segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Braddock: O Super Comando

“A Guerra não termina até que o último homem volte para casa!”. Era essa a frase que estampava o pôster promocional de “Braddock – O Super Comando” um dos “clássicos” do cinema brucutu pancadaria da década de 80. No papel principal o ator Chuck Norris interpretava um personagem que era obviamente derivativo do soldado Rambo de Stallone. Com orçamento apertado o filme apostou na ação desenfreada e acabou se saindo muito bem nas bilheterias. Norris hoje em dia é personagem de piadas na internet mas na década de 80 seus filmes eram levados bem à sério pelos fãs de ação. Ele inclusive era o terceiro mais popular astro de filmes pancadaria daquela década, só perdendo no quesito popularidade para Stallone e Arnold Schwarzenegger. Seus filmes eram lançados regularmente nos cinemas brasileiros e rendiam excelentes bilheterias por aqui. De fato muito exibidor agradecia quando surgia algum filme novo de Chuck Norris pois ele era inegavelmente sinônimo de casa cheia com certeza. O povão adorava os exageros, as cenas inverossímeis e as lutas em que Norris derrubava dezenas de soldados inimigos com apenas um chute (seu famoso golpe chamado “Kick Roundhouse”).

Os roteiros eram ruins e as interpretações péssimas mas o público adorava. Quanto mais absurda fosse a cena mais a platéia saia gratificada das sessões. Chuck Norris era um astro mas enganava-se quem pensava que ele havia surgido do nada nos anos 80 para estrelar esse tipo de filme. A verdade é que Norris já tinha muita estrada quando começou a fazer sucesso com essas produções B de consumo popular. Lutador há muitos anos ele já tinha inclusive dividido as telas com o mito Bruce Lee em 1972 no filme “O Vôo do Dragão”. O auge de sua carreira na década de 80 aconteceu porque a produtora Cannon Group resolveu investir em uma série de filmes com ele. Produções simples mas com foco completo em ação e lutas. O público alvo era o mais popular que frequentava as salas em dias de desconto. A fórmula deu muito certo e Norris saiu colecionando sucessos. Depois desse Braddock vieram novos êxitos de bilheteria como “Invasão USA”, “O Código do Silêncio”, “Comando Delta” (com o ator Lee Marvin) e “Aventureiros de Fogo” (uma espécie de Chuck Norris vira Indiana Jones). Braddock, o soldado mais durão da história militar norte-americana, que comia ratos selvagens no café da manhã, ainda ganharia mais dois filmes (na realidade os dois primeiros foram rodados juntos mas lançados separadamente). “Comando Delta” também ganharia uma continuação. Infelizmente o reinado de Norris nos cinemas acabou junto com a década de 80. Depois do fim da Cannon, Chuck Norris se voltou para a TV onde confortavelmente estrelou o seriado “Walker, Texas Ranger” por várias temporadas. No Brasil a série foi exibida no SBT com grande sucesso de audiência demonstrando que o público brasileiro ainda continuava fã do ator. Hoje aos 70 anos ele retorna em grande estilo com “Mercenários 2”. Nada mal para um baixinho invocado que a despeito dos filmes B que estrelou conseguiu seu lugar ao sol no cinema americano da década de 80. Esse sem dúvida foi seu maior feito.

Braddock – O Super Comando (Missing in Action, Estados Unidos, 1984) Direção: Joseph Zito / Roteiro: Arthur Silver, Larry Levinson / Elenco: Chuck Norris, M. Emmet Walsh, David Tress / Sinopse: O Coronel das forças especiais James Braddock (Chuck Norris) não desistirá de seu objetivo até trazer o último soldado americano prisioneiro da Guerra do Vietnã.

Pablo Aluísio.

domingo, 3 de janeiro de 2010

Conan, o Bárbaro

O tempo passa, o tempo voa. Fazia muito tempo que tinha assistido "Conan O Bárbaro", tanto tempo que nem lembrava mais (pra falar a verdade me recordo muito mais de "Conan, o Destruidor" talvez por ter reprisado mais vezes na tv). Pois bem, rever Conan depois de tantos anos foi uma surpresa e tanto. O filme tem um tom bem mais sério e se leva mais a sério também do que sua continuação. Isso talvez se explique pela presença do sempre correto diretor John Milius (e que no fundo era mais um bom roteirista do que qualquer outra coisa). Aqui ele acaba juntando elementos de várias contos do personagem original e se sai muito bem no resultado final. Oliver Stone inclusive é um dos roteiristas o que mostra que nesse aspecto o filme realmente tem suas qualidades.

Conan aliás pode ser considerado o primeiro grande filme (em termos de popularidade) da carreira de Arnold Schwarzenegger, que na época era apenas um monte de músculos esforçado. Fica óbvio em cada cena que ele não sabia atuar mas seus pequenos dotes dramáticos são compensados pelas presenças de dois outros atores de peso na área: Max von Sydow (infelizmente muito pouco aproveitado) e James Earl Jones (no papel de um líder messiânico, meio homem e meio serpente). Claro que após tantos anos (o filme vai completar 30 anos de sua realização no ano que vem) os efeitos ficaram datados mas para falar a verdade ainda funcionam nos dias de hoje (principalmente o uso das pitons em cena). Enfim, foi bacana rever "Conan, o Bárbaro" para relembrar da infância. Bons tempos que não voltam mais.

Conan, o Bárbaro (Conan the Barbarian, Estados Unidos, 1982) Direção: John Milius / Roteiro: John Milius, Oliver Stone baseado na obra de Robert E. Howard / Elenco: Arnold Schwarzenegger, James Earl Jones, Max von Sydow / Sinopse: Conan (Arnold Schwarzenegger) é criado como escravo. Cresce em meio a um ambiente selvagem e brutal. Depois de adulto se envolve em inúmeras aventuras.

Pablo Aluísio.

Conan, O Destruidor

Conan (Arnold Schwarzenegger) faz um pacto com a rainha Taramis (Sarah Douglas): ele ajudará a recuperar um artefato mítico que trará de volta uma antiga divindade à vida e em troca a rainha ressuscitará sua antiga amada, Valéria, morta por inimigos no primeiro filme da saga. Em uma jornada de muitos perigos, feitiços e lutas, Conan se une à guerreira Zula (Grace Jones), ao mago Akiro (Mako) e ao ladrão Malak (Tracey Walter) para escoltar a princesa virgem na busca do chifre que ressuscitará o terrível Deus Dagoth. "Conan, o Destruidor" é a sequência do grande sucesso "Conan, o Bárbaro". O roteiro aqui é mais fantasioso do que no filme original. Conan recebe uma visão mais aventuresca, menos épica, com ênfase nas lutas contra monstros e seres mágicos. Não há a preocupação de se fazer um filme mais sério e adulto como vimos na produção anterior. Aqui o tom é bem mais juvenil, procurando obviamente alcançar um maior público, principalmente de jovens leitores das aventuras do famoso bárbaro. Isso porém não significa que o filme seja ruim, pelo contrário, ainda hoje funciona muito bem como aventura escapista.

Novamente na pele do guerreiro temos Arnold Schwarzenegger. Ele parece mais à vontade e mais maduro do que no filme anterior. Para quem gosta de halterofilismo indico a produção pois Arnold surge no auge de sua forma física. Provavelmente seja o filme em que esteja mais definido. A produção conta com bons e bem feitos cenários, uma trilha sonora evocativa e o mais curioso: seus efeitos não envelheceram tanto assim. Obviamente que não podemos comparar efeitos analógicos como os que vemos aqui com a tecnologia digital dos dias atuais mas temos que admitir que tudo funciona a contento nesse quesito. São várias as técnicas usadas no filme, sendo as principais o uso de Animação (com o ser alado que leva a princesa para a ilha) e de Animatronics (no Deus Dagoth). A direção foi entregue ao veterano Richard Fleischer com grande experiência em cinema de fantasia. O resultado revisto agora ainda soa satisfatório mostrando a superioridade desses dois primeiros filmes feitos com o personagem Conan e diga-se de passagem bem melhores do que seu recente, desastroso e medíocre remake lançado há pouco tempo.

Conan, O Destruidor (Conan The Destroyer, Estados Unidos, 1984) Direção: Richard Fleischer / Roteiro: Roy Thomas baseado no personagem criado por Robert E. Howard / Elenco: Arnold Schwarzenegger, Grace Jones, Olivia D´Abo, Mako, Tracey Walter, Will Chamberlain, Sarah Douglas / Sinopse: Conan (Arnold Schwarzenegger) faz um pacto com a rainha Taramis (Sarah Douglas): ele ajudará a recuperar um artefato mítico que trará de volta uma antiga divindade à vida e em troca a rainha ressuscitará sua antiga amada, Valéria, morta por inimigos no primeiro filme da saga. Em uma jornada de muitos perigos, feitiços e lutas, Conan se une à guerreira Zula (Grace Jones), ao mago Akiro (Mako) e ao ladrão Malak (Tracey Walter) para escoltar a princesa virgem na busca do chifre que ressuscitará o terrível Deus Dagoth.

Pablo Aluísio.

sábado, 2 de janeiro de 2010

O Selvagem da Motocicleta

Um dos melhores filmes já feitos sobre delinquência juvenil e isso não é pouco já que existem clássicos absolutos sobre o tema (vide O Selvagem, Juventude Transviada e Vidas Amargas, entre outros). Coppola novamente dá show de direção com imagens inovadoras em cada cena (o filme tem tiradas ótimas como os peixes coloridos em um filme totalmente preto e branco e as nuvens marcando a passagem do tempo etc). Embora seja estrelado pelo ídolo dos anos 80, Matt Dillon, quem se destaca mesmo, com uma interpretação a la Actors Studio, é Mickey Rourke.

Interpretando um personagem chamado apenas de "Motorcycle Boy", Rourke desfila todo seu talento, mostrando um jovem sem perspectivas, melancólico, introspectivo e completamente cool. Na época de lançamento do filme foi comparado aos grandes ídolos do passado como Marlon Brando e James Dean. Outro destaque fica com Dennis Hooper, fazendo um pai ausente, com problemas de alcoolismo e totalmente fracassado. Diane Lane, muito jovem e linda, e Nicolas Cage (com vasta cabeleira) completam o talentoso grupo de atores e de quebra demonstram como o tempo muda as pessoas. A trilha sonora é de Stewart Copeland, do The Police, o que traz uma ótima atmosfera própria para o filme.

O Selvagem da Motocicleta (Rumble Fish, Estados Unidos, 1983) Direção: Francis Ford Coppola / Roteiro: Francis Ford Coppola, S. E. Hinton / Trilha Sonora: Stewart Copeland / Elenco: Matt Dillon, Mickey Rourke, Diane Lane, Dennis Hopper, Diana Scarwid, Vincent Spano, William Smith, S. E. Hinton, Sofia Coppola, Chris Penn, Michael Higgins, Nicolas Cage, Tom Waits, Laurence Fishburne / Sinopse: Jovem motoqueiro desiludido (Mickey Rourke) tenta ajudar seu irmão e seu pai após se tornar um ícone dos jovens moradores do local.

Pablo Aluísio.

Quando os Jovens se Tornam Adultos

Assisti Diner há muitos anos. Hoje resolvi assistir de novo. Engraçado mas muitas vezes esquecemos os filmes, mesmo quando gostamos deles. É mais ou menos o que aconteceu comigo em relação a esse filme. Nada como uma revisão para refrescar a memória. O elenco é muito bom com vários atores que estavam quase "chegando lá" (todos eles acabariam fazendo uma ou outra coisa marcante em suas carreiras nos anos que viriam). Dentre eles Steve Gutemberg (creditado como o principal ator do elenco e que estrelaria duas franquias de sucesso, Loucademia de Policia e Cocoon), Kevin Bacon (antes de estourar nas bilheterias com Footloose) e até Paul Reisner (que iria fazer sucesso anos depois na série de TV "Louco por Você").

