: Estados Unidos
Estúdio: Plan B Entertainment 
Direção: David Ayer
Roteiro: Cameron Alexander
Elenco: Brad Pitt, J.K. Simmons e Anna Lambe.

Sinopse: 
James Belmont é um veterano das Forças Especiais que decide passar alguns dias no remoto Alasca na companhia de Odin, seu cão de combate e fiel companheiro. Durante o voo sobre uma região selvagem, James sofre um grave acidente e os dois acabam isolados em uma área praticamente inacessível. Sem contato com a civilização e enfrentando temperaturas extremas, eles precisam encontrar uma maneira de sobreviver e retornar para casa. James precisa utilizar seus conhecimentos militares para conseguir abrigo, alimento e proteção contra os perigos da natureza. Odin, por sua vez, torna-se fundamental para sua sobrevivência e para sua estabilidade emocional. Ao longo da jornada, os dois enfrentam tempestades, animais selvagens, ferimentos e outros obstáculos. A situação também faz James reviver lembranças dolorosas de seu passado militar. A história acompanha principalmente a luta dos dois companheiros pela sobrevivência e o forte vínculo construído entre um homem e seu cão.

Comentários: 
Coração Selvagem é um filme de aventura e sobrevivência dirigido por David Ayer, que volta a trabalhar com Brad Pitt depois de Corações de Ferro. A produção utiliza a relação entre James e Odin como seu principal elemento emocional, colocando os dois personagens praticamente sozinhos durante grande parte da história. Brad Pitt interpreta o protagonista de maneira mais contida, com poucas falas e grande parte da atuação baseada em expressões e ações físicas. O cão Odin também possui um papel fundamental e foi interpretado principalmente por um pastor-alemão chamado Uber, com outros cães utilizados em determinadas cenas. A fotografia de Mauro Fiore aproveita as paisagens naturais para criar uma sensação de isolamento e grandiosidade. O lançamento comercial nos Estados Unidos se deu em 25 de setembro de 2026, enquanto no Brasil chegou aos cinemas em 24 de setembro.

A recepção crítica inicial tem destacado principalmente a relação entre Brad Pitt e o cachorro. O The New York Times observou que Pitt consegue dar força ao filme ao interpretar um veterano acompanhado por seu cão, enquanto o Los Angeles Times destacou que Odin acaba se tornando o grande destaque da produção. A Associated Press considerou a história simples e algumas situações previsíveis, mas ressaltou a emoção proporcionada pela relação entre homem e animal. No Rotten Tomatoes, o filme aparece atualmente com 88% de aprovação dos críticos, embora esse índice ainda possa mudar conforme novas avaliações sejam adicionadas. A produção também chama atenção pela combinação de cenas de ação, paisagens do Alasca e momentos mais intimistas entre James e Odin. Assim, Coração Selvagem utiliza uma história tradicional de sobrevivência para explorar companheirismo, trauma, resistência e a ligação entre um soldado e seu animal de serviço.

Pablo Aluísio e Erick Steve. 

Mayday

Título no Brasil: Mayday
Título Original: Mayday
Ano de Lançamento: 2026
País: Estados Unidos
Estúdio: Apple Original Films / Skydance Media 
Direção: Jonathan Goldstein e John Francis Daley
Roteiro: Jonathan Goldstein e John Francis Daley
Elenco: Ryan Reynolds, Kenneth Branagh, Maria Bakalova, Marcin Dorociński, David Morse, Lovell Adams-Gray, Clark Johnson e Louis Cancelmi.

Sinopse: 
Durante o auge da Guerra Fria, o tenente Troy “Assassin” Kelly é um piloto da Marinha dos Estados Unidos enviado para uma missão ultrassecreta em território soviético. Quando a operação dá errado, Troy é obrigado a fazer um pouso de emergência e acaba isolado em uma região selvagem e gelada, atrás das linhas inimigas. Sem possibilidade de contato imediato com seus superiores, ele precisa encontrar uma maneira de sobreviver e escapar da área. Sua situação muda quando ele é encontrado por Nikolai Ustinov, um antigo agente da KGB que vive afastado de suas antigas atividades. Apesar de estarem em lados opostos durante a Guerra Fria, os dois percebem que precisam colaborar para sobreviver. A relação começa de maneira desconfiada e cheia de conflitos, mas gradualmente surge uma inesperada amizade entre eles. Juntos, Troy e Nikolai enfrentam perigos, perseguições e obstáculos enquanto tentam encontrar uma maneira segura de escapar do território inimigo.

