domingo, 4 de março de 2001

James Dean: Assim Caminha a Humanidade

Giant
Não demorou muito e a Warner escalou James Dean para seu terceiro grande filme em seguida. Ele não sabia, mas também seria seu útlimo! A produção seria a maior que ele iria atuar, uma grande produção da Warner com dois grandes nomes no elenco: Rock Hudson e Elizabeth Taylor. Apesar da boa fase em sua carreira, Dean não tinha nome suficiente em Hollywood para superar seus colegas de elenco. Assim ele foi colocado como terceiro nome no poster oficial do filme. Era algo normal. Em Hollywood primeiro vinha os grandes, depois os promissores. James Dean ainda era considerado um futuro astro, um ator em desenvolvimento, meramente promissor.  Não ficou insatisfeito com isso, pelo contrário, ficou até mesmo animado em participar de um filme tão grande como aquele! 

Assim que começaram as filmagens de Giant (Assim Caminha a Humanidade, no Brasil), James Dean logo viu que teria problemas. O diretor George Stevens pertencia a uma outra escola, muito tradicional, onde não eram aceitas improvisações sobre o que estava no roteiro e no script. Ao contrário dos diretores anteriores, com os quais Dean se deu muito bem por causa do processo criativo, nesse novo filme ele deveria andar na linha, com disciplina sobre o que estava escrito. 

Na primeira semana de gravação Dean reclamou que ficara o tempo todo em sua cadeira, vendo "Rock Hudson se apaixonar por Elizabeth Taylor". Isso aconteceu porque Stevens procurava filmar as cenas em ordem cronológica e em razão disso James Dean não tinha nenhuma tomada programada.

Ele achou tudo um enorme tédio. Enquanto Rock e Liz trabalhavam, Dean ficava em seu acento, fazendo nós em sua corda de vaqueiro. Depois de três dias nisso o jovem ator rebelde chutou o balde e resolveu desaparecer do set. Ao invés de acompanhar a cena de outros atores ele preferiu ficar ao lado dos extras cowboys que faziam parte do elenco de apoio. Nem precisa dizer que isso acabou enfurecendo George Stevens. O veterano cineasta queria que Dean acompanhasse tudo, para assim entrar no clima da história. Dean pensava diferente. Para ele ficar acompanhando as filmagens de outros atores poderia atrapalhar sua performance. Ele queria ser espontâneo e não disciplinado. Além disso não estava disposto a abrir mão da linha de trabalho em que acreditava.

A diferença de visão sobre atuação e o aparente desinteresse de Dean pelo filme acabou criando uma tensão no set. Depois de inúmeras brigas e discussões, onde Dean teria virado as costas para Stevens, a relação entre eles azedou de vez. Mal se dirigiam a palavra uma ao outro. No máximo Stevens dava um bom dia a Dean que mal respondia, vociferando algo que ninguém entendia. Para uma amiga de Nova Iorque James Dean confidenciou em uma carta cheia de sinceridade: "Sinceramente todos me odeiam no set. O diretor não suporta ouvir nem meu nome. Rock é um grandalhão sem expressão. Estou na merda! Gostaria muito de voltar para Nova Iorque, para meus amigos, para o teatro... mas não posso! Esses caras da Warner me processariam e eu ficaria duro!". 

A única pessoa da equipe que parecia se dar bem com James Dean era a estrela Elizabeth Taylor. Liz tinha muita experiência em lidar com jovens atores de formação na costa leste como Dean. Ela já havia se dado muito bem com o problemático Montgomery Clift no passado e sabia que Dean não era muito diferente dele. Em pouco tempo ambos eram grandes amigos. Para Liz, Dean confidenciou: "Você é uma pessoa linda! O meu problema é que também gosto de pessoas más". Quando a situação ficava intolerável o diretor Stevens pedia a Liz que desse alguns conselhos a Dean, que curiosamente parecia seguir as dicas e opiniões da colega.

Já com Rock Hudson as coisas não fluíram bem. Eles se deram mal desde o começo. Na verdade James Dean tinha pouco respeito com galãs ao estilo de Rock, que no fundo era apenas um tipo bonitão que não tinha muita formação dramática. Rock havia sido criado pela fábrica de astros da Universal e nunca tinha pisado em um palco de teatro na vida. Esse histórico fazia com que Dean não o levasse muito à sério. Além disso a diferença de altura entre eles começou a incomodar Dean que se referia a ele como um "poste", uma piada que tinha dois sentidos, uma em relação ao 1.90m que Rock ostentava e outra em direção a pouca expressividade de Hudson. Dean que era considerado um baixinho ficou bem desconfortável ao ter que contracenar com alguém tão alto como Rock. Para piorar o próprio Rock começou a também ironizar James Dean e seu método de trabalho. Ele chegou a afirmar: "James Dean era do tipo miúdo! Antes de entrar em cena ele dava pulos, corria e fazia todo tipo de exercício que tinham lhe ensinado em Nova Iorque! Eu achava aquilo tudo bem estranho e para falar a verdade tudo me parecia um circo, uma palhaçada".

Filmando no Texas
As filmagens de Giant (Assim Caminha a Humanidade) foram longas e cansativas. Para piorar elas foram realizadas em pleno verão, no escaldante sol do Texas. O diretor George Stevens tinha um jeito próprio de filmar. Ele colocava várias câmeras filmando ao mesmo tempo para depois escolher apenas os melhores ângulos que entrariam no corte final. Isso se tornava um inferno nas mãos dos editores já que a edição ficava triplamente complicada. 

Por essa razão James Dean jamais teria a oportunidade de assistir ao seu último filme. Após o fim das filmagens o material ficou por mais de um ano e meio na sala de edição da Warner Bros e nesse meio tempo Dean sofreria o acidente fatal que o vitimou com apenas 24 anos de idade. Curiosamente a última cena rodada pelo ator era uma em que ele aparecia usando forte maquiagem, aparentando ser um homem bem mais velho, angustiado e corroído pelo fato de nunca ter conquistado a mulher de seus sonhos (que era interpretada por Elizabeth Taylor). Uma ironia do destino pois na vida real James Dean jamais teria a oportunidade de envelhecer, viver muitos anos!

Outro aspecto interessante aconteceu porque pela primeira vez em sua carreira no cinema ele teria que interpretar um homem embriagado. Diante do diretor assistente o ator disse que a única forma de interpretar alguém bêbado de forma convincente era tomar um porre. Após tomar meio litro de whisky, Dean surgiu no set, totalmente alto! A cena se revelaria grandiosa na tela, mas na realidade foi um tormento e um desastre para ficar pronta. Dean, completamente de fogo, esqueceu a maioria das falas e quase não conseguiu terminar a sequência. Stevens não se importou, mandou as câmeras filmarem sem interrupção e no final, na sala de edição, conseguiu dar um jeito para que todas as partes apresentassem uma lógica narrativa.

Livre do filme, mas ainda precisando retornar ao estúdio para dublar determinadas falas que não ficaram bem, por motivos técnicos (algo que só seria realizado pelo amigo Nick Adams após a morte de Dean), o ator resolveu se dedicar ao que mais gostava: correr e participar de corridas amadoras pela região. O último encontro com o diretor George Stevens foi cordial, apesar de tudo. James Dean passou o tempo todo brigando com ele por causa da diferença de visão que ambos tinham sobre a melhor atuação possível. Stevens determinava o que queria, mas Dean, muito intuitivo, acaba fazendo o que ele bem entendia. Desse choque de visão acabou surgindo uma das melhores atuações da década, o que valeria a Dean a indicação póstuma ao Oscar. Ao veterano cineasta Dean se despediu dizendo: "Agora podemos dar as mãos, eu não preciso mais de você e nem você de mim. Espero que as pessoas gostem do filme" ao que Stevens respondeu secamente: "Sim, eles gostarão". Depois disso o ator subiu em seu Porsche e pegou estrada. No caminho conversando com seu mecânico particular confessou: "Não sei o que esperar desse meu último filme".

Por essa época todos em Hollywood já sabiam que James Dean era o grande nome do momento. Em pouco tempo ele certamente se tornaria um astro. Havia um certo protocolo, como fazer capas de revistas e dar entrevistas para os jornalistas especializados em cinema, mas Dean ignorou tudo isso. Em um sinal de boa vontade resolveu participar brevemente de um programa de TV, dando uma pequena, mas importante entrevista. Antes de ir embora o entrevistador perguntou a Dean se as pessoas precisavam tomar mais cuidado ao dirigir em alta velocidade. Com seu jeito peculiar de ser Dean disse: "É isso aí, tenham cuidado ao volante, assim vocês poderão salvar vidas... inclusive, quem sabe, talvez até a minha!".

Elizabeth Taylor e James Dean
É curioso que ambos tenham se dado tão bem pessoalmente. Dean era a anti-estrela por definição, odiava todo o sistema mais comercial do cinema americano e não gostava de fazer concessões, como dar entrevistas e promover nem seus próprios filmes. Andava mal vestido e era considerado um ator rude com jornalistas em geral. 

Já Liz Taylor era ao lado de Marilyn Monroe o exemplo máximo de uma estrela de sucesso em Hollywood. Sempre aparecendo nas mais prestigiadas capas de revistas, lançando moda, dando entrevistas e fazendo tudo o que se esperava de uma atriz como ela. Era naquele momento a queridinha dos estúdios por onde trabalhava. De qualquer maneira, apesar de serem artistas tão diferentes, Dean viu em Taylor uma amizade sincera. Ele certamente não se deu bem com Rock Hudson no set de filmagens mas com Liz criou um vínculo genuíno de amizade e aproximação. Foram amigos até o fim da breve vida de Dean, que morreria não muito tempo depois, de um terrível acidente de carro na estrada de Salinas.

 Assim Caminha a Humanidade 
"Giant" entrou para a história do cinema por vários motivos. O mais lembrado deles é o fato de ter sido o último filme de James Dean. Poucos dias após o fim das filmagens o ator resolveu participar de uma corrida e na viagem até lá morreu em um trágico acidente com apenas 24 anos. Outro ponto a se destacar é que esse é considerado até hoje o melhor filme de George Stevens. Diretor habilidoso, conseguia ótimos resultados por causa de um método inovador de trabalho. Ele utilizava várias câmeras, todas em ângulos diferentes e depois passava meses trancado no estúdio assistindo a cada registro, a cada tomada de cena. Só depois de montar o filme em sua própria mente é que ele finalmente dava o corte final em suas obras. Por essa razão "Assim Caminha a Humanidade" é uma verdadeira obra prima, uma ode ao Texas que até hoje impressiona por sua força e atemporalidade. Por fim, e não menos relevante, "Giant" é sempre lembrado pelas ótimas atuações do casal Rock Hudson e Elizabeth Taylor. Rock aliás considerado até aquele momento um mero galã de Hollywood conseguiu sua primeira e única indicação ao Oscar. O reconhecimento da Academia foi mais do que merecido pois o trabalho de Rock é realmente primoroso, onde ele interpreta um personagem em vários momentos de sua vida, desde a juventude até sua velhice. Permeando tudo temos os vastos campos do Texas. A própria imagem da casa de fazenda ao longe, sem nada por perto reflete bem a grandeza daquela região, onde grandes fortunas foram feitas praticamente da noite para o dia. O Ouro negro, como era chamado o Petróleo, fez a riqueza de muitas famílias texanas. E é justamente sobre isso que seu enredo enfoca.

Em sua autobiografia Rock Hudson relembra como foi tratado por George Stevens. O diretor lhe colocou a par de todos os aspectos da produção e chegou a dizer a ele que escolhesse a cor da casa de seu personagem no filme. Nunca um diretor havia feito algo assim com ele. Isso demonstrava o modo de trabalhar de Stevens, ele queria que todos se sentissem parte do processo de realização do filme. Hudson afirmou em seu livro que nunca vira nada igual antes. Se o diretor queria aproximação completa entre ele e o elenco o mesmo não se podia dizer dos dois atores principais. Desde o começo Rock Hudson e James Dean não se deram bem. Dean vinha de Nova Iorque e procurava ir fundo em suas interpretações. Hudson foi formado na Universal, dentro do Star System, e estava pouco preocupado com maneirismos do Actors Studio. Assim travou-se uma verdadeira batalha nas cenas, dois atores com formação completamente diferente que não se gostavam muito pessoalmente. Dean achava Rock um mero galã e um "poste" - apelido que usou por causa da grande altura do ator. Como ele era baixinho, Dean acabou sentindo-se intimidado por Rock. Já Hudson achava Dean esquisito, complicado de se lidar. Curiosamente apesar de ambos não se darem bem, os dois se tornaram grandes amigos da estrela Elizabeth Taylor. Para Dean, Liz era como uma irmã que nunca teve. Amorosa e simpática procurava entender o rebelde ator mesmo quando ele nitidamente se comportava mal com os outros. Já em relação a Rock ela se comportava como uma amiga de farras. Ambos tomaram grandes porres juntos e inventaram o Martini de chocolate, uma combinação explosiva que exigia um intestino de aço de quem ousasse beber aquela mistureba toda. Elizabeth Taylor virou amiga até os últimos dias de vida de Rock Hudson e quando esse morreu de AIDS em 1985 ela fundou uma instituição de apoio a pesquisas para combater a doença.

