Cara-de-Barro (Clayface) é uma produção da DC Studios que aposta no terror corporal, no suspense psicológico e na transformação de um homem em uma criatura monstruosa. Dirigido por James Watkins, cineasta conhecido por Eden Lake, A Mulher de Preto e Speak No Evil, o longa chegou aos cinemas brasileiros em 22 de outubro de 2026 e aos americanos no dia seguinte. O roteiro foi escrito por Mike Flanagan, conhecido por trabalhos de terror como A Maldição da Residência Hill, e Hossein Amini, responsável pelo roteiro de Drive. A história é baseada no personagem dos quadrinhos da DC Comics e apresenta Tom Rhys Harries como Matt Hagen, um jovem ator que alcança rapidamente o estrelato em Hollywood. Seu sucesso, entretanto, é interrompido quando ele se envolve em um conflito com o criminoso Markos Szabo, interpretado por David Dencik, que o deixa brutalmente desfigurado. Abandonado por seus representantes e praticamente afastado da carreira, Matt procura a cientista Caitlyn Corr, vivida por Naomi Ackie, que desenvolveu um tratamento experimental capaz de regenerar tecidos humanos. O procedimento inicialmente parece funcionar, devolvendo ao ator sua aparência anterior, mas provoca transformações inesperadas em seu organismo. Seu corpo começa a perder a estabilidade, permitindo que ele modifique a própria aparência e assuma diferentes formas. O que inicialmente parece uma oportunidade de recuperar sua carreira transforma-se em um pesadelo físico e psicológico, alimentado pelo ressentimento e pelo desejo de vingança. Max Minghella interpreta John Borrelli, enquanto Eddie Marsan, Joshua James e Nancy Carroll também integram o elenco. A produção é uma adaptação bastante diferente das tradicionais aventuras de Batman, pois coloca no centro da narrativa um personagem que normalmente aparece como adversário do Homem-Morcego. Matt Reeves, James Gunn, Peter Safran e Lynn Harris estão entre os produtores. Com aproximadamente 108 minutos de duração, o filme foi concebido como uma história relativamente independente dentro do novo universo cinematográfico da DC, permitindo que o terror e o drama pessoal tenham mais espaço do que as conexões com outras produções da franquia.
A recepção da crítica americana foi relativamente favorável, embora tenha apresentado divergências importantes quanto à qualidade do roteiro e à capacidade do filme de desenvolver seu protagonista. No Rotten Tomatoes, a produção alcançou aproximadamente 77% de aprovação dos críticos e 94% do público nos primeiros dias de lançamento, números que demonstravam uma reação bastante positiva dos espectadores, mesmo diante de avaliações profissionais divididas. Guy Lodge, da revista Variety, foi um dos críticos mais entusiasmados e afirmou que, em praticamente todos os aspectos, Cara-de-Barro supera as expectativas, sem deixar de assumir sua natureza de filme B. O jornalista elogiou especialmente os efeitos de maquiagem e as transformações físicas, que proporcionam algumas das sequências mais perturbadoras da produção. Frank Scheck, do The Hollywood Reporter, também apresentou uma avaliação positiva, destacando que as imagens sombrias, os diálogos de inspiração pulp e a profundidade psicológica permitem estabelecer comparações com os trabalhos de David Cronenberg e Sam Raimi. Entretanto, Brian Tallerico, do RogerEbert.com, foi bastante crítico e considerou que o filme não consegue definir com clareza o que pretende dizer sobre seu protagonista. Em sua avaliação, a história apresenta diversas ideias interessantes, mas não desenvolve satisfatoriamente nenhuma delas, transformando o drama de Matt Hagen em um thriller de vingança narrativamente vazio.
Amy Nicholson, do Los Angeles Times, também criticou o roteiro, afirmando que o terror corporal funciona muito melhor do que a história dramática. Para ela, o filme possui bons momentos de efeitos especiais, mas não consegue transformar a tragédia pessoal do protagonista em uma experiência emocional convincente. Assim, a principal divisão entre os críticos está na diferença entre a eficiência visual do terror e a qualidade da narrativa. Enquanto alguns consideraram a produção uma experiência original e ousada dentro do cinema de super-heróis, outros entenderam que a história não consegue alcançar a mesma força das imagens que apresenta.
Na Europa, a recepção também foi dividida, mas houve avaliações bastante entusiasmadas entre os críticos especializados em cinema de terror. Helen O'Hara, da revista britânica Time Out, concedeu quatro estrelas de cinco e descreveu a produção como um drama criminal estilizado que também funciona como um dos filmes de terror corporal mais repulsivos desde A Substância. A crítica elogiou a maneira como James Watkins transforma um vilão secundário dos quadrinhos em protagonista de uma história trágica, comparando suas transformações físicas ao universo cinematográfico de David Cronenberg. Guy Lodge, da Variety, também destacou o caráter estranho e divertido da produção, observando que ela não parece preocupada em agradar ao público mais amplo. Em sua interpretação, essa liberdade criativa é justamente uma de suas maiores qualidades. O The Telegraph apresentou uma avaliação positiva, considerando o filme uma experiência bastante divertida e elogiando sua disposição de se afastar das fórmulas habituais dos grandes lançamentos de super-heróis. Em sentido contrário, Benjamin Lee, do The Guardian, considerou que a produção representa uma oportunidade perdida. Embora tenha reconhecido a eficácia de determinadas cenas grotescas, criticou a aparência visual, o desenvolvimento irregular dos personagens e a falta de originalidade da história. A revista Screen International também apontou que a combinação entre filme de monstros e história de amor não alcança plenamente seus objetivos, pois a narrativa não apresenta elementos suficientemente originais para sustentar toda a duração.