Comentários: 
Mayday combina ação, aventura e drama de amizade em uma história ambientada durante a Guerra Fria. Ryan Reynolds interpreta Troy como um piloto confiante e impulsivo, enquanto Kenneth Branagh assume o papel de Nikolai Ustinov, um ex-agente da KGB de personalidade muito diferente. A principal proposta do filme está justamente no contraste entre os dois protagonistas, que precisam deixar de lado suas diferenças para sobreviver. Jonathan Goldstein e John Francis Daley, conhecidos também pelo trabalho em Dungeons & Dragons: Honra Entre Rebeldes, dirigem e escrevem o longa. A produção foi desenvolvida como um filme de ação com elementos e pitadas de comédia, utilizando a relação entre os dois personagens como seu principal elemento narrativo. Sua estreia mundial aconteceu no Apple TV em 4 de setembro de 2026.

A recepção inicial foi relativamente positiva entre os críticos, que destacaram principalmente a combinação entre ação e humor e a parceria de Ryan Reynolds com Kenneth Branagh. O Rotten Tomatoes registra atualmente 83% de aprovação da crítica, com mais de cem avaliações, embora esses números possam continuar mudando à medida que novas críticas sejam registradas. A produção também recebeu atenção por sua longa espera até o lançamento, já que as filmagens haviam sido realizadas em 2024 e o filme chegou ao público apenas em 2026. Visualmente, Mayday utiliza paisagens geladas e ambientes de aparência desolada para reforçar a sensação de isolamento enfrentada pelo protagonista. A presença de Maria Bakalova e Marcin Dorociński amplia o elenco internacional e acrescenta outros personagens à história de espionagem. O resultado é uma aventura que utiliza o cenário da Guerra Fria como ponto de partida para uma história de sobrevivência e amizade improvável.

Pablo Aluísio e Erick Steve. 

quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Perseguidor Implacável

Perseguidor Implacável 
Perseguidor Implacável (Dirty Harry, Estados Unidos, 1971) é um dos filmes policiais mais marcantes do início dos anos 1970 e o trabalho que transformou Harry Callahan em um dos personagens mais conhecidos da carreira de Clint Eastwood. Dirigido por Don Siegel, o filme chegou aos cinemas americanos em dezembro de 1971, depois de uma produção realizada praticamente toda em locações de San Francisco. Eastwood interpreta o inspetor Harry Callahan, um policial conhecido por seus métodos pouco convencionais e por sua disposição de enfrentar criminosos e superiores com a mesma franqueza. O elenco principal também reúne Andrew Robinson como o assassino Scorpio, Harry Guardino como o tenente Bressler, Reni Santoni como o inspetor Chico Gonzalez, John Vernon como o prefeito e John Larch como o chefe de polícia. A história acompanha Callahan na perseguição a um assassino que ameaça San Francisco e exige dinheiro para não continuar matando suas vítimas. A figura de Scorpio foi inspirada, embora não seja uma reprodução literal, nos crimes atribuídos ao assassino conhecido como Zodiac, que aterrorizou a região da Baía de San Francisco no final dos anos 1960 e começo dos anos 1970. O próprio clima de medo da época ajudou a dar ao filme uma atmosfera especialmente realista. A produção inicialmente tinha outro projeto de protagonistas: Frank Sinatra chegou a ser associado ao papel, mas deixou o filme por problemas decorrentes de uma cirurgia na mão, e posteriormente Clint Eastwood assumiu o personagem. O ator também produziu o longa através de sua companhia Malpaso, consolidando uma parceria cada vez mais importante com a Warner Bros.

A reação da crítica americana foi bastante dividida, principalmente porque o filme combinava o formato de thriller policial com uma visão extremamente controversa sobre violência, autoridade e limites da ação policial. Richard Eder, do The New York Times, foi severo e escreveu que dinheiro, a presença de Clint Eastwood, muito sangue, sirenes e a disposição de atacar certas ideias liberais não eram suficientes para produzir sequer um filme razoável. Roger Ebert, por outro lado, reconheceu que o filme funcionava muito bem como espetáculo policial e destacou a maneira como Don Siegel compreendia a persona cinematográfica de Eastwood. Ebert observou que o longa conseguia ser extremamente eficaz como thriller, embora considerasse problemática sua posição moral diante da violência e da lei. A crítica de Ebert tornou-se particularmente famosa porque classificou a posição moral do filme como fascista, interpretação que posteriormente ele próprio voltou a discutir e contextualizar. A Variety também reconheceu a eficiência da ação, mas considerou que o formato começava a mostrar problemas, enquanto outras avaliações ressaltaram que o filme era tecnicamente muito bem construído. A fotografia de Bruce Surtees, com San Francisco apresentada de maneira áspera e pouco turística, tornou-se um dos elementos fundamentais da experiência. O trabalho de montagem e a trilha de Lalo Schifrin ajudaram a criar um ritmo nervoso, alternando investigação, perseguições e explosões repentinas de violência. Mesmo os críticos que rejeitaram a visão política do personagem reconheceram a força cinematográfica de Eastwood e de Siegel. O resultado foi um filme que provocou discussões muito além do simples entretenimento policial e que rapidamente passou a ser analisado também por aquilo que dizia sobre a sociedade americana daquele período.

