terça-feira, 6 de janeiro de 2026

O Homem do Colorado

O Homem do Colorado
Também conhecido como "No Velho Colorado", esse western conta uma história que se passa nos últimos dias da guerra civil americana, quando um coronel do exército da União chamado Owen Devereaux (Glenn Ford) encurrala um grupo confederado em um vale deserto. Sem saída os sulistas levantam a bandeira branca de rendição, mas o velho coronel os ignora, abrindo fogo com seus canhões, matando todos de forma covarde. Quando a guerra chega ao seu final, ele é honrado como um herói (apesar dos crimes que cometeu no campo de batalha). Logo é escolhido para ser o novo juiz de uma cidade do Colorado e leva seu capitão favorito, Del Stewart (William Holden), para ser o novo xerife. De volta à vida civil porém o coronel começa a apresentar desvios de comportamento, fruto dos traumas sofridos durante a guerra civil. Seu desequilíbrio mental se torna um sério problema quando tenta resolver disputas por terras ricas em ouro na região.

Glenn Ford se notabilizou pelos grandes personagens que interpretou na era de ouro do cinema americano. Em termos de western sua filmografia certamente é rica e importante. Aqui em "O Homem do Colorado" (relembrando que passou anos depois na TV como "No Velho Colorado") ele interpreta um personagem bem diferente, um coronel veterano que começa a enlouquecer aos poucos. De fato dentro da trama ele é o verdadeiro vilão do enredo. O roteiro é muito bem desenvolvido mas também apresenta alguns problemas morais ao meu ver. Há na história um grupo de veteranos que acaba indo para a criminalidade pois depois de dar baixa no exército não encontram mais trabalho e nem tampouco terras para começarem uma nova vida pois perderam o direito de extrair o ouro por terem servido por três anos na guerra. Sem alternativas viram criminosos sociais, roubando, promovendo assaltos e até mortes!

E para surpresa geral o roteiro se torna simpático em relação a esse bando de criminosos, chegando ao ponto de colocar o personagem do xerife ao lado deles! É um argumento complicado de aceitar. Mesmo assim, com esse problema ético, o filme é acima da média. Ford e Holden estão em grande forma e seguram as pontas muito bem, do começo ao fim. De qualquer maneira fica a indicação de "O Homem do Colorado", um faroeste típico dos anos 50, muito bem realizado e movimentado, que certamente vai agradar aos fãs do gênero.

O Homem do Colorado / No Velho Colorado (The Man from Colorado, Estados Unidos, 1948) Estúdio: Columbia Pictures / Direção: Henry Levin / Roteiro: Robert Hardy Andrews, Ben Maddow / Elenco: Glenn Ford, William Holden, Ellen Drew / Sinopse: Veterano da guerra civil, com histórico de crimes de guerra, acaba ganhando uma posição de juiz numa cidade do Colorado, onde começa a apresentar problemas emocionais e mentais no cargo. E isso se torna mais complicado no meio de uma disputa por terras onde se descobre ouro. Filme indicado ao Writers Guild of America na categoria Melhor roteiro de filme de western.

Pablo Aluísio.


Em Cartaz: O Homem do Colorado
O western O Homem do Colorado estreou nos cinemas em 1948, dirigido por Henry Levin e estrelado por William Holden e Glenn Ford. Produzido pela Columbia Pictures, o filme se destacou por fugir do maniqueísmo tradicional do gênero ao retratar a transformação psicológica de um herói da Guerra Civil em um homem dominado pela violência e pela paranoia. Ambientado no período de reconstrução do Oeste americano, o longa chamou atenção desde o lançamento por sua abordagem sombria e adulta, pouco comum nos westerns da época.

Em termos de bilheteria, o filme teve um desempenho respeitável, sem se tornar um grande sucesso comercial. Para os padrões da Columbia no final dos anos 1940, O Homem do Colorado foi considerado um resultado satisfatório, especialmente por se tratar de um western mais psicológico do que aventureiro. O interesse do público foi impulsionado pela presença de William Holden, então em ascensão, e pelo duelo dramático com Glenn Ford, já um nome consolidado do gênero.

A reação da crítica em 1948 foi amplamente positiva, com muitos jornais destacando o tom incomum do filme. O The New York Times escreveu que se tratava de “um western surpreendentemente intenso, que troca o romantismo habitual por um estudo sério do poder e da corrupção”, elogiando a coragem da produção em abordar temas mais sombrios. A revista Variety afirmou que o longa era “bem acima da média do gênero, com interpretações fortes e uma história de peso dramático real”.

Grande parte dos elogios concentrou-se na atuação de William Holden. Críticos da época observaram que o ator oferecia “uma interpretação perturbadora e convincente de um homem que se desfaz moralmente diante dos olhos do espectador”. Já o Los Angeles Times comentou que Glenn Ford funcionava como “o contraponto humano e ético da narrativa, equilibrando a descida do protagonista à brutalidade”, destacando o conflito moral no centro do filme.

Com o passar dos anos, O Homem do Colorado passou a ser visto como um precursor do western psicológico e revisionista, antecipando temas que seriam explorados com mais força nas décadas seguintes. As críticas publicadas em 1948 já indicavam que o filme era algo diferente dentro do gênero, mais preocupado com caráter e consequências do que com heroísmo simples. Hoje, ele é lembrado como um dos westerns mais ousados de seu período, valorizado tanto pela crítica quanto por historiadores do cinema.

O Estouro da Manada

O Estouro da Manada
Alguns filmes da era de ouro do western americano eram verdadeiras homenagens ao estilo de vida do cowboy, aquele bravo que atravessava as mais inóspitas regiões para levar seu gado até a fronteira, onde era finalmente comercializado e vendido para os grandes centros. Esse “O Estouro da Manada” é uma das mais sinceras odes que já assisti em relação ao vaqueiro das pradarias. No enredo um garoto mimado e chato, filho do dono da ferrovia, chamado Chester, se perde no meio do deserto, um dos lugares mais hostis do mundo. Nessa região ele é encontrado por acaso pelo cowboy Dan Matthews (Joel McCrea). O vaqueiro está atrás de um mustang negro selvagem que ele gosta de chamar de “Midnight”. De inicio o garoto rico se faz de arrogante e esnobe com o velho cowboy, mas conforme ambos vão convivendo juntos a relação de amizade muda de tom. A busca pelo cavalo e o trabalho duro de se tocar o gado no meio do deserto acaba criando no jovem rapaz um espírito completamente diferente, de honradez e trabalho. O antes prepotente e irascível garoto acaba se transformando em um homem de verdade, forjado no cotidiano da vida dos cowboys americanos, aqui personificado com maestria pelo ídolo Joel McCrea.

O filme tem lindas sequências ao ar livre. “O Estouro da Manada” foi rodado no Vale da Morte na Califórnia, um dos lugares mais secos do planeta. Mesmo assim a natureza em todo seu esplendor acaba proporcionando para a filmografia da produção um lindo cenário natural. No fundo o roteiro trata sobre o aprendizado de um jovem com um homem mais velho que acaba lhe ensinando grandes valores através de pequenas coisas que acontecem no cotidiano de um cowboy.  Enquanto tenta chegar em Santa Fé para entregar a manada o cowboy Dan e seu pupilo vão aprendendo sobre a vida e os valores do homem que vive de seu trabalho, tocando o gado pelas terras sem fim do oeste americano.

Para os fãs do ator Joel McCrea o filme é uma ótima opção. Seu personagem é um vaqueiro que tem o sonho de abrir um rancho próprio para uma criação de cavalos. Por isso ele tentará durante todo o filme capturar Midnight, o cavalo selvagem puro sangue que sempre consegue lhe escapar. A seqüência final, com o estouro de uma enorme manada pelo deserto é maravilhosamente bem realizada. Um clímax mais do que adequado para esse filme que louva com muito sucesso o mais simbólico personagem do velho oeste americano: o cowboy!