A edição do filme foi complicada e demorada. Havia muito material gravado, por diversas câmeras e assim George Stevens passou longos meses montando tudo aquilo. Quando o filme finalmente ficou pronto e foi lançado James Dean já havia morrido há mais de um ano. Como tinha se tornado um mito eterno da sétima arte com sua morte suas jovens fãs correram para os cinemas para conferir o último trabalho do encucado ator. O que viram foi uma produção completamente diferente de "Juventude Transviada". Enquanto aquele era uma crônica sobre a juventude e seus problemas, "Giant" era monumental, de enorme duração e com ares de cinema épico. A crítica se dividiu mas de forma em geral todos concordaram que estavam na presença de um dos maiores filmes já feitos por Hollywood. Um dos pontos mais criticados foi justamente a maquiagem realizada nos atores nas cenas em que eles surgem envelhecidos. Para Rock Hudson e Elizabeth Taylor as perucas grisalhas realmente não caíram bem. De fato apenas James Dean surge bem nessas cenas, o que não deixa de ser uma grande ironia pois ele nunca teria a chance de envelhecer como seu personagem, que aparece bêbado e caindo em um vexame público. Aliás muitas das falas de Dean ficaram ruins nesse momento final e o diretor George Stevens, sem opção, teve que contratar o ator Nick Adams para dublar certas partes do texto do ator falecido. Assim em conclusão podemos dizer que "Assim Caminha a Humanidade" não é apenas uma obra de cinema fenomenal mas também um marco histórico do cinema americano. Um filme tão grande quanto o Texas. Um momento maravilhoso do cinema americano que todos os cinéfilos devem assistir. 

Assim Caminha a Humanidade (Giant, Estados Unidos, 1956) Direção: George Stevens / Roteiro: Fred Guiol, Ivan Moffat baseados na obra de Edna Ferber / Elenco: Elizabeth Taylor, Rock Hudson, James Dean, Carroll Baker, Mercedes McCambridge, Jane Withers, Chill Wills, Sal Mineo, Dennis Hopper / Sinopse: "Assim Caminha a Humanidade" conta a estória do rico fazendeiro Bick Benedict (Rock Hudson) . Após cortejar e se casar com a mimada Leslie (Elizabeth Taylor) ele retorna para sua imensa casa de fazenda bem no meio do grandioso estado americano do Texas. Lá tem que lidar com todos os problemas de sua propriedade, inclusive seus empregados. Entre eles se destaca o estranho e taciturno Jett Rink (James Dean) que parece nutrir uma indisfarçável paixão pela esposa de seu patrão.

Pablo Aluísio.

Assim Caminha a Humanidade
Esse filme é uma epopeia sobre a fundação do Texas, seus valores primordiais e as famílias que fundaram esse estado norte-americano. Também apresenta, para surpresa de muitos, uma clara declaração progressista, ao mostrar a evolução pela qual passa o personagem interpretado por Rock Hudson. No começo ele surge como um tipo turrão, mais rude e até mesmo com preconceito racial e social, principalmente quando se depara com imigrantes mexicanos. Depois ele aprende com a vida e no final dá um exemplo de sua evolução como homem e como pessoa. Esses são, em essência, os pontos centrais nessa história.

Entretanto o filme se notabilizou mesmo dentro da história do cinema por ter sido o último da carreira de James Dean. Ele terminou sua participação e antes que o filme fosse editado e concluído, ele se espatifou com seu carro em uma estrada de Salinas. O jovem ator era apaixonado por carros velozes e participava ativamente de corridas que eram realizadas na Califórnia. Com sua morte o público ficou muito ansioso para ver o filme. Quando chegou nas telas "Giant" causou sensação, principalmente pelo fato de que era um filme bem longo, centrado, sério, sem pressa de contar sua história, que havia sido baseada no best-seller escrito por Edna Ferber. Sem dúvida um tipo de cinema grandioso que já não se faz mais nos dias atuais.

Assim Caminha a Humanidade (Giant, Estados Unidos, 1955) Direção: George Stevens / Roteiro: Fred Guiol, Ivan Moffat, baseados no romance escrito por Edna Ferber / Elenco: Elizabeth Taylor, Rock Hudson, James Dean / Sinopse: O filme conta a história de um casal, dono de vastas terras no Texas. E quando um de seus empregados encontra petróleo em seu pequeno rancho, as camadas sociais mudam de posição, onde um antigo empregado se torna mais rico que seu patrão, criando uma certa tensão entre todos os personagens. Filme vencedor do Oscar na categoria de melhor direção (George Stevens).

Pablo Aluísio.

Em Cartaz: Assim Caminha a Humanidade
O épico Assim Caminha a Humanidade estreou nos cinemas em outubro de 1956, dirigido por George Stevens e baseado no romance de Edna Ferber. Estrelado por Elizabeth Taylor, Rock Hudson e James Dean, o filme acompanha várias décadas da história de uma poderosa família texana, abordando temas como conflitos de classe, preconceito racial, mudanças sociais e o impacto da riqueza do petróleo. Desde seu lançamento, a produção foi anunciada como um grande acontecimento cinematográfico, tanto por sua escala monumental quanto por reunir três dos maiores nomes de Hollywood da época.

Em termos de bilheteria, o filme foi um enorme sucesso comercial. Com um orçamento elevado para os padrões da década, Assim Caminha a Humanidade arrecadou cerca de US$ 14 milhões em exibições iniciais nos Estados Unidos, tornando-se um dos maiores sucessos de 1956. O desempenho internacional ampliou ainda mais seus lucros, confirmando o interesse do público por dramas épicos de longa duração e temática social ambiciosa. A presença de James Dean — falecido meses antes da estreia — contribuiu para a enorme curiosidade do público.

A reação da crítica em 1956 foi amplamente favorável, embora reconhecesse o caráter grandioso e, por vezes, excessivo da obra. O The New York Times descreveu o filme como “uma narrativa vasta e poderosa sobre a transformação da sociedade americana”, elogiando especialmente a direção cuidadosa de George Stevens. A revista Time afirmou que o longa era “imponente, sério e profundamente americano em seu espírito”, destacando sua relevância social em um período de rápidas mudanças no país.

As atuações receberam atenção especial da imprensa. Elizabeth Taylor foi elogiada por sua evolução dramática ao longo das décadas retratadas, enquanto Rock Hudson surpreendeu críticos que até então o viam apenas como um galã. James Dean, em seu último papel no cinema, foi descrito pela Variety como “intenso, inquieto e eletrizante”, com muitos críticos observando que sua interpretação do rebelde Jett Rink roubava a cena e simbolizava a transição entre a velha e a nova América.

Com o passar dos anos, Assim Caminha a Humanidade consolidou-se como um dos grandes épicos do cinema clássico hollywoodiano. As críticas publicadas em 1956 já indicavam que o filme ultrapassava o melodrama tradicional, oferecendo um retrato amplo das tensões sociais e econômicas dos Estados Unidos do século XX. Hoje, a obra é lembrada tanto por sua importância histórica quanto por marcar definitivamente o legado de James Dean, permanecendo como um símbolo do cinema grandioso e ambicioso de sua época.

sábado, 3 de março de 2001

James Dean: Juventude Transviada

Rebelde Sem Causa
Foi nessa época que Dean formou seu grupo de amigos mais próximos na costa oeste. Em Nova Iorque Dean comandava uma turma muito interessante de jovens atores e atrizes que tentavam ganhar a vida nos palcos de teatro da cidade. Em Los Angeles os novos nomes ao lado do rebelde eram Sal Mineo, Natalie Wood e Nick Adams, entre outros. Dean esnobou outros jovens que tentaram se aproximar dele e que no futuro se tornariam grandes astros como Jack Nicholson. Naquele tempo Jack não era realmente ninguém na indústria. Trabalhando em um departamento burocrático do estúdio, tentando ganhar a vida a duras penas, ele estava anos distante do grande astro que um dia iria se tornar. O próprio Nicholson relembrou seu encontro com Dean anos depois: "Um amigo comum me disse que iria me apresentar à nova estrela da Warner Bros, então fui até lá. Dean estava encostado em um carro, fumando, no intervalo das filmagens. Fui apresentado a ele, mas para meu desapontamento ele não deu muita bola. Não prestou atenção no que eu dizia e de repente simplesmente se levantou e foi embora. Meu amigo ficou até mesmo envergonhado e pediu desculpas, dizendo que ele não estava ouvindo muito bem porque estava andando de moto e a audição ficara prejudicada com isso pelo vento que tomou. Não acreditei nisso, mas fingi acreditar".

James Dean de fato não era uma pessoa fácil de conviver, nem mesmo entre seus amigos mais próximos. Em Nova Iorque ele tinha crises de mau humor. Quando se reunia com amigos em bares pela cidade ele poderia tanto surgir como a pessoa mais simpática do mundo como também como a mais desagradável. Certa vez destratou quatro de seus mais próximos amigos em uma mesa, durante o almoço. Simplesmente ficou ali, de cara amarrada, durante toda a refeição. Depois se levantou e perguntou: "Onde estão os meus verdadeiros amigos?". Virou-se e se retirou sem maiores explicações. 

Não havia qualquer motivo para seu comportamento, mas Dean era assim mesmo, dado a explosões de melancolia, raiva e mau humor. Na costa oeste as coisas não seriam melhores. Natalie Wood, sua partner em "Juventude Transviada" ficou caidinha por Dean, mas ele não lhe deu muita bola também. Desde o começo das filmagens Dean deixou mais ou menos claro que não iria ter nenhum caso amoroso com ela. Depois de Pier Angeli e Ursula Andress, ele definitivamente não estava mais disposto a se envolver seriamente com uma atriz de Hollywood. Para Natalie o que sobrou foi mesmo uma amizade do tipo "irmão mais velho e irmãzinha". 

As filmagens foram quase todas realizadas em Los Angeles mesmo, por seus arredores, em uma antiga mansão abandonada e decadente localizada na S. Irving Boulevard, que foi usada para locações. Essa casa tinha sido a mesma utilizada nas filmagens do grande clássico "Crepúsculo dos Deuses" de 1950. Assim que pisou no local Dean mandou todos se calarem para "sentir melhor todas as vibrações dos deuses da sétima arte" presentes ali! 

O roteiro apenas se utilizava do nome de um livro sobre psicologia que se chamava "Rebelde sem Causa", onde se procurava analisar, baseado na ciência, sobre todos esses jovens que viviam revoltados, mas que não tinham motivo para tanto, uma vez que tinham bons pais, moravam em belas casas e eram bem tratados. Esses jovens eram assim rebeldes, apenas pelo amor à rebeldia! Não tinham motivo para tanto. Não havia razão ou causa a defender. De certa maneira era a cara do próprio James Dean. Talvez por essa razão ele tenha virado o ídolo máximo daquela juventude dos anos 1950. 

Pier Angeli
Foi nessa época que James Dean mergulhou em um dos períodos mais felizes de sua vida e isso por causa de seu relacionamento com Pier Angeli. Ele mudou seu estilo de vida para fazer o namoro dar certo e isso causou uma forte impressão dentro da comunidade de Hollywood. Ao invés de andar jogadão, com jeans e camisas surradas, Dean começou a vestir terno e smoking e para grande surpresa de quem o conhecia passou a apreciar jantares requintados ao lado da namorada. Até compareceu devidamente elegante na estreia do filme "Nasce uma Estrela"! 

Para quem vivia de moto, andando pelas ruelas menos turísticas da cidade, sem dúvida foi uma mudança radical. Poucas semanas depois de ser liberado pela Warner, Dean resolveu que era hora de voltar para Nova Iorque. Apesar de estar feliz ao lado de Angeli o fato era que o ator só se sentia em casa completamente na grande Apple, onde tinha sua turma formada desde os tempos do Actors Studio. Assim que chegou na costa leste ele emendou um pequeno trabalho na TV, apenas para não ficar sem trabalhar. Depois participou de um novo grupo de teatro que estava montando uma peça na Broadway. Longe de Hollywood o namoro com Angeli começou a esfriar.

A um amigo próximo James Dean confidenciou que Pier e sua mãe estavam pressionando o jovem rebelde a se amarrar, a se casar com a namorada. Isso era algo impensado para ele que sentia ver sua carreira decolar pela primeira vez. Isso porém não era tudo. A mãe de Pier Angeli queria que Dean virasse católico para que tudo saísse de acordo com seus planos. Dean não tinha religião fixa e não frequentava qualquer tipo de igreja e por essa razão ficou receoso. Ele até toparia virar romano se isso fosse de agrado da namorada, a única coisa que definitivamente não estava disposto naquele momento era se casar. Isso era algo fora de cogitação. 

Obviamente James Dean queria que o relacionamento fosse bem sucedido e um dia, quem sabe, poderia resultar em casamento, mas obviamente em um futuro indeterminado e não nos próximos meses como a mãe de Angeli queria. Infelizmente James Dean tomaria ciência pelos jornais que sua namorada estava indo a festas em Hollywood enquanto ele estava em Nova Iorque. Nas fotos publicadas ela aparecia feliz e sorridente, dançando inclusive com outros homens. Isso definitivamente deixou Dean totalmente aborrecido.

