terça-feira, 26 de maio de 2026
Sangue em Sonora
Na década de 1960 Brando teve que enfrentar uma incrível série de contratempos. Suas ex-esposas o processaram, a guarda de seus filhos exigia que o ator desembolsasse somas cada vez maiores para pagar os advogados e sua querida ilha Tetiroa só lhe trazia prejuízos. Mal conseguia construir seu hotel um furacão vinha e destruía com tudo. O ator pretendia transformar o local em ponto turístico ambiental mas jamais concretizou seus planos por causa da irascível natureza da região. Assim, atolado com muitas dívidas, Marlon Brando se dispôs a se deslocar para uma locação de díficil acesso para começar as filmagens desse faroeste.
Em seu livro Brando recordou que ficou surpreso ao chegar lá e saber que tinha sido o mesmo local onde John Wayne havia filmado um conhecido western na era de ouro do cinema. O problema era que o local ficava muito próximo de uma base americana de testes nucleares. Para Brando muito provavelmente foi nesse local que John Wayne teria sido contaminado por depósitos de lixo nuclear (urânio), o que teria sido decisivo para o desenvolvimento do câncer que vitimaria o veterano ator anos depois. Brando afirmaria depois: "Não deixava de ser uma ironia o fato do grande defensor da indústria armamentista nuclear norte-americana ter sido morto justamente por ter sido contaminado por seu lixo deixado no local". Não era novidade para ninguém que ambos os atores se detestavam na vida pessoal, pois Brando era um típico liberal enquanto John Wayne era um defensor ferrenho dos ideais do partido Republicano, símbolo do conservadorismo nos Estados Unidos.
Deixando de lado todos esses problemas de egos tão comuns nos grandes atores de cinema, vamos ao filme em si. Como afirmei antes o filme tem uma estrutura comum e simples. O diretor Sidney J Furie não quis arriscar muito, até porque na época não passava de um novato com poucos filmes significantes no currículo. Trabalhar com Marlon Brando também não era nada fácil, pois o ator tinha um histórico de problemas com diretores nos sets de filmagens. A sorte de Furie foi que na ocasião Brando estava envolvido em tantos problemas pessoais que simplesmente não quis infernizar ainda mais sua vida com confusões de bastidores no set de filmagens.
Assim os trabalhos transcorreram sem grandes incidentes, tudo resultando em um filme que é um bom western, embora muito longe do que se esperaria de um gênio da atuação como Brando. Na realidade só existem dois bons momentos para Brando em toda a (curta) duração do filme. A cena inicial do filme, por exemplo, com Brando na Igreja, gera bons momentos ao roteiro, porém a melhor parte acontece depois quando Brando enfrenta o vilão Chuy Medina (interpretado por um irreconhecível John Saxon) na taberna. A queda de braço com escorpiões realmente foi uma excelente idéia, que casou muito bem com a proposta do filme que no fundo não passava de um Western de rotina com altas doses de Tequila. "Sangue em Sonora" não é nem de longe o mais brilhante momento do mito Brando nas telas nos anos 1960, mas mantém o interesse e diverte, o que no final é o que realmente importa.
Sangue em Sonora (The Appaloosa, Estados Unidos, 1966) Direção: Sidney J. Furie / Roteiro: James Bridges, Roland Kibbee / Elenco: Marlon Brando, Anjanette Comen, John Saxon / Sinopse: Matt Fletcher (Marlon Brando) chega em uma cidade perdida na fronteira entre EUA e México. Lá pretende encontrar com um amigo do passado que agora está casado e com família. Os eventos porém se interpõe em seu caminho o lançando em uma luta de proporções gigantescas com bandoleiros e patifes que infestam a região. Filme indicado ao Globo de Ouro na categoria de Melhor Ator Coadjuvante (John Saxon).
Pablo Aluísio.
