sexta-feira, 2 de março de 2001

James Dean: Um Novo Recomeço em Nova York

Nova York, 1952
Em 1952 James Dean deixou Los Angeles e foi embora, mudar para Nova York, onde pretendia se tornar um ator profissional de teatro. Ele havia tomado a decisão certa, conforme o tempo iria demonstrar. Conforme lembraria depois Dean chegou em Nova Iorque com 5 dólares no bolso. Era um tempo frio, com muita chuva, mas nem isso desanimou o jovem ator. Ele adorou o clima da cidade, os bairros de artistas como o Greenwich Village, onde havia oportunidades para todos, pintores, escultores, poetas e... atores! A cidade respirava arte em todos os lugares. Escrevendo para um amigo Dean relatou: "Os primeiros dias em Nova Iorque foram impactantes! Essa grande cidade quase me esmagou! Agora estou mais confortável nela. Adoro caminhar pela Broadway, ver as peças que estão em cartaz! Nova Iorque, essa sim é uma cidade acolhedora!".

O ator gostou tanto da nova cidade que mesmo anos depois quando já era um astro em Hollywood, sempre ia para NY para passar os fins de semana. De fato ele considerava a "Big Apple" como seu verdadeiro lar. Nada de Hollywood com sua sociedade fútil e petulante. Os verdadeiros artistas estavam andando pelas ruas de Nova Iorque, isso Dean afirmou mais de uma vez. O ator tinha razão em amar o novo lar. Em Nova Iorque as coisas finalmente começaram a dar certo. Ele foi aprovado para participar de peças e o mais importante de tudo: foi aceito na prestigiada escola de atores do Actors Studio. Sua vida estava para mudar para sempre!

Rogers Brackett
Depois que abandonou a universidade, James Dean ficou sem grana, sem apoio do pai e sem emprego. Dean chegou a ponto de ficar sem ter nem o que comer, geralmente contando com a boa vontade de conhecidos que lhe pagavam algum lanche casual. Diante de uma situação financeira tão ruim Dean acabou encontrando a solução para seus problemas em Rogers Brackett. Ele era um homossexual rico e bem relacionado em Nova York. Um sujeito que poderia lhe ajudar no começo de sua carreira, que ainda não tinha decolado. 

O interesse de Rogers em relação a Dean era claramente sexual. Ele se sentiu atraído pelo jovem ator e o tornou seu namorado, seu protegido. Embora se apaixonasse mesmo por mulheres, James Dean estava aberto a todas as possibilidades. Além disso se houvesse uma ajuda financeira seria muito bem-vinda. Era claro para Rogers que James Dean tinha interesse nele e isso passava por uma ajuda em dinheiro em relação à sua situação. Era um relacionamento de interesses mútuos e eles sabiam disso. Com tudo certo entre eles James Dean arrumou suas malas e foi morar com Brackett em sua casa sofisticada. 

Anos depois quando finalmente resolveu falar sobre seu romance com James Dean, Rogers explicou que aquela não havia sido a primeira experiência homossexual na vida do ator. Ele teria tido ao namorado que havia se relacionado com outros homens gays em seu passado.  

Outro fato que Rogers Brackett lamentaria seria o fato de ter rasgado as cartas de amor que James Dean havia lhe escrito anos antes. Ele disse na entrevista: "Se eu soubesse que Dean iria virar um ator tão popular do cinema, um astro de Hollywood, eu teria guardado todas as cartas românticas que ele me escreveu. As terias colocado em leilão e teria ficado muito rico com elas! Pena que depois que terminamos eu as rasguei, com raiva e mágoa dele! Uma coisa estúpida que fiz!". A mágoa de Brackett em relação a Dean teria sido causada pelo distanciamento de Dean para com ele, principalmente depois que ficou famoso. Assim que as coisas começaram a dar certo James Dean dispensou o namorado que havia lhe ajudado sem muita cerimônia.

De uma maneira ou outra o relacionamento entre dois ficou preservado pelas diversas fotos que Rogers tirou de seu namorado! Rogers Brackett já era um fotógrafo reconhecido e passou a fotografar Dean nesse período. As imagens feitas por ele — especialmente entre 1953 e 1955 — se tornaram algumas das fotografias mais íntimas e conhecidas de James Dean, mostrando-o fora do sistema de estúdios de Hollywood.

A Liberdade
Em Nova Iorque James Dean finalmente encontrou a liberdade que tanto procurava. Na cidadezinha onde nasceu e cresceu todos cuidavam da vida dos outros. Não se podia dar um pequeno passo sem que isso se tornasse a fofoca da cidade. Já em Nova Iorque, uma metrópole, ninguém queria saber da vida de ninguém. Dean podia seguir seus próprios passos sem se importar com o que os outros iriam dizer. Liberdade, acima de tudo. Era o que ele tanto procurava.

Além disso a cidade fervilhava artisticamente. Não era apenas a arte dramática. Havia poetas, artistas plásticos, escritores, todos os tipos de artistas que se podia imaginar. James Dean assim passou a cultivar amizades com toda essa gente. Seu passatempo preferido passou a frequentar um café perto do Actors Studio, onde ele passou a conhecer a classe artística de NYC. E apesar de ser bem jovem, Dean decidiu que não queria apenas atuar, ele queria tudo o que pudesse alcançar.

Não demorou muito e James Dean se matriculou nos mais diversos cursos de arte. Chegou até mesmo a estudar ballet! Isso seria impensável em Indiana, naquela sociedade rural e atrasada, onde isso era coisa de afeminados. Em Nova Iorque obviamente ninguém pensava assim. Ser bailarino era apenas mais uma chance de aprender uma nova expressão artística. Na dança James Dean acabou encontrando uma forma de aliviar o stress, a tensão do dia a dia. Foi uma experiência que ele gostou bastante.