O Estouro da Manada (Cattle Drive, Estados Unidos, 1951) Direção: Kurt Neumann / Roteiro: Jack Natteford, Lillie Hayward / Elenco: Joel McCrea, Dean Stockwell, Chill Wills, Leon Ames, Henry Brandon, Howard Petrie / Sinopse: Garoto rico e mimado é esquecido no meio de deserto após o trem que o transportava lhe esquecer durante uma parada. Perdido no meio do nada, ele é salvo por um cowboy, Dan (Joel McCrea), que está no local tocando uma manada de gado em direção a Santa Fé. Juntos, atravessando o deserto, o jovem rapaz irá começar a mudar sua atitude e mentalidade ao tomar conhecimento do modo de viver dos cowboys americanos.

Pablo Aluísio.

Em Cartaz: O Estouro da Manada
O western Cattle Drive estreou nos cinemas em 1951, dirigido por Kurt Neumann e estrelado por Joel McCrea, com Dean Stockwell em um papel de destaque ainda adolescente. Produzido pela 20th Century Fox, o filme acompanha uma longa travessia de gado pelo Oeste americano, durante a qual um jovem problemático aprende, por meio do trabalho duro e da convivência, valores como responsabilidade e liderança. Desde o lançamento, o longa foi apresentado como um western de tom clássico, com forte componente moral e educativo.

Em termos de bilheteria, Cattle Drive teve um desempenho modesto, porém respeitável, típico de produções do gênero naquele início dos anos 1950. Não figurou entre os maiores sucessos do estúdio, mas encontrou bom público em sessões regulares e circuitos regionais, especialmente entre espectadores habituais de westerns. Para a Fox, o filme cumpriu seu papel como um produto sólido, com retorno seguro e boa circulação internacional.

A recepção crítica na época foi geralmente positiva, ainda que discreta. A revista Variety descreveu o filme como “um western competente e bem ritmado, sustentado por personagens claros e um conflito moral direto”, destacando sua eficiência narrativa. Já alguns jornais americanos ressaltaram o equilíbrio entre ação e drama humano, observando que o filme evitava excessos melodramáticos comuns em histórias de formação juvenil.

Grande parte dos elogios concentrou-se na atuação de Dean Stockwell, que chamou atenção da crítica por sua maturidade dramática. Um comentário recorrente na imprensa afirmava que o jovem ator oferecia “uma interpretação convincente e surpreendentemente intensa para sua idade”. Joel McCrea, por sua vez, foi elogiado por manter seu tradicional estilo sóbrio e firme, funcionando como uma figura de autoridade moral dentro da narrativa.

Com o passar dos anos, Cattle Drive (1951) passou a ser visto como um western clássico de formação, representativo da fase em que o gênero valorizava disciplina, amadurecimento e ética do trabalho. As críticas publicadas na época já indicavam que o filme não buscava inovação, mas sim reafirmar valores tradicionais do western hollywoodiano. Hoje, ele é lembrado principalmente pelo início promissor da carreira de Dean Stockwell e como um exemplo sólido do cinema de estúdio americano do pós-guerra.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

O Gordo e o Magro - Procura-se Um Marido

Título no Brasil: Procura-se um Marido
Título Original: Oliver the Eighth
Ano de Lançamento: 1934
País: Estados Unidos
Estúdio: Hal Roach Studios
Direção: Lloyd French
Roteiro: Stan Laurel
Elenco: Stan Laurel, Oliver Hardy, Mae Busch, Betty Healy, James Finlayson, Charles Middleton

Sinopse:
Stan e Ollie vivem tranquilamente como barbeiros quando um anúncio nos classificados do jornal chama atenção do Gordo Oliver Hardy. Uma mulher viúva e muito rica, procura um bom homem para se casar com ela! Uma oportunidade única para se dar bem, mas as coisas, como se verá adiante, não serão como ele espera! 

Comentários:
Certamente a dupla O Gordo e o Magro foi a mais querida do cinema americano em sua era de ouro. Era realmente uma parceria ótima, com Stan Laurel funcionando como a mente pensante da dupla (ele escrevia os roteiros) e Oliver Hardy como um ótimo companheiro de cena, funcionando de forma perfeita como um ator escada para o amigo. Eles fizeram muitos filmes juntos, a maioria com ótima bilheteria, algo que se repetiu no Brasil onde também eram muito queridos pelo público em geral. Aqui temos uma comédia típica deles, um tipo de humor inofensivo e até mesmo bem inocente, fruto de um tempo que não existe mais. Ainda assim, mesmo nos dias atuais, diverte. Stan Laurel era muito talentoso, um daqueles comediantes que não precisavam fazer esforço nenhum para ser engraçado. O mesmo valia para Oliver Hardy. Enfim, uma dupla de gênios do humor cinematográfico. Merecem todo o reconhecimento e aplausos. 

Pablo Aluísio. 

domingo, 4 de janeiro de 2026

Os Filmes de Leonardo DiCaprio - Parte 5

J. Edgar
O novo filme de Clint Eastwood é bem parecido com o personagem que retrata: cinza e burocrático. Explico. A primeira coisa que me chamou atenção nessa produção foi sua fotografia preto, cinza e branco, em clara intenção do cineasta em evitar ao máximo o uso de objetos ou roupas coloridas em cena. A impressão que tive foi que Eastwood queria realizar um filme preto e branco mas como isso seria comercialmente ruim ele acabou rodando esse filme em cores neutras, quase um filme colorido em preto e branco! Já a burocracia do resultado final é fácil explicar: Hoover era um burocrata de Washington, um sujeito de bastidores, que através de várias chantagens com poderosos ao longo dos anos conseguiu se manter como diretor do Bureau Federal de Investigação (FBI). Assim o que vemos em cena basicamente é um homem tramando arapucas e golpes atrás de sua escrivaninha. Claro que o público brasileiro vai ter dificuldade em gostar do filme pois a história é obviamente americana demais, com várias referências históricas que vão passar batido ao público daqui. Outra coisa que me incomodou foi a maquiagem de Leonardo Di Caprio. Achei pouco convincente, mal projetada e nada parecida com o personagem real.

Outro aspecto que tenho a criticar de J. Edgar é o sensacionalismo. Clint Eastwood sempre foi um diretor elegante e fino, mas aqui parece ter ficado absorvido demais com o suposto caso homossexual de Hoover com um agente do FBI. Tantas coisas melhores a explorar na vida do retratado e ele literalmente perde tempo mostrando Hoover trocando olhares apaixonados com seu amado, Hoover trocando carícias com o bofe, Hoover dando beijocas.... Chegou inclusive ao ponto de colocar Hoover de vestido e tudo em cena - precisava mesmo disso? Por que não explorou melhor a conturbada relação de Hoover com os Kennedys e outros presidentes americanos? Ficar mostrando a toda hora o namorico do chefão do FBI cansou um pouco. Enfim, filmar a vida de J. Edgar Hoover não seria mesmo fácil. Tentar mostrar tudo em apenas um filme? Praticamente impossível. Seria melhor de Eastwood focasse em algum evento isolado da vida dele mas como não o fez, o filme acabou realmente ficando incompleto e burocrático. De qualquer forma vale a pena assistir para conhecer a história de J. Edgar Hoover, um personagem tão fascinante quanto sinistro.

J. Edgar (J. Edgar, Estados Unidos, 2011) Direção: Clint Eastwood / Roteiro: Dustin Lance Black / Elenco: Leonardo DiCaprio, Birol Tarkan Yildiz, Armie Hammer, Naomi Watts, Lea Thompson, Josh Lucas, Ed Westwick, Dermot Mulroney, Judi Dench, Stephen Root, Jeffrey Donovan, Michael Gladis / Sinopse: Cinebiografia sobre o ex-diretor do FBI, J. Edgar Hoover (Leonardo DiCaprio), que mostra tanto sua escandalosa carreira, marcada por uma administração dura do FBI e casos de chantagem, quanto seu duradouro romance com Clyde Tolson (Armie Hammer).

