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domingo, 23 de agosto de 2026

Fotogramas & Vídeo: Inferno na Torre

Fotogramas & Vídeo: Inferno na Torre
Inferno na Torre (The Towering Inferno) chegou aos cinemas em 1974 como uma das maiores superproduções de catástrofe da década. Dirigido por John Guillermin, o filme reuniu dois dos maiores astros de Hollywood daquele período: Paul Newman e Steve McQueen. A história se passa durante a inauguração de um gigantesco arranha-céu em San Francisco, considerado o edifício mais alto e moderno do mundo. O arquiteto Doug Roberts, interpretado por Newman, percebe que alguns sistemas elétricos foram instalados de maneira inadequada e começa a desconfiar que o prédio não é tão seguro quanto deveria. Quando um curto-circuito provoca um incêndio, uma festa de gala transforma-se rapidamente em uma luta desesperada pela sobrevivência. O filme aproveitou o fascínio dos anos 1970 pelos grandes desastres e apresentou uma combinação de suspense, ação e drama humano. A dimensão da produção também era extraordinária para a época, com enormes cenários construídos para reproduzir os diversos andares do arranha-céu. O resultado foi uma experiência cinematográfica grandiosa, pensada para impressionar o público nas grandes telas.

Um dos maiores atrativos de Inferno na Torre era justamente seu elenco, que reunia uma quantidade impressionante de estrelas. Além de Paul Newman e Steve McQueen, estavam no filme William Holden, Faye Dunaway, Fred Astaire, Jennifer Jones, Robert Vaughn, Robert Wagner, Susan Blakely e O. J. Simpson. McQueen interpretava o chefe dos bombeiros Michael O'Hallorhan, responsável por organizar o resgate dos sobreviventes, enquanto Newman vivia o arquiteto que precisava enfrentar as consequências de um projeto comprometido pela ganância. A presença dos dois astros criou uma interessante divisão de protagonismo, e a publicidade explorou bastante essa rivalidade entre as duas grandes estrelas. O filme também ficou conhecido pela curiosa decisão de dividir o nome dos protagonistas nos créditos de maneira praticamente equivalente, refletindo o cuidado dos estúdios em não estabelecer uma hierarquia entre eles. Faye Dunaway acrescentava uma presença romântica e dramática à história, enquanto Fred Astaire, em uma atuação indicada ao Oscar, demonstrava que ainda podia emocionar o público em um papel bastante diferente daqueles musicais que haviam marcado sua carreira. A combinação de estrelas transformou o filme em um verdadeiro acontecimento de Hollywood.

A crítica reconheceu principalmente a eficiência técnica da produção e sua capacidade de criar suspense a partir de uma situação extremamente simples: pessoas presas dentro de um edifício em chamas. O roteiro foi baseado nos romances The Tower, de Richard Martin Stern, e The Glass Inferno, de Thomas N. Scortia e Frank M. Robinson, que haviam sido publicados pouco antes. A produção utilizou efeitos especiais, miniaturas, cenários gigantescos e complexas sequências de incêndio para transmitir a sensação de que o arranha-céu estava realmente sendo destruído diante do espectador. A fotografia de Fred J. Koenekamp valorizava o contraste entre o luxo do edifício e o vermelho das chamas, enquanto a música de John Williams contribuía para aumentar a tensão. O filme recebeu oito indicações ao Oscar e venceu três: Melhor Fotografia, Melhor Montagem e Melhor Canção Original, por “We May Never Love Like This Again”, interpretada por Maureen McGovern. Também recebeu indicações em categorias como Melhor Ator Coadjuvante para Fred Astaire e Melhor Atriz Coadjuvante para Jennifer Jones. Mesmo quando a crítica considerava alguns elementos melodramáticos ou excessivos, era difícil negar a eficiência do espetáculo. Inferno na Torre tornou-se, assim, uma referência do cinema de catástrofe.