A Lenda do Cavaleiro Fantasma
“A Lenda do Cavaleiro Fantasma” então passa a usar a figura misteriosa desse cavaleiro que não fala, não mostra qualquer sinal de emoção ou interatividade. Com longos cabelos ao vento mais parece uma assombração do que qualquer outra coisa. O filme obviamente usa de todos os clichês do western, alguns de forma bem descarada, mas a despeito de tudo isso consegue ser eficiente, mantendo a atenção do espectador. Com duração curta, “A Lenda do Cavaleiro Fantasma” não chega a aborrecer em nenhum momento e ganha bastante com um roteiro enxuto, sem maiores delongas. A figura do cavaleiro fantasma deixa um pouco a desejar e em muitos momentos é mal aproveitada, surgindo em plena luz do dia, por exemplo, mas no saldo final até que vale a pena ver esse western sobrenatural. Arrisque!
A Lenda do Cavaleiro Fantasma (Legend of the Phantom Rider, Estados Unidos, 2002) Direção: Alex Erkiletian / Roteiro: Robert McRay / Elenco: Denise Crosby, Robert McRay, Stefan Gierasch / Sinopse: Cidade aterrorizada por um grupo de malfeitores se enche de esperança com a chegada de um misterioso cavaleiro errante que começa a defender os moradores das barbarides cometidas pelos bandidos.
Pablo Aluísio.
segunda-feira, 25 de maio de 2026
O Pecado Mora ao Lado
Quem Era Aquela Pequena?
domingo, 24 de maio de 2026
Roma Antiga: A Rebelião de Spartacus
Após escapar de Cápua, Spartacus reuniu centenas e depois milhares de escravos fugitivos, camponeses pobres e desertores que passaram a segui-lo. Os rebeldes estabeleceram inicialmente suas bases próximas ao Monte Vesúvio, utilizando a região montanhosa como proteção contra ataques romanos. O Senado romano subestimou o movimento no início e enviou apenas pequenas forças militares para derrotar os revoltosos. Entretanto, Espártaco demonstrou enorme habilidade estratégica e conseguiu derrotar sucessivamente tropas romanas muito melhor equipadas. Sua liderança surpreendeu profundamente as autoridades de Roma. Os rebeldes utilizavam ataques rápidos, emboscadas e conhecimento do terreno para enfrentar os soldados romanos. A cada vitória, mais escravos fugidos juntavam-se ao exército rebelde, que chegou a reunir dezenas de milhares de homens e mulheres. Durante algum tempo, grandes regiões do sul da Itália ficaram praticamente fora do controle romano. A revolta espalhava medo entre os proprietários de escravos e aristocratas romanos, que temiam um colapso social ainda maior. Muitos cidadãos de Roma passaram a enxergar Espártaco não apenas como fugitivo perigoso, mas como ameaça real à estabilidade da República. O império escravista romano enfrentava uma de suas maiores crises internas.
A Rebelião de Espártaco ocorreu em um período no qual a escravidão era parte fundamental da economia romana. Milhões de escravos trabalhavam em fazendas, minas, construções e residências por todo o território controlado por Roma. Guerras de conquista constantemente abasteciam o império com novos prisioneiros transformados em escravos. A riqueza de muitos aristocratas romanos dependia diretamente desse sistema de exploração humana. Por isso, a revolta liderada por Espártaco representava enorme ameaça política e econômica. Em diversos momentos, os rebeldes derrotaram legiões romanas enviadas às pressas para contê-los, aumentando ainda mais o pânico entre as elites romanas. Alguns historiadores acreditam que Espártaco pretendia atravessar os Alpes e fugir da Itália junto com seus seguidores. Outros defendem que parte dos rebeldes desejava continuar saqueando cidades romanas e enfrentar diretamente o poder de Roma. As divergências internas dificultaram decisões estratégicas importantes durante a campanha. Apesar disso, Espártaco demonstrou capacidade militar impressionante para alguém sem treinamento formal equivalente ao dos generais romanos. Sua habilidade em manter unido um exército formado por escravos de diferentes origens culturais foi extraordinária. O Senado romano compreendeu gradualmente que a rebelião precisava ser destruída com máxima urgência.
