quinta-feira, 2 de agosto de 2001

The Beatles - We Can Work It Out

The Beatles - We Can Work It Out
Música: We Can Work It Out
Artista: The Beatles
Álbum: Não lançada originalmente em álbum — primeiro lançamento no single We Can Work It Out / Day Tripper
Selo: Parlophone (Reino Unido); Capitol (Estados Unidos)
Produtor: George Martin
Músicos: Paul McCartney (vocais, baixo); John Lennon (vocais, guitarra acústica, harmônio); George Harrison (pandeiro); Ringo Starr (bateria)
Data de gravação: 20 de outubro de 1965; overdubs e finalização em 29 de outubro de 1965
Data de Lançamento: 3 de dezembro de 1965, Reino Unido; 6 de dezembro de 1965, Estados Unidos

Comentários:
“We Can Work It Out” surgiu em um momento particularmente fértil da carreira dos Beatles, durante as sessões que dariam origem a Rubber Soul. A composição foi desenvolvida principalmente por Paul McCartney, que levou a ideia a John Lennon para que os dois trabalhassem juntos na conclusão da canção. McCartney escreveu essencialmente as estrofes, construídas em torno de um apelo à conciliação, enquanto Lennon contribuiu decisivamente para a seção “Life is very short”, que introduz uma mudança de atmosfera e de andamento. George Harrison também teve participação importante no desenvolvimento do arranjo, sugerindo que essa passagem fosse executada em compasso ternário, criando o característico efeito de valsa. A letra apresenta uma discussão amorosa sob a perspectiva de duas pessoas que enxergam uma situação de maneiras diferentes, mas ainda acreditam ser possível salvar o relacionamento. Embora frequentemente relacionada à vida pessoal de McCartney, especialmente ao seu relacionamento com Jane Asher, a canção funciona também como uma reflexão universal sobre conflitos afetivos, comunicação e compromisso. Musicalmente, a combinação entre o pop melódico de McCartney e a intervenção mais impaciente de Lennon é uma das suas grandes virtudes. O harmônio tocado por Lennon acrescenta uma sonoridade incomum ao repertório dos Beatles, enquanto a mudança para o ritmo de valsa dá à composição uma dimensão dramática e sofisticada. O resultado demonstra como o grupo estava rapidamente ampliando os limites da canção pop convencional.

A gravação também revela o crescente interesse dos Beatles em utilizar o estúdio como parte fundamental do processo criativo. Em 20 de outubro de 1965, o grupo registrou a faixa básica e trabalhou durante quase onze horas na música, naquele momento o período mais longo que havia dedicado a uma única canção. Os trabalhos continuaram em 29 de outubro, com overdubs e mixagem. O resultado foi lançado como lado A de um dos primeiros grandes singles em que duas músicas receberam tratamento de dupla face A, ao lado de “Day Tripper”. A recepção comercial foi extraordinária: o single chegou ao primeiro lugar no Reino Unido e também alcançou o topo das paradas norte-americanas, tornando-se o sexto single consecutivo dos Beatles a atingir o número um nos Estados Unidos. Mais importante ainda, “We Can Work It Out” consolidou a capacidade do grupo de transformar experiências pessoais e conflitos cotidianos em canções acessíveis a milhões de pessoas. A alternância entre a seção pop de McCartney e o trecho em três tempos associado a Lennon tornou-se uma de suas características mais reconhecíveis. A canção permanece como um excelente exemplo da complementaridade existente entre os dois principais compositores dos Beatles, mostrando como suas personalidades musicais diferentes podiam produzir algo maior quando combinadas. Seu legado está justamente nessa capacidade de unir melodia, experimentação e uma mensagem extremamente simples sobre diálogo e compreensão, características que ajudaram a fazer de “We Can Work It Out” uma das composições mais duradouras da fase clássica dos Beatles.