Com um orçamento estimado em aproximadamente US$ 14 milhões, Inferno na Torre transformou-se em um gigantesco sucesso comercial e terminou sua carreira original com uma bilheteria mundial de mais de US$ 200 milhões, tornando-se uma das maiores arrecadações da década de 1970. Mais do que um simples filme sobre um incêndio, a produção capturou uma preocupação muito presente naquele período: a confiança excessiva na tecnologia e nos grandes projetos arquitetônicos. O arranha-céu, símbolo de progresso e modernidade, transforma-se justamente no maior perigo para aqueles que estão dentro dele. Essa ideia ajudou a dar ao filme uma dimensão que ultrapassava o espetáculo. Décadas depois, Inferno na Torre continua sendo lembrado como um dos títulos fundamentais do cinema de catástrofe, ao lado de Aeroporto, Terremoto e O Destino do Poseidon. Para uma coluna como Fotogramas e Video, ele também possui um encanto especial: representa uma época em que Hollywood apostava em grandes elencos, cenários monumentais e histórias capazes de transformar uma sessão de cinema em um acontecimento. Paul Newman, Steve McQueen e aquele gigantesco edifício em chamas permanecem como uma das imagens mais marcantes do cinema popular dos anos 1970.

Fotogramas & Vídeo: Mais Forte que a Vingança

Fotogramas & Vídeo: Mais Forte que a Vingança
Mais Forte que a Vingança (Jeremiah Johnson) é um dos mais belos e particulares filmes da carreira de Robert Redford. Lançado em 1972 e dirigido por Sydney Pollack, o filme abandona o faroeste tradicional para acompanhar um homem que decide deixar para trás a civilização e procurar uma vida de isolamento nas montanhas do Oeste americano. Redford interpreta Jeremiah Johnson, um ex-soldado que, depois de sua experiência na guerra, parte em busca de uma existência simples e independente, aprendendo a caçar, pescar e sobreviver em condições extremamente difíceis. A história é inspirada em relatos e lendas sobre o famoso homem das montanhas John “Liver-Eating” Johnson, embora o filme tome consideráveis liberdades com a realidade histórica. O roteiro contou com John Milius e Edward Anhalt e foi baseado em material literário de Vardis Fisher e outras fontes sobre a figura lendária. A natureza, portanto, não funciona apenas como cenário: ela é praticamente uma personagem, impondo frio, fome, solidão e perigos constantes ao protagonista.

Sydney Pollack realizou um faroeste contemplativo, muito distante das aventuras convencionais protagonizadas por heróis invencíveis. Jeremiah começa sua jornada completamente despreparado e precisa aprender, pouco a pouco, os códigos da sobrevivência. No caminho, encontra o experiente “Bear Claw”, interpretado por Will Geer, que lhe ensina os conhecimentos necessários para enfrentar a vida selvagem. Posteriormente, Johnson constrói uma pequena família e acredita finalmente ter encontrado a paz que procurava. Essa tranquilidade, entretanto, é destruída quando acontecimentos envolvendo povos indígenas provocam uma sucessão de conflitos e colocam o personagem no caminho da vingança. O interessante é que Pollack não transforma essa vingança em uma simples aventura de ação. O filme está muito mais interessado na transformação psicológica do protagonista e na maneira como a violência interfere na vida de alguém que originalmente desejava justamente fugir dela. A solidão, a sobrevivência e a busca por liberdade acabam se tornando os verdadeiros temas de Mais Forte que a Vingança.

A crítica reconheceu desde o início a qualidade cinematográfica da produção, embora alguns críticos considerassem seu ritmo excessivamente lento. Roger Greenspun, do The New York Times, reconheceu no filme momentos de grande beleza, terror e emoção, enquanto o Los Angeles Times destacou sua extraordinária autenticidade na representação da vida selvagem. Já o Washington Post considerou a narrativa excessivamente contemplativa e menos emocionante do que poderia ser. Com o passar das décadas, porém, a reputação de Jeremiah Johnson cresceu consideravelmente. Atualmente, o filme possui avaliação crítica muito elevada no Rotten Tomatoes, que destaca a atuação de Redford e a natureza reflexiva da narrativa. A fotografia de Duke Callaghan e Andrew Callaghan valoriza os enormes espaços naturais de Utah, criando imagens de montanhas cobertas de neve, florestas, rios e vales que permanecem entre as mais bonitas do cinema americano daquele período. O filme também foi exibido no Festival de Cannes de 1972, em competição pela Palma de Ouro, demonstrando que não era encarado apenas como mais um western comercial de Hollywood.

