sexta-feira, 4 de janeiro de 2002

Crônicas do Futebol - Edição VII

A temporada é ruim para o Corinthians. Nesse campeonato brasileiro de 2023 o time vai mal, muito mal. Está se arrastando na décima quarta posição do Brasileirão. Na boa, uma campanha medíocre. Está a apenas duas posições da zona do rebaixamento. Vexame em minha opinião. Mas o que poderia se esperar de uma equipe fraca como essa? O centroavante nao faz gols, o meio de campo é bem fraco e o ataque não tem poder de fogo. Com isso o time vai mesmo caindo pelas tabelas. 

De bom mesmo apenas temos atualmente a equipe feminina de futebol que inclusive se sagrou pentacampeã brasileira em um jogo bem movimentado contra o Ferroviário que, acredite, é uma das potências do futebol feminino brasileiro. De minha parte acredito que ainda é preciso melhorar muito para as "mina". Elas merecem não apenas o respeito, como diz a famosa frase da torcida corintiana "Respeita as mina!", como também merece todo o incentivo e investimento do esporte nacional. 

Aliás o jogo final do brasileiro feminino do Cotinthians se tornou o recorde nacional de maior público da história. E isso bem depois do fracasso da seleção brasileira na copa do mundo da categoria. É uma prova que o futebol feminino segue bem prestigiado pelo povo brasileiro, apesar do tropeço da seleção no exterior. 

No mais, o campeonato brasileiro segue numa certa regularidade. O Botafogo continua na frente, mas com menos pontos de distância do segundo lugar, o Palmeiras. Aliás quer irritar pra valer um botafoguense? Diga que o Botafogo é um cavalo paraguaio. O torcedor rubro negro da estrela solitária começa a soltar faíscas de raiva pelas narinas!

 Corinthians x São Paulo
Assisti ontem o primeiro jogo da semifinal da Copa do Brasil entre Corinthians e São Paulo. Embora não tenha jogado bem, o timão garantiu uma vitória importante dentro de casa, até porque a partida decisiva será realizada no Morumbi, onde o bicho vai pegar. O Corinthians se ressente atualmente de um bom meio de campo e de um centroavante matador. Na ausência de um bom jogador nessa posição coube a Renato Augusto salvar a barra, fazendo dois bonitos gols. Está de bom tamanho, pelo menos por eqnuanto. Assim o placar final de 2 a 1 foi bom para a Fiel. 

Pablo Aluísio. 

quinta-feira, 3 de janeiro de 2002

Crônicas do Futebol - Edição VI

Ontem assisti um jogo entre Corinthians e Ponte Preta. Terminou cinco a zero para o timão. É curioso porque fiquei muitos anos sem acompanhar futebol, justamente quando não precisei mais socializar tanto como antes na minha vida. O futebol é um importante fator de socialização, pelo menos em termos de Brasil. Onde você estiver, com quem encontrar, uma linha de conversa pode ser iniciada simplesmente falando da última rodada do campeonato. É tiro e queda!

E muitas vezes é mais divertido torcer para o seu time do coração do que para a seleção brasileira. O nível de identificação com o time é maior. Em certos meios sociais, onde as pessoas basicamente apenas conversam sobre o futebol, você passa a ser identificado pelas cores do seu time. É o fulano corintiano, o sicrano flamenguista e por aí vai.

O futebol é uma diversão. É esporte. Das coisas menos importantes ele talvez seja o mais importante. Deve-se levar o nobre esporte bretão de forma saudável. Quando começa a ser desculpa para agredir o torcedor do time rival aí deixa de ser futebol. Vira barbaridade, escrotice e psicopatia. Pessoas perderam a vida por futebol e poucos motivos soam mais estúpidos do que esse para se perder a vida. Não faz o menor sentido.

