segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Brazil - O Filme

Título no Brasil: Brazil - O Filme
Título Original: Brazil
Ano de Lançamento: 1985
País: Reino Unido / Estados Unidos
Direção: Terry Gilliam
Roteiro: Terry Gilliam, Tom Stoppard e Charles McKeown
Elenco: Jonathan Pryce, Robert De Niro, Kim Greist, Katherine Helmond, Ian Holm, Bob Hoskins, Michael Palin, Peter Vaughan e Jim Broadbent.
Duração: 132 minutos na versão americana de Gilliam; existem versões mais longas.
Gênero: Ficção científica, sátira, comédia negra e distopia.

Sinopse:
Brazil apresenta um futuro distópico dominado por uma gigantesca burocracia estatal, no qual praticamente todos os aspectos da vida cotidiana são controlados por formulários, departamentos, computadores antiquados e funcionários que seguem regras absurdas. Nesse mundo vive Sam Lowry, interpretado por Jonathan Pryce, um funcionário público de baixo escalão que passa seus dias trabalhando em um ambiente opressivo e impessoal. Sam sonha frequentemente com uma mulher misteriosa que aparece em suas fantasias como uma espécie de figura angelical. Sua existência aparentemente insignificante muda quando um erro burocrático faz com que o governo confunda um homem inocente com um terrorista. Ao tentar corrigir o problema, Sam descobre que a mulher de seus sonhos, Jill Layton, existe na realidade. A partir desse momento, ele se envolve em uma conspiração cada vez mais perigosa e passa a ser perseguido pelo próprio sistema que deveria servir. Ao mesmo tempo, surge Archibald "Harry" Tuttle, interpretado por Robert De Niro, um técnico rebelde que trabalha clandestinamente contra a burocracia. Misturando pesadelo e realidade, Terry Gilliam constrói uma sociedade grotesca na qual tecnologia e burocracia não produzem eficiência, mas confusão, vigilância e opressão. O filme utiliza humor absurdo, cenários gigantescos e imagens surrealistas para discutir autoritarismo, conformismo, alienação e a destruição da individualidade.

Comentários:
Desde seu lançamento, Brazil provocou uma reação extraordinariamente forte da crítica americana, principalmente por sua originalidade visual e por sua sátira política. A Los Angeles Film Critics Association escolheu a produção como Melhor Filme de 1985, além de premiar Terry Gilliam como melhor diretor e o roteiro como melhor do ano. A The New York Times, através de Janet Maslin, foi igualmente entusiasmada e classificou o filme como uma realização notável, destacando a combinação entre o impulso satírico de Gilliam e seu extraordinário estilo visual. A crítica da publicação chamou atenção para a arquitetura opressiva, os cenários gigantescos e os pequenos detalhes absurdos espalhados por praticamente cada cena. A Los Angeles Times, em uma crítica de Sheila Benson, foi ainda mais enfática ao descrever Brazil como uma visão "brilhante, exaustiva e ferozmente engraçada" de um futuro pós-orwelliano. Benson observou que Gilliam transformava em alvo praticamente tudo que considerava ameaçador na sociedade moderna: tecnologia, burocratas, publicidade, terrorismo, cirurgias plásticas e uma obsessão doentia por regras e procedimentos. Antes mesmo de sua estreia comercial nos Estados Unidos, o filme já despertava enorme entusiasmo entre críticos americanos. O Los Angeles Times registrou comentários extremamente favoráveis de jornalistas como Judith Crist, que o considerou "fascinante" e "perspicaz", enquanto Bruce Williamson, da Playboy, classificou-o como "brilhante e original". O próprio conflito entre Gilliam e a Universal acabou ampliando a reputação do filme, pois críticos passaram a defender publicamente a versão do diretor contra as tentativas do estúdio de torná-la mais convencional.

A batalha pela montagem americana tornou-se parte inseparável da história de Brazil. Sidney Sheinberg, então chefe da Universal, considerava o filme longo, confuso e comercialmente difícil, e pretendia alterar sua estrutura e seu final. Gilliam recusou-se a aceitar as mudanças, iniciando uma das mais famosas disputas entre diretor e estúdio da história de Hollywood. A situação chegou ao ponto de a Los Angeles Film Critics Association premiar Brazil como melhor filme antes mesmo de seu lançamento comercial americano, fortalecendo a posição de Gilliam na disputa. O filme acabou recebendo duas indicações ao Oscar, por Melhor Roteiro Original e Melhor Direção de Arte, embora não tenha vencido. Também ganhou dois BAFTAs, incluindo Melhor Design de Produção e Melhores Efeitos Visuais. Comercialmente, entretanto, não foi um grande sucesso nos Estados Unidos, arrecadando cerca de US$ 9,9 milhões diante de um orçamento aproximado de US$ 15 milhões. Com o passar das décadas, sua reputação cresceu enormemente. Uma crítica da Los Angeles Times publicada em 1992, por ocasião da exibição da versão mais longa de Gilliam, afirmou que o filme permanecia "um nocaute" e considerou que sua visão havia se tornado ainda mais poderosa. Quarenta anos depois, o próprio Los Angeles Times voltou a analisar a obra e a chamou de "obra-prima visionária", ressaltando como sua representação de uma sociedade burocrática e autoritária continua assustadoramente atual. Hoje, Brazil é considerado um dos grandes clássicos da ficção científica e da sátira política, uma obra cuja influência ultrapassou o cinema para alcançar a cultura visual, a arquitetura, a publicidade e a própria maneira como a burocracia e os sistemas autoritários são representados na cultura popular.

Christian de Bella. 

domingo, 30 de agosto de 2026

The Beatles - Across The Universe

The Beatles - Across The Universe
Música: Across the Universe
Artista: The Beatles
Álbum: No One’s Gonna Change Our World (primeiro lançamento comercial); posteriormente Let It Be
Selo: Regal Starline (primeiro lançamento); Apple Records (álbum Let It Be)
Produtor: George Martin; Phil Spector (versão de Let It Be)
Músicos: John Lennon (vocais, violão acústico); Paul McCartney (vocais de apoio); George Harrison (vocais de apoio, maracas); Ringo Starr (não participa da gravação original); David Crosby (não participa da gravação); Heather (voz); Terry Doran (voz); Jackie Lomax (voz); Tony Bramwell (voz)
Data de gravação: 4 e 8 de fevereiro de 1968; overdubs adicionais em janeiro de 1970
Data de Lançamento: 12 de dezembro de 1969, no álbum No One’s Gonna Change Our World; 8 de maio de 1970, no álbum Let It Be