Depois de mais algumas semanas ele retornou a Los Angeles. A Warner queria providenciar seu segundo filme, chamado "Rebel Without a Cause" que seria dirigido pelo cineasta Nicholas Ray. O roteiro prometia pois tratava sobre jovens rebeldes da Califórnia. Era uma boa oportunidade para Dean, além disso o roteiro parecia ter sido escrito sob medida para ele. Em sua próprias palavras: "O meu personagem nesse filme será o de um jovem que tenta fazer tudo certo, mas que no final acaba fazendo tudo errado!". 

Após ler o script ficou bastante animado com o projeto e na mesma semana informou aos executivos da Warner que faria o filme com certeza! Se as coisas na esfera profissional pareciam andar bem, na vida privada o namoro com Angeli ia de mal a pior. Desde que voltara de Nova Iorque as brigas começaram a se tornar frequentes demais e Dean, rebelde como era, não estava disposto a ser manobrado nem pela namorada e nem muito menos pela mãe dela. No meio do turbilhão o namoro finalmente esfriou. Dean foi para seu lado e Angeli para o outro. Para sua completa surpresa a ex-namorada anunciou em poucos dias que ficaria noiva do cantor Vic Damone, algo que deixou Dean totalmente desnorteado, sem saber como reagir.

Dois meses depois veio uma bomba ainda maior. Pier anunciou sua data de casamento com o cantor ítalo-americano. A cerimônia foi uma das mais concorridas da comunidade de Hollywood, mas Dean ficou obviamente de fora da lista de convidados. Isso não o deixou intimidado e assim ele resolveu ir de moto para ver o que estava acontecendo no dia do casamento de sua ex. Estacionou sua Harley do outro lado da rua, acendeu um cigarro e ficou bem ali, quase como um desafiante. Assim que Angeli saiu da igreja e a chuva de arroz cobriu seu belo vestido de noiva, James Dean subiu em sua moto, acelerou e saiu em disparada, numa das mais representativas atitudes de sua vida, mostrando de forma clara que apesar da desilusão amorosa, ninguém ainda tinha forças suficientes para controlar o rebelde de Nova Iorque.

Hollywood Boulevard
Assim que Dean se tornou um nome quente em Hollywood, ele começou a ter mais e mais problemas com os executivos da Warner Bros. Isso porque o estúdio estava acostumado a exercer grande controle sobre seus astros, determinando tudo em suas vidas, algo que James Dean simplesmente não aceitava. Para ele aquilo era apenas um trabalho e não uma escravidão, ninguém tinha o direito de dizer o que ele faria em sua vida particular. Afinal de contas ele era um rebelde e se recusava a se tornar um marionete nas mãos de Jack Warner ou quem quer que fosse. Depois que "Juventude Transviada" foi finalizado, Dean se mandou rumo a uma corrida amadora em Salinas. Ele comprou um carro novo, ideal para corridas de alta velocidade, e se inscreveu no maior número de competições possíveis.

Embora fosse legal a oportunidade de praticar um esporte, a Warner entendeu que Dean mais cedo ou mais tarde se espatifaria numa corrida dessas. A Warner enviou um agente para acompanhar uma desses Grand Prix e ele informou ao estúdio que Dean dirigia mal, era míope e imprudente nas pistas. Era a mais pura verdade. A simples menção de que Dean participaria de uma prova já deixava os outros pilotos preocupados e apreensivos. O ator não estava interessado em dirigir prudentemente, pois ele geralmente fazia ultrapassagens perigosas, manobras arriscadas e posicionamentos suicidas. 

Isso levou Dean a ter vários desafetos nessas competições. Certa vez um piloto foi colocado fora da pista pelas maluquices de Dean. Quando a corrida acabou ele foi tomar satisfações e ambos saíram no soco, ali, bem na frente do público. Dean tirou seu capacete e foi pra cima do outro sujeito. A pancadaria que se seguiu foi generalizada e Dean acabou sendo banido daquela corrida para sempre.

Outro problema detectado pela Warner foi na própria vida pessoal do ator. Ele gostava de variar, se encontrado com homens, depois com mulheres e depois voltando a sair com homens novamente. A um amigo pessoal Dean confessou: "Ser bi aumenta em duas vezes a chance de você conhecer alguém interessante. Não estou preocupado em valores ultrapassados". Para piorar James Dean encontrou uma turma que gostava de misturar sexo com dor. Eram masoquistas. James Dean, no fundo um garoto caipira de Indiana, achou que aquilo era o máximo da libertinagem. 

Obviamente se sentiu atraído pelas essas práticas exóticas no mesmo momento. Não tardou e ele começou a se entrosar com aquela estranha turma, se tornando popularmente conhecido entre eles como "James Dean, o cinzeiro humano" pois curtia que cigarros acessos fossem apagados em seu peito durante o ato sexual. Os executivos ficaram bem preocupados com a vida libertina de seu jovem (e valioso) contratado. Algumas medidas foram tomadas para esconder isso da imprensa. Dizem que até jornalistas foram comprados para não escreverem sobre isso em suas publicações sensacionalistas. Dean porém deu de ombros e continuou com suas práticas sexuais bizarras. Segundo algumas biografias ele teria inclusive participado de uma orgia sadomasoquista na noite anterior ao dia de sua morte, naquele acidente terrível.

Para acalmar um pouco os ânimos Dean resolveu sair com algumas atrizes, para diminuir um pouco as fofocas de que era gay! A escolhida foi Ursula Andress, a bonita loira nascida na Suíça, que vinha fazendo grande sucesso em Hollywood. Os dois saíram muitas vezes juntos e foram vistos em várias festas da indústria, mas Dean nunca chegou a se acertar completamente com ela. 

Anos depois Ursula contaria sobre o suposto romance: "Era estranho. Dean me ligava e dizia que iria sair comigo. Não perguntava se eu queria sair com ele! Eu estava interessada nele, é claro, mas desde o começo ele me pareceu meio estranho. Tinha hábitos fora do comum, como não ter educação e se comportar de forma selvagem em ambientes chiques. Uma vez tirou a camisa numa festa onde o traje era a rigor. Noutra mandou os convidados se calarem pois queria ouvir os ruídos da noite! Nunca nos assumimos como namorados e ele não parecia se importar com o que eu sentia. Ele tinha um senso de humor meio doentio e a gente se provocava. Uma vez me confessou que gostaria de levar para cama qualquer pessoa que achasse atraente, mesmo que não fosse uma mulher! Um dia ele simplesmente sumiu e não deu mais notícias e assim nosso suposto romance chegou ao fim. Foi o relacionamento mais esquisito que tive em minha vida".

A verdade é que James Dean não estava interessado em assumir romances com atrizes de Hollywood. Na verdade ele não tinha muito respeito por elas. Criado no meio teatral em Nova Iorque, onde atrizes talentosas ganhavam a vida nos palcos da cidade, ele considerava as atrizes de Los Angeles meros enfeites de beleza. Dean também desprezava as garotas que iam para a cama com os produtores para ganhar personagens em filmes importantes. Uma vez disparou para uma das atrizes coadjuvantes de um de seus filmes: "Quantos pirulitos você teve que chupar para estar aqui nessa cena?" 

Ele costumava dizer que as únicas atrizes que realmente respeitava era as de Nova Iorque, da costa leste. Essas eram realmente lutadoras. As starlets de estúdios de Hollywood eram, em sua opinião, na maioria das vezes apenas "putas bonitas sem caráter". 

Curiosamente Dean assinaria em breve sua participação em mais um grande filme Hollywoodiano  chamado "Assim Caminha a Humanidade" onde teria que contracenar com um dos maiores símbolos de estrelismo da indústria do cinema, Elizabeth Taylor. Será que ele se daria bem com uma estrela daquela envergadura, uma atriz que nunca havia pisado em um palco de teatro na vida? Que conquistara seus papéis no cinema apenas por sua beleza extrema? Só o tempo poderia trazer as respostas...

Juventude Transviada
O filme definitivo da carreira de James Dean. "Juventude Transviada" é a quintessência do mito. De certa forma foi o filme que criou a cultura jovem na década de 50. Os personagens são jovens desiludidos, perdidos, que procuram por algum tipo de redenção. Toda a estória se passa em menos de 24 horas. No filme acompanhamos o primeiro dia de aula de Jim Stark (James Dean) em sua nova escola. Filho de pais que vivem se mudando de cidade o jovem Jim não consegue por essa razão criar genuínos laços de amizades com outros jovens de sua idade. Nesse primeiro dia em Los Angeles ele busca por um recomeço, tudo o que deseja é se enturmar e se possível não se envolver em problemas. Dois objetivos que ele logo entenderá que são bem complicados de alcançar. Desafiado por um grupo de valentões liderados por Buzz (Corey Allen) ele logo se vê envolvido numa briga com punhais. Depois aceita o desafio de participar de um racha altas horas da noite numa colina da cidade, o que trará consequências trágicas para todos os envolvidos.

Juventude Transviada demonstra bem que alguns temas são realmente universais, não importando a época em que acontecem. O jovem novato na escola que sofre bullying e é hostilizado pelos valentões locais, o desejo de ser aceito, a dor da rejeição e a frustrada tentativa de se enquadrar são temas pertinentes ao roteiro que dizem respeito não apenas aos personagens do filme mas a todos nós, principalmente no período escolar onde tudo isso vem à tona de forma muito transparente, para não dizer cruel. James Dean está simplesmente arrasador na pele de Jim Stark. Usando de sua já conhecida expressão corporal o ator esbanja versatilidade em uma interpretação realmente inspirada. Não é de se admirar que tenha sido tão idolatrado por tantos anos. Natalie Wood é outro destaque. Interpretando uma jovem com problemas de relacionamento com seu pai ela mostra bem porque era considerada um dos maiores talentos jovens daquela época. Por fim fechando o trio principal temos o frágil Platão, o personagem mais conturbado do filme. Em sensível atuação de Sal Mineo ele transporta carência afetiva e emocional, procurando a todo custo criar algum tipo de amizade, seja com quem for.

Quando "Juventude Transviada" chegou aos cinemas o ator James Dean já tinha morrido em um trágico acidente, com apenas 24 anos. A comoção por sua morte aliada á sua interpretação majestosa nesse filme criaram um dos mais fortes mitos da história de Hollywood. O nome James Dean ficou associado eternamente à figura do jovem rebelde. Unindo sua história trágica, muito parecida com as dos antigos mitos românticos, à força do cinema, James Dean logo virou ídolo de milhões de jovens ao redor do mundo. Mito esse que sobrevive até os dias de hoje pois mesmo após tantas décadas de sua morte o ator ainda é uma das celebridades falecidas que mais faturam em termos de licenciamento de produtos e direitos de imagem. De certa forma o mito James Dean ultrapassou e muito a influência do ator James Dean, embora essa também seja significativa. Juventude Transviada é assim seu testamento definitivo, o filme que criou toda uma mitologia em torno de seu nome, que se recusa a morrer de forma definitiva. Revisto hoje em dia o filme só cresce em importância e qualidade. Definitivamente é uma das produções mais importantes da história do cinema.

Juventude Transviada (Rebel Without a Cause, Estados Unidos, 1955) Direção: Nicholas Ray / Roteiro: Stewart Stern, Irving Shulman, Nicholas Ray / Elenco: James Dean, Sal Mineo, Natalie Wood, Corey Allen, Dennis Hopper, Jim Bechus / Sinopse: Jim Stark (James Dean) é um jovem recém chegado em Los Angeles que em seu primeiro dia de aula na nova escola tem que enfrentar um grupo de valentões liderados por Buzz (Corey Allen). Após uma briga de punhais no observatório da cidade ele aceita o desafio de participar de um racha mortal nas colinas da cidade.

Pablo Aluísio. 

Juventude Transviada - Texto II
Esse filme capturou para a posteridade a essência do ator James Dean. Foi seu maior sucesso no cinema e também seu filme mais lembrado. O interessante é que o próprio James Dean jamais o assistiu. Antes do filme ficar pronto e ser lançado nos cinemas, ele morreu de um acidente de carro na estrada de Salinas na Califórnia. Tinha apenas 24 anos de idade. Com isso sua popularidade explodiu e o filme quando finalmente chegou nas salas de cinema se tornou um grande sucesso. A Warner aproveitou o trágico acidente para promover ainda mais o filme. Sim, um aspecto condenável, que no final de tudo teve sua razão de ser já que "Juventude Transviada" é sem dúvida um ótimo filme.

Pode-se dizer que o roteiro não tem um foco principal. Na realidade ele conta a história de amizade e paixão envolvendo três jovens da época (interpretados por James Dean, Natalie Wood e Sal Mineo). Eles enfrentam a barra e as crises típicas da adolescência em uma Los Angeles que mais parece uma selva para os jovens. James Dean interpreta um rebelde, mas não um rebelde ao estilo Marlon Brando. Não é um personagem explosivo ou violento. Está mais para um jovem que sofre várias crises internas, que tenta superar os traumas psicológicos dos problemas familiares e escolares. É um bom retrato, uma crônica fiel daquela geração do pós- guerra, quando os Estados Unidos viviam um ótima fase econômica. O rebelde de James Dean não tinha propriamente uma causa, a não ser encontrar-se a si mesmo.

Juventude Transviada (Rebel Without a Cause, Estados Unidos, 1955) Direção: Nicholas Ray / Roteiro: Stewart Stern, Irving Shulman / Elenco: James Dean, Natalie Wood, Sal Mineo / Sinopse: Um jovem rebelde com um passado conturbado chega a uma nova cidade, encontrando amigos e inimigos. Filme indicado ao Oscar de melhor ator coadjuvante (Sal Mineo), melhor atriz coadjuvante (Natalie Wood) e melhor roteiro (Nicholas Ray).

