quinta-feira, 3 de janeiro de 2002

Crônicas do Futebol - Edição V

O Corinthians nunca havia vencido um título de campeão brasileiro. Seu primeiro título veio finalmente em 1990. Eu acompanhei de perto esse campeonato. O Corinthians não era favorito, longe disso. Em uma publicação da época que fazia projeções sobre o time no Brasileirão dizia que o Corinthians iria fazer apenas um bom campeonato. Todos diziam que o grande favorito era o São Paulo. No papel realmente era um time sem grandes estrelas. Os cronistas esportivos diziam que não havia nenhum craque no time. Bom, de certo modo eles tinham razão, mas...

Neto estava em estado de graça. Esse jogador vinha do Palmeiras, após ser revelado pelo Guarani. Um boato maldoso daquela época dizia que Neto havia sido trocado por dez pares de chuteiras e um empréstimo do jogador Ribamar. Verdade ou não, o fato é que essa piada mostrava que Neto não era nenhuma estrela do futebol da época. Era baixinho e... gordinho! Estava sempre lutando contra a balança.

Só que Neto era mais do que isso. Foi um dos maiores batedores de faltas da história do futebol nacional. Quando surgia uma falta próxima da área do time adversário, a Fiel já começava a comemorar. E realmente tinha razão para esse comportamento. Geralmente se havia uma boa posição para bater a falta, Neto não perdoava. Colocava a bola lá onde a coruja dorme. Impossível para qualquer goleiro alcançar. Era gol na certa.

E foi assim que o Corinthians chegou na final contra justamente o São Paulo. O gol do título veio de uma bola complicada. O desconhecido Tupãzinho achou um lugar para mandar a bola para o gol. Era o que bastava. Com 1 a 0 o Corinthians se sagrou campeão brasileiro pela primeira vez. Foi uma grande festa por toda a cidade de Sâo Paulo. É importante dizer que eu considero esse título um divisor de águas na história do Corinthians. Depois dele começou uma onda de vitórias e mais vitórias, levando o time a vencer outros brasileiros e se sagrar campeão do mundo por 2 vezes. Foi a era de ouro do Corinthians e eu estava lá, acompanhando tudo. Foi realmente um tempo mágico para o Timão.

Pablo Aluísio.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2002

Crônicas do Futebol - Edição IV

Qual foi o melhor Santos de todos os tempos? Essa pergunta é fácil de responder. O melhor time do Santos de todos os tempos foi o Santos de Pelé, claro! É como perguntar qual foi o maior Botafogo de todos os tempos? Claro que foi aquele em que Garrincha jogou. Quando ambos entraram juntos na Seleção brasileira, o Brasil nunca perdeu um jogo, sabia disso? Entretanto não tive o prazer de acompanhar nem o Santos de Pelé e nem o Botafogo de Garrincha. Eu não havia nascido. O que não quer dizer que não fico admirado com o futebol arte desses dois grandes craques quando vejo uma cena daquela época.

O Pelé aliás foi um jogador excepcional. Ele recebeu o título de Rei do Futebol e eu penso que esse é aquele tipo de título mais do que merecido. Ele merece todos os aplausos, todos os elogios. Um atleta perfeito. Um grande orgulho para todos os brasileiros. Em relação ao Santos eu tenho sentimentos dúbios. Eu sei que quando Pelé jogava, quando estava em seu auge, eles venceram nove títulos paulistas em dez anos! Incrível! O Corinthians (meu time do coração) sofreu muito quando Pelé brilhava no Santos. Ficou anos e anos sem vencer do time do Rei. Coisas da vida. Eu não fico com raiva ao ouvir esse tipo de informação. O futebol arte merece mesmo vencer.

Por outro lado - e curiosamente - quando comecei a acompanhar futebol o Pelé não jogava mais no Santos. Aliás ao longo de muitos anos vi muitos times do Santos que mereciam facilmente a alcunha de "times capengas". Um pior do que o outro. Nos anos 80 e 90 inclusive o jogo virou literalmente. O Santos passou a ser freguês do Corinthians. Quando via que o jogo do final de semana seria contra o Santos eu já ficava tranquilo. Era quase certo que o Santos iria colecionar mais uma derrota contra o Corinthians.