Fora dos Estados Unidos, a discussão também ultrapassou a questão de saber se o filme era simplesmente um policial de ação ou uma obra sobre a crise de autoridade existente naquele momento. A violência de Perseguidor Implacável e a atitude de Harry Callahan fizeram com que o personagem fosse interpretado de maneiras diferentes, dependendo do contexto crítico e cultural. A questão central estava na contradição entre um policial que conhece as regras do sistema e um homem que acredita que determinadas situações justificariam ultrapassá-las. O roteiro utiliza essa contradição como parte fundamental da personalidade de Harry, enquanto Scorpio é construído como uma figura deliberadamente extrema, o que torna o confronto entre os dois ainda mais carregado de tensão. A atuação de Andrew Robinson foi particularmente importante para isso, pois seu Scorpio não é apenas um criminoso convencional, mas uma presença imprevisível que desafia constantemente os limites morais do protagonista. A crítica também observou que o filme não oferecia uma solução simples para esse conflito. No encerramento, Harry joga fora seu distintivo depois de matar Scorpio, uma imagem que pode ser interpretada tanto como rejeição dos métodos utilizados quanto como consequência inevitável da trajetória percorrida pelo personagem. Com o passar das décadas, essa ambiguidade tornou-se uma das características mais discutidas do longa. Em 2012, a importância histórica de Dirty Harry foi reconhecida quando o filme foi selecionado para preservação no National Film Registry da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos. Não foi, portanto, apenas o nascimento de uma franquia de sucesso: foi também o surgimento de um personagem que passou a fazer parte da cultura cinematográfica internacional.

Com um orçamento estimado em aproximadamente US$ 4 milhões, Perseguidor Implacável teve uma trajetória comercial muito expressiva. Os registros atuais do IMDb apontam cerca de US$ 35,99 milhões em arrecadação nos Estados Unidos e Canadá, enquanto o Box Office Mojo registra aproximadamente US$ 35,99 milhões como total mundial atualmente contabilizado, embora os números históricos de distribuição possam variar conforme o método utilizado pelas diferentes bases. O desempenho foi particularmente significativo porque Clint Eastwood ainda estava consolidando sua posição como grande astro do cinema americano. Embora já fosse conhecido internacionalmente pelos westerns de Sergio Leone e por trabalhos anteriores com Don Siegel, Harry Callahan apresentou uma faceta nova de sua imagem cinematográfica. O personagem era lacônico, fisicamente imponente e quase sempre parecia estar alguns segundos à frente de seus adversários. Ao mesmo tempo, a estrutura do filme não dependia exclusivamente de Eastwood: a cidade de San Francisco funcionava praticamente como outro personagem, com suas ruas, colinas, edifícios e áreas industriais integradas à ação. A perseguição final e as sequências envolvendo o ônibus escolar ficaram especialmente associadas ao imaginário do cinema policial dos anos 1970. O público respondeu fortemente a essa combinação de suspense, violência e personalidade de protagonista. O sucesso comercial levou naturalmente à produção de uma continuação, Magnum Force, lançada em 1973, iniciando uma série que acabaria chegando a cinco filmes. Assim, o sucesso de Perseguidor Implacável não foi apenas financeiro: ele estabeleceu uma franquia duradoura e transformou Harry Callahan em uma das figuras mais reconhecíveis da carreira de Eastwood.