Erick Steve. 

quarta-feira, 1 de agosto de 2001

The Beatles - Eleanor Rigby

The Beatles - Eleanor Rigby
Música: Eleanor Rigby
Artista: The Beatles
Álbum: Revolver
Selo: Parlophone
Produtor: George Martin
Músicos: Paul McCartney (voz principal e vocais de apoio); John Lennon (vocais de harmonia); George Harrison (vocais de harmonia); Tony Gilbert (violino); Sidney Sax (violino); John Sharpe (violino); Juergen Hess (violino); Stephen Shingles (viola); John Underwood (viola); Derek Simpson (violoncelo); Norman Jones (violoncelo); George Martin (arranjo de cordas e regência).
Data de gravação: 28 e 29 de abril e 6 de junho de 1966, nos estúdios EMI, Abbey Road, Londres.
Data de Lançamento: 5 de agosto de 1966, no Reino Unido.

Comentários:
“Eleanor Rigby” foi composta principalmente por Paul McCartney durante o período de criação que daria origem a Revolver, sendo creditada oficialmente à tradicional parceria Lennon-McCartney. A composição nasceu de uma ideia musical que McCartney desenvolveu ao piano e que inicialmente apresentava a personagem com o nome de “Daisy Hawkins”. A temática surgiu de suas lembranças de pessoas solitárias e idosas que conhecera durante a juventude, especialmente mulheres com quem teve contato em Liverpool. A própria experiência de conversar com pessoas mais velhas e perceber suas vidas discretas ajudou a formar a atmosfera humana da canção. O nome Eleanor surgiu posteriormente, associado à atriz Eleanor Bron, enquanto “Rigby” foi encontrado por McCartney em um estabelecimento comercial em Bristol. A narrativa de Eleanor, uma mulher invisível que recolhe arroz depois de casamentos, e do solitário padre McKenzie transformou a música em uma reflexão sobre isolamento, envelhecimento, anonimato e falta de conexão humana. Musicalmente, a gravação representou uma ruptura extraordinária com o modelo tradicional de uma canção pop dos Beatles: nenhum dos integrantes tocou instrumento no arranjo final, que foi construído sobre um octeto de cordas formado por quatro violinos, duas violas e dois violoncelos. George Martin criou o arranjo e utilizou uma escrita de cordas marcada por ataques secos e intensos, evitando deliberadamente um acompanhamento excessivamente sentimental. A abordagem recebeu influência da música cinematográfica de Bernard Herrmann, particularmente de suas partituras para filmes de Alfred Hitchcock.

A gravação ocorreu num momento decisivo da trajetória dos Beatles, quando o grupo estava abandonando progressivamente a imagem de uma banda essencialmente voltada para apresentações ao vivo e começava a explorar o estúdio como instrumento de criação artística. A sessão de 28 de abril registrou o acompanhamento das cordas, enquanto no dia seguinte Paul acrescentou sua voz principal e John Lennon e George Harrison participaram dos vocais de harmonia; um novo overdub vocal de McCartney foi realizado em 6 de junho. O engenheiro Geoff Emerick contribuiu para o caráter incomum da gravação ao posicionar os microfones muito próximos dos instrumentos de cordas, produzindo um som mais agressivo, definido e presente. Lançada simultaneamente em Revolver e como lado A duplo com “Yellow Submarine”, a música foi imediatamente reconhecida como uma das experiências mais ousadas do grupo naquele período. O single alcançou o primeiro lugar no Reino Unido, permanecendo no topo durante quatro semanas, enquanto nos Estados Unidos “Eleanor Rigby” chegou ao 11º lugar da Billboard Hot 100. Sua importância, porém, ultrapassa largamente seu desempenho comercial: a canção demonstrou que uma composição pop de pouco mais de dois minutos poderia possuir densidade literária, sofisticação harmônica e uma instrumentação próxima da música de câmara. Ao longo das décadas, tornou-se uma das obras mais celebradas do repertório dos Beatles, recebeu inúmeras versões de outros artistas e ajudou a abrir caminho para uma aproximação cada vez maior entre rock, música erudita e composição de caráter autoral. Seu legado permanece particularmente forte porque “Eleanor Rigby” transformou a solidão cotidiana em matéria-prima para uma das mais universais e duradouras canções da história da música popular.