Comentários:
“Across the Universe” foi composta por John Lennon em um momento de profunda transformação artística dos Beatles, no final de 1967 e início de 1968. A inspiração surgiu de uma frase que Lennon ouviu durante uma discussão com sua então esposa, Cynthia, e que acabou ficando repetidamente em sua mente até transformar-se no verso “words are flowing out like endless rain into a paper cup”. A partir dessa experiência cotidiana, Lennon desenvolveu uma composição de caráter quase meditativo, na qual imagens de palavras, pensamentos, pessoas e acontecimentos parecem atravessar o universo sem destino definido. A música também reflete o crescente interesse de Lennon por espiritualidade, filosofia e estados de consciência, tendências que se tornariam cada vez mais importantes na produção dos Beatles. O próprio título expressa essa sensação de movimento infinito e de conexão entre o indivíduo e algo muito maior do que ele próprio. Musicalmente, a composição é marcada por uma melodia contemplativa, acordes relativamente simples e uma atmosfera quase hipnótica, bastante diferente do pop convencional que havia caracterizado os primeiros anos do grupo. Lennon posteriormente considerou a música uma de suas melhores composições, embora tenha demonstrado insatisfação com algumas das versões gravadas. A canção mostra particularmente bem a transformação dos Beatles em artistas que utilizavam o estúdio não apenas para registrar apresentações, mas para construir experiências sonoras e poéticas.

A primeira gravação ocorreu em fevereiro de 1968, durante as sessões de The Beatles, o chamado Álbum Branco, mas a música acabou não sendo incluída naquele disco. George Martin produziu a gravação original, que apresentava Lennon no violão e vocal, acompanhado por vozes femininas e elementos orquestrais. Posteriormente, a canção recebeu diferentes tratamentos e acabou aparecendo em No One’s Gonna Change Our World, uma coletânea beneficente lançada em dezembro de 1969, antes da versão que seria incluída em Let It Be. Para o álbum de 1970, Phil Spector acrescentou uma nova camada de produção, incluindo orquestra e coro, criando uma sonoridade mais grandiosa e distante da gravação original. A canção recebeu reconhecimento crescente justamente por sua combinação de poesia, espiritualidade e simplicidade melódica. Embora não tenha sido um dos maiores sucessos comerciais dos Beatles quando surgiu, sua reputação crítica aumentou enormemente com o passar dos anos. “Across the Universe” tornou-se particularmente admirada por sua capacidade de transformar pensamentos abstratos em imagens musicais acessíveis, antecipando características que seriam importantes no rock psicodélico e na música contemplativa das décadas seguintes. A canção também adquiriu uma dimensão histórica extraordinária por ter sido incluída no projeto Music from Earth, enviado ao espaço pela NASA em 2008, fazendo dela uma das primeiras músicas transmitidas deliberadamente em direção ao espaço interestelar. Seu legado, portanto, vai muito além da discografia dos Beatles: “Across the Universe” permanece como uma das composições mais filosóficas de Lennon e como uma demonstração de que a música popular podia abordar espiritualidade, consciência e existência com a mesma força de qualquer outra forma de expressão artística.

Erick Steve. 

sábado, 29 de agosto de 2026

Elvis Presley - Good Times

Elvis Presley - Good Times
Lançado em 20 de março de 1974, Good Times foi um dos álbuns de estúdio de Elvis Presley mais interessantes de sua fase dos anos 1970, reunindo gravações realizadas em 1973 em Memphis, especialmente durante as sessões que também produziriam material para outros projetos. O disco apareceu em um momento bastante diferente do início de sua carreira: Elvis já havia passado pelo grande retorno de 1968, pelo sucesso do Elvis: Aloha from Hawaii e pela consolidação de seus espetáculos em Las Vegas. Musicalmente, Good Times mostra um cantor disposto a explorar diferentes estilos, combinando country, soul, gospel, pop e rock. Entre os destaques estão "Take Good Care of Her", "I've Got a Thing About You Baby", "My Boy" e "Spanish Eyes". A presença de músicos como James Burton, Charlie McCoy e David Briggs contribuiu para uma sonoridade mais sofisticada e contemporânea. O álbum também é importante porque registra Elvis trabalhando com material que refletia tendências musicais dos anos 1970, sem abandonar completamente suas raízes. Embora não tenha recebido a mesma atenção de seus clássicos dos anos 1950 e 1960, Good Times demonstra que sua voz continuava extraordinariamente poderosa e expressiva.

A recepção crítica de Good Times foi moderadamente favorável, mas bastante menos entusiasmada do que a imprensa havia sido com alguns trabalhos anteriores de Elvis. A Billboard destacou a qualidade vocal do cantor e a variedade do repertório, observando que Elvis continuava capaz de transformar canções de diferentes estilos em interpretações pessoais. A Cash Box também chamou atenção para a força comercial de algumas das faixas, especialmente "I've Got a Thing About You Baby". A crítica percebeu, entretanto, que o álbum não possuía a mesma unidade artística de trabalhos como From Elvis in Memphis. Parte da imprensa considerava que a carreira fonográfica de Elvis havia perdido um pouco do foco diante da enorme quantidade de apresentações ao vivo e lançamentos relacionados a seus compromissos comerciais. Ainda assim, os críticos reconheciam que, quando recebia material adequado, Presley continuava sendo um intérprete de primeira grandeza. O álbum foi particularmente valorizado por sua mistura de country e soul, estilos nos quais a voz de Elvis encontrava uma combinação natural de força, emoção e experiência.

A avaliação posterior de Good Times tornou-se um pouco mais generosa. Críticos e historiadores passaram a analisar o álbum dentro do contexto das dificuldades enfrentadas por Elvis durante a primeira metade da década de 1970, em vez de compará-lo exclusivamente com seus trabalhos revolucionários dos anos 1950. A Rolling Stone, em avaliações retrospectivas da carreira de Presley, ajudou a consolidar a ideia de que seus melhores momentos dos anos 1970 estavam principalmente na qualidade de suas interpretações, mesmo quando o repertório não era excepcional. O New York Times e o Los Angeles Times, ao acompanharem a carreira de Elvis nesse período, também destacavam sua extraordinária capacidade de permanecer uma figura central da música americana apesar das mudanças de gosto do público. "My Boy", uma das faixas mais conhecidas de Good Times, tornou-se particularmente importante por explorar uma dimensão emocional mais madura da voz do cantor. A interpretação de Elvis é marcada por crescente intensidade dramática, demonstrando que sua técnica vocal permanecia intacta. Para os especialistas atuais, esse aspecto é um dos maiores méritos do álbum: ouvir Elvis em 1974 permite perceber um cantor muito diferente do jovem rebelde de 1956, mas ainda capaz de produzir interpretações profundamente envolventes.