Django Livre
Em “Bastardos Inglórios” Quentin Tarantino tentou revisitar, com muito bom humor, um dos mais populares gêneros do cinema da era de ouro, o dos filmes de guerra. Exagerado, over, beirando a paródia completa, “Bastardos Inglórios” dividiu opiniões, sendo odiado por uns e amado por outros. Embora seu desfecho fosse absurdo pelo menos era surpreendente, não há como negar. Agora é a vez do Western servir de alvo para as lentes de Tarantino. “Django Livre” se propõe a ser uma paródia do chamado Western Spaguetti, gênero que se tornou muito popular (inclusive no Brasil) na época de seu auge. A tônica dessas produções era o exagero das cenas de violência e o uso abusivo de trilhas marcantes e onipresentes em cada cena. Os roteiros passavam longe de ser grande coisa mas eram eficientes. Agora o cineasta Tarantino tenta trazer o espírito daquelas produções de volta às telas, tudo mesclado com seu inconfundível toque pessoal.

É curioso porque assim que o projeto foi anunciado esperei por um verdadeiro delírio por parte do diretor pois se o Spaguetti era uma paródia do western americano, o que esperar de uma paródia da paródia? Obviamente um exagero completo, um delírio absoluto! Mas não é isso o que acontece. “Django Livre” pode até mesmo ser considerado conservador em certos aspectos. Não há dúvidas que existem produções Spaguetti que são bem mais violentas ou ousadas que “Django Livre”. Nesse ponto Tarantino foi passado para trás. Assim sobra pouca coisa para se surpreender. Quem é fã do gênero, que acompanha filmes de faroeste com freqüência, simplesmente não vai se impressionar com nada no filme de Tarantino. Nem é ousado e nem surpreendente. Mesmo assim não é um produto ruim, longe disso, só é menos revolucionário do que se esperava (ou melhor dizendo, não é revolucionário em nada).

Um bom western? Sim, não há como negar. O melhor vem dos talentosos atores em cena. O elenco está muito bem, em especial Christopher Waltz e Leonardo DiCaprio. Jamie Foxx como Django não chega a empolgar e nem está tão intenso quanto era de se esperar. Spike Lee reclamou do retrato que foi feito da escravidão negra nos EUA mas sua posição é obviamente um exagero. Os negros aliás estão no centro da trama e o próprio Django é um bom protagonista para o público afrodescendente se identificar. Recentemente “Django Livre” venceu o Globo de Ouro de Melhor Roteiro mas depois de assistir ao filme achei o prêmio um pouco desmerecido. A trama é até banal, sem surpresas, e o filme tem inclusive um problema no último ato que se tornar desnecessário e constrangedor, para não dizer bobo! Os diálogos, que sempre foram a marca registrada do diretor, aqui estão bem escritos mas muito abaixo das outras obras da filmografia de Tarantino. São um pouco acima da média mas nada excepcionais. Além disso o desenrolar da estória é comum, ordinário. Tarantino parece que tremeu nas bases ao se envolver com a mitologia do western.

Ao invés de jogar as bases do gênero para o alto, como fez em “Bastardos Inglórios”, ele aqui não consegue em momento algum se desvincular das regras dos faroestes mais tradicionais. Até a divisão em três atos está de acordo com os dogmas do estilo. Tarantino não alça vôo em momento algum, prefere ficar no chão, ao lado das regras mais caras ao velho e bom western. Não se aproxima de sua tão falada desmistificação, pelo contrário, louva ao seu modo todos os fundamentos desse tipo de filme e se rende à tradição. Assim não vejo motivo algum para toda a badalação que está sendo feita em torno de “Django Livre” pois em essência ele se apresenta como um western dos mais tradicionais, sem qualquer marca mais relevante que o torne uma obra prima ou algo do gênero. Definitivamente não foi dessa vez que o cineasta maravilhou ou deixou surpreendidos os fãs de faroestes. Em conclusão temos aqui um bom western que sobressai pelo elenco inspirado. A trama é sem surpresas e o roteiro bem abaixo do esperado. Não é um filme ofensivo contra os negros, longe disso, e pode ser visto como bom passatempo, muito embora um corte mais bem cuidadoso em sua duração cairia bem. Deve ser conferido mas sem esperar nada grandioso.

Django Livre (Django Unchained, EUA, 2012) Direção: Quentin Tarantino / Roteiro: Quentin Tarantino / Elenco: Jamie Foxx, Christopher Waltz, Leonardo DiCaprio, Samuel L. Jackson, Sacha Baron Cohen, Joseph Gordon-Levitt, Kurt Russell, Kerry Washington, Walton Goggins, James Remar, Don Johnson, Anthony LaPaglia, Tom Savini, James Russo. / Sinopse: King Schultz (Christoph Waltz) é um caçador de recompensas que se une a um escravo chamado Django (Jamie Foxx) para sair na caça de três irmãos que estão com a cabeça a prêmio. Depois do serviço concluído eles resolvem ir atrás da esposa de Django que agora se tornou propriedade de um cruel fazendeiro do sul chamado Calvin Candie (Leonardo DiCaprio). Se fazendo passar por traficantes de escravos eles tentarão resgatar a amada de Django.

O Grande Gatsby
Anos 1920. Nick Carraway (Tobey Maguire) se forma na universidade de Yale e vai até Nova Iorque com o sonho de um dia tornar-se um grande escritor. Enquanto não escreve o livro que mudará sua vida resolve arranjar um emprego na bolsa de valores da cidade. Morando no outro lado da baía ele acaba ficando curioso sobre o seu vizinho, um milionário recluso e misterioso chamado Jay Gatsby (Leonardo DiCaprio). Todas as semanas Gatsby dá grandes festas em sua enorme mansão, em eventos que acabam atraindo todos os tipos de pessoas de Nova Iorque, desde figurões, políticos, estrelas de cinema até gangsters ou qualquer um que queira diversão barata e em larga escala. Apenas Gatsby permanece envolto em uma sombra de mistério nesse clima de grande euforia. Isso faz com que vários boatos sejam espalhados sobre ele como a de que seria um espião alemão, um assassino famoso ou um representante do Kaiser. Nada disso porém se confirma. Intrigado pela curiosidade Nick então resolve conhecer a misteriosa figura. Convidado a uma das festas de Gatsby ele acaba entrando no mundo muito particular do milionário esbanjador e descobre, para sua surpresa, que ele tem especial interesse por sua prima, a doce e mimada Daisy Buchanan (Carey Mulligan), que mora do outro lado da baía. Casada com um herdeiro rico e rude, mal desconfia Nick que ela e Gatsby tem um passado em comum.

Aqui temos a mais nova adaptação para o cinema do famoso livro "O Grande Gatsby" escrito pelo genial F. Scott Fitzgerald. O texto é considerado uma das maiores obras primas da literatura mundial, tendo sido adaptado pelo cinema algumas vezes, sendo a mais conhecida a adaptação feita nos anos 70 com Robert Redford no papel principal. Essa nova incursão no universo de F. Scott Fitzgerald porém se mostra bem decepcionante. O diretor Baz Luhrmann (de "Moulin Rouge", "Austrália" e "Romeu + Julieta") imprime um ritmo um tanto histérico ao enredo, algo que não condiz com as intenções do autor original que sempre se mostrou muito fino, elegante e charmoso ao contar sua estória. E esse é um dos principais problemas dessa nova versão. Falta justamente essa elegância, esse mistério que é tão conhecido dos leitores de F. Scott Fitzgerald. Tentando modernizar o texto para agradar ao público jovem de hoje o cineasta perdeu a própria essência do livro original. Luhrmann tem à sua disposição uma produção luxuosa mas comete pecados em série. Em um deles imprime um ritmo frenético, tolo muitas vezes, para as situações. Também usa e abusa de computação gráfica, o que torna o filme artificial e sem veracidade. Por falar em ambientação histórica o cineasta querendo adotar uma postura moderninha inseriu várias canções atuais no meio do enredo, ignorando a rica música da época em detrimento de canções pop sem qualquer relevância. 