Atualmente, Perseguidor Implacável ocupa uma posição importante na história do cinema policial americano e na própria evolução da carreira de Clint Eastwood. O filme é frequentemente lembrado pela combinação entre a direção seca de Don Siegel, a fotografia urbana de Bruce Surtees, a música de Lalo Schifrin e a interpretação econômica de Eastwood. Também permanece relevante pela maneira como apresenta um protagonista cuja relação com a lei é deliberadamente contraditória. Harry Callahan não é simplesmente um policial que segue todas as normas, nem é apresentado como um criminoso: ele existe justamente no espaço desconfortável entre a autoridade institucional e a iniciativa individual. Essa característica ajudou a influenciar inúmeros filmes e personagens policiais posteriores. O filme também ganhou uma dimensão histórica adicional por estar associado ao clima de medo provocado pelos crimes do Zodiac na Califórnia, embora a história de Scorpio seja ficcional. No Rotten Tomatoes, a avaliação crítica contemporânea consolidada atualmente aparece em torno de 90%, enquanto a recepção do público permanece bastante positiva, mostrando que a obra continuou encontrando espectadores décadas depois de seu lançamento. Mais importante ainda, Harry Callahan passou a representar uma determinada imagem do policial cinematográfico dos anos 1970: silencioso, agressivo, individualista e permanentemente em conflito com a burocracia. O personagem seria desenvolvido nos quatro filmes seguintes, mas é neste primeiro capítulo que sua personalidade é estabelecida de maneira mais forte. Perseguidor Implacável permanece, portanto, tanto como um thriller policial extremamente característico de sua época quanto como um marco decisivo na construção do mito cinematográfico de Clint Eastwood.

Perseguidor Implacável (Dirty Harry, Estados Unidos, 1971) Direção: Don Siegel / Roteiro: Harry Julian Fink, R. M. Fink e Dean Riesner / Elenco: Clint Eastwood, Andrew Robinson, Harry Guardino, Reni Santoni, John Vernon e John Larch / Sinopse: O inspetor Harry Callahan recebe a missão de capturar Scorpio, um assassino que aterroriza San Francisco e ameaça continuar matando caso suas exigências não sejam atendidas. Enquanto a investigação avança, Harry se envolve em um confronto cada vez mais pessoal com o criminoso, ao mesmo tempo em que enfrenta superiores que desaprovam seus métodos. A perseguição leva o policial a ultrapassar diversos limites, colocando em conflito sua obrigação de obedecer à lei e sua determinação de impedir novos crimes.

Erick Steve. 

Magnum 44

Magnum 44
Magnum 44 (Magnum Force, Estados Unidos, 1973) é o segundo filme da série protagonizada por Clint Eastwood como o inspetor Harry Callahan e chegou aos cinemas apenas dois anos depois do enorme sucesso de Perseguidor Implacável. Desta vez, a direção passou de Don Siegel para Ted Post, cineasta que já havia trabalhado com Eastwood em Hang 'Em High. O filme foi produzido pela Malpaso Company, de Eastwood, e pela Warner Bros., mantendo San Francisco como cenário principal e utilizando extensivamente as ruas, prédios e paisagens da cidade. O elenco reúne, além de Eastwood, Hal Holbrook, David Soul, Tim Matheson, Robert Urich, Felton Perry e Mitchell Ryan. A história começa quando uma série de criminosos é executada por um grupo de jovens policiais que acredita estar fazendo justiça ao eliminar pessoas que escaparam das punições do sistema. Harry inicialmente parece ter uma opinião bastante próxima daquela dos vigilantes, mas logo percebe que existe uma diferença fundamental entre combater criminosos dentro da lei e transformar a polícia em um esquadrão de execução. O roteiro foi escrito por John Milius e Michael Cimino, a partir dos personagens criados por Harry Julian Fink e R. M. Fink. A produção chegou aos cinemas americanos em dezembro de 1973. A própria abertura, com a mão de Harry segurando o famoso revólver .44 Magnum e repetindo uma versão da célebre fala do primeiro filme, deixa claro que a produção pretendia preservar a identidade visual e sonora da série. A trilha novamente ficou a cargo de Lalo Schifrin, cuja música jazzística e tensa continuou sendo uma das marcas da franquia.