Diante do crescimento da revolta, Roma entregou o comando militar ao rico general Marcus Licinius Crassus, um dos homens mais poderosos da República Romana. Crasso reorganizou as legiões romanas e adotou medidas extremamente severas para restaurar a disciplina militar, incluindo punições brutais contra soldados que demonstrassem covardia. Enquanto isso, Espártaco tentou levar seus seguidores para fora da Itália, mas enfrentou enormes dificuldades logísticas e militares. Os rebeldes acabaram presos no sul da península italiana, próximos ao estreito da Sicília. Crasso construiu fortificações gigantescas para cercar os revoltosos e cortar rotas de fuga. Mesmo diante da situação desesperadora, Espártaco ainda conseguiu romper parte das linhas romanas e continuar lutando. Entretanto, a superioridade militar romana acabaria prevalecendo. Em 71 a.C., ocorreu a batalha final entre as forças de Espártaco e as legiões de Crasso. Segundo os relatos antigos, Espártaco combateu ferozmente até morrer no campo de batalha, embora seu corpo jamais tenha sido identificado com certeza. Após a derrota, milhares de escravos capturados foram crucificados ao longo da Via Ápia, estrada que ligava o sul da Itália à cidade de Roma. A punição brutal servia como aviso contra futuras revoltas de escravos no império.
Mesmo derrotada militarmente, a Rebelião de Espártaco deixou enorme impacto na história romana e no imaginário mundial. O episódio revelou o medo constante que a elite romana possuía em relação à possibilidade de rebeliões escravas em grande escala. A figura de Spartacus transformou-se ao longo dos séculos em símbolo universal de resistência contra opressão, tirania e escravidão. Livros, filmes, séries e peças teatrais ajudaram a transformar Espártaco em personagem lendário da história antiga. A famosa obra Spartacus, dirigida por Stanley Kubrick e estrelada por Kirk Douglas, contribuiu enormemente para popularizar sua história no mundo moderno. Embora muitos detalhes tenham sido romantizados ao longo do tempo, a rebelião continua sendo um dos eventos mais fascinantes da Roma Antiga. Historiadores ainda debatem os verdadeiros objetivos políticos de Espártaco e a dimensão exata de seu movimento. Independentemente disso, sua luta permanece associada à busca por liberdade diante de sistemas extremamente violentos e desiguais. A história de Espártaco atravessou mais de dois mil anos como exemplo de coragem e resistência humana.
Egito Antigo: A Invasão dos Povos do Mar
Durante o reinado do faraó Ramesses III, o Egito enfrentou diretamente os Povos do Mar em alguns dos combates mais importantes de sua história militar. Ramessés III governava durante a XX Dinastia egípcia e percebeu rapidamente a enorme ameaça representada pelos invasores. Registros preservados em templos, especialmente no templo mortuário de Medinet Habu, mostram cenas detalhadas das batalhas travadas contra esses grupos estrangeiros. As inscrições descrevem cidades destruídas, populações deslocadas e reinos inteiros arrasados pelos invasores antes de chegarem às fronteiras egípcias. O faraó organizou grandes preparativos defensivos para proteger o delta do rio Nilo, região estratégica e vulnerável a ataques marítimos. O Exército egípcio posicionou arqueiros, infantaria e embarcações de guerra em pontos estratégicos para impedir o avanço inimigo. Segundo os relatos oficiais, os egípcios conseguiram derrotar os Povos do Mar em violentas batalhas terrestres e navais. As representações mostram navios colidindo, arqueiros disparando flechas e guerreiros caindo nas águas do Mediterrâneo. A vitória foi celebrada como grande triunfo militar do Egito. Entretanto, apesar do sucesso defensivo, o conflito enfraqueceu seriamente o poder egípcio nos anos seguintes.