Para piorar o elenco também não está bem. Leonardo DiCaprio imprime ao seu Gatsby uma postura equivocada, onde sai o charme misterioso do personagem original para dar espaço a um inconsequente falastrão. Deu saudades de Robert Redford certamente. Carey Mulligan que sempre considerei uma boa atriz também não conseguiu passar para a tela as nuances psicológicas que movem Daisy. Outra coisa que dá nos nervos é a forma como Baz Luhrmann trata o espectador. Ele se propõe a contar todos os mínimos detalhes da trama em flashbacks desnecessários e bobinhos que nos levam a pensar que ele está convencido que o público que está vendo o filme é na verdade bem idiota para entender a trama. Enfim, temos aqui uma nova versão de Gatsby que ficou pelo meio do caminho, perdido em suas pretensões. Sempre fui da opinião de que se vai adaptar um grande livro para o cinema que o faça direito! Infelizmente não é o caso desse filme.

O Grande Gatsby (The Great Gatsby, Estados Unidos, 2013) Direção: Baz Luhrmann / Roteiro: Baz Luhrmann, Craig Pearce, baseados na obra de F. Scott Fitzgerald / Elenco: Leonardo DiCaprio, Tobey Maguire, Carey Mulligan, Joel Edgerton, Steve Bisley / Sinopse: Jovem aspirante a escritor, Nick (Maguire) acaba ficando fascinado pelo figura de seu vizinho, um milionário de passado misterioso chamado Gatsby (DiCaprio). Após uma aproximação ele acaba descobrindo que o ricaço tem um passado em comum com sua prima, Daisy (Mulligan).

O Lobo de Wall Street
O filme conta a história real de Jordan Belfort ( Leonardo DiCaprio), um vigarista escroque que desejava ficar rico a todo custo. Como conseguir? O mercado de ações logo lhe pareceu o ambiente ideal. Usando de sua lábia de vendedor barato ele começou a negociar ações de empresas do tipo fundo de quintal cobrando por ela pequenas fortunas. Seu alvo eram os aposentados, pessoas mais simples, inocentes, que não conheciam o mercado da bolsa de valores. Em pouco tempo saiu de um escritório de quinta categoria para o ápice em Wall Street, ganhando rios de dinheiro com suas lorotas de mercado. Depois disso vieram as mulheres, as drogas e problemas, muitos problemas decorrentes de seu estilo de vida.

Martin Scorsese gosta de retratar os tipos mais comuns de sua Nova Iorque querida. Depois de ficar anos filmando a história de mafiosos da cidade ele resolveu partir para outro tipo de criminoso, o corretor de bolsa de valores de Wall Street. Para isso comprou os direitos do livro escrito por Belfort que o escreveu enquanto estava atrás das grades cumprindo prisão por inúmeros crimes que cometeu em Wall Street. O interessante é que Scorsese repete certos cacoetes que já havia explorado em filmes como "Cassino" onde colocava sua droga preferida, a cocaína, como símbolo de status e sucesso. O próprio Scorsese foi um viciado inveterado e todas as vezes que resolve lidar com a coca em seus filmes adota um ritmo alucinado, como se ele próprio estivesse cheirado. O filme como um todo é bom, mas tem esse viés narcótico. De qualquer maneira se sobressai novamente o talento de Leonardo DiCaprio, que consegue se sobressair em qualquer tipo de filme. O sujeito é realmente extremamente talentoso.

O Lobo de Wall Street (The Wolf of Wall Street, EUA, 2013) Direção: Martin Scorsese / Roteiro: Terence Winter, baseado no livro de Jordan Belfort / Elenco: Leonardo DiCaprio, Jonah Hill, Margot Robbie / Sinopse: O filme retrata a história de um corretor da bolsa de valores de Nova Iorque que começa a enganar seus clientes para fazer uma fortuna rápida e fácil. Filme indicado ao Oscar nas categorias de Melhor Filme, Melhor Ator (Leonardo DiCaprio), Melhor Ator Coadjuvante (Jonah Hill), Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Direção.

O Regresso
O filme se passa em uma América colonial, praticamente inexplorada pelo homem branco. No velho oeste essas regiões remotas eram exploradas principalmente por caçadores, muitos deles atrás de peles. O problema é que esse era um território dominado por tribos nativas hostis, que, como era de se esperar, recebiam o homem branco da forma mais violenta possível. Leonardo DiCaprio interpreta Hugh Glass, um desses pioneiros que arriscavam a própria vida para explorar o oeste mais selvagem e bravio que você possa imaginar. O roteiro enfoca justamente aspectos da dura vida desses homens nessas lindas, mas mortais regiões. O lado mais romântico dos filmes de western é deixado de lado. A intenção do diretor Alejandro G. Iñárritu foi criar uma obra realista, tanto do ponto de vista histórico, como também humano.

Os nativos são vistos da forma como eram, sem qualquer tipo de revisionismo. Tanto o homem branco que ia para esses lugares, como os indígenas, estavam em uma luta de civilizações. Essa visão politicamente correta que impera nos dias atuais é uma mera visão acadêmica, sem muita ligação com a brutalidade que imperava naqueles tempos. E é esse realismo brutal que marca a maior qualidade desse filme. Além de mostrar a luta entre os homens há também um conflito ainda mais evidente e violento: a luta entre o homem versus a natureza. Essa foi brilhantemente retratada no ataque do urso cinzento contra o personagem de DiCaprio. Poucas vezes uma ataque de uma fera foi tão bem reproduzido nas telas como aqui. Uma cena para não esquecer. Por fim há todos os méritos puramente cinematográficos desse filme. A fotografia é extremamente bem realizada, conseguindo captar toda a beleza da região onde a produção foi realizada. O elenco é dos melhores, não apenas por DiCaprio, em uma atuação extremamente física (que lhe rendeu o tão cobiçado Oscar) como também pelo vilão, em momento inspirado de Tom Hardy (sim, o próprio Mad Max em uma de suas maiores interpretações). O sujeito não tem quaisquer valores morais ou éticos. No ocaso de um mundo que estava prestes a mudar para sempre, o diretor Alejandro G. Iñárritu conseguiu criar mais uma obra prima de sua filmografia.

O Regresso (The Revenant, Estados Unidos, 2015) Direção: Alejandro G. Iñárritu / Roteiro: Mark L. Smith, Alejandro G. Iñárritu / Elenco: Leonardo DiCaprio, Tom Hardy, Will Poulter / Sinopse: Caçador de peles tenta sobreviver em uma região distante e inóspita do velho oeste americano. Para isso ele precisará enfrentar tribos nativas violentas e ataques de feras selvagens.

O Regresso - Texto II
O caçador de peles Hugh Glass (Leonardo DiCaprio) vê seu grupo ser atacado por nativos selvagens em uma região remota do velho oeste. Eles quase não conseguem sair vivos da brutalidade dos indígenas. Precisando encontrar o caminho de volta para sua base ele acaba sendo atacado de forma violenta por um urso cinzento. Praticamente dado como morto, vira alvo do caçador John Fitzgerald (Tom Hardy) que quer deixá-lo para trás. O instinto de sobrevivência de Glass porém falará muito mais alto. "O Regresso" é um filme brutal. Não há outra definição. Também traz a interpretação mais visceral da carreira do ator Leonardo DiCaprio. Praticamente não há quase diálogos para declamar, mas apenas a fúria da luta entre o homem e a natureza. O realismo das cenas impactam desde o começo. É curioso como há um contraste muito presente entre a beleza do lugar onde a estória se passa e a brutalidade inerente da natureza humana entre brancos e nativos. O discurso politicamente correto também não resiste em nenhum momento. A velha ladainha do choque de civilizações não encontra eco nessa batalha pela sobrevivência.

