terça-feira, 29 de outubro de 2019

Tudo por Você

A história do filme, baseada em fatos reais, se passa na década de 1950. A atriz Renée Zellweger,interpreta a esposa que cansada das infidelidades do marido decide acabar com seu casamento. Ela pega seus dois filhos adolescentes, compra um carro e cai na estrada, sem rumo e sem destino, apenas procurando por um futuro melhor. E dentro de uma mentalidade da época aposta em encontrar um novo marido, já que ela não tem trabalho (e nem profissão) para sustentar a si e aos seus filhos. Nessa busca acaba encontrando diversos homens problemáticos. Desde um militar linha dura que parece não ter muito o juízo no lugar, até um mentiroso compulsivo, já casado, que tenta se casar com ela e é impedido no último momento por sua esposa. Um galeria de horrores do sexo masculino.

O pior é que a personagem de Renée Zellweger nunca foi uma boa mãe, nunca foi presente na vida dos filhos. Na estrada eles finalmente acabam desenvolvendo um relacionamento emocional completo, com as idas e vindas da mãe fora dos padrões. O mais interessante nesse filme é que ele conta na verdade a história da família do ator George Hamilton (que inclusive é um dos produtores do filme). Ele quis na verdade imortalizar a história da própria mãe que passou por diversas dificuldades antes de ir parar em Los Angeles, cidade onde a família finalmente encontrou um meio de vida para sobreviver. Justamente a carreira de George que desde muito jovem começou a fazer filmes em Hollywood.

Com uma excelente produção, ótima reconstituição de época, o filme só erra mesmo com o número de filhos. Na realidade eram três jovens e não dois, como mostrado aqui. Os roteiristas decidiram que seria melhor para contar a história do filme. Não faz mal, ainda assim "Tudo por Você" é um bom resgate de um tempo que ficou no passado, mas que deixou saudades em muita gente que viveu aquela época. E para quem gosta dos filmes de George Hamilton e seu eterno bronzeado, fica a dica dessa colorida produção que conta parte importante de sua história.

Tudo por Você (My One and Only, Estados Unidos, 2009) Direção: Richard Loncraine / Roteiro: Charlie Peters / Elenco: Renée Zellweger, Kevin Bacon, Logan Lerman, Mark Rendall / Sinopse: Depois de sofrer todos os tipos de traição por parte do marido músico, jovem esposa decide pegar os dois filhos adolescentes e ir embora, procurando por um novo destino em sua vida. Filme premiado no Berlin International Film Festival.

Pablo Aluísio.

segunda-feira, 28 de outubro de 2019

Pássaros Amarelos

O cinema ainda deve uma obra prima sobre a intervenção americana no Iraque. No ciclo dos filmes sobre o Vietnã tivemos inúmeros clássicos modernos do cinema, mas em relação à presença das tropas americanas no Oriente Médio isso ainda não aconteceu. Esse drama de guerra chamado "Pássaros Amarelos" é apenas mais um filme meramente mediano sobre o tema. Nada espetacular, apenas cumpre modestamente seus objetivos, gerando uma hora e meia de entretenimento para o espectador, nada além disso.

O curioso é que o filme foi produzido pela atriz Jennifer Aniston. Ela também está no elenco interpretando a mãe de um jovem soldado americano chamado Murphy (Tye Sheridan) que desaparece durante uma missão numa cidade do Iraque. Ninguém sabe ao certo o que aconteceu com ele. Os relatórios militares são inconclusivos. Ele simplesmente saiu da formação da tropa durante uma operação e nunca mais foi visto. Pelo menos essa é a versão oficial.

Quando seu mais próximo companheiro de armas volta para casa, as coisas começam a ficar mais claras. O soldado Brandon Bartle (Alden Ehrenreich) parece estar sofrendo de algum trauma após o combate. Mesmo de volta aos Estados Unidos ele não consegue mais ter interesse por nada. Passa os dias na cama, em estado depressivo. Quando sai começa a ter atitudes nada normais, como atravessar um rio sujo com roupa e tudo. O pior é que o exército vai atrás dele, justamente para dar seu depoimento sobre o desaparecimento do recruta Murphy.