Os Povos do Mar continuam cercados de mistério porque os registros históricos disponíveis são limitados e frequentemente produzidos apenas pelos próprios egípcios. Diversos grupos mencionados nos textos antigos receberam nomes como Sherden, Peleset, Tjekker e Shekelesh, mas suas origens exatas permanecem tema de debate acadêmico. Alguns pesquisadores acreditam que parte desses povos vinha de regiões próximas à Grécia micênica, Sicília, Anatólia ou ilhas do Mediterrâneo. Outros defendem que as invasões foram resultado de grandes migrações provocadas por mudanças climáticas, terremotos, escassez de alimentos e colapsos econômicos no final da Idade do Bronze. Muitas cidades importantes daquele período foram incendiadas ou abandonadas repentinamente, indicando uma crise generalizada em toda a região mediterrânea. O comércio internacional entrou em colapso, rotas marítimas desapareceram e antigas potências militares deixaram de existir. O Egito conseguiu sobreviver ao impacto inicial das invasões, mas perdeu grande parte de sua influência internacional após aquele período turbulento. A chamada Idade do Bronze entrou em declínio e iniciou-se uma fase historicamente mais obscura conhecida por alguns estudiosos como “Idade das Trevas” do Mediterrâneo Oriental. O mundo antigo sofria transformações profundas e irreversíveis.
As batalhas contra os Povos do Mar revelaram também a sofisticação militar do Egito Antigo naquele período. O Exército egípcio utilizava arqueiros altamente treinados, carros de guerra leves e infantaria organizada para enfrentar os invasores. As embarcações militares egípcias desempenharam papel fundamental nas batalhas marítimas descritas em Medinet Habu. Os registros mostram táticas elaboradas, nas quais os navios egípcios cercavam embarcações inimigas enquanto arqueiros disparavam flechas continuamente contra os invasores. Muitos guerreiros dos Povos do Mar eram retratados usando capacetes ornamentados, espadas longas e escudos redondos diferentes dos armamentos tradicionais egípcios. Algumas dessas armas eram tecnologicamente avançadas para a época e demonstravam a diversidade cultural dos grupos invasores. Os combates foram extremamente violentos e envolveram grande destruição nas regiões costeiras do Mediterrâneo Oriental. Embora o Egito tenha conseguido impedir uma conquista completa, o custo econômico e militar da defesa foi enorme. O governo egípcio passou a enfrentar dificuldades internas, crises políticas e perda gradual de controle sobre territórios estrangeiros anteriormente dominados pelo império faraônico. A vitória militar não foi suficiente para impedir o início do declínio do poder egípcio.
A invasão dos Povos do Mar permanece como um dos maiores enigmas da história antiga e continua fascinando arqueólogos, historiadores e estudiosos do Egito Antigo. O episódio marcou o fim de uma era de grandes impérios da Idade do Bronze e abriu caminho para profundas mudanças políticas e culturais em toda a região mediterrânea. O próprio Egito Antigo jamais recuperaria completamente o nível de poder internacional que possuía antes daquele período. Muitas civilizações desapareceram para sempre, enquanto novas culturas e povos começaram a surgir nos séculos seguintes. Alguns historiadores acreditam que os filisteus mencionados na Bíblia possam ter sido descendentes de certos grupos ligados aos Povos do Mar. O tema continua gerando debates intensos devido à escassez de documentos históricos conclusivos. Descobertas arqueológicas recentes seguem trazendo novas pistas sobre as rotas migratórias e os conflitos daquele período caótico da Antiguidade. As cenas gravadas nos templos egípcios continuam sendo algumas das principais fontes de informação sobre esses misteriosos invasores. A luta entre o Egito de Ramessés III e os Povos do Mar transformou-se em um dos episódios militares mais importantes da história do mundo antigo. Até hoje, a história dessas invasões permanece envolta em mistério, destruição e fascínio histórico.