Pablo Aluísio.

Em Cartaz: Juventude Transviada
O filme Juventude Transviada (Rebel Without a Cause) estreou nos cinemas em 27 de outubro de 1955, dirigido por Nicholas Ray e estrelado por James Dean, Natalie Wood e Sal Mineo. A obra acompanhava o jovem problemático Jim Stark — interpretado por Dean — enquanto ele lidava com conflitos familiares, conflitos de grupo e a busca por identidade em uma Los Angeles suburbana, transmitindo uma visão inédita da rebeldia adolescente no cinema hollywoodiano. A produção foi filmada em CinemaScope e cores, decisão que visava reforçar seu impacto visual e emocional perante o público da época.

Em termos de bilheteria, Juventude Transviada foi um grande sucesso comercial para a Warner Bros., arrecadando cerca de US$ 7,2 milhões em exibições domésticas e no exterior — tornando-se o segundo maior sucesso de bilheteria da Warner naquele ano. A performance de Dean, já envolta em tragédia pelo fato de ele ter morrido em um acidente de carro menos de um mês antes da estreia, impulsionou ainda mais o interesse pelo filme e ajudou a transformá-lo em um fenômeno cultural imediato.

A reação da crítica em 1955 foi mista a entusiasmada desde os primeiros textos publicados. O crítico do The New York Times, Bosley Crowther, descreveu o filme como “violento, brutal e perturbador”, destacando a intensidade com que o longa lidava com as tensões juvenis e a falta de compreensão nas relações familiares. Muitos textos também reconheceram que o retrato dos jovens transviados expunha uma faceta até então pouco explorada da sociedade americana do pós-guerra, especialmente quando “a real delinquência não é juvenil, e sim parental”, como observou um crítico da revista Time, ressaltando a crítica social implícita da obra.

Outros jornais foram mais diretos em suas impressões. A revista Variety considerou o filme “emocionante, provocador e cheio de suspense”, prevendo que ele suscitaria discussões intensas sobre a juventude moderna — especialmente dado o paralelo com a morte real de James Dean, cujo comportamento rebelde e fim trágico ressoaram com o público. Entretanto, também houve críticas mais duras: alguns comentaristas acharam o roteiro e a direção “confusos e melodramáticos em certos momentos”, apontando que nem todas as cenas pareciam convincentes na construção dos personagens e seus conflitos.

Com o passar das décadas, Juventude Transviada consolidou-se como um marco do cinema americano e um símbolo da cultura juvenil do século XX. As críticas publicadas em 1955 já indicavam que o filme iria além de um simples retrato dramático: ele inaugurou um novo olhar cinematográfico sobre a angústia, rebeldia e busca de identidade dos jovens, influenciando não apenas o gênero dramático, mas toda uma geração de cineastas e espectadores. Hoje, a obra é frequentemente citada como um dos primeiro grandes filmes a tratar seriamente da juventude como um universo emocional e social legítimo, deixando um legado duradouro que ainda ecoa na cultura popular.

James Dean: Vidas Amargas

Hollywood, 1954
Foi na primavera de 1954 que James Dean pintou pela primeira vez em Hollywood como ator contratado. Ele havia fechado contrato com a Warner em Nova Iorque para interpretar Cal Trask na adaptação para o cinema do livro de John Steinbeck. Elia Kazan iria dirigir o filme e havia indicado expressamente Dean pois o tinha visto atuando em Nova Iorque em uma peça e se convencera que aquele era certamente o ator que tanto esperava para dar vida ao atormentado e sombrio Cal. 

Assim que chegou na costa oeste Dean foi recepcionado por Kazan, que fez um trabalho especial para que sua presença passasse despercebida pela imprensa local pois queria que James Dean se concentrasse apenas em seu papel e nada mais. Era vital que ele ficasse longe dos holofotes e das colunas de fofocas dos jornais da cidade. Como ainda era um perfeito desconhecido na época os planos de Kazan deram completamente certo.

Dean não tinha onde morar em Los Angeles e assim a Warner alugou para ele um pequeno quarto em cima de uma drogaria, bem em frente aos portões principais do estúdio. Assim tudo o que Dean tinha que fazer era atravessar a rua pela manhã para ir até a Warner começar seu trabalho. O quarto era modesto, cujo aluguel era de apenas 50 dólares, mas para Dean, apenas um jovem na época já estava de ótimo tamanho. Todas as manhãs Dean ia até uma lanchonete na esquina, tomava um pequeno café preto, comprava um maço de cigarros e ia para o balcão onde o filme estava sendo rodado. 

A Warner apostou alto no filme e reconstruiu a cidade de Salinas, onde o enredo se passava, em estúdio. O tamanho da produção intimidou Dean nos primeiros dias. Elia Kazan logo percebeu que o ator ficava muitas vezes retraído, tímido e muito na dele, não procurando se socializar com os demais membros do elenco.

Kazan, um mestre em lidar com atores complicados, logo começou a criar uma amizade bem próxima com Dean, lhe incentivando a discutir as cenas, debatendo as melhores formas de atuar. O resultado dessa aproximação se refletiu em cada cena do filme, hoje considerado um dos grandes clássicos do cinema americano. 

Curiosamente o estilo de trabalhar de Dean bateu de frente com os atores mais veteranos. Raymond Massey que interpretava o pai de Dean no filme, Adam Trask, se irritava com as improvisações de Dean no set. Massey havia estudado atuação em Oxford, era um ator da velha escola, e não via com bons olhos aquele método de atuar típico do Actors Studio de Nova Iorque. Ele queria seguir à risca o que estava no roteiro enquanto Dean achava que o ator também era parte essencial no processo de criação de um filme e deveria colocar parte de sua personalidade em cada linha de diálogo. Foi um verdadeiro choque de escolas em plena filmagem, algo que Elia Kazan não viu como algo ruim, pelo contrário, como pai e filho eram problemáticos no enredo nada mais interessante que trazer essa tensão entre a nova geração e a velha também durante as filmagens. Ele sabia que no final o filme é que sairia ganhando com esse duelo.  

Fora dos estúdios a Warner determinou a Dick Clayton, um ex-ator e agora agente, que ficasse de olho em Dean, que era conhecido por ter atitudes inesperadas e impulsivas. Ao longo dessas primeiras semanas ao lado de Dean, Clayton acabou confirmando o que diziam dele. Assim que recebeu seu cachê de 10 mil dólares as duas primeiras coisas que o ator fez foi comprar um cavalo palomino e um carro esporte GM, que passou a dirigir em alta velocidade pelas ruas de Hollywood. A compra do cavalo era um exemplo de como Dean agia. Ela não montava e não tinha um rancho onde colocá-lo mas ao se deparar com o animal em um estábulo nos estúdios da Warner (ele estava sendo usado em um filme com Randolph Scott) não pensou duas vezes e o comprou, assim, sem mais, nem menos. Em relação ao carro Dick resolveu escrever um memorando aos executivos da Warner para que tomassem cuidado com Dean pois ele "dirigia feito um louco" e caso sofresse algum acidente poderia trazer prejuízos financeiros para a Warner futuramente. O tempo provaria que ele tinha toda a razão do mundo.

O Primeiro Grande Filme
James Dean não dava muita bola para a religião. Na realidade, ele nem se considerava um cristão no sentido tradicional dessa palavra. Era um assunto que só o interessava quando estava envolvido com alguma peça de teatro ou filme em que ele iria atuar. Foi justamente isso que o levou a ler a parte inicial do velho testamento pela primeira vez, pois a primeira grande chance que ele teve no cinema veio justamente numa adaptação do livro do Gênesis. Baseada no livro escrito por John Steinbeck, essa história era, na verdade, uma alegoria da história de Caim e Abel. Aqueles dois irmãos trágicos, onde um matou o outro logo nas primeiras páginas da bíblia. Obviamente que Dean acabou sendo cotado para interpretar o irmão mau. 

O filme "Vidas Amargas" seria dirigido por Elia Kazan. Isso levou James Dean a procurar um velho amigo, o sacerdote que trabalhava na cidade e que havia feito uma excelente amizade com ele. O religioso havia sido um veterano da guerra e agora tentava salvar almas nos Estados Unidos. Embora Dean nunca tenha sido religioso em nenhum momento de sua vida, ele se tornou amigo desse homem da igreja. O que uniu os dois em amizade era o amor pelo teatro. Na realidade, o velho sacerdote havia ensinado as primeiras lições rudimentares de atuação para um jovem James Dean.

Um aspecto curioso é que esse padre era homossexual. Muitos homossexuais se refugiavam numa vida religiosa para esconder justamente esse lado. Eles ficavam no armário enquanto tentavam esconder sua própria orientação sexual em uma época em que havia grande e violento preconceito dentro da sociedade. É claro que Dean sabia da verdade, mas nunca o confrontou sobre isso, respeitando-o como pessoa e como indivíduo. A religião condenava a homossexualidade, mas Dean nesse aspecto, achava tudo uma grande besteira. Ninguém poderia se pautar por um livro escrito por escribas que viveram há 2500 anos em um outro mundo que já não existia mais. Nesse aspecto, ele estava coberto de razão. 

"Vidas amargas" foi um momento de virada na vida do jovem ator. Antes, ele havia aparecido em 3 filmes, mas em nenhum deles teve nenhum destaque. Na maioria das vezes tinha apenas uma linha de diálogo para falar ou apenas uma figuração sem importância. Com Vidas Amargas a coisa mudou totalmente. Ele seria o principal ator do filme em uma produção cara que recriava a sociedade americana na década de 1910. Era certamente uma grande responsabilidade para Dean, mas ele aceitou o desafio com incrível pragmatismo. E acabou atuando muitíssimo bem, recebendo elogios por parte de toda a crítica dos Estados Unidos.

James Dean e Elia Kazan
Assim que as filmagens de "Vidas Amargas" iam avançando, Dean e Kazan começaram a ter atritos. O que começou com uma simbiose de ideias interessantes para o filme logo desandaram para pequenos mal entendidos que cresceram ao ponto de Kazan falar mal do ator para a imprensa. Para o diretor as filmagens começaram muito bem, mas conforme foram avançando surgiram problemas envolvendo James Dean com praticamente todos os membros do elenco.

Durante uma cena com o ator Raymond Massey (que interpretava seu pai no filme) Dean começou a recitar pequenas obscenidades e palavras de baixo nível para seu colega, enquanto ele tentava se concentrar em declamar seu rebuscado texto. Para Dean tudo não passou de uma brincadeira, mas para Massey aquilo era o ápice da falta de profissionalismo. Com sua estrela Julie Harris as coisas não fluíram melhor. Dean começou a debochar de seu jeito tímido e calado. Julie tentava levar na brincadeira, mas depois aquilo começou a aborrecer a tal ponto que Kazan disse literalmente que "ela era realmente uma santa em aguentar aquele James Dean no set sem perder a paciência"!

Depois de morar um tempo com Richard Davalos em um apartamento cedido pela Warner, James Dean resolveu tomar uma decisão radical. Largou o apartamento, pegou sua velha mochila com os poucos pertences pessoais e resolveu que iria morar dentro de seu camarim no estúdio. Kazan achou aquilo uma maluquice, mas Dean explicou que o camarim no final das contas era mais espaçoso que seu pequeno quarto e além do mais o deixaria mais perto do trabalho (na verdade o deixaria sempre "dentro" de seu trabalho). Os produtores não fizeram questão, mas lhe informaram que assim que as filmagens terminassem ele teria que sair de lá, pois outro filme seria feito e os camarins seriam disponibilizados para o elenco que chegaria para trabalhar no novo filme. Dean deu de ombros, afinal de contas por mais estranho que fosse seu comportamento ele certamente não estaria disposto a viver indefinidamente dentro de um camarim de estúdio de cinema.

Enquanto estava de folga das filmagens, James Dean resolveu visitar os sets de outros filmes, entre eles "O Cálice Sagrado" que estava sendo filmado perto de seu camarim. Foi lá, visitando Paul Newman, que Dean viu pela primeira vez a atriz Pier Angeli. Foi amor à primeira vista! Embora Dean tivesse tido vários casos amorosos com homens em sua vida, ele tinha uma certa tendência em alimentar paixões amorosas em relação a garotas que conhecia e admirava. Angeli era uma delas. De família católica italiana tradicional, a atriz era o extremo oposto de James Dean, na época considerado um ator largado de Nova Iorque, um sujeito conhecido por sua rebeldia e comportamento fora dos padrões. 

De qualquer maneira, como diz o ditado, os opostos se atraem. E assim James Dean ficou gamado por ela! Nem bem a viu pela primeira vez comentou depois com Paul Newman: "Puxa, ela não parece ser desse mundo!". Discretamente James Dean convidou Angeli para se sentar com ele no refeitório da Warner durante o almoço. Não demorou muito e surgiram de mãos dadas, confirmando que estavam namorando. A mãe de Pier Angeli não gostou nada de saber da novidade por causa da fama de rebelde e selvagem do ator e tentou acabar com o precoce namoro, mas foi em vão.