Esses times genéricos do Santos eu costumo denominar de "Geração Coca-Cola". Não, não é uma referência ao Legião Urbana. Acontece que por essa época o Santos era patrocinado pela Coca-Cola. E os times que entravam em campo eram bem medíocres, sendo bem sincero. Só anos depois com Neymar e aquela geração é que o Santos passou a ser novamente competitivo. Antes disso era um pato mesmo, apesar de eu sempre ter achado muito bonito o uniforme oficial do time. O branco total é inegavelmente belo em contraste com o verde do gramado.

Pablo Aluísio.

Crônicas do Futebol - Edição III

A Copa do Mundo de 1982 foi a primeira que acompanhei de verdade. Eu morava em um condomínio no Rio de Janeiro e foi uma festa. Os moradores embelezaram o lugar com verde a amarelo, todos só falavam da Copa e o clima era de euforia. E todo mundo tinha razão de ter esse otimismo. A seleção brasileira era excelente, cheia de craques. Em minha opinião era certamente a melhor seleção de futebol do mundo. Quem poderia discordar? Tirando o goleiro Valdir Peres e o Toninho Cerezo, todos os demais poderiam ser considerados craques ou no mínimo grandes jogadores.

Os craques em minha opinião enchiam os olhos. Era uma seleção do Brasil que tinha Zido, Sócrates, Falcão e Éder Aleixo (que cobrava faltas como quem detona dinamite). Eu gostava muito também do futebol de Júnior (do Flamengo), Oscar e Leandro. O centroavante não ficava à altura do time, apesar de fazer gols o Serginho Chulapa era apenas mediano. De qualquer forma era uma seleção brasileira mravilhosa. Além de todos os nomes tinha o Telê Santana como treinador. Tudo parecia estar nos eixos. Só faltava levantar a taça.

Só que os deuses do futebol também mostram seus caprichos. A seleção de 1982 estava fadada a ser a melhor seleção do mundo que não iria ganhar nada. Foi terrível a eliminação no jogo contra a itália. Nunca mais o povo brasileiro iria se esquecer do nome de Paolo Rossi. Esse jogador italiano que nem era considerado tão bom assim, jogou como nunca na sua carreira! Aliás ele nunca mais iria jogar tanto até o fim de seus dias como jogador de futebol. Foi só naquele dia... para azar do Brasil!

O Brasil fazia um gol, o Rossi fazia outro. Novo gol do Brasil? Novo gol do Rossi. No final os italianos levaram a melhor e o Brasil foi eliminado da Copa do Mundo. O canarinho não voou como previa a boa música do Júnior (que chegou até a lançar um compacto na época!). No final de tudo a seleção de 82 ficou conhecida como "a seleção que jogava bonito, mas que não ganhava nada!". Injustiça demais. Essa seleção jamais vai ser esquecida, ao contrário das que foram campeãs e jogaram feio. O que importa no futebol é a beleza e a emoção. Nesses quesitos essa seleção deixou saudades.

Pablo Aluísio.

terça-feira, 1 de janeiro de 2002

Crônicas do Futebol - Edição II

Qual foi a Copa do Mundo mais antiga da sua vida? Qual é a Copa do Mundo mais velha que você consegue lembrar? Que você presenciou e tem lembranças? A minha foi a Copa do Mundo de 1978. Eu era muito jovem, criança mesmo, mas ainda me lembro de imagens e flashes dessa Copa do Mundo da Argentina. Eu me recordo dos estádios super lotados e da quantidade enorme de papel que ficava pelos campos - uma maneira que a torcida dos hermanos fazia para abrilhantar ainda mais o espetáculo do futebol.

Essa Copa do Mundo tem peculiaridades próprias  Foi a única até hoje realizada na Argentina que sempre foi um gigante do mundo do futebol. Também foi a primeira Copa do Mundo conquistada pela Argentina, isso em uma era pré-Maradona. A seleção da Argentina era excelente, tinha craques como Passarella, Ardiles, Kempes e Fillol. Futebol no campo não lhe faltava, tinha uma equipe que poderia ser considerada mesmo uma das melhores do mundo.

Só que o título argentino até hoje ficou marcado por causa de um jogo contra o Peru. Para seguir em frente a Argentina precisava vencer por uma diferença de 4 gols. Até aí tudo bem, uma vez que o Peru nunca foi mesmo uma grande seleção. Só que a Argentina venceu por 6 a 0, passando para a outra fase, tirando o Brasil da Copa, mesmo que a Seleção Canarinho não tivesse perdido nenhum jogo. Claro que o cheiro de marmelada surgiu no horizonte e até hoje se fala nisso.