E por falar em sobreviver a qualquer custo a cena mais lembrada da produção (o ataque do urso selvagem contra Glass) resume muito bem a essência desse roteiro. Nesse mundo primitivo não há espaço para o Éden, mas apenas para a guerra em se manter vivo. "The Revenant" assim se revela uma obra prima. O cineasta mexicano Alejandro G. Iñárritu é certamente o diretor mais promissor de sua geração. Confesso que ele nunca havia me impressionado tanto como agora. Não há qualquer dúvida de que "Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)" é uma obra prima do cinema, porém com esse novo filme ele alcançou um novo pico em sua filmografia, algo que poucos esperavam. Certa vez o lendário xerife Wyatt Earp foi perguntado sobre o que achava dos filmes de western que estavam sendo lançados no cinema. Ele disse que o velho oeste americano era muito mais brutal do que aquilo que se via nas telas. Provavelmente se tivesse tido a oportunidade de assistir "O Regresso" o velho homem da lei teria se sentido muito mais familiarizado. O filme é isso, um retrato extremamente bem feito de um tempo onde apenas os mais fortes conseguiam sobreviver. É brutal, mas também é maravilhoso em todos os aspectos.

O Regresso (The Revenant, Estados Unidos, 2015) Direção: Alejandro G. Iñárritu / Roteiro: Mark L. Smith, Alejandro G. Iñárritu / Elenco: Leonardo DiCaprio, Tom Hardy, Will Poulter, Domhnall Gleeson, Forrest Goodluck, Paul Anderson / Sinopse: Hugh Glass (Leonardo DiCaprio) é um caçador que se vê diante de uma realidade brutal, não apenas por causa do clima hostil onde está, como também pela natureza perversa e cruel dos homens. Apesar de ter tudo contra si ele lutará até o fim pela sua sobrevivência, custe o que custar. Filme vencedor do Oscar nas categorias de Melhor Ator (Leonardo DiCaprio), Melhor Fotografia (Emmanuel Lubezki) e Melhor Direção (Alejandro G. Iñárritu). Também vencedor do Globo de Ouro nas categorias de Melhor Ator - Drama (Leonardo DiCaprio) e Melhor Direção - Drama (Alejandro G. Iñárritu).

Pablo Aluísio.

sábado, 3 de janeiro de 2026

Nascido Para Matar

Nascido Para Matar
Não é uma unanimidade, nem entre os admiradores de Kubrick, um dos grandes mestres do cinema. Entretanto é inegável que foi um dos filmes que captaram com mais exatidão a insanidade e a loucura do militarismo. O roteiro dividiu o filme em dois grandes atos bem separados. Nem é preciso entender de cinema para compreender bem isso. No primeiro ato vemos um grupo de jovens sendo treinados. Como a guerra do Vietnã estava a todo vapor fica bem claro que eles serão levados para o front no sudeste asiático. Um dos recrutas logo vira alvo, saco de pancada, de seu sargento. É um sujeito mais gordinho, desajeitado. Tanto mexem com seu psicológico que ele logo surta e tudo termina em tragédia. 

Depois do impacto da cena que encerra a primeira parte do filme os soldados são finalmente enviados para o Vietnã. E aí o filme ganha uma surpreendente carga emocional e psicológica, se tornando mais cadenciado, mais sensorial. E o momento final acontece quando os americanos enfrentam uma atiradora de elite escondida nos escombros da guerra. Enfim, um grande filme de guerra, o que não quer dizer que seja para todos os tipos de públicos. Tão visceral é que se torna um filme realmente para poucos. Em minha opinião foi mais uma prova da genialidade de Stanley Kubrick e os gênios, como bem sabemos, nem sempre são bem compreendidos.

Nascido Para Matar (Full Metal Jacket, Estados Unidos, 1987) Direção: Stanley Kubrick / Roteiro: Stanley Kubrick, Michael Herr, Gustav Hasford / Elenco: Matthew Modine, R. Lee Ermey, Vincent D'Onofrio / Sinopse: A loucura e a insanidade da guerra do Vietnã impactando a vida de jovens americanos enviados para o campo de batalha. Filme indicado ao Oscar na categoria de melhor roteiro adaptado.

Pablo Aluísio.


Em Cartaz: Nascido Para Matar
O filme Nascido para Matar estreou em junho de 1987, dirigido por Stanley Kubrick, e rapidamente se impôs como uma das obras mais discutidas sobre a Guerra do Vietnã. Dividido em partes bem distintas — o treinamento brutal de recrutas fuzileiros navais e a experiência no campo de batalha — o longa apostava em um olhar frio, distanciado e profundamente crítico sobre a desumanização provocada pela guerra. O lançamento foi cercado de expectativa, já que Kubrick não dirigia um filme desde O Iluminado (1980) e era conhecido por seu rigor formal e controle absoluto sobre suas produções.

Em termos de bilheteria, o filme obteve um resultado sólido, embora não explosivo. Produzido com um orçamento estimado em cerca de US$ 17 milhões, arrecadou aproximadamente US$ 120 milhões em todo o mundo, desempenho expressivo para um drama de guerra com abordagem dura e nada sentimental. Nos Estados Unidos, o filme atraiu grande público nas primeiras semanas, impulsionado tanto pela reputação de Kubrick quanto pelo debate gerado por seu conteúdo provocador.

A reação da crítica na época foi majoritariamente positiva, ainda que marcada por controvérsias. O jornal The New York Times escreveu que o filme era “um retrato feroz e implacável da mentalidade militar”, destacando a primeira metade como especialmente poderosa. Já a revista Time afirmou que Kubrick havia criado “um dos filmes de guerra mais perturbadores já feitos, justamente por evitar qualquer forma de heroísmo”, ressaltando o tom clínico e analítico da direção.

Alguns críticos, no entanto, mostraram reservas quanto à estrutura do filme. Roger Ebert, do Chicago Sun-Times, observou que “a segunda metade não atinge a mesma intensidade devastadora da primeira”, embora tenha elogiado a ousadia do projeto como um todo. Em contraste, o Los Angeles Times afirmou que Nascido para Matar era “um filme que não oferece conforto ao espectador — apenas confrontação”, vendo essa característica como um de seus maiores méritos artísticos.

Com o passar dos anos, Nascido para Matar consolidou-se como um clássico do cinema de guerra, frequentemente citado ao lado de Platoon e Apocalypse Now. As críticas publicadas em 1987 já indicavam que o filme não buscava consenso fácil, mas sim provocar reflexão e desconforto. Hoje, ele é lembrado como uma obra essencial de Stanley Kubrick, cuja recepção inicial — marcada por elogios, debates e frases contundentes na imprensa — antecipou seu lugar duradouro na história do cinema.

Nascido em 4 de Julho

Nascido em 4 de Julho
Outro excelente drama de guerra que foi lançado nesse ciclo de filmes sobre a intervenção americana no Vietnã foi esse "Born on the Fourth of July" (Nascido em 4 de Julho, no Brasil). Dirigido também por Oliver Stone esse filme procurava dar voz para os milhares de veteranos que voltaram da guerra com problemas físicos e psicológicos, o que de certa maneira acabou destruindo o resto de suas vidas. O roteiro foi baseado na história real do soldado Ron Kovic. Quando a guerra do Vietnã se tornou um fato consumado, Kovic, empedernido por um sentimento patriótico, resolveu se alistar no exército americano. 

Ele era jovem, promissor, tinha uma bela vida pela frente. Mesmo assim resolveu assumir os riscos em nome da bandeira de seu país. O destino porém lhe reservava um momento trágico. Durante uma operação ele foi atingido por um tiro que lhe custaria os movimentos de suas pernas para sempre. Paralítico, teve que encarar a volta para os Estados Unidos. Inicialmente foi recebido como um herói de guerra, mas o tempo pode ser cruel nesse tipo de situação. Abandonado pela garota que ele considerava o grande amor de sua vida (pois são poucas que aceitam o desafio de enfrentar uma situação como essa), o que antes era orgulho começou a virar desespero.

