Mais Forte que a Vingança (Jeremiah Johnson) é um dos mais belos e particulares filmes da carreira de Robert Redford. Lançado em 1972 e dirigido por Sydney Pollack, o filme abandona o faroeste tradicional para acompanhar um homem que decide deixar para trás a civilização e procurar uma vida de isolamento nas montanhas do Oeste americano. Redford interpreta Jeremiah Johnson, um ex-soldado que, depois de sua experiência na guerra, parte em busca de uma existência simples e independente, aprendendo a caçar, pescar e sobreviver em condições extremamente difíceis. A história é inspirada em relatos e lendas sobre o famoso homem das montanhas John “Liver-Eating” Johnson, embora o filme tome consideráveis liberdades com a realidade histórica. O roteiro contou com John Milius e Edward Anhalt e foi baseado em material literário de Vardis Fisher e outras fontes sobre a figura lendária. A natureza, portanto, não funciona apenas como cenário: ela é praticamente uma personagem, impondo frio, fome, solidão e perigos constantes ao protagonista.
Sydney Pollack realizou um faroeste contemplativo, muito distante das aventuras convencionais protagonizadas por heróis invencíveis. Jeremiah começa sua jornada completamente despreparado e precisa aprender, pouco a pouco, os códigos da sobrevivência. No caminho, encontra o experiente “Bear Claw”, interpretado por Will Geer, que lhe ensina os conhecimentos necessários para enfrentar a vida selvagem. Posteriormente, Johnson constrói uma pequena família e acredita finalmente ter encontrado a paz que procurava. Essa tranquilidade, entretanto, é destruída quando acontecimentos envolvendo povos indígenas provocam uma sucessão de conflitos e colocam o personagem no caminho da vingança. O interessante é que Pollack não transforma essa vingança em uma simples aventura de ação. O filme está muito mais interessado na transformação psicológica do protagonista e na maneira como a violência interfere na vida de alguém que originalmente desejava justamente fugir dela. A solidão, a sobrevivência e a busca por liberdade acabam se tornando os verdadeiros temas de Mais Forte que a Vingança.
A crítica reconheceu desde o início a qualidade cinematográfica da produção, embora alguns críticos considerassem seu ritmo excessivamente lento. Roger Greenspun, do The New York Times, reconheceu no filme momentos de grande beleza, terror e emoção, enquanto o Los Angeles Times destacou sua extraordinária autenticidade na representação da vida selvagem. Já o Washington Post considerou a narrativa excessivamente contemplativa e menos emocionante do que poderia ser. Com o passar das décadas, porém, a reputação de Jeremiah Johnson cresceu consideravelmente. Atualmente, o filme possui avaliação crítica muito elevada no Rotten Tomatoes, que destaca a atuação de Redford e a natureza reflexiva da narrativa. A fotografia de Duke Callaghan e Andrew Callaghan valoriza os enormes espaços naturais de Utah, criando imagens de montanhas cobertas de neve, florestas, rios e vales que permanecem entre as mais bonitas do cinema americano daquele período. O filme também foi exibido no Festival de Cannes de 1972, em competição pela Palma de Ouro, demonstrando que não era encarado apenas como mais um western comercial de Hollywood.
Com um orçamento relativamente modesto, estimado em cerca de US$ 3,1 milhões, Mais Forte que a Vingança tornou-se um sucesso comercial significativo, alcançando aproximadamente US$ 44,7 milhões nas bilheterias dos Estados Unidos e Canadá, além de obter novas receitas com seus relançamentos. O filme também se tornou uma das colaborações mais importantes entre Robert Redford e Sydney Pollack, parceria que posteriormente produziria obras como Nosso Amor de Ontem e Três Dias do Condor. Redford encontrou em Jeremiah Johnson um personagem muito diferente do galã elegante que começava a se consolidar como uma das grandes estrelas americanas. Aqui, aparece barbudo, envelhecido pela vida nas montanhas, silencioso e profundamente marcado pelas experiências que atravessa. Pollack, por sua vez, utiliza o faroeste para fazer uma reflexão sobre liberdade, isolamento, violência e a relação entre o homem e a natureza. É justamente essa combinação que explica por que Mais Forte que a Vingança continua sendo lembrado como um dos grandes filmes de Robert Redford e uma das obras mais interessantes do chamado western revisionista dos anos 1970.
PS: Essa nova coluna resolvi chamar de "Fotogramas & Vídeo". Não, não se trata de material tirado da antiga revista brasileira de cinema e nem da original, espanhola. É apenas um título nostálgico, de um tempo em que existia muitas revistas de cinema nas bancas. Hoje não existe mais revistas no Brasil, nem bancas! Sempre achei isso um absurdo! E para completar a saudade dos anos 80 recriei, por inteligência artificial, a capa dessas velhas revistas, como se fosse uma nova edição chegando nas bancas. Tudo virtual. Pois é, a tecnologia não apenas destrói, mas também abre espaço para esse tipo de nostalgia de um passado que não existe mais.
Pablo Aluísio.

ResponderExcluirFotogramas & Vídeo
Pablo Aluísio.