sexta-feira, 6 de dezembro de 2002

Sessão de Cinema: De Volta Para o Futuro

Título no Brasil: De Volta para o Futuro
Título Original: Back to the Future
Ano de Lançamento: 1985
País: Estados Unidos
Estúdio: Universal Pictures / Amblin Entertainment
Direção: Robert Zemeckis
Roteiro: Robert Zemeckis e Bob Gale
Produção: Steven Spielberg, Frank Marshall e Kathleen Kennedy
Elenco: Michael J. Fox, Christopher Lloyd, Lea Thompson, Crispin Glover, Thomas F. Wilson e Claudia Wells.
Duração: 116 minutos.

Sinopse:
Marty McFly é um adolescente de 17 anos que vive na fictícia cidade de Hill Valley, na Califórnia. Apesar de ter uma vida familiar complicada e de sonhar com uma carreira musical, Marty leva uma existência relativamente normal até conhecer seu excêntrico amigo, o cientista Dr. Emmett Brown, conhecido como "Doc". Brown desenvolve uma máquina do tempo utilizando um automóvel DeLorean DMC-12, transformado em um veículo capaz de viajar pelo tempo. Durante uma experiência realizada no estacionamento de um shopping, Marty acidentalmente entra no carro e é transportado para 1955. Lá, ele encontra seus próprios pais quando adolescentes e, sem querer, interfere no primeiro encontro deles. O problema é que sua mãe, Lorraine, passa a se interessar por Marty em vez de seu futuro marido, George. Para voltar a 1985, Marty precisa convencer seus pais a se apaixonarem e, ao mesmo tempo, encontrar o jovem Doc Brown de 1955 para ajudá-lo a utilizar a energia de um raio que atingirá a torre do relógio de Hill Valley. A aventura transforma-se em uma corrida contra o tempo para impedir que Marty altere definitivamente o futuro.

Comentários:
Quando De Volta para o Futuro chegou aos cinemas em julho de 1985, a crítica americana rapidamente percebeu que Robert Zemeckis havia realizado algo muito mais sofisticado do que uma simples comédia adolescente. O The New York Times, em crítica de Janet Maslin, destacou a inventividade da história e a combinação extraordinariamente eficiente entre ficção científica, humor e romance adolescente. A revista Variety também foi extremamente favorável, elogiando o roteiro de Zemeckis e Bob Gale e, principalmente, a química entre Michael J. Fox e Christopher Lloyd. O Los Angeles Times chamou atenção para a capacidade do filme de transformar conceitos complexos de viagem no tempo em uma aventura acessível e divertida para o grande público. A revista Time destacou o ritmo da produção e a maneira como Zemeckis utilizava a nostalgia dos anos 1950 sem transformar o período em uma simples caricatura. Michael J. Fox foi considerado uma descoberta extraordinária para o cinema, mesmo já sendo conhecido pela televisão através de Family Ties. Sua interpretação de Marty combinava energia, humor e vulnerabilidade, enquanto Christopher Lloyd transformava Doc Brown em um dos cientistas mais memoráveis da história do cinema. A trilha sonora de Alan Silvestri, os efeitos visuais e a utilização do DeLorean como máquina do tempo também foram amplamente elogiados.

O sucesso crítico rapidamente foi acompanhado por um extraordinário fenômeno comercial. De Volta para o Futuro tornou-se o filme de maior bilheteria de 1985 nos Estados Unidos, permanecendo durante várias semanas no primeiro lugar das bilheterias. A produção recebeu quatro indicações ao Oscar, vencendo na categoria de Melhor Edição de Som, e Michael J. Fox consolidou-se definitivamente como uma das grandes estrelas jovens de Hollywood. O filme também recebeu elogios posteriores de publicações como The New Yorker, Entertainment Weekly e Rolling Stone, que passaram a tratá-lo como um dos grandes exemplos de entretenimento popular perfeitamente construído. Um dos maiores méritos do roteiro é sua utilização da própria viagem temporal para produzir situações cômicas: Marty conhece versões jovens de personagens que conhece em 1985 e percebe como pequenas diferenças podem transformar completamente suas vidas. O filme também trabalha com a ideia de que o futuro pode ser alterado pelas escolhas individuais, tema que seria desenvolvido nas duas continuações. O DeLorean, o skate, a jaqueta de Marty, a torre do relógio e a frase "Great Scott!" tornaram-se elementos imediatamente reconhecíveis da cultura popular. Com o passar das décadas, De Volta para o Futuro deixou de ser apenas um enorme sucesso dos anos 1980 e passou a ser considerado um clássico absoluto do cinema americano, frequentemente incluído entre os melhores filmes de ficção científica, comédia e aventura já realizados. Sua influência permanece evidente em inúmeras produções posteriores sobre viagens no tempo, e a primeira aventura de Marty McFly e Doc Brown continua sendo uma das experiências cinematográficas mais populares e duradouras da história de Hollywood.