Seguramente esse filme explora um dos aspectos mais tristes na vida de um veterano que retorna ao lar aleijado. Ele que era um atleta, que tinha um verdadeiro sonho americano pela frente, acaba encontrando apenas um futuro sombrio, um verdadeiro pesadelo. Depois que a ficha cai o que sobra é o alcoolismo, a desilusão e em muitos casos até mesmo o suicídio, pois muitos desses jovens não suportam o peso que agora precisam carregar pelo resto de suas vidas. O diferencial de Ron Kovic foi que ele resolveu adotar uma postura ativa e militante, transformando sua vida numa eterna busca pelo fim de guerras injustificadas como foi a Guerra do Vietnã. Ele acabou assim se tornando um dos mais conhecidos pacifistas veteranos, sempre na mídia denunciando tudo o que estava acontecendo. 

Já indo para o campo puramente cinematográfico temos aqui aquela que talvez seja a melhor atuação da carreira de Tom Cruise. Ele deixou o estigma de galã de lado para interpretar Kovic com uma dedicação fora dos padrões. Por essa época Cruise ainda lutava para ser reconhecido pela academia, procurando ganhar seu próprio Oscar, algo que até agora não aconteceu. Indicado três vezes ao prêmio (sendo uma delas por esse filme), Cruise foi deixando o cinema mais artístico de lado para se esbaldar em filmes puramente comerciais como "Missão Impossível". Pena, acredito que ele teria sido premiado mais cedo ou mais tarde se continuasse a investir em produções como essa.

Pablo Aluísio.


Em Cartaz: Nascido em 4 de Julho
O drama Nascido em 4 de Julho estreou nos cinemas em dezembro de 1989, dirigido por Oliver Stone e estrelado por Tom Cruise, em uma das performances mais marcantes de sua carreira. Baseado na autobiografia de Ron Kovic, o filme acompanha a trajetória de um jovem patriota americano que se alista para lutar na Guerra do Vietnã e retorna para casa paraplégico, profundamente desiludido com o governo e com os ideais que antes defendia. O lançamento foi cercado de expectativa, tanto pelo tema político sensível quanto pela transformação de Cruise, até então mais associado a papéis comerciais, em um personagem denso e trágico.

Em termos de bilheteria, o filme foi um grande sucesso comercial e crítico. Com um orçamento estimado em cerca de US$ 18 milhões, arrecadou aproximadamente US$ 161 milhões em todo o mundo, sendo mais de US$ 70 milhões apenas nos Estados Unidos. O desempenho consolidou o filme como um dos dramas mais rentáveis de 1989 e reforçou o prestígio de Oliver Stone como um dos principais cineastas políticos de Hollywood naquele período.

A recepção da crítica foi amplamente positiva no momento do lançamento. O jornal The New York Times escreveu que o filme era “furioso, eloquente e profundamente perturbador”, destacando a forma direta com que Oliver Stone expunha as feridas abertas da guerra do Vietnã. Já a revista Time descreveu a obra como “um épico emocionalmente devastador, contado com raiva, compaixão e urgência moral”, ressaltando o impacto político e humano da narrativa.

Grande parte dos elogios concentrou-se na atuação de Tom Cruise. O Los Angeles Times afirmou que o ator entregava “a melhor e mais arriscada interpretação de sua carreira”, enquanto o Chicago Sun-Times, em crítica assinada por Roger Ebert, declarou que Cruise “desaparece completamente no papel de Ron Kovic, guiando o espectador por uma jornada de dor, revolta e amadurecimento político”. Essas avaliações ajudaram a mudar a percepção crítica sobre o ator, até então visto como um astro essencialmente comercial.

No circuito de prêmios, Nascido em 4 de Julho confirmou sua força: venceu dois Oscars (Melhor Diretor e Melhor Montagem) e recebeu oito indicações, incluindo Melhor Filme e Melhor Ator para Tom Cruise. Com o passar dos anos, o filme consolidou-se como um dos retratos mais contundentes da Guerra do Vietnã já produzidos pelo cinema americano. As frases publicadas nos jornais e revistas de 1989 deixam claro que, desde seu lançamento, a obra foi reconhecida não apenas como um drama poderoso, mas como um manifesto cinematográfico sobre patriotismo, trauma e desilusão.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

Águas Profundas

Águas Profundas
Achei bem interessante esse filme, principalmente por apresentar uma ideia até mesmo parecida com o clássico da literatura brasileira, Dom Casmurro, de Machado de Assis. Essa linha mais psicológica, envolvendo um homem que tem muitos ciúmes de sua bela esposa. Ela inclusive apresenta um comportamento muito suspeito. O marido por outro lado fica sempre com um pé atrás na dúvida crucial sobre ela estar lhe traindo ou não nesse casamento conturbado. E esse tipo de situação, não se engane sobre isso, é bem mais comum do que se pode pensar na vida cotidiana de casais. 

O protagonista é um bom marido, um daqueles sujeitos sem máculas em seu comportamento pessoal. Já a esposa, além de ser linda, é bem desiniba. Em festas costuma flertar abertamente com outros homens, um comportamento tão fora dos padrões que todos ficam constrangidos, até mesmo os casais amigos de seu marido. Só que ele, por outro lado, não tem a prova definitiva dessa traição. Então começa um jogo até mesmo sádico envolvendo esse casal. Um marido ciumento e uma esposa atrevida, desinibida, ousada e sensual, uma combinação que geralmente não costuma dar muito certo. Há traição ou não há traição nesse relacionamento? Assista ao filme e tire suas próprias conclusões. 

Águas Profundas (Deep Water, Estados Unidos, 2022) Direção: Adrian Lyne / Roteiro: Zach Helm, Sam Levinson, Patricia Highsmith / Elenco: Ben Affleck, Ana de Armas, Tracy Letts / Sinopse: Marido ciumento sofre com o comportamento fora dos padrões de sua esposa. E a situação só piora quando ele passa a ser suspeito do desaparecimento desses supostos amantes dela. 

Pablo Aluísio.


Em Cartaz: Águas Profundas
O thriller psicológico Águas Profundas foi lançado em março de 2022, dirigido por Adrian Lyne, cineasta conhecido por clássicos do suspense adulto como Atração Fatal e Proposta Indecente. Estrelado por Ben Affleck e Ana de Armas, o filme é uma adaptação do romance homônimo de Patricia Highsmith e marcou o retorno de Lyne ao cinema após quase duas décadas. Diferentemente do lançamento tradicional nos cinemas, o longa teve estreia direta no streaming, pela plataforma Hulu nos Estados Unidos e Prime Video em outros mercados, decisão que já indicava expectativas cautelosas quanto à sua recepção.

Por ter sido lançado majoritariamente em streaming, Águas Profundas não teve números oficiais de bilheteria cinematográfica divulgados. Ainda assim, o filme alcançou ampla visibilidade nas semanas seguintes à estreia, impulsionado tanto pela curiosidade em torno do casal protagonista — que vivia um relacionamento fora das telas naquele período — quanto pela reputação do diretor. Relatórios da imprensa especializada apontaram que o longa figurou entre os títulos mais assistidos da plataforma em seus primeiros dias, embora sem dados públicos detalhados de audiência.

A reação da crítica foi majoritariamente negativa, com muitos jornalistas apontando problemas de tom e coerência narrativa. O The New York Times descreveu o filme como “um suspense estranhamente inerte, que nunca encontra o ritmo ou a tensão que promete”, enquanto a revista Variety afirmou que “nem mesmo o pedigree de Adrian Lyne consegue dar unidade a uma história que oscila entre o drama conjugal e o thriller criminal”. Essas avaliações refletiram uma frustração generalizada com o potencial não realizado da obra.

Outros críticos foram ainda mais duros. O The Guardian classificou o filme como “um retorno decepcionante de Adrian Lyne, carregado de ideias antiquadas sobre desejo e poder”, sugerindo que o estilo do diretor parecia deslocado no contexto contemporâneo. Já a Rolling Stone escreveu que Águas Profundas era “mais curioso do que envolvente, um filme que se assiste com perplexidade em vez de suspense”, destacando a falta de tensão emocional apesar do material de origem prestigioso.