Comercialmente, Good Times teve um desempenho modesto, especialmente quando comparado aos enormes sucessos alcançados por Elvis em décadas anteriores. O álbum chegou à 92ª posição da Billboard 200, revelando que seu poder de venda no mercado de álbuns havia diminuído consideravelmente. Entretanto, algumas músicas tiveram melhor desempenho individual. "I've Got a Thing About You Baby" chegou ao 39º lugar da Billboard Hot 100, enquanto "My Boy" posteriormente se tornou uma das canções mais conhecidas da fase final de sua carreira e alcançou posições importantes nas paradas. O desempenho do disco refletia uma situação paradoxal: Elvis continuava sendo uma das maiores atrações de concertos dos Estados Unidos, mas seus novos álbuns já não dominavam as paradas como acontecera nos anos 1950 e 1960. A RCA Victor continuava lançando regularmente seu material, mas a estratégia comercial da gravadora nem sempre favorecia a construção de álbuns coesos. Good Times acabou sendo prejudicado por esse cenário, embora suas melhores faixas tenham sobrevivido muito melhor do que sua posição original nas paradas poderia sugerir.

O legado de Good Times é hoje bastante interessante para quem deseja compreender a evolução de Elvis Presley nos anos 1970. Não costuma figurar entre seus álbuns essenciais, mas é considerado por muitos fãs e especialistas uma representação honesta de sua produção durante esse período. O grande destaque está na voz: Elvis canta com maturidade, profundidade e uma experiência que simplesmente não existia em seus primeiros discos. "My Boy" tornou-se uma das interpretações mais emocionais de seu repertório, enquanto "I've Got a Thing About You Baby" mostra sua capacidade de trabalhar dentro do country-soul contemporâneo. O álbum também ajuda a demonstrar que a fase final de Elvis não pode ser reduzida apenas às apresentações em Las Vegas ou às gravações mais fracas lançadas pela RCA. Havia ainda momentos de grande qualidade artística. Atualmente, Good Times é visto como um retrato de transição, situado entre os grandes trabalhos de Memphis do início dos anos 1970 e os discos cada vez mais voltados ao country e ao gospel que Elvis faria posteriormente. Para os fãs, permanece como uma peça importante para completar o retrato musical do Elvis maduro.

Elvis Presley - Good Times (1974)
Take Good Care of Her
Loving Arms
I Got a Feelin' in My Body
If That Isn't Love
She Wears My Ring
I've Got a Thing About You Baby
My Boy
Spanish Eyes
Talk About the Good Times
Good Time Charlie's Got the Blues

Pablo Aluísio e Erick Steve. 

sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Margot está em Apuros

Título no Brasil: Margot está em Apuros
Título Original: Margo's Got Money Troubles
Ano de Lançamento: 2026
País: Estados Unidos
Plataforma: Apple TV+
Criação: David E. Kelley
Baseada no romance: Margo's Got Money Troubles, de Rufi Thorpe
Produção: A24 / Apple Studios
Elenco: Elle Fanning, Michelle Pfeiffer, Nick Offerman, Thaddea Graham, Nicole Kidman e Greg Kinnear.
Número de episódios: 8.

Sinopse:
Margo's Got Money Troubles acompanha Margo Millet, interpretada por Elle Fanning, uma jovem que abandona a faculdade depois de engravidar e se vê repentinamente diante das dificuldades da maternidade e da falta de dinheiro. Sem emprego estável e com um bebê para sustentar, Margo precisa encontrar uma maneira de sobreviver enquanto tenta reconstruir sua vida. Sua situação torna-se ainda mais complicada por causa da relação difícil com sua mãe, Shyanne Millet, interpretada por Michelle Pfeiffer. Shyanne é uma antiga garçonete da Hooters que também enfrentou dificuldades quando engravidou e se tornou mãe, carregando consigo ressentimentos, frustrações e a sensação de que a filha está repetindo seus erros. Margo encontra uma possibilidade inesperada de ganhar dinheiro através do OnlyFans, utilizando a internet para criar um negócio baseado em conteúdo produzido por ela mesma. A decisão provoca conflitos familiares e coloca em discussão questões de maternidade, independência financeira, sexualidade, privacidade e julgamento social. Paralelamente, seu pai, Jinx, interpretado por Nick Offerman, um ex-lutador profissional que enfrenta seus próprios problemas, tenta reconstruir a relação com a filha. A série transforma essa situação pouco convencional em uma comédia dramática sobre sobrevivência, família e a tentativa de uma jovem de assumir o controle da própria vida.

Comentários:
A primeira temporada de Margot em Apuros recebeu uma recepção extremamente positiva da crítica americana, sendo apontada por alguns jornalistas como uma das novas séries mais interessantes de 2026. A produção estreou mundialmente em abril de 2026 e chamou atenção principalmente pela combinação pouco convencional de humor, drama familiar e comentário social. A Forbes, em crítica publicada após os três primeiros episódios, classificou a série como uma das melhores novidades televisivas daquele momento e afirmou que sua excelente avaliação no Rotten Tomatoes era merecida. A publicação destacou especialmente Elle Fanning, considerada capaz de transformar Margo de uma jovem sonhadora em uma mãe desesperada sem tornar essa transformação artificial. Michelle Pfeiffer também recebeu elogios pela interpretação de Shyanne, personagem que poderia facilmente ser reduzida a uma mãe desagradável, mas que a atriz transforma em uma mulher contraditória, marcada por seus próprios traumas e inseguranças. A Fox News destacou que Pfeiffer se identificou imediatamente com Shyanne, em parte porque a personagem é uma mulher criada no sul da Califórnia, região onde a própria atriz nasceu e cresceu. Pfeiffer afirmou que se apaixonou pela personagem depois de ler o livro e que não conseguia imaginar outra atriz interpretando o papel. A série também chamou atenção por marcar a primeira colaboração profissional entre Pfeiffer e seu marido, David E. Kelley, depois de décadas em que os dois haviam evitado trabalhar juntos. O resultado surpreendeu positivamente a atriz, que descreveu os roteiros e os personagens como excepcionalmente bem construídos.

