terça-feira, 1 de maio de 2001

Montgomery Clift

1. Introdução: um ator fora do seu tempo
Edward Montgomery Clift nasceu em 17 de outubro de 1920, em Omaha, Nebraska, e tornou-se um dos atores mais influentes e trágicos da história do cinema norte-americano. Ao lado de Marlon Brando e James Dean, Clift é frequentemente apontado como um dos fundadores da atuação moderna em Hollywood. No entanto, diferentemente de seus contemporâneos, sua revolução não se deu pelo confronto explícito ou pela rebeldia aberta, mas pela introspecção, pela fragilidade emocional e pela verdade psicológica que trouxe a cada personagem.

Montgomery Clift não era apenas um ator: era uma ruptura. Sua presença nas telas desafiava o modelo clássico do astro viril, seguro e invulnerável. Ele introduziu um novo tipo de masculinidade, marcada por conflitos internos, sensibilidade extrema e silêncio expressivo. Em uma Hollywood ainda dominada por estúdios rígidos e arquétipos bem definidos, Clift representava a inquietação do pós-guerra e o surgimento de uma geração que já não acreditava em heróis sem falhas.

2. Infância e formação: o teatro como refúgio
Filho de uma mãe dominadora, Ethel Anderson Clift, Montgomery teve uma infância incomum. Sua mãe acreditava que os filhos estavam destinados a uma grandeza especial e os afastou do ensino formal tradicional, optando por uma educação itinerante pela Europa e pelos Estados Unidos. Essa criação contribuiu para o isolamento emocional do ator, mas também lhe proporcionou contato precoce com arte, música e literatura.

Aos 13 anos, Clift já atuava profissionalmente no teatro da Broadway. Diferente de muitos atores que viam o palco como um trampolim para o cinema, ele considerava o teatro sua verdadeira casa. Foi ali que desenvolveu uma disciplina rigorosa e uma abordagem profundamente psicológica da interpretação, muito antes de o chamado “Método” se tornar popular em Hollywood.

Durante os anos 1930 e início dos anos 1940, Montgomery Clift construiu uma sólida carreira teatral, atuando em peças de Shakespeare, dramas contemporâneos e produções experimentais. Seu talento chamou a atenção de diretores e críticos, mas ele resistiu durante anos às propostas de Hollywood, temendo perder o controle artístico de seu trabalho.

3. A estreia no cinema e a recusa ao sistema de estúdios
Montgomery Clift fez sua estreia no cinema relativamente tarde, aos 28 anos, em “Rio Vermelho” (Red River, 1948), dirigido por Howard Hawks e estrelado por John Wayne. Desde sua primeira aparição, ficou claro que algo havia mudado. Enquanto Wayne representava o velho Oeste mítico, Clift surgia como um jovem contido, emocionalmente complexo e moralmente dividido.

O contraste entre os dois atores simbolizou uma transição histórica no cinema americano: o embate entre o heroísmo clássico e a dúvida moderna. Clift não precisava levantar a voz ou impor sua presença; seu poder estava no olhar, na pausa, na tensão interna.

Diferentemente da maioria dos atores da época, Clift recusou contratos de longo prazo com estúdios. Essa decisão lhe deu liberdade artística, mas também instabilidade financeira e conflitos frequentes com produtores. Ele escolhia seus papéis com extremo cuidado, rejeitando projetos que não considerava artisticamente honestos.

4. A consagração crítica: sensibilidade e tragédia
Nos anos seguintes, Montgomery Clift entregou uma sequência de atuações memoráveis. Em “Tarde Demais” (The Heiress, 1949), interpretou um sedutor ambíguo, distante do galã romântico tradicional. Em “Um Lugar ao Sol” (A Place in the Sun, 1951), sua atuação como George Eastman tornou-se um marco definitivo do cinema.

Nesse filme, Clift encarnou o conflito entre ambição social, desejo e culpa moral. Sua performance, marcada por silêncio e tensão contida, redefiniu o melodrama hollywoodiano. Ele não interpretava emoções: ele as vivia diante da câmera.

O sucesso continuou com “A Um Passo da Eternidade” (From Here to Eternity, 1953), no qual viveu o soldado Prewitt, um homem íntegro esmagado pela brutalidade institucional do exército. A recusa do personagem em se submeter à violência gratuita refletia muito da própria ética pessoal de Clift.