Enquanto isso as filmagens de "Vidas Amargas" iam chegando ao fim. Elia Kazan desabafou e disse que Dean não se deu bem com ninguém, nem com o elenco e nem com a equipe técnica. Também reclamou de suas atitudes insuportáveis, como por exemplo, sempre tentar estragar as cenas de Julie Harris. Outro aspecto que incomodou Kazan foi a forma como Dean lidava com o trabalho pois na opinião do diretor "Ele perdia muito tempo tirando fotos de si mesmo". Um egocêntrico? Para Kazan não restava a menor dúvida. 

Durante as filmagens, Dean resolveu comprar uma nova moto, da marca Triumph, ideal para corridas. Assim que descobriu isso Kazan chamou Dean de lado e lhe avisou: "Não tenho nada a ver com sua vida pessoal, mas enquanto o filme não ficar pronto você não participará de nenhuma corrida". Dean contestou e disse que nunca se machucara antes! Mesmo assim, como ainda era seu primeiro filme, resolveu acatar as ordens do cineasta. Na festa final de confraternização das filmagens James Dean não apareceu. Preferiu pegar sua mochila, colocar nas costas e ir embora de moto até o litoral. Haveria uma corrida para amadores e Dean não queria perder a chance de correr com sua possante moto pela primeira vez.

Nos Cinemas
"Vidas Amargas" demorou alguns meses para ser editado de acordo com as exigências de Elia Kazan. Quando ficou finalmente pronto James Dean se viu na incômoda obrigação contratual de ter que ajudar na divulgação do filme. Era um serviço de relações públicas que Dean odiou desde o começo. Os problemas começaram logo no primeiro dia de entrevistas com a imprensa. A Warner marcou para Dean um encontro com um dos mais respeitados críticos de cinema da Inglaterra. Ele acabou aparecendo no estúdio ao lado de uma rica herdeira, uma nobre de sangue azul da família real britânica. Dean não deu a menor bola. Assim que foram apresentados o jornalista começou a dizer a ele de onde ela provinha, sua maravilhosa árvore genealógica cheia de monarcas e príncipes da dinastia Tudor e James Dean começou a achar aquela conversa de uma chatice sem tamanho.

De repente interrompeu sua longa descrição e disparou: "Ok, diga logo o que você quer perguntar". Nem precisa dizer que o sofisticado inglês ficou branco e pálido pelo modo pouco discreto do rebelde número 1 de Hollywood. Depois Dean teve que encarar a colunista Hedda Hopper, fofoqueira e colunista de um importante jornal de Los Angeles. Aquilo era um saco para Dean. Em todas as entrevistas que deu ele demonstrou claramente que não estava nem aí para a divulgação do filme e que só se importava mesmo em ter feito um bom trabalho. Uma das poucas revelações dignas de nota surgiu quando Dean se abriu falando sobre seus planos futuros no cinema. A uma jornalista de Nova Iorque declarou: "Gostaria de interpretar Hamlet no cinema. Esse personagem exige ser interpretado por um jovem como eu, que mantenha uma certa inocência perante o mundo. Laurence Olivier é um bom ator, mas ele já passou da idade de fazer Hamlet da forma certa. Também gostaria de um dia dirigir filmes. Acho o processo muito enriquecedor".

Talvez para começar a ter alguma ideia de que como seria dirigir um filme, Dean comprou uma câmera Super 8 em Nova Iorque e depois rumou em direção à sua cidade do coração, Fairmount, comunidade rural localizada no estado de Indiana, bem no meio do centro oeste americano. A intenção de Dean era visitar a fazenda de seus tios onde cresceu e viveu até tentar se tornar um ator na cidade grande. Enquanto o país inteiro começava a conhecer Dean após a estreia de "Vidas Amargas" ele ia de carona até a pacata cidadezinha. Lá tirou fotos, brincou com seu primo e readquiriu velhos hábito como o de ir para o meio do milharal tocar bongô até o anoitecer. 

Também pôde sentir os primeiros sinais que estava virando um astro de Hollywood. A população local o recebeu de braços abertos e Dean começou a ser tratado como uma verdadeira celebridade, algo que no íntimo o encheu de orgulho e emoção. Dean também foi até os fundos da fazenda de sua tia para rever sua antiga moto, a primeira que comprou. A um amigo confidenciou: "Jamais a venderei. É como uma amiga dos velhos e bons tempos!". 

Depois decidiu que iria dar mais uma volta com ela pela região. Nesses poucos dias ele voltou a ser o mesmo James Dean de seus tempos de adolescente, revendo velhos amigos e comendo da gostosa comida caseira de sua tia. Chegou até mesmo a ganhar um aumento de peso por causa da boa vida que estava levando. Tudo foi interrompido quando a Warner finalmente lhe mandou um telegrama para que voltasse a Los Angeles pois tudo estava pronto para o começo das filmagens de "Rebel Without a Cause" (que no Brasil receberia o título de "Juventude Transviada").

Vidas Amargas - Texto I
Pode ser considerado o primeiro filme de James Dean, mesmo ele tendo aparecido em pequenas participações em três filmes anteriores. Esse é o primeiro filme em que ele realmente teve a oportunidade de mostrar seu talento como ator. Nos filmes anteriores ele tinha poucas linhas de diálogos e em alguns deles era um mero figurante. Porém em "Vidas Amargas" o diretor Elia Kazan resolveu apostar naquele jovem ator de Indiana, dando a maior oportunidade de sua carreira até então. E Dean não decepcionou, atuando de forma brilhante em seu papel, a de um jovem com problemas familiares que ousava trazer à tona um segredo sobre sua mãe que poderia destruir sua família.

O roteiro foi baseado no best-seller escrito pelo autor John Steinbeck. Entretanto Kazan decidiu que só iria explorar a parte inicial da história contada no livro. Ele acreditava que a força dramática do livro se concentrava justamente em seus primeiros capítulos. Não interessava ao cineasta o desenrolar daqueles primeiros acontecimentos. E assim foi feito. O resultado ficou excepcional. Aliás é interessante notar como James Dean já encarnava nesse seu primeiro grande papel a figura do jovem rebelde, encucado e confuso, que não era bem visto nem mesmo por seu pai, um tipo conservador indigesto, que a despeito de ser um homem duro com os filhos, usava tudo como mera desculpa para torturar psicologicamente o filho de que não gostava, justamente o personagem de Dean. Em conclusão, "Vidas Amargas" é uma obra-prima da sétima arte. Grande filme  de James Dean e Elia Kazan, em momento inspirado de suas carreiras.

Vidas Amargas (East of Eden, Estados Unidos, 1955) Direção: Elia Kazan / Roteiro: Paul Osborn, Elia Kazan, inspirados no livro escrito por John Steinbeck / Elenco: James Dean, Raymond Massey, Julie Harris, Burl Ives, Richard Davalos, Jo Van Fleet / Sinopse: Nas vésperas da explosão da I Guerra Mundial, um jovem chamado Cal Trask (James Dean) descobre um grande segredo envolvendo o passado de sua família. E ele não deixará isso passar em branco, usando tudo para atingir seu rígido pai e seu irmão, considerado um jovem modelo na cidade onde vive. Filme vencedor do Oscar na categoria de melhor atriz coadjuvante (Jo Van Fleet). Também indicado nas categorias de melhor ator (James Dean), melhor direção (Elia Kazan) e melhor roteiro adaptado.

Vidas Amargas - Texto II
Roteiro e Argumento: “Vidas Amargas” se baseia no famoso livro do escritor John Steinbeck. Na realidade se trata de uma grande metáfora sobre os personagens bíblicos do gênesis no velho testamento. Na estória acompanhamos um pobre rancheiro que tem dois filhos, Cal e Aron. Aron (Richard Davalos) é o filho que todo pai gostaria de ter, estudioso, educado e polido. Sua vida emocional é estável e ele namora a delicada e bela Abra (Julie Harris). Aron é em suma um modelo de bom filho. Ele é o oposto de Cal (James Dean) um jovem perturbado, complicado, complexo que sempre toma as piores decisões em sua vida. Numa delas decide investigar o que teria acontecido à sua mãe que os abandonou ainda jovens. Acaba descobrindo um terrível segredo sobre ela na cidade vizinha de Monterrey o que trará trágicas conseqüências para toda a sua família. O livro original é uma obra robusta e por isso aqui optou-se por transpor para as telas apenas parte dele. A adaptação é excelente uma vez que a estória se fecha muito bem em si mesma, não dando pistas de que faltou algo em seu enredo.

Produção: Uma produção do mais alto nível. A reconstituição de época é perfeita (a estória se passa em 1917, pouco antes dos EUA entrar na Primeira Guerra Mundial). Figurinos, costumes, carros, tudo recriado com perfeição. O estúdio Warner resolveu realizar “Vidas Amargas” no formato widescreen, sendo muito eficiente seu resultado final. “Vidas Amargas” foi indicado aos Oscars de melhor diretor, roteiro adaptado, ator (James Dean) e atriz coadjuvantes (Jo Van Fleet). Um reconhecimento merecido de seus méritos cinematográficos.

Direção: Elia Kazan sempre dirigiu com maestria seus atores. Aqui em “Vidas Amargas” ele decidiu inovar, ensaiando o filme por duas semanas antes de começar a rodar as cenas. O método deu muito certo até porque todo o elenco vinha do meio teatral em Nova Iorque. Kazan também incentivou os atores a trazer elementos novos para seus personagens algo que caiu como uma luva para James Dean que gostava desse tipo de liberdade criativa. De fato o ator trouxe muito de si mesmo para a atuação de Cal. No aspecto puramente técnico Kazan também procurou inovar criando ângulos inusitados com a câmera, além de literalmente interagir com as cenas (a melhor acontece quando Dean aparece se balançando num brinquedo de criança e Kazan balança a câmera junto com ele). Enfim, mais uma magnífica direção de Kazan, aqui no auge de sua criatividade e talento.

Elenco: O grande atrativo de “Vidas Amargas” é a presença no elenco de James Dean. Embora ele tenha participado de 3 filmes anteriores (todos como ponta) aqui o ator tem a primeira grande chance de verdade em sua carreira. Elia Kazan havia assistido Dean numa montagem off Broadway e decidiu que ele seria a escolha perfeita para interpretar o perturbado e irascível Cal, um personagem intenso que exigiria muito do ator. James Dean em cena não decepcionou. Ele está perfeito em sua caracterização, colocando para fora tudo o que aprendeu no Actor´s Studio de Nova Iorque. Seu personagem transmite toda a complexidade de sua alma não apenas nos diálogos mas no próprio modo de ser, andar, agir. O trabalho corporal que James Dean trouxe para Cal até hoje impressiona. O ator se entrega como poucas vezes vi no cinema. De certa forma Dean era Cal e o incorporou com perfeição no filme, ofuscando completamente todo o resto do elenco que também é todo bom. A atuação inspirada lhe valeu a primeira indicação póstuma ao Oscar da história. Infelizmente quando a Academia anunciou seu nome para o prêmio James Dean já havia morrido em um trágico acidente de carro aos 24 anos. Melhor se saiu sua colega de cena, Jo Van Fleet, que venceu o Oscar de melhor atriz coadjuvante. Ela interpretou a mãe de Cal e Aron no filme. Prêmio merecido aliás.

Vidas Amargas (East Of Eden, Estados Unidos, 1955) Direção: Elia Kazan / Roteiro: Paul Osborn baseado na obra de John Steinbeck / Elenco: James Dean, Raymond Massey, Julie Harris, Burl Ives, Richard Davalos, Jo Van Fleet / Sinopse: Dois irmãos, Cal e Aron, disputam a afeição do pai. Esse deseja ganhar dinheiro com a venda de verduras congeladas mas não obtém sucesso. Cal (James Dean) então resolve ganhar seu próprio lucro com a venda de feijões para as tropas americanas que estão sendo enviadas para a I Guerra Mundial. Nesse ínterim Cal acaba descobrindo um terrível segredo sobre sua mãe que é localizada por ele na cidade vizinha de Monterrey. Seu pai havia mentido pois dizia que ela havia falecido quando os irmãos eram apenas crianças. A verdade finalmente irá abalar toda a família.