A recepção crítica nos Estados Unidos foi bastante dividida e, em muitos casos, concentrou-se justamente na contradição moral existente no centro da história. Nora Sayre, do The New York Times, descreveu o filme como “uma confusão moral”, observando que a produção parecia defender a aplicação da lei enquanto continuava fascinada pelo poder da violência exercida individualmente. Para a crítica, o filme tentava resolver as controvérsias do primeiro Dirty Harry colocando Harry contra policiais que haviam levado sua filosofia muito mais longe. Pauline Kael, escrevendo para The New Yorker, foi ainda mais severa e considerou que a aparente mudança de posição de Harry não alterava aquilo que ela enxergava como o verdadeiro centro do filme: a celebração da violência. Em sua leitura, Eastwood era deliberadamente impassível e o filme transformava a violência em algo quase mecânico, sem oferecer aos mortos uma dimensão emocional. Kael também criticou a direção de Ted Post, que considerou mediana, embora reconhecesse que o filme conseguia manter o suspense e funcionar dentro de seu próprio nível de entretenimento policial. A Variety, entretanto, apresentou uma avaliação mais favorável, chamando Magnum 44 de uma continuação intrigante e destacando que o roteiro acrescentava algumas ideias ao habitual espetáculo de massacres. A revista também elogiou a direção de Post, a produção de Robert Daley, a trilha de Lalo Schifrin e o desempenho geral do elenco. Assim, desde seu lançamento, o filme ficou situado entre duas percepções: para alguns críticos, era uma continuação eficiente e cheia de ação; para outros, suas contradições morais impediam que o filme ultrapassasse o nível de um violento entretenimento comercial.

Na crítica posterior, Magnum 44 passou a ser analisado principalmente pela maneira como respondeu às controvérsias provocadas pelo primeiro filme. A questão central é particularmente interessante porque Harry Callahan agora precisa enfrentar policiais que acreditam possuir o direito de matar criminosos simplesmente porque consideram o sistema judicial ineficiente. O filme coloca na boca do personagem uma defesa explícita da permanência dentro do sistema legal, embora sua própria conduta continue sendo marcada por métodos extremamente violentos. É justamente essa contradição que fez com que críticos e historiadores do cinema continuassem discutindo a obra. A Time Out, por exemplo, considerou que o filme era menos moralmente ambíguo que o original, mas observou que sua tentativa de estabelecer uma distinção entre a violência de Harry e a dos policiais vigilantes era pouco convincente. Ao mesmo tempo, a revista reconheceu a presença de boas sequências de ação. O The Guardian, em retrospectiva sobre Ted Post, destacou que Magnum 44 continuou as aventuras de Harry Callahan e observou que o personagem era definido justamente pela proximidade e, ao mesmo tempo, pela diferença em relação aos criminosos que perseguia. O filme também é importante por registrar um momento particularmente interessante da carreira de Eastwood: ele já havia se tornado uma estrela internacional graças aos westerns de Sergio Leone e aos policiais de Don Siegel, mas ainda estava consolidando a persona que dominaria boa parte de sua carreira durante a década de 1970. Magnum 44 ajudou a estabelecer essa imagem definitivamente, combinando o homem de poucas palavras, a expressão impassível, o humor seco e a enorme presença física diante da câmera. Mesmo as críticas negativas contribuíram para manter o personagem no centro da discussão cinematográfica da época. O filme não recebeu indicações ao Oscar ou aos principais prêmios de Hollywood, e seu reconhecimento posterior esteve muito mais ligado à importância da série Dirty Harry do que a premiações formais.

Comercialmente, Magnum 44 foi um enorme sucesso e conseguiu superar o primeiro filme da série nas bilheterias americanas. A produção arrecadou aproximadamente US$ 44,68 milhões nos Estados Unidos e Canadá, tornando-se o sexto filme de maior bilheteria de 1973 no mercado americano. Os registros de aluguel cinematográfico apontam cerca de US$ 19,4 milhões na América do Norte e outros US$ 9,5 milhões nos mercados estrangeiros, totalizando aproximadamente US$ 28,9 milhões em aluguéis para os distribuidores. O resultado confirmou que Harry Callahan não era simplesmente um personagem associado ao sucesso inesperado do filme original, mas uma franquia com enorme capacidade comercial. A sequência também ampliou o repertório de cenas de ação da série, apresentando perseguições automobilísticas, tiroteios, motocicletas, confrontos em ambientes urbanos e algumas das sequências mais violentas de toda a franquia. A presença de atores que posteriormente se tornariam muito conhecidos na televisão americana, como David Soul e Robert Urich, também dá ao elenco um interesse especial para o público que acompanha a cultura popular dos anos 1970. Hal Holbrook, como o tenente Neil Briggs, funciona como contraponto direto a Eastwood, inicialmente apresentado como uma autoridade respeitável e experiente, mas progressivamente revelado como líder do grupo de policiais que decidiu substituir os tribunais pela execução sumária. O sucesso comercial foi tão expressivo que tornou inevitável a continuidade da série. Em 1976, Eastwood retornaria como Callahan em The Enforcer, lançado no Brasil como Sem Medo da Morte. Dessa maneira, Magnum 44 foi decisivo para transformar Dirty Harry de um filme de sucesso em uma franquia duradoura.