Erick Steve. 

Os 10 filmes de maior sucesso de 1985

 
Os 10 filmes de maior sucesso de 1985:

1. De Volta para o Futuro
(Back to the Future)
Direção: Robert Zemeckis
Elenco: Michael J. Fox, Christopher Lloyd, Lea Thompson, Crispin Glover, Thomas F. Wilson
Sinopse: Marty McFly é um adolescente que vive na pequena cidade de Hill Valley. Por acidente, ele viaja para o passado a bordo de um DeLorean transformado em máquina do tempo pelo excêntrico cientista Dr. Emmett Brown. Preso em 1955, Marty encontra seus próprios pais quando ainda eram adolescentes e percebe que suas ações podem alterar completamente o futuro. Para conseguir voltar para 1985, ele precisa fazer com que seus pais se apaixonem e encontrar uma maneira de fazer a máquina do tempo funcionar novamente. O filme foi o grande fenômeno cinematográfico de 1985 e alcançou cerca de US$ 381 milhões em bilheteria mundial. (FilmDB)

2. Rocky IV
(Rocky IV)
Direção: Sylvester Stallone
Elenco: Sylvester Stallone, Dolph Lundgren, Talia Shire, Burt Young, Carl Weathers
Sinopse: Rocky Balboa enfrenta o maior desafio de sua carreira quando o poderoso boxeador soviético Ivan Drago chega aos Estados Unidos para demonstrar a superioridade de seu treinamento. Durante uma luta de exibição, Drago golpeia brutalmente Apollo Creed, que acaba morrendo no ringue. Determinado a vingar o amigo, Rocky aceita enfrentar o gigantesco campeão soviético em Moscou. A preparação para o combate transforma-se em uma batalha pessoal e simbólica em plena Guerra Fria. O filme tornou-se um enorme sucesso popular, arrecadando aproximadamente US$ 300,5 milhões mundialmente. (FilmDB)

3. Rambo II — A Missão
(Rambo: First Blood Part II)
Direção: George P. Cosmatos
Elenco: Sylvester Stallone, Richard Crenna, Charles Napier, Steven Berkoff, Julia Nickson
Sinopse: John Rambo está preso quando recebe uma proposta para participar de uma missão secreta no Vietnã. Sua tarefa é fotografar possíveis campos onde soldados americanos ainda poderiam estar mantidos como prisioneiros de guerra. Enviado praticamente sozinho para uma região extremamente perigosa, Rambo descobre que a missão é muito mais complexa do que imaginava. Abandonado por seus superiores, ele decide salvar os prisioneiros e enfrentar sozinho um poderoso exército inimigo. Com muita ação e uma enorme presença de Sylvester Stallone, o filme tornou-se um dos maiores sucessos de 1985, chegando a cerca de US$ 300,4 milhões em todo o mundo. (FilmDB)

4. Entre Dois Amores
(Out of Africa)
Direção: Sydney Pollack
Elenco: Meryl Streep, Robert Redford, Klaus Maria Brandauer, Michael Kitchen, Malick Bowens
Sinopse: Karen Blixen, uma aristocrata dinamarquesa, viaja para o Quênia no início do século XX para administrar uma propriedade agrícola. Em meio à paisagem africana, ela enfrenta dificuldades no casamento, problemas financeiros e os desafios de viver em uma sociedade colonial. Sua vida muda profundamente quando conhece o aventureiro e caçador Denys Finch Hatton. Entre os dois nasce uma relação intensa, marcada pelo amor, pela liberdade e pelas diferenças entre seus modos de enxergar a vida. Dirigido por Sydney Pollack, o épico foi um enorme sucesso internacional e arrecadou aproximadamente US$ 227 milhões mundialmente. (FilmDB)