Com o passar do tempo, Águas Profundas passou a ser visto como uma obra controversa e irregular, mais comentada por seu contexto de produção e pelas atuações de Affleck e Ana de Armas do que por suas qualidades cinematográficas. Assim como muitos thrillers eróticos clássicos, o filme encontrou um público curioso, apesar da rejeição crítica inicial. As frases publicadas pela imprensa em 2022 deixaram claro que, para a maioria dos críticos, o retorno de Adrian Lyne não conseguiu recuperar plenamente o impacto e a ousadia que marcaram seus filmes mais célebres.

O Garoto da Casa ao Lado

Título no Brasil: O Garoto da Casa ao Lado
Título Original: The Boy Next Door
Ano de Produção: 2015
País: Estados Unidos
Estúdio: Universal Pictures
Direção: Rob Cohen
Roteiro: Barbara Curry
Elenco: Jennifer Lopez, Ryan Guzman, Kristin Chenoweth
  
Sinopse:
Claire Peterson (Jennifer Lopez) é um professora de ensino médio que precisa lidar com o fim de seu casamento. Após a traição do marido ela deseja se divorciar dele. Com um filho adolescente e vários problemas pessoais ela comete o erro fatal de se envolver com o jovem que acaba de se mudar para a casa ao lado. Noah Sandborn (Ryan Guzman) se mudou recentemente para a casa vizinha para ajudar seu tio-avô que está passando por problemas de saúde. O que começa como um flerte casual acaba saindo do controle ao Claire perceber que o jovem tem sérios problemas psicológicos, o que dá origem a uma obsessão perigosa por parte dele.

Comentários:
Filme bem fraco estrelado pela atriz e celebridade Jennifer Lopez. Pelo visto sua carreira entrou em uma curva descendente, acumulando fracassos comerciais e filmes sem repercussão ou importância. Esse aqui tem um roteiro rasteiro, cheio de clichês batidos. Basicamente se trata de uma professora mais velha que acaba se envolvendo com um garotão que não demora a demonstrar ter sérios problemas mentais, se tornando obsessivo e um homicida em potencial depois que ela o rejeita após uma noite de sexo casual. O viés moralista é mal conduzido e leva a uma série de cenas sem originalidade alguma. Para tentar salvar a fita do desastre completo o roteiro procura explorar de forma apelativa a imagem de símbolo sexual da atriz Jennifer Lopez a colocando em uma cena que supostamente deveria elevar o clima de sensualidade do filme. Não consegue. A cena é convencional, rápida e não passa erotismo algum. Depois que o jovem começa a agir feito um louco após ela o dispensar discretamente a fita desanda de vez. Ele a chantageia, dizendo que vai revelar seu caso amoroso no colégio onde ela ensina (e onde ele também é aluno), além de começar a ir em sua casa para visitas completamente constrangedoras. Em pouco tempo o comportamento inconveniente se transforma em ameaças veladas. Se tornando amigo de seu filho o sujeito também começa a usar o adolescente para jogá-lo contra sua própria mãe. Quando a situação fica completamente insuportável começam os atos de violência que acabam dando origem a uma cena particularmente trash quando ela enfia o dedo em seu olho, o mesmo onde momento antes afundou uma seringa imensa! Enfim, chega! É muita besteira para um thriller que se propunha a ser mais interessante. Do jeito que ficou, tudo o que conseguiu mesmo foi se tornar uma grande perda de tempo!

Pablo Aluísio.


Em Cartaz: O Garoto da Casa ao Lado
O suspense erótico O Garoto da Casa ao Lado estreou nos cinemas em janeiro de 2015, dirigido por Rob Cohen e estrelado por Jennifer Lopez, ao lado de Ryan Guzman. O filme marcou o retorno de Lopez ao gênero do thriller psicológico, interpretando uma professora divorciada que se envolve com um jovem misterioso que acaba se revelando obsessivo e perigoso. Lançado com forte apelo comercial, o longa apostava em uma narrativa direta e provocativa, remetendo a thrillers dos anos 1990 como Atração Fatal e Mão que Balança o Berço.

Apesar do baixo orçamento, estimado em cerca de US$ 4 milhões, o filme obteve um expressivo sucesso de bilheteria. Mundialmente, arrecadou aproximadamente US$ 52 milhões, sendo cerca de US$ 35 milhões apenas nos Estados Unidos, um resultado considerado excelente para uma produção desse porte. O bom desempenho confirmou a força de Jennifer Lopez como estrela capaz de atrair público, mesmo em projetos criticamente desacreditados, e transformou o longa em um lucro rápido para o estúdio.

A reação da crítica, no entanto, foi majoritariamente negativa. Muitos jornalistas apontaram o roteiro previsível e os diálogos artificiais como os principais problemas. O jornal The New York Times descreveu o filme como “um thriller antiquado que parece preso a clichês de décadas passadas”, observando que a história se desenvolvia de forma mecânica e sem surpresas reais. Já o The Guardian afirmou que o longa era “absurdo, implausível e involuntariamente cômico”, ainda que reconhecesse seu potencial como entretenimento descartável.

Críticos americanos foram ainda mais severos. RogerEbert.com publicou que O Garoto da Casa ao Lado era “um exercício de mau gosto que confunde tensão com exagero”, enquanto a Variety escreveu que o filme “funciona apenas porque Jennifer Lopez leva o material a sério, mesmo quando o roteiro não merece”. Essas avaliações refletiram uma percepção comum na imprensa de que o filme dependia quase exclusivamente da presença da atriz para sustentar sua narrativa.

Com o passar do tempo, O Garoto da Casa ao Lado passou a ser lembrado como um exemplo clássico de filme mal avaliado pela crítica, mas bem-sucedido junto ao público. Embora os jornais da época tenham publicado frases duras e avaliações negativas, o desempenho financeiro mostrou que havia espaço para esse tipo de thriller direto e sensacionalista no mercado. Hoje, o filme é frequentemente citado como um “prazer culposo” do gênero, mais lembrado por seu impacto comercial do que por qualquer reconhecimento artístico.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

O Último Amor de Casanova

Título no Brasil: O Último Amor de Casanova
Título Original: Dernier amour 
Ano de Lançamento: 2019
País: França
Estúdio: Les Films du Lendemain
Direção: Benoît Jacquot
Roteiro: Benoît Jacquot, Jérôme Beaujour
Elenco: Vincent Lindon, Stacy Martin, Valeria Golino, Clotilde Mollet, Lolita Chammah, Julia Roy

Sinopse:
Exilado em Londres após fugir de Veneza, Giacomo Casanova, agora envelhecido e consciente do declínio de seu poder de sedução, vive atormentado pela nostalgia de sua juventude libertina. Ao conhecer Marianne de Charpillon, uma jovem cortesã independente e imprevisível, Casanova se vê dominado por uma paixão avassaladora. Diferente das mulheres que conquistou ao longo da vida, Marianne resiste aos seus jogos de sedução, transformando o lendário amante em prisioneiro do próprio desejo. O encontro marca o que pode ser seu último e mais doloroso amor.

Comentários: 
Esperava por algo melhor. E isso é algo a se lamentar pois o roteiro foi inspirado na própria obra autobiográfica de Casanova que, em sua velhice, decidiu contar sua história de próprio punho. Aqui o foco vai para a estadia que Casanova teve na Inglaterra, sendo mais preciso, em Londres. Ele não gostava dos ingleses de um modo em geral, mas isso não significava que deixaria de se envolver com belas mulheres que fosse encontrando por onde passava. Acaba se apaixonando por Marianne de Charpillon, mas essa vai ser mais uma daquelas histórias de amor que parecem nunca dar certo, seja por sua própria culpa, seja por desvios de seu objeto de desejo. De qualquer maneira ela representava, já naqueles tempos, um tipo de mulher que procurava por sua própria independência e autonomia. Em uma época tão remota não deixava de ser algo a se elogiar. 