Com o passar das décadas, Magnum 44 ganhou uma reputação bastante sólida entre os admiradores do cinema policial dos anos 1970. Embora a crítica atual continue discutindo as questões morais e políticas presentes no roteiro, o filme é reconhecido como uma peça importante da série e como um exemplo muito característico do cinema de ação produzido em Hollywood naquele período. O Rotten Tomatoes atualmente registra 69% de aprovação da crítica e 78% de aprovação do público, com a avaliação crítica destacando que a sequência aumenta a quantidade de ação e apresenta cenas de dublês particularmente eficazes. O filme também possui 58 pontos no Metacritic, com avaliações que vão desde a aprovação da eficiência das sequências de ação até críticas severas à sua construção moral. A relação entre Harry e os policiais vigilantes é provavelmente o elemento que mais diferencia Magnum 44 de Perseguidor Implacável. O primeiro filme apresentava um homem perseguindo um criminoso; aqui, o protagonista precisa descobrir se sua própria filosofia foi levada longe demais por outros policiais. Essa estrutura permitiu aos roteiristas responder diretamente às acusações feitas contra o personagem original, embora não tenha eliminado a controvérsia. A sequência também consolidou elementos que se tornariam inseparáveis da imagem de Harry Callahan: o .44 Magnum, as frases secas, a investigação independente, a cidade de San Francisco e a mistura de violência e humor. Décadas depois, a importância cultural da produção é reforçada pelo fato de Magnum 44 continuar sendo exibido, relançado e discutido ao lado do filme original. Para Clint Eastwood, foi um passo importante na consolidação de uma persona cinematográfica que ele levaria posteriormente para personagens ainda mais complexos, especialmente quando começou a dirigir seus próprios filmes. Como segundo capítulo de uma franquia que chegaria a cinco episódios, Magnum 44 permanece como um dos filmes fundamentais do ciclo Dirty Harry.

Magnum 44 (Magnum Force, Estados Unidos, 1973) Direção: Ted Post / Roteiro: John Milius e Michael Cimino, baseado nos personagens criados por Harry Julian Fink e R. M. Fink / Elenco: Clint Eastwood, Hal Holbrook, David Soul, Tim Matheson, Robert Urich e Felton Perry / Sinopse: O inspetor Harry Callahan investiga uma série de assassinatos de criminosos e descobre que as mortes estão relacionadas a um grupo de jovens policiais que decidiu fazer justiça pelas próprias mãos. Conforme a investigação avança, Harry percebe que os novos vigilantes utilizam uma versão ainda mais extrema dos métodos que ele próprio emprega no combate ao crime. O confronto coloca o policial diante de uma questão fundamental: até onde um agente da lei pode ir antes de se tornar aquilo que deveria combater?

Erick Steve. 

quarta-feira, 23 de setembro de 2026

A Casa que Pingava Sangue

Título no Brasil: A Casa que Pingava Sangue
Título Original: The House That Dripped Blood
Ano de Lançamento: 1971
País: Reino Unido
Estúdio: Amicus Productions
Direção: Peter Duffell
Roteiro: Robert Bloch e Russ Jones
Elenco: Christopher Lee, Peter Cushing, Denholm Elliott, Jon Pertwee, Nyree Dawn Porter, Ingrid Pitt, Joss Ackland, Joanna Dunham, John Bennett e John Bryans.

Sinopse: 
O filme começa quando o ator de filmes de horror Paul Henderson desaparece misteriosamente depois de se mudar para uma antiga casa de campo. O inspetor Holloway, da Scotland Yard, fica encarregado de investigar o desaparecimento e conversa com o proprietário do imóvel para descobrir o que aconteceu. Durante a investigação, ele ouve quatro histórias diferentes envolvendo antigos moradores da mesma casa. Em cada episódio, os personagens acabam enfrentando acontecimentos sobrenaturais, mortes violentas e situações inexplicáveis. Um escritor passa a ser perseguido por um personagem assassino que criou em seus próprios livros. Em outra história, dois homens ficam obcecados por uma figura de cera ligada a um acontecimento do passado. Há ainda uma trama envolvendo uma menina e sua misteriosa boneca, além do episódio de um ator que acredita ter encontrado uma capa capaz de lhe dar poderes sobrenaturais. Aos poucos, as quatro histórias formam um retrato sombrio da antiga residência e ajudam o inspetor a compreender o destino de seu mais recente ocupante.