5. 007 — Na Mira dos Assassinos
(A View to a Kill)
Direção: John Glen
Elenco: Roger Moore, Christopher Walken, Tanya Roberts, Grace Jones, Christopher Lee
Sinopse: James Bond recebe a missão de investigar Max Zorin, um poderoso industrial que pretende destruir a indústria de semicondutores do Vale do Silício. Zorin, aparentemente um empresário respeitável, é na realidade um criminoso extremamente perigoso que planeja provocar uma catástrofe de grandes proporções. Bond percorre vários países enquanto enfrenta assassinos, agentes inimigos e a implacável May Day. Último filme da série estrelado por Roger Moore, a produção combinou espionagem, ação e humor característicos da fase do ator como 007. O filme arrecadou aproximadamente US$ 152 milhões mundialmente. (FilmDB)

6. A Cor Púrpura
(The Color Purple)
Direção: Steven Spielberg
Elenco: Whoopi Goldberg, Danny Glover, Oprah Winfrey, Margaret Avery, Adolph Caesar
Sinopse: Celie é uma jovem negra que vive no sul dos Estados Unidos no início do século XX e enfrenta uma existência marcada pela pobreza, violência e opressão. Separada da irmã Nettie, ela passa muitos anos acreditando que nunca mais irá encontrá-la. Obrigada a viver em um casamento abusivo, Celie encontra forças para reconstruir sua própria identidade através da amizade com outras mulheres, especialmente a independente e determinada Shug Avery. Aos poucos, ela aprende a lutar por sua liberdade e por uma vida digna. A adaptação do romance de Alice Walker foi um dos grandes sucessos dramáticos de 1985, ultrapassando US$ 140 milhões em bilheteria mundial em estimativas consolidadas. (FilmDB)

7. A Testemunha
(Witness)
Direção: Peter Weir
Elenco: Harrison Ford, Kelly McGillis, Lukas Haas, Josef Sommer, Danny Glover
Sinopse: O policial John Book investiga o assassinato de um homem em uma estação ferroviária e descobre que o único testemunho do crime pertence a Samuel, um menino pertencente à comunidade Amish. Quando Book percebe que pessoas dentro da própria polícia estão envolvidas no assassinato, decide esconder o garoto e sua mãe em uma comunidade Amish na Pensilvânia. Longe da violência e dos métodos policiais convencionais, Book precisa se adaptar a um modo de vida completamente diferente. Ao mesmo tempo, desenvolve uma relação afetiva com Rachel, mãe do menino. O suspense policial tornou-se um grande sucesso e arrecadou cerca de US$ 116 milhões mundialmente. (Wikipedia)

8. A Jóia do Nilo
(The Jewel of the Nile)
Direção: Lewis Teague
Elenco: Michael Douglas, Kathleen Turner, Danny DeVito, Spyros Fokas, Holland Taylor
Sinopse: Joan Wilder e Jack Colton estão novamente envolvidos em uma perigosa aventura. Joan viaja para o norte da África depois de ser convidada para escrever a biografia de um poderoso líder, mas logo descobre que foi enganada e que está envolvida em uma conspiração. Jack e seu inseparável amigo Ralph partem para salvá-la. A busca envolve perseguições, soldados, desertos, aviões e uma lendária joia escondida no coração da região. Reunindo novamente Michael Douglas, Kathleen Turner e Danny DeVito, o filme foi uma continuação do sucesso de Tudo por uma Esmeralda e alcançou aproximadamente US$ 96,8 milhões mundialmente. (Box Office Mojo)

