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terça-feira, 6 de outubro de 2026

O Estranho que Nós Amamos

Título no Brasil: O Estranho que Nós Amamos
Título Original: The Beguiled
Ano de Lançamento: 1971
País: Estados Unidos
Estúdio: The Malpaso Company / Universal Pictures
Direção: Don Siegel
Roteiro: Albert Maltz e Irene Kamp, baseado no romance The Beguiled, de Thomas Cullinan
Elenco: Clint Eastwood, Geraldine Page, Elizabeth Hartman, Jo Ann Harris, Darleen Carr, Mae Mercer, Pamelyn Ferdin e Melody Thomas Scott.

Sinopse: 
Durante a Guerra Civil Americana, John McBurney, um soldado da União ferido, é encontrado por uma jovem e levado para um internato feminino localizado em território confederado. A diretora Martha Farnsworth decide acolhê-lo e permitir que as mulheres da instituição cuidem de seus ferimentos, apesar do risco de esconder um inimigo. Enquanto se recupera, McBurney percebe que sua presença provoca uma forte reação entre as mulheres isoladas naquela casa. Ele passa a conquistar a simpatia de Martha, da professora Edwina e das jovens que vivem no internato, utilizando seu charme para obter proteção e vantagens. Aos poucos, porém, o ambiente torna-se cada vez mais tenso, com ciúmes, rivalidades e ressentimentos surgindo entre elas. McBurney acredita que consegue controlar a situação, mas sua manipulação acaba provocando consequências inesperadas. O que começa como uma história de sobrevivência transforma-se em um perigoso jogo psicológico, no qual o soldado ferido passa de protegido a prisioneiro.

Comentários: 
O Estranho que Nós Amamos é um dos filmes mais diferentes da parceria entre Clint Eastwood e Don Siegel e ocupa uma posição bastante particular dentro da carreira do ator. Em vez do western tradicional ou do policial de ação, Eastwood interpreta John McBurney, um homem ferido, manipulador e moralmente ambíguo. Don Siegel utiliza o isolamento do internato para criar uma atmosfera de tensão crescente, fazendo com que quase toda a ação aconteça em um espaço limitado e aparentemente protegido. Geraldine Page apresenta uma atuação intensa como Martha Farnsworth, enquanto Elizabeth Hartman interpreta Edwina, uma personagem que desenvolve sentimentos cada vez mais fortes pelo soldado. Jo Ann Harris também se destaca como Carol, contribuindo para o clima de competição e desconfiança que domina a narrativa. A fotografia de Bruce Surtees e a trilha sonora de Lalo Schifrin reforçam o caráter sombrio da produção. 

A recepção inicial foi bastante dividida, mas o filme ganhou uma reputação muito mais favorável com o passar dos anos. A obra chegou a ser vista inicialmente como um thriller incomum e provocador, mas avaliações posteriores passaram a reconhecer sua complexidade psicológica e sua atmosfera de suspense. O filme também foi importante por marcar a terceira colaboração entre Eastwood e Siegel, depois de Meu Nome é Coogan e Os Abutres Têm Fome, e antes de Perseguidor Implacável e Fuga de Alcatraz. Hoje, The Beguiled é frequentemente considerado um dos trabalhos mais interessantes e subestimados de Siegel. Sua combinação de guerra, drama psicológico, suspense e relações de poder faz com que a história permaneça perturbadora mesmo décadas depois. Clint Eastwood também demonstra aqui uma faceta diferente de sua persona cinematográfica, interpretando um personagem que não pode ser simplesmente classificado como herói. O filme acabou ganhando status de cult e continua despertando interesse entre admiradores do ator, do diretor e do cinema americano dos anos 1970.

Pablo Aluísio e Erick Steve. 

quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Perseguidor Implacável

Perseguidor Implacável 
Perseguidor Implacável (Dirty Harry, Estados Unidos, 1971) é um dos filmes policiais mais marcantes do início dos anos 1970 e o trabalho que transformou Harry Callahan em um dos personagens mais conhecidos da carreira de Clint Eastwood. Dirigido por Don Siegel, o filme chegou aos cinemas americanos em dezembro de 1971, depois de uma produção realizada praticamente toda em locações de San Francisco. Eastwood interpreta o inspetor Harry Callahan, um policial conhecido por seus métodos pouco convencionais e por sua disposição de enfrentar criminosos e superiores com a mesma franqueza. O elenco principal também reúne Andrew Robinson como o assassino Scorpio, Harry Guardino como o tenente Bressler, Reni Santoni como o inspetor Chico Gonzalez, John Vernon como o prefeito e John Larch como o chefe de polícia. A história acompanha Callahan na perseguição a um assassino que ameaça San Francisco e exige dinheiro para não continuar matando suas vítimas. A figura de Scorpio foi inspirada, embora não seja uma reprodução literal, nos crimes atribuídos ao assassino conhecido como Zodiac, que aterrorizou a região da Baía de San Francisco no final dos anos 1960 e começo dos anos 1970. O próprio clima de medo da época ajudou a dar ao filme uma atmosfera especialmente realista. A produção inicialmente tinha outro projeto de protagonistas: Frank Sinatra chegou a ser associado ao papel, mas deixou o filme por problemas decorrentes de uma cirurgia na mão, e posteriormente Clint Eastwood assumiu o personagem. O ator também produziu o longa através de sua companhia Malpaso, consolidando uma parceria cada vez mais importante com a Warner Bros.

A reação da crítica americana foi bastante dividida, principalmente porque o filme combinava o formato de thriller policial com uma visão extremamente controversa sobre violência, autoridade e limites da ação policial. Richard Eder, do The New York Times, foi severo e escreveu que dinheiro, a presença de Clint Eastwood, muito sangue, sirenes e a disposição de atacar certas ideias liberais não eram suficientes para produzir sequer um filme razoável. Roger Ebert, por outro lado, reconheceu que o filme funcionava muito bem como espetáculo policial e destacou a maneira como Don Siegel compreendia a persona cinematográfica de Eastwood. Ebert observou que o longa conseguia ser extremamente eficaz como thriller, embora considerasse problemática sua posição moral diante da violência e da lei. A crítica de Ebert tornou-se particularmente famosa porque classificou a posição moral do filme como fascista, interpretação que posteriormente ele próprio voltou a discutir e contextualizar. A Variety também reconheceu a eficiência da ação, mas considerou que o formato começava a mostrar problemas, enquanto outras avaliações ressaltaram que o filme era tecnicamente muito bem construído. A fotografia de Bruce Surtees, com San Francisco apresentada de maneira áspera e pouco turística, tornou-se um dos elementos fundamentais da experiência. O trabalho de montagem e a trilha de Lalo Schifrin ajudaram a criar um ritmo nervoso, alternando investigação, perseguições e explosões repentinas de violência. Mesmo os críticos que rejeitaram a visão política do personagem reconheceram a força cinematográfica de Eastwood e de Siegel. O resultado foi um filme que provocou discussões muito além do simples entretenimento policial e que rapidamente passou a ser analisado também por aquilo que dizia sobre a sociedade americana daquele período.

Fora dos Estados Unidos, a discussão também ultrapassou a questão de saber se o filme era simplesmente um policial de ação ou uma obra sobre a crise de autoridade existente naquele momento. A violência de Perseguidor Implacável e a atitude de Harry Callahan fizeram com que o personagem fosse interpretado de maneiras diferentes, dependendo do contexto crítico e cultural. A questão central estava na contradição entre um policial que conhece as regras do sistema e um homem que acredita que determinadas situações justificariam ultrapassá-las. O roteiro utiliza essa contradição como parte fundamental da personalidade de Harry, enquanto Scorpio é construído como uma figura deliberadamente extrema, o que torna o confronto entre os dois ainda mais carregado de tensão. A atuação de Andrew Robinson foi particularmente importante para isso, pois seu Scorpio não é apenas um criminoso convencional, mas uma presença imprevisível que desafia constantemente os limites morais do protagonista. A crítica também observou que o filme não oferecia uma solução simples para esse conflito. No encerramento, Harry joga fora seu distintivo depois de matar Scorpio, uma imagem que pode ser interpretada tanto como rejeição dos métodos utilizados quanto como consequência inevitável da trajetória percorrida pelo personagem. Com o passar das décadas, essa ambiguidade tornou-se uma das características mais discutidas do longa. Em 2012, a importância histórica de Dirty Harry foi reconhecida quando o filme foi selecionado para preservação no National Film Registry da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos. Não foi, portanto, apenas o nascimento de uma franquia de sucesso: foi também o surgimento de um personagem que passou a fazer parte da cultura cinematográfica internacional.

Com um orçamento estimado em aproximadamente US$ 4 milhões, Perseguidor Implacável teve uma trajetória comercial muito expressiva. Os registros atuais do IMDb apontam cerca de US$ 35,99 milhões em arrecadação nos Estados Unidos e Canadá, enquanto o Box Office Mojo registra aproximadamente US$ 35,99 milhões como total mundial atualmente contabilizado, embora os números históricos de distribuição possam variar conforme o método utilizado pelas diferentes bases. O desempenho foi particularmente significativo porque Clint Eastwood ainda estava consolidando sua posição como grande astro do cinema americano. Embora já fosse conhecido internacionalmente pelos westerns de Sergio Leone e por trabalhos anteriores com Don Siegel, Harry Callahan apresentou uma faceta nova de sua imagem cinematográfica. O personagem era lacônico, fisicamente imponente e quase sempre parecia estar alguns segundos à frente de seus adversários. Ao mesmo tempo, a estrutura do filme não dependia exclusivamente de Eastwood: a cidade de San Francisco funcionava praticamente como outro personagem, com suas ruas, colinas, edifícios e áreas industriais integradas à ação. A perseguição final e as sequências envolvendo o ônibus escolar ficaram especialmente associadas ao imaginário do cinema policial dos anos 1970. O público respondeu fortemente a essa combinação de suspense, violência e personalidade de protagonista. O sucesso comercial levou naturalmente à produção de uma continuação, Magnum Force, lançada em 1973, iniciando uma série que acabaria chegando a cinco filmes. Assim, o sucesso de Perseguidor Implacável não foi apenas financeiro: ele estabeleceu uma franquia duradoura e transformou Harry Callahan em uma das figuras mais reconhecíveis da carreira de Eastwood.