Embora todos eles sejam talentosos o destaque principal do elenco é mesmo Mickey Rourke. Fazendo um jovem que se mete em apuros por dever a um apostador, Mickey rouba literalmente todas as cenas em que aparece. Com nuances à la James Dean, Rourke (na época apenas um jovem promissor vindo do Actors Studio) faz jus ao seu talento de bom ator. O roteiro é centrado em diálogos bem bolados do grupo de amigos que estão numa fase em que não são mais jovens demais e devem decidir o rumo de suas vidas (o título nacional resume bem a situação). Além disso é semi biográfico por parte do diretor Barry Levinson, que aqui narra histórias de sua juventude na sua querida Baltimore. Enfim, é um filme excelente para quem quiser conferir boas atuações, tudo com leveza e um fino bom humor

Quando os Jovens se Tornam Adultos (Diner, Estados Unidos, 1982) Direção: Barry Levinson / Produção: Jerry Weintraub / Roteiro: Barry Levinson / Fotografia: Peter Sova / Trilha Sonora: Bruce Brody, Ivan Kral / Elenco: Steve Guttenberg, Daniel Stern, Mickey Rourke, Kevin Bacon, Tim Daly, Ellen Barkin, Paul Reiser, Kathryn Dowling, Michael Tucker / Sinopse: Cinco amigos na década de 50 em Baltimore passam pelas dificuldades e dramas típicos de suas idades.

Pablo Aluísio.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Filmografia Comentada: Mickey Rourke

Mickey Rourke estourou nos anos 80. Na época foi indicado como o mais promissor sucessor da geração de Brando, Dean e Clift. Sua filmografa naquela década foi realmente formada por excelentes filmes como "Coração Satânico", "Barfly", "O Ano do Dragão" e tantos outros. Após abandonar o cinema para se dedicar ao boxe a carreira de Rourke entrou em parafuso nos anos 90. Apenas recentemente o ator deu a volta por cima por seu papel em "O Lutador" ao qual venceu o Globo de Ouro e concorreu ao Oscar. Segue abaixo algumas resenhas sobre filmes de Mickey Andrew Rourke.

O Selvagem da Motocicleta
Um dos melhores filmes já feitos sobre delinquência juvenil e isso não é pouco já que existem clássicos absolutos sobre o tema (vide O Selvagem, Juventude Transviada e Vidas Amargas, entre outros). Coppola novamente dá show de direção com imagens inovadoras em cada cena (o filme tem tiradas ótimas como os peixes coloridos em um filme totalmente preto e branco e as nuvens marcando a passagem do tempo etc). Embora seja estrelado pelo ídolo dos anos 80, Matt Dillon, quem se destaca mesmo, com uma interpretação a la Actors Studio, é Mickey Rourke. Interpretando um personagem chamado apenas de "Motorcycle Boy", Rourke desfila todo seu talento, mostrando um jovem sem perspectivas, melancólico, introspectivo e completamente cool. Na época de lançamento do filme foi comparado aos grandes ídolos do passado como Marlon Brando e James Dean. Outro destaque fica com Dennis Hooper, fazendo um pai ausente, com problemas de alcoolismo e totalmente fracassado. Diane Lane, muito jovem e linda, e Nicolas Cage (com vasta cabeleira) completam o talentoso grupo de atores e de quebra demonstram como o tempo muda as pessoas. A trilha sonora é de Stewart Copeland, do The Police, o que traz uma ótima atmosfera própria para o filme.

Quando os Jovens se Tornam Adultos
Assisti Diner há muitos anos. Hoje resolvi assistir de novo. Engraçado mas muitas vezes esquecemos os filmes, mesmo quando gostamos deles. É mais ou menos o que aconteceu comigo em relação a esse filme. Nada como uma revisão para refrescar a memória. O elenco é muito bom com vários atores que estavam quase "chegando lá" (todos eles acabariam fazendo uma ou outra coisa marcante em suas carreiras nos anos que viriam). Dentre eles Steve Gutemberg (creditado como o principal ator do elenco e que estrelaria duas franquias de sucesso, Loucademia de Policia e Cocoon), Kevin Bacon (antes de estourar nas bilheterias com Footloose) e até Paul Reisner (que iria fazer sucesso anos depois na série de TV "Louco por Você"). Embora todos eles sejam talentosos o destaque principal do elenco é mesmo Mickey Rourke. Fazendo um jovem que se mete em apuros por dever a um apostador, Mickey rouba literalmente todas as cenas em que aparece. Com nuances à la James Dean, Rourke (na época apenas um jovem promissor vindo do Actors Studio) faz jus ao seu talento de bom ator. O roteiro é centrado em diálogos bem bolados do grupo de amigos que estão numa fase em que não são mais jovens demais e devem decidir o rumo de suas vidas (o título nacional resume bem a situação). Além disso é semi biográfico por parte do diretor Barry Levinson, que aqui narra histórias de sua juventude na sua querida Baltimore. Enfim, é um filme excelente para quem quiser conferir boas atuações, tudo com leveza e um fino bom humor

O Ano do Dragão
Um dos grandes sucessos de Mickey Rourke no mercado de VHS que naquele momento estava invadindo todos os lares aqui no Brasil e lá fora. A fita, um policial movimentado e com ares de fita de ação, caiu bem em cheio no gosto popular. O Ano do Dragão foi dirigido pelo cineasta Michael Cimino que já havia trabalhado com Mickey Rourke em um dos maiores fracassos de sua carreira: o caro e mal sucedido O Portal do Paraíso. O roteiro é de Oliver Stone, na época apenas um roteirista de sucesso que iria em breve estourar com o grande sucesso Platoon que mostrava as vísceras da Guerra do Vietnã. Curiosamente o policial interpretado por Rourke aqui também é veterano do Vietnã e odeia asiáticos em geral. Numa das cenas mais famosas ele desdenha de um oriental que tenta lhe explicar a importância da cultura milenar do oriente. Mickey Rourke surge em cena com os cabelos pintados de branco e seu personagem se chama Stanley White (branco) - seria mais uma reafirmação implícita do poder da raça branca sobre a amarela proposta discretamente por Oliver Stone em seu texto? Quem sabe o que se passava afinal na cabeça dele, só podemos mesmo deduzir sobre todas essa mensagens subliminares presentes no roteiro.

9 1/2 Semanas de Amor
Mickey Rourke foi um dos maiores símbolos sexuais do cinema nos anos 80. Sabia disso? Hoje ele está com sua aparência prejudicada por várias cirurgias plásticas mal realizadas mas há vinte anos o ator era considerado um sex symbol absoluto. Ele inclusive ditou moda no jeito de se vestir, andar, se comportar, sempre surgindo com barba por fazer dando aquele toque desleixado que as mulheres adoravam. Ninguém era mais cool do que Mickey Rourke em Hollywood. Esse "9 1/2 Semanas de Amor" foi feito para capitalizar em cima dessa imagem. Basicamente o filme não possui muita substância ou conteúdo, sendo mesmo uma produção que apela para a sensualidade, para o instinto do espectador. O roteiro tem ecos de "O Último Tango em Paris" pois as situações são muito parecidas entre si. Duas pessoas se conhecem, se envolvem e ignoram todos os demais fatores como convenções sociais, tabus e preconceitos. Eles se bastam a si mesmos. No fundo somos levados a presenciar apenas o encontro avassalador entre um homem e uma mulher que levam a paixão até suas últimas consequências. É em essência a adoração do corpo, do prazer sexual, sem culpa, sem mancha, sem medo. A paixão se bastando a si mesma. Como é um filme sensorial não existem grandes falas ou teses em debate, nada disso. A paixão não precisa ser intelectual, bastando a química funcionar entre os dois corpos e nada mais. Nada de conversas intelectuais ou algo do tipo. É de pele, calor, sensualidade, que o filme trata. Nesse ponto o diretor Adrian Lyne foi muito feliz pois realizou uma metáfora do desejo sexual livre de tabus ou sentimentos de culpa. Tudo muito simples. Um homem, uma mulher e a paixão que dura exatamente nove semanas e meia de amor. Tudo tão simples (e definitivo). Quem nunca passou por uma paixão assim? Essas geralmente são justamente as que mais duram pois a aventura traz um sabor todo especial para o libido tanto masculino quanto feminino. Casamentos são chatos e aborrecidos. Relacionamentos sérios demais também. Bom mesmo é se entregar de corpo e alma a momentos assim, sem se preocupar com o dia de amanhã! Depois desse filme Mickey Rourke fez filmes bem melhores como "Coração Satânico" ou "Barfly", por exemplo, mas nunca mais conseguu repetir o fenômeno comercial e social de "9 1/2 Semanas de Amor " que ficou em cartaz em São Paulo por anos a fio, se tornando o maior cult movie de sua carreira. As cenas viraram referências e influenciaram comercias de tv, videoclips e muito mais. Kim Basinger também nunca mais esteve tão bela e sensual como aqui. É aquela coisa, certos filmes se tornam a cara de uma geração justamente por terem sido realizados em determinada época. Esse é um caso típico. Amado por uns, odiado por outros, o fato é que a áurea de cult permanece intacta. Em sua simplicidade viril e instintiva o filme conseguiu atingir o público de forma muito especial. Era um reflexo da cultura sexual de sua época. Só isso já é o bastante para transformar a produção em um marco do cinema dos anos 80.

Coração Satânico
O filme definitivo de Mickey Rourke na década de 1980. Aqui ele interpreta o detetive de New Orleans Harry Angel que é contratado pelo misterioso Louis Cypher (Robert De Niro) para localizar um músico chamado Johnny Favorite que lhe deve algo (não se sabe o quê exatamente). Ao longo da investigação Angel vai descobrindo um sórdido mundo de feitiços, bruxarias e mortes. Sem entender exatamente o que está acontecendo ao seu redor ele cai em uma complicada teia de mentiras e falsas pistas que acabará o levando a descobrir um terrível segredo sobre si mesmo. Esse é seguramente um dos melhores filmes de Mickey Rourke onde tudo funciona excepcionalmente bem. O roteiro é um primor e a ambientação em New Orleans é simplesmente perfeita. A cidade, uma das mais interessantes dos EUA pois tem um cultura bem peculiar e própria, acaba virando também um dos principais elementos que rondam o mistério que o detetive Angel tenta desvendar. As cenas em que Rourke e De Niro contracenam são maravilhosas e ficaram marcadas como algumas das melhores do cinema dos anos 80. Robert De Niro inclusive colocou por conta própria vários elementos para a caracterização de seu personagem. Seu figurino, maquiagem, cabelos e trejeitos são criações do próprio ator. Aqui fica provado de uma vez por todas o excepcional talento do diretor Alan Parker em construir filmes marcantes e edificantes. Um cineasta bastante autoral que enfrentou ao longo de sua carreira vários problemas com os estúdios. Na época do lançamento o filme teve que lidar com a classificação etária por causa de cenas consideradas violentas ou explícitas demais. Há inclusive uma cena de sexo ardente onde as paredes começam a sangrar em profusão. O estúdio então ordenou a Parker que realizasse um novo corte para que o filme não se tornasse proibido a menores de 18 anos. Para evitar que isso acontecesse então Parker promoveu algumas alterações mas nada que maculasse o filme em si. Mesmo assim o resultado nas bilheterias não foi muito satisfatório. O tempo porém consagrou "Angel Heart" é hoje o filme é considerado uma obra prima, uma das melhores produções ao estilo noir feitas na era moderna. Cult por excelência, "Coração Satânico" é uma preciosidade, não deixe de assistir ou rever sempre que possível.