Hoje vejo e acompanho futebol da maneira certa. Vejo os jogos, me divirto, torço muitas vezes mais para assistir a um bom jogo do que necessariamente para meu time vencer. Para quem gosta de futebol hoje em dia também existe um cardápio bem maior. Basta assinar uma TV a cabo para ter acesso a praticamente todos os campeonatos do mundo. A única coisa que complica é ter uma aproximação genuína com um time estrangeiro. Até hoje não escolhi. Assisto esses jogos com o objetivo de apenas ver uma boa partida de futebol. Não há nada melhor.

Pablo Aluísio.

Crônicas do Futebol - Edição V

O Corinthians nunca havia vencido um título de campeão brasileiro. Seu primeiro título veio finalmente em 1990. Eu acompanhei de perto esse campeonato. O Corinthians não era favorito, longe disso. Em uma publicação da época que fazia projeções sobre o time no Brasileirão dizia que o Corinthians iria fazer apenas um bom campeonato. Todos diziam que o grande favorito era o São Paulo. No papel realmente era um time sem grandes estrelas. Os cronistas esportivos diziam que não havia nenhum craque no time. Bom, de certo modo eles tinham razão, mas...

Neto estava em estado de graça. Esse jogador vinha do Palmeiras, após ser revelado pelo Guarani. Um boato maldoso daquela época dizia que Neto havia sido trocado por dez pares de chuteiras e um empréstimo do jogador Ribamar. Verdade ou não, o fato é que essa piada mostrava que Neto não era nenhuma estrela do futebol da época. Era baixinho e... gordinho! Estava sempre lutando contra a balança.

Só que Neto era mais do que isso. Foi um dos maiores batedores de faltas da história do futebol nacional. Quando surgia uma falta próxima da área do time adversário, a Fiel já começava a comemorar. E realmente tinha razão para esse comportamento. Geralmente se havia uma boa posição para bater a falta, Neto não perdoava. Colocava a bola lá onde a coruja dorme. Impossível para qualquer goleiro alcançar. Era gol na certa.

E foi assim que o Corinthians chegou na final contra justamente o São Paulo. O gol do título veio de uma bola complicada. O desconhecido Tupãzinho achou um lugar para mandar a bola para o gol. Era o que bastava. Com 1 a 0 o Corinthians se sagrou campeão brasileiro pela primeira vez. Foi uma grande festa por toda a cidade de Sâo Paulo. É importante dizer que eu considero esse título um divisor de águas na história do Corinthians. Depois dele começou uma onda de vitórias e mais vitórias, levando o time a vencer outros brasileiros e se sagrar campeão do mundo por 2 vezes. Foi a era de ouro do Corinthians e eu estava lá, acompanhando tudo. Foi realmente um tempo mágico para o Timão.

Pablo Aluísio.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2002

Crônicas do Futebol - Edição IV

Qual foi o melhor Santos de todos os tempos? Essa pergunta é fácil de responder. O melhor time do Santos de todos os tempos foi o Santos de Pelé, claro! É como perguntar qual foi o maior Botafogo de todos os tempos? Claro que foi aquele em que Garrincha jogou. Quando ambos entraram juntos na Seleção brasileira, o Brasil nunca perdeu um jogo, sabia disso? Entretanto não tive o prazer de acompanhar nem o Santos de Pelé e nem o Botafogo de Garrincha. Eu não havia nascido. O que não quer dizer que não fico admirado com o futebol arte desses dois grandes craques quando vejo uma cena daquela época.

O Pelé aliás foi um jogador excepcional. Ele recebeu o título de Rei do Futebol e eu penso que esse é aquele tipo de título mais do que merecido. Ele merece todos os aplausos, todos os elogios. Um atleta perfeito. Um grande orgulho para todos os brasileiros. Em relação ao Santos eu tenho sentimentos dúbios. Eu sei que quando Pelé jogava, quando estava em seu auge, eles venceram nove títulos paulistas em dez anos! Incrível! O Corinthians (meu time do coração) sofreu muito quando Pelé brilhava no Santos. Ficou anos e anos sem vencer do time do Rei. Coisas da vida. Eu não fico com raiva ao ouvir esse tipo de informação. O futebol arte merece mesmo vencer.