A força da série está justamente na maneira como transforma uma situação potencialmente controversa em uma história sobre sobrevivência econômica e maternidade. Margo não recorre ao OnlyFans simplesmente como uma provocação, mas porque precisa encontrar uma fonte de renda quando praticamente todas as alternativas desaparecem. A crítica americana também destacou a maneira como a série evita transformar seus personagens em figuras totalmente boas ou más. Shyanne pode ser extremamente crítica em relação à filha, mas suas atitudes nascem também do medo de que Margo repita as dificuldades que ela própria enfrentou. David E. Kelley, responsável pela adaptação, afirmou que a atuação de Pfeiffer foi fundamental para essa complexidade: segundo ele, a atriz conseguiu fazer com que Shyanne pudesse parecer antagonista em determinadas cenas, mas sem que o público deixasse de perceber que suas ações também vinham de um lugar de amor. A imprensa também destacou Nick Offerman como Jinx e a química do elenco principal. A série foi considerada por críticos uma produção surpreendentemente divertida e, ao mesmo tempo, emocionalmente dolorosa. Um dos aspectos mais comentados foi a capacidade de Elle Fanning de sustentar praticamente toda a narrativa, enquanto Pfeiffer e Offerman funcionam como contrapontos fundamentais para a protagonista. A temporada terminou em maio de 2026 e rapidamente ganhou uma base de admiradores; espectadores também destacaram especialmente as atuações de Pfeiffer e Offerman. Margot em Apuros acabou se tornando, assim, uma das produções televisivas mais comentadas de 2026, principalmente por combinar uma premissa contemporânea e provocadora com uma história profundamente familiar sobre mães, filhas, erros, dinheiro e a difícil tarefa de recomeçar.

Pablo Aluísio. 

quinta-feira, 27 de agosto de 2026

The Batman

The Batman (2022)
The Batman estreou mundialmente em 1º de março de 2022, na Coreia do Sul, e chegou aos cinemas americanos em 4 de março, sob a direção de Matt Reeves, que também escreveu o roteiro ao lado de Peter Craig. O filme representou uma nova interpretação do personagem, independente do Universo Estendido da DC e diferente das versões anteriores vividas por Christian Bale e Ben Affleck. Robert Pattinson assumiu o papel de Bruce Wayne/Batman, acompanhado por Zoë Kravitz como Selina Kyle, Paul Dano como o Charada, Jeffrey Wright como James Gordon, Colin Farrell como o Pinguim e Andy Serkis como Alfred Pennyworth. A produção começou a ser desenvolvida ainda na década de 2010, inicialmente como um projeto que teria Ben Affleck como diretor e protagonista, mas acabou completamente reformulada quando Matt Reeves assumiu o comando. Reeves decidiu fazer um Batman mais jovem, ainda no início de sua carreira, profundamente influenciado pelo cinema policial e pelo filme noir. A história acompanha Bruce Wayne em seu segundo ano como vigilante de Gotham City, quando uma série de assassinatos cometidos pelo Charada leva o herói a investigar a corrupção existente nas instituições da cidade. À medida que segue as pistas deixadas pelo criminoso, Batman descobre conexões entre o passado de sua família, a polícia, a elite política e organizações criminosas, percebendo que a própria história dos Wayne está ligada aos segredos que estão destruindo Gotham.

A recepção da crítica americana foi amplamente positiva, embora alguns críticos tenham considerado o filme excessivamente longo e sombrio. O consenso do Rotten Tomatoes atualmente registra 85% de aprovação da crítica, com mais de 500 avaliações, destacando o longa como uma interpretação "grim, gritty, and gripping" do Cavaleiro das Trevas. Entre os grandes veículos americanos, a produção foi particularmente elogiada por sua atmosfera policial, pela fotografia de Greig Fraser, pela trilha sonora de Michael Giacchino e pela atuação de Robert Pattinson. A abordagem de Reeves foi vista como uma tentativa de aproximar Batman de suas raízes como detetive, reduzindo a importância dos elementos fantásticos e enfatizando investigação, corrupção e crime organizado. Alguns críticos, entretanto, apontaram que o filme poderia ser excessivamente sombrio e que suas quase três horas de duração tornavam determinados trechos cansativos. A força da interpretação de Pattinson também foi inicialmente objeto de curiosidade, pois sua escalação havia provocado dúvidas entre parte dos fãs. O resultado, porém, surpreendeu muitos críticos, que consideraram o ator capaz de transmitir tanto a obsessão de Bruce Wayne quanto a vulnerabilidade de um herói ainda em formação. A recepção americana acabou, portanto, consolidando The Batman como uma das interpretações mais respeitadas do personagem no cinema.

Na Europa, a recepção também foi predominantemente positiva, embora alguns críticos tenham apresentado ressalvas semelhantes às encontradas nos Estados Unidos. No Reino Unido, The Guardian classificou o filme como "spectacular and well-cast", elogiando Robert Pattinson, Zoë Kravitz e a construção de uma Gotham extremamente sombria, mas criticando o terceiro ato por se tornar cansativo. Outra crítica do mesmo jornal destacou que Pattinson era "appealingly conflicted" como Batman e que a Mulher-Gato de Zoë Kravitz acrescentava energia à narrativa, embora o conjunto tenha sido considerado excessivamente longo. Na França e em outros mercados europeus, a fotografia, a direção de Reeves e a inspiração em filmes policiais americanos dos anos 1970 foram particularmente apreciadas. O filme também teve forte reconhecimento na temporada de premiações. Recebeu três indicações ao Oscar de 2023, nas categorias de Melhor Som, Melhores Efeitos Visuais e Melhor Maquiagem e Penteados, embora não tenha vencido. Também recebeu quatro indicações ao BAFTA, incluindo fotografia, design de produção, maquiagem e efeitos visuais. Michael Giacchino ainda recebeu indicação ao Grammy pela trilha sonora, enquanto o filme conquistou dois prêmios no Saturn Awards. Dessa maneira, embora não tenha disputado as principais categorias de atuação, direção ou filme do Oscar, The Batman foi reconhecido principalmente por suas realizações técnicas.

Com orçamento estimado entre US$ 185 milhões e US$ 200 milhões, The Batman foi uma das grandes apostas da Warner Bros. para a retomada dos cinemas depois dos efeitos da pandemia. O filme abriu nos Estados Unidos e Canadá com aproximadamente US$ 134 milhões, demonstrando forte interesse do público pelo novo Batman. Ao final de sua carreira cinematográfica original, arrecadou aproximadamente US$ 369,3 milhões no mercado doméstico e US$ 402,9 milhões internacionalmente, totalizando cerca de US$ 772,2 milhões em todo o mundo. O resultado fez da produção o sétimo filme de maior bilheteria de 2022, além de transformá-lo em um dos maiores sucessos da Warner Bros. durante o período da pandemia. O público também respondeu muito bem: o Rotten Tomatoes apresenta atualmente 87% de aprovação entre espectadores verificados, ligeiramente superior à avaliação dos críticos. A permanência do filme nas salas foi beneficiada pela experiência IMAX, enquanto o desempenho internacional foi particularmente forte no Reino Unido, México, Austrália, França, Brasil e Alemanha. Assim, embora não tenha alcançado os números extraordinários de alguns dos maiores filmes de super-heróis, o resultado comercial foi claramente bem-sucedido e suficiente para consolidar uma nova franquia.