Prece Para um Condenado
Um dos melhores filmes da carreira de Mickey Rourke também é um de seus mais subestimados. Nesse excelente filme o ator interpreta um terrorista do IRA (Exército Revolucionário Irlandês) que entra em crise existencial após um atentado mal sucedido aonde pessoas e crianças inocentes morreram. Rourke ficou tão comovido pela luta dos irlandeses contra os ingleses que acabou tatuando a sigla do grupo em seu próprio braço. Nas filmagens deu entrevistas corajosas defendendo a causa do IRA mesmo sabendo que tais declarações iriam mais cedo ou mais tarde se voltarem contra ele. As filmagens não foram simples. Logo no primeiro dia de trabalho Rourke entrou numa série briga com um dos produtores executivos. Acontece que Mickey aceitou realizar o filme baseado em um roteiro que o estúdio queria mudar de última hora. Com medo de perdas financeiras os produtores queriam deixar a crise existencial do personagem de Rourke de lado para investir em mais ação. O ator ficou possesso. Numa das entrevistas que deu para a agência Reuters atacou o produtor do filme: "Esse cara pousou de pára quedas no primeiro dia de gravação e disse que o roteiro estava muito introspectivo e sem movimento. Então quis mudar tudo, tirando o drama para colocar cenas de tiroteio e ação. Era atroz! Ele queria um filme de Chuck Norris! Eu falei que se mudassem iria embora naquele mesmo dia. Se você estiver lendo essa entrevista saiba que você não passa de um imbecil!". A briga de Rourke pareceu surtir algum efeito mas os problemas com o filme continuaram. Pelo tema polêmico a produção enfrentou sérios problemas com o estúdio antes de seu lançamento. Foi proposta uma mudança de edição, numa tentativa de amenizar o tom provocativo do roteiro. Rourke entrou na briga novamente e foi aos jornais denunciar o que estavam fazendo com o filme. No meio da confusão o filme foi mal lançado e distribuído, o que talvez explique o fato de ser tão pouco conhecido. Rourke também ficou revoltado com o corte final dado pelos produtores. Em sua forma de pensar muito do potencial do filme foi simplesmente jogado fora. De qualquer forma a fita chegou ao mercado de vídeo no Brasil na época e alcançou um relativo sucesso em nossas locadoras no encalço de "Coração Satânico". Hoje é um filme complicado de se achar mas merece ser conhecido pelo tema importante e pela ótima atuação de Rourke, em um de seus momentos mais inspirados. Certamente poderia ter sido melhor se não tivesse enfrentado tantos problemas mas pela coragem de Rourke vale muito a pena ser redescoberto.

Barfly
"Barfly" (literalmente "mosca de bar") foi baseado nos escritos do autor maldito Charles Bukowski. Seu foco se concentra nos chamados "losers" da sociedade americana, os pobres, os marginalizados, os alcoólatras, as prostitutas e os moradores de rua. Ele própria definiu Barfly como uma crônica de muitas de suas noites de bebedeiras na juventude. Aqui Mickey Rourke encarna o próprio alter ego de Bukowski em uma caracterização brilhante que injustamente não foi indicada ao Oscar! Ele se despe de qualquer inibição e surge em cena barbado, gordo, decadente, bêbado. Contracenando com ele a grande atriz Faye Dunaway em delicada atuação. O filme tem um clima de melancolia e falta de esperanças que incomoda mas ao mesmo tempo consegue criar lirismo e afeição do espectador com os personagens, por mais complicados que eles sejam. Rourke para melhor atuar passou a frequentar o submundo de Los Angeles bem antes do começo das filmagens. Também procurou conhecer o autor. Em entrevista Mickey explicou que teve um certo receio em encontrar-se pessoalmente com Bukowski pois podia não ir com sua cara e isso prejudicaria sua atuação e o filme em si. Mas depois ponderou e decidiu que seria melhor o encontrar cara a cara. Depois de apresentações formais Rourke então o chamou para tomar todas num boteco perto do set de filmagens e assim acabaram se aproximando. Não demorou para que uma simpatia mútua surgisse entre eles. O filme foi dirigido pelo mestre Barbet Schroeder que já havia mostrado seu grande talento em vários filmes de grande sensibilidade emocional. Sua direção é concisa mas marcante. "Barfly" é uma produção indispensável para quem admira o trabalho de Mickey Rourke, um filme que é uma das maiores obras primas de sua filmografia. Imperdível.

Homeboy
Lutador fracassado de boxe tenta se redimir em sua vida profissional e afetiva participando de uma última luta decisiva em sua vida. "Homeboy" é provavelmente o filme mais pessoal da carreira de Mickey Rourke mas é pouquíssimo conhecido entre o público em geral. O roteiro foi escrito por ele usando de um pseudônimo (Eddie Cook). Quem apreciou "O Lutador" com o ator vai certamente apreciar também "Homeboy". Eu tenho uma entrevista antiga do ator feita no lançamento de "Coração Satânico" em que ele diz que seu próximo filme seria a realização de um de seus sonhos, um roteiro que mostrava a vida de um lutador de boxe fracassado que queria mostrar seu valor mas ao mesmo tempo era manipulado por um sujeito que queria ganhar as apostas das lutas que ele fazia. Pois bem era justamente de "Homeboy" que Rourke se referia naquela ocasião. Porque Mickey Rourke teve tanto interesse em filmar "Homeboy"? Ora. por causa da própria vida do ator. Ele tinha sido lutador de boxe antes de estourar como intérprete e tinha esse desejo de ter vencido no esporte que adorava. Infelizmente os palcos trouxeram a Rourke um meio de vida que o boxe não lhe proporcionava. Interessante é que após filmar "Homeboy" ele ficou tão influenciado pelo personagem que resolveu voltar aos ringues na vida real, volta essa que só durou algumas lutas já que sua idade não permitia continuar. O ritmo de "Homeboy" é lento, bastante contemplativo. Rourke desfila seu estilo próprio numa caracterização bem sutil. O filme foi dirigido por Michael Seresin, que havia trabalhado como diretor de fotografia de "Coração Satânico". O curioso é que esse aliás foi o único filme dirigido por Seresin pois ele na verdade sempre preferiu trabalhar como diretor de fotografia. Talvez essa falta de intimidade com a direção de atores tenha deixado "Homeboy" um pouco mais lento do que seria adequado mas mesmo assim nada que comprometa o resultado final. O elenco de apoio conta com a sempre interessante participação de Christopher Walken. Debra Feuer, a atriz que contracena com Rourke era sua namorada na época. Enfim fica a dica para os fãs de Rourke."Homeboy", um filme que diz muito sobre a vida e a personalidade do próprio ator. Uma produção pouco conhecida que merece ser redescoberta.

Francesco
Uma ideia no mínimo inusitada: colocar o ator outsider Mickey Rourke para interpretar São Francisco de Assis. O mais interessante é que tudo acaba dando certo. Rourke se mostra dedicado em cena encarnando um dos personagens mais importantes do Cristianismo, um homem rico de família influente que na Idade Média resolve largar tudo isso para se dedicar aos fundamentos mais profundos dos ensinamentos de Cristo: o amor ao próximo, a caridade, o despojamento do mundo material e a busca pela elevação espiritual. Seja você católico ou não o fato é que a história desse homem realmente impressiona. Na época Mickey Rourke foi bastante elogiado pela sua sensível atuação, principalmente na cena final quando o santo finalmente recebe os sinais de consagração que tanto almejava em vida.

Um Rosto Sem Passado
Um bom thriller de suspense e ação aonde Rourke interpreta Johnny Handsome (algo como Johnny "bonitão") um sujeito que muda seu rosto para fugir de seu passado de crimes e contravenções. Aqui Rourke foi dirigido pelo correto cineasta Walter Hill. Contracenando com ele a linda e muito sensual Ellen Barkin, na época no auge de sua carreira. A produção não fez muito sucesso nos cinemas mas conseguiu um relativo sucesso no mercado de vídeo quando lançado depois. Não é um filme com a mesma qualidade que Rourke vinha mantendo em sua carreira mas pelo menos é digno, não chegando a comprometer.

Orquídea Selvagem
Tentativa muito mal sucedida de reprisar o sucesso de Nove Semanas e Meia de Amor. Aqui Rourke se une ao roteirista do filme de Adrian Lyne para voltar ao velho argumento que tentava trazer para as telas uma sensualidade à flor da pele. Rodado no Brasil onde Rourke criou todo tipo de atrito com a imprensa local o filme não se traduziu em um bom produto. O roteiro é sem foco, disperso e cheio de furos. Não há uma boa estória e o personagem de Rourke é vazio e sem propósito. Nem a bonita presença de Jacquelne Bisset salva o filme de ser o primeiro grande abacaxi da carreira de Mickey Rourke. Esse pelo menos parece ter gostado das filmagens pois se apaixonou por Carré Otis, a modelo que era sua partner nas cenas mais sensuais. Anos depois se casaria com ela. No final Wild Orchid não fez o menor sucesso, apesar de que no Brasil conseguiu uma melhor repercussão em termos comerciais.

Horas de Desespero
Refilmagem de um antigo sucesso com Humphrey Bogart. No filme Rourke interpreta um dos assaltantes que invadem uma casa e fazem seus moradores de reféns. Contracenando com ele o grande Anthony Hopkins. Dirigido pelo cineasta Michael Cimino (o mesmo de O Ano do Dragão) o filme tentava repetir o bom resultado do anterior. Apesar da boa produção e dos diálogos bem trabalhados o filme não conseguiu alcançar um bom resultado comercial. Além disso em decorrência dos constantes atritos de Rourke com a imprensa ele acabou sendo "premiado" com uma indicação ao Framboesa de Ouro por sua atuação aqui. Certamente uma injustiça pois sua atuação é correta, sem máculas. O que pareceu mesmo foi tudo não passar de um ato de vingança dos jornalistas contra Rourke por algumas de suas atitudes fora das telas.

Harley Davidson & Marlboro Man
Depois de vários anos revi esse filme cujo nome mais parece comercial de empresas: Harley Davidson & Marlboro Man. Curiosamente não parece ser o caso pois as próprias empresas colocaram um aviso logo no começo do filme explicando que não se tratava de marketing disfarçado. Na realidade o uso dessas marcas vem de encontro à proposta de se criar personagens de estilo. Tanto o Cowboy (Don Johnson) quanto o Motoqueiro (Mickey Rourke) são apenas estereótipos na realidade. O mesmo vale para os bandidos, em casacos de couro à la Matrix eles também são puro design, sem qualquer tipo de profundidade por trás. O filme foi dirigido por Simon Wincer que havia se destacado pelo estranho filme "DARYL" e que curiosamente iria dirigir seu maior sucesso após esse aqui, o filme sessão da tarde "Free Willy". "Harley Davidson & Marlboro Man" é uma fita assumidamente simples (apesar de todo o estilo) e investe basicamente em várias cenas de ação - com destaque para o salto na piscina em um hotel de Las Vegas e o tiroteio em um cemitério de aviões da força aérea americana. Mickey Rourke e Don Johnson estão em seus tipos habituais. Na verdade fizeram o filme porque a carreira de ambos começava a declinar e tentavam emplacar um sucesso de bilheteria. Não conseguiram. O filme rendeu pouco e não conseguiu se pagar nos cinemas (a coisa só melhorou um pouco depois no mercado de vídeo). Enfim é isso, apesar de ter sido rodado nos anos 90 o filme mais parece um produto da década de 80. Se você gosta de filmes daqueles anos pode se divertir sem problemas.

Areias Brancas
Depois de alguns fracassos de bilheteria Mickey Rourke tentou recuperar o antigo sucesso com mais um thriller de ação e suspense. O filme foi dirigido pelo bom cineasta Roger Donaldson. Mickey Rourke interpreta um perigoso traficante de armas e drogas que é caçado por um xerife feito por Willem Dafoe. O elenco ainda contava com Samuel L. Jackson em boa atuação como um agente federal também em busca de Rourke. O filme tem bom ritmo e excelentes tomadas de ação. É um policial dos bons mas infelizmente não conseguiu alcançar bom resultado comercial. Chegou a ser lançado nos cinemas brasileiros mas também repetiu o resultado morno das bilheterias norte-americanas.