Por outro lado - e curiosamente - quando comecei a acompanhar futebol o Pelé não jogava mais no Santos. Aliás ao longo de muitos anos vi muitos times do Santos que mereciam facilmente a alcunha de "times capengas". Um pior do que o outro. Nos anos 80 e 90 inclusive o jogo virou literalmente. O Santos passou a ser freguês do Corinthians. Quando via que o jogo do final de semana seria contra o Santos eu já ficava tranquilo. Era quase certo que o Santos iria colecionar mais uma derrota contra o Corinthians.

Esses times genéricos do Santos eu costumo denominar de "Geração Coca-Cola". Não, não é uma referência ao Legião Urbana. Acontece que por essa época o Santos era patrocinado pela Coca-Cola. E os times que entravam em campo eram bem medíocres, sendo bem sincero. Só anos depois com Neymar e aquela geração é que o Santos passou a ser novamente competitivo. Antes disso era um pato mesmo, apesar de eu sempre ter achado muito bonito o uniforme oficial do time. O branco total é inegavelmente belo em contraste com o verde do gramado.

Pablo Aluísio.

Crônicas do Futebol - Edição III

A Copa do Mundo de 1982 foi a primeira que acompanhei de verdade. Eu morava em um condomínio no Rio de Janeiro e foi uma festa. Os moradores embelezaram o lugar com verde a amarelo, todos só falavam da Copa e o clima era de euforia. E todo mundo tinha razão de ter esse otimismo. A seleção brasileira era excelente, cheia de craques. Em minha opinião era certamente a melhor seleção de futebol do mundo. Quem poderia discordar? Tirando o goleiro Valdir Peres e o Toninho Cerezo, todos os demais poderiam ser considerados craques ou no mínimo grandes jogadores.

Os craques em minha opinião enchiam os olhos. Era uma seleção do Brasil que tinha Zido, Sócrates, Falcão e Éder Aleixo (que cobrava faltas como quem detona dinamite). Eu gostava muito também do futebol de Júnior (do Flamengo), Oscar e Leandro. O centroavante não ficava à altura do time, apesar de fazer gols o Serginho Chulapa era apenas mediano. De qualquer forma era uma seleção brasileira mravilhosa. Além de todos os nomes tinha o Telê Santana como treinador. Tudo parecia estar nos eixos. Só faltava levantar a taça.

Só que os deuses do futebol também mostram seus caprichos. A seleção de 1982 estava fadada a ser a melhor seleção do mundo que não iria ganhar nada. Foi terrível a eliminação no jogo contra a itália. Nunca mais o povo brasileiro iria se esquecer do nome de Paolo Rossi. Esse jogador italiano que nem era considerado tão bom assim, jogou como nunca na sua carreira! Aliás ele nunca mais iria jogar tanto até o fim de seus dias como jogador de futebol. Foi só naquele dia... para azar do Brasil!

O Brasil fazia um gol, o Rossi fazia outro. Novo gol do Brasil? Novo gol do Rossi. No final os italianos levaram a melhor e o Brasil foi eliminado da Copa do Mundo. O canarinho não voou como previa a boa música do Júnior (que chegou até a lançar um compacto na época!). No final de tudo a seleção de 82 ficou conhecida como "a seleção que jogava bonito, mas que não ganhava nada!". Injustiça demais. Essa seleção jamais vai ser esquecida, ao contrário das que foram campeãs e jogaram feio. O que importa no futebol é a beleza e a emoção. Nesses quesitos essa seleção deixou saudades.

Pablo Aluísio.

terça-feira, 1 de janeiro de 2002

Crônicas do Futebol - Edição II

Qual foi a Copa do Mundo mais antiga da sua vida? Qual é a Copa do Mundo mais velha que você consegue lembrar? Que você presenciou e tem lembranças? A minha foi a Copa do Mundo de 1978. Eu era muito jovem, criança mesmo, mas ainda me lembro de imagens e flashes dessa Copa do Mundo da Argentina. Eu me recordo dos estádios super lotados e da quantidade enorme de papel que ficava pelos campos - uma maneira que a torcida dos hermanos fazia para abrilhantar ainda mais o espetáculo do futebol.