Com um orçamento relativamente modesto, estimado em cerca de US$ 3,1 milhões, Mais Forte que a Vingança tornou-se um sucesso comercial significativo, alcançando aproximadamente US$ 44,7 milhões nas bilheterias dos Estados Unidos e Canadá, além de obter novas receitas com seus relançamentos. O filme também se tornou uma das colaborações mais importantes entre Robert Redford e Sydney Pollack, parceria que posteriormente produziria obras como Nosso Amor de Ontem e Três Dias do Condor. Redford encontrou em Jeremiah Johnson um personagem muito diferente do galã elegante que começava a se consolidar como uma das grandes estrelas americanas. Aqui, aparece barbudo, envelhecido pela vida nas montanhas, silencioso e profundamente marcado pelas experiências que atravessa. Pollack, por sua vez, utiliza o faroeste para fazer uma reflexão sobre liberdade, isolamento, violência e a relação entre o homem e a natureza. É justamente essa combinação que explica por que Mais Forte que a Vingança continua sendo lembrado como um dos grandes filmes de Robert Redford e uma das obras mais interessantes do chamado western revisionista dos anos 1970.

PS: Essa nova coluna resolvi chamar de "Fotogramas & Vídeo". Não, não se trata de material tirado da antiga revista brasileira de cinema e nem da original, espanhola. É apenas um título nostálgico, de um tempo em que existia muitas revistas de cinema nas bancas. Hoje não existe mais revistas no Brasil, nem bancas! Sempre achei isso um absurdo! E para completar a saudade dos anos 80 recriei, por inteligência artificial, a capa dessas velhas revistas, como se fosse uma nova edição chegando nas bancas. Tudo virtual. Pois é, a tecnologia não apenas destrói, mas também abre espaço para esse tipo de nostalgia de um passado que não existe mais. 

Pablo Aluísio. 

quinta-feira, 5 de dezembro de 2002

Fotogramas & Vídeo: Mickey Rourke, o Novo Brando

Fotogramas & Vídeo: Mickey Rourke, o Novo Brando
Em 1987, Mickey Rourke estava no momento mais fascinante de sua carreira. Depois de chamar a atenção em filmes como Diner, Rumble Fish, The Pope of Greenwich Village e Year of the Dragon, o ator havia se transformado em uma das figuras mais comentadas do cinema americano. O sucesso de 9½ Weeks, lançado no ano anterior, acrescentara ainda uma dimensão de astro e símbolo sexual à sua imagem, mas Rourke parecia interessado justamente em escapar dos papéis convencionais de galã. Em 1987, ele apareceu em três filmes bastante diferentes: Angel Heart, Barfly e A Prayer for the Dying. Era uma escolha de carreira curiosa para um ator que estava em plena ascensão comercial. Em vez de simplesmente aproveitar o prestígio conquistado, Rourke procurava personagens marginais, atormentados, violentos ou moralmente ambíguos. O resultado foi um dos anos mais importantes de sua trajetória artística.

O primeiro grande destaque foi Angel Heart, dirigido por Alan Parker, no qual Rourke interpretou o detetive particular Harry Angel. Contracenando com Robert De Niro, ele mergulhou em uma história que misturava filme noir, investigação policial, horror e elementos sobrenaturais. A crítica percebeu imediatamente que havia algo especial em sua atuação. O Chicago Tribune considerou sua interpretação o centro do filme e destacou a complexidade com que o ator construía Harry Angel, enquanto o Los Angeles Times chamou sua composição de uma interpretação extremamente convincente do detetive durão e decadente. Roger Ebert também dedicou atenção especial ao trabalho de Rourke, observando sua transformação ao longo da história, à medida que o personagem passa de uma aparente indiferença para um estado crescente de desespero. Angel Heart acabou se tornando um dos filmes mais lembrados de sua carreira e ajudou a consolidar aquela imagem de ator inquieto e pouco convencional que Rourke cultivava naquele momento.