9. Cocoon
(Cocoon)
Direção: Ron Howard
Elenco: Don Ameche, Wilford Brimley, Hume Cronyn, Brian Dennehy, Steve Guttenberg
Sinopse: Um grupo de idosos vive em uma casa de repouso na Flórida, enfrentando as limitações impostas pela idade. A rotina muda completamente quando eles descobrem uma piscina onde estão armazenados misteriosos casulos extraterrestres. Depois de entrarem em contato com os casulos, começam a recuperar a juventude e a vitalidade que haviam perdido. Entretanto, os alienígenas precisam recuperar os casulos para levá-los de volta ao seu planeta. O filme mistura ficção científica, aventura, humor e uma reflexão sobre envelhecimento, amizade e mortalidade. Cocoon foi um grande sucesso comercial, alcançando aproximadamente US$ 85,3 milhões mundialmente. (FilmDB)

10. Os Goonies
(The Goonies)
Direção: Richard Donner
Elenco: Sean Astin, Josh Brolin, Jeff Cohen, Corey Feldman, Ke Huy Quan
Sinopse: Um grupo de crianças que vive em Astoria, Oregon, descobre um antigo mapa que aparentemente conduz ao tesouro perdido do lendário pirata Willy Caolho. Determinados a encontrar a fortuna e impedir que suas famílias percam suas casas, os amigos iniciam uma aventura subterrânea repleta de armadilhas, passagens secretas e perigos. Durante a busca, eles também precisam escapar dos criminosos da família Fratelli, que procuram o mesmo tesouro. Produzido por Steven Spielberg e dirigido por Richard Donner, o filme tornou-se um dos grandes clássicos juvenis dos anos 1980. Sua bilheteria mundial ficou em torno de US$ 69,6 milhões. (FilmDB)

Observação: A ordem acima considera o sucesso comercial mundial. As bases históricas apresentam diferenças porque os registros de bilheteria internacional de 1985 são menos completos do que os atuais. Por exemplo, o Box Office Mojo atualmente registra apenas parte das receitas internacionais de vários títulos daquele período, enquanto bases que reconstituem dados históricos apresentam valores mundiais maiores. (FilmDB)

quinta-feira, 5 de dezembro de 2002

Fotogramas & Vídeo: Mickey Rourke, o Novo Brando

Fotogramas & Vídeo: Mickey Rourke, o Novo Brando
Em 1987, Mickey Rourke estava no momento mais fascinante de sua carreira. Depois de chamar a atenção em filmes como Diner, Rumble Fish, The Pope of Greenwich Village e Year of the Dragon, o ator havia se transformado em uma das figuras mais comentadas do cinema americano. O sucesso de 9½ Weeks, lançado no ano anterior, acrescentara ainda uma dimensão de astro e símbolo sexual à sua imagem, mas Rourke parecia interessado justamente em escapar dos papéis convencionais de galã. Em 1987, ele apareceu em três filmes bastante diferentes: Angel Heart, Barfly e A Prayer for the Dying. Era uma escolha de carreira curiosa para um ator que estava em plena ascensão comercial. Em vez de simplesmente aproveitar o prestígio conquistado, Rourke procurava personagens marginais, atormentados, violentos ou moralmente ambíguos. O resultado foi um dos anos mais importantes de sua trajetória artística.

O primeiro grande destaque foi Angel Heart, dirigido por Alan Parker, no qual Rourke interpretou o detetive particular Harry Angel. Contracenando com Robert De Niro, ele mergulhou em uma história que misturava filme noir, investigação policial, horror e elementos sobrenaturais. A crítica percebeu imediatamente que havia algo especial em sua atuação. O Chicago Tribune considerou sua interpretação o centro do filme e destacou a complexidade com que o ator construía Harry Angel, enquanto o Los Angeles Times chamou sua composição de uma interpretação extremamente convincente do detetive durão e decadente. Roger Ebert também dedicou atenção especial ao trabalho de Rourke, observando sua transformação ao longo da história, à medida que o personagem passa de uma aparente indiferença para um estado crescente de desespero. Angel Heart acabou se tornando um dos filmes mais lembrados de sua carreira e ajudou a consolidar aquela imagem de ator inquieto e pouco convencional que Rourke cultivava naquele momento.