Essa Copa do Mundo tem peculiaridades próprias  Foi a única até hoje realizada na Argentina que sempre foi um gigante do mundo do futebol. Também foi a primeira Copa do Mundo conquistada pela Argentina, isso em uma era pré-Maradona. A seleção da Argentina era excelente, tinha craques como Passarella, Ardiles, Kempes e Fillol. Futebol no campo não lhe faltava, tinha uma equipe que poderia ser considerada mesmo uma das melhores do mundo.

Só que o título argentino até hoje ficou marcado por causa de um jogo contra o Peru. Para seguir em frente a Argentina precisava vencer por uma diferença de 4 gols. Até aí tudo bem, uma vez que o Peru nunca foi mesmo uma grande seleção. Só que a Argentina venceu por 6 a 0, passando para a outra fase, tirando o Brasil da Copa, mesmo que a Seleção Canarinho não tivesse perdido nenhum jogo. Claro que o cheiro de marmelada surgiu no horizonte e até hoje se fala nisso.

Pois é, meus caros. Essa Copa do Mundo de 1978 é a minha mais antiga lembrança de Copas que tenho. Só que a seguinte seria aquela que eu iria viver realmente. A Copa do Mundo de 1982. E seria também a minha primeira grande decepção em termos de futebol brasileiro. Até hoje lembro a música "voa canarinho, voa"... mas falarei sobre isso em outra crônica. Até lá!

Pablo Aluísio. 

Crônicas do Futebol - Edição I

Olhando para o passado, em minhas lembranças, o primeiro campeonato que eu comemorei foi o estadual de 1988. Eu estava na adolescência e quando se é jovem, já sabe, o futebol ganha grande importância. Pois realmente foi a partir desse ano que comecei a acompanhar o time com especial atenção. A equipe de 1988, apesar de ser campeã, era mesmo mediana. Em minha opinião não havia nenhum craque no timão.

E falo isso não para desmerecer o Corinthians de 88, mas sim para relatar um fato. Só para ter uma ideia o jogador mais destacado daquele ano foi o novato Viola que se notabilizou por ter feito o gol na final contra o Guarani. Mas quem diabos era Viola? Ninguém sabia quem era Viola naquela época! Muito menos esse que está escrevendo esse texto. Por aqueles anos o Corinthians vivia de alguns craques do passado, entre eles Cláudia Adão, em fim de carreira. Não era um time cheio de craques, temos que falar a verdade. Tinha muito jogador batalhador, guerreiro, todos puxados pela mesma torcida apaixonada de sempre, mas craque... definitivamente não havia!

Se não era um time de craques, pelo menos era um time regular. O Corinthians de 88 jogou um futebol feijão com arroz, mas que foi suficiente para levar o time para a final. E contra o Guarani de Campinas, o Corinthians, mesmo mediano, era o favorito. O último estadual havia sido conquistado em 1983, então já era hora de ganhar mais um Paulista, para deixar a torcida tranquila.

Para relembrar o time foi treinado pelo Jair Pereira. Na final o Corinthians jogou com o seguinte time: Ronaldo, Édson, Marcelo Djian, Denílson e Dida; Biro-Biro, Márcio, Edmundo (Viola); Wilson Mano, Éverton e João Paulo. Alguns desses seguiriam no time até 1990, ano que o timão venceu pela primeira vez o campeonato brasileiro (que irei falar em breve por aqui). O mais veterano era mesmo o Biro-Biro, que já estava prestes a se aposentar, afinal ele foi jogador do Corinthians por muitos anos e da velha guarda apenas ele continuava jogando. Era chegada a hora de pendurar as chuteiras.