Comentários: 
A Casa que Pingava Sangue é uma produção de terror em formato de antologia, característica bastante utilizada pela Amicus Productions durante as décadas de 1960 e 1970. O roteiro foi baseado em quatro histórias de Robert Bloch, conhecido principalmente por ter escrito o romance Psicose. Peter Duffell conduz o filme dividindo a narrativa em quatro episódios independentes, unidos pela mesma casa e pela investigação do inspetor Holloway. Essa estrutura permite que diferentes estilos de horror apareçam na mesma produção, passando pelo suspense psicológico, sobrenatural, vampirismo e terror ligado a objetos aparentemente comuns. O elenco reúne alguns dos maiores nomes do horror britânico do período, principalmente Christopher Lee e Peter Cushing, que aparecem em segmentos diferentes. Denholm Elliott, Jon Pertwee, Ingrid Pitt e Nyree Dawn Porter também contribuem para a variedade de personagens e situações. A fotografia de Ray Parslow e a música de Michael Dress ajudam a criar uma atmosfera sombria e tradicional, bastante característica do cinema de terror britânico daquele período. O filme foi lançado no Reino Unido em fevereiro de 1971 e possui aproximadamente 102 minutos de duração.

A produção encontrou seu principal atrativo justamente na reunião de quatro histórias diferentes dentro de uma mesma narrativa, fazendo com que o espectador nunca soubesse exatamente que tipo de ameaça surgiria no episódio seguinte. A presença de Christopher Lee e Peter Cushing também aumentou o interesse dos admiradores do cinema de horror produzido pela Hammer e pela Amicus. Embora o filme tenha recebido avaliações variadas ao longo dos anos, tornou-se uma obra bastante conhecida entre os fãs das antologias britânicas de terror. O conceito da casa amaldiçoada funciona como elemento de ligação entre os episódios e ajuda a criar uma atmosfera de mistério durante toda a história. As quatro narrativas também permitem explorar diferentes medos, desde a obsessão e a loucura até forças sobrenaturais e objetos aparentemente inofensivos. Com o passar do tempo, A Casa que Pingava Sangue ganhou status de cult e passou a ser lembrado como uma das produções mais representativas da fase clássica das antologias de terror britânicas. Sua importância está principalmente na combinação de histórias de Robert Bloch com um elenco repleto de veteranos do gênero. Para quem aprecia Christopher Lee, Peter Cushing e o horror britânico dos anos 1970, o filme continua sendo uma curiosa e atmosférica produção do período.

Erick Steve. 

A Semente do Diabo

Título no Brasil: A Semente do Diabo
Título Original: Prophecy
Ano de Lançamento: 1979
País: Estados Unidos
Estúdio: Paramount Pictures
Direção: John Frankenheimer
Roteiro: David Seltzer
Elenco: Robert Foxworth, Talia Shire, Armand Assante, Richard Dysart, Victoria Racimo e George Clutesi.

Sinopse: 
O médico Robert Verne e sua esposa Maggie viajam para uma região florestal do Maine para investigar os efeitos provocados pela atividade de uma grande empresa madeireira. O trabalho os coloca no meio de uma disputa entre a companhia e uma comunidade indígena que acusa a indústria de contaminar o ambiente. Pouco depois da chegada do casal, acontecimentos estranhos começam a ocorrer na floresta. Peixes aparecem com tamanho anormal, animais sofrem mutações e pessoas são encontradas mortas em circunstâncias misteriosas. Os moradores contam histórias sobre uma criatura conhecida como Katahdin, mas os responsáveis pela empresa afirmam que tudo não passa de uma lenda. Robert e Maggie continuam investigando e descobrem indícios de que a poluição provocada pela indústria pode estar alterando a vida animal da região. Enquanto a situação se torna cada vez mais perigosa, o casal percebe que existe uma criatura monstruosa escondida na floresta. A ameaça acaba colocando suas próprias vidas em risco e transforma a investigação ambiental em uma luta pela sobrevivência.

Comentários: 
A Semente do Diabo mistura terror, ficção científica e suspense ecológico em uma produção bastante característica do cinema americano do final dos anos 1970. John Frankenheimer, conhecido por filmes como O Segundo Rosto e Sob o Domínio do Medo, assumiu a direção e procurou combinar uma história de monstros com uma preocupação ambiental. Robert Foxworth e Talia Shire interpretam o casal central, enquanto Armand Assante vive John Hawks, um dos personagens ligados à comunidade indígena. A fotografia de Harry Stradling Jr. aproveita as paisagens de British Columbia, no Canadá, utilizadas para representar as florestas do Maine. As filmagens também passaram por locais da região de Vancouver e por cenários construídos nos estúdios da Paramount em Hollywood. A produção teve orçamento estimado em cerca de US$ 8 milhões e foi realizada em Panavision, com som Dolby Stereo. O filme chegou aos cinemas dos Estados Unidos em 15 de junho de 1979 e possui aproximadamente 102 minutos de duração.