Mas talvez Barfly seja o filme que melhor demonstra o quanto Rourke queria ser reconhecido como ator e não apenas como astro. Dirigido por Barbet Schroeder a partir de roteiro do escritor Charles Bukowski, o filme apresentava Rourke como Henry Chinaski, um alcoólatra e escritor marginal que passa seus dias entre bares, brigas, ressacas e relacionamentos igualmente turbulentos. Ao seu lado estava Faye Dunaway, interpretando Wanda, outra personagem perdida naquele universo decadente. O filme não tinha a estrutura tradicional de um grande sucesso de Hollywood e dependia muito da presença dos atores para criar sua atmosfera. Roger Ebert considerou Barfly um dos melhores filmes daquele ano e destacou a liberdade com que Rourke e Dunaway assumiram personagens extremos. O desempenho comercial foi modesto, com aproximadamente US$ 3,2 milhões nas bilheterias americanas, mas sua importância artística foi muito maior. Rourke parecia estar construindo deliberadamente uma carreira distante do cinema mais convencional.

O terceiro filme de 1987 foi A Prayer for the Dying, dirigido por Mike Hodges, no qual Rourke interpretou Martin Fallon, um ex-integrante do IRA que tenta abandonar a violência e começar uma nova vida. Assim, somente naquele ano, o ator passou por três universos completamente distintos: o terror sobrenatural de Angel Heart, a comédia dramática marginal de Barfly e o thriller político de A Prayer for the Dying. É justamente essa diversidade que torna 1987 tão interessante quando observamos hoje a trajetória de Mickey Rourke. Ele ainda era jovem, tinha enorme presença física, atraía o público e possuía uma aura de rebeldia que combinava perfeitamente com o cinema americano daquela década. Ao mesmo tempo, procurava personagens difíceis e frequentemente desagradáveis, recusando-se a transformar sua carreira simplesmente numa sucessão de papéis de galã. Angel Heart arrecadou cerca de US$ 17,2 milhões nos Estados Unidos e Barfly, embora muito menor comercialmente, tornou-se um filme cultuado. Em 1987, portanto, Mickey Rourke não era apenas mais um astro de Hollywood: era um dos atores mais intrigantes de sua geração, e aqueles filmes representavam talvez o ponto máximo de sua fase mais criativa, antes das grandes transformações que sua carreira sofreria nos anos seguintes.

quarta-feira, 4 de dezembro de 2002

Fotogramas & Vídeo: Hollywood volta ao Vietnã

Fotogramas & Vídeo: Hollywood volta ao Vietnã
1987 foi um ano excepcional para o cinema sobre a Guerra do Vietnã. Apenas alguns meses depois de Platoon, de Oliver Stone, ter levado o conflito novamente ao centro das atenções, Hollywood parecia incapaz de abandonar aquele passado ainda tão recente. Gardens of Stone, Full Metal Jacket e Hamburger Hill chegaram aos cinemas durante o ano, enquanto Good Morning, Vietnam seria lançado no final de 1987. O fenômeno chamou tanto a atenção que o Washington Post publicou, em julho daquele ano, uma reportagem intitulada “Vietnam: The Movies’ Coming of Age”, observando que havia filmes sobre o Vietnã “por toda parte”. Para o público brasileiro que acompanhava cinema pelas revistas e começava a viver a explosão das videolocadoras, aquele era um momento especialmente interessante. O Vietnã deixava de ser apenas a lembrança traumática de uma guerra distante e transformava-se em um dos grandes temas cinematográficos da década. A variedade dos filmes também chamava atenção: havia dramas sobre soldados, histórias sobre treinamento militar, batalhas específicas, conflitos psicológicos e até uma comédia dramática construída em torno de um locutor de rádio.

Entre esses filmes, Nascido para Matar (Full Metal Jacket) talvez seja o exemplo mais impressionante da maneira como um grande diretor poderia transformar a guerra em uma reflexão sobre a própria natureza humana. Stanley Kubrick dividiu o filme em duas partes bastante diferentes: primeiro, o brutal treinamento dos fuzileiros navais, comandado pelo inesquecível sargento Hartman, interpretado por R. Lee Ermey; depois, a experiência dos soldados no Vietnã, especialmente durante a Batalha de Huế. A desumanização começa antes mesmo de os personagens chegarem ao campo de batalha. Kubrick mostra como o treinamento transforma jovens em instrumentos de guerra, destruindo sua individualidade para produzir soldados capazes de matar. A crítica inicialmente recebeu o filme de maneira dividida, mas sua reputação cresceu enormemente com o passar dos anos; o British Film Institute observa que justamente algumas das características que incomodaram críticos na época acabaram se tornando elementos fundamentais de sua força artística. Ao lado dele, Hamburger Hill, dirigido por John Irvin, adotava uma abordagem muito mais direta e brutal. O filme recriava a batalha de maio de 1969 pela Colina 937, mostrando durante dez dias o desgaste físico e psicológico de uma unidade de infantaria americana.