Pablo Aluísio.

quinta-feira, 2 de agosto de 2001

The Beatles - We Can Work It Out

The Beatles - We Can Work It Out
Música: We Can Work It Out
Artista: The Beatles
Álbum: Não lançada originalmente em álbum — primeiro lançamento no single We Can Work It Out / Day Tripper
Selo: Parlophone (Reino Unido); Capitol (Estados Unidos)
Produtor: George Martin
Músicos: Paul McCartney (vocais, baixo); John Lennon (vocais, guitarra acústica, harmônio); George Harrison (pandeiro); Ringo Starr (bateria)
Data de gravação: 20 de outubro de 1965; overdubs e finalização em 29 de outubro de 1965
Data de Lançamento: 3 de dezembro de 1965, Reino Unido; 6 de dezembro de 1965, Estados Unidos

Comentários:
“We Can Work It Out” surgiu em um momento particularmente fértil da carreira dos Beatles, durante as sessões que dariam origem a Rubber Soul. A composição foi desenvolvida principalmente por Paul McCartney, que levou a ideia a John Lennon para que os dois trabalhassem juntos na conclusão da canção. McCartney escreveu essencialmente as estrofes, construídas em torno de um apelo à conciliação, enquanto Lennon contribuiu decisivamente para a seção “Life is very short”, que introduz uma mudança de atmosfera e de andamento. George Harrison também teve participação importante no desenvolvimento do arranjo, sugerindo que essa passagem fosse executada em compasso ternário, criando o característico efeito de valsa. A letra apresenta uma discussão amorosa sob a perspectiva de duas pessoas que enxergam uma situação de maneiras diferentes, mas ainda acreditam ser possível salvar o relacionamento. Embora frequentemente relacionada à vida pessoal de McCartney, especialmente ao seu relacionamento com Jane Asher, a canção funciona também como uma reflexão universal sobre conflitos afetivos, comunicação e compromisso. Musicalmente, a combinação entre o pop melódico de McCartney e a intervenção mais impaciente de Lennon é uma das suas grandes virtudes. O harmônio tocado por Lennon acrescenta uma sonoridade incomum ao repertório dos Beatles, enquanto a mudança para o ritmo de valsa dá à composição uma dimensão dramática e sofisticada. O resultado demonstra como o grupo estava rapidamente ampliando os limites da canção pop convencional.

A gravação também revela o crescente interesse dos Beatles em utilizar o estúdio como parte fundamental do processo criativo. Em 20 de outubro de 1965, o grupo registrou a faixa básica e trabalhou durante quase onze horas na música, naquele momento o período mais longo que havia dedicado a uma única canção. Os trabalhos continuaram em 29 de outubro, com overdubs e mixagem. O resultado foi lançado como lado A de um dos primeiros grandes singles em que duas músicas receberam tratamento de dupla face A, ao lado de “Day Tripper”. A recepção comercial foi extraordinária: o single chegou ao primeiro lugar no Reino Unido e também alcançou o topo das paradas norte-americanas, tornando-se o sexto single consecutivo dos Beatles a atingir o número um nos Estados Unidos. Mais importante ainda, “We Can Work It Out” consolidou a capacidade do grupo de transformar experiências pessoais e conflitos cotidianos em canções acessíveis a milhões de pessoas. A alternância entre a seção pop de McCartney e o trecho em três tempos associado a Lennon tornou-se uma de suas características mais reconhecíveis. A canção permanece como um excelente exemplo da complementaridade existente entre os dois principais compositores dos Beatles, mostrando como suas personalidades musicais diferentes podiam produzir algo maior quando combinadas. Seu legado está justamente nessa capacidade de unir melodia, experimentação e uma mensagem extremamente simples sobre diálogo e compreensão, características que ajudaram a fazer de “We Can Work It Out” uma das composições mais duradouras da fase clássica dos Beatles.