A recepção crítica foi bastante negativa no lançamento, apesar de o filme ter conseguido um desempenho comercial significativo. O New York Times observou que a história lembrava outros filmes sobre ameaças ambientais e monstros, enquanto a Variety considerou que o argumento não apresentava muitas novidades. A própria AFI registra que as sessões iniciais provocaram reações negativas de parte do público e que vários críticos questionaram a originalidade da narrativa. Por outro lado, a produção se tornou um dos sucessos da Paramount naquele verão de 1979, alcançando quase US$ 23 milhões de bilheteria doméstica, segundo dados contemporâneos registrados pela AFI. Atualmente, Prophecy apresenta 35% de aprovação entre os críticos no Rotten Tomatoes, indicando que sua reputação crítica permanece dividida. Apesar dessas avaliações, o filme ganhou interesse entre os admiradores do terror dos anos 1970, principalmente pela criatura criada pelos efeitos especiais e pela atmosfera das florestas. Hoje, A Semente do Diabo é lembrado como uma produção peculiar que combina a tradição dos filmes de monstros com uma mensagem sobre poluição e destruição ambiental.

Erick Steve. 

terça-feira, 22 de setembro de 2026

Blefando a Morte

Blefando a Morte
Clássico do faroeste estrelado por Anthony Quinn, um ator que sempre foi muito querido pelo público brasileiro. Do que trata a história? Dave Robles (Anthony Quinn) chega numa cidadezinha do velho oeste para ter um acerto de contas final com um famoso pistoleiro. Ao encontrá-lo na porta de um Saloon nem pensa duas vezes e passa fogo no famoso bandoleiro. O assassinato acaba lhe trazendo bastante fama no pequeno povoado que sempre sofreu nas mãos do impiedoso bandido. Depois de uma reunião da assembleia de moradores eles decidem em conjunto oferecer o posto de xerife para Robles. De pistoleiro ele passaria a ser o homem da lei do lugar. Após pensar por alguns momentos ele finalmente decide aceitar o cargo, mesmo sabendo das dificuldades que terá ao tentar impor lei e ordem no local. Na verdade Robles não leva muito jeito para a função, uma vez que é um sujeito bastante rústico, sem estudo algum (nem sabe ler) e pouco atento aos costumes sociais do local. No fundo só aceitou a estrela de bronze para tentar conquistar o coração de Estella (Katy Jurado), a bonita assistente do médico local. Ele a conheceu quando foi se tratar dos ferimentos de seu confronto a bala com o famigerado pistoleiro e assim que a viu pela primeira vez se apaixonou perdidamente por ela.

"Blefando a Morte" tem uma das melhores interpretações da carreira de Anthony Quinn. O ator se sai maravilhosamente bem ao dar vida a um sujeito sem qualquer sofisticação que vira xerife meio que por acaso num lugar esquecido por Deus. O curioso aqui vem da complicada relação do novo xerife com a população local. As pessoas da cidade sabem que precisam dele por causa de sua habilidade com armas, mas ao mesmo tempo não o aceitam completamente por causa de sua rudeza.

Isso fica bem claro quando os moradores resolvem fazer um grande baile. Obviamente para ocasião tão festiva precisam convidar o xerife para participar, mas sua presença ali no meio da elite da comunidade acaba causando um grande mal-estar mostrando claramente que ele de fato não é aceito socialmente na cidade que jurou proteger. A cena final, com um duelo no meio da rua principal, vai mostrar para todos o verdadeiro valor do novo xerife. "Blefando a Morte" se torna assim mais um bom western dos anos 1950 que merece agora ser redescoberto. Roteiro com raro aprofundamento dos personagens para aquela época. Vale a recomendação.

Blefando a Morte (Man from Del Rio, Estados Unidos, 1956) Direção: Harry Horner / Roteiro: Richard Carr / Elenco: Anthony Quinn, Katy Jurado, Peter Whitney / Sinopse: Após matar um famoso criminoso, um simples cowboy (Quinn) acaba sendo escolhido como o novo xerife da cidade. Agora ele terá que provar seu valor para os moradores que ainda não o aceitam socialmente por causa de seus modos rudes e falta de educação adequada.

Pablo Aluísio.