Mas talvez Barfly seja o filme que melhor demonstra o quanto Rourke queria ser reconhecido como ator e não apenas como astro. Dirigido por Barbet Schroeder a partir de roteiro do escritor Charles Bukowski, o filme apresentava Rourke como Henry Chinaski, um alcoólatra e escritor marginal que passa seus dias entre bares, brigas, ressacas e relacionamentos igualmente turbulentos. Ao seu lado estava Faye Dunaway, interpretando Wanda, outra personagem perdida naquele universo decadente. O filme não tinha a estrutura tradicional de um grande sucesso de Hollywood e dependia muito da presença dos atores para criar sua atmosfera. Roger Ebert considerou Barfly um dos melhores filmes daquele ano e destacou a liberdade com que Rourke e Dunaway assumiram personagens extremos. O desempenho comercial foi modesto, com aproximadamente US$ 3,2 milhões nas bilheterias americanas, mas sua importância artística foi muito maior. Rourke parecia estar construindo deliberadamente uma carreira distante do cinema mais convencional.

O terceiro filme de 1987 foi A Prayer for the Dying, dirigido por Mike Hodges, no qual Rourke interpretou Martin Fallon, um ex-integrante do IRA que tenta abandonar a violência e começar uma nova vida. Assim, somente naquele ano, o ator passou por três universos completamente distintos: o terror sobrenatural de Angel Heart, a comédia dramática marginal de Barfly e o thriller político de A Prayer for the Dying. É justamente essa diversidade que torna 1987 tão interessante quando observamos hoje a trajetória de Mickey Rourke. Ele ainda era jovem, tinha enorme presença física, atraía o público e possuía uma aura de rebeldia que combinava perfeitamente com o cinema americano daquela década. Ao mesmo tempo, procurava personagens difíceis e frequentemente desagradáveis, recusando-se a transformar sua carreira simplesmente numa sucessão de papéis de galã. Angel Heart arrecadou cerca de US$ 17,2 milhões nos Estados Unidos e Barfly, embora muito menor comercialmente, tornou-se um filme cultuado. Em 1987, portanto, Mickey Rourke não era apenas mais um astro de Hollywood: era um dos atores mais intrigantes de sua geração, e aqueles filmes representavam talvez o ponto máximo de sua fase mais criativa, antes das grandes transformações que sua carreira sofreria nos anos seguintes.

quarta-feira, 4 de dezembro de 2002

Fotogramas & Vídeo: Hollywood volta ao Vietnã

Fotogramas & Vídeo: Hollywood volta ao Vietnã
1987 foi um ano excepcional para o cinema sobre a Guerra do Vietnã. Apenas alguns meses depois de Platoon, de Oliver Stone, ter levado o conflito novamente ao centro das atenções, Hollywood parecia incapaz de abandonar aquele passado ainda tão recente. Gardens of Stone, Full Metal Jacket e Hamburger Hill chegaram aos cinemas durante o ano, enquanto Good Morning, Vietnam seria lançado no final de 1987. O fenômeno chamou tanto a atenção que o Washington Post publicou, em julho daquele ano, uma reportagem intitulada “Vietnam: The Movies’ Coming of Age”, observando que havia filmes sobre o Vietnã “por toda parte”. Para o público brasileiro que acompanhava cinema pelas revistas e começava a viver a explosão das videolocadoras, aquele era um momento especialmente interessante. O Vietnã deixava de ser apenas a lembrança traumática de uma guerra distante e transformava-se em um dos grandes temas cinematográficos da década. A variedade dos filmes também chamava atenção: havia dramas sobre soldados, histórias sobre treinamento militar, batalhas específicas, conflitos psicológicos e até uma comédia dramática construída em torno de um locutor de rádio.