Erick Steve. 

quarta-feira, 1 de agosto de 2001

The Beatles - Eleanor Rigby

The Beatles - Eleanor Rigby
Música: Eleanor Rigby
Artista: The Beatles
Álbum: Revolver
Selo: Parlophone
Produtor: George Martin
Músicos: Paul McCartney (voz principal e vocais de apoio); John Lennon (vocais de harmonia); George Harrison (vocais de harmonia); Tony Gilbert (violino); Sidney Sax (violino); John Sharpe (violino); Juergen Hess (violino); Stephen Shingles (viola); John Underwood (viola); Derek Simpson (violoncelo); Norman Jones (violoncelo); George Martin (arranjo de cordas e regência).
Data de gravação: 28 e 29 de abril e 6 de junho de 1966, nos estúdios EMI, Abbey Road, Londres.
Data de Lançamento: 5 de agosto de 1966, no Reino Unido.

Comentários:
“Eleanor Rigby” foi composta principalmente por Paul McCartney durante o período de criação que daria origem a Revolver, sendo creditada oficialmente à tradicional parceria Lennon-McCartney. A composição nasceu de uma ideia musical que McCartney desenvolveu ao piano e que inicialmente apresentava a personagem com o nome de “Daisy Hawkins”. A temática surgiu de suas lembranças de pessoas solitárias e idosas que conhecera durante a juventude, especialmente mulheres com quem teve contato em Liverpool. A própria experiência de conversar com pessoas mais velhas e perceber suas vidas discretas ajudou a formar a atmosfera humana da canção. O nome Eleanor surgiu posteriormente, associado à atriz Eleanor Bron, enquanto “Rigby” foi encontrado por McCartney em um estabelecimento comercial em Bristol. A narrativa de Eleanor, uma mulher invisível que recolhe arroz depois de casamentos, e do solitário padre McKenzie transformou a música em uma reflexão sobre isolamento, envelhecimento, anonimato e falta de conexão humana. Musicalmente, a gravação representou uma ruptura extraordinária com o modelo tradicional de uma canção pop dos Beatles: nenhum dos integrantes tocou instrumento no arranjo final, que foi construído sobre um octeto de cordas formado por quatro violinos, duas violas e dois violoncelos. George Martin criou o arranjo e utilizou uma escrita de cordas marcada por ataques secos e intensos, evitando deliberadamente um acompanhamento excessivamente sentimental. A abordagem recebeu influência da música cinematográfica de Bernard Herrmann, particularmente de suas partituras para filmes de Alfred Hitchcock.

A gravação ocorreu num momento decisivo da trajetória dos Beatles, quando o grupo estava abandonando progressivamente a imagem de uma banda essencialmente voltada para apresentações ao vivo e começava a explorar o estúdio como instrumento de criação artística. A sessão de 28 de abril registrou o acompanhamento das cordas, enquanto no dia seguinte Paul acrescentou sua voz principal e John Lennon e George Harrison participaram dos vocais de harmonia; um novo overdub vocal de McCartney foi realizado em 6 de junho. O engenheiro Geoff Emerick contribuiu para o caráter incomum da gravação ao posicionar os microfones muito próximos dos instrumentos de cordas, produzindo um som mais agressivo, definido e presente. Lançada simultaneamente em Revolver e como lado A duplo com “Yellow Submarine”, a música foi imediatamente reconhecida como uma das experiências mais ousadas do grupo naquele período. O single alcançou o primeiro lugar no Reino Unido, permanecendo no topo durante quatro semanas, enquanto nos Estados Unidos “Eleanor Rigby” chegou ao 11º lugar da Billboard Hot 100. Sua importância, porém, ultrapassa largamente seu desempenho comercial: a canção demonstrou que uma composição pop de pouco mais de dois minutos poderia possuir densidade literária, sofisticação harmônica e uma instrumentação próxima da música de câmara. Ao longo das décadas, tornou-se uma das obras mais celebradas do repertório dos Beatles, recebeu inúmeras versões de outros artistas e ajudou a abrir caminho para uma aproximação cada vez maior entre rock, música erudita e composição de caráter autoral. Seu legado permanece particularmente forte porque “Eleanor Rigby” transformou a solidão cotidiana em matéria-prima para uma das mais universais e duradouras canções da história da música popular.