FTW
Produção classe B com Rourke no meio do universo country norte-americano. O título do filme, as iniciais FTW (Fuck The World), foram consideradas de extremo mal gosto na época. O roteiro foi escrito pelo próprio Mickey Rourke que trouxe para dirigir o filme o desconhecido Michael Karbelnikoff. Não conseguiu espaço nos cinemas brasileiros sendo lançado diretamente no mercado de vídeo. O argumento não é dos melhores. Rourke interpreta Frank Wells que após um período na prisão tenta reerguer sua vida como peão de rodeios. Apesar de curioso por explorar esse mundo de competições de rodeio o filme não consegue decolar, não conseguido atingir qualquer repercussão, seja do público, seja da crítica.

Brincando com o Perigo
Mais uma tentativa de Rourke em voltar a realizar bons filmes. A produção B tem jeito de telefilme e Rourke aceitou trabalhar por um cachê bem abaixo do que ele vinha recebendo desde então. Apesar das boas intenções o filme não funciona. Lidando com roubos a bancos, quadrilhas de assaltantes e muita ação a fita não consegue convencer. Apesar disso até que conseguiu um modesto resultado nas bilheterias americanas embora no Brasil não tenha conseguido espaço no circuito comercial ficando inédito por aqui.

Bullet
Outro filme que segue praticamente desconhecido do público brasileiro. É uma modesta produção rodada em Nova Iorque. No filme Rourke interpreta um ex presidiário (de novo?) que se torna joalheiro no Brooklin, um bairro negro da cidade. O que vale mesmo aqui é o elenco de apoio que conta com os bons Adrien Brody e o rapper Tupac Shakur que depois seria assassinado se tornando um ídolo do gênero musical que o consagrou. Tupac era amigo pessoal de Rourke e esse sentiu bastante sua morte.

Traído Pela Paixão
Péssimo filme que Rourke só topou fazer por causa do cachê mesmo. Na trama ele interpreta o psiquiatra Ed Altman que se vê envolvido em uma teia de conspirações de assassinato e morte envolvendo seus pacientes. O roteiro chato e confuso não leva a lugar nenhum. O filme ainda tenta extrair alguma sensualidade de algumas cenas mais sensuais mas tudo é em vão. Um dos piores momentos de Rourke em sua carreira. Essa é outra produção com Mickey Rourke que permaneceu inédito no Brasil sendo desconhecido do grande público.

A Colônia
Com a carreira em frangalhos Mickey Rourke aceitou dar uma força ao amigo Jean Claude Van Damme participando desse filme. Ser vilão em filmes de pancadaria com Van Damme não era bem o que se esperava do "ex-futuro Marlon Brando" mas como ele vinha de uma sucessão de filmes sem expressão até que trabalhar nesse tipo de filme, que era muito popular na época, não parecia assim uma má idéia. De qualquer forma a Colônia tem seus méritos pois foi dirigido pelo cineasta Hark Tsui um mestre no gênero. A produção fez relativo sucesso e serviu para lembrar aos produtores que Rourke ainda era um nome a se levar em conta na escalação de elenco de filmes populares, pelo menos.

9 1/2 Semanas de Amor 2
Em uma tentativa desesperada de emplacar algum sucesso em sua cambaleante carreira, Mickey Rourke aceitou fazer essa continuação de um de seus maiores sucessos. O projeto soava como oportunismo puro e tirando Rourke nenhum membro do filme original estava envolvido. Nenhum sinal de Kim Basinger ou Adrian Lyne. Como era de se esperar de um filme assim tudo deu errado. Foi massacrado pela crítica e um tremendo fracasso de bilheteria. Mesmo que a produção procurasse ser de bom gosto, com finas locações em Paris nada conseguiu salvá-la do desastre completo. Rourke continuava sem sorte e com o nome associado a filmes que não conseguiam fazer sucesso nos cinemas.

O Homem Que Fazia Chover
Nessa altura da carreira Mickey Rourke tinha duas opções a seguir: continuar a estrelar produções B em que seu nome aparecia como o astro principal ou aceitar fazer personagens coadjuvantes em filmes melhores. Felizmente ele tentou o segundo caminho aqui. Fazendo um papel secundário nesse excelente drama de tribunal dirigido pelo grande diretor Francis Ford Coppola. O personagem de Rourke é um presente após tantos filmes sem expressão. Aqui ele interpreta um advogado "tubarão" chamado Bruiser Stone. Um profissional nada ético que vive de dar golpes em seguradoras. O Homem Que Fazia Chover foi um oásis no meio dos filmes de segundo escalão que Rourke vinha participando. Um de seus melhores momentos em anos nas telas.

O Implacável
Mickey Rourke volta a ser vilão em um filme de ação. Aqui ele é o antagonista para o astro Sylvester Stallone. O filme é um remake de um antigo filme estrelado por Michael Caine. O personagem de Rourke, Cyrus, não é muito relevante. Na realidade a produção foi uma tentativa de levantar a carreira de Stallone que parecia ter perdido o brilho para excelentes bilheterias. Aqui ele está em cena com um cavanhaque fora de moda em atuação muito fraca. O filme não fez sucesso e foi mal recebido pela crítica. Como o personagem de Rourke não era central ele pelo menos foi poupado de ser acusado de ser o culpado por mais esse fracasso em sua filmografia.

A Promessa
Curiosamente um filme que apesar de seus méritos segue pouco conhecido e comentado. Em "A Promessa" o diretor Sean Penn mostra que tem bastante talento em contar enredos edificantes. Jack Nicholson está excelente na pele do policial Jerry Black, um sujeito que em plena aposentadoria resolve solucionar o último caso de sua carreira, custe o que custar. O filme lida com um serial killer pedófilo especializado em assassinar garotinhas de nove anos. Seu modus operandi é sempre o mesmo e com base nisso o personagem de Nicholson não medirá esforços para pegar o verdadeiro assassino. Sua caça beira às raias da obsessão pessoal e o diretor joga muito bem com essa dualidade, deixando o espectador sem saber se o tira está realmente chegando perto do verdadeiro psicopata ou se está simplesmente enlouquecendo! O elenco é excepcionalmente bom. Jack Nicholson deixa seus personagens de sorriso maluco para trás e aqui interpreta um sujeito sério, um tanto angustiado e pouco amistoso. Seu trabalho é contido e na minha opinião de excelente nível. Já o elenco coadjuvante conta com nomes especiais. O principal deles é Mickey Rourke. Contracenando pela única vez ao lado de Jack em uma cena muito tocante (embora de curta duração). Vanessa Redgrave, Helen Mirren, Harry Dean Stantom e Benicio Del Toro também marcam presença, com participações pequenas mas importantes dentro da trama. É isso, "A Promessa", dez anos após seu lançamento, merece ser revisto mais uma vez pois funciona tanto como policial como drama existencial. Assista!

Spun - Sem Limites!
Filme com edição alucinada que retrata a vida de um grupo de viciados em drogas pesadas como Metanfetamina. Mickey Rourke faz o papel de um "cozinheiro" da droga que acaba tendo problemas com o "cozimento" da mesma. Spun é uma produção estranha, com personagens bizarros em excesso. Talvez por isso tenha chamado certa atenção da crítica especializada. Era para ser um documentário mas o diretor acabou optando por criar uma filme ao estilo convencional. Produção independente feita com doações de amigos do cineasta Jonas Åkerlund, Spun acabou permanecendo inédito no Brasil mas conseguiu espaço na TV a cabo sendo exibido pelos canais HBO.

Sin City
Muitos atribuem o renascimento da carreira de Mickey Rourke ao filme O Lutador. Antes disso esquecem que Rourke fez esse Sin City, filme que teve grande repercussão, levantando a carreira de Mickey de uma forma muito positiva. Baseado em famosa Graphic Novel, Sin City mostra várias estórias paralelas, uma delas focada em Marv (Mickey Rourke) um sujeito durão mas de bom coração. Sob forte maquiagem o ator realizou uma excelente caracterização de seu personagem. Ao lado de outros astros (Bruce Willis, Clive Owen) contribuiu para o grande sucesso de público e crítica da produção. O filme rendeu mais de 250 milhões de dólares e reconciliou Rourke com os grandes sucessos de bilheterias após vários anos de vacas magras nesse aspecto.

O Lutador
O filme que marcou o verdadeiro renascimento artístico do ator Mickey Rourke. Com roteiro sensível e humano e direção do talentoso cineasta Darren Aronofsky, O Lutador se tornou um dos filmes mais badalados de 2008. Aqui Mickey Rourke interpreta o tocante papel de Randy 'The Ram' Robinson, um decadente lutador de luta livre cuja glória há muito passou em sua vida. Vivendo de empregos medíocres Randy tenta reencontrar a felicidade e o caminho do sucesso de outrora. O argumento obviamente trazia muitas semelhanças com a própria vida de Mickey Rourke que conheceu ao longo de sua vida tanto a glória como o fracasso completo. Desprezado ousou manter sua dignidade intacta mesmo quando todos o abandonaram. A interpretação de Mickey Rourke aqui foi realmente fenomenal e valeu a ele indicações aos principais prêmios do cinema. Venceu o Globo de Ouro de Melhor Ator mas perdeu o Oscar para Sean Penn apesar de ter sido apontado como o favorito. Não faz mal, O Lutador é uma obra prima que trouxe de volta ao primeiro time esse ator tão especial.

Homem de Ferro 2 
Depois de vários dias hoje finalmente consegui assistir Homem de Ferro 2. Não tive nenhuma surpresa. O filme é praticamente igual ao primeiro com apenas algumas inovações, algumas bem desperdiçadas. O mais gritante foi a falta de aproveitamento de Mickey Rourke no filme. Veja, geralmente em filmes baseados em quadrinhos os vilões acabam roubando o show. Foi assim em Batman e por isso eu esperava que algo parecido acontecesse aqui. Me enganei. Mesmo tendo no elenco um ator de primeira fazendo o vilão nada ou muito pouco foi aproveitado. Mickey tem poucas cenas onde teria oportunidade real de mostrar seu talento. Infelizmente nem mesmo seu confronto com Robert Downey Jr na cena da cela é aproveitada. Enfim, um tremendo desperdício. Se as cenas são tão escassas e vazias não precisava chamar um ator do quilate de Mickey Rourke, qualquer ator comum daria conta do recado. Além disso não gostei de Robert Downey Jr. Esse ator anda extremamente repetitivo em suas atuações, cheio de maneirismos pessoais o que não acrescenta em nada ao filme. Talvez tenha sido os anos de abuso em drogas mas o fato é que Robert não consegue sair do tipo estressadinho, nervosinho, prestes a dar um chilique. Ele já foi bom ator no passado mas depois que saiu a fazer um blockbuster atrás do outro virou um intérprete vazio, repetitivo e o que é pior, muitas vezes ignorando completamente o personagem que está interpretando. No fundo ele só faz um papel sempre, o dele mesmo em cena. Não importa se é o Homem de Ferro ou o Sherlock Holmes, Robert Downey Jr sempre surge como Robert Downey Jr em qualquer filme que faça. Achei que o filme também não cumpriu as expectativas no quesito Efeitos Especiais. Todas as principais cenas com o Homem de Ferro são mostradas à noite onde pouca ou quase nada se vê (geralmente só se consegue visualizar pontos de luz indo de lá pra cá). Os robôs vilões também são outra decepção. Seu visual é completamente ultrapassado e retrô, nada originais. Em relação ao restante do elenco não há muito o que dizer: Gwyneth Paltrow está patética, dando gritinhos nervosos a todo momento, se tornando aborrecida e irritante e Scarlett Johansson entra muda e sai calada (sua dublê até que luta direitinho). Enfim, o diretor Jon Favreau realizou um filme burocrático, quase uma cópia fiel do primeiro (com efeitos especiais inferiores) De maneira geral achei um filme bem clichê, sem nenhum traço de personalidade.