E o filme se desenvolve assim, com farto uso de flashback, mostrando passado e presente, tudo para desvendar o mistério do sumiço do jovem soldado. Digo que a solução para tudo me soou bem pouco convincente. Em minha opinião um militar americano jamais tomaria a decisão que o sargento da tropa toma no filme durante uma operação padrão no Iraque. O final realmente deixou a desejar. No começo pensei que se tratava de uma história baseada em fatos reais, mas não. É mesmo tudo baseado em uma novela escrita. Não me admira. Algo assim raramente teria ocorrido na vida real, ainda mais entre o exército dos Estados Unidos, dado o seu grau de profissionalismo dos dias atuais.

Pássaros Amarelos (The Yellow Birds, Estados Unidos, 2017) Direção: Alexandre Moors / Roteiro: David Lowery, R.F.I. Porto, baseados na novela escrita por Kevin Powers / Elenco: Alden Ehrenreich, Tye Sheridan, Jennifer Aniston, Toni Collette / Sinopse: Brandon Bartle, um jovem soldado americano, volta para seu país após servir ao exército no Iraque. Ele retorna com trauma de guerra e trazendo um segredo do campo de batalha, envolvendo o desaparecimento do soldado Murphy, seu amigo de armas mais próximo.

Pablo Aluísio.

sábado, 26 de outubro de 2019

007 Contra Goldfinger

Terceiro filme de Sean Connery no papel de James Bond. Na trama o famoso agente inglês é enviado para investigar as atividades do magnata do ouro Auric Goldfinger (Gert Fröbe). Embora mantenha uma fachada de homem de negócios honesto e sério, que age dentro da lei, há fortes suspeitas de que ele na realidade comande uma rede internacional de contrabando de ouro. Aos poucos Bond descobre muito mais, inclusive um ousado plano envolvendo o roubo da maior reserva de ouro dos Estados Unidos. De posse dela Goldfinger poderia colocar a economia global de joelhos. De volta ao papel de 007, Sean Connery esbanja charme e elegância no papel. Esse filme tem algumas particularidades que até hoje são lembradas pelos fãs do agente inglês. Uma delas é o fato de ser o primeiro filme em que Bond surge com seu carro Aston Martin DB5. O automóvel iria virar um dos maiores símbolos do modo de vida de Bond, uma marca registrada. Aliás já nessa sua primeira aparição nos filmes de 007 o carro mostra sua importância em várias cenas de ação que marcaram bastante, como a perseguição a uma assassina profissional nos alpes suíços. As inovações tecnológicas chamam a atenção, como as rodas especiais e o assento de passageiro ejetável.

Assim o estúdio descobriu uma nova forma de faturar em cima do personagem, uma vez que essa produção foi uma porta de entrada para que a franquia de filmes servisse como uma espécie de instrumento de publicidade para marcas luxuosas e de grife. Ao longo dos anos que viriam a produtora iria explorar ainda mais esse aspecto, com James Bond sempre surgindo com novas roupas, relógios e todo tipo de produto que poderia ser sutilmente divulgado nas cenas do filme. Afinal o glamour também era um aspecto essencial na vida desse agente secreto. Outro destaque a se chamar a atenção é a beleza das Bond Girls. Uma delas, Shirley Eaton, acabou virando uma modelo famosa. Aliás a cena em que uma bela mulher surge toda pintada de ouro virou sensação na época. A sensualidade do elenco feminino começava a ganhar cada vez mais espaço nos filmes. E Bond, claro, surgia como uma conquistador incorrigível para todas elas. Por fim destaco os bem humorados diálogos do roteiro. Em um deles James Bond brinca com os Beatles (em plena Beatlemania) ao dizer ironicamente: "Isso é tão perigoso quanto ouvir os Beatles sem proteção de ouvidos!". Tudo muito divertido. Enfim, "Goldfinger" é sem dúvida um dos melhores filmes de Bond com Sean Connery. Doses exatas de aventura, mistério e ação para fã nenhum colocar defeito.