Pois é, meus caros. Essa Copa do Mundo de 1978 é a minha mais antiga lembrança de Copas que tenho. Só que a seguinte seria aquela que eu iria viver realmente. A Copa do Mundo de 1982. E seria também a minha primeira grande decepção em termos de futebol brasileiro. Até hoje lembro a música "voa canarinho, voa"... mas falarei sobre isso em outra crônica. Até lá!

Pablo Aluísio. 

Crônicas do Futebol - Edição I

Olhando para o passado, em minhas lembranças, o primeiro campeonato que eu comemorei foi o estadual de 1988. Eu estava na adolescência e quando se é jovem, já sabe, o futebol ganha grande importância. Pois realmente foi a partir desse ano que comecei a acompanhar o time com especial atenção. A equipe de 1988, apesar de ser campeã, era mesmo mediana. Em minha opinião não havia nenhum craque no timão.

E falo isso não para desmerecer o Corinthians de 88, mas sim para relatar um fato. Só para ter uma ideia o jogador mais destacado daquele ano foi o novato Viola que se notabilizou por ter feito o gol na final contra o Guarani. Mas quem diabos era Viola? Ninguém sabia quem era Viola naquela época! Muito menos esse que está escrevendo esse texto. Por aqueles anos o Corinthians vivia de alguns craques do passado, entre eles Cláudia Adão, em fim de carreira. Não era um time cheio de craques, temos que falar a verdade. Tinha muito jogador batalhador, guerreiro, todos puxados pela mesma torcida apaixonada de sempre, mas craque... definitivamente não havia!

Se não era um time de craques, pelo menos era um time regular. O Corinthians de 88 jogou um futebol feijão com arroz, mas que foi suficiente para levar o time para a final. E contra o Guarani de Campinas, o Corinthians, mesmo mediano, era o favorito. O último estadual havia sido conquistado em 1983, então já era hora de ganhar mais um Paulista, para deixar a torcida tranquila.

Para relembrar o time foi treinado pelo Jair Pereira. Na final o Corinthians jogou com o seguinte time: Ronaldo, Édson, Marcelo Djian, Denílson e Dida; Biro-Biro, Márcio, Edmundo (Viola); Wilson Mano, Éverton e João Paulo. Alguns desses seguiriam no time até 1990, ano que o timão venceu pela primeira vez o campeonato brasileiro (que irei falar em breve por aqui). O mais veterano era mesmo o Biro-Biro, que já estava prestes a se aposentar, afinal ele foi jogador do Corinthians por muitos anos e da velha guarda apenas ele continuava jogando. Era chegada a hora de pendurar as chuteiras.

Pablo Aluísio.

domingo, 2 de dezembro de 2001

Respire

Título no Brasil: Respire
Título Original: Breathe
Ano de Lançamento: 2014 
País: França 
Estúdio / Produtoras: Gaumont Productions 
Direção: Mélanie Laurent 
Roteiro: Mélanie Laurent, Julien Lambroschini 
Elenco: Joséphine Japy, Lou de Laâge, Isabelle Carré, Claire Keim, Roxane Duran, Thomas Solivéres 

Sinopse
Charlie, uma adolescente de 17 anos, vive uma vida pacata até o dia em que chega na escola uma nova aluna chamada Sarah, carismática e sedutora. Charlie se sente imediatamente atraída por Sarah — ambas começam uma amizade intensa, cheia de intimidade, confidências e cumplicidade. Porém, aos poucos, a relação se torna tóxica: Sarah começa a exercer controle emocional, ciúmes e manipulação sobre Charlie, até transformar a amizade em uma relação de poder e violência psicológica. A tensão cresce e o vínculo entre elas se rompe de forma dramática, levando a consequências chocantes e colocando em xeque a própria realidade da protagonista. 

Comentários:
Respire foi baseado no romance homônimo da escritora francesa Anne-Sophie Brasme. A estreia mundial aconteceu na seção “Semana da Crítica” do Festival de Cannes de 2014. O filme também foi exibido no Toronto International Film Festival (TIFF) 2014, na seção Contemporary World Cinema. A fotografia, de Arnaud Potier, e a direção de arte criam uma atmosfera fria e melancólica, reforçando a intensidade emocional e psicológica da trama. Crítica e público receberam bem: no agregador Rotten Tomatoes, o filme tem cerca de 93% de aprovação com base em críticas especializadas. A crítica elogia especialmente as atuações de Joséphine Japy e Lou de Laâge — consideradas intensas e convincentes — e a forma realista com que o filme aborda amizade, obsessão e manipulação entre adolescentes.