Os Mercenários
Stallone não desiste. Já prestes a entrar na terceira idade o ator não se rende ao peso dos anos, sempre procurando se reinventar. Quem diria que nessa altura de sua vida ele conseguiria emplacar uma nova franquia de sucesso? Pois é, ele conseguiu. Se não já bastassem as franquias Rocky e Rambo, o idoso astro emplaca agora mais esse "Os Mercenários". De certa forma o grande problema aqui é o atraso. Essa produção deveria ter estreado há 25 anos pelo menos, em pleno anos 80. Se tivesse sido lançado naquela época seria um estouro certamente. Maior do que foi agora. Claro que na época seria impossível reunir tantos astros de ação em apenas um filme pois na década de 80 eles ganhavam cachês milionários (algo que hoje em dia não se repete mais). Lançado agora o filme soa apenas como uma aventura retrô, com muita testosterona mas pouquíssima qualidade cinematográfica. De certa forma ele só funciona como produto de nostalgia para quem era jovem ou criança na década de 80 e cresceu assistindo aqueles filmes violentos de ação de Stallone e cia. É curioso porque naqueles tempos Stallone lutava muito para trazer melhores roteiros para seus filmes que sempre eram criticados severamente nesse aspecto. Em uma atitude quase de mea culpa Stallone literalmente jogou o balde aqui e resolveu assumir esse tipo de defeito em "Os Mercenários" pois o roteiro é tão fraquinho! Basicamente se trata de uma premissa bem básica para servir de estopim para a pancadaria e as pirotecnias habituais. Praticamente não há atuação ou qualquer argumento mais trabalhado. O único ator que traz alguma coisa próxima de uma "atuação" é Mickey Rourke (em determinada cena ele mostra seu grande talento e declama o texto mais longo do filme enquanto Stallone fica olhando com cara de bobão). Há ainda a reunião tão falada dos três maiores ícones dos filmes de ação dos anos 80: Sylvester Stallone, Arnold Scharzenegger e Bruce Willis. Para quem é fã do estilo isso era algo esperado há muitos anos. A cena em si é até bacaninha mas menos engraçada ou marcante do que poderia ser. O resto do filme é pura action movie ao estilo anos 80 (muito tiro, chute, explosões e inimigos morrendo a atacado). Quando o personagem de Stallone resolve matar ele detona uns 400 caras de uma vez só! Me lembrou até de "Comando Para Matar" o mais exagerado filme daquela década. É aquele tipo de coisa que todo já viu e reviu muitas e muitas vezes, então sem surpresas. Senti falta também de vilões melhores. Eric Roberts é muito sem expressão e o general do terceiro mundo (obviamente uma caricatura) não consegue ser marcante. No mais uma curiosidade: nos últimos 25 minutos de filme quase não há diálogos - só porrada. É isso, "Os Mercenários" é um filme da década de 80 que não foi produzido nos anos 80. Vale como nostalgia mas com cara de prato requentado. E que venha a continuação agora, com o Chuck Norris! Pelo menos promete ser bem mais divertido do que esse primeiro.

Passion Play
Acabei de conferir esse bizarro, para dizer o mínimo, filme. Eu sinceramente gostaria de conhecer o produtor que teve a coragem de investir tempo e dinheiro em uma coisa tão idiota como essa! O argumento não tem a menor lógica: Garota com asas, Megan Fox (que atriz péssima, vou te contar), é resgatada de um circo de quinta categoria por um músico fracassado (Mickey Rourke, totalmente deformado e com um figurino de assustar de tanto mal gosto). Juntos iniciam um romance de meia tigela que não convence ninguém - e pra piorar são perseguidos por um criminoso local (Bill Murray, em péssima atuação - será que o sujeito tá falido pra entrar em um mico desses?). A produção é ridícula - totalmente fake, com uso de pavorosos efeitos (ou seria defeitos) especiais. Lamento por nomes como Mickey Rourke e Bill Murray estarem no meio desse abacaxi. Mickey inclusive já soltou farpas contra o filme em algumas entrevistas dizendo que é uma bomba. Devo discordar dele, o filme não é apenas uma bomba mas sim uma bomba nuclear! Já a Megan Fox é uma coisa mesmo. Provavelmente seja a atriz mais medíocre do mundo - não consegue fazer uma expressão convincente - a mulher é uma pata!. Ver ela ao lado de Mickey Rourke é uma coisa mais bizarra que o próprio filme. Em poucas palavras: Passion Play é um pavor de ruindade. Lixo!

13
Vamos aos fatos: quando esse filme foi anunciado eu pensei sinceramente que fosse uma tremenda porcaria. Bom, as aparências enganam. Como fui com expectativas baixas acabei me surpreendendo de forma positiva. Eu pensei de forma equivocada que a simples presença de Jason Statham no elenco já qualificaria o filme como mais uma de suas fitas de pura ação sem cérebro. Estava errado. O filme é um thriller rápido mas envolvente que mostra um tenebroso torneio de roleta russa no submundo de Chicago. Grande parte do filme realmente gira em torno da tal "competição" e por isso muitos bons atores que estão no filme realmente não tem grande coisa a fazer em cena. Mickey Rourke, por exemplo, pouco acrescenta, não passando de um coadjuvante de luxo. Mais deformado do que o habitual o ator novamente desfila sua coleção de roupas e acessórios bizarros e apesar de seu personagem prometer muitos nas cenas iniciais não se desenvolve, desaparecendo sem alarde no terceiro ato do filme, o que não deixa de ser algo decepcionante do roteiro. Para quem gosta de seriados, duas surpresas: as presenças de David Zayas (de Dexter) e Alexander Skarsgård (o vampiro de True Blood). Ben Gazarra, muito envelhecido, também dá o ar da graça assim como o rapper 50 Cent (que é péssimo ator). Enfim, o filme é bom apesar disso e tem um final realista e cruel que acrescenta muitos pontos em seu saldo final. Vale a pena conferir.

Imortais
Fui assistir a esse filme com o fiasco de "Fúria de Titãs" na cabeça. Por isso não tinha a menor fé em nada - pensei que seria mais um lixo Hollywoodiano. Para minha surpresa acabei achando interessante. Talvez por estar com expectativas quase a zero acabei ao final achando um blockbuster decente. Obviamente não aconselho aos estudiosos de mitologia grega, esses ficarão desapontados. O roteiro toma enormes liberdades com os mitos originais. Teseu, por exemplo, virou um rebeldinho revoltado, sem consistência. Monstros famosos como o Minotauro foram relegados a um simples grandalhão com máscara de touro feito de gravetos e por aí vai. O que salva "Imortais" do desastre é em primeiro lugar a linda direção de arte do filme e em segundo a presença sempre muito bem-vinda do ator Mickey Rourke. O filme é o que gosto de chamar de produção de luxo. Claro que praticamente todo ele foi gerado digitalmente mas mesmo assim achei tudo de muito bom gosto, sua fotografia em tons dourados, as cores gritantes das capas e uniformes. Até mesmo o figurino, que foi tachado de brega e excessivo em algumas resenhas, acabou me agradando. Já Mickey Rourke é um capítulo à parte. Esse é o tipo de ator forjado no Actors Studio que consegue sobreviver a (quase) tudo. Não escondo de ninguém que sou admirador de carteirinha dele. Aqui temos o típico caso de ator maior que o filme. Seu personagem, o rei Hyperion, não é nem melhor e nem pior que outros vilões que enchem os blockbusters americanos todos os anos, a diferença é que Rourke declama até os mais simples diálogos com cuidado, capricho, e isso é sem dúvida uma grande diferença com os canastrões de hoje em dia. E por falar em canastrão o tal de Henry Cavill (que faz Teseu) é de uma nulidade gritante. Sem carisma, mono facial e sem graça quase leva tudo a perder. Se não fosse Rourke segurando as pontas o quesito atuação do filme seria simplesmente desastroso. Enfim, gostei de Rourke, da direção de arte e do bom gosto. Desgostei do Cavill, dos deuses (medíocres) e dos Titãs (esses últimos parecem zumbis de quinta categoria). Apesar de tudo no fim das contas vale uma espiadinha.

Pablo Aluísio.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Valentino, o Vampiro Pirata

Valentino, o Vampiro Pirata!
Escrevo estas palavras como quem confessa a própria alma ao vento salgado do Atlântico. Meu nome é Valentino, e no século dezessete fiz fortuna onde outros perdiam a humanidade. Nasci sem herança, mas com uma ambição que ardia como febre constante. Aprendi cedo que o mundo pertencia aos que não hesitavam diante do sofrimento alheio. Assim me lancei ao comércio de homens, comprando e vendendo vidas como se fossem sacas de açúcar. Na costa da África encontrei o ouro negro que sustentaria meu nome nos portos do Brasil. Eu dizia a mim mesmo que era apenas negócio, que não passava de engrenagem num sistema maior. Mas no fundo eu sabia que havia prazer no poder que exercia. O olhar de medo nos rostos acorrentados alimentava minha soberba juvenil. E foi assim que comecei a escrever minha própria condenação sem perceber.

Os métodos que empregava eram duros, e eu me orgulhava disso. Acreditava que a disciplina nascia do terror e que a obediência se forjava com o chicote. Ordenava castigos exemplares para qualquer tentativa de resistência. Não tolerava murmúrios, nem olhares de desafio, nem mesmo lágrimas prolongadas. O porão do navio tornava-se um mundo de sombras onde eu reinava absoluto. Caminhava entre correntes e gemidos como um senhor feudal sobre seu feudo flutuante. Mandava separar famílias para evitar rebeliões silenciosas. Controlava a água e a comida como quem distribui favores divinos. Eu me via como necessário, quase como instrumento da vontade de Deus. Hoje percebo que era apenas um jovem cruel embriagado de autoridade.

Recordo-me de uma viagem específica, quando os ventos pareciam conspirar contra nós. O mar revolto sacudia a embarcação e espalhava desespero entre os cativos. Alguns rezavam em línguas que eu não compreendia, outros apenas fitavam o vazio. Eu mantinha a postura firme, pois o medo do capitão contamina a tripulação. Ordenei que reforçassem as correntes e fechassem as escotilhas. A escuridão no porão tornava-se mais espessa a cada dia de travessia. Mesmo assim, eu descia ali com frequência, impondo minha presença. Queria que todos soubessem quem decidia entre a vida e a morte. A tempestade lá fora parecia ecoar a violência que eu cultivava por dentro. Foi nessa viagem que meu destino mudou para sempre.

Entre os prisioneiros havia uma jovem cuja beleza destoava do ambiente de dor. Seus olhos eram profundos e serenos, como se não compartilhassem do mesmo medo dos demais. A pele reluzia à luz fraca das lanternas, quase como marfim polido. Ela não chorava, não implorava, não baixava a cabeça diante de mim. Aquilo me intrigou mais do que qualquer rebeldia aberta. Perguntei seu nome, mas ela respondeu apenas com um leve sorriso. Havia em sua postura uma dignidade que me incomodava. Passei a observá-la com interesse que ia além do comercial. Convenci-me de que poderia tomá-la para mim quando chegássemos ao Brasil. Na minha arrogância, achei que nada me seria negado.

Comecei a visitá-la à noite sob o pretexto de inspeção. Afastava os guardas e ficava a sós com ela no porão abafado. Tentava seduzi-la com promessas de conforto e privilégios. Dizia que poderia livrá-la das correntes se fosse obediente comigo. Ela ouvia tudo com aquele mesmo sorriso enigmático. Nunca demonstrava gratidão nem revolta, apenas uma calma perturbadora. A escuridão parecia envolvê-la como um manto protetor. Certa vez, tocou minha mão com frieza inesperada. Senti um arrepio que atribuí ao vento úmido do mar. Mal sabia eu que aquele toque era o prenúncio da minha perdição.