Atualmente, The Batman é considerado um dos filmes mais importantes da história recente do personagem e uma das interpretações mais distintas de Batman no cinema. Sua principal contribuição foi recuperar com grande intensidade a dimensão de detetive e investigador que muitas adaptações anteriores haviam deixado em segundo plano. Matt Reeves construiu uma Gotham marcada por corrupção política, desigualdade social, violência e decadência urbana, fazendo com que o filme se aproximasse tanto de um thriller policial quanto de uma produção de super-heróis. A influência de obras como Seven, Zodíaco e clássicos do cinema noir é evidente, mas Reeves conseguiu combinar essas referências com elementos próprios da mitologia do Batman. Robert Pattinson também conseguiu superar as expectativas e estabeleceu uma versão do personagem que poderia evoluir consideravelmente nas continuações. A recepção positiva do público e da crítica levou a Warner Bros. a desenvolver uma sequência, The Batman: Part II, novamente dirigida por Matt Reeves e estrelada por Pattinson. O sucesso do primeiro filme também contribuiu para a criação de um universo próprio, separado da continuidade principal do novo DC Universe de James Gunn. Dessa forma, The Batman deixou de ser apenas uma nova adaptação do herói e passou a representar uma linha cinematográfica própria, com potencial para construir uma saga de longo prazo.

The Batman (The Batman, Estados Unidos, 2022) Direção: Matt Reeves / Roteiro: Matt Reeves e Peter Craig, baseado no personagem criado por Bob Kane e Bill Finger / Elenco: Robert Pattinson, Zoë Kravitz, Paul Dano, Jeffrey Wright, Colin Farrell e Andy Serkis / Sinopse: Em seu segundo ano como vigilante, Batman investiga uma série de assassinatos cometidos pelo Charada e descobre uma rede de corrupção que envolve as instituições e a própria história de Gotham City.

Pablo Aluísio e Erick Steve.

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Hamnet: A Vida Antes de Hamlet

Hamnet: A Vida Antes de Hamlet
Hamnet: A Vida Antes de Hamlet (Hamnet) é um drama histórico e romântico dirigido por Chloé Zhao, lançado originalmente em 2025 e inspirado no romance homônimo de Maggie O’Farrell, publicado em 2020. O filme teve sua primeira apresentação no Festival de Telluride, em agosto de 2025, antes de chegar aos cinemas americanos em lançamento limitado em 26 de novembro e posteriormente ampliar sua distribuição. O elenco principal reúne Jessie Buckley, Paul Mescal, Emily Watson, Joe Alwyn, Jacobi Jupe e Noah Jupe. Buckley interpreta Agnes, conhecida historicamente como Anne Hathaway, enquanto Mescal interpreta William Shakespeare. A produção parte de um fato histórico verdadeiro: Shakespeare e sua esposa tiveram um filho chamado Hamnet, que morreu aos 11 anos, em 1596. A partir dessa informação, o livro de O’Farrell e o filme de Zhao constroem uma narrativa ficcional sobre a vida familiar do dramaturgo. A história começa antes da fama de Shakespeare, mostrando seu relacionamento com Agnes e a formação da família em Stratford-upon-Avon. Quando o filho adoece durante uma epidemia e morre, a família é devastada pela perda. O filme imagina que a experiência desse luto teria contribuído para a criação de Hamlet, estabelecendo uma ligação emocional entre a tragédia pessoal de Shakespeare e sua mais famosa obra. Agnes, entretanto, é o verdadeiro centro dramático da narrativa, e a produção procura mostrar sua dor, sua força e sua tentativa de reconstruir a vida depois da morte do filho.

A recepção da crítica americana foi majoritariamente entusiasmada, embora tenha havido algumas vozes discordantes. A Variety, em crítica de Peter Debruge publicada após a estreia em Telluride, considerou o filme uma experiência emocional extremamente poderosa e destacou a atuação de Jessie Buckley como um dos seus maiores trunfos. O crítico concluiu que Zhao consegue transformar a história do luto em uma reflexão sobre a função da arte, descrevendo o resultado como uma obra que convida o público a experimentar a perda de uma maneira nova. O The New York Times foi mais cauteloso: Alissa Wilkinson elogiou a beleza das imagens e das interpretações, mas observou que alguns momentos pareciam "um pouco demais", como se determinadas escolhas visuais e dramáticas fossem excessivamente preciosas. Já o Los Angeles Times apresentou uma das avaliações mais negativas entre os grandes veículos americanos. Amy Nicholson chamou o filme de uma produção que afunda sob "nonstop crying" e criticou particularmente a caracterização de Shakespeare, considerada pouco interessante. Ainda assim, a mesma crítica reconheceu a beleza da fotografia, a qualidade do trabalho de câmera e a força de Jacobi Jupe como Hamnet. No conjunto, o Metacritic registrou 84/100, classificando a recepção como de "Universal Acclaim", com 85% das críticas positivas e nenhuma avaliação integralmente negativa entre as críticas catalogadas.

A reação europeia foi igualmente favorável, sobretudo no Reino Unido, onde a história de Shakespeare possui uma importância cultural especial. O The Guardian, na crítica de Peter Bradshaw, classificou a produção como uma tragédia shakespeariana "audaciosa" e destacou que Paul Mescal e Jessie Buckley conseguem envolver completamente o espectador. Bradshaw considerou particularmente eficaz a maneira como Chloé Zhao transforma a morte de uma criança em uma possível origem emocional para a criação de Hamlet. Em uma crítica publicada durante o Festival de Toronto, o Guardian também destacou que Buckley e Mescal eram "knockouts" e classificou o final como extraordinariamente comovente, embora tenha observado que o filme às vezes se aproxima demais do cinema de prestígio feito para premiações. Na França e em outros mercados europeus, a recepção também foi predominantemente positiva, com elogios à fotografia, à ambientação histórica e à interpretação de Jessie Buckley. O filme entrou rapidamente no circuito de grandes premiações. No Globo de Ouro de 2026, venceu Melhor Filme – Drama, enquanto Jessie Buckley ganhou Melhor Atriz – Drama. No Oscar de 2026, Hamnet recebeu oito indicações, incluindo Melhor Filme, Direção, Roteiro Adaptado e Atriz, e Jessie Buckley venceu o prêmio de Melhor Atriz, tornando-se a primeira atriz irlandesa a conquistar o Oscar nessa categoria. Buckley também conquistou o BAFTA e o Critics Choice Award, consolidando uma das campanhas de premiação mais fortes da temporada.