Atualmente, Perseguidor Implacável ocupa uma posição importante na história do cinema policial americano e na própria evolução da carreira de Clint Eastwood. O filme é frequentemente lembrado pela combinação entre a direção seca de Don Siegel, a fotografia urbana de Bruce Surtees, a música de Lalo Schifrin e a interpretação econômica de Eastwood. Também permanece relevante pela maneira como apresenta um protagonista cuja relação com a lei é deliberadamente contraditória. Harry Callahan não é simplesmente um policial que segue todas as normas, nem é apresentado como um criminoso: ele existe justamente no espaço desconfortável entre a autoridade institucional e a iniciativa individual. Essa característica ajudou a influenciar inúmeros filmes e personagens policiais posteriores. O filme também ganhou uma dimensão histórica adicional por estar associado ao clima de medo provocado pelos crimes do Zodiac na Califórnia, embora a história de Scorpio seja ficcional. No Rotten Tomatoes, a avaliação crítica contemporânea consolidada atualmente aparece em torno de 90%, enquanto a recepção do público permanece bastante positiva, mostrando que a obra continuou encontrando espectadores décadas depois de seu lançamento. Mais importante ainda, Harry Callahan passou a representar uma determinada imagem do policial cinematográfico dos anos 1970: silencioso, agressivo, individualista e permanentemente em conflito com a burocracia. O personagem seria desenvolvido nos quatro filmes seguintes, mas é neste primeiro capítulo que sua personalidade é estabelecida de maneira mais forte. Perseguidor Implacável permanece, portanto, tanto como um thriller policial extremamente característico de sua época quanto como um marco decisivo na construção do mito cinematográfico de Clint Eastwood.

Perseguidor Implacável (Dirty Harry, Estados Unidos, 1971) Direção: Don Siegel / Roteiro: Harry Julian Fink, R. M. Fink e Dean Riesner / Elenco: Clint Eastwood, Andrew Robinson, Harry Guardino, Reni Santoni, John Vernon e John Larch / Sinopse: O inspetor Harry Callahan recebe a missão de capturar Scorpio, um assassino que aterroriza San Francisco e ameaça continuar matando caso suas exigências não sejam atendidas. Enquanto a investigação avança, Harry se envolve em um confronto cada vez mais pessoal com o criminoso, ao mesmo tempo em que enfrenta superiores que desaprovam seus métodos. A perseguição leva o policial a ultrapassar diversos limites, colocando em conflito sua obrigação de obedecer à lei e sua determinação de impedir novos crimes.

Erick Steve. 

Magnum 44

Magnum 44
Magnum 44 (Magnum Force, Estados Unidos, 1973) é o segundo filme da série protagonizada por Clint Eastwood como o inspetor Harry Callahan e chegou aos cinemas apenas dois anos depois do enorme sucesso de Perseguidor Implacável. Desta vez, a direção passou de Don Siegel para Ted Post, cineasta que já havia trabalhado com Eastwood em Hang 'Em High. O filme foi produzido pela Malpaso Company, de Eastwood, e pela Warner Bros., mantendo San Francisco como cenário principal e utilizando extensivamente as ruas, prédios e paisagens da cidade. O elenco reúne, além de Eastwood, Hal Holbrook, David Soul, Tim Matheson, Robert Urich, Felton Perry e Mitchell Ryan. A história começa quando uma série de criminosos é executada por um grupo de jovens policiais que acredita estar fazendo justiça ao eliminar pessoas que escaparam das punições do sistema. Harry inicialmente parece ter uma opinião bastante próxima daquela dos vigilantes, mas logo percebe que existe uma diferença fundamental entre combater criminosos dentro da lei e transformar a polícia em um esquadrão de execução. O roteiro foi escrito por John Milius e Michael Cimino, a partir dos personagens criados por Harry Julian Fink e R. M. Fink. A produção chegou aos cinemas americanos em dezembro de 1973. A própria abertura, com a mão de Harry segurando o famoso revólver .44 Magnum e repetindo uma versão da célebre fala do primeiro filme, deixa claro que a produção pretendia preservar a identidade visual e sonora da série. A trilha novamente ficou a cargo de Lalo Schifrin, cuja música jazzística e tensa continuou sendo uma das marcas da franquia.

A recepção crítica nos Estados Unidos foi bastante dividida e, em muitos casos, concentrou-se justamente na contradição moral existente no centro da história. Nora Sayre, do The New York Times, descreveu o filme como “uma confusão moral”, observando que a produção parecia defender a aplicação da lei enquanto continuava fascinada pelo poder da violência exercida individualmente. Para a crítica, o filme tentava resolver as controvérsias do primeiro Dirty Harry colocando Harry contra policiais que haviam levado sua filosofia muito mais longe. Pauline Kael, escrevendo para The New Yorker, foi ainda mais severa e considerou que a aparente mudança de posição de Harry não alterava aquilo que ela enxergava como o verdadeiro centro do filme: a celebração da violência. Em sua leitura, Eastwood era deliberadamente impassível e o filme transformava a violência em algo quase mecânico, sem oferecer aos mortos uma dimensão emocional. Kael também criticou a direção de Ted Post, que considerou mediana, embora reconhecesse que o filme conseguia manter o suspense e funcionar dentro de seu próprio nível de entretenimento policial. A Variety, entretanto, apresentou uma avaliação mais favorável, chamando Magnum 44 de uma continuação intrigante e destacando que o roteiro acrescentava algumas ideias ao habitual espetáculo de massacres. A revista também elogiou a direção de Post, a produção de Robert Daley, a trilha de Lalo Schifrin e o desempenho geral do elenco. Assim, desde seu lançamento, o filme ficou situado entre duas percepções: para alguns críticos, era uma continuação eficiente e cheia de ação; para outros, suas contradições morais impediam que o filme ultrapassasse o nível de um violento entretenimento comercial.

Na crítica posterior, Magnum 44 passou a ser analisado principalmente pela maneira como respondeu às controvérsias provocadas pelo primeiro filme. A questão central é particularmente interessante porque Harry Callahan agora precisa enfrentar policiais que acreditam possuir o direito de matar criminosos simplesmente porque consideram o sistema judicial ineficiente. O filme coloca na boca do personagem uma defesa explícita da permanência dentro do sistema legal, embora sua própria conduta continue sendo marcada por métodos extremamente violentos. É justamente essa contradição que fez com que críticos e historiadores do cinema continuassem discutindo a obra. A Time Out, por exemplo, considerou que o filme era menos moralmente ambíguo que o original, mas observou que sua tentativa de estabelecer uma distinção entre a violência de Harry e a dos policiais vigilantes era pouco convincente. Ao mesmo tempo, a revista reconheceu a presença de boas sequências de ação. O The Guardian, em retrospectiva sobre Ted Post, destacou que Magnum 44 continuou as aventuras de Harry Callahan e observou que o personagem era definido justamente pela proximidade e, ao mesmo tempo, pela diferença em relação aos criminosos que perseguia. O filme também é importante por registrar um momento particularmente interessante da carreira de Eastwood: ele já havia se tornado uma estrela internacional graças aos westerns de Sergio Leone e aos policiais de Don Siegel, mas ainda estava consolidando a persona que dominaria boa parte de sua carreira durante a década de 1970. Magnum 44 ajudou a estabelecer essa imagem definitivamente, combinando o homem de poucas palavras, a expressão impassível, o humor seco e a enorme presença física diante da câmera. Mesmo as críticas negativas contribuíram para manter o personagem no centro da discussão cinematográfica da época. O filme não recebeu indicações ao Oscar ou aos principais prêmios de Hollywood, e seu reconhecimento posterior esteve muito mais ligado à importância da série Dirty Harry do que a premiações formais.

Comercialmente, Magnum 44 foi um enorme sucesso e conseguiu superar o primeiro filme da série nas bilheterias americanas. A produção arrecadou aproximadamente US$ 44,68 milhões nos Estados Unidos e Canadá, tornando-se o sexto filme de maior bilheteria de 1973 no mercado americano. Os registros de aluguel cinematográfico apontam cerca de US$ 19,4 milhões na América do Norte e outros US$ 9,5 milhões nos mercados estrangeiros, totalizando aproximadamente US$ 28,9 milhões em aluguéis para os distribuidores. O resultado confirmou que Harry Callahan não era simplesmente um personagem associado ao sucesso inesperado do filme original, mas uma franquia com enorme capacidade comercial. A sequência também ampliou o repertório de cenas de ação da série, apresentando perseguições automobilísticas, tiroteios, motocicletas, confrontos em ambientes urbanos e algumas das sequências mais violentas de toda a franquia. A presença de atores que posteriormente se tornariam muito conhecidos na televisão americana, como David Soul e Robert Urich, também dá ao elenco um interesse especial para o público que acompanha a cultura popular dos anos 1970. Hal Holbrook, como o tenente Neil Briggs, funciona como contraponto direto a Eastwood, inicialmente apresentado como uma autoridade respeitável e experiente, mas progressivamente revelado como líder do grupo de policiais que decidiu substituir os tribunais pela execução sumária. O sucesso comercial foi tão expressivo que tornou inevitável a continuidade da série. Em 1976, Eastwood retornaria como Callahan em The Enforcer, lançado no Brasil como Sem Medo da Morte. Dessa maneira, Magnum 44 foi decisivo para transformar Dirty Harry de um filme de sucesso em uma franquia duradoura.