Na última noite antes de avistarmos terra, desci novamente ao porão. O navio estava silencioso, como se aguardasse algo inevitável. Aproximei-me dela com a confiança de sempre. Disse que no dia seguinte sua vida mudaria, pois seria minha protegida. Ela levantou o rosto e seus olhos brilharam de forma estranha à luz da lanterna. Antes que eu reagisse, suas mãos seguraram meu pescoço com força surpreendente. Senti seus lábios próximos ao meu ouvido, sussurrando palavras que não compreendi. Então uma dor aguda atravessou minha carne. Era como se duas agulhas incandescentes perfurassem meu pescoço. O mundo girou e a escuridão me engoliu.

Acordei no convés, sob o sol nascente, como se nada tivesse acontecido. Meu pescoço ardia, mas não havia sangue visível. Procurei por ela entre os prisioneiros, mas seu lugar estava vazio. Os marinheiros juraram que ninguém desaparecera durante a noite. Pensei ter sido vítima de um delírio causado pelo cansaço. Contudo, ao encarar o reflexo na água, percebi algo diferente em meus olhos. Havia neles um brilho sombrio que antes não existia. O sol me causava desconforto, e a luz parecia ferir minha visão. Senti uma sede estranha que não se saciava com água ou vinho. Algo dentro de mim havia despertado.

Nos dias seguintes, a mudança tornou-se inegável. O cheiro de sangue dos castigos aplicados aos escravos me atraía de forma perturbadora. Minha força parecia maior, e minhas emoções, mais frias. Eu observava os homens ao meu redor como se fossem frágeis demais. A noite passou a ser meu refúgio, enquanto o dia se tornava inimigo. Compreendi então que não fora um sonho, mas uma iniciação. A jovem não era humana, e eu fora marcado por ela. A lembrança de seus dentes cravados em mim voltava como um eco constante. Tentei negar, mas a verdade crescia como sombra ao entardecer. Eu estava condenado a uma existência que jamais imaginei.

Quando chegamos ao Brasil, senti que não era mais o mesmo homem que partira da África. As plantações, os mercados e os negócios já não me satisfaziam. A ambição que antes me guiava parecia pequena diante da nova fome que me consumia. Passei a evitar a luz intensa e a trabalhar apenas após o pôr do sol. Os rumores sobre minha mudança começaram a circular entre os marinheiros. Alguns diziam que eu havia feito pacto com forças ocultas. Mal sabiam eles o quão próximos estavam da verdade. Eu procurava a jovem vampira em cada rosto feminino que cruzava meu caminho. Queria respostas, vingança ou talvez companhia em minha maldição. Mas ela havia desaparecido como névoa ao amanhecer.

Agora escrevo esta carta sem saber quem a lerá ou em que século será encontrada. Não envelheci como deveria, e isso já levanta suspeitas entre meus contemporâneos. Carrego o peso de ter escravizado homens e de ter sido escravizado por minha própria sede. Ironia cruel que o mercador de vidas tenha perdido a própria alma. À noite caminho entre sombras, evitando o sol que me acusa. Recordo o sorriso da jovem vampira e compreendo que fui escolhido. Talvez tenha sido punição divina por minha crueldade. Talvez apenas capricho de uma criatura eterna entediada. Seja qual for a razão, sei que não encontrarei descanso. Assino como Valentino, não mais homem, mas criatura condenada pela eternidade.

Cap. II - Terras Selvagens e Brutais
Parto agora para o Haiti não mais como o jovem mercador ganancioso que fui, mas como algo que transcende a própria ambição humana. Quando ainda respirava como homem, desejava ouro, terras e prestígio entre os senhores de engenho. Hoje desejo algo mais vasto e obscuro: poder absoluto sobre vidas e destinos. O Haiti me surge como promessa de novas aquisições e novos domínios, mas não apenas de carne escravizada, e sim de almas a serem dobradas. Levo comigo dez criaturas que criei com minhas próprias mãos, ou melhor, com meus próprios dentes. Foram homens fortes, cruéis e leais, escolhidos a dedo entre capitães e feitores impiedosos. Ofereci-lhes a eternidade como prêmio por sua brutalidade. Um a um beberam de meu sangue e renasceram na escuridão. Agora me seguem como discípulos devotos. Não me chamam mais de senhor, mas de mestre. E eu nunca me senti tão vivo quanto agora, mesmo sabendo que meu coração não bate.

A embarcação que nos leva corta o Atlântico sob céus pesados, como se o próprio firmamento desconfiasse do que transporta. Durante o dia permanecemos recolhidos nos compartimentos mais profundos, longe da luz que ainda nos enfraquece. À noite, porém, o convés torna-se nosso domínio. Os tripulantes ignoram a verdadeira natureza de seus comandantes. Pensam que sou apenas um comerciante excêntrico, cercado por homens silenciosos demais. Mal sabem que seus sorrisos escondem presas afiadas. No início ordenei discrição, pois ainda necessitávamos da tripulação para conduzir o navio. Contudo, a fome cresce rapidamente em criaturas recém-transformadas. Sinto em meus filhos a mesma sede que um dia me consumiu. E compreendo que a travessia não terminará como começou.

Na terceira noite, o primeiro grito ecoou pelo mastro principal. Um marinheiro desapareceu após seu turno, e apenas manchas escuras ficaram para contar a história. Fingi indignação, organizei buscas, ameacei punições. Internamente, porém, senti orgulho. Meus vampiros estavam aprendendo a caçar. Não atacavam por descontrole, mas por prazer calculado. Observavam, escolhiam, isolavam suas presas. O medo começou a se espalhar entre os homens do navio. Cochichavam sobre maldições e espíritos do mar. Enquanto isso, nós os observávamos das sombras, estudando seus hábitos. Cada batida acelerada de seus corações soava para mim como música.

Com o passar dos dias, o número de tripulantes diminuía de forma inexplicável. Um caía doente subitamente, outro era encontrado pálido e sem forças. Alguns simplesmente desapareciam durante a madrugada. Meus filhos vampiros aprenderam a trabalhar em conjunto. Cercavam suas vítimas com paciência, como lobos ao redor de um cervo cansado. Eu supervisionava tudo, ensinando moderação quando necessário. Não podíamos eliminar todos de uma vez, ou o navio se perderia à deriva. Ainda assim, a tentação de mergulhar num massacre completo era constante. A sede queimava em minha garganta como fogo invisível. E cada gole de sangue roubado renovava minha sensação de invencibilidade.

Recordo-me do tempo em que eu buscava lucro em moedas e mercadorias. Agora percebo quão pequeno era aquele desejo. O sangue concede algo que o ouro jamais concedeu: domínio absoluto e imediato. Quando seguro um homem pelo pescoço e sinto sua vida escorrer para dentro de mim, experimento uma intensidade impossível aos mortais. Não é apenas alimentação, é absorção de força e memória. Sinto ecos de suas histórias, seus medos, seus arrependimentos. Isso me embriaga mais que qualquer vinho. Se antes eu me julgava poderoso por comandar correntes, agora comando a própria essência da existência. Sou senhor não apenas de corpos, mas de pulsações.

A viagem transformou-se gradualmente em pesadelo aberto. Os marinheiros evitavam andar sozinhos, rezavam em grupos e mantinham lanternas acesas a noite inteira. A luz fraca pouco nos incomodava. Aprendemos a mover-nos entre sombras que eles sequer percebiam. Certa madrugada, dois de meus vampiros perderam a paciência e atacaram no convés. O sangue espalhou-se pela madeira, misturando-se à água salgada. O pânico finalmente explodiu. Alguns tentaram reagir com facas e mosquetes, mas armas humanas pouco valem contra mortos que não temem a dor. Permiti o ataque como forma de lição. O medo consolidaria nossa supremacia.

Quando a resistência surgiu, foi rápida e desesperada. Um grupo de tripulantes trancou-se na cabine do capitão, planejando tomar o controle do navio. Eu mesmo conduzi a retaliação. Arrombamos a porta com força descomunal. A cena que se seguiu marcou o ponto sem retorno da viagem. Não houve negociação, apenas gritos e sombras se movendo com velocidade impossível. O sangue escorreu pelas escadas e tingiu o assoalho. Não descrevo aqui cada detalhe, pois nem mesmo minha frieza ignora a brutalidade do momento. Mas afirmo que naquela noite deixamos de fingir humanidade. Assumimos plenamente o que éramos.

Ao amanhecer restavam poucos vivos, escolhidos apenas para manter o navio em curso. Os sobreviventes obedeciam em silêncio absoluto. Seus olhos denunciavam terror permanente. Alimentávamo-nos deles de maneira controlada, preservando-os o suficiente para que trabalhassem. Tornaram-se rebanho consciente de sua condição. Eu observava tudo com uma satisfação sombria. Já não me bastava o comércio de escravos; eu criara meu próprio sistema de submissão. Ali, no meio do oceano, exercia um poder que nenhum rei europeu poderia imaginar. E percebi que a eternidade não seria tédio, mas aventura constante.

Meus dez vampiros passaram a me olhar com admiração quase religiosa. Eu os guiara naquela primeira grande caçada coletiva. Sentiam-se renascidos, libertos de qualquer moral antiga. Alguns ainda guardavam resquícios de culpa humana, mas estes se dissipavam a cada nova refeição. Ensinei-lhes que a compaixão é fraqueza para quem já cruzou a fronteira da morte. Disse-lhes que fomos escolhidos para reinar nas sombras do mundo colonial. Enquanto os impérios disputam terras, nós disputaremos noites. Eles aceitaram essa visão com entusiasmo feroz. E eu, ao vê-los assim, senti orgulho de minha criação.

Quando finalmente nos aproximamos do Haiti, o navio parecia mais um túmulo flutuante do que embarcação mercante. O cheiro de ferro impregnava o ar. Restavam poucos humanos, e estes já não ousavam questionar ordens. Eu permanecia no convés ao cair da noite, contemplando o horizonte. Pensei no jovem Valentino ganancioso que partira anos atrás da Europa. Ele buscava riqueza e reconhecimento. O ser que agora pisa nesta madeira manchada busca domínio, submissão e a perpetuação do medo. E, paradoxalmente, jamais me senti tão pleno. Estou morto, sim, mas minha existência pulsa com intensidade selvagem. Cada porto é promessa de novas presas, cada travessia uma aventura. Se isto é condenação, aceito-a com um sorriso manchado de vermelho.

Cap. III - Caça aos Escravos!
O Haiti surgiu diante de nós como uma massa verde recortada pelo azul profundo do mar, belo e indiferente ao mal que desembarcava em suas praias. Quando ancoramos, já não restava um único tripulante humano no navio. Apenas eu e meus dez vampiros caminhávamos pelo convés silencioso, senhores absolutos daquela embarcação transformada em sepulcro flutuante. Não houve cerimônia nem hesitação. Descemos à noite, aproveitando a escuridão que sempre foi nossa aliada. O ar da ilha era quente, carregado de cheiros de terra úmida e vegetação densa. Senti algo quase primitivo despertar em mim. Não era apenas fome, era excitação pela caça em território novo. Meus filhos aguardavam minhas ordens com olhos famintos. E eu, como mestre, conduzi o primeiro passo rumo ao interior da ilha.

A floresta parecia viva, cheia de sons e movimentos. Nossos sentidos, agora aguçados pela maldição que nos unia, captavam cada respiração escondida entre as árvores. Logo encontramos os primeiros habitantes, homens e mulheres que jamais poderiam imaginar o tipo de predador que os observava. Antes, quando eu era humano, organizava expedições com correntes e armas. Agora bastava um gesto meu para que sombras se movessem com velocidade impossível. Cercamos o pequeno grupo em silêncio absoluto. Não houve negociação nem aviso. A noite engoliu seus gritos antes que pudessem ecoar longe demais. E naquela clareira selada por árvores altas, selamos também nosso domínio inicial sobre a ilha.

