Título Original: Brazil
Ano de Lançamento: 1985
País: Reino Unido / Estados Unidos
Direção: Terry Gilliam
Roteiro: Terry Gilliam, Tom Stoppard e Charles McKeown
Elenco: Jonathan Pryce, Robert De Niro, Kim Greist, Katherine Helmond, Ian Holm, Bob Hoskins, Michael Palin, Peter Vaughan e Jim Broadbent.
Duração: 132 minutos na versão americana de Gilliam; existem versões mais longas.
Gênero: Ficção científica, sátira, comédia negra e distopia.
Sinopse:
Brazil apresenta um futuro distópico dominado por uma gigantesca burocracia estatal, no qual praticamente todos os aspectos da vida cotidiana são controlados por formulários, departamentos, computadores antiquados e funcionários que seguem regras absurdas. Nesse mundo vive Sam Lowry, interpretado por Jonathan Pryce, um funcionário público de baixo escalão que passa seus dias trabalhando em um ambiente opressivo e impessoal. Sam sonha frequentemente com uma mulher misteriosa que aparece em suas fantasias como uma espécie de figura angelical. Sua existência aparentemente insignificante muda quando um erro burocrático faz com que o governo confunda um homem inocente com um terrorista. Ao tentar corrigir o problema, Sam descobre que a mulher de seus sonhos, Jill Layton, existe na realidade. A partir desse momento, ele se envolve em uma conspiração cada vez mais perigosa e passa a ser perseguido pelo próprio sistema que deveria servir. Ao mesmo tempo, surge Archibald "Harry" Tuttle, interpretado por Robert De Niro, um técnico rebelde que trabalha clandestinamente contra a burocracia. Misturando pesadelo e realidade, Terry Gilliam constrói uma sociedade grotesca na qual tecnologia e burocracia não produzem eficiência, mas confusão, vigilância e opressão. O filme utiliza humor absurdo, cenários gigantescos e imagens surrealistas para discutir autoritarismo, conformismo, alienação e a destruição da individualidade.
Comentários:
Desde seu lançamento, Brazil provocou uma reação extraordinariamente forte da crítica americana, principalmente por sua originalidade visual e por sua sátira política. A Los Angeles Film Critics Association escolheu a produção como Melhor Filme de 1985, além de premiar Terry Gilliam como melhor diretor e o roteiro como melhor do ano. A The New York Times, através de Janet Maslin, foi igualmente entusiasmada e classificou o filme como uma realização notável, destacando a combinação entre o impulso satírico de Gilliam e seu extraordinário estilo visual. A crítica da publicação chamou atenção para a arquitetura opressiva, os cenários gigantescos e os pequenos detalhes absurdos espalhados por praticamente cada cena. A Los Angeles Times, em uma crítica de Sheila Benson, foi ainda mais enfática ao descrever Brazil como uma visão "brilhante, exaustiva e ferozmente engraçada" de um futuro pós-orwelliano. Benson observou que Gilliam transformava em alvo praticamente tudo que considerava ameaçador na sociedade moderna: tecnologia, burocratas, publicidade, terrorismo, cirurgias plásticas e uma obsessão doentia por regras e procedimentos. Antes mesmo de sua estreia comercial nos Estados Unidos, o filme já despertava enorme entusiasmo entre críticos americanos. O Los Angeles Times registrou comentários extremamente favoráveis de jornalistas como Judith Crist, que o considerou "fascinante" e "perspicaz", enquanto Bruce Williamson, da Playboy, classificou-o como "brilhante e original". O próprio conflito entre Gilliam e a Universal acabou ampliando a reputação do filme, pois críticos passaram a defender publicamente a versão do diretor contra as tentativas do estúdio de torná-la mais convencional.
A batalha pela montagem americana tornou-se parte inseparável da história de Brazil. Sidney Sheinberg, então chefe da Universal, considerava o filme longo, confuso e comercialmente difícil, e pretendia alterar sua estrutura e seu final. Gilliam recusou-se a aceitar as mudanças, iniciando uma das mais famosas disputas entre diretor e estúdio da história de Hollywood. A situação chegou ao ponto de a Los Angeles Film Critics Association premiar Brazil como melhor filme antes mesmo de seu lançamento comercial americano, fortalecendo a posição de Gilliam na disputa. O filme acabou recebendo duas indicações ao Oscar, por Melhor Roteiro Original e Melhor Direção de Arte, embora não tenha vencido. Também ganhou dois BAFTAs, incluindo Melhor Design de Produção e Melhores Efeitos Visuais. Comercialmente, entretanto, não foi um grande sucesso nos Estados Unidos, arrecadando cerca de US$ 9,9 milhões diante de um orçamento aproximado de US$ 15 milhões. Com o passar das décadas, sua reputação cresceu enormemente. Uma crítica da Los Angeles Times publicada em 1992, por ocasião da exibição da versão mais longa de Gilliam, afirmou que o filme permanecia "um nocaute" e considerou que sua visão havia se tornado ainda mais poderosa. Quarenta anos depois, o próprio Los Angeles Times voltou a analisar a obra e a chamou de "obra-prima visionária", ressaltando como sua representação de uma sociedade burocrática e autoritária continua assustadoramente atual. Hoje, Brazil é considerado um dos grandes clássicos da ficção científica e da sátira política, uma obra cuja influência ultrapassou o cinema para alcançar a cultura visual, a arquitetura, a publicidade e a própria maneira como a burocracia e os sistemas autoritários são representados na cultura popular.
Christian de Bella.