Pablo Aluísio. 

Em Cartaz: O Último Amor de Casanova
O drama histórico O Último Amor de Casanova (Casanova, Last Love, Dernier amour no título original) foi lançado em 2019, dirigido pelo cineasta francês Benoît Jacquot e estrelado por Vincent Lindon no papel de Giacomo Casanova, com Stacy Martin como sua grande paixão, Marianne de Charpillon. O filme foca em uma das fases tardias da vida do lendário sedutor veneziano, quando ele vive exilado em Londres e, segundo sua própria narrativa, encontra pela primeira vez um amor que desafia sua vida boêmia de conquistas. A produção teve lançamento em festivais e circulação em cinemas europeus, destacando-se por um olhar íntimo e menos espetacular sobre a figura histórica. 

Em termos de bilheteria, O Último Amor de Casanova não se destacou comercialmente. Os dados públicos indicam que o filme arrecadou cerca de US$ 558 717 em todo o mundo, com apenas uma parcela mínima nos Estados Unidos (aproximadamente US$ 10 924), refletindo uma distribuição limitada e um apelo restrito ao público em geral. Esse desempenho modesto é típico de dramas artísticos independentes que não contam com grandes campanhas de marketing, apesar do envolvimento de nomes reconhecidos no cinema europeu. 

A reação da crítica especializada foi mista a negativa. No agregador Rotten Tomatoes, o filme obteve apenas 42 % no Tomatometer, sinalizando críticas divididas e muitas vezes desfavoráveis. Diversos críticos destacaram a falta de profundidade emocional e de paixão na narrativa, mesmo diante de cenários e figurinos historicamente ricos — observações que ressaltaram o contraste entre a promessa romântica do título e a execução cinematográfica. 

Algumas das frases publicadas por críticos na época traduzem bem essa recepção: um comentário do Los Angeles Times descreveu _“Casanova, Last Love,” que examina a infatuation do sedutor do século XVIII, como “um retrato monótono e pouco envolvente que, apesar de cenários e figurinos sumptuosos, nunca decola” — descrevendo um sentimento geral de desapontamento com a falta de envolvimento emocional da obra. Outra crítica observou que, apesar da intenção de “questionar nossas suposições sobre figuras como Casanova,” o filme muitas vezes “deixa o espectador sem entender exatamente o que se pretende dizer com tudo isso”. 

Por fim, embora não tenha alcançado sucesso comercial ou aclamação crítica expressiva, O Último Amor de Casanova tem sido visto como uma abordagem diferente sobre um personagem histórico já muito representado no cinema e na literatura — privilegiando o drama íntimo sobre as aventuras externas. A obra atraiu atenção em circuitos de cinema europeu e festivais, sobretudo pela performance de Lindon e pela tentativa de explorar um casanova mais vulnerável, ainda que muitos críticos considerassem essa visão cinematográfica menos impactante do que a lenda que inspirou o filme. 

Casanova

Casanova
Sinceramente falando não consegui gostar da proposta desse filme "Casanova". Como o próprio título já deixa claro, o roteiro mostra aspectos da vida do famoso conquistador Giacomo Casanova (1725 - 1798), lendário amante italiano que se tornou imortal por causa da extensa bibliografia que foi escrita sobre sua vida ao longo de anos e anos. O problema básico dessa nova versão foi a sempre lamentável tentativa de se mudar um homem que viveu no século XVIII para os valores atuais. Essa modernização acabou descaracterizando todo o personagem. Não que o ator Heath Ledger não fosse talentoso, muito longe disso, apenas não era o papel adequado a ele naquele momento de sua carreira. Ledger não se adaptou bem, não demonstrando ter qualquer tipo de ligação com os modos e a forma de ser de uma pessoa que viveu naquela época.

Ao invés disso passa a sensação constrangedora de que é apenas um australiano do século XX vestindo roupas de época, como se fossem meras fantasias, enquanto tenta criar algum processo de identificação com sua pífia atuação. Pior é o uso inadequado de uma direção de arte bonita, mas imprópria para os objetivos do filme. Assim acabaram matando o próprio legado de Casanova, um sujeito amoral e dado a conquistas vazias, tudo para satisfazer seu ego faminto. Nesse roteiro o lado mau caráter de Giacomo foi varrido para debaixo do tapete, surgindo no lugar um dândi romântico bonzinho, tipicamente de romances do século XIX, algo que o verdadeiro Casanova jamais foi. Erraram tudo por um século de diferença! Em suma, misturaram escolas literárias e épocas diversas, confundindo a essência de personagens de obras da literatura bem diferentes entre si. Diante de tantos erros o filme realmente não teve salvação.

Casanova (Casanova, Estados Unidos, 2005) Direção: Lasse Hallström / Roteiro: Jeffrey Hatcher, Kimberly Simi / Elenco: Heath Ledger, Sienna Miller, Jeremy Irons, Lena Olin / Sinopse: O filme conta a história do conquistador Casanova, mas sob um viés moderno e progressista.

Pablo Aluísio.


Em Cartaz: Casanova (2005)
O filme Casanova estreou nos cinemas em dezembro de 2005, dirigido por Lasse Hallström e estrelado por Heath Ledger no papel do lendário sedutor veneziano Giacomo Casanova. Produzido como uma comédia romântica de época, o longa apostou em um tom leve e fantasioso, distanciando-se das versões mais sombrias ou historicamente rigorosas do personagem. Ambientado em uma Veneza idealizada do século XVIII, o filme apresentava Casanova como um amante irreverente que, pela primeira vez, se vê emocionalmente desarmado ao se apaixonar por uma mulher que desafia sua fama e seus métodos.

Em termos de bilheteria, Casanova teve um desempenho modesto, aquém das expectativas iniciais. Com um orçamento estimado em cerca de US$ 50 milhões, o filme arrecadou aproximadamente US$ 37 milhões mundialmente, sendo pouco mais de US$ 11 milhões nos Estados Unidos. O resultado foi considerado decepcionante para um projeto de grande estúdio e elenco conhecido, indicando que o público não respondeu com entusiasmo à mistura de romance clássico e comédia moderna proposta pelo diretor.

A recepção crítica na época do lançamento foi predominantemente negativa ou morna. Muitos críticos apontaram o tom excessivamente leve e a falta de profundidade dramática como fragilidades do filme. O jornal The New York Times observou que o longa era “bonito de se olhar, mas dramaticamente vazio”, acrescentando que a narrativa parecia mais preocupada em ser charmosa do que em desenvolver seus personagens de forma consistente. Já o The Guardian descreveu o filme como “uma fantasia romântica polida demais para ser provocante”, sugerindo que o espírito transgressor de Casanova havia sido domesticado para agradar ao grande público.

Outros críticos foram ainda mais diretos. Roger Ebert, escrevendo no Chicago Sun-Times, afirmou que “o filme trata Casanova como uma marca, não como um personagem”, destacando que a performance de Heath Ledger, embora carismática, era limitada por um roteiro previsível. Em diversos jornais americanos, surgiram comentários semelhantes, classificando o longa como “agradável, porém esquecível”, e ressaltando que a obra parecia indecisa entre uma sátira romântica e um drama histórico, sem se comprometer totalmente com nenhum dos dois caminhos.

Com o passar dos anos, Casanova (2005) passou a ser lembrado mais como uma curiosidade na filmografia de Heath Ledger do que como uma adaptação definitiva do personagem histórico. Apesar das críticas e do desempenho fraco nas bilheterias, alguns espectadores passaram a apreciar o filme por seu visual elegante, figurinos elaborados e trilha sonora delicada. Ainda assim, as reações da imprensa no ano de seu lançamento deixaram claro que, para muitos críticos, o filme oferecia charme superficial, mas carecia da ousadia e complexidade que tornaram Casanova uma figura lendária na história e na literatura.