Em 1987, Mickey Rourke estava no momento mais fascinante de sua carreira. Depois de chamar a atenção em filmes como Diner, Rumble Fish, The Pope of Greenwich Village e Year of the Dragon, o ator havia se transformado em uma das figuras mais comentadas do cinema americano. O sucesso de 9½ Weeks, lançado no ano anterior, acrescentara ainda uma dimensão de astro e símbolo sexual à sua imagem, mas Rourke parecia interessado justamente em escapar dos papéis convencionais de galã. Em 1987, ele apareceu em três filmes bastante diferentes: Angel Heart, Barfly e A Prayer for the Dying. Era uma escolha de carreira curiosa para um ator que estava em plena ascensão comercial. Em vez de simplesmente aproveitar o prestígio conquistado, Rourke procurava personagens marginais, atormentados, violentos ou moralmente ambíguos. O resultado foi um dos anos mais importantes de sua trajetória artística.
O primeiro grande destaque foi Angel Heart, dirigido por Alan Parker, no qual Rourke interpretou o detetive particular Harry Angel. Contracenando com Robert De Niro, ele mergulhou em uma história que misturava filme noir, investigação policial, horror e elementos sobrenaturais. A crítica percebeu imediatamente que havia algo especial em sua atuação. O Chicago Tribune considerou sua interpretação o centro do filme e destacou a complexidade com que o ator construía Harry Angel, enquanto o Los Angeles Times chamou sua composição de uma interpretação extremamente convincente do detetive durão e decadente. Roger Ebert também dedicou atenção especial ao trabalho de Rourke, observando sua transformação ao longo da história, à medida que o personagem passa de uma aparente indiferença para um estado crescente de desespero. Angel Heart acabou se tornando um dos filmes mais lembrados de sua carreira e ajudou a consolidar aquela imagem de ator inquieto e pouco convencional que Rourke cultivava naquele momento.
Mas talvez Barfly seja o filme que melhor demonstra o quanto Rourke queria ser reconhecido como ator e não apenas como astro. Dirigido por Barbet Schroeder a partir de roteiro do escritor Charles Bukowski, o filme apresentava Rourke como Henry Chinaski, um alcoólatra e escritor marginal que passa seus dias entre bares, brigas, ressacas e relacionamentos igualmente turbulentos. Ao seu lado estava Faye Dunaway, interpretando Wanda, outra personagem perdida naquele universo decadente. O filme não tinha a estrutura tradicional de um grande sucesso de Hollywood e dependia muito da presença dos atores para criar sua atmosfera. Roger Ebert considerou Barfly um dos melhores filmes daquele ano e destacou a liberdade com que Rourke e Dunaway assumiram personagens extremos. O desempenho comercial foi modesto, com aproximadamente US$ 3,2 milhões nas bilheterias americanas, mas sua importância artística foi muito maior. Rourke parecia estar construindo deliberadamente uma carreira distante do cinema mais convencional.
O terceiro filme de 1987 foi A Prayer for the Dying, dirigido por Mike Hodges, no qual Rourke interpretou Martin Fallon, um ex-integrante do IRA que tenta abandonar a violência e começar uma nova vida. Assim, somente naquele ano, o ator passou por três universos completamente distintos: o terror sobrenatural de Angel Heart, a comédia dramática marginal de Barfly e o thriller político de A Prayer for the Dying. É justamente essa diversidade que torna 1987 tão interessante quando observamos hoje a trajetória de Mickey Rourke. Ele ainda era jovem, tinha enorme presença física, atraía o público e possuía uma aura de rebeldia que combinava perfeitamente com o cinema americano daquela década. Ao mesmo tempo, procurava personagens difíceis e frequentemente desagradáveis, recusando-se a transformar sua carreira simplesmente numa sucessão de papéis de galã. Angel Heart arrecadou cerca de US$ 17,2 milhões nos Estados Unidos e Barfly, embora muito menor comercialmente, tornou-se um filme cultuado. Em 1987, portanto, Mickey Rourke não era apenas mais um astro de Hollywood: era um dos atores mais intrigantes de sua geração, e aqueles filmes representavam talvez o ponto máximo de sua fase mais criativa, antes das grandes transformações que sua carreira sofreria nos anos seguintes.

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