Com o passar das décadas, Magnum 44 ganhou uma reputação bastante sólida entre os admiradores do cinema policial dos anos 1970. Embora a crítica atual continue discutindo as questões morais e políticas presentes no roteiro, o filme é reconhecido como uma peça importante da série e como um exemplo muito característico do cinema de ação produzido em Hollywood naquele período. O Rotten Tomatoes atualmente registra 69% de aprovação da crítica e 78% de aprovação do público, com a avaliação crítica destacando que a sequência aumenta a quantidade de ação e apresenta cenas de dublês particularmente eficazes. O filme também possui 58 pontos no Metacritic, com avaliações que vão desde a aprovação da eficiência das sequências de ação até críticas severas à sua construção moral. A relação entre Harry e os policiais vigilantes é provavelmente o elemento que mais diferencia Magnum 44 de Perseguidor Implacável. O primeiro filme apresentava um homem perseguindo um criminoso; aqui, o protagonista precisa descobrir se sua própria filosofia foi levada longe demais por outros policiais. Essa estrutura permitiu aos roteiristas responder diretamente às acusações feitas contra o personagem original, embora não tenha eliminado a controvérsia. A sequência também consolidou elementos que se tornariam inseparáveis da imagem de Harry Callahan: o .44 Magnum, as frases secas, a investigação independente, a cidade de San Francisco e a mistura de violência e humor. Décadas depois, a importância cultural da produção é reforçada pelo fato de Magnum 44 continuar sendo exibido, relançado e discutido ao lado do filme original. Para Clint Eastwood, foi um passo importante na consolidação de uma persona cinematográfica que ele levaria posteriormente para personagens ainda mais complexos, especialmente quando começou a dirigir seus próprios filmes. Como segundo capítulo de uma franquia que chegaria a cinco episódios, Magnum 44 permanece como um dos filmes fundamentais do ciclo Dirty Harry.

Magnum 44 (Magnum Force, Estados Unidos, 1973) Direção: Ted Post / Roteiro: John Milius e Michael Cimino, baseado nos personagens criados por Harry Julian Fink e R. M. Fink / Elenco: Clint Eastwood, Hal Holbrook, David Soul, Tim Matheson, Robert Urich e Felton Perry / Sinopse: O inspetor Harry Callahan investiga uma série de assassinatos de criminosos e descobre que as mortes estão relacionadas a um grupo de jovens policiais que decidiu fazer justiça pelas próprias mãos. Conforme a investigação avança, Harry percebe que os novos vigilantes utilizam uma versão ainda mais extrema dos métodos que ele próprio emprega no combate ao crime. O confronto coloca o policial diante de uma questão fundamental: até onde um agente da lei pode ir antes de se tornar aquilo que deveria combater?

Erick Steve. 

terça-feira, 30 de junho de 2026

O Cavaleiro Solitário

O Cavaleiro Solitário 
O filme O Cavaleiro Solitário (Pale Rider) foi lançado em 28 de junho de 1985, dirigido por e estrelado por Clint Eastwood. O elenco principal conta ainda com Michael Moriarty, Carrie Snodgress, Chris Penn, Richard Dysart e Sydney Penny. Ambientado durante a corrida do ouro na Califórnia, o filme acompanha um misterioso pregador sem nome que surge inesperadamente para ajudar um grupo de pequenos garimpeiros perseguidos pelo poderoso empresário Coy LaHood, que deseja expulsá-los de suas terras. Com poucas palavras e extraordinária habilidade com as armas, o Pregador passa a proteger os colonos contra mercenários e autoridades corruptas. Ao longo da história, surgem indícios de que ele talvez não seja um homem comum, conferindo ao filme uma atmosfera misteriosa e quase sobrenatural. A narrativa aborda temas como justiça, redenção, ganância e vingança, retomando elementos clássicos do western sob uma perspectiva mais sombria. Assim, O Cavaleiro Solitário marcou o retorno triunfal de Clint Eastwood ao gênero que o consagrou.

Quando foi lançado, O Cavaleiro Solitário recebeu uma recepção crítica amplamente positiva. O The New York Times afirmou que Eastwood havia criado “um western elegante e profundamente envolvente”, elogiando o equilíbrio entre ação e atmosfera. O Los Angeles Times destacou a maturidade da direção, observando que Eastwood demonstrava total domínio do gênero. A revista Variety classificou o filme como “um dos melhores westerns produzidos em muitos anos”, ressaltando a força visual da fotografia e a economia narrativa. Muitos críticos apontaram influências do clássico Shane, embora reconhecessem que Pale Rider desenvolvia uma identidade própria. A interpretação de Eastwood recebeu elogios por sua presença silenciosa e enigmática, reforçando a aura mítica do personagem. A fotografia de Bruce Surtees também foi amplamente celebrada por capturar a beleza das paisagens montanhosas. Dessa forma, a crítica recebeu o filme com entusiasmo.

Embora O Cavaleiro Solitário não tenha sido indicado ao Oscar, foi exibido em competição oficial no 1985 Cannes Film Festival, reforçando seu prestígio internacional. Diversos críticos consideraram o longa um dos responsáveis por revitalizar o western americano em uma época em que o gênero enfrentava queda de popularidade. Publicações como The New Yorker elogiaram especialmente a ambiguidade do protagonista e o tom quase espiritual da narrativa. Com o passar dos anos, estudiosos passaram a interpretar o Pregador como uma figura simbólica, possivelmente representando um anjo vingador ou um espírito retornando para fazer justiça. Essa leitura acrescentou novas camadas à obra e fortaleceu sua reputação crítica. Muitos especialistas também destacam o filme como uma ponte entre os westerns clássicos e o revisionismo que Eastwood levaria ao auge em Unforgiven. Assim, sua importância artística cresceu continuamente desde o lançamento.

Do ponto de vista comercial, O Cavaleiro Solitário foi um grande sucesso. Produzido com um orçamento estimado em cerca de US$ 6,9 milhões, arrecadou aproximadamente US$ 41 milhões apenas nos Estados Unidos, tornando-se o western de maior bilheteria da década de 1980 até então. O público respondeu de maneira extremamente positiva ao retorno de Clint Eastwood ao gênero que havia definido sua carreira. As cenas de ação, a atmosfera misteriosa e a presença carismática do protagonista conquistaram tanto os admiradores tradicionais dos westerns quanto novos espectadores. O filme também obteve excelente desempenho em mercados internacionais e posteriormente tornou-se um sucesso nas locadoras e na televisão. Seu resultado financeiro demonstrou que ainda havia espaço para westerns de qualidade produzidos por Hollywood. Assim, O Cavaleiro Solitário revitalizou temporariamente o interesse do grande público pelo gênero.

Atualmente, O Cavaleiro Solitário é considerado um dos melhores westerns da década de 1980 e uma das obras mais importantes da carreira de Clint Eastwood como diretor. Muitos críticos o colocam entre seus grandes trabalhos, ao lado de High Plains Drifter, The Outlaw Josey Wales e Unforgiven. A mistura de elementos religiosos, sobrenaturais e tradicionais do western continua despertando interpretações e debates entre estudiosos. A direção segura de Eastwood, a fotografia deslumbrante e o ritmo contemplativo permanecem sendo amplamente elogiados. Além disso, o filme consolidou a imagem de Eastwood como um dos grandes cineastas do gênero, e não apenas como um de seus maiores astros. Quatro décadas após seu lançamento, O Cavaleiro Solitário continua sendo uma referência  para fãs do western clássico e revisionista. Sua reputação permanece extremamente elevada.

O Cavaleiro Solitário (Pale Rider, Estados Unidos, 1985) Direção: Clint Eastwood / Roteiro: Michael Butler e Dennis Shryack / Elenco: Clint Eastwood, Michael Moriarty, Carrie Snodgress, Chris Penn, Richard Dysart e Sydney Penny / Sinopse: Um misterioso pregador chega a uma comunidade de garimpeiros ameaçada por um poderoso empresário e passa a protegê-los, transformando-se em uma enigmática força de justiça e vingança no Velho Oeste.

Erick Steve. 

terça-feira, 9 de junho de 2026

Clint Eastwood - High Plains Drifter (1973)

Clint Eastwood - High Plains Drifter (1973)
O filme O Estranho sem Nome (High Plains Drifter) foi lançado em 22 de agosto de 1973, dirigido por e estrelado por Clint Eastwood. O elenco principal inclui ainda Verna Bloom, Marianna Hill, Mitchell Ryan, Jack Ging e Stefan Gierasch. A história se passa na pequena cidade de Lago, uma comunidade isolada no Oeste americano atormentada pelo medo da chegada de três criminosos recém-libertados da prisão. Em meio ao clima de tensão, surge um misterioso cavaleiro sem nome que aceita proteger os moradores em troca de liberdade total para agir como desejar. À medida que o estranho assume o controle da cidade, seus métodos tornam-se cada vez mais brutais e perturbadores. Pouco a pouco, segredos obscuros do passado de Lago vêm à tona, revelando que os habitantes escondem uma culpa coletiva. Misturando western, suspense e elementos quase sobrenaturais, o filme apresenta uma narrativa sombria sobre vingança, justiça e remorso. O resultado é um dos westerns mais inquietantes da carreira de Clint Eastwood.

Quando foi lançado, O Estranho sem Nome recebeu uma recepção crítica majoritariamente positiva, embora tenha provocado algumas controvérsias. O The New York Times elogiou o filme por sua atmosfera singular e descreveu-o como “um western estranho e fascinante”. O Los Angeles Times destacou a confiança crescente de Eastwood como diretor, observando que ele havia criado uma obra visualmente poderosa. A revista Variety considerou o longa “uma mistura eficaz de violência, mistério e comentário moral”. Muitos críticos elogiaram a forma como Eastwood subvertia os clichês tradicionais do western clássico. Entretanto, alguns espectadores e jornalistas ficaram desconfortáveis com a violência intensa e com certos aspectos moralmente ambíguos da narrativa. Ainda assim, a maioria reconheceu que o filme possuía uma identidade própria e ousada. A direção segura de Eastwood foi amplamente destacada. Assim, a recepção inicial foi bastante favorável, ainda que acompanhada de debates.