Chad G. Peterson. 

sábado, 1 de dezembro de 2001

Curiosidades do Filme - Red Rooms

Curiosidades do Filme - Red Rooms
A direção de arte e fotografia do filme optam por um estilo minimalista e frio: iluminação austera, enquadramentos fechados, paleta de cores que enfatiza o isolamento da protagonista — reforçando a atmosfera de tensão psicológica. 

O terror no filme não depende de cenas explícitas de violência: o horror vem pelo incômodo psicológico, pela ambiguidade moral e pelo desconforto causado pela obsessão de Kelly-Anne e a mídia sensacionalista. 

O filme estreou no circuito internacional em 2023 — por exemplo, em festivais — e chegou ao público brasileiro mais tarde (2025). 

A recepção crítica ao filme tem sido bastante positiva: no agregador de críticas, “Tomatometer”, alcança cerca de 96% de aprovação. Rotten Tomatoes

A performance de Juliette Gariépy como Kelly-Anne é frequentemente destacada como “hipnótica” e “perturbadora”, fundamental para o impacto do filme. 

Por outro lado, alguns espectadores criticam o ritmo do filme: para eles, a narrativa se arrasta no início e o final deixa “questões em aberto”, sem resolver completamente a história. 

Curiosidades do Filme - Respire

Curiosidades do Filme - Respire
“Respire” é baseado no roteiro escrito por Doug Simon, e o filme estava na “Black List” de roteiros não produzidos mais bem avaliados em Hollywood antes de ser realizado. 

O elenco reúne nomes conhecidos: Jennifer Hudson com papel central, Milla Jovovich e Quvenzhané Wallis como figuras-chave na trama, além de Sam Worthington e Common. 

A obra mistura ficção científica com thriller distópico, trazendo uma premissa sombria — escassez de ar e tensão social — que evoca reflexões sobre dependência de recursos naturais e desespero humano. A produção foi rodada (parte) em 2022 — conforme o cronograma inicial. 

No Brasil, “Respire” aparece em catálogos de streaming: há registros de disponibilidade para aluguel/compra digital em serviços como Apple TV e canal Telecine. 

terça-feira, 1 de maio de 2001

Montgomery Clift

1. Introdução: um ator fora do seu tempo
Edward Montgomery Clift nasceu em 17 de outubro de 1920, em Omaha, Nebraska, e tornou-se um dos atores mais influentes e trágicos da história do cinema norte-americano. Ao lado de Marlon Brando e James Dean, Clift é frequentemente apontado como um dos fundadores da atuação moderna em Hollywood. No entanto, diferentemente de seus contemporâneos, sua revolução não se deu pelo confronto explícito ou pela rebeldia aberta, mas pela introspecção, pela fragilidade emocional e pela verdade psicológica que trouxe a cada personagem.

Montgomery Clift não era apenas um ator: era uma ruptura. Sua presença nas telas desafiava o modelo clássico do astro viril, seguro e invulnerável. Ele introduziu um novo tipo de masculinidade, marcada por conflitos internos, sensibilidade extrema e silêncio expressivo. Em uma Hollywood ainda dominada por estúdios rígidos e arquétipos bem definidos, Clift representava a inquietação do pós-guerra e o surgimento de uma geração que já não acreditava em heróis sem falhas.

2. Infância e formação: o teatro como refúgio
Filho de uma mãe dominadora, Ethel Anderson Clift, Montgomery teve uma infância incomum. Sua mãe acreditava que os filhos estavam destinados a uma grandeza especial e os afastou do ensino formal tradicional, optando por uma educação itinerante pela Europa e pelos Estados Unidos. Essa criação contribuiu para o isolamento emocional do ator, mas também lhe proporcionou contato precoce com arte, música e literatura.

Aos 13 anos, Clift já atuava profissionalmente no teatro da Broadway. Diferente de muitos atores que viam o palco como um trampolim para o cinema, ele considerava o teatro sua verdadeira casa. Foi ali que desenvolveu uma disciplina rigorosa e uma abordagem profundamente psicológica da interpretação, muito antes de o chamado “Método” se tornar popular em Hollywood.