Gardens of Stone, dirigido por Francis Ford Coppola, oferecia uma perspectiva completamente diferente. Em vez de acompanhar soldados enfrentando o inimigo na selva, o filme se concentrava nos homens responsáveis pelas cerimônias militares no Cemitério Nacional de Arlington, em Washington, entre 1968 e 1969. Era um Vietnã visto à distância, através daqueles que permaneciam nos Estados Unidos enquanto outros jovens eram enviados para morrer. James Caan interpretava o sargento Clell Hazard, veterano que conhece profundamente o funcionamento da máquina militar e começa a questionar o sentido daquela guerra. Já Good Morning, Vietnam, de Barry Levinson, seria a grande surpresa popular daquele ciclo. Robin Williams interpretava Adrian Cronauer, um locutor da Armed Forces Radio Service que chega a Saigon em 1965 e conquista os soldados com seu estilo irreverente. A história era baseada livremente nas experiências reais de Cronauer, mas o filme encontrava seu próprio equilíbrio entre humor, música e tragédia. O sucesso comercial foi enorme: produzido com orçamento de aproximadamente US$ 13 milhões, terminou sua carreira mundial com cerca de US$ 123,9 milhões.

O mais curioso, olhando para 1987 com os olhos de hoje, é perceber como esses filmes pareciam formar uma espécie de mosaico sobre uma guerra que ainda estava muito próxima na memória americana. Full Metal Jacket perguntava o que acontecia com a mente de um jovem submetido à disciplina militar; Hamburger Hill mostrava o absurdo de uma batalha em que conquistar uma posição custava vidas em escala assustadora; Gardens of Stone refletia sobre os mortos e sobre aqueles que permaneciam para enterrá-los; e Good Morning, Vietnam utilizava a música e o humor para revelar, por trás da diversão, uma realidade cada vez mais sombria. Não eram simplesmente filmes de guerra feitos para mostrar tiros e explosões. Eram tentativas diferentes de compreender um conflito que continuava provocando desconforto, culpa, orgulho, trauma e controvérsia. O próprio Washington Post percebeu aquele momento como uma espécie de acerto de contas cinematográfico com o passado, observando que, doze anos depois do fim da guerra, os americanos pareciam querer reviver aquelas imagens através do cinema para tentar compreendê-las. Para quem acompanhava cinema em 1987, portanto, esses títulos representavam muito mais do que uma simples safra de filmes de guerra: eles eram parte de um momento histórico em que Hollywood finalmente parecia preparada para olhar novamente para o Vietnã.

Fotogramas & Vídeo: Platoon, o vencedor do Oscar

Fotogramas & Vídeo: Platoon, o vencedor do Oscar
Em 1987, o cinema americano ainda estava profundamente marcado pela Guerra do Vietnã, e nenhum filme representou melhor aquele momento do que Platoon, dirigido por Oliver Stone. Embora tenha chegado aos cinemas americanos em dezembro de 1986, o filme foi o grande vencedor da cerimônia do Oscar realizada em 30 de março de 1987, conquistando quatro estatuetas, incluindo Melhor Filme e Melhor Diretor. A Academia também premiou Claire Simpson pela montagem e a equipe de som formada por John K. Wilkinson, Richard Rogers, Charles Grenzbach e Simon Kaye. A história acompanha Chris Taylor, jovem universitário que abandona os estudos e se alista voluntariamente para combater no Vietnã. Interpretado por Charlie Sheen, Chris chega à guerra carregando uma visão idealizada do serviço militar, mas rapidamente descobre que a realidade é marcada pelo medo, pela violência, pelo cansaço e pela degradação moral. Ao lado dele estão os sargentos Barnes, vivido por Tom Berenger, e Elias, interpretado por Willem Dafoe, dois homens que representam maneiras completamente diferentes de enfrentar aquele conflito. O filme transformou a experiência do soldado de infantaria em seu principal ponto de vista.