O filme também chamou atenção por sua abordagem incomum do mito do pistoleiro solitário. Diversos críticos observaram influências dos chamados "spaghetti westerns" dirigidos por Sergio Leone, especialmente da trilogia do Homem Sem Nome estrelada pelo próprio Eastwood. Publicações como The New Yorker elogiaram o clima de pesadelo moral que permeia toda a narrativa. Embora não tenha recebido indicações importantes ao Oscar, o longa conquistou respeito crítico por sua originalidade. Muitos estudiosos do cinema passaram a interpretá-lo como uma alegoria sobre culpa coletiva e justiça sobrenatural. A identidade do misterioso cavaleiro permanece deliberadamente ambígua, o que gerou inúmeras interpretações ao longo dos anos. Essa riqueza temática contribuiu para o crescimento de sua reputação crítica. Com o passar do tempo, o filme passou a ser considerado uma das obras mais interessantes da fase inicial de Eastwood como diretor. Hoje é frequentemente citado entre os westerns revisionistas mais importantes dos anos 1970.

Do ponto de vista comercial, High Plains Drifter foi um sucesso significativo. Produzido com um orçamento relativamente modesto, arrecadou mais de 15 milhões de dólares nos Estados Unidos, um excelente resultado para a época. O nome de Clint Eastwood já era extremamente popular graças ao sucesso dos westerns italianos e de filmes como Dirty Harry. O público respondeu positivamente à combinação de ação, mistério e atmosfera sombria. Muitos espectadores apreciaram especialmente o tom mais adulto e complexo da história. O filme teve bom desempenho também em mercados internacionais, consolidando ainda mais a imagem de Eastwood como astro global. Sua popularidade foi ampliada posteriormente por exibições televisivas e lançamentos em vídeo doméstico. Assim, o longa alcançou sucesso comercial expressivo e fortaleceu a carreira de Eastwood como cineasta. O público demonstrou grande interesse por westerns que fugiam das fórmulas tradicionais.

Atualmente, O Estranho sem Nome é considerado um dos melhores westerns dirigidos por Clint Eastwood. Críticos modernos elogiam sua atmosfera inquietante, sua fotografia marcante e a coragem de abordar temas morais complexos. O filme é frequentemente comparado a obras como The Outlaw Josey Wales e Unforgiven, que também exploram a violência e a culpa sob uma perspectiva mais adulta. Muitos estudiosos o veem como uma ponte entre os westerns clássicos e os westerns revisionistas das décadas seguintes. A atuação de Eastwood permanece uma das mais memoráveis de sua carreira no gênero. O clima quase fantasmagórico da narrativa continua fascinando novas gerações de espectadores. A obra também é admirada por sua ousadia visual e narrativa. Dessa forma, sua reputação permanece extremamente sólida. O Estranho sem Nome continua sendo uma referência fundamental do western moderno.

O Estranho sem Nome (High Plains Drifter, Estados Unidos, 1973) Direção: Clint Eastwood / Roteiro: Ernest Tidyman / Elenco: Clint Eastwood, Verna Bloom, Marianna Hill, Mitchell Ryan, Jack Ging e Stefan Gierasch / Sinopse: Um misterioso pistoleiro chega a uma cidade atormentada por um segredo do passado e assume a missão de protegê-la, enquanto conduz uma implacável e enigmática busca por justiça e vingança.

Erick Steve. 

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Firefox - A Raposa de Fogo

Título no Brasil: Firefox - A Raposa de Fogo
Título Original: Firefox
Ano de Produção: 1982
País: Estados Unidos
Estúdio: Warner Bros
Direção: Clint Eastwood
Roteiro: Alex Lasker, Wendell Wellman
Elenco: Clint Eastwood, Freddie Jones, David Huffman

Sinopse: 
Clint Eastwood interpreta Mitchell Gant, um piloto que recebe um missão extremamente perigosa: entrar na União Soviética em plena guerra fria para roubar um super avião dos russos. A nova arma dos soviéticos é completamente inovadora, com controles neurais jamais vistos antes, uma nova tecnologia totalmente nova para as forças armadas americanas.

Comentários:
Ao longo de uma carreira longa e produtiva o ator, diretor e produtor Clint Eastwood raras vezes decepcionou seus fãs. Aqui não seria diferente. Co-produzido por sua companhia cinematográfica Malpaso (juntamente com a Warner) e dirigido pelo próprio Clint, "Firefox - A Raposa de Fogo" é certamente um dos bons momentos da filmografia de Eastwood. O filme tem ação, aventura e suspense em doses generosas. Seu jeito durão também cai como uma luva para seu papel. Poucas palavras e muita ação. É sem dúvida um bom entretenimento com belas e bem boladas cenas de combate aéreo, apesar de compreensivelmente alguns dos efeitos soarem datados hoje em dia. Mas vale a pena. Clint como sempre mantendo o bom nível de qualidade de seus filmes.

Pablo Aluísio.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Os Imperdoáveis

Os Imperdoáveis
Os Imperdoáveis (Unforgiven) foi lançado em 7 de agosto de 1992 e marcou um dos pontos mais altos da carreira de Clint Eastwood, que atuou como diretor e protagonista. O elenco principal reúne ainda Gene Hackman, Morgan Freeman e Richard Harris, formando um conjunto de interpretações hoje consideradas antológicas. Ambientado nos últimos anos do Velho Oeste, o filme acompanha William Munny, um ex-pistoleiro envelhecido que tenta viver de forma honesta após um passado marcado pela violência. A trama se inicia quando uma recompensa é oferecida pela morte de dois homens acusados de mutilar uma prostituta, levando Munny a aceitar um último trabalho. A partir desse ponto de partida, o filme constrói uma reflexão profunda sobre justiça, vingança, culpa e o preço moral da violência, desconstruindo deliberadamente o mito romântico do faroeste clássico. 

No momento de seu lançamento, Os Imperdoáveis foi recebido com entusiasmo quase unânime pela crítica americana. O The New York Times descreveu o filme como “um faroeste maduro, melancólico e profundamente humano”, elogiando a maneira como Eastwood revisita e subverte os arquétipos que ele próprio ajudou a consagrar décadas antes. O Los Angeles Times destacou a direção contida e elegante, afirmando que o filme “transforma o silêncio e o peso do passado em elementos dramáticos tão importantes quanto os tiros”. Já a Variety ressaltou o equilíbrio entre espetáculo e introspecção, apontando que o longa era “tão brutal quanto necessário e tão reflexivo quanto raro dentro do gênero”.

No terceiro momento da recepção crítica, revistas como The New Yorker e Time enfatizaram o caráter quase crepuscular do filme. A Time escreveu que Os Imperdoáveis era “um epitáfio para o western tradicional”, enquanto o The New Yorker elogiou especialmente o roteiro de David Webb Peoples, afirmando que o texto recusava qualquer glamourização da violência. A atuação de Gene Hackman como o xerife Little Bill foi amplamente celebrada, sendo descrita como “terrivelmente carismática e moralmente perturbadora”. O consenso crítico à época foi amplamente positivo, com muitos analistas já apontando o filme como uma obra-prima instantânea e um divisor de águas dentro do gênero.

Do ponto de vista comercial, Os Imperdoáveis também obteve um desempenho notável. Com um orçamento estimado em cerca de US$ 14 milhões, o filme arrecadou aproximadamente US$ 101 milhões em bilheteria mundial. Somente nos Estados Unidos, o longa ultrapassou a marca de US$ 80 milhões, resultado expressivo para um western adulto, sem apelo juvenil e de ritmo deliberadamente lento. O sucesso financeiro foi potencializado pela forte presença do filme na temporada de premiações, o que ampliou sua longevidade nos cinemas e consolidou seu status como um raro exemplo de prestígio crítico aliado a retorno comercial sólido.

Com o passar dos anos, Os Imperdoáveis se firmou como um dos filmes mais respeitados da história do cinema americano. Atualmente, é frequentemente citado em listas de “melhores westerns de todos os tempos” e também entre os grandes filmes da década de 1990. A obra é estudada por sua abordagem ética da violência, pela desconstrução do heroísmo e pela maneira como trata a memória e a culpa. O filme venceu quatro Oscars, incluindo Melhor Filme e Melhor Diretor, e hoje é visto não apenas como o auge do western moderno, mas também como uma síntese madura da carreira de Clint Eastwood diante e atrás das câmeras.

Os Imperdoáveis (Unforgiven, Estados Unidos, 1992) Direção: Clint Eastwood / Roteiro: David Webb Peoples / Elenco: Clint Eastwood, Gene Hackman, Morgan Freeman, Richard Harris, Jaimz Woolvett, Saul Rubinek / Sinopse: Um ex-pistoleiro tenta escapar de seu passado violento, mas acaba envolvido em uma caçada motivada por vingança, confrontando antigas escolhas, códigos morais frágeis e as duras consequências da violência no Velho Oeste.

Erick Steve. 

quarta-feira, 11 de setembro de 2024

Rota Suicida

Título no Brasil: Rota Suicida
Título Original: The Gauntlet
Ano de Produção: 1977
País: Estados Unidos
Estúdio: Warner Bros
Direção: Clint Eastwood
Roteiro: Michael Butler, Dennis Shryack
Elenco: Clint Eastwood, Sondra Locke, Pat Hingle

Sinopse:
Ben Shockley (Clint Eastwood) é um policial designado a trazer de Las Vegas uma testemunha para um julgamento que muito provavelmente não vai dar em nada. Ela é Gus Mally (Sondra Locke), uma prostituta bonita e extremamente teimosa que está sendo caçada pelos bandidos que ela delatou. Mas a polícia misteriosamente começa a querer matá-los também, mostrando que a coisa não é tão simples. Shockley porém está decidido a cumprir sua missão.