007 Contra Goldfinger (Goldfinger, Estados Unidos, Inglaterra, 1964) Estúdio: United Artists, Eon Productions / Direção: Guy Hamilton / Roteiro: Richard Maibaum, baseado na obra de Ian Fleming   / Elenco: Sean Connery, Gert Fröbe, Honor Blackman, Shirley Eaton / Sinopse: O agente secreto inglês James Bond (Connery) é designado para investigar um estranho milionário, um sujeito que parece esconder um plano maquiávelico. Filme vencedor do Oscar na categoria de Melhores Efeitos Sonoros (Norman Wanstall).

Pablo Aluísio.

007 Contra a Chantagem Atômica

Mais um filme de James Bond, da primeira fase, com Sean Connery no papel principal. Na trama a Spectre consegue colocar as mãos em duas bombas atômicas roubadas de um avião da OTAN. Com elas em seu poder, jogam a ameaça em cima de Inglaterra e Estados Unidos: Ou as nações pagam o valor de 100 milhões de libras esterlinas em diamantes ou a Spectre jogará as duas armas nucleares em duas das maiores cidades desses países. Para recuperar os artefatos roubados o agente James Bond é enviado até as distantes ilhas de Nassau. A missão se revelará uma das mais perigosas da carreira do famoso espião. É o quarto filme de James Bond com Sean Connery. Em termos de qualidade fica abaixo de "Moscou Contra 007" e "007 Contra Goldfinger", mas bem acima de "O Satânico Dr. No" e "007 - Os Diamantes São Eternos" (O pior filme de Bond com Connery no personagem). Se fosse possível resumir essa produção em apenas uma frase poderíamos dizer que se trata da aventura submarina de James Bond.

São várias as tomadas usadas nesse estilo e como sabemos não é fácil dar agilidade a esse tipo de cena. Mesmo assim são bem realizadas e mantém o bom padrão técnico da produção. Praticamente todo o enredo se passa em Nassau, região conhecida por suas belas praias e mares de água azul. Quem assistiu certamente se lembra da piscina com tubarões, algo que ficou bem marcado dentro da franquia. E como sempre acontecia em filmes de Bond dessa época também há diálogos bem espirituosos mostrando aspectos da personalidade do agente mais famoso do cinema. Num deles Bond analisando o rifle de um inimigo pergunta: "Isso é uma arma para mulheres?". Seu interlocutor responde: "Sim, você entende de armas?" ao que Bond tira de letra: "Não, mas entendo de mulheres".

Em outro momento divertido uma agente pergunta porque Bond sempre dorme com várias mulheres em suas missões. A resposta de James: "Faço tudo pela Inglaterra!". Entre as geringonças mostradas podemos citar um dispositivo de voo (que foi usado na abertura das Olimpíadas de Los Angeles anos depois) e uma caneta explosiva, ou seja, nada que saia da rotina das aventuras do agente no cinema. Para padrões atuais o James Bond de Sean Connery seria considerado um machista! Ele é pouco afeito às mulheres com quem se envolve. Na verdade não passam de mera diversão (isso quando não estão tentando matá-lo!). Mesmo assim o filme se mantém como um bom exemplar da série cinematográfica. No geral tem boa trama, é bem movimentado e com ótimas sequências de ação. Chegou inclusive a ganhar um Oscar técnico, de melhores efeitos especiais! Um bom filme de Bond certamente.

007 Contra a Chantagem Atômica (Thunderball, Inglaterra, 1965) Estúdio: Eon Productions, MGM / Direção: Terence Young / Roteiro: Richard Maibaum, John Hopkins / Elenco: Sean Connery, Claudine Auger, Adolfo Celi / Sinopse: O agente inglês James Bond (Sean Connery) precisa destruir um plano de chantagem atômica envolvendo um perigoso grupo de criminosos. Filme vencedor do Oscar na categoria de Melhores Efeitos Especiais (John Stears).