5. Vida pessoal, sexualidade e isolamento
Fora das telas, Montgomery Clift vivia uma batalha constante contra si mesmo. Extremamente reservado, evitava entrevistas e eventos sociais. Sua sexualidade, em uma Hollywood profundamente conservadora, era um tema proibido. Embora nunca tenha se assumido publicamente, é amplamente reconhecido por historiadores e biógrafos que Clift era bissexual ou homossexual.

Esse conflito interno contribuiu para sua solidão e para uma sensação constante de inadequação. Diferentemente de James Dean, que transformava sua angústia em rebeldia visível, Clift internalizava sua dor. O resultado era uma intensidade emocional que transbordava na tela, mas o consumia por dentro.

Ele mantinha amizades profundas com figuras como Elizabeth Taylor, que se tornaria uma das pessoas mais importantes de sua vida. Taylor descrevia Clift como alguém de extrema delicadeza emocional, mas também profundamente autodestrutivo.

6. O acidente de 1956: o ponto de ruptura
Em 1956, durante as filmagens de “A Árvore da Vida” (Raintree County), Montgomery Clift sofreu um grave acidente de carro ao deixar a casa de Elizabeth Taylor. Seu rosto ficou severamente ferido, com múltiplas fraturas. Embora tenha sobrevivido, o acidente marcou o início de um período sombrio em sua vida e carreira.

A indústria passou a se referir ao período posterior como “a longa noite de Montgomery Clift”. Além das dores físicas, o ator enfrentou dependência de analgésicos, álcool e uma crescente insegurança em relação à própria imagem. Para um artista cuja expressividade facial era essencial, as cicatrizes representaram um golpe devastador. Ainda assim, Clift recusou-se a abandonar a atuação.

7. A reinvenção artística e a maturidade
Contrariando expectativas, Montgomery Clift entregou algumas de suas atuações mais complexas após o acidente. Em “De Repente, no Último Verão” (Suddenly, Last Summer, 1959), atuou ao lado de Elizabeth Taylor e Katharine Hepburn, interpretando um médico atormentado por dilemas éticos e emocionais.

Sua performance em “Julgamento em Nuremberg” (Judgment at Nuremberg, 1961) é frequentemente considerada uma de suas maiores conquistas. Em poucos minutos de cena, Clift interpretou um homem com deficiência intelectual, vítima do regime nazista. Sua atuação é devastadora em sua simplicidade e humanidade, rendendo-lhe uma indicação ao Oscar.

Nesse período, Clift já não buscava a perfeição estética, mas a verdade emocional absoluta.

8. Relação com o Método e influência no cinema
Embora frequentemente associado ao Actor’s Studio e ao Método, Montgomery Clift nunca foi aluno formal da instituição. Ainda assim, sua abordagem intuitiva, psicológica e profundamente interna influenciou toda uma geração de atores.

Marlon Brando, Paul Newman, Al Pacino e Robert De Niro reconheceram a importância de Clift como precursor de uma atuação menos teatral e mais humana. Ele foi um dos primeiros a mostrar que o silêncio, a dúvida e a vulnerabilidade podiam ser tão poderosos quanto discursos inflamados.

9. Últimos anos e morte
Os últimos anos de Montgomery Clift foram marcados por saúde frágil, projetos irregulares e crescente isolamento. Em 23 de julho de 1966, aos 45 anos, ele morreu em Nova York, vítima de um ataque cardíaco, agravado pelo uso prolongado de medicamentos e álcool.

Sua morte não foi um escândalo, mas um silêncio — condizente com a vida que levou. Hollywood, no entanto, começava a compreender a dimensão de sua perda.

10. Legado: a beleza da imperfeição
Montgomery Clift deixou uma filmografia relativamente curta, mas de impacto duradouro. Ele redefiniu o conceito de ator dramático no cinema americano e abriu espaço para personagens complexos, ambíguos e emocionalmente feridos.

Mais do que um ícone trágico, Clift foi um artista que pagou um preço alto por sua integridade. Sua atuação permanece atual porque fala de conflitos universais: identidade, solidão, desejo e medo.

Em um mundo que ainda celebra máscaras, Montgomery Clift escolheu a verdade — mesmo quando ela doía.