Em Cartaz: Vidas Amargas
Em 1955, o diretor Elia Kazan lançou nos cinemas Vidas Amargas (East of Eden), adaptação cinematográfica do romance de John Steinbeck, com James Dean em seu primeiro papel de destaque no cinema. O filme estreou em março nos Estados Unidos e foi distribuído pela Warner Bros., chegando aos cinemas brasileiros ainda naquele ano. A narrativa acompanha os conflitos familiares entre Cal Trask e seu irmão Aaron, disputando o amor do pai em uma releitura moderna da história bíblica de Caim e Abel, transposta para a Califórnia da Primeira Guerra Mundial e consolidando Dean como um nome promissor no cinema 

Embora dados precisos de bilheteria da época não sejam amplamente publicados hoje, sabe-se que o filme teve excelente recepção comercial para um drama adaptado de obra literária — suficiente para impulsionar a carreira de James Dean e se tornar um dos grandes filmes do ano cinematográfico de 1955. O longa foi destaque em premiações importantes: venceu o Globo de Ouro de Melhor Filme de Drama e recebeu quatro indicações ao Oscar (incluindo Melhor Ator para Dean e Melhor Diretor para Kazan), fato que atesta seu impacto tanto junto ao público quanto à indústria cinematográfica internacional 

A reação da crítica na época foi mista, porém significativa. Bosley Crowther, crítico do The New York Times, escreveu que o filme possuía “energia e intensidade, mas pouca clareza e emoção”, sugerindo que sua força dramática não significava total coesão narrativa — uma observação típica dos padrões críticos daquela era mais ortodoxa do jornalismo cinematográfico 

Por outro lado, Kate Cameron, do New York Daily News, proclamou que “um novo astro nasceu na tela”, referindo-se à performance de James Dean como convincente e natural, mesmo em seu primeiro papel principal, o que refletiu o entusiasmo de muitos jornalistas por ele naquela estreia histórica 

Além dessas reações imediatas, a crítica especializada mais antiga também destacou o valor artístico do filme. Pauline Kael, em textos posteriores que refletiam sobre o impacto inicial do longa, afirmou que em Vidas Amargas “Hollywood finalmente sintonizou com o cinema ‘avant-garde’ americano”, reconhecendo a ousadia emocional de Kazan e seu elenco em abordar temas complexos de identidade e conflito geracional para além de entretenimento superficial 

Com o passar das décadas, Vidas Amargas consolidou-se como um clássico do cinema americano — não apenas pelo carisma trágico de James Dean, cuja carreira e vida foram interrompidas tragicamente naquele mesmo ano de 1955 — mas também pela forma como o filme capturou e espelhou as inquietações familiares e sociais da época. Ao ser reinterpretado por críticos e estudiosos posteriormente, sua importância como arte cinematográfica perdurou, confirmando que sua recepção na época do lançamento, marcada por frases de jornais e revistas especializadas, foi apenas o começo de um legado duradouro. 

Pablo Aluísio.

sexta-feira, 2 de março de 2001

James Dean: De Volta a Hollywood

Hollywood, 1954
Depois de seu tempo de formação como ator de teatro, já devidamente experimentado pelo Actors Studio, James Dean retornou para a Costa Oeste, para Los Angeles, para Hollywood! Só que dessa vez ele voltava com oportunidades de trabalho. Os anos em que foi esnobado pelos estúdios tinham ficado para trás. A Warner havia assinado um contrato com o jovem ator. Havia muitas esperanças no ar naquele momento de sua vida profissional. 

Nessa nova ocasião James Dean teve oportunidade de conhecer grandes atores de sua geração, entre eles aquele que era considerado o melhor de todos, Marlon Brando! Em seu livro de memórias Brando resolveu dedicar algumas palavras ao ator. Para Brando, Dean não lhe causava grande impressão. Ele já tinha ouvida falar em Dean, mas não procurou conhecer pessoalmente o famoso rebelde das telas. Já James Dean procurava se encontrar com Brando há tempos pois o tinha como ídolo. Ele enviou alguns convites por amigos mútuos, mas Brando não demonstrou maior interesse em lhe conhecer. Tudo parecia na mesma até que por mero acaso Brando e Dean se viram face a face numa festa nas colinas de Hollywood. Dean estava visivelmente emocionado em encontrar aquele que considerava o melhor ator do cinema americano.

Já Brando percebeu algumas coisas em Dean desde a primeira vez que o viu. Achou que Dean ainda mantinha a velha forma de agir dos americanos do meio oeste, um misto de medo e encantamento com a cidade grande. Como Brando também vinha de um estado rural do meio oeste, entendeu que isso gerou uma familiaridade até nostálgica entre ambos. Simpático em um primeiro momento com Dean, abriu uma conversa amigável com o colega de profissão. James Dean não deixou passar em branco e disse a Brando que o admirava muito e que em sua vida pessoal procurava seguir os passos do grande ator.

Brando por outro lado resolveu lhe dar alguns conselhos. Disse a Dean que ele não deveria seguir por esse caminho, procurando ser igual ao seu ídolo, pois todos deviam trilhar sua própria carreira e trazer aspectos de suas personalidades para obter êxito em Hollywood. Em palavras educadas Marlon Brando estava aconselhando James Dean a não ser uma mera imitação dele mesmo. Dean havia dito que admirava Brando por ele ser um tipo fora dos padrões, rebelde, que saia de moto pelas madrugadas. Aquilo deixou Brando surpreso. Em sua opinião Dean procurava por um tipo de aprovação - como se estivesse pedindo sua bênção por seu comportamento.

Depois desse encontro e dessa conversa mais do que interessante eles poucos se encontraram novamente. Para Brando foi uma gratificação saber que James Dean havia ouvido seus conselhos e os estava seguindo. Segundo Brando seu colega ainda não tinha personalidade própria até o advento do filme "Assim Caminha a Humanidade" quando, na visão de Brando, James Dean havia finalmente encontrado seu próprio caminho. Infelizmente assim que chegou em seu objetivo na profissão, Dean encontrou também a morte de forma prematura em um acidente de carro. Para Brando o jovem James Dean acabou sendo enterrado em seu próprio mito. Uma infelicidade trágica do destino.

James Dean e Paul Newman
Outro encontro interessante dessa mesma época aconteceu com o jovem ator Paul Newman. No começo de sua carreira, quando era apenas um jovem ator tentando descolar algum trabalho, Paul Newman conheceu James Dean, o ator rebelde que estava virando um mito em Hollywood. Ambos se encontraram por acaso no Actors Studio em Nova York. Dean nunca fora conhecido por ser um sujeito simpático fora das telas mas na ocasião pareceu ser educado com o novo colega. Em plena aula eles tinham que improvisar uma cena de amor ou ódio. James Dean brincou dizendo que deveriam fazer uma cena de duas pessoas que se amavam muito, o que era estranho para Paul Newman naquela ocasião. Dean então virou-se para ele e sugeriu que fizessem algo que colocasse a sala "em chamas"! Newman se assustou com aquele tipo de proposta e brincou rebatendo: "Hey amigo, vamos com calma! De onde eu venho nós gostamos de trabalhar melhor as coisas...".

Anos mais tarde Newman admitiu que aquele primeiro encontro com James Dean o havia deixado preocupado. Dean tinha deixado meio claramente que se relacionava tanto com homens como com mulheres, e que era um sujeito aberto a todos os tipos de relacionamentos. 

Na época Paul Newman era casado, tinha filhos e não tinha entendido ainda muito bem como a comunidade gay dava as cartas no mundo do teatro e do cinema americanos. Ele era um hétero convicto e ficou com um pé atrás sobre o que ouvia de seus colegas de Actors Studio. Numa conversa trivial entre as aulas, Jimmy Dean confidenciou para Newman que estava tendo um caso amoroso com um grã-fino chamado Rogers Brackett que o estava bancando em Nova Iorque. Aquilo certamente foi meio chocante para Newman. Ali Dean havia admitido não apenas que era gay, mas que também era sustentado por um homem rico. Duas revelações bombásticas para Newman.

Ao que tudo indica James Dean acabou desenvolvendo alguma queda por Paul Newman. Tempos depois durante um teste de câmera para um filme - um trecho que sobreviveu ao tempo - Newman e Dean surgem juntos na tela. Newman parece pouco à vontade, dando risinhos nervosos. Já Dean é todo presunção. Após trocarem olhares suspeitos, Dean não se contém mais e diz para Paul: "Vamos lá, me beije!". Newman cai na gargalhada logo em seguida. Dean sabia que Newman era um sujeito quadrado, que tinha filhos, obrigações de pai de família e tudo mais e por isso não levou adiante seus ataques! O máximo que conseguiu de Paul Newman foi levá-lo ao apartamento onde morava, onde passaram à tarde de bobeira. Dean deu a Paul um boné de presente, todo vermelho, que ele depois usaria em um jogo de beisebol.

Alguns escritores acreditam que Dean e Newman acabaram tendo um caso passageiro, nada importante ou marcante. A professora de dança de James Dean na época, Eartha Kitt, disse que que eles tiveram sim uma ligação debaixo dos lençóis. Aliás ela chegou inclusive a ir além em suas confidências, dizendo que havia transado com os dois no apartamento de James Dean. Ela afirmou que aquilo havia sido "uma das experiências mais celestiais da minha vida. Essas duas beldades me transportando para o céu. Eu nunca soube que o ato sexual podia ser tão bonito." Verdade ou apenas fantasia de alguém que procurava notoriedade com a imprensa?

Amigos ou amantes, o fato é que as coisas ficariam ruins entre eles pouco tempo depois. James Dean venceu a disputa por um papel importante e Paul Newman foi até ele pedir que Dean falasse com o diretor para que lhe arranjasse um personagem coadjuvante para trabalhar. Dean disse que não o ajudaria.

Newman ficaria ainda mais chateado depois quando perderia mais um papel, só que dessa vez para o atlético Tab Hunter, um ator que nunca fora conhecido por ser um grande talento. Anos depois ele confessaria sua frustração ao afirmar: ""Perder para James Dean era uma coisa, mas como eu poderia viver após perder um papel para Tab Hunter?" Nesse meio tempo James Dean se espatifou em um terrível acidente na estrada de Salinas. Paul Newman ficou bem triste, não apenas por sua morte, mas também por nunca ter tido a oportunidade de reatar sua amizade com Dean. Ele jamais confirmou que tinha tido um namoro com Dean, dizia apenas que tinham sido colegas de estudos em Nova Iorque. "Era um bom sujeito", finalizou ao resumir James Dean.

James Dean: Um Novo Recomeço em Nova York

Nova York, 1952
Em 1952 James Dean deixou Los Angeles e foi embora, mudar para Nova York, onde pretendia se tornar um ator profissional de teatro. Ele havia tomado a decisão certa, conforme o tempo iria demonstrar. Conforme lembraria depois Dean chegou em Nova Iorque com 5 dólares no bolso. Era um tempo frio, com muita chuva, mas nem isso desanimou o jovem ator. Ele adorou o clima da cidade, os bairros de artistas como o Greenwich Village, onde havia oportunidades para todos, pintores, escultores, poetas e... atores! A cidade respirava arte em todos os lugares. Escrevendo para um amigo Dean relatou: "Os primeiros dias em Nova Iorque foram impactantes! Essa grande cidade quase me esmagou! Agora estou mais confortável nela. Adoro caminhar pela Broadway, ver as peças que estão em cartaz! Nova Iorque, essa sim é uma cidade acolhedora!".

O ator gostou tanto da nova cidade que mesmo anos depois quando já era um astro em Hollywood, sempre ia para NY para passar os fins de semana. De fato ele considerava a "Big Apple" como seu verdadeiro lar. Nada de Hollywood com sua sociedade fútil e petulante. Os verdadeiros artistas estavam andando pelas ruas de Nova Iorque, isso Dean afirmou mais de uma vez. O ator tinha razão em amar o novo lar. Em Nova Iorque as coisas finalmente começaram a dar certo. Ele foi aprovado para participar de peças e o mais importante de tudo: foi aceito na prestigiada escola de atores do Actors Studio. Sua vida estava para mudar para sempre!

Rogers Brackett
Depois que abandonou a universidade, James Dean ficou sem grana, sem apoio do pai e sem emprego. Dean chegou a ponto de ficar sem ter nem o que comer, geralmente contando com a boa vontade de conhecidos que lhe pagavam algum lanche casual. Diante de uma situação financeira tão ruim Dean acabou encontrando a solução para seus problemas em Rogers Brackett. Ele era um homossexual rico e bem relacionado em Nova York. Um sujeito que poderia lhe ajudar no começo de sua carreira, que ainda não tinha decolado. 

O interesse de Rogers em relação a Dean era claramente sexual. Ele se sentiu atraído pelo jovem ator e o tornou seu namorado, seu protegido. Embora se apaixonasse mesmo por mulheres, James Dean estava aberto a todas as possibilidades. Além disso se houvesse uma ajuda financeira seria muito bem-vinda. Era claro para Rogers que James Dean tinha interesse nele e isso passava por uma ajuda em dinheiro em relação à sua situação. Era um relacionamento de interesses mútuos e eles sabiam disso. Com tudo certo entre eles James Dean arrumou suas malas e foi morar com Brackett em sua casa sofisticada. 

Anos depois quando finalmente resolveu falar sobre seu romance com James Dean, Rogers explicou que aquela não havia sido a primeira experiência homossexual na vida do ator. Ele teria tido ao namorado que havia se relacionado com outros homens gays em seu passado.  

Outro fato que Rogers Brackett lamentaria seria o fato de ter rasgado as cartas de amor que James Dean havia lhe escrito anos antes. Ele disse na entrevista: "Se eu soubesse que Dean iria virar um ator tão popular do cinema, um astro de Hollywood, eu teria guardado todas as cartas românticas que ele me escreveu. As terias colocado em leilão e teria ficado muito rico com elas! Pena que depois que terminamos eu as rasguei, com raiva e mágoa dele! Uma coisa estúpida que fiz!". A mágoa de Brackett em relação a Dean teria sido causada pelo distanciamento de Dean para com ele, principalmente depois que ficou famoso. Assim que as coisas começaram a dar certo James Dean dispensou o namorado que havia lhe ajudado sem muita cerimônia.

De uma maneira ou outra o relacionamento entre dois ficou preservado pelas diversas fotos que Rogers tirou de seu namorado! Rogers Brackett já era um fotógrafo reconhecido e passou a fotografar Dean nesse período. As imagens feitas por ele — especialmente entre 1953 e 1955 — se tornaram algumas das fotografias mais íntimas e conhecidas de James Dean, mostrando-o fora do sistema de estúdios de Hollywood.