Pablo Aluísio.

quinta-feira, 24 de outubro de 2019

A Vida Íntima de Sherlock Holmes

Esse é um dos mais diferenciados filmes da carreira do diretor Billy Wilder. Foi realizado em 1970 quando o mestre já estava pensando em se aposentar do cinema (de fato ele só dirigiria mais alguns filmes nessa década, deixando o cinema definitivamente apenas alguns anos depois). Como se pode perceber é uma produção bem realizada, com ótimos toques de humor e aventura, realizando um velho sonho do cineasta que era dirigir uma película enfocando um de seus personagens preferidos de todos os tempos, o genial detetive inglês Sherlock Holmes. Depois de surgir em mais de cem produções, era de se esperar que Wilder procurasse um novo caminho para Sherlock em sua volta às telas. Além do mais os tempos eram outros e uma nova visão surgia como necessária. Deixando um pouco de lado o aspecto mais sisudo de Holmes, Wilder se concentrou em aspectos mais pessoais do famoso detetive. Assim seus problemas com drogas, sua solteirice convicta, entre outras coisas, são tratados no roteiro com mais ênfase do que nas outras aparições de Holmes nas telas, mas não se preocupe, pois o filme realmente passa longe de ser algo dramático, pelo contrário, tudo é visto sob o viés do riso e do bom humor.

A verdade é que Billy Wilder quis mesmo realizar um entretenimento bem despretensioso, que hoje em dia pode até mesmo soar como bobo ou banal. Os fãs das tramas mais elaboradas dos livros de  Arthur Conan Doyle, com suas tramas complicadas e complexas, também podem vir a se decepcionarem pois nesse quesito Wilder também quis amenizar bastante. Talvez por essas razões o filme não tenha sido muito bem recebido em sua época de lançamento. A questão é que qualquer coisa com a assinatura de Billy Wilder já vinha com certa expectativa de ser uma verdadeira obra prima cinematográfica e quando isso não acontecia o clima de desapontamento e decepção era geral entre público e crítica. A verdade pura e simples é que não existe cineasta na história do cinema que tenha conseguido ser genial em todos os seus filmes. Assim é perfeitamente compreensível que obras menores, feitas com essa intenção, fiquem lado a lado com verdadeiros clássicos do cinema na filmografia desses realizadores. Certamente "The Private Life of Sherlock Holmes" não é um filme inesquecível ou algo parecido, mas é divertido e bem humorado o suficiente para agradar bastante os fãs de Wilder, o que no final das contas era exatamente o que ele queria.

A Vida Íntima de Sherlock Holmes (The Private Life of Sherlock Holmes, Inglaterra, 1970) Direção: Billy Wilder / Roteiro: Billy Wilder, baseado na obra do escritor Arthur Conan Doyle / Elenco: Robert Stephens, Christopher Lee, Colin Blakely / Sinopse: O famoso detetive Sherlock Holmes (Robert Stephens) e seu fiel escudeiro Dr. Watson (Colin Blakely) são contratados para desvendar um misterioso caso que levarão ambos a descobrirem o que está por trás do mundialmente conhecido monstro do Lago Ness.
  
Pablo Aluísio.

Os Ritos Satânicos de Drácula

Esse foi um dos muitos filmes feitos em que o ator Christopher Lee interpretou o Conde Drácula, icônico personagem da literatura de terror. Novamente produzido pelos estúdio da Hammer, aqui temos um problema e tanto. Os melhores filmes ingleses de Drácula na Hammer se passavam no século XVIII ou XIX. Havia um inegável charme na ambientação de uma era que não existia mais. Ajudava e muito na criação do clima envolvendo o mais famoso vampiro das telas. Só que as coisas foram mudadas para pior nesse filme. O Drácula que surge nesse filme vive nos tempos atuais. Ele quer promover uma espécie de apocalipse com a velha peste negra. Para isso se torna um figurão, dono de uma grande empresa, que controla pessoas importantes do governo, como cientistas, generais, políticos e ministros.

A tentativa de transformar Drácula numa espécie de vilão corporativo afunda o filme totalmente. Vai embora o charme, vai embora o clima, os figurinos de época e até mesmo a trama, que nunca consegue convencer ninguém. Para piorar ainda mais o filme tem uma série de assassinos em motos (todos parecendo mais o vocalista do Queen, Freddie Mercury) que me deixou quase em modo de humor involuntário. E se você pensa que as mudanças se resumem a essa troca de tempo, é bom saber que a morte do Conde Drácula é completamente surreal (e estranha). Nunca tinha visto nada parecido no cinema, nem antes e nem depois. Bizarro mesmo. Por fim, para não deixar apenas visões negativas sobre o filme, vale a pena elogiar o ator Peter Cushing. aqui interpretando o Dr. Van Helsing. Seguramente é a melhor coisa desse datado filme do Drácula. Cushing tinha mais dignidade e elegância do que todos os demais atores do elenco. Ele realmente conseguia sobreviver a qualquer coisa, até mesmo a filmes fracos como esse.