Com um orçamento de produção que não foi divulgado oficialmente de maneira confiável, Hamnet não foi concebido como um blockbuster, mas como um drama histórico de prestígio voltado principalmente para o circuito de festivais, premiações e público adulto. Seu lançamento comercial começou de forma bastante modesta, com apenas US$ 932 mil em 119 cinemas no primeiro fim de semana americano, antes de alcançar uma distribuição mais ampla. O resultado final, contudo, mostrou uma excelente resistência comercial para uma produção desse gênero. O filme arrecadou aproximadamente US$ 24,2 milhões nos Estados Unidos e US$ 84,8 milhões no mercado internacional, chegando a cerca de US$ 109 milhões em todo o mundo. O Reino Unido foi particularmente importante, com mais de US$ 25 milhões em bilheteria, enquanto França, Espanha, Itália e Alemanha também apresentaram resultados expressivos para um drama de época. A reação do público foi ainda melhor que a recepção crítica: o Rotten Tomatoes registra 93% de aprovação entre os espectadores verificados, contra 86% da crítica, e o IMDb apresenta atualmente 7,8/10, com mais de 130 mil avaliações. O sucesso demonstra que, apesar de ser um filme lento, contemplativo e profundamente dramático, Hamnet conseguiu alcançar um público bastante amplo graças ao prestígio de Shakespeare, à campanha de premiações e, sobretudo, ao impacto emocional das interpretações.

Pouco tempo depois de seu lançamento, Hamnet já passou a ser considerado um dos principais filmes de prestígio da década de 2020. A avaliação atual é especialmente positiva em relação à atuação de Jessie Buckley, que se tornou o principal elemento associado ao sucesso do filme. Sua interpretação de Agnes recebeu o Globo de Ouro, o BAFTA, o Critics Choice Award e finalmente o Oscar, fazendo com que a personagem se transformasse no centro definitivo da recepção crítica. A direção de Chloé Zhao também foi amplamente elogiada por combinar realismo naturalista, paisagens rurais e momentos quase oníricos. O filme, entretanto, não pretende apresentar uma biografia historicamente comprovada de Shakespeare. A ligação entre a morte de Hamnet e a criação de Hamlet é uma hipótese literária de Maggie O’Farrell e de Zhao, e não um fato estabelecido pelos historiadores. Essa liberdade é justamente uma das questões mais discutidas em torno da obra. Alguns críticos consideram a especulação extremamente poderosa, enquanto outros entendem que o filme transforma uma possibilidade histórica em uma certeza emocional excessivamente conveniente. Mesmo assim, a combinação de romance, luto, maternidade, criação artística e Shakespeare deu à produção uma identidade própria. O reconhecimento recebido em festivais e premiações, especialmente a vitória de Jessie Buckley no Oscar, deve garantir que Hamnet permaneça como uma das adaptações literárias mais lembradas do cinema contemporâneo.

Hamnet: A Vida Antes de Hamlet (Hamnet, Reino Unido, 2025) Direção: Chloé Zhao / Roteiro: Chloé Zhao e Maggie O’Farrell, baseado no livro Hamnet, de Maggie O’Farrell / Elenco: Jessie Buckley, Paul Mescal, Emily Watson, Joe Alwyn, Jacobi Jupe e Noah Jupe / Sinopse: Em plena Inglaterra do século XVI, Agnes e William Shakespeare constroem uma família cuja vida é transformada para sempre pela morte do jovem Hamnet, enquanto o sofrimento vivido pelo casal se mistura à criação da futura tragédia.

Erick Steve e Pablo Aluísio.

terça-feira, 25 de agosto de 2026

Hollywood Boulevard - John Wayne - Parte 19

No ano de 1951 o ator John Wayne resolveu diversificar um pouco seu repertório de roteiros que iria escolher para seus próximos filmes. Embora seus filmes de western rendessem ótimas bilheterias nos cinemas, ele queria experimentar novos gêneros cinematográficos. Ele não queria ficar sempre estigmatizado como o ator que só interpretava cowboys durões do velho oeste. Queria ampliar seus horizontes, viver outras histórias, ampliar o leque de opções em Hollywood. 

Estava especialmente interessado em fazer filmes de guerra. Assim escolheu atuar na produção "Águas Traiçoeiras" (Operation Pacific, 1951). Era a história de um submarino americano durante a II Guerra Mundial. Durante uma missão na região do oceano Pacífico Sul, problemas técnicos deixavam essa arma de guerra incapaz de ir para o front de guerra. Equipe e tripulação acabavam ganhando alguns dias de folga, já que não podiam mais partir para o cenário de guerra. Enquanto o submarino ia para conserto o personagem de Wayne tentava consertar também sua vida pessoal, tentando reconquistar a mulher de sua vida. Era a busca por personagens mais profundos que levou John Wayne a fazer esse filme. Não ter apenas cenas heróicas, mas também mostrar o lado humano dos militares. O filme assim tinha dois lados, as cenas de batalha para o público masculino e o lado da vida pessoal do protagonista, um clima de romantismo no ar, feito especialmente para o público feminino. 

O caminho seguiu nessa mesma linha, com John Wayne estrelando outro filme ambientado na segunda guerra mundial. A diferença era que dessa vez seu personagem não seria da marinha, mas da força aérea dos Estados Unidos. No Brasil esse filme recebeu o título de "Horizonte de Glórias" (Flying Leathernecks, 1951). Na história John Wayne interpretava um corajoso major, piloto líder de uma esquadrilha de caças de guerra conhecida como "The Wildcats" (os gatos selvagens). O enredo era parcialmente baseado em fatos históricos reais. Esse grupo de aviadores corajosos participaram de fato da histórica batalha de Guadalcanal, enfrentando esquadrilhas de caças Zero do Japão. 

O diretor foi escolhido pelo próprio John Wayne. Era Nicholas Ray, um cineasta conhecido por tirar as melhores interpretações de seu elenco. É interessante ver essa tentativa de John Wayne em associar sua imagem a de militares americanos na guerra. Ela havia ficado muito ofendido com certos jornalistas que o criticaram durante a guerra, justamente por não ter ido lutar o maior conflito do século XX. Assim, atuando em filmes como esse, John Wayne, de certa forma, compensava esse lado ruim, essa mancha, que havia ficado em seu perfil. Já que não houve como ser herói no mundo real, ele compensava isso interpretando heróis americanos na tela. Era, segundo suas palavras, uma forma de homenagear todos esses heróis da segunda guerra mundial. 