A Liberdade
Em Nova Iorque James Dean finalmente encontrou a liberdade que tanto procurava. Na cidadezinha onde nasceu e cresceu todos cuidavam da vida dos outros. Não se podia dar um pequeno passo sem que isso se tornasse a fofoca da cidade. Já em Nova Iorque, uma metrópole, ninguém queria saber da vida de ninguém. Dean podia seguir seus próprios passos sem se importar com o que os outros iriam dizer. Liberdade, acima de tudo. Era o que ele tanto procurava.

Além disso a cidade fervilhava artisticamente. Não era apenas a arte dramática. Havia poetas, artistas plásticos, escritores, todos os tipos de artistas que se podia imaginar. James Dean assim passou a cultivar amizades com toda essa gente. Seu passatempo preferido passou a frequentar um café perto do Actors Studio, onde ele passou a conhecer a classe artística de NYC. E apesar de ser bem jovem, Dean decidiu que não queria apenas atuar, ele queria tudo o que pudesse alcançar.

Não demorou muito e James Dean se matriculou nos mais diversos cursos de arte. Chegou até mesmo a estudar ballet! Isso seria impensável em Indiana, naquela sociedade rural e atrasada, onde isso era coisa de afeminados. Em Nova Iorque obviamente ninguém pensava assim. Ser bailarino era apenas mais uma chance de aprender uma nova expressão artística. Na dança James Dean acabou encontrando uma forma de aliviar o stress, a tensão do dia a dia. Foi uma experiência que ele gostou bastante.

Além disso se expressar com o corpo era algo essencial para um bom ator. No próprio Actors Studio os jovens atores eram incentivados a aprenderam canto, dança moderna, tudo que pudesse a desenvolver melhor a expressão corporal. Uma forma de ir fundo na arte dramática. Além disso todos os estudantes eram também incentivados a procurar por bons livros, grandes clássicos da literatura antiga e moderna. Ter cultura era essencial para se tornar um bom ator. Afinal ter base cultural era o primeiro passo para ser um grande artista em qualquer área que se abraçasse..

James Dean no Actors Studio
James Dean ingressou no Actors Studio, em Nova York, no início da década de 1950, quando ainda era um ator desconhecido em busca de formação sólida e identidade artística. O Actors Studio, dirigido por Lee Strasberg, era o centro mais importante do Método de Interpretação nos Estados Unidos, atraindo jovens atores interessados em atuações psicológicas profundas e realistas. Para Dean, aquele ambiente representava uma alternativa ao estilo artificial de Hollywood.

Antes de entrar no Actors Studio, James Dean já havia estudado teatro na UCLA, em Los Angeles, mas sentia-se limitado pelo ensino tradicional. Ao se mudar para Nova York em 1952, ele mergulhou no circuito teatral e televisivo e passou por audições rigorosas até ser aceito no Studio, um feito significativo, já que a instituição era altamente seletiva.

No Actors Studio, Dean estudou diretamente sob a influência de Lee Strasberg, além de conviver com professores ligados às ideias de Konstantin Stanislavski. O foco estava na memória emocional, na vivência interna do personagem e na verdade psicológica da atuação. Dean se destacou rapidamente por sua intensidade, sensibilidade e disposição para se expor emocionalmente em cena.

Durante esse período, James Dean participou de exercícios públicos e workshops, onde atores apresentavam cenas diante de colegas e professores. Seu estilo chamou atenção por ser visceral, imprevisível e profundamente humano. Muitos relatos da época indicam que suas apresentações provocavam reações fortes, tanto admiração quanto estranhamento, por romperem com padrões estabelecidos.

Paralelamente aos estudos no Actors Studio, Dean começou a trabalhar em teatro profissional e televisão, atuando em produções ao vivo que exigiam grande preparo técnico e emocional. Essas experiências ajudaram a consolidar sua reputação em Nova York como um ator promissor e disciplinado, ainda que difícil e introspectivo.

Foi nesse ambiente nova-iorquino que James Dean passou a ser fotografado por Rogers Brackett, registrando um jovem artista em formação, longe da imagem glamourosa que teria mais tarde. Essas fotografias refletem o período do Actors Studio: um Dean concentrado, experimental e em constante busca por autenticidade.

A passagem pelo Actors Studio foi decisiva para que diretores importantes notassem James Dean. Elia Kazan, também ligado ao método de interpretação, viu nele o ator ideal para o papel de Cal Trask em Vidas Amargas (East of Eden). A escolha de Dean para o filme está diretamente ligada à sua formação e postura artística desenvolvidas no Studio.

Em retrospecto, o Actors Studio foi o espaço onde James Dean construiu a base de tudo o que o tornaria um ícone. Sua atuação naturalista, carregada de conflitos internos e emoção contida, nasceu ali. Embora sua carreira no cinema tenha sido curta, o período no Actors Studio garantiu a ele um lugar definitivo na história da interpretação moderna.

James Dean no Teatro de Nova York
James Dean chegou a Nova York em 1952, decidido a se afirmar como ator sério, longe do sistema de estúdios de Hollywood. A cidade vivia um período intenso de renovação teatral, com a Broadway e o circuito off-Broadway atraindo jovens talentos interessados em interpretações mais realistas e psicológicas. Para Dean, o teatro nova-iorquino era o lugar ideal para experimentar, errar e crescer artisticamente.

Logo após se estabelecer na cidade, James Dean passou a estudar no Actors Studio, onde entrou em contato direto com o Método de Interpretação. Embora o Studio não fosse um teatro comercial, ele funcionava como um laboratório cênico fundamental. Ali, Dean participou de exercícios públicos e apresentações internas que moldaram sua forma de atuar e o prepararam para o palco profissional.

No teatro propriamente dito, Dean atuou em peças da Broadway, ainda em papéis pequenos, mas significativos. Seu trabalho mais conhecido foi em “See the Jaguar” (1952), de N. Richard Nash. Embora a peça tenha tido curta duração, a atuação de Dean chamou atenção por sua intensidade emocional e presença cênica, destacando-se mesmo em uma produção de vida breve.

Além da Broadway, James Dean esteve ligado ao teatro experimental e ao circuito alternativo, onde atores tinham mais liberdade criativa. Esses espaços eram menos voltados ao sucesso comercial e mais à pesquisa artística, algo que combinava com seu temperamento inquieto e introspectivo. Dean se sentia mais à vontade em ambientes que valorizavam a verdade emocional em vez da técnica convencional.

Paralelamente ao teatro, ele atuou em dramas ao vivo na televisão, muito comuns em Nova York nos anos 1950. Essas produções exigiam preparo teatral rigoroso, já que eram encenadas em tempo real. A experiência televisiva complementou sua formação teatral, ajudando-o a desenvolver concentração, disciplina e rapidez emocional.

O período de James Dean no teatro de Nova York foi essencial para sua descoberta como ator. Embora não tenha se tornado uma estrela dos palcos, foi ali que ele construiu a base artística que impressionaria diretores como Elia Kazan. O teatro nova-iorquino não lhe deu fama, mas deu algo mais duradouro: uma identidade artística sólida, que se refletiria de forma definitiva em sua curta e histórica carreira no cinema.

quinta-feira, 1 de março de 2001

James Dean: Os Anos na Universidade

Los Angeles, 1949
Quando James Dean terminou o colegial ele não tinha a menor ideia do que iria fazer na vida. Morando numa pequena cidade do estado de Indiana suas perspectivas de futuro não pareciam muito promissoras. Aos amigos da escola Dean dizia que queria ser ator, advogado ou até mesmo pastor protestante. Eles não ficaram muito surpresos com isso pois Dean havia sido muito próximo do grupo de teatro da escola. Havia inclusive um professor de artes que havia despertado em Dean o gosto pela poesia e pela arte do teatro. Ele incentivava o jovem Dean a atuar nas peças da escola e lhe dava livros, principalmente de Shakespeare, para que Dean tomasse gosto pela literatura e pelas artes cênicas. Esse professor de ensino médio de Fairmount foi seguramente a pessoa que mais influenciou James Dean em sua vontade de um dia se tornar ator em Hollywood.

O tio de Dean, Marcus, com quem ele havia ido morar quando sua mãe faleceu, acreditava que o sobrinho seria feliz sendo um fazendeiro como ele havia sido por toda a vida. James Dean gostava da vida no campo, mas essa escolha estava fora de seus planos. Ele queria experimentar a vida lá fora, na cidade grande. A oportunidade bateu sua porta quando seu pai, que morava na Califórnia, lhe escreveu dizendo que ele deveria ir para Los Angeles morar com ele. 

O pai de Dean queria que ele se formasse em Direito na UCLA, a universidade da Califórnia. Dean que estava com vontade de ir embora de Indiana viu ali sua grande oportunidade. Na semana seguinte ele pegou o primeiro trem e foi embora para a Califórnia, para quem sabe, um dia, vir a se ator de teatro e cinema.

James Dean chegou em Los Angeles com uma mochila nas costas e cinco dólares no bolso. Seu pai o pegou na estação ferroviária. Ele adorou a ensolarada e quente Califórnia desde os primeiros dias. Seu principal desafio seria passar no exame de admissão da UCLA. Dean tinha sido um bom aluno desde os primeiros dias na escola em Fairmount e ao lado de bons professores conseguiu acumular uma boa bagagem cultural que foi decisiva quando ele finalmente foi aprovado na Universidade que seu pai tanto sonhara. Ser um aluno de Direito na UCLA era uma grande honra para a família. Certamente James Dean estava indo pelo caminho certo.

A felicidade no mundo acadêmico porém não era repetida na vida familiar de Dean. Os longos anos que morou longe de seu pai cobraram um preço. Na verdade ambos se sentiam quase como estranhos. O fato do pai morar com uma mulher com quem Dean não gostava só piorava as coisas. Assim poucos meses depois de chegar em Los Angeles, Dean resolveu ir embora da casa de seu pai. 

Ele conseguiu ser aceito numa fraternidade de estudantes (muito comum nos Estados Unidos). A Sigma Nu reunia os estudantes de Direito da UCLA em apenas uma grande residência dentro do Campus. O clima mais sofisticado do lugar porém fez Dean novamente se sentir deslocado. Dean achava seus colegas bem afetados, esnobes e por essa razão não se deu muito bem. Pior do que isso, Dean começou a perder interesse pelas matérias jurídicas, ficando quase todo o tempo no Departamento de Artes Cênicas da UCLA. Sua vocação para ser ator novamente falava mais alto.

O sonho de ser ator
James Dean não era muito alto, pelo contrário. Parece uma questão secundária, mas que para Dean acabou ganhando uma importância maior do que ele inicialmente esperava! Quando Dean foi para a Califórnia ele tinha um sonho de se tornar ator de teatro ou quem sabe, de cinema. O aspirante a essa nova profissão foi para o novo estado, saindo da caipira Fairmount, em Indiana, com a intenção de estudar na universidade UCLA. Pelo menos essa era a intenção do pai de Dean. Na realidade ele não via qualquer futuro na profissão de ator e sempre desencorajava Dean a seguir por esse caminho. Os sonhos porém sempre falam mais alto.

Os primeiros meses de James Dean na nova universidade não foram nada promissores. Ele não se deu bem com colegas e professores e logo achou tudo muito maçante e tedioso. Chegou a ser expulso da fraternidade que fazia parte após brigar com um dos colegas. Embora estivesse estudando matérias direcionadas para o curso de Direito, para quem sabe ser um advogado no futuro, o que Dean gostava mesmo era de frequentar o campus de artes - onde grupos de estudantes ensaiavam peças ao ar livre. 

Era tudo muito libertador e empolgando, algo bem melhor do que ficar estudando leis e mais leis, rebuscadas pela jurisprudência da corte suprema dos Estados Unidos. No fundo James Dean não queria ser um profissional de terno e gravata, mas sim um artista, como sempre sonhou. O pai dele, claro, não gostava nada quando tinha lhe contava essas ambições para seu futuro profissional.

Sem falar para ninguém, um dia James Dean começou a ir a testes de atores para peças e filmes. Ele achava sinceramente que logo iria ser descoberto pelos agentes e estúdios de Hollywood. Chegou inclusive a procurar um agente que o ajudasse a despontar. Porém o que efetivamente encontrou foram muitas portas fechadas em sua cara! Nos testes não se saiu nada bem. Dean não tinha muitos modos finos e não conseguia convencer os selecionadores. 

Em vários testes sua pouca estatura tornou-se um empecilho. Com muito esforço e botas altas, Dean conseguia disfarçar sua pouca altura, conseguindo chegar ao 1.69m de altura. Dean foi sendo recusado teste após teste. Os filmes, principalmente de cowboy, exigiam atores altos e fortes. Não era o caso de Dean. Ele sabia montar - afinal morava numa fazenda em Indiana - mas não tinha o porte físico necessário para fazer parte do elenco de um western.

Alguns diretores de elenco eram rudes com ele e deixavam claro que ele era baixinho demais para os personagens. Lutando muito e persistindo Dean acabou conseguindo fazer algumas figurações em produções como "Baionetas Caladas", um filme de guera. Depois ele conseguiu um pequeno papel em uma comédia estrelada pela dupla Jerry Lewis e Dean Martin,  Nessa produção chamada "O Marujo foi na Onda" Dean interpretou um auxiliar de ringue. Enquanto Jerry Lewis saia no braço com seu adversário, dando margem a todos os tipos de situações divertidas, Dean ficava com uma toalha no corner, decidindo se entrava ou não para interromper a luta. 