Os Ritos Satânicos de Drácula (The Satanic Rites of Dracula, Inglaterra, 1973) Direção: Alan Gibson / Roteiro: Don Houghton / Elenco: Christopher Lee, Peter Cushing, Michael Coles / Sinopse: Drácula (Lee) ressurge, agora comandando uma poderosa empresa. Controlando um grupo de pessoas poderosas ele quer reviver a idade média, quando a peste negra matou milhões de seres humanos na Europa. Para combater seus planos surge o professor Van Helsing, disposto a tudo para matar o lendário vampiro.

Pablo Aluísio.

Drácula - O Perfil do Diabo

Durante uma visita à Transilvânia um Monsenhor católico (Rupert Davies) descobre que o povo daquela região ainda vive apavorado, mesmo após a morte de Drácula (Lee). Ele então decide subir as montanhas, onde está o castelo do conde vampiro, para realizar um rito de exorcismo e purificação no lugar. Após suas orações e rituais finca uma grande cruz nos portões do castelo amaldiçoado. De volta à existência, Drácula fica furioso com isso e decide seguir o sacerdote até sua terra natal, na Alemanha, para acertar contas com ele. Durante a viagem transforma um padre em seu escravo pessoal e começa a procurar obsessivamente por Maria (Carlson), a sobrinha do Monsenhor, para seduzi-la. O confronto assim se torna inevitável entre o bem e o mal. Dez anos depois de interpretar Drácula pela primeira vez em "O Vampiro da Noite" o ator Christopher Lee voltou para a Hammer para rodar mais esse novo filme de terror com o personagem. Um aspecto que chama a atenção é que de uma maneira em geral o roteiro do primeiro filme acabou servindo de base para essa nova produção. Claro que há diferenças substanciais, mas de um modo em geral ambos os filmes são bem semelhantes. O grande rival que agora enfrenta o mitológico vampiro não é mais Van Helsing, como era de se esperar, mas sim um Monsenhor que vê sua própria sobrinha cair nas garras do conde sanguinário.

Por falar nessa personagem, a da indefesa jovem Maria, temos que chamar a atenção para o fato dela ter sido interpretada pela atriz inglesa Veronica Carlson, uma beldade que acabou se tornando musa dos filmes da Hammer. Modelo na juventude, ela era certamente uma boa razão para se conferir filmes como esse, até mesmo por causa das ousadas cenas de quase nudez em que aparecia. Seu namorado no filme é um rapaz que não acredita em Deus e que precisará, mesmo sem fé nenhuma, enfrentar o vampiro. Tempos difíceis. Por fim e não menos importante, temos que sempre valorizar a presença do veterano Christopher Lee em cena. Seu Drácula aqui surge um pouco mais sedutor, com mais diálogos do que nos filmes anteriores. Nota-se, mesmo de forma bem tímida, uma pequena mudança no personagem. Ao invés de ser apenas um monstro feroz como era retratado nos primeiros filmes, aqui já há uma certa sedução no ar, principalmente nas cenas em que ele encontra a jovem Maria em seu quarto.

Esse tipo de característica pessoal de Drácula só iria aumentar nos anos que viriam a ponto do conde ter se transformado quase em um personagem puramente romântico, sempre atrás do grande amor de sua vida, como no filme de 1979 onde seria interpretado por Frank Langella, em uma das melhores adaptações já feitos do imortal vampiro criado por Bram Stoker para as telas. Então é basicamente isso. Um boa produção, valorizada ainda mais pela atuação de Christopher Lee, um ator cuja a simples presença sempre valia a sessão de cinema. Em suma, uma pequena obra, um pouco esquecida, do cinema de horror inglês. Vale conferir.

Drácula - O Perfil do Diabo (Dracula Has Risen from the Grave, Inglaterra, 1968) Estúdio: Hammer Films / Direção: Freddie Francis / Roteiro: Anthony Hinds / Elenco: Christopher Lee, Rupert Davies, Veronica Carlson, Barbara Ewing, Ewan Hooper, Barry Andrews / Sinopse: Uma estranha criatura surge no meio da noite, um conde milenar que se alimenta de sangue humano. O grande lord vampiro, o Conde Drácula!