Comentários:
Simples e direto. Esta é a fórmula eficaz de um bom filme de ação proporcionado pelo talento de Eastwood. Se ele ainda não tinha toda a perícia que demonstra nos filmes atuais, já provava ser capaz de conduzir perfeitamente seus filmes, valorizando um belo trabalho de ritmo e edição. Fazendo o típico policial durão que soa como uma variação de Dirty Harry, Clintão cumpre o que promete: fornecer muita adrenalina e diversão. E fora que tem aquele clima setentista, do melhor período do cinema americano. A sequência final com o ônibus virando peneira de tantas balas é memorável. Além disso, em uma época anterior ao boom dos filmes de ação, que iria acontecer nos anos 80, o ator e diretor segurava a tocha do gênero. O filme é muito eficiente, com excelentes cenas de ação e espetaculares sequências, algumas delas não envelheceram em absolutamente nada. Maior prova da competência de Eastwood não poderia existir.

Pablo Aluísio.

terça-feira, 28 de maio de 2024

Clint Eastwood e o Western - Parte 4

Clint Eastwood e o Western - Parte 4
Depois do grande sucesso de seus filmes de faroeste rodados na Itália, Clint Eastwood voltou para a Califórnia. Ele tinha alguns planos, o mais ambicioso deles era criar sua própria companhia de filmes. Conversando com um amigo mexicano ele foi aconselhado a não fazer isso. O sujeito lhe disse que ele iria à falência em pouco tempo e que iria ficar mal, cheio de dívidas. Em sua língua espanhola ele falou para Clint que aquele era um mal paso (um mal passo) que ele iria dar em sua vida. 

Clint aproveitou a situação para dar o nome para sua empresa. Como forma de piada a chamou de Malpaso Productions, usando da mesma expressão que seu "amigo" havia dito em sua conversa. Clint então alugou um pequeno escritório e contratou uma secretária que no final das contas iria trabalhar com ele por décadas e décadas. Era o ano de 1967 e Clint tinha grandes ambições pela frente. 

A ideia de Clint era relativamente simples. Usando de sua fama conquistada no cinema europeu, ele iria aos grandes estúdios de Hollywood pedir um financiamento para a produção de seus próprios filmes. Iria dirigir, escrever os roteiros e produzir seus filmes. Depois com o filme pronto ele iria dar para o estúdio distribuir nos cinemas. Depois de alcançar o custo da produção, recuperando o investimento, o estúdio iria lhe repassar o lucro do filme, dividido meio a meio. 

Naquele tempo isso parecia ser ousado demais, entretanto o tempo iria demonstrar que era uma excelente forma para Clint fazer os filmes que queria, o tornando além disso um homem muito rico, dono dos direitos autorais de seus próprios filmes, uma maneira de fazer cinema que iria acompanhar toda a sua trajetória em Hollywood. Ele obviamente ainda iria fazer muitos filmes de faroeste, mas não queria se resumir a esse gênero. Queria fazer todos os tipos de filmes. E acabou assim se tornando uma verdadeira lenda na indústria cinematográfica. 

Pablo Aluísio. 

segunda-feira, 1 de abril de 2024

Rota Suicida

Título no Brasil: Rota Suicida
Título Original: The Gauntlet
Ano de Produção: 1977
País: Estados Unidos
Estúdio: Warner Bros
Direção: Clint Eastwood
Roteiro: Michael Butler, Dennis Shryack
Elenco: Clint Eastwood, Sondra Locke, Pat Hingle, William Prince, Bill McKinney, Michael Cavanaugh

Sinopse:
Ben Shockley (Clint Eastwood) é um policial designado pelo departamento de polícia para proteger uma testemunha importante em um caso envolvendo mafiosos violentos. Sua missão será das mais perigosas.

Comentários:
Eu sempre gosto de repetir que mais vale um filme mediano com Clint Eastwood do que inúmeras superproduções que são lançadas todos os anos por aí no circuito comercial. Clint sempre manteve uma regularidade impressionante em sua filmografia. Esse filme policial dos anos 70 bem poderia ser mais um com o famoso tira Dirty Harry, mas os produtores decidiram inovar um pouco. Aqui Clint trabalha ao lado de sua esposa na época, Sondra Locke. Ela fez vários filmes ao lado dele, alguns entre os melhores já estrelados por Clint. Falecida em 2018, teve uma filmografia enriquecida pelas boas escolhas do marido. Sua personagem é a de uma garota de programa que sabe muito e que por isso vira alvo de criminosos envolvidos com a máfia italiana nos Estados Unidos. Enfim, mais um bom filme com Clint e Locke, em uma época em que eles sempre acertavam em suas escolhas cinematográficas.

Pablo Aluísio.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2023

O Estranho que Nós Amamos

Título no Brasil: O Estranho que Nós Amamos
Título Original:  The Beguiled
Ano de Lançamento: 1971
País: Estados Unidos
Estúdio: The Malpaso Company
Direção: Don Siegel
Roteiro: Albert Maltz, Irene Kamp
Elenco: Clint Eastwood, Geraldine Page, Elizabeth Hartman, Jo Ann Harris, Darleen Carr, Melody Thomas Scott

Sinopse:
Durante a guerra civil nos Estados Unidos, um soldado do exército da União é resgatado por um grupo de mulheres que vivem isoladas, tentando sobreviver em um rancho no sul do país. O soldado, muito ferido, é levado para o local e elas começam a tratar dele. Essa situação acaba criando uma grande tensão por causa de sua presença naquele local.

Comentários:
O roteiro desse filme foi baseado no romance escrito por Thomas Cullinan. Esse foi o primeiro grande diferencial em relação a outros filmes de faroeste do ator Clint Eastwood. Isso porque a história valorizava muito mais o relacionamento humano entre os personagens, sendo a ação deixada em segundo plano. O filme investe bastante na dualidade de se ter um soldado da União sendo tratado por mulheres sulistas, ou seja, ela estavam ajudando o inimigo de guerra. Isso por si só já seria ruim o bastante, mas ainda havia a questão da tensão sexual envolvida com a presença de um homem como ele no meio de tantas mulheres solitárias e abandonadas à própria sorte. Esse filme já demonstrava que Clint Eastwood estava preocupado em investir mais no conteúdo dramático de seus filmes. Para isso, ele produziu o filme e trouxe para dirigi-lo o excelente cineasta Don Siegel. O resultado é muito bom. Um filme realmente marcante. Houve, inclusive, um remake recente, mas esqueça esse novo filme. Embora seja até bem feito, não se compara esse original dos anos 70. Clint Eastwood estava em plena forma. Esbanjando carisma e boa atuação em um filme realmente acima da média.

Pablo Aluísio.

terça-feira, 10 de janeiro de 2023

Clint Eastwood e o Western - Parte 3

Existem filmes que mudam não apenas a carreira de um ator, mas o próprio cinema. No caso do ator Clint Eastwood, foi justamente isso o que aconteceu. Sua carreira de ator vinha em um momento ruim, não estava sendo muito bem sucedida. Ele havia feito alguns filmes menores e havia participado também de duas séries de faroeste na televisão. Estou me referindo a "Maverick" e a "Rawhide". Depois disso, nada de muito interessante aconteceu, até que surgiu um convite que mudaria tudo. Ele foi convidado para atuar em um filme europeu chamado "Por um Punhado de Dólares". Este faroeste seria dirigido pelo excelente diretor Sergio Leone. Era o ano de 1964 e o mundo vivia revoluções culturais, como a Beatlemania e a Nouvelle Vague. Clint então embarcou rumo a Itália para novos desafios em sua carreira de ator.

A verdade é que o cinema italiano havia se transformado em uma verdadeira indústria cultural. Diretores italianos descobriram que conseguiam fazer filmes de faroeste tão bem sucedidos comercialmente como os originais americanos. Sua grande sacada foi apostar em um tipo de filme mais realista. Nos Estados Unidos havia uma tradição de filmes de faroeste onde os cowboys apareciam em roupas coloridas. Muitas vezes esses filmes eram destinados a um público juvenil, para serem exibidos em matinês de fim de semana. Os cineastas e roteiristas italianos olharam para aquilo e viram que não era uma verdade histórica. Os verdadeiros cowboys que viveram no velho Oeste não eram figuras pop. Eram tipos brutos, sujos e mortais. Então eles obviamente apostaram nesse tipo de personagem.

Assim nasceu o western spaghetti. Foi um grande sucesso de bilheteria no mundo inteiro. Muitos fãs de faroeste da época preferiam as produções italianas até mesmo em relação às produções americanas. A violência estilizada, as trilhas sonoras marcantes e os roteiros realistas atraíam muito mais um público de gosto bem popular. E as filmagens eram realizadas geralmente no deserto da Espanha, uma região que parecia muito com os desertos americanos. Nos cinemas os filmes rendiam milhões de dólares ao redor do mundo. E com o sucesso, veio também a fartura das produções, que poderiam até mesmo de se dar ao luxo de contratar atores americanos para estrelar esses filmes. Não eram astros de primeira grandeza do cinema americano, mas atores secundários que tinham o tipo ideal para os filmes que eram feitos agora no velho continente.

Clint Eastwood foi um dos muitos atores americanos que aceitaram trabalhar na Itália. Os cachês eram muito bons e eles tinham a chance de serem os astros principais desses faroestes. A aposta foi certeira porque, curiosamente, Clint iria se tornar um astro de cinema não em Hollywood, mas sim em Roma, em produções feitas e dirigidas por cineastas italianos. Ele havia sido escolhido pessoalmente por Sergio Leone para estrelar o seu próximo filme. "Por um Punhado de Dólares" fez muito sucesso e foi muito debatido em revistas de cinema. O próprio público americano ficou extremamente surpreso com o que assistiu. Era um novo paradigma no gênero faroeste. Clint Eastwood com cara de mau e cigarro no canto da boca, não fazia pose de mocinho. Era simplesmente um sujeito durão vivendo no velho Oeste. E o público da época queria ver justamente isso nas telas de cinema.