Entre esses filmes, Nascido para Matar (Full Metal Jacket) talvez seja o exemplo mais impressionante da maneira como um grande diretor poderia transformar a guerra em uma reflexão sobre a própria natureza humana. Stanley Kubrick dividiu o filme em duas partes bastante diferentes: primeiro, o brutal treinamento dos fuzileiros navais, comandado pelo inesquecível sargento Hartman, interpretado por R. Lee Ermey; depois, a experiência dos soldados no Vietnã, especialmente durante a Batalha de Huế. A desumanização começa antes mesmo de os personagens chegarem ao campo de batalha. Kubrick mostra como o treinamento transforma jovens em instrumentos de guerra, destruindo sua individualidade para produzir soldados capazes de matar. A crítica inicialmente recebeu o filme de maneira dividida, mas sua reputação cresceu enormemente com o passar dos anos; o British Film Institute observa que justamente algumas das características que incomodaram críticos na época acabaram se tornando elementos fundamentais de sua força artística. Ao lado dele, Hamburger Hill, dirigido por John Irvin, adotava uma abordagem muito mais direta e brutal. O filme recriava a batalha de maio de 1969 pela Colina 937, mostrando durante dez dias o desgaste físico e psicológico de uma unidade de infantaria americana.

Gardens of Stone, dirigido por Francis Ford Coppola, oferecia uma perspectiva completamente diferente. Em vez de acompanhar soldados enfrentando o inimigo na selva, o filme se concentrava nos homens responsáveis pelas cerimônias militares no Cemitério Nacional de Arlington, em Washington, entre 1968 e 1969. Era um Vietnã visto à distância, através daqueles que permaneciam nos Estados Unidos enquanto outros jovens eram enviados para morrer. James Caan interpretava o sargento Clell Hazard, veterano que conhece profundamente o funcionamento da máquina militar e começa a questionar o sentido daquela guerra. Já Good Morning, Vietnam, de Barry Levinson, seria a grande surpresa popular daquele ciclo. Robin Williams interpretava Adrian Cronauer, um locutor da Armed Forces Radio Service que chega a Saigon em 1965 e conquista os soldados com seu estilo irreverente. A história era baseada livremente nas experiências reais de Cronauer, mas o filme encontrava seu próprio equilíbrio entre humor, música e tragédia. O sucesso comercial foi enorme: produzido com orçamento de aproximadamente US$ 13 milhões, terminou sua carreira mundial com cerca de US$ 123,9 milhões.

O mais curioso, olhando para 1987 com os olhos de hoje, é perceber como esses filmes pareciam formar uma espécie de mosaico sobre uma guerra que ainda estava muito próxima na memória americana. Full Metal Jacket perguntava o que acontecia com a mente de um jovem submetido à disciplina militar; Hamburger Hill mostrava o absurdo de uma batalha em que conquistar uma posição custava vidas em escala assustadora; Gardens of Stone refletia sobre os mortos e sobre aqueles que permaneciam para enterrá-los; e Good Morning, Vietnam utilizava a música e o humor para revelar, por trás da diversão, uma realidade cada vez mais sombria. Não eram simplesmente filmes de guerra feitos para mostrar tiros e explosões. Eram tentativas diferentes de compreender um conflito que continuava provocando desconforto, culpa, orgulho, trauma e controvérsia. O próprio Washington Post percebeu aquele momento como uma espécie de acerto de contas cinematográfico com o passado, observando que, doze anos depois do fim da guerra, os americanos pareciam querer reviver aquelas imagens através do cinema para tentar compreendê-las. Para quem acompanhava cinema em 1987, portanto, esses títulos representavam muito mais do que uma simples safra de filmes de guerra: eles eram parte de um momento histórico em que Hollywood finalmente parecia preparada para olhar novamente para o Vietnã.