Pablo Aluísio. 

segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Hollywood Boulevard - Rock Hudson - Parte 27

Durante um jantar na Casa Branca, durante a presidência de Ronald Reagan, a Primeira-Dama Nancy, ao conversar com Rock Hudson mais de perto, percebeu que ele estava com um ferimento bem atrás do pescoço, algo que Rock não havia percebido, nem visto antes. Parecia ser um sinal infeccionado ou qualquer outra coisa estranha. Era uma grande mancha vermelha!

Na volta à Los Angeles, Rock pediu ao seu assistente pessoal Mark Miller, que marcasse uma consulta com um dermatologista. Depois do exame, o resultado foi devastador. Na realidade aquilo era um Sarcoma de Kaposi, uma espécie de câncer de pele que estava atingindo pessoas portadoras de AIDS, uma nova doença que estava se espalhando pelos Estados Unidos. Até aquele momento Rock mal sabia o que era aquilo. Ele ficou um pouco assustado e novos exames foram marcados, que comprovariam que ele estava mesmo com AIDS. Foi um grande choque para Rock! O médico lhe explicou que não havia cura, que aquela doença estava se espalhando pela comunidade gay de San Francisco! A taxa de mortalidade era extremamente expressiva!

De volta ao Castelo, Rock estava desolado, sem saber exatamente o que fazer. Chamou Mark Miller e lhe comunicou que estava com AIDS, mas que essa informação não poderia se espalhar de jeito nenhum. Rock disse: "Estou com a praga! Estou com a peste, uma doença nova que surgiu! Não tem cura! Acabou a minha vida! Acabou a minha carreira!". Rock havia realmente estado há poucos dias em San Francisco, a capital gay dos Estados Unidos, e atribuía a contaminação pela AIDS a essa visita. Ele andou por bares gays, boates e de fato havia ficado com alguns parceiros anônimos pela cidade, durante as madrugadas festivas que só San Francisco proporcionava. 

Mark Miller ficou apavorado! A ignorância sobre AIDS naquela época era imensa, nem ao menos os cientistas sabiam bem do que se tratava. Algumas pessoas chamavam de "câncer gay" pois inicialmente a maioria dos infectados eram homossexuais. Só muito depois se descobriu que a doença também atingia heterossexuais e era causada por um vírus novo, sexualmente transmissível. Para o assistente de Rock era imperioso saber mais, pois ele tinha receios de ser infectado pelo ar ou qualquer outra coisa. Sua reação natural, como falaria depois, foi a de fugir, saindo correndo do Castelo, mas aguentou firme.  Ao saber que Rock estava com AIDS ele ficou pálido, as palavras sumiram, ele não tinha a menor ideia do que deveria pensar! Naquela mesma noite ele foi e comprou todos os livros sobre AIDS que encontrou. Queria entender a doença e se possível ajudar Rock naquilo que fosse possível. De qualquer forma ele tinha uma certeza desde os primeiros momentos: aquela nova doença era terrível e os dias de Rock Hudson estavam contados!

Pablo Aluísio. 

domingo, 23 de agosto de 2026

Fotogramas & Vídeo: Mais Forte que a Vingança

Fotogramas & Vídeo: Mais Forte que a Vingança
Mais Forte que a Vingança (Jeremiah Johnson) é um dos mais belos e particulares filmes da carreira de Robert Redford. Lançado em 1972 e dirigido por Sydney Pollack, o filme abandona o faroeste tradicional para acompanhar um homem que decide deixar para trás a civilização e procurar uma vida de isolamento nas montanhas do Oeste americano. Redford interpreta Jeremiah Johnson, um ex-soldado que, depois de sua experiência na guerra, parte em busca de uma existência simples e independente, aprendendo a caçar, pescar e sobreviver em condições extremamente difíceis. A história é inspirada em relatos e lendas sobre o famoso homem das montanhas John “Liver-Eating” Johnson, embora o filme tome consideráveis liberdades com a realidade histórica. O roteiro contou com John Milius e Edward Anhalt e foi baseado em material literário de Vardis Fisher e outras fontes sobre a figura lendária. A natureza, portanto, não funciona apenas como cenário: ela é praticamente uma personagem, impondo frio, fome, solidão e perigos constantes ao protagonista.

Sydney Pollack realizou um faroeste contemplativo, muito distante das aventuras convencionais protagonizadas por heróis invencíveis. Jeremiah começa sua jornada completamente despreparado e precisa aprender, pouco a pouco, os códigos da sobrevivência. No caminho, encontra o experiente “Bear Claw”, interpretado por Will Geer, que lhe ensina os conhecimentos necessários para enfrentar a vida selvagem. Posteriormente, Johnson constrói uma pequena família e acredita finalmente ter encontrado a paz que procurava. Essa tranquilidade, entretanto, é destruída quando acontecimentos envolvendo povos indígenas provocam uma sucessão de conflitos e colocam o personagem no caminho da vingança. O interessante é que Pollack não transforma essa vingança em uma simples aventura de ação. O filme está muito mais interessado na transformação psicológica do protagonista e na maneira como a violência interfere na vida de alguém que originalmente desejava justamente fugir dela. A solidão, a sobrevivência e a busca por liberdade acabam se tornando os verdadeiros temas de Mais Forte que a Vingança.

A crítica reconheceu desde o início a qualidade cinematográfica da produção, embora alguns críticos considerassem seu ritmo excessivamente lento. Roger Greenspun, do The New York Times, reconheceu no filme momentos de grande beleza, terror e emoção, enquanto o Los Angeles Times destacou sua extraordinária autenticidade na representação da vida selvagem. Já o Washington Post considerou a narrativa excessivamente contemplativa e menos emocionante do que poderia ser. Com o passar das décadas, porém, a reputação de Jeremiah Johnson cresceu consideravelmente. Atualmente, o filme possui avaliação crítica muito elevada no Rotten Tomatoes, que destaca a atuação de Redford e a natureza reflexiva da narrativa. A fotografia de Duke Callaghan e Andrew Callaghan valoriza os enormes espaços naturais de Utah, criando imagens de montanhas cobertas de neve, florestas, rios e vales que permanecem entre as mais bonitas do cinema americano daquele período. O filme também foi exibido no Festival de Cannes de 1972, em competição pela Palma de Ouro, demonstrando que não era encarado apenas como mais um western comercial de Hollywood.