A fome dos meus vampiros era intensa, quase juvenil. Precisei impor disciplina, pois não nos interessava exterminar todos indiscriminadamente. Expliquei que alguns seriam alimento, outros investimento. Os mais fortes, os mais resistentes, aqueles cujos corpos prometiam lucro no mercado brasileiro, seriam poupados da morte imediata. A diferença entre o Valentino humano e o vampiro é que agora posso decidir não apenas quem vive ou morre, mas como e por quanto tempo. Enquanto meus seguidores se alimentavam dos que escolhi como sacrifício, selecionei os que demonstravam vigor. Mesmo aterrorizados, seus músculos firmes e postura altiva denunciavam força útil. O comércio ainda me interessava, mas agora era sustentado por algo muito mais sombrio.

A notícia de nossa presença espalhou-se rapidamente entre as aldeias. O medo precedia nossos passos. Alguns tentaram fugir para regiões mais profundas da mata, outros ousaram organizar resistência. Recordo-me de um confronto próximo a um vilarejo à beira de um rio largo. Homens armados com lanças e facões avançaram contra nós com coragem admirável. Em outra época, eu teria respeitado tal bravura. Agora, porém, ela apenas tornava a caça mais estimulante. Meus vampiros avançaram como vento noturno, desarmando e dominando seus oponentes com facilidade cruel. Não descrevo os detalhes, mas afirmo que a margem daquele rio testemunhou a extensão de nossa superioridade. Ao final, restaram apenas silêncio e corpos imóveis sob o luar.

Entre os sobreviventes escolhidos como cativos, vi nos olhos deles o mesmo terror que um dia observei nos porões de meus navios. A diferença é que agora não precisava de correntes pesadas. O medo bastava para mantê-los submissos. Organizamos grupos e os conduzimos até a costa, onde nosso navio aguardava como um animal paciente. Alguns tentaram reagir no caminho, mas meus filhos estavam atentos. Cada tentativa frustrada servia de exemplo para os demais. O comércio continuaria, e o Brasil aguardava novos braços para as plantações. A diferença é que desta vez a captura foi acompanhada por uma devastação silenciosa que ninguém poderia atribuir apenas a homens comuns.

Durante as noites seguintes, repetimos o ciclo de ataque, seleção e destruição. A ilha começou a nos enxergar como espíritos malignos, entidades que surgiam e desapareciam na escuridão. Essa reputação me agradava. O medo é ferramenta mais eficaz que qualquer espada. Ao contrário do jovem Valentino movido por ganância material, agora eu me alimentava também da sensação de domínio psicológico. Saber que aldeias inteiras tremiam ao cair do sol despertava em mim uma satisfação profunda. Eu já não buscava apenas lucro, mas reverência forçada. A submissão tornou-se tão importante quanto o sangue que me fortalecia.

Houve uma noite em que caminhei sozinho por uma parte elevada da ilha, observando fogueiras distantes apagarem-se uma a uma. Pensei em minha transformação e no caminho percorrido desde aquela viagem inicial. Quando humano, acreditava estar vivo porque meu coração batia acelerado diante do risco financeiro e da expansão dos negócios. Agora, mesmo sem pulso, sinto uma vitalidade intensa a cada desafio superado. A caça, a estratégia, o controle absoluto da situação me fazem experimentar algo que jamais senti antes. É paradoxal, mas somente depois da morte compreendi a dimensão da existência. A eternidade não me parece fardo, mas palco infinito para novas conquistas.

Meus dez vampiros evoluíam sob minha liderança. Já não eram apenas seguidores famintos, mas aprendizes de um império nascente nas sombras. Alguns começaram a sugerir expandir nossa influência para outras ilhas. Outros desejavam transformar mais homens fortes em criaturas como nós. Ouvi atentamente, pois um líder sábio não ignora ideias que ampliam seu poder. Ainda assim, mantive controle rígido sobre quem poderia receber o dom sombrio. Não queria legiões desordenadas, mas uma elite temida. Cada novo vampiro deveria ser escolhido com o mesmo critério que um general escolhe seus oficiais. A eternidade exige planejamento, não impulsividade.

Quando finalmente retornamos ao navio com os cativos selecionados, a embarcação parecia pronta para outra travessia sangrenta. Os sobreviventes eram mantidos sob vigilância constante. Alguns ainda tentavam entender o que éramos; outros preferiam não saber. Eu caminhava entre eles sentindo o cheiro do medo misturado ao sal do mar. Esse aroma tornou-se parte inseparável de minha existência. Ordenei que levantassem âncora ao cair da noite. O Haiti ficava para trás, marcado por nossa passagem invisível e devastadora. Mas sabia que poderíamos voltar quando desejássemos. A ilha agora conhecia o terror do nosso nome, mesmo sem pronunciá-lo.

Assim sigo, escrevendo estas linhas como testemunho de minha própria metamorfose. Já não sou movido apenas por ganância material, embora o lucro continue útil. Busco poder, submissão e a certeza de que minha presença altera destinos. Cada gota de sangue ingerida reforça minha convicção de que nunca estive tão vivo quanto agora. Minha existência é feita de viagens, conquistas e noites intermináveis. Se outrora fui comerciante ambicioso, hoje sou senhor das sombras que cruzam o Atlântico. E enquanto houver terras, homens e escuridão, continuarei expandindo meu domínio. Pois a eternidade, ao contrário do que temem os mortais, é uma aventura que apenas começou.

Cap. IV - A Guerra sem Glórias!
O Haiti já não era a mesma ilha silenciosa que deixáramos semanas antes. Quando retornamos para consolidar nossos negócios, encontramos fumaça erguendo-se no horizonte e um cheiro constante de madeira queimada. As plantações estavam em chamas, e os engenhos, outrora símbolos de domínio europeu, eram agora ruínas ardentes. O povo negro havia se levantado contra seus opressores com fúria acumulada por gerações. Senhores de escravos eram caçados dentro das próprias casas, arrastados para fora e executados diante dos trabalhadores libertos. O caos espalhava-se como incêndio em campo seco. Eu observava da colina próxima ao porto enquanto gritos e estampidos ecoavam pela noite. Meus vampiros aguardavam minha decisão. E eu sabia que estávamos prestes a entrar em meio a uma guerra que não nos pertencia, mas que poderíamos dominar.

Descemos para as áreas de conflito quando o céu estava tomado por nuvens espessas. O clarão das fogueiras iluminava corpos correndo, armas improvisadas sendo erguidas, tiros disparados sem precisão. Rebeldes avançavam sobre uma grande fazenda, derrubando portões e incendiando armazéns. Vi um grupo cercar o proprietário e sua família, e a violência humana já era intensa antes mesmo de nossa intervenção. Meus filhos vampiros sentiram o cheiro de sangue fresco e seus olhos brilharam na escuridão. Dei apenas um gesto com a mão. Foi o suficiente. Avançaram como sombras vivas, atravessando o campo em velocidade impossível aos olhos mortais.

O primeiro choque foi brutal e rápido. Um rebelde ergueu o facão para golpear um feitor, mas foi puxado para trás com força descomunal e lançado contra a parede da casa grande. Outro tentou disparar um mosquete, mas meu vampiro já estava atrás dele antes que a pólvora inflamasse. Não descrevo aqui cada golpe, mas afirmo que a diferença entre homem e criatura da noite tornou-se evidente em segundos. Os rebeldes lutavam com coragem e desespero; nós lutávamos com precisão e força sobrenatural. Movíamo-nos entre eles como lâminas invisíveis. O som dos confrontos misturava-se ao estalar da madeira queimando. E no centro daquela tempestade, eu caminhava sem pressa, escolhendo meus alvos.

A revolta espalhava-se por outras propriedades, e seguimos de um foco a outro como predadores atraídos pelo tumulto. Cavalos corriam soltos, carroças eram viradas, armas trocavam de mãos. Em certo momento, um grupo numeroso tentou nos cercar perto de um canavial. Eram dezenas, armados e determinados. Por um breve instante, admirei a ousadia. Então dei ordem para que meus vampiros se dispersassem e atacassem pelas laterais. A estratégia humana falhou diante de nossa velocidade. Avançamos por entre as fileiras como vento cortante. O confronto foi intenso, corpos chocando-se, lâminas sendo desviadas, gritos cortando o ar pesado. Quando terminou, o canavial estava silencioso, exceto pelo farfalhar das folhas tocadas pelo vento.

A cada embate, eu sentia crescer em mim uma energia selvagem. Não era apenas fome, mas êxtase de batalha. Antes, como homem, evitava riscos pessoais, delegando violência a capatazes e soldados. Agora eu mesmo mergulhava no centro do conflito. Interceptei um rebelde que avançava contra um de meus vampiros recém-transformados. Segurei sua arma com as mãos nuas e a torci até que se partisse. Ele tentou fugir, mas fui mais rápido. Não descrevo o desfecho em detalhes, mas digo que sua investida terminou ali. A guerra humana tornara-se palco para nossa demonstração de poder.

A rebelião, contudo, não era desorganizada. Em algumas regiões, grupos coordenados tentaram usar o terreno a seu favor, armando emboscadas e bloqueando estradas. Avançamos por uma trilha estreita cercada de mata fechada quando fomos atacados de ambos os lados. Flechas e disparos surgiram da escuridão. Um de meus vampiros foi atingido no peito, mas apenas cambaleou antes de arrancar o projétil com desprezo. Reagimos imediatamente, escalando árvores, surgindo atrás dos atiradores, quebrando a formação com ataques rápidos. A ação foi veloz e intensa, um turbilhão de movimentos quase invisíveis. Em poucos minutos, a emboscada transformou-se em retirada desesperada.

As fazendas continuavam a arder, e os gritos ecoavam noite adentro. Nós nos movíamos de conflito em conflito, às vezes enfrentando rebeldes, às vezes confrontando milícias improvisadas de colonos em pânico. Tornamo-nos força paralela naquela guerra, não aliados nem inimigos fixos, mas agentes de devastação. Em uma grande plantação próxima ao litoral, encontramos combate aberto entre dois grupos armados. Avançamos pelo flanco menos protegido, atravessando o campo sob chuva de disparos. O impacto foi imediato. A presença de criaturas imunes ao medo e quase à dor quebrou o moral de ambos os lados. Em pouco tempo, o confronto humano dissolveu-se em fuga desordenada.

Meus vampiros lutavam com eficiência crescente. Já não eram apenas predadores famintos, mas guerreiros coordenados sob minha liderança. Eu distribuía ordens curtas, apontava direções, controlava o ritmo do avanço. O campo de batalha tornara-se meu tabuleiro. Cada movimento era calculado para maximizar impacto e domínio. A ação constante mantinha minha mente afiada, meus sentidos alertas. A guerra, que para os homens era desespero e sofrimento, para mim era cenário de afirmação. Eu me sentia no auge de minha existência, comandando criaturas da noite em meio ao caos colonial.

Ao amanhecer, após uma das noites mais intensas, a ilha parecia exausta. Fumaça subia de vários pontos, e o silêncio substituía o estrondo dos confrontos. Caminhei por um engenho parcialmente destruído, observando as marcas da batalha. Meus vampiros reuniram-se ao meu redor, manchados pela luta, mas intactos. Havíamos atravessado a rebelião como tempestade sobre terra frágil. A guerra humana continuaria, mas agora todos sabiam que havia algo mais nas sombras. Algo que surgia quando a noite caía e mudava o rumo dos confrontos.

Escrevo estas linhas ainda sob o eco dos combates. O jovem Valentino ganancioso jamais teria ousado entrar no meio de uma revolta armada. Teria fugido com seu ouro, protegido por guardas. Eu, porém, mergulho na guerra como quem mergulha no próprio elemento. A ação me fortalece, o conflito me desperta. Não luto por justiça nem por bandeira; luto por poder e pela confirmação de minha superioridade. No meio das chamas e do caos, descobri que minha verdadeira natureza floresce. Se esta ilha é palco de rebelião, então será também palco de minha ascensão nas sombras.