Passou longe de ser um papel marcante, mas foi uma primeira chance. Desiludido, certa noite ouviu um conselho muito interessante de um professor de arte dramática. "Dean, deixe isso de lado, vá para Nova Iorque e aprenda a ser um ator de verdade! No cinema você não vai aprender a ser um ator". No outro dia James Dean arrumou as malas, juntou os 300 dólares que tinha (a única grana que possuía naquele momento) e rumou para a big Apple. 

Rumo a Nova Iorque
Nessa mesma época James Dean resolveu largar a universidade. Foi uma decisão um tanto impulsiva, mas Dean parecia muito seguro de sua decisão. Ele estava decidido. Não haveria volta, Claro que o pai de Dean não gostou nada da ideia. Era absurda sob o seu ponto de vista. Além do mais como Dean iria viver dali para frente? Ele não tinha emprego, nem onde viver. O relacionamento com o pai já estava ruim há tempos. Com a decisão de James Dean a coisa toda só piorou. Como Dean já era maior de idade, seu pai resolveu deixar para lá. Cada um é dono de seu próprio destino e cada um tem seu caminho. Agora Dean teria que se virar, procurar por seu próprio sustento. 

Uma solução seria arranjar um emprego e um lugar para morar. Ele conseguiu as duas coisas com um amigo que também estava deixando a universidade. Eles alugaram um pequeno apartamento em e depois Dean conseguiu um emprego no estacionamento de um dos estúdios de TV. o canal CBS. Foi a primeira aproximação com a indústria cultural. Claro, não era bem o que ele esperava, mas já era um começo, humilde começo, mas um começo.

Os dias de Dean como trabalhador no estacionamento não duraram muito. Ele se mostrou um funcionário indisciplinado, que passava o tempo todo ridicularizando seu próprio uniforme. Seu chefe não gostou nada das piadinhas e assim Dean foi logo demitido. "Aquele seu amigo, vou te contar!" - teria dito o chefe do estacionamento para o amigo de Dean. 

Sem grana e sem perspectiva ele procurou por alguma solução. Não demorou muito e logo Dean se viu sem ter nem o que almoçar, já que as prateleiras do pequeno apê estavam vazias. Até a luz do lugar acabou sendo cortada. Dean começou então a chamar amigos para irem até lá, para um jantar "a luz de velas" - como se fosse algo glamoroso e não falta de pagamento da conta de luz! No fundo a tática de Dean era que seus amigos trouxessem alguma comida para a noite - para assim ele também ter o que comer! A coisa toda acabou funcionando. Todas as noites James Dean tinha pelo menos comida para passar mais alguns dias.

Logo chegou uma ordem de despejo por falta de pagamento do aluguel. O que salvou Dean de virar um esfomeado morador de rua foi uma agente que conheceu nessa mesma semana. Ela acreditou em Dean e o contratou. Agora a agência de atores, modelos e atrizes iria se esforçar para arranjar algum papel para seu novo contratado. Não seria fácil, mas Dean tinha confiança. Se sua nova agente pudesse arranjar algum trabalho, mesmo que no teatro ou em comerciais de TV, já estaria de bom tamanho. 

E a sorte acabou batendo na porta de Dean. A Pepsi-Cola estava contratando jovens para aparecer em um de seus comerciais televisivos. Os candidatos teriam que dançar e depois tomar uma Pepsi na frente de um jukebox! Dean passou no teste e assim conseguiu seu primeiro pagamento, seu primeiro cachê! A primeira coisa que fez foi ir ao mercado para comprar comida! Passar fome não fazia bem parte de seus sonhos de um dia virar ator...

James Dean: Anos Iniciais

Nascimento e Infância
James Dean nasceu em 8 de fevereiro de 1931, na cidade de Marion, no estado de Indiana, Estados Unidos. Filho único de Winton Dean, técnico em odontologia, e Mildred Marie Wilson, dona de casa, James teve uma infância marcada por mudanças e contrastes. Pouco depois de seu nascimento, a família se mudou para Santa Monica, Califórnia, em busca de melhores oportunidades, o que colocou o menino em contato com um ambiente urbano e culturalmente mais ativo desde cedo.

Durante os primeiros anos na Califórnia, James manteve uma relação muito próxima com a mãe. Mildred era uma mulher sensível, interessada em artes, música e teatro, e foi ela quem incentivou o filho a desenvolver sua criatividade. Ainda criança, James demonstrava curiosidade intelectual, gosto por leitura e interesse por atividades artísticas, traços que mais tarde se tornariam fundamentais em sua carreira como ator.

A infância de James Dean sofreu uma ruptura profunda em 1940, quando sua mãe faleceu vítima de câncer, aos 29 anos. James tinha apenas nove anos de idade na época. A morte de Mildred foi um trauma decisivo em sua vida, deixando marcas emocionais profundas. Muitos biógrafos apontam que a sensação de perda, solidão e incompreensão vivida nesse período influenciou fortemente a intensidade emocional que ele demonstraria mais tarde em seus papéis no cinema.

Após a morte da mãe, o pai de James, que tinha dificuldades em criar o filho sozinho, decidiu que não poderia cuidar dele adequadamente. Assim, James foi enviado de volta para Indiana para morar com parentes. Essa decisão representou uma mudança radical: ele deixou a Califórnia e retornou ao meio rural do interior americano, distante do ambiente que havia conhecido na infância.

James passou então a viver em Fairmount, Indiana, na fazenda de seus tios Marcus e Ortense Winslow, que se tornaram figuras centrais em sua formação. Embora fossem parentes afetuosos e disciplinados, o jovem James teve dificuldades iniciais de adaptação. A vida no campo, mais rígida e conservadora, contrastava com sua personalidade sensível e introspectiva, o que contribuiu para seu sentimento de isolamento.

Apesar das dificuldades, esse período com os tios também foi importante para o desenvolvimento de James Dean. Ele frequentou a escola local, destacou-se em atividades acadêmicas e esportivas e começou a demonstrar, de forma mais clara, seu interesse por artes dramáticas. A combinação entre a perda precoce da mãe e a experiência de viver longe do pai ajudou a moldar o caráter intenso, inquieto e emocional que mais tarde faria de James Dean um dos maiores ícones da história do cinema.

Os Anos Escolares
Durante seus anos na escola em Fairmount, Indiana, James Dean viveu um período decisivo de formação pessoal e artística. Matriculado na Fairmount High School, ele era um aluno inteligente, embora introspectivo, e muitas vezes se sentia deslocado entre os colegas. Apesar disso, destacava-se por sua curiosidade intelectual e por uma sensibilidade incomum, que o diferenciava dos demais estudantes.

Foi na escola que James Dean teve seu primeiro contato significativo com o teatro. Incentivado pela professora de artes dramáticas e oratória Adeline Nall, ele passou a participar de peças escolares e atividades ligadas à expressão verbal. A professora teve papel fundamental ao reconhecer seu talento e encorajá-lo a explorar a atuação como forma de canalizar suas emoções. No palco, James encontrou um espaço onde podia se expressar com liberdade e intensidade, algo que raramente conseguia em sua vida cotidiana.

Ao mesmo tempo, James Dean também demonstrava grande interesse por esportes, especialmente aqueles que exigiam esforço físico e competitividade. Ele participou ativamente de equipes escolares de basquete, beisebol e atletismo, mostrando disciplina e determinação. O esporte funcionava como um contraponto ao teatro: enquanto a atuação permitia o contato com suas emoções mais profundas, a prática esportiva ajudava a aliviar tensões e a fortalecer sua autoconfiança.

Essa combinação entre arte e esporte foi essencial para moldar sua personalidade. James não se encaixava perfeitamente no estereótipo do atleta nem no do artista, transitando entre os dois mundos. Essa dualidade contribuiu para sua imagem futura de jovem rebelde, sensível e ao mesmo tempo fisicamente intenso, características que marcariam sua presença no cinema.

Ao concluir o ensino médio, James Dean já demonstrava claramente que seu caminho estava ligado às artes cênicas. A experiência escolar, especialmente no teatro, despertou nele o desejo de seguir carreira como ator. Os anos na escola não apenas revelaram seu talento, mas também ajudaram a formar o estilo emocional, autêntico e visceral que faria de James Dean uma figura única e inesquecível na história do cinema.

Uma Adolescância Complicada
Após a morte de sua mãe, James Dean passou a viver na fazenda de seus tios Marcus e Ortense Winslow, em Fairmount, Indiana, um ambiente rural que contrastava fortemente com a vida que havia conhecido na Califórnia. A rotina era simples, marcada por trabalho no campo, disciplina e valores tradicionais. Embora os tios fossem cuidadosos e responsáveis, James sentia-se emocionalmente distante e frequentemente solitário, o que reforçou seu caráter introspectivo e independente.

A vida na fazenda exigia esforço físico e responsabilidade desde cedo. James ajudava nas tarefas diárias, lidava com animais e participava ativamente da rotina agrícola. Esse contato com o trabalho duro contribuiu para sua resistência física e para um senso de autossuficiência, mas não eliminava o sentimento de deslocamento. Mesmo cercado por familiares, ele carregava uma sensação constante de ausência, causada principalmente pela perda da mãe.

Foi nesse período que James Dean começou a desenvolver um forte interesse por motores e velocidade, especialmente por motocicletas. As motos representavam para ele mais do que um simples hobby: eram uma forma de liberdade, controle e escape emocional. Pilotar lhe dava uma sensação de autonomia e intensidade, algo que o ajudava a lidar com conflitos internos e emoções difíceis. Esse amor precoce pelas motos se tornaria uma característica marcante de sua personalidade ao longo da vida.

A morte de sua mãe, Mildred Dean, continuou a exercer profunda influência sobre James durante os anos na fazenda. Ele raramente falava abertamente sobre o assunto, preferindo lidar com a dor de maneira silenciosa. A ausência materna gerou nele um sentimento duradouro de insegurança emocional e uma busca constante por afeto e compreensão, aspectos que mais tarde se refletiriam na profundidade emocional de suas atuações.

James Dean encontrou formas próprias de processar essa perda, principalmente por meio da introspecção, da arte e da ação física. Seja trabalhando na fazenda, pilotando motos ou se dedicando à leitura e ao teatro, ele buscava maneiras de transformar sua dor em movimento e expressão. Essa combinação de silêncio, intensidade e sensibilidade moldou o jovem que, anos depois, se tornaria um ícone do cinema, conhecido justamente por transmitir emoções profundas e autênticas na tela.

James Dean e o Reverendo
James Dean teve, de fato, uma relação de amizade e mentoria muito intensa com um reverendo durante sua juventude e início da carreira, e esse vínculo costuma aparecer com destaque em biografias sérias sobre o ator. O reverendo em questão era James DeWeerd, um pastor metodista que Dean conheceu quando se mudou para a Califórnia, no começo dos anos 1950, enquanto estudava teatro e tentava se firmar como ator.

DeWeerd não foi apenas um conselheiro religioso. Segundo diversos livros, ele ofereceu a James Dean algo que lhe faltava desde a infância: estabilidade emocional, escuta atenta e uma figura adulta constante. Dean havia perdido a mãe muito cedo e tivera uma relação distante com o pai, o que o tornava especialmente carente de afeto e orientação. O reverendo tornou-se alguém com quem Dean podia conversar longamente sobre arte, fé, culpa, ambições e seus conflitos internos.

As biografias descrevem a amizade como profunda e intensa, marcada por convivência frequente. Dean chegou a morar por um período na casa de DeWeerd, algo que, à época, não era tão incomum entre jovens estudantes e figuras de apoio espiritual. Os autores costumam destacar que o reverendo incentivava o interesse de Dean pelo teatro, pela literatura e pela reflexão interior, funcionando quase como um mentor intelectual e emocional.

Quanto à natureza real do relacionamento, os livros deixam claro que há interpretações diferentes. Biógrafos como Val Holley e Donald Spoto reconhecem que a proximidade entre os dois gerou especulações ao longo dos anos, principalmente porque Dean tinha uma personalidade afetiva intensa e pouco convencional para os padrões da época. No entanto, esses mesmos autores ressaltam que não existem provas concretas de que o relacionamento tenha sido sexual ou romântico.

A maior parte da literatura especializada trata a ligação entre Dean e DeWeerd como uma relação de dependência emocional e busca por orientação, mais do que qualquer outra coisa. Muitos estudiosos apontam que Dean tendia a se apegar fortemente a figuras que lhe ofereciam segurança e aceitação — algo que também ocorreu em outras amizades ao longo de sua curta vida. Assim, o consenso entre os biógrafos mais respeitados é que o vínculo foi complexo, íntimo e emocionalmente carregado, mas não comprovadamente sexual.

Em resumo, os livros retratam a amizade entre James Dean e o reverendo James DeWeerd como um capítulo importante para entender a fragilidade emocional, a solidão e a busca por pertencimento do ator. Mais do que um escândalo oculto, esse relacionamento costuma ser visto como um reflexo das feridas emocionais de Dean e de sua necessidade profunda de acolhimento e orientação em um momento decisivo de sua formação pessoal e artística.