Com um orçamento relativamente modesto, estimado em cerca de US$ 3,1 milhões, Mais Forte que a Vingança tornou-se um sucesso comercial significativo, alcançando aproximadamente US$ 44,7 milhões nas bilheterias dos Estados Unidos e Canadá, além de obter novas receitas com seus relançamentos. O filme também se tornou uma das colaborações mais importantes entre Robert Redford e Sydney Pollack, parceria que posteriormente produziria obras como Nosso Amor de Ontem e Três Dias do Condor. Redford encontrou em Jeremiah Johnson um personagem muito diferente do galã elegante que começava a se consolidar como uma das grandes estrelas americanas. Aqui, aparece barbudo, envelhecido pela vida nas montanhas, silencioso e profundamente marcado pelas experiências que atravessa. Pollack, por sua vez, utiliza o faroeste para fazer uma reflexão sobre liberdade, isolamento, violência e a relação entre o homem e a natureza. É justamente essa combinação que explica por que Mais Forte que a Vingança continua sendo lembrado como um dos grandes filmes de Robert Redford e uma das obras mais interessantes do chamado western revisionista dos anos 1970.

PS: Essa nova coluna resolvi chamar de "Fotogramas & Vídeo". Não, não se trata de material tirado da antiga revista brasileira de cinema e nem da original, espanhola. É apenas um título nostálgico, de um tempo em que existia muitas revistas de cinema nas bancas. Hoje não existe mais revistas no Brasil, nem bancas! Sempre achei isso um absurdo! E para completar a saudade dos anos 80 recriei, por inteligência artificial, a capa dessas velhas revistas, como se fosse uma nova edição chegando nas bancas. Tudo virtual. Pois é, a tecnologia não apenas destrói, mas também abre espaço para esse tipo de nostalgia de um passado que não existe mais. 

Pablo Aluísio. 

Fotogramas & Vídeo: Inferno na Torre

Fotogramas & Vídeo: Inferno na Torre
Inferno na Torre (The Towering Inferno) chegou aos cinemas em 1974 como uma das maiores superproduções de catástrofe da década. Dirigido por John Guillermin, o filme reuniu dois dos maiores astros de Hollywood daquele período: Paul Newman e Steve McQueen. A história se passa durante a inauguração de um gigantesco arranha-céu em San Francisco, considerado o edifício mais alto e moderno do mundo. O arquiteto Doug Roberts, interpretado por Newman, percebe que alguns sistemas elétricos foram instalados de maneira inadequada e começa a desconfiar que o prédio não é tão seguro quanto deveria. Quando um curto-circuito provoca um incêndio, uma festa de gala transforma-se rapidamente em uma luta desesperada pela sobrevivência. O filme aproveitou o fascínio dos anos 1970 pelos grandes desastres e apresentou uma combinação de suspense, ação e drama humano. A dimensão da produção também era extraordinária para a época, com enormes cenários construídos para reproduzir os diversos andares do arranha-céu. O resultado foi uma experiência cinematográfica grandiosa, pensada para impressionar o público nas grandes telas.

Um dos maiores atrativos de Inferno na Torre era justamente seu elenco, que reunia uma quantidade impressionante de estrelas. Além de Paul Newman e Steve McQueen, estavam no filme William Holden, Faye Dunaway, Fred Astaire, Jennifer Jones, Robert Vaughn, Robert Wagner, Susan Blakely e O. J. Simpson. McQueen interpretava o chefe dos bombeiros Michael O'Hallorhan, responsável por organizar o resgate dos sobreviventes, enquanto Newman vivia o arquiteto que precisava enfrentar as consequências de um projeto comprometido pela ganância. A presença dos dois astros criou uma interessante divisão de protagonismo, e a publicidade explorou bastante essa rivalidade entre as duas grandes estrelas. O filme também ficou conhecido pela curiosa decisão de dividir o nome dos protagonistas nos créditos de maneira praticamente equivalente, refletindo o cuidado dos estúdios em não estabelecer uma hierarquia entre eles. Faye Dunaway acrescentava uma presença romântica e dramática à história, enquanto Fred Astaire, em uma atuação indicada ao Oscar, demonstrava que ainda podia emocionar o público em um papel bastante diferente daqueles musicais que haviam marcado sua carreira. A combinação de estrelas transformou o filme em um verdadeiro acontecimento de Hollywood.

A crítica reconheceu principalmente a eficiência técnica da produção e sua capacidade de criar suspense a partir de uma situação extremamente simples: pessoas presas dentro de um edifício em chamas. O roteiro foi baseado nos romances The Tower, de Richard Martin Stern, e The Glass Inferno, de Thomas N. Scortia e Frank M. Robinson, que haviam sido publicados pouco antes. A produção utilizou efeitos especiais, miniaturas, cenários gigantescos e complexas sequências de incêndio para transmitir a sensação de que o arranha-céu estava realmente sendo destruído diante do espectador. A fotografia de Fred J. Koenekamp valorizava o contraste entre o luxo do edifício e o vermelho das chamas, enquanto a música de John Williams contribuía para aumentar a tensão. O filme recebeu oito indicações ao Oscar e venceu três: Melhor Fotografia, Melhor Montagem e Melhor Canção Original, por “We May Never Love Like This Again”, interpretada por Maureen McGovern. Também recebeu indicações em categorias como Melhor Ator Coadjuvante para Fred Astaire e Melhor Atriz Coadjuvante para Jennifer Jones. Mesmo quando a crítica considerava alguns elementos melodramáticos ou excessivos, era difícil negar a eficiência do espetáculo. Inferno na Torre tornou-se, assim, uma referência do cinema de catástrofe.

Com um orçamento estimado em aproximadamente US$ 14 milhões, Inferno na Torre transformou-se em um gigantesco sucesso comercial e terminou sua carreira original com uma bilheteria mundial de mais de US$ 200 milhões, tornando-se uma das maiores arrecadações da década de 1970. Mais do que um simples filme sobre um incêndio, a produção capturou uma preocupação muito presente naquele período: a confiança excessiva na tecnologia e nos grandes projetos arquitetônicos. O arranha-céu, símbolo de progresso e modernidade, transforma-se justamente no maior perigo para aqueles que estão dentro dele. Essa ideia ajudou a dar ao filme uma dimensão que ultrapassava o espetáculo. Décadas depois, Inferno na Torre continua sendo lembrado como um dos títulos fundamentais do cinema de catástrofe, ao lado de Aeroporto, Terremoto e O Destino do Poseidon. Para uma coluna como Fotogramas e Video, ele também possui um encanto especial: representa uma época em que Hollywood apostava em grandes elencos, cenários monumentais e histórias capazes de transformar uma sessão de cinema em um acontecimento. Paul Newman, Steve McQueen e aquele gigantesco edifício em chamas permanecem como uma das imagens mais marcantes do cinema popular dos anos 1970.