Erick Steve.

The Beatles - And I Love Her

The Beatles - And I Love Her
Música: And I Love Her
Artista: The Beatles
Álbum: A Hard Day's Night
Selo: Parlophone (Reino Unido); Capitol Records (Estados Unidos)
Produtor: George Martin
Músicos: Paul McCartney (vocais, baixo); John Lennon (violão acústico de 6 cordas); George Harrison (violão acústico de 6 cordas e guitarra); Ringo Starr (congas, bateria e bongô); George Martin (clavicórdio)
Data de gravação: 25 e 26 de fevereiro, 1º e 3 de março de 1964
Data de Lançamento: 10 de julho de 1964, Reino Unido

Comentários:
“And I Love Her” foi composta principalmente por Paul McCartney, com colaboração de John Lennon, durante um dos períodos de maior criatividade dos Beatles. A canção nasceu enquanto o grupo trabalhava no repertório de A Hard Day's Night, álbum que também funcionaria como trilha sonora do primeiro filme dos Beatles. McCartney concebeu a maior parte da melodia e da letra, inspirando-se em seu relacionamento com Jane Asher, sua namorada naquele período. A composição representa uma mudança significativa em relação ao rock mais enérgico associado aos primeiros anos do grupo, apresentando uma atmosfera íntima, delicada e romântica. Sua estrutura relativamente simples é valorizada por uma melodia extremamente elegante, pela economia instrumental e pela interpretação vocal de McCartney. John Lennon participou do processo de composição, embora a contribuição exata de cada um tenha sido posteriormente objeto de diferentes avaliações dos próprios integrantes. George Harrison teve papel particularmente importante na definição da identidade musical da gravação, utilizando o violão acústico e posteriormente introduzindo a famosa guitarra espanhola na versão final. A harmonia, baseada em mudanças de acordes sutis, cria uma sensação de ternura e estabilidade que combina perfeitamente com a declaração amorosa da letra. A música também demonstra como McCartney começava a ampliar consideravelmente seu vocabulário como compositor, afastando-se das estruturas mais convencionais do rock'n'roll.

A gravação ocorreu nos estúdios da EMI, em Abbey Road, durante as sessões de A Hard Day's Night, e os Beatles dedicaram várias sessões à construção de sua sonoridade definitiva. A faixa passou por diferentes versões antes de chegar ao arranjo conhecido pelo público, demonstrando a crescente importância que o grupo e George Martin davam aos detalhes de estúdio. A instrumentação acústica, o baixo discreto, a percussão de Ringo Starr e, sobretudo, a participação de George Harrison produziram uma das gravações mais sofisticadas dos Beatles naquele momento. O pequeno trecho instrumental que encerra a música, conhecido como uma espécie de passagem de guitarra espanhola, tornou-se uma de suas marcas registradas. “And I Love Her” foi muito bem recebida e rapidamente passou a ser considerada uma das grandes baladas do período inicial dos Beatles. Com o passar das décadas, sua reputação cresceu ainda mais, sendo frequentemente lembrada como uma das primeiras demonstrações inequívocas do talento de McCartney para escrever canções de amor de grande refinamento. Sua influência pode ser percebida em inúmeras baladas posteriores do rock e da música pop, especialmente na maneira de combinar simplicidade, intimidade e sofisticação harmônica. O legado da canção está também no fato de ela revelar uma transformação fundamental dos Beatles: a banda que havia conquistado o mundo com energia e irreverência começava a demonstrar que também poderia produzir música profundamente contemplativa e emocional. “And I Love Her” permanece, assim, como uma das primeiras grandes evidências da extraordinária evolução artística que caracterizaria os Beatles nos anos seguintes.

Pablo Aluísio.