Cap. V - Cruz Sangrenta!
A última lembrança que guardo do Haiti não é das chamas nem dos gritos, mas de um silêncio pesado antes do confronto final. A rebelião ainda fervilhava em partes da ilha, mas naquela noite específica encontrei algo diferente: resistência movida por fé. Eu caminhava entre ruínas de uma pequena capela parcialmente destruída quando senti uma presença firme, imóvel, à minha espera. Não era medo que emanava dali, mas desafio. Meus vampiros mantiveram distância ao perceberem a figura solitária parada entre os escombros. A lua iluminava o que restava do altar. E diante dele estava um padre, segurando uma cruz erguida com mãos trêmulas, porém decididas.

Ele pronunciava orações em voz alta, tentando sobrepor-se ao som distante da guerra. Seus olhos estavam fixos nos meus, sem desviar. Não vi neles a arrogância dos senhores de escravos nem o pânico dos rebeldes encurralados. Vi convicção. Ele chamou-me de demônio, de maldição encarnada, de teste divino para os homens daquela terra. A cruz brilhava sob a luz da lua, e por um breve instante senti um desconforto antigo, quase esquecido. Recordei o tempo em que ainda frequentava igrejas por conveniência social. Mas aquele homem não representava apenas religião; representava desafio direto ao meu domínio. E eu jamais recuei diante de desafio algum.

Ele avançou um passo, erguendo ainda mais a cruz, ordenando que eu me afastasse em nome de seu Deus. O gesto foi ousado, quase admirável. Meus vampiros rosnaram nas sombras, mas fiz sinal para que não interferissem. Aquela disputa era minha. Caminhei lentamente em sua direção, sentindo a tensão no ar. Ele continuava a rezar, sua voz ganhando força à medida que a distância diminuía. O símbolo em suas mãos não me queimava, mas provocava irritação, como lembrança de algo que eu havia abandonado para sempre. A fé dele era arma invisível, e ele acreditava que bastaria. Eu sabia que não bastaria.

Quando fiquei a poucos passos, ele tentou tocar meu rosto com a cruz. Movi-me com rapidez e segurei seu braço antes que o gesto se completasse. Seus olhos arregalaram-se, mas ele não soltou o símbolo sagrado. Tentou repetir palavras de exorcismo, mas sua voz falhou quando o ergui do chão com facilidade. A cruz caiu de sua mão e bateu contra a pedra do altar quebrado. Ele ainda tentou lutar, ainda murmurou orações entrecortadas. Não descrevo o que se seguiu em detalhes, apenas afirmo que o confronto terminou ali, sob a lua silenciosa. A fé encontrou a força da noite.

Quando tudo terminou, o silêncio voltou a dominar as ruínas. A cruz jazia no chão manchada pelo confronto. Peguei-a e observei-a por um instante. Símbolo de redenção para muitos, para mim tornara-se lembrança de um passado humano distante. Cuspi sobre ela, não por ódio cego, mas como afirmação de ruptura definitiva. Já não havia retorno possível, nem arrependimento que me reconduzisse à vida mortal. Aquele gesto selou minha decisão íntima de abraçar por completo o que me tornei. Meus vampiros aproximaram-se em silêncio, aguardando minha palavra.

Reuni minhas criaturas da noite diante da capela destruída. O Haiti ardia em conflito, mas para nós a campanha estava encerrada. Havíamos testado nossa força em meio à guerra humana e saído intactos. Olhei para cada um deles, vendo nos rostos pálidos a mesma chama que ardia em mim. Disse-lhes que aquela ilha fora apenas um capítulo, não o destino final. Haveria outros portos, outras revoltas, outras noites repletas de desafios. Eles ouviram atentos, como soldados diante de um general vitorioso. E naquele instante compreendi que não era apenas líder, mas símbolo para eles.

Partimos antes do amanhecer. O navio aguardava como extensão natural de nossa existência errante. Subimos a bordo em silêncio organizado, levando apenas o que nos interessava. O Haiti ficava para trás, marcado por fogo, sangue e lendas que talvez jamais fossem compreendidas. Enquanto a embarcação se afastava da costa, permaneci no convés observando a linha escura da ilha diminuir no horizonte. Não senti remorso. Senti apenas a antecipação do próximo destino. O mundo era vasto demais para que ficássemos presos a um único palco.

Durante a travessia, refleti sobre minha transformação. Quando humano, movia-me pela ganância material, buscando riqueza para provar meu valor aos olhos de outros homens. Agora busco algo mais intenso: domínio, experiência, expansão constante de poder. A guerra no Haiti não me trouxe apenas confrontos; trouxe clareza. Percebi que a eternidade não é condenação estática, mas movimento contínuo. Cada batalha, cada viagem, cada desafio acrescenta novas camadas à minha existência. A morte libertou-me das limitações da fragilidade humana.

Confesso, ao escrever estas linhas, que aos poucos fui gostando de ser o que sou. No início havia revolta, estranhamento, sensação de perda. Hoje há entusiasmo. Ser vampiro trouxe aventuras que nenhum comerciante ambicioso poderia sonhar. Trouxe intensidade às noites, cores às sombras, significados aos riscos. A vida mortal era linear, previsível. A minha agora é cheia de surpresas e confrontos que testam meus limites constantemente. Estou morto, sim, mas nunca estive tão desperto.

Assim deixo o Haiti para trás, não como fugitivo, mas como conquistador invisível. O padre acreditou que poderia deter-me com fé; os rebeldes acreditaram que poderiam mudar o destino apenas com armas; os senhores de escravos acreditaram que seu poder era eterno. Todos estavam errados à sua maneira. Eu continuo navegando. Enquanto houver noite sobre o mar, haverá caminho para mim. E cada nova aventura reforça aquilo que demorei a aceitar: minha verdadeira vida começou quando deixei de ser humano.

Cap. VI - O Mar é Nosso!
O vento soprava forte naquela noite quando avistamos as velas no horizonte. Não eram mercadores indefesos nem pescadores perdidos. O formato das embarcações, a disposição das luzes e a disciplina dos movimentos denunciavam: era um navio de guerra da Coroa inglesa. Aproximava-se com firmeza, cortando o mar como lâmina afiada. Canhões já estavam posicionados ao longo do costado. Não houve aviso amigável, apenas o estampido súbito do primeiro disparo rasgando a noite. A bala de ferro atingiu nossa lateral com violência, espalhando estilhaços pelo convés. Meus vampiros se moveram imediatamente, não em pânico, mas em excitação. Eu senti o mesmo fervor. A guerra nos encontrara em pleno mar aberto.

O segundo disparo veio mais preciso, arrancando parte do mastro secundário. A madeira estalou, cordas chicotearam o ar, e o navio inclinou-se perigosamente. Ordenei que apagassem todas as lanternas. A escuridão tornou-se nossa aliada instantânea. Enquanto os ingleses recarregavam seus canhões, movemo-nos pelo convés como sombras organizadas. Ganchos foram preparados, cordas posicionadas, e eu mesmo saltei para a proa para avaliar a distância. O navio inimigo aproximava-se para abordagem direta, confiando em sua superioridade bélica. Mal sabiam que enfrentavam algo além de corsários comuns. Quando o terceiro disparo ecoou, já estávamos em movimento.

As embarcações colidiram com estrondo, madeira contra madeira, ferro contra ferro. Ganchos voaram pelo ar e se fixaram nas bordas inglesas. Antes que os soldados pudessem organizar formação, meus vampiros cruzaram o espaço entre os navios com velocidade impossível. Eu fui um dos primeiros a saltar. Aterrissei no convés inimigo em meio a gritos de comando e cheiro de pólvora. Espadas foram erguidas contra mim. Desviei da primeira lâmina, agarrei o braço que a segurava e o lancei contra dois soldados que avançavam. O convés tornou-se campo de choque imediato, homens disciplinados enfrentando predadores noturnos.

Mosquetes disparavam à queima-roupa, iluminando brevemente a carnificina. Um de meus vampiros foi atingido no ombro, mas avançou mesmo assim, derrubando três adversários em sequência. O capitão inglês gritava ordens, tentando manter a linha de defesa junto aos canhões. Corri em sua direção, atravessando o caos de aço e fumaça. Um marinheiro tentou bloquear meu caminho com uma alabarda; desviei, agarrei a haste e a usei para varrer outros dois ao chão. O choque era constante, corpos colidindo, lâminas tilintando. Cada segundo trazia novo confronto. O convés escorregava sob nossos pés, molhado pela mistura de água do mar e sangue derramado.

Os ingleses reagiram com bravura notável. Formaram um círculo defensivo próximo ao mastro principal, tentando conter nosso avanço. Canhões menores foram girados para disparo direto, mas a proximidade tornava a manobra arriscada. Salomão, um de meus vampiros mais antigos, liderou um ataque lateral fulminante. Ele e mais dois escalaram os cordames e despencaram sobre a formação inimiga como aves de rapina. A linha quebrou-se sob o impacto. Gritos ecoaram enquanto a organização militar se transformava em luta desesperada corpo a corpo. Aproveitei a abertura e avancei direto ao capitão inglês.

Ele brandiu sua espada com habilidade treinada. Nosso confronto foi rápido e intenso. Ele atacava com precisão, tentando manter distância; eu encurtava o espaço com movimentos súbitos. A lâmina dele raspou meu braço, mas a dor apenas intensificou meu foco. Agarrei sua espada pelo fio, ignorando o corte, e a arranquei de sua mão. Ele tentou sacar uma pistola, mas fui mais veloz. O embate terminou ali no centro do convés, sob o mastro iluminado por relâmpago distante. Quando ele caiu, o moral de seus homens despencou junto. A batalha ainda rugia ao redor, mas o comando inglês estava quebrado.

A resistência final concentrou-se na popa, onde artilheiros tentavam preparar um disparo à queima-roupa contra nosso navio. Corremos em bloco. Salomão liderava a investida, atravessando fumaça espessa com determinação implacável. Um disparo explodiu parte do corrimão, lançando estilhaços pelo ar. Mesmo assim, avançamos sem recuar. O confronto ali foi brutal e direto, luta encurtada sem espaço para estratégia refinada. Em minutos decisivos, a última linha inglesa foi superada. O estrondo cessou gradualmente, substituído por gemidos dispersos e o ranger do casco danificado.

Quando o silêncio finalmente caiu sobre o mar, restávamos apenas nós de pé. O navio inglês estava severamente atingido, mas ainda navegável. Ordenei que cortassem as amarras que o prendiam ao nosso antigo negreiro. Avaliei rapidamente a estrutura da embarcação capturada: maior, mais veloz, melhor armada. Um prêmio digno de nossa vitória. Meus vampiros reuniram-se ao meu redor, manchados pelo combate, mas intactos. O mar refletia a lua enquanto fumaça ainda subia das áreas atingidas. Eu sentia a vibração da batalha percorrer meu corpo como corrente elétrica.

Decidi ali mesmo que abandonaríamos o velho navio negreiro. O futuro exigia algo mais imponente. Entreguei o comando da nova embarcação a Salomão. Ele demonstrara liderança, frieza e ousadia durante o combate. Diante de todos, declarei-o capitão daquele navio conquistado pela força. Seus olhos brilharam com mistura de respeito e ambição. Sob sua liderança, a embarcação não seria apenas meio de transporte, mas instrumento de domínio nos mares. E assim começou a transformação que o levaria a tornar-se um dos maiores saqueadores dos sete mares na chamada era de ouro dos piratas.

Partimos naquela mesma noite, deixando destroços para trás. O navio inglês agora navegava sob nosso comando, suas velas infladas pelo vento e sua bandeira substituída por símbolo escolhido por nós. A batalha fora intensa, direta, selvagem. Cada choque de aço, cada disparo de canhão, cada salto entre conveses reforçou minha certeza: a eternidade não é monotonia, mas sucessão de guerras e conquistas. Venci não apenas homens da Coroa, mas a própria limitação do destino que esperavam impor-me. O mar aberto estendia-se à frente, vasto e promissor. E sob o comando de Salomão, nossa frota iniciava um reinado de terror que ecoaria por décadas nas histórias dos navegantes.