sábado, 26 de setembro de 2026

Elvis Presley - Elvis (1973)

Elvis Presley - Elvis (1973)
O álbum Elvis, lançado em 16 de julho de 1973 pela RCA Victor, ocupa um lugar bastante singular na discografia de Elvis Presley. Também conhecido como The Fool Album, em referência à primeira faixa do disco, o trabalho foi o décimo oitavo álbum de estúdio do cantor e chegou ao mercado durante uma fase de grandes transformações em sua carreira pessoal e profissional. Depois do enorme sucesso do especial televisivo Aloha from Hawaii, transmitido mundialmente por satélite em janeiro daquele ano, Elvis encontrava-se novamente no centro das atenções, embora sua produção de estúdio começasse a apresentar características bastante diferentes das gravações realizadas na década anterior. O álbum foi produzido por Felton Jarvis e reuniu dez canções provenientes principalmente de sessões realizadas em Nashville, em março e maio de 1971, além de gravações mais recentes de 1972. A RCA aproveitou material que permanecia inédito em seus arquivos para oferecer ao público um novo LP de Elvis, numa época em que a companhia havia adquirido os direitos sobre as gravações anteriores do artista. A decisão estava relacionada ao acordo firmado em março de 1973, pelo qual a RCA pagou aproximadamente 5,4 milhões de dólares para assumir o controle do catálogo fonográfico anterior de Elvis. O resultado foi um disco heterogêneo, que mistura baladas românticas, country, música popular internacional e interpretações intimistas. Embora não tenha sido concebido como um álbum inteiramente planejado em estúdio, apresenta momentos de grande interesse artístico. 

A abertura com “Fool” estabelece imediatamente o caráter sentimental do trabalho. A canção, baseada na composição “No Words”, de James Last, recebeu letra de Carl Sigman e foi gravada por Elvis em março de 1972. Sua interpretação combina elementos do country e da balada pop, com arranjo orquestral e uma performance vocal marcada pela intensidade emocional que caracterizava muitas de suas gravações dos anos 1970. “Where Do I Go from Here”, composta por Paul Williams, também pertence às sessões de 1972 e apresenta uma atmosfera melancólica, com Elvis explorando as possibilidades expressivas de sua voz madura. Já “Love Me, Love the Life I Lead” destaca o lado romântico do repertório, apoiando-se numa melodia suave e numa interpretação que valoriza a expressividade vocal. Um dos grandes atrativos do álbum, entretanto, aparece nas gravações mais despojadas realizadas em Nashville. “It's Still Here”, “I Will Be True” e “I'll Take You Home Again, Kathleen” apresentam Elvis ao piano, em interpretações de caráter quase doméstico, com acompanhamento mínimo ou inexistente. Essas gravações revelam um artista disposto a experimentar sem a estrutura elaborada de seus discos comerciais. A presença do piano permite ouvir nuances de sua interpretação que muitas vezes ficavam escondidas em arranjos mais grandiosos. Para os admiradores de Elvis, essas três faixas constituem alguns dos momentos mais pessoais de todo o álbum. 

A recepção crítica do disco foi marcada por avaliações distintas, em grande parte devido à natureza irregular de sua seleção musical. A revista AllMusic, em uma análise retrospectiva assinada por Neal Umphred, observa que o álbum reúne sobras de projetos anteriores, mas ressalta que justamente essas gravações menos convencionais permitem conhecer um aspecto diferente do artista. O crítico destaca especialmente “It's Still Here” e “I Will Be True”, nas quais Elvis canta ao piano, sem acompanhamento instrumental, considerando essas interpretações momentos extraordinários que justificam a audição do LP. Essa avaliação ajuda a compreender por que o álbum passou a despertar interesse entre colecionadores e admiradores mais atentos à obra de Elvis. Por outro lado, a seleção de repertório nem sempre foi considerada equilibrada. “Padre”, por exemplo, segue uma linha dramática e grandiosa, enquanto “Love Me, Love the Life I Lead” e “Fool” procuram dialogar com o gosto popular da época. A diversidade de estilos impede que o álbum tenha uma identidade musical tão uniforme quanto a de trabalhos anteriores, como From Elvis in Memphis ou Elvis Country. A inclusão de “It's Impossible”, registrada ao vivo em Las Vegas, também contribui para essa sensação de coleção de momentos distintos, em vez de um projeto concebido como uma unidade artística. Ainda assim, as gravações mais intimistas demonstram a capacidade de Elvis de transmitir emoção mesmo em condições simples de gravação. 