Pablo Aluísio.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2023

Perversa Paixão

Esse filme marcou a estreia na direção de Clint Eastwood. Na época que foi anunciado que ele iria ser diretor de seu próximo filme, muita gente não levou fé nele. Afinal, ele era vista apenas como um ator que interpretava os tipos durões em filmes de ação, policial ou faroeste. Quando o filme surgiu nos cinemas, a crítica se surpreendeu completamente. Clint não era apenas habilidoso para fazer um bom filme, mas também conseguia manter o suspense em um nível elevado. E esse filme, de certa forma, nada tinha a ver com os filmes de seu passado. Havia nuances de um drama adulto mostrando um radialista que dava a chance de encontrar uma fã que ouvia seu programa de rádio. Esse programa era feito nas madrugadas com muita música romântica. Então, o personagem de Clint pensava que ela queria apenas um encontro de fim de noite. Para seu azar, era uma mulher obcecada que não estava interessada muito em romantismo, mas sim em satisfazer sua veia obsessiva. 

Assisti pela primeira vez há muitos anos em um Supercine, da Rede Globo, ainda nos anos 80. Assim como a crítica que havia gostado muito do filme em seu lançamento original, eu também me surpreendi com o resultado. O personagem de Clint não tem nada de heróico, nem age como um durão valentão das ruas. Ele é apenas um cara comum que se vê em uma situação muito triste, lamentável e perigosa. De certa forma, lembrava até mesmo que iria acontecer com John Lennon quando foi morto por um fã insano dos Beatles. O roteiro relembra que o termo fã vem de fanatismo, por isso não se pode brincar muito com esse tipo de relação entre ídolo e fã. Tudo pode acabar mal.

Perversa Paixão (Play Misty for Me, Estados Unidos, 1971) Direção: Clint Eastwood / Roteiro: Dean Riesner / Elenco: Clint Eastwood, Jessica Walter, Donna Mills / Sinopse: Radialista de um programa noturno de músicas românticas, se envolve em uma situação extremamente perigosa ao se encontrar com uma fã insana de seu programa de rádio.

Pablo Aluísio. 

terça-feira, 11 de outubro de 2022

10 Curiosidades - Três Homens em Conflito

10 Curiosidades sobre "Três Homens em Conflito"
1. O diretor Sergio Leone incentivou o elenco a improvisar em cena. Um dos maiores exemplos acontece na cena em que o personagem do ator Eli Wallach entra em uma loja de armas. Ali não havia nada escrito no roteiro e ele precisou improvisar praticamente toda a cena, principalmente quando manuseia os revólveres. Essa improvisão porém nem sempre deu certo. Na cena do trem o ator passou por apuros após seu cavalo se assustar com o som de um tiro dado por um dos figurantes. Com as mãos amarradas Eli Wallach passou por um aperto e tanto para controlar o animal. Curiosamente como Wallach não falava italiano e nem Leone inglês ambos decidiram se comunicar falando francês entre si.

2. O cemitério confederado chamado de Sad Hill Cemetery pelo roteiro foi totalmente construído pela equipe do filme. Não houve autorização para que Leone filmasse em um cemitério real. Assim eles resolveram recriar todo o lugar, usando como modelo uma foto antiga de um cemitério real das tropas rebeldes durante a guerra civil.

3. Embora não fosse o mesmo personagem dos dois filmes anteriores de Sergio Leone, Clint Eastwood resolveu usar praticamente o mesmo figurino que havia usado nas outras produções. O pistoleiro sem nome assim usou o mesmo ponche que havia usado em "Por um Punhado de Dólares" e "Por uns Dólares a mais". No filme o personagem de Eli Wallach o chama de "blondie", mas esse é apenas um nome genérico que significa "loiro" ou "loirinho", não sendo o verdadeiro nome do pistoleiro.

4. O filme foi um dos mais caros da carreira de Sergio Leone, realizado ao custo de mais de um milhão de dólares (uma verdadeira fortuna para a época). Na versão americana houve quatro cortes para que o filme não ficasse tão longo, o que iria prejudicar sua carreira comercial. Apenas alguns anos depois o público americano finalmente pôde assistir a versão completa que foi lançada em alguns cinemas e no mercado de vídeo.

5. Sergio Leone resolveu que não haveria nenhum diálogo nos dez primeiros minutos de filme, algo que assustou os produtores. Leone queria captar o clima do velho oeste. O estúdio só aceitou a decisão do diretor quando o ator Clint Eastwood o apoiou. Ninguém queria ter problemas com o astro e maior chamariz de bilheteria do filme.

6. Leone queria realismo total. Para isso acabou tendo problemas com o ator Lee Van Cleef. Numa das cenas ele deveria bater em uma mulher, lhe aplicando vários murros e chutes. A cena incomodou Cleef que tentou convencer o diretor a mudar de ideia. Leone porém não aceitou as sugestões de Lee Van Cleef e ordenou que tudo fosse feito como estava no roteiro. Para Lee Van Cleef a cena acabou sendo uma das mais complicadas de realizar, conforme ele diria depois em uma entrevista.

7. Apenas Clint Eastwood, Lee Van Cleef e Eli Wallach falavam inglês de forma fluente. Todos os demais atores ou só falavam italiano ou espanhol. Para resolver esse problema o diretor Sergio Leone determinou que eles falassem suas línguas naturais durante as filmagens. Apenas depois todos seriam dublados em inglês para o lançamento internacional do filme.

8. O famoso tema do filme foi composto pelo genial maestro e compositor Ennio Morricone. Anos depois ele explicaria que sua intenção na melodia foi imitar o som de um chacal no meio do deserto. Quando foi contratado por Sergio Leone ele resolveu tentar várias ideias por duas semanas antes de mostrar a música para o diretor. Só depois de gravar tudo com sua orquestra é que finalmente mostrou a Leone o resultado final. Esse tema acabou se tornando um dos mais conhecidos do gênero western em todos os tempos, chegando a ser lançado como trilha sonora não apenas no mercado europeu, mas no americano também, se tornando campeão de vendas, algo raro nesse segmento na época.

9. Orson Welles aconselhou Sergio Leone a desistir de mostrar imagens da guerra civil americana, isso porque Welles achava que filmes sobre a guerra civil estavam fora de moda e não fariam mais sucesso de bilheteria. Leone, felizmente, não seguiu seus conselhos. O filme, como se sabe, foi um grande sucesso de bilheteria.

10. Charles Bronson foi convidado duas vezes para fazer parte do elenco. Na primeira vez Sergio Leone o chamou para viver o personagem Tuco e depois para interpretar o pistoleiro vilão que acabou sendo feito por Lee Van Cleef. Embora Bronson estivesse muito interessado em trabalhar no filme não houve tempo. Ele estava trabalhando em "Os Doze Condenados" e o filme acabou atrasando seu cronograma original, levando muito tempo para ficar pronto. Assim ele teve que desistir. Já Clint Eastwood aceitou participar em troca de um cachê de 250 mil dólares, mais uma Ferrari dada pelo estúdio italiano.

Pablo Aluísio.

sexta-feira, 2 de setembro de 2022

Clint Eastwood e o Western - Parte 2

Clint Eastwood não planejou sua carreira de ator como astro de filmes de western. As coisas simplesmente foram acontecendo. Em 1958 ele conseguiu um papel em um faroeste B chamado "Emboscada em Cimarron Pass" (Ambush at Cimarron Pass). Essa é uma produção bem difícil de se achar nos dias de hoje. É um filme pouco conhecido, obscuro, que poucos colecionadores possuem. Quase ninguém assistiu. Vale sobretudo por trazer Clint Eastwood ainda bem jovem, já no papel de cowboy, o tipo que iria consagrar sua carreira. Fora isso nada de muito relevante em termos cinematográficos.

Dirigido por Jodie Copelan, com Scott Brady e Margia Dean no elenco, o roteiro baseado em um livro escrito por Robert A. Reeds, contava uma história que se passava em 1867 no velho oeste americano. Clint interpretava um sujeito chamado Keith Williams. Ele era um homem que tentava sobreviver em um território distante, uma reserva Apache em guerra, onde soldados do exército americano, da União, literalmente caçavam ex-soldados confederados que tinham se tornado bandoleiros e assassinos. Anos depois Clint Eastwood não iria ser refinado ao se lembrar desse filme, dizendo que ele era "provavelmente o pior western que já existiu!". Sua opinião não incomodaria os produtores. Depois que Clint se tornou um astro de Hollywood, o estúdio resolveu relançar o filme nos cinemas, já durante a década de 60. Era impossível perder a chance de faturar alto com seu nome, afinal de contas era um faroeste com Clint Eastwood, que mesmo sendo ruim ainda poderia gerar um bom faturamento nas bilheterias.

Depois de atuar em um filme sobre a I Guerra Mundial chamado "Lutando Só Pela Glória", Clint conseguiu uma excelente oportunidade, mas não no cinema e sim na TV.  Ele foi contratado para atuar na série de grande sucesso de audiência "Maverick". O programa estava entre os mais assistidos do país e contava com o astro James Garner como o famoso jogador de cartas que se envolvia em inúmeras aventuras durante a corrida rumo ao oeste. Atores famosos como Roger Moore (que iria se tornar o futuro James Bond no cinema) também atuavam nessa série. A chance de atuar nesse programa de TV tinha sua importância, pois serviria como vitrine de seu trabalho. Clint Eastwood acabou atuando no episódio "Duel at Sundown" onde ele interpretava um vilão. Aqui Clint repetia o mesmo tipo de personagem durão, de poucas palavras, de procedência desconhecida e futuro incerto que iria se tornar imortal. O típico pistoleiro sem nome, que ele iria eternizar em seus futuros filmes.