Além disso se expressar com o corpo era algo essencial para um bom ator. No próprio Actors Studio os jovens atores eram incentivados a aprenderam canto, dança moderna, tudo que pudesse a desenvolver melhor a expressão corporal. Uma forma de ir fundo na arte dramática. Além disso todos os estudantes eram também incentivados a procurar por bons livros, grandes clássicos da literatura antiga e moderna. Ter cultura era essencial para se tornar um bom ator. Afinal ter base cultural era o primeiro passo para ser um grande artista em qualquer área que se abraçasse..

James Dean no Actors Studio
James Dean ingressou no Actors Studio, em Nova York, no início da década de 1950, quando ainda era um ator desconhecido em busca de formação sólida e identidade artística. O Actors Studio, dirigido por Lee Strasberg, era o centro mais importante do Método de Interpretação nos Estados Unidos, atraindo jovens atores interessados em atuações psicológicas profundas e realistas. Para Dean, aquele ambiente representava uma alternativa ao estilo artificial de Hollywood.

Antes de entrar no Actors Studio, James Dean já havia estudado teatro na UCLA, em Los Angeles, mas sentia-se limitado pelo ensino tradicional. Ao se mudar para Nova York em 1952, ele mergulhou no circuito teatral e televisivo e passou por audições rigorosas até ser aceito no Studio, um feito significativo, já que a instituição era altamente seletiva.

No Actors Studio, Dean estudou diretamente sob a influência de Lee Strasberg, além de conviver com professores ligados às ideias de Konstantin Stanislavski. O foco estava na memória emocional, na vivência interna do personagem e na verdade psicológica da atuação. Dean se destacou rapidamente por sua intensidade, sensibilidade e disposição para se expor emocionalmente em cena.

Durante esse período, James Dean participou de exercícios públicos e workshops, onde atores apresentavam cenas diante de colegas e professores. Seu estilo chamou atenção por ser visceral, imprevisível e profundamente humano. Muitos relatos da época indicam que suas apresentações provocavam reações fortes, tanto admiração quanto estranhamento, por romperem com padrões estabelecidos.

Paralelamente aos estudos no Actors Studio, Dean começou a trabalhar em teatro profissional e televisão, atuando em produções ao vivo que exigiam grande preparo técnico e emocional. Essas experiências ajudaram a consolidar sua reputação em Nova York como um ator promissor e disciplinado, ainda que difícil e introspectivo.

Foi nesse ambiente nova-iorquino que James Dean passou a ser fotografado por Rogers Brackett, registrando um jovem artista em formação, longe da imagem glamourosa que teria mais tarde. Essas fotografias refletem o período do Actors Studio: um Dean concentrado, experimental e em constante busca por autenticidade.

A passagem pelo Actors Studio foi decisiva para que diretores importantes notassem James Dean. Elia Kazan, também ligado ao método de interpretação, viu nele o ator ideal para o papel de Cal Trask em Vidas Amargas (East of Eden). A escolha de Dean para o filme está diretamente ligada à sua formação e postura artística desenvolvidas no Studio.

Em retrospecto, o Actors Studio foi o espaço onde James Dean construiu a base de tudo o que o tornaria um ícone. Sua atuação naturalista, carregada de conflitos internos e emoção contida, nasceu ali. Embora sua carreira no cinema tenha sido curta, o período no Actors Studio garantiu a ele um lugar definitivo na história da interpretação moderna.

James Dean no Teatro de Nova York
James Dean chegou a Nova York em 1952, decidido a se afirmar como ator sério, longe do sistema de estúdios de Hollywood. A cidade vivia um período intenso de renovação teatral, com a Broadway e o circuito off-Broadway atraindo jovens talentos interessados em interpretações mais realistas e psicológicas. Para Dean, o teatro nova-iorquino era o lugar ideal para experimentar, errar e crescer artisticamente.

Logo após se estabelecer na cidade, James Dean passou a estudar no Actors Studio, onde entrou em contato direto com o Método de Interpretação. Embora o Studio não fosse um teatro comercial, ele funcionava como um laboratório cênico fundamental. Ali, Dean participou de exercícios públicos e apresentações internas que moldaram sua forma de atuar e o prepararam para o palco profissional.

No teatro propriamente dito, Dean atuou em peças da Broadway, ainda em papéis pequenos, mas significativos. Seu trabalho mais conhecido foi em “See the Jaguar” (1952), de N. Richard Nash. Embora a peça tenha tido curta duração, a atuação de Dean chamou atenção por sua intensidade emocional e presença cênica, destacando-se mesmo em uma produção de vida breve.

Além da Broadway, James Dean esteve ligado ao teatro experimental e ao circuito alternativo, onde atores tinham mais liberdade criativa. Esses espaços eram menos voltados ao sucesso comercial e mais à pesquisa artística, algo que combinava com seu temperamento inquieto e introspectivo. Dean se sentia mais à vontade em ambientes que valorizavam a verdade emocional em vez da técnica convencional.

Paralelamente ao teatro, ele atuou em dramas ao vivo na televisão, muito comuns em Nova York nos anos 1950. Essas produções exigiam preparo teatral rigoroso, já que eram encenadas em tempo real. A experiência televisiva complementou sua formação teatral, ajudando-o a desenvolver concentração, disciplina e rapidez emocional.

O período de James Dean no teatro de Nova York foi essencial para sua descoberta como ator. Embora não tenha se tornado uma estrela dos palcos, foi ali que ele construiu a base artística que impressionaria diretores como Elia Kazan. O teatro nova-iorquino não lhe deu fama, mas deu algo mais duradouro: uma identidade artística sólida, que se refletiria de forma definitiva em sua curta e histórica carreira no cinema.

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