Pablo Aluísio.

quarta-feira, 23 de outubro de 2019

Irma la Douce

Esse é um clássico assinado pelo genial diretor Billy Wilder. No saboroso enredo a atriz Shirley MacLaine interpreta a personagem Irma La Douce, uma dama de companhia das ruas de Paris que acaba tendo sua vida mudada com a chegada de um novo policial no local onde tem seu ponto. Nestor Patou (Jack Lemmon) é um novato na corporação que segue a lei ao pé da letra. Quando percebe que há um batalhão de mulheres nas ruas esperando seus clientes, decide prender todas elas, causando um verdadeiro rebuliço em seu departamento de polícia. A partir daí, contra todas as previsões, acaba se apaixonando justamente por Irma, que não está disposta a mudar a forma como leva sua sua vida. O diretor Billy Wilder conseguiu aqui nesse filme algo bem raro de se alcançar no mundo do cinema. Baseado na peça escrita originalmente por Alexandre Breffort, Wilder conseguiu realizar um filme leve, divertido, em cima de um tema que a priori deveria ser tratado como algo realmente mais pesado. Imagine contar a estória de uma prostituta de rua em Paris, explorada por cafetões violentos, que acaba se apaixonando por um policial e mesmo assim transformar tudo em uma obra com muito bom humor e leveza.

Certamente não era algo fácil de se realizar. Há estereótipos nesse roteiro que deixariam as feministas de hoje em dia com os cabelos em pé. A personagem Irma La Douce interpretada por Shirley MacLaine é um exemplo. Assim que se liberta das garras de um cafetão que lhe agride sempre que possível, resolve, com muito orgulho, sustentar um novo namorado (justamente o ex-policial vivido por Jack Lemmon). Ela tem grande prazer em lhe comprar coisas caras, mesmo que seja desesperadamente pobre e more em um pequeno cortiço. Nos tempos politicamente corretos em que vivemos, haveria muita má vontade se "Irma la Douce" chegasse hoje em dia aos cinemas.

Deixando essa visão, digamos, sociológica, um pouco de lado, temos que tecer vários elogios para o elenco. Shirley MacLaine ainda estava em seu auge, tanto em termos de simpatia como de beleza. Ela imprime um certo exagero em sua caracterização (que acaba sendo bem-vindo) pois sua personagem está sempre fumando e agindo com uma certa vulgaridade, embora seja no fundo apenas uma mulher que tente levar a vida adiante naquela situação. Ela engana propositalmente seus clientes contando estórias inventadas de um passado de dramas, apenas para ganhar mais alguns trocados no final de seus programas. Vestindo um figurino quase sempre verde, acaba trazendo para sua personagem uma imagem que depois será complicada de esquecer, de tão marcante. Já Jack Lemmon dá vida ao policial Nestor Patou, um sujeito simplório e até ingênuo, que acredita que deve aplicar a lei, mesmo que ela esteja em desuso e seja considerada inconveniente, como no caso das prisões de garotas em sua praça. Aliando o talento da dupla central com a fina ironia de Billy Wilder, temos de fato uma obra bem divertida, com ótimos momentos, apesar de seu tema até mesmo complicado.

Irma la Douce (Irma la Douce, Estados Unidos, 1963) Estúdio: United Artists / Direção: Billy Wilder / Roteiro: Billy Wilder,  Alexandre Breffort / Elenco: Jack Lemmon, Shirley MacLaine, Lou Jacobi, Bruce Yarne / Sinopse: Irma la Douce vive nas ruas de Paris. Sua vida muda completamente quando se apaixona por um policial que quer seguir todas as regras à risca. Filme indicado ao Oscar nas categorias de Melhor Atriz Coadjuvante (Shirley MacLaine) e Melhor Fotografia (Joseph LaShelle) e vencedor na categoria de Melhor Canção Original (André Previn). Filme vencedor do Globo de Ouro na categoria de Melhor Atriz - Comédia ou Musical (Shirley MacLaine).

Pablo Aluísio.