Erick Steve.

The Beatles - And I Love Her

The Beatles - And I Love Her
Música: And I Love Her
Artista: The Beatles
Álbum: A Hard Day's Night
Selo: Parlophone (Reino Unido); Capitol Records (Estados Unidos)
Produtor: George Martin
Músicos: Paul McCartney (vocais, baixo); John Lennon (violão acústico de 6 cordas); George Harrison (violão acústico de 6 cordas e guitarra); Ringo Starr (congas, bateria e bongô); George Martin (clavicórdio)
Data de gravação: 25 e 26 de fevereiro, 1º e 3 de março de 1964
Data de Lançamento: 10 de julho de 1964, Reino Unido

Comentários:
“And I Love Her” foi composta principalmente por Paul McCartney, com colaboração de John Lennon, durante um dos períodos de maior criatividade dos Beatles. A canção nasceu enquanto o grupo trabalhava no repertório de A Hard Day's Night, álbum que também funcionaria como trilha sonora do primeiro filme dos Beatles. McCartney concebeu a maior parte da melodia e da letra, inspirando-se em seu relacionamento com Jane Asher, sua namorada naquele período. A composição representa uma mudança significativa em relação ao rock mais enérgico associado aos primeiros anos do grupo, apresentando uma atmosfera íntima, delicada e romântica. Sua estrutura relativamente simples é valorizada por uma melodia extremamente elegante, pela economia instrumental e pela interpretação vocal de McCartney. John Lennon participou do processo de composição, embora a contribuição exata de cada um tenha sido posteriormente objeto de diferentes avaliações dos próprios integrantes. George Harrison teve papel particularmente importante na definição da identidade musical da gravação, utilizando o violão acústico e posteriormente introduzindo a famosa guitarra espanhola na versão final. A harmonia, baseada em mudanças de acordes sutis, cria uma sensação de ternura e estabilidade que combina perfeitamente com a declaração amorosa da letra. A música também demonstra como McCartney começava a ampliar consideravelmente seu vocabulário como compositor, afastando-se das estruturas mais convencionais do rock'n'roll.

A gravação ocorreu nos estúdios da EMI, em Abbey Road, durante as sessões de A Hard Day's Night, e os Beatles dedicaram várias sessões à construção de sua sonoridade definitiva. A faixa passou por diferentes versões antes de chegar ao arranjo conhecido pelo público, demonstrando a crescente importância que o grupo e George Martin davam aos detalhes de estúdio. A instrumentação acústica, o baixo discreto, a percussão de Ringo Starr e, sobretudo, a participação de George Harrison produziram uma das gravações mais sofisticadas dos Beatles naquele momento. O pequeno trecho instrumental que encerra a música, conhecido como uma espécie de passagem de guitarra espanhola, tornou-se uma de suas marcas registradas. “And I Love Her” foi muito bem recebida e rapidamente passou a ser considerada uma das grandes baladas do período inicial dos Beatles. Com o passar das décadas, sua reputação cresceu ainda mais, sendo frequentemente lembrada como uma das primeiras demonstrações inequívocas do talento de McCartney para escrever canções de amor de grande refinamento. Sua influência pode ser percebida em inúmeras baladas posteriores do rock e da música pop, especialmente na maneira de combinar simplicidade, intimidade e sofisticação harmônica. O legado da canção está também no fato de ela revelar uma transformação fundamental dos Beatles: a banda que havia conquistado o mundo com energia e irreverência começava a demonstrar que também poderia produzir música profundamente contemplativa e emocional. “And I Love Her” permanece, assim, como uma das primeiras grandes evidências da extraordinária evolução artística que caracterizaria os Beatles nos anos seguintes.

Pablo Aluísio.