O filme não chegou ao circuito com uma campanha voltada para grandes premiações tradicionais, pois sua proposta é essencialmente a de um longa de terror comercial. Sua classificação indicativa para adultos, consequência das cenas de violência explícita e transformações corporais, também demonstra a intenção de apresentar uma produção mais próxima do horror convencional do que das aventuras familiares geralmente associadas à DC. O resultado foi uma recepção internacional que reconheceu sua coragem estética, mas questionou a consistência de seu roteiro.
Comercialmente, Cara-de-Barro teve uma estreia promissora, especialmente quando se considera seu orçamento relativamente modesto para uma produção baseada em personagens de quadrinhos. O orçamento divulgado ficou em aproximadamente US$ 44 milhões, valor bastante inferior ao de muitos filmes recentes de super-heróis. Em seu primeiro fim de semana na América do Norte, o longa arrecadou cerca de US$ 24 milhões, enquanto os mercados internacionais acrescentaram aproximadamente US$ 19 milhões, levando a estreia mundial a cerca de US$ 43 milhões. O resultado colocou a produção na liderança da bilheteria norte-americana e foi considerado positivo para um filme de terror com classificação restritiva para adultos. A recepção do público também foi bastante favorável, com nota A- no CinemaScore, indicador interessante porque filmes de terror frequentemente recebem avaliações mais baixas devido à própria natureza desconfortável do gênero. O desempenho demonstra que existe espaço comercial para produções de quadrinhos que abandonam temporariamente o espetáculo tradicional de super-heróis e exploram personagens menos conhecidos por meio de outros gêneros cinematográficos. A campanha de divulgação destacou justamente o caráter grotesco da transformação de Matt Hagen, utilizando imagens de sua face deformada e de seu corpo em processo de mutação. A presença de James Gunn e Peter Safran na produção também ajudou a associar o longa à nova fase do universo cinematográfico da DC, embora a história tenha sido desenvolvida para funcionar de maneira independente. A escolha de um orçamento menor reduziu os riscos financeiros em comparação com grandes blockbusters, que frequentemente precisam arrecadar centenas de milhões de dólares para alcançar rentabilidade. Naturalmente, ainda é necessário considerar os custos de publicidade, distribuição e a divisão da receita com os exibidores. Como o filme acabou de estrear, não existe ainda um resultado mundial definitivo que permita avaliar sua trajetória completa. Mesmo assim, a abertura comercial e a boa reação dos espectadores indicam que a DC encontrou um público interessado em uma abordagem mais adulta e violenta de seus personagens.
A relevância de Cara-de-Barro está na tentativa de demonstrar que o universo da DC pode abrigar histórias de diferentes gêneros, sem depender exclusivamente de grandes confrontos entre super-heróis e vilões. O personagem possui uma longa trajetória nos quadrinhos, tendo surgido originalmente em 1940, nas histórias do Batman, e passado por diferentes versões ao longo das décadas. Matt Hagen é uma das encarnações mais conhecidas, associada à capacidade de transformar o próprio corpo em uma substância maleável e assumir diferentes aparências. O filme utiliza essa característica para construir uma história sobre vaidade, identidade, ambição artística e a obsessão pela aparência física. A situação de Matt também permite uma interpretação crítica da indústria cinematográfica, na qual a imagem pública e a beleza podem determinar o sucesso profissional de um ator. Quando perde o rosto, ele não perde apenas sua aparência, mas também a posição social e a carreira que havia conquistado. A experiência científica que promete restaurá-lo acaba destruindo sua identidade de maneira ainda mais profunda. Essa abordagem aproxima a produção de clássicos do terror corporal, especialmente A Mosca, de David Cronenberg, e de filmes que exploram a transformação física como expressão de conflitos psicológicos. A atuação de Tom Rhys Harries foi um dos aspectos mais elogiados, pois o ator precisa transmitir a passagem de um homem inicialmente carismático para uma criatura dominada pela raiva e pela deformação. Naomi Ackie também recebeu elogios por oferecer uma presença dramática importante em meio às sequências de horror.
A recepção inicial indica que essa produção possa ser encarada como uma das experiências mais diferentes da nova fase cinematográfica da DC. Sua principal contribuição talvez seja abrir caminho para outras produções que utilizem personagens secundários dos quadrinhos em histórias independentes, com liberdade para explorar gêneros como terror, suspense e drama psicológico. Se a intenção era provar que um vilão de Batman poderia sustentar sozinho um filme de horror, Cara-de-Barro conseguiu ao menos demonstrar que essa possibilidade possui força comercial e interesse artístico.
Cara-de-Barro (Clayface, Estados Unidos, 2026) Direção: James Watkins / Roteiro: Mike Flanagan e Hossein Amini / Elenco: Tom Rhys Harries, Naomi Ackie, David Dencik, Max Minghella, Eddie Marsan e Joshua James / Sinopse: Matt Hagen é um ator em ascensão cuja carreira e aparência são destruídas após um confronto com um criminoso de Gotham. Desesperado para recuperar sua antiga vida, ele se submete a um tratamento experimental que restaura seu rosto, mas provoca uma transformação monstruosa em seu corpo. Aos poucos, Matt descobre que adquiriu a capacidade de modificar sua aparência, enquanto sua personalidade é dominada pela obsessão e pela vingança.
Pablo Aluísio e Erick Steve.