O impacto de Platoon veio justamente da maneira como Oliver Stone decidiu representar a guerra. Veterano do Vietnã, o diretor escreveu o roteiro originalmente em 1975, pouco depois do término do conflito, mas durante anos não encontrou um grande estúdio disposto a produzi-lo. Quando finalmente conseguiu realizar o projeto, Stone procurou evitar a visão heroica tradicional dos filmes de guerra e colocou o espectador praticamente dentro da selva, acompanhando o medo e a confusão dos soldados. A crítica recebeu o filme de maneira extraordinariamente positiva. Roger Ebert concedeu quatro estrelas e considerou que Platoon não transformava o combate em espetáculo divertido, mas mostrava a guerra a partir do nível do soldado de infantaria. O New York Times foi igualmente entusiasmado, classificando-o como possivelmente o melhor trabalho cinematográfico sobre a Guerra do Vietnã desde Dispatches, de Michael Herr. Essa recepção ajudou a transformar o filme em um fenômeno cultural e também abriu espaço para uma nova geração de produções cinematográficas dedicadas ao Vietnã.

O elenco foi outro elemento fundamental para o sucesso do filme. Charlie Sheen encontrou em Chris Taylor um personagem que representava a perda da inocência de uma geração inteira, enquanto Tom Berenger construiu em Barnes uma das figuras militares mais assustadoras do cinema americano dos anos 1980. Willem Dafoe, por sua vez, deu a Elias uma humanidade que o transformou no contraponto moral de Barnes. Os dois receberam indicações ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante, numa das disputas mais lembradas daquela cerimônia. A fotografia de Robert Richardson também contribuiu decisivamente para a atmosfera do filme, utilizando a floresta, a escuridão e a iluminação noturna para transmitir a sensação de que os soldados estavam permanentemente cercados por uma ameaça que muitas vezes sequer conseguiam enxergar. A música, a montagem e os efeitos sonoros reforçavam essa experiência quase sensorial da guerra. O resultado foi um filme extremamente físico, no qual o espectador sente o calor, a lama, o medo e a exaustão dos personagens. Mais do que contar uma história sobre uma batalha, Stone procurou mostrar como a guerra transforma aqueles que são enviados para combatê-la.

Apesar de ter sido produzido com apenas cerca de US$ 6 milhões, Platoon tornou-se um enorme sucesso comercial, arrecadando aproximadamente US$ 138,5 milhões somente nos Estados Unidos, além de conquistar o reconhecimento da Academia. O filme também teve importância histórica porque ajudou a mudar a maneira como Hollywood abordava o Vietnã. Em seu discurso de agradecimento pelo Oscar de Melhor Diretor, Oliver Stone dedicou a vitória aos veteranos e afirmou que aquele reconhecimento representava uma compreensão maior do que havia acontecido com eles. Poucos meses depois, Hollywood continuaria explorando o tema com Full Metal Jacket, Hamburger Hill, Gardens of Stone e Good Morning, Vietnam, fazendo de 1987 um dos períodos mais significativos do cinema americano sobre o conflito. Para quem acompanhava os lançamentos cinematográficos naquele momento, Platoon era muito mais do que o filme vencedor do Oscar: era o título que havia colocado novamente o Vietnã no centro das conversas sobre cinema. Hoje, quase quatro décadas depois, continua sendo uma das obras fundamentais da cinematografia americana sobre guerra, trauma e perda da inocência.

terça-feira, 3 de dezembro de 2002

Fotogramas & Vídeo: O Ano do Dragão

Fotogramas & Vídeo
Quando eu era apenas um jovem colegial que amava cinema, nos anos 80, ia nas bancas comprar revistas de cinema. E eram muitas. Uma delas, que não chegou a durar muito, foi essa, a Fotogramas & Vídeo. Hoje não tenho mais as revistas que se perderam no tempo, mas como forma de homenagear vou aqui colocar textos novos, sobre aqueles antigos filmes. Que saudades daqueles tempos! 