Durante os anos 1930 e início dos anos 1940, Montgomery Clift construiu uma sólida carreira teatral, atuando em peças de Shakespeare, dramas contemporâneos e produções experimentais. Seu talento chamou a atenção de diretores e críticos, mas ele resistiu durante anos às propostas de Hollywood, temendo perder o controle artístico de seu trabalho.

3. A estreia no cinema e a recusa ao sistema de estúdios
Montgomery Clift fez sua estreia no cinema relativamente tarde, aos 28 anos, em “Rio Vermelho” (Red River, 1948), dirigido por Howard Hawks e estrelado por John Wayne. Desde sua primeira aparição, ficou claro que algo havia mudado. Enquanto Wayne representava o velho Oeste mítico, Clift surgia como um jovem contido, emocionalmente complexo e moralmente dividido.

O contraste entre os dois atores simbolizou uma transição histórica no cinema americano: o embate entre o heroísmo clássico e a dúvida moderna. Clift não precisava levantar a voz ou impor sua presença; seu poder estava no olhar, na pausa, na tensão interna.

Diferentemente da maioria dos atores da época, Clift recusou contratos de longo prazo com estúdios. Essa decisão lhe deu liberdade artística, mas também instabilidade financeira e conflitos frequentes com produtores. Ele escolhia seus papéis com extremo cuidado, rejeitando projetos que não considerava artisticamente honestos.

4. A consagração crítica: sensibilidade e tragédia
Nos anos seguintes, Montgomery Clift entregou uma sequência de atuações memoráveis. Em “Tarde Demais” (The Heiress, 1949), interpretou um sedutor ambíguo, distante do galã romântico tradicional. Em “Um Lugar ao Sol” (A Place in the Sun, 1951), sua atuação como George Eastman tornou-se um marco definitivo do cinema.

Nesse filme, Clift encarnou o conflito entre ambição social, desejo e culpa moral. Sua performance, marcada por silêncio e tensão contida, redefiniu o melodrama hollywoodiano. Ele não interpretava emoções: ele as vivia diante da câmera.

O sucesso continuou com “A Um Passo da Eternidade” (From Here to Eternity, 1953), no qual viveu o soldado Prewitt, um homem íntegro esmagado pela brutalidade institucional do exército. A recusa do personagem em se submeter à violência gratuita refletia muito da própria ética pessoal de Clift.

5. Vida pessoal, sexualidade e isolamento
Fora das telas, Montgomery Clift vivia uma batalha constante contra si mesmo. Extremamente reservado, evitava entrevistas e eventos sociais. Sua sexualidade, em uma Hollywood profundamente conservadora, era um tema proibido. Embora nunca tenha se assumido publicamente, é amplamente reconhecido por historiadores e biógrafos que Clift era bissexual ou homossexual.

Esse conflito interno contribuiu para sua solidão e para uma sensação constante de inadequação. Diferentemente de James Dean, que transformava sua angústia em rebeldia visível, Clift internalizava sua dor. O resultado era uma intensidade emocional que transbordava na tela, mas o consumia por dentro.

Ele mantinha amizades profundas com figuras como Elizabeth Taylor, que se tornaria uma das pessoas mais importantes de sua vida. Taylor descrevia Clift como alguém de extrema delicadeza emocional, mas também profundamente autodestrutivo.

6. O acidente de 1956: o ponto de ruptura
Em 1956, durante as filmagens de “A Árvore da Vida” (Raintree County), Montgomery Clift sofreu um grave acidente de carro ao deixar a casa de Elizabeth Taylor. Seu rosto ficou severamente ferido, com múltiplas fraturas. Embora tenha sobrevivido, o acidente marcou o início de um período sombrio em sua vida e carreira.

A indústria passou a se referir ao período posterior como “a longa noite de Montgomery Clift”. Além das dores físicas, o ator enfrentou dependência de analgésicos, álcool e uma crescente insegurança em relação à própria imagem. Para um artista cuja expressividade facial era essencial, as cicatrizes representaram um golpe devastador. Ainda assim, Clift recusou-se a abandonar a atuação.

7. A reinvenção artística e a maturidade
Contrariando expectativas, Montgomery Clift entregou algumas de suas atuações mais complexas após o acidente. Em “De Repente, no Último Verão” (Suddenly, Last Summer, 1959), atuou ao lado de Elizabeth Taylor e Katharine Hepburn, interpretando um médico atormentado por dilemas éticos e emocionais.