É curioso que Clint nem estava muito longe de seu primeiro grande filme, "Por um Punhado de Dólares", mas ao mesmo tempo parecia meio desanimado com sua carreira de ator que parecia não decolar como ele planejava. Depois de atuar em mais uma série de TV, dessa vez sob o selo do mestre do suspense Alfred Hitchcock, no programa "Alfred Hitchcock Presents", ele resolveu dar um tempo para repensar sua vida. Durante 3 anos Clint pensou seriamente em abandonar o sonho de viver como ator de cinema. Ele planejou tentar outras carreiras, outras profissões. Começou a se interessar pelo ofício de dirigir ou escrever roteiros. Mal sabia ele que em breve iria conhecer um cineasta italiano que iria mudar sua vida para sempre.

Pablo Aluísio.

Quando os Abutres têm fome

Os Abutres Têm Fome foi um faroeste lançado em 1970, contando em seu elenco principal com os astros Clint Eastwood e Shirley MacLaine. Seus personagens passavam por todas as dificuldades no deserto mexicano. Ela interpretava uma freira que tentava levar a palavra de Cristo para uma região abandonada por Deus, repleta de bandidos, bandoleiros e mal feitores de todos os tipos. Ele interpretava um mercenário, um pistoleiro, que colocava seus dotes de exímio atirador para quem pagasse mais. 

A atriz  Shirley MacLaine não se deu bem durante as filmagens com o diretor Don Siegel, com quem teve várias brigas e atritos abertamente, na frente de toda a equipe técnica. Depois que as filmagens terminaram ela afirmou que nunca mais queria trabalhar novamente com esse cineasta. Ela sempre foi considerada uma profissional temperamental para se trabalhar e quando um diretor não fazia o que pedia, as coisas poderiam ficar bem tensas nos sets de filmagens.

Poucos percebem isso nos dias de hoje, mas Shirley MacLaine interpreta a protagonista do filme e não Clint Eastwood que surge como apenas coadjuvante dentro do roteiro. Esse foi o último filme da carreira de Clint onde ele atuou como mero coadjuvante, recebendo inclusive um cachê bem menor do que sua parceira no filme. Depois dessa produção Clint Eastwood recusou todos os papíes secundários que lhe foram oferecidos, só atuando a partir daqui como o principal nome do elenco dos filmes em que trabalhou.

Nessa época, Clint tinha alguns planos. Ele queria dirigir filmes, escrever seus próprios roteiros. Além disso, ele estava decidido a fundar sua própria companhia cinematográfica. Certa vez, conversando com um amigo espanhol, ele disse que iria fundar uma empresa para produzir seus próprios filmes. O tal sujeito não ficou muito animado e quis desestimular Clint, dizendo que isso seria um mal passo para ele. Sem perder a piada, Eastwood resolveu chamar sua nova empresa de Malpaso Produtions. Essa empresa, que existe até hoje, transformou o ator e diretor em uma pessoa milionária, uma vez que ele teve todo o controle de seus filmes futuros. De uma coisa é certa, ele não deu um mal passo na carreira, pelo contrário, deu o passo mais do que certo.

Pablo Aluísio.

sexta-feira, 12 de agosto de 2022

Clint Eastwood e o Western - Parte 1

Depois de John Wayne o grande nome do western como gênero cinematográfica inegavelmente foi Clint Eastwood. Isso é curioso por vários motivos. Clint não participou da chamada era de ouro do faroeste americano, que ocorreu por volta dos anos 40 e 50. Ele só veio a surgir um pouco depois, quando o western já era considerado pelos críticos como um estilo de cinema ultrapassado, superado. Contra todas essas visões pessimistas Clint começou a estrelar seus filmes de western, na Itália e nos Estados Unidos. Com isso acabou se tornando um dos maiores astros da sétima arte.

O ator nasceu na Califórnia, em San Francisco, no ano de 1930. Sim, ele até teria idade para despontar nos anos 50, quando já tinha vinte anos, porém a carreira para Clint demorou um pouco a decolar. Hoje em dia ele é aclamado não apenas como um ator de sucesso, mas também como um cineasta extremamente talentoso, indicado várias vezes ao Oscar. E tudo começou com atuações em pequenas produções, filmes modestos, que serviram para, em um primeiro momento, apresentar Clint ao público espectador de cinema e TV.

O primeiro filme de sua carreira foi um filme de terror trash, uma produção B chamada "A Revanche do Monstro". Um daqueles filmes nada promissores que passavam em cinemas poeirentos do interior dos Estados Unidos. O curioso sobre esse comecinho de sua carreira como ator é que Clint foi pegando os trabalhos que eram oferecidos, sem se importar muito com a qualidade dos filmes. Algo comum e esperado para quem não tinha experiência e precisava essencialmente arranjar algum trabalho como ator para sobreviver.

Assim, ainda em 1955, lá estava o jovem Clint Eastwood envolvido em outro filme trash com monstros chamado "Tarântula!" Como era de praxe em filmes desse estilo na época tudo acontecia quando um inseto (uma aranha) era exposta a radiação! Depois disso ela começava a crescer sem parar, se transformando em um monstro de 9 metros de altura! Uma bobagem divertida daqueles tempos mais inocentes. A direção era do cineasta Jack Arnold, que foi o primeiro a enxergar em Clint um cowboy das telas. Conta-se que ele encarou o jovem ator durante um intervalo e disparou: "Ei, você deveria estar em um filme de western! Tem jeito para isso!". Um conselho e uma dica que Clint jamais esqueceria.

Pablo Aluísio.

terça-feira, 19 de julho de 2022

Clint Eastwood e o Faroeste

Clint Eastwood se tornou o legítimo sucessor de John Wayne dentro do western dos Estados Unidos. Isso chega a ser óbvio pelo simples fato de que nenhum outro ator apresentou nas telas e nos filmes as credenciais para se colocar em uma posição de herdeiro de John Wayne. Ao longo de todas essas décadas apenas Clint ficou à altura do veterano ator nesse aspecto. Eastwood talvez seja o último representante dos grandes mitos do faroeste, pois surgiu em uma época em que o gênero já deixava de ser o foco de interesse principal dos grandes estúdios. De certa maneira Clint Eastwood foi de fato o último grande nome do western em uma época em que ele já estava saindo de cartaz.

Com a morte de John Wayne em 1979, Clint Eastwood passou a ser o principal nome dos filmes de faroeste nos cinemas, no grande circuito comercial. Não havia nenhum outro em seu patamar. Embora Clint não tenha se dedicado exclusivamente aos filmes de cowboy ao longo de sua carreira, o fato é que ele muito  ficou associado ao gênero, a ponto de que muitos, ainda hoje, mesmo após tantos filmes em outros gêneros cinematográficos, ainda ligam automaticamente o nome de Clint Eastwood aos seus personagens nos filmes de western. O cavaleiro solitário sem nome marcou época.

Natural de São Francisco, Clint iniciou sua carreira no cinema em pequenos filmes, alguns sem qualquer expressão. Acabou se tornando conhecido apenas quando entrou para o velho oeste, principalmente com a série de televisão de faroeste "Rawhide" que foi exibida enre os anos de 1959 a 1966. Em 1964 Clint Eastwood foi convidado pelo diretor italiano Sergio Leone para fazer "Por Um Punhado de Dólares", o primeiro de três filmes rodados na Espanha, com produção italiana, que lançaram a moda do chamado spaghetti-western, o faroeste feito e produzido no velho continente, na Europa. Não deixava de ser muito esquisito o fato de que o mais americano de todos os gêneros cinematográficos passasse a ser feito por estrangeiros. De qualquer forma o público adorou e os filmes se tornaram sucessos de bilheteria, inclusive dentro dos Estados Unidos.

A parceira de Clint com Sergio Leone renderia ainda mais dois grandes sucessos de bilheteria, "Por uns Dólares a Mais" e "Três Homens em Conflito". O ator, que nunca tivera uma chance de verdade dentro do indústria americana de cinema, acabou se tornando um astro ao estrelar produções italianas de faroeste. Uma ironia do destino! Depois do sucesso e reconhecimento ele finalmente voltou para os Estados Unidos, para rodar seus próprios filmes de faroeste em seu país natal. Clint fundou sua própria companhia cinematográfica (A Malpaso Productions), se tornando assim também produtor de seus filmes. Seu primeiro filme após esse retorno foi "A Marca da Forca" em 1968.

Embora o filme tenha sido até bem recebido, Clint Eastwood começou a acertar mesmo após o lançamento de "Os Abutres Têm Fome" que pode ser considerado o seu primeiro grande filme americano de faroeste. Ao lado da atriz Shirley MacLaine, ele finalmente acertou o foco de seus personagens nesse estilo. A partir dessa produção Clint iria aprimorar o seu "pistoleiro sem nome". Um tipo caladão, com cara de poucos amigos, mas com a mira certeira. Em "O Estranho que Nós Amamos" Clint surgia com um pouco de romantismo em uma trama passada durante a sangrenta guerra civil. O próximo faroeste de sua carreira "Joe Kidd" fez sucesso novamente, fazendo com que Clint Eastwood se tornasse o ator número 1 do gênero western, ultrapassando até mesmo o veterano John Wayne, que ainda estava vivo, mas que com vários problemas de saúde não conseguia mais manter a velha força do passado.   

Porém de todos os filmes que fez nesse período, o que mais foi definitivo para a carreira de Clint Eastwood no gênero western foi sem dúvida "O Estranho sem Nome" de 1973. Nesse excelente filme ele finalmente encontrou definitivamente os contornos do personagem símbolo de sua carreira no cinema. O pistoleiro que interpretou nesse filme sequer tinha nome, sendo conhecido apenas como "The Stranger". A direção foi do próprio Clint, que aqui tomou todas as rédeas da produção, tanto no aspecto de roteiro, produção, direção e atuação. Com controle absoluto, ele criou uma obra-prima do faroeste. Em 1979 John Wayne morreu, ficando apenas Clint Eastwood para manter a chama acessa do faroeste. Finalmente ele assumia o lugar que tanto merecia.