Fotogramas & Vídeo: Platoon, o vencedor do Oscar

Fotogramas & Vídeo: Platoon, o vencedor do Oscar
Em 1987, o cinema americano ainda estava profundamente marcado pela Guerra do Vietnã, e nenhum filme representou melhor aquele momento do que Platoon, dirigido por Oliver Stone. Embora tenha chegado aos cinemas americanos em dezembro de 1986, o filme foi o grande vencedor da cerimônia do Oscar realizada em 30 de março de 1987, conquistando quatro estatuetas, incluindo Melhor Filme e Melhor Diretor. A Academia também premiou Claire Simpson pela montagem e a equipe de som formada por John K. Wilkinson, Richard Rogers, Charles Grenzbach e Simon Kaye. A história acompanha Chris Taylor, jovem universitário que abandona os estudos e se alista voluntariamente para combater no Vietnã. Interpretado por Charlie Sheen, Chris chega à guerra carregando uma visão idealizada do serviço militar, mas rapidamente descobre que a realidade é marcada pelo medo, pela violência, pelo cansaço e pela degradação moral. Ao lado dele estão os sargentos Barnes, vivido por Tom Berenger, e Elias, interpretado por Willem Dafoe, dois homens que representam maneiras completamente diferentes de enfrentar aquele conflito. O filme transformou a experiência do soldado de infantaria em seu principal ponto de vista.

O impacto de Platoon veio justamente da maneira como Oliver Stone decidiu representar a guerra. Veterano do Vietnã, o diretor escreveu o roteiro originalmente em 1975, pouco depois do término do conflito, mas durante anos não encontrou um grande estúdio disposto a produzi-lo. Quando finalmente conseguiu realizar o projeto, Stone procurou evitar a visão heroica tradicional dos filmes de guerra e colocou o espectador praticamente dentro da selva, acompanhando o medo e a confusão dos soldados. A crítica recebeu o filme de maneira extraordinariamente positiva. Roger Ebert concedeu quatro estrelas e considerou que Platoon não transformava o combate em espetáculo divertido, mas mostrava a guerra a partir do nível do soldado de infantaria. O New York Times foi igualmente entusiasmado, classificando-o como possivelmente o melhor trabalho cinematográfico sobre a Guerra do Vietnã desde Dispatches, de Michael Herr. Essa recepção ajudou a transformar o filme em um fenômeno cultural e também abriu espaço para uma nova geração de produções cinematográficas dedicadas ao Vietnã.

O elenco foi outro elemento fundamental para o sucesso do filme. Charlie Sheen encontrou em Chris Taylor um personagem que representava a perda da inocência de uma geração inteira, enquanto Tom Berenger construiu em Barnes uma das figuras militares mais assustadoras do cinema americano dos anos 1980. Willem Dafoe, por sua vez, deu a Elias uma humanidade que o transformou no contraponto moral de Barnes. Os dois receberam indicações ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante, numa das disputas mais lembradas daquela cerimônia. A fotografia de Robert Richardson também contribuiu decisivamente para a atmosfera do filme, utilizando a floresta, a escuridão e a iluminação noturna para transmitir a sensação de que os soldados estavam permanentemente cercados por uma ameaça que muitas vezes sequer conseguiam enxergar. A música, a montagem e os efeitos sonoros reforçavam essa experiência quase sensorial da guerra. O resultado foi um filme extremamente físico, no qual o espectador sente o calor, a lama, o medo e a exaustão dos personagens. Mais do que contar uma história sobre uma batalha, Stone procurou mostrar como a guerra transforma aqueles que são enviados para combatê-la.

Apesar de ter sido produzido com apenas cerca de US$ 6 milhões, Platoon tornou-se um enorme sucesso comercial, arrecadando aproximadamente US$ 138,5 milhões somente nos Estados Unidos, além de conquistar o reconhecimento da Academia. O filme também teve importância histórica porque ajudou a mudar a maneira como Hollywood abordava o Vietnã. Em seu discurso de agradecimento pelo Oscar de Melhor Diretor, Oliver Stone dedicou a vitória aos veteranos e afirmou que aquele reconhecimento representava uma compreensão maior do que havia acontecido com eles. Poucos meses depois, Hollywood continuaria explorando o tema com Full Metal Jacket, Hamburger Hill, Gardens of Stone e Good Morning, Vietnam, fazendo de 1987 um dos períodos mais significativos do cinema americano sobre o conflito. Para quem acompanhava os lançamentos cinematográficos naquele momento, Platoon era muito mais do que o filme vencedor do Oscar: era o título que havia colocado novamente o Vietnã no centro das conversas sobre cinema. Hoje, quase quatro décadas depois, continua sendo uma das obras fundamentais da cinematografia americana sobre guerra, trauma e perda da inocência.