Fotogramas & Vídeo: O Ano do Dragão
O filme é baseado no livro Year of the Dragon, de Robert Daley, ex-detetive da polícia de Nova York.

Mickey Rourke entrega uma das atuações mais intensas de sua carreira, interpretando um policial moralmente ambíguo.

A direção de Michael Cimino mantém um estilo grandioso e sombrio, típico de seus trabalhos pós-O Franco-Atirador.

O filme gerou polêmica na época do lançamento por sua representação da comunidade chinesa-americana.

A fotografia urbana e noturna reforça o clima violento e opressivo do submundo nova-iorquino.

Apesar da recepção crítica dividida, tornou-se um cult movie e é hoje considerado um dos thrillers policiais mais marcantes dos anos 1980.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2002

Fotogramas & Vídeo: Chuva Negra

Fotogramas & Vídeo: Chuva Negra
Dirigido por Ridley Scott, o filme se destaca pela fotografia estilizada, com forte uso de néon e chuva, antecipando o visual de muitos thrillers dos anos 1990.

Yusaku Matsuda, ícone do cinema japonês, interpreta o vilão e teve uma atuação marcante; foi seu último filme, falecendo pouco depois das filmagens.

O longa explora intensamente o choque cultural entre Ocidente e Oriente, tema pouco comum em thrillers policiais da época.

Grande parte das filmagens ocorreu em locações reais no Japão, algo raro para produções hollywoodianas daquele período.

Apesar das críticas mistas no lançamento, o filme conquistou status de cult ao longo dos anos.

A trilha sonora de Hans Zimmer contribuiu para o clima tenso e moderno do filme.

Fotogramas & Vídeo: The Doors

Fotogramas & Vídeo: The Doors
Val Kilmer foi amplamente elogiado por sua interpretação de Jim Morrison, chegando a cantar boa parte das músicas no filme, e passou longos meses estudando voz e estilo do artista.

O filme combina performances musicais com cenas ilustrativas dos excessos dos anos 60 — drogas, sexo e rock’n’roll — e muita liberdade artística na narrativa.

Meg Ryan interpreta Pamela Courson, parceira romântica de Morrison, e Kyle MacLachlan vive Ray Manzarek, tecladista dos Doors.

A produção recebeu críticas variadas: muitos elogiaram a energia e a atuação de Kilmer, outros criticaram a precisão histórica de algumas cenas.

O filme não ganhou indicações importantes ao Oscar, mas tornou-se um dos retratos cinematográficos mais lembrados da banda e de sua era.

domingo, 1 de dezembro de 2002

Fotogramas & Vídeo: La Bamba

Fotogramas & Vídeo: La Bamba
O filme é baseado na história real de Ritchie Valens, morto aos 17 anos em 1959 no mesmo acidente que vitimou Buddy Holly e The Big Bopper.

Lou Diamond Phillips recebeu grande aclamação por sua interpretação, que lançou sua carreira em Hollywood.

A trilha sonora, produzida por Marshall Crenshaw, foi um enorme sucesso e ajudou a popularizar novamente a música de Ritchie Valens.

A canção “La Bamba” tornou-se um hit mundial novamente após o lançamento do filme.

O longa é considerado um marco na representação da cultura latina no cinema norte-americano.

Dirigido por Luis Valdez, importante nome do teatro e cinema chicano, o filme combina música, drama familiar e crítica social.

Fotogramas & Vídeo: Possuídos

Fotogramas & Vídeo: Possuídos
O filme mistura thriller policial e terror sobrenatural, algo pouco comum no cinema mainstream dos anos 1990.

Apesar de não ter sido um sucesso de bilheteria na época, “Possuídos” ganhou status de cult com o passar dos anos, especialmente por seu final surpreendente e atmosfera sombria.

A música “Time Is on My Side”, dos Rolling Stones, é usada como um tema recorrente no filme, simbolizando a presença do demônio Azazel.

Foi o segundo longa dirigido por Gregory Hoblit, conhecido também por As Duas Faces de um Crime (Primal Fear, 1996).

O roteiro foi escrito por Nicholas Kazan, filho do lendário diretor Elia Kazan (Vidas Amargas, Sindicato de Ladrões).