Ao longo de décadas, Clint ainda alcançaria vários sucessos de bilheteria no gênero western, se destacando produções como "Josey Wales, o Fora da Lei" e "O Cavaleiro Solitário". Ele faria até mesmo uma homenagem aos artistas que ganhavam a vida explorando os mitos do velho oeste em circos e apresentações circenses no bom e saudoso "Bronco Billy" em 1980. Esse filme, campeão de reprises no Brasil nos bons tempos da Sessão da Tarde, se tornaria um dos mais populares em nosso país. Com ótimo roteiro e uma história comovente, era uma declaração de amor ao faroeste e seus mitos do passado.

Clint Eastwood se despediu do western em um filme magnífico de 1992. "Os Imperdoáveis" foi o grande vencedor do Oscar naquele ano, vencendo nas principais categorias, inclusive as de melhor filme, melhor direção (prêmio dado ao próprio Clint) e melhor ator coadjuvante (dado para o excepcional Gene Hackman). Quem poderia imaginar que essa longa estrada, que havia começado na década de 1960 em um programa de TV, que depois iria para a Europa com o western spaghetti, iria finalmente chegar ao seu destino naquela noite do Oscar, com a consagração final e definitiva de Clint Eastwood? Pois é, o mundo realmente dá voltas.

Pablo Aluísio.

sábado, 25 de junho de 2022

Por uns Dólares a Mais

Título no Brasil: Por uns Dólares a Mais
Título Original: Per Qualche Dollaro in Più
Ano de Produção: 1965
País: Itália, Espanha, Alemanha
Estúdio: Constantin Film Produktion, Produzioni Europee Associati
Direção: Sergio Leone
Roteiro: Sergio Leone, Fulvio Morsella
Elenco: Clint Eastwood, Lee Van Cleef, Gian Maria Volonté

Sinopse:
Monco (Clint Eastwood) e Mortimer (Lee Van Cleef) são dois caçadores de recompensas no velho oeste que acabam indo atrás do mesmo criminoso, El Indio (Gian Maria Volonté), cuja oferta por sua captura vivo ou morto é avaliada em dez mil dólares! Pistoleiro, psicopata, estuprador e muito violento, El Indio planeja ao lado de sua quadrilha um grande roubo de banco na cidade de El Paso. Ele conseguiu ter acesso a informações privilegiadas sobre o cofre da instituição e pretende roubar uma pequena fortuna de sua sede, mas antes disso terá que se livrar daqueles que querem sua cabeça em troca do valioso prêmio a ser dado como recompensa a quem conseguir lhe tirar de circulação.

Comentários:
A frase que abre o filme, "Onde a vida não tem valor, a morte, ás vezes tem seu preço. É por isso que os caçadores de recompensas apareceram", resume bem a tônica dessa produção. Considerado um dos maiores clássicos do assim chamado western spaguetti, "Por uns Dólares a Mais" surge em um momento em que o cinema italiano começa a mostrar ao mundo que também podia realizar faroestes tão bons quanto os originais americanos. A fórmula de se importar atores e profissionais americanos para trabalharem na Itália havia se mostrado madura o suficiente para assustar até mesmo os grandes estúdios de Hollywood. Para se ter uma ideia a United Artists ficou tão impressionada com a qualidade desse western que não pensou duas vezes em adquirir os direitos da obra para lançar nos cinemas americanos, no circuito interno. Isso era um feito e tanto já que até aquele momento as distribuidoras americanas esnobavam os filmes italianos de faroeste. No elenco, Clint Eastwood e Lee Van Cleef, começavam a virar astros. Ambos amargaram anos e anos de papéis coadjuvantes sem muita importância dentro da indústria americana e tiveram que cruzar o Atlântico para serem finalmente reconhecidos em casa. Por fim, e o mais importante de tudo, o filme contava com a ótima direção do mestre Sergio Leone. Cineasta singular, Leone conseguia impor um estilo próprio, autoral, em fitas que em essência eram realizadas para serem acima de tudo comercialmente bem sucedidas. Dentro do circuito mais comercial ele conseguia, com raro brilhantismo, trazer inovações e classe a gêneros ditos como extremamente popularescos. Maior prova de sua genialidade não há. Assim, caso você nunca tenha assistido esse western classe A não perca mais seu tempo, pois "Per Qualche Dollaro in Più" é de fato simplesmente indispensável e essencial para qualquer cinéfilo que se preze. Um faroeste realmente imortal.

Pablo Aluísio.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2022

Os Imperdoáveis

Título no Brasil: Os Imperdoáveis
Título Original: Unforgiven
Ano de Produção: 1992
País: Estados Unidos
Estúdio: Paramount Pictures
Direção: Clint Eastwood
Roteiro: David Webb Peoples
Elenco: Clint Eastwood, Gene Hackman, Morgan Freeman, Richard Harris, Jaimz Woolvett, Saul Rubinek

Sinopse:
Velho pistoleiro aposentado é contratado para um último e decisivo serviço. Vencedor dos Oscars de Melhor Filme, Edição, Direção, Ator Coadjuvante (Gene Hackman), com indicações aos Oscars de Melhor Ator (Clint Eastwood), Direção de Arte, Fotografia, Som e Roteiro Original. Vencedor do Globo de Ouro nas categorias de Melhor Direção e Melhor Ator Coadjuvante (Gene Hackman).

Comentários:
A história de "Os Imperdoáveis" (The Unforgiven -1992) é ambientada em 1880 na belíssima região do Wyoming e discorre sobre a vida de William Munny (Clint Eastwood) um ex-pistoleiro que carrega em seu macabro currículo, assassinatos de mulheres e crianças. Depois de casar-se com o seu grande amor, Claudia, Munny resolve regenerar-se: abandona a vida pistoleiro, a bebida e decide levar uma vida correta cuidando de esposa e filhos. No entanto sua esposa depois de contrair uma grave doença, não resiste e morre. Sozinho, um misantropo Munny segue sua vida de amargura, cuidando de suas terras, de seus porcos e de seus dois filhos. Tempos depois, Munny é surpreendido em sua própria fazenda pela visita de um jovem e inexperiente pistoleiro, Schofield Kid (Jaimz Woolvett). Kid, conhecendo a fama e o passado de Munny, tenta convencê-lo a partir junto com ele atrás de uma recompensa de mil dólares em troca da eliminação de dois vaqueiros que retalharam, de forma covarde, o rosto da prostituta Delilah Fitzgerald (Anna Levine) na pequena cidade de Big Whiskey. No início Munny resiste à proposta, mas seus graves problemas financeiros fazem com que o velho e amargurado pistoleiro mude de idéia. Mais velho e destreinado, Munny, depois de um pequeno treino de tiro ao alvo, descobre que não é mais aquele pistoleiro de outrora.

Com uma trêmula e péssima pontaria além de uma enorme dificuldade para subir em seu próprio cavalo, o pistoleiro, inseguro, resolve dividir a recompensa por três e convoca seu velho companheiro para ajudá-lo nessa caçada humana: Ned Logan (Morgan Freeman). No princípio, Logan, enfrentando a reprovação de sua mulher, também pensa em rejeitar a proposta, mas, precisando do dinheiro alia-se à Munny e Kid e juntos partem para a pequena Big Whiskey em busca da tão sonhada recompensa que será paga pelas próprias prostitutas. Porém, a vida da dupla não será nada fácil, pois além de lutarem contra as suas próprias dificuldades, decorrente da idade e de uma vida de aposentados, os dois terão que aturar o jovem Schofield Kid, um guri falastrão e sem experiência alguma como pistoleiro. Além disso, a polpuda recompensa atrai outros candidatos a vingadores da prostituta como o janota e posudo Bob -"o inglês"- (Richard Harris). A partir daí a pequena Big Whiskey não será mais a mesma pois os candidatos à recompensa terão que enfrentar antes a ira do xerife Little Bill Daggett (Gene Hackman) um sujeito violento, covarde e impiedoso e que não admite ninguém armado em sua pequena cidade.

O longa - eleito como um dos cem maiores filmes de todos os tempos - não tem heróis ou bandidos e nem mesmo a bela mocinha a ser beijada e conquistada. Todos são um pouco de cada coisa e parecem viver no mesmo limbo, entre a desgraça e o mínimo de decência. A ambientação lúgubre e o colorido pálido das tomadas em planos mais fechados soma-se a uma atmosfera triste e desvanecida, aumentando assim a aura de melancolia e desesperança. O viés antipoético e antifilosófico do roteiro funciona para aumentar ainda mais a tensão avassaladora da vingança funesta e inevitável. Clint Eastwood é um gênio corrosivo e implacável; e foi justamente essa verve idiossincrática do diretor que construiu William Munny: um homem de alma ácida que vive os dias soterrado pelo seu próprio passado. Uma mortalha recortada e descarnada pelas dores da lembrança de dias gloriosos como pistoleiro que ficaram para trás e também pela perda trágica do amor de sua vida. O velho pistoleiro depois de alguns goles virará um monstro travestido de drama, dores, mistério e vingança e que inexoravelmente ficará frente a frente com o xerife Litlle Bill em um dos finais mais assombrosos e espetaculares da história dos filmes de faroeste. Depois de ser recusado por vários produtores durante vinte anos, o roteiro de "Os Imperdoáveis" (Unforgiven -1992), escrito magistralmente por David Webb Peoples, acabou caindo nas mãos do alquimista Clint Eastwood que resolveu bancar o filme, escolher o elenco e de quebra assinar a direção. Trata-se de um monumento à sétima arte. Vencedor de 4 Oscars (filme, diretor, edição e ator coadjuvante para Gene Hackman) o longa é uma obra-prima do cinema e um show de interpretações magistrais - não só de Eastwood, mas também dos excepcionais Gene Hackman, Morgan Freeman e do grande e saudoso irlandês, Richard Harris.

Telmo Vilela Jr.