Sua performance em “Julgamento em Nuremberg” (Judgment at Nuremberg, 1961) é frequentemente considerada uma de suas maiores conquistas. Em poucos minutos de cena, Clift interpretou um homem com deficiência intelectual, vítima do regime nazista. Sua atuação é devastadora em sua simplicidade e humanidade, rendendo-lhe uma indicação ao Oscar.

Nesse período, Clift já não buscava a perfeição estética, mas a verdade emocional absoluta.

8. Relação com o Método e influência no cinema
Embora frequentemente associado ao Actor’s Studio e ao Método, Montgomery Clift nunca foi aluno formal da instituição. Ainda assim, sua abordagem intuitiva, psicológica e profundamente interna influenciou toda uma geração de atores.

Marlon Brando, Paul Newman, Al Pacino e Robert De Niro reconheceram a importância de Clift como precursor de uma atuação menos teatral e mais humana. Ele foi um dos primeiros a mostrar que o silêncio, a dúvida e a vulnerabilidade podiam ser tão poderosos quanto discursos inflamados.

9. Últimos anos e morte
Os últimos anos de Montgomery Clift foram marcados por saúde frágil, projetos irregulares e crescente isolamento. Em 23 de julho de 1966, aos 45 anos, ele morreu em Nova York, vítima de um ataque cardíaco, agravado pelo uso prolongado de medicamentos e álcool.

Sua morte não foi um escândalo, mas um silêncio — condizente com a vida que levou. Hollywood, no entanto, começava a compreender a dimensão de sua perda.

10. Legado: a beleza da imperfeição
Montgomery Clift deixou uma filmografia relativamente curta, mas de impacto duradouro. Ele redefiniu o conceito de ator dramático no cinema americano e abriu espaço para personagens complexos, ambíguos e emocionalmente feridos.

Mais do que um ícone trágico, Clift foi um artista que pagou um preço alto por sua integridade. Sua atuação permanece atual porque fala de conflitos universais: identidade, solidão, desejo e medo.

Em um mundo que ainda celebra máscaras, Montgomery Clift escolheu a verdade — mesmo quando ela doía.

sexta-feira, 6 de abril de 2001

Filmografia Mickey Rourke - Anos 80 e Anos 90


🎬 Década de 1980
Heaven’s Gate (O Portal do Paraíso) – 1980
Body Heat (Corpos Ardentes) – 1981
Diner (Quando os Jovens se Tornam Adultos) – 1982
Rumble Fish (O Selvagem da Motocicleta) – 1983
The Pope of Greenwich Village (Nos Calcanhares da Máfia) – 1984
Year of the Dragon (O Ano do Dragão) – 1985
9½ Weeks (9½ Semanas de Amor) – 1986
Barfly (Barfly – Condenados pelo Vício) – 1987
Angel Heart (Coração Satânico) – 1987
A Prayer for the Dying (Prece Para um Condenado) – 1987
Homeboy (Homeboy – Chance Para Vencer) – 1988
Johnny Handsome (Um Rosto Sem Passado) – 1989
Francesco (Francisco de Assis) – 1989
Wild Orchid (Orquídea Selvagem) – 1989

🎬 Década de 1990
Desperate Hours (Horas de Desespero) – 1990
White Sands (Areias Brancas) – 1992
Harley Davidson and the Marlboro Man (Harley Davidson e Marlboro Man) – 1991
The Last Outlaw (Os últimos Foras-da-Lei) -1993
FTW (Cúmplices do Desejo) - 1994
Fall Time (Fall Time - Brincando com o Perigo) - 1995
Bullet (Bullet) - 1996
Exit in Red (Sem título no Brasil) – 1996
Double Team (A Colônia) – 1997
Love in Paris (9 1/2 Semanas de Amor 2) - 1997
The Rainmaker (O Homem Que Fazia Chover) - 1997
Buffalo '66 (Buffalo 66) - 1998
Point Blank (Vingança à Queima-Roupa) – 1998
Thicker Than Blood (Mais Forte que a Amizade) - 1998
Thursday (Quinta-Feira Sangrenta) – 1998
Out in Fifty (Sem título no Brasil) – 1999
Shergar (O Cavalo Shergar) - 1999
Shades (Sem título no Brasil) – 1999
Animal Factory (Fábrica de Animais) – 1999