Comercialmente, Elvis chegou ao mercado num período em que a presença do cantor nas paradas americanas continuava significativa, embora os resultados variassem bastante conforme o lançamento. O álbum alcançou a 52ª posição na parada de álbuns da Billboard nos Estados Unidos, enquanto obteve desempenho mais expressivo em determinadas listas de música country. No Reino Unido, o disco também encontrou público, acompanhando o interesse contínuo pela obra do cantor. A faixa “Fool” ganhou destaque como single, embora nos Estados Unidos tenha sido lançada originalmente no lado B de “Steamroller Blues”, canção que havia sido apresentada no álbum Aloha from Hawaii via Satellite. A combinação das duas músicas chegou à 17ª posição da Billboard Hot 100, enquanto “Fool” alcançou a 15ª colocação na parada britânica de singles. A revista Billboard, em sua avaliação da gravação, descreveu “Fool” como uma balada forte, de orientação country-rock, seguindo a linha de outros sucessos românticos de Elvis. O desempenho comercial do LP ficou, portanto, abaixo do alcançado pelo álbum ao vivo Aloha from Hawaii, mas confirmou que o cantor ainda mantinha uma presença considerável no mercado fonográfico internacional. A página oficial de Elvis observa que as vendas do álbum ficaram em torno de 200 mil cópias, resultado que refletiu, em parte, a natureza pouco convencional do lançamento e a apresentação gráfica considerada pouco elaborada. 

Com o passar das décadas, Elvis (The Fool Album) adquiriu importância principalmente entre os admiradores interessados nas gravações menos conhecidas do cantor. Não é geralmente considerado um dos grandes álbuns conceituais de sua carreira, mas oferece uma oportunidade especial de acompanhar Elvis em interpretações mais espontâneas e pessoais. A versão de “Don't Think Twice, It's All Right”, de Bob Dylan, é um dos exemplos mais interessantes dessa liberdade interpretativa. Elvis transforma a composição numa performance acústica descontraída, com fraseado vocal flexível e uma abordagem que se afasta da estrutura mais rígida de algumas de suas gravações comerciais. A edição original apresenta uma versão bastante reduzida da interpretação, enquanto registros mais extensos permitem conhecer melhor o desenvolvimento da sessão. A presença dessa canção também demonstra o interesse de Elvis pelo repertório de outros compositores importantes de sua época. “(That's What You Get) For Lovin' Me”, de Gordon Lightfoot, acrescenta ao disco uma ligação com a tradição da música folk e country norte-americana. Já as três gravações ao piano continuam sendo lembradas como registros especialmente reveladores da personalidade musical de Elvis. O álbum, assim, representa um documento de transição dentro de sua trajetória nos anos 1970: um lançamento comercialmente modesto, mas que preserva interpretações de grande valor histórico e artístico. Para quem deseja conhecer não apenas os grandes sucessos, mas também o lado mais reservado e experimental do Rei do Rock, The Fool Album permanece uma audição indispensável.

Elvis Presley - Elvis (The Fool Album) (1973)
Fool
Where Do I Go from Here
Love Me, Love the Life I Lead
It's Still Here
It's Impossible
(That's What You Get) For Lovin' Me
Padre
I'll Take You Home Again, Kathleen
I Will Be True
Don't Think Twice, It's All Right

Erick Steve. 

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