terça-feira, 19 de maio de 2026

Sete Homens e Um Destino

Moradores de um pacato vilarejo mexicano pedem ajuda a um grupo de pistoleiros liderados por Chris (Yul Brynner) e Vin (Steve McQueen) para que os protejam do terrível bando de bandidos e assassinos do pistoleiro Calvera (Eli Wallach). Refilmagem americana do filme "Os Sete Samurais" de Akira Kurosawa. Uma das grandes ideias dos roteiristas foi transpor a estória para o velho oeste, pois essa é a verdadeira mitologia americana. Saem os samurais e entram os pistoleiros e cowboys do filme. Nada mais adequado. Mas não foi apenas por essa adaptação que a produção se tornou um clássico. Provavelmente esse seja o western com a mais lembrada e famosa música tema da história do cinema. Muito evocativa e tocada várias vezes ao longo do filme em diversas versões diferentes logo fica claro porque se tornou um marco no estilo. Elmer Bernstein era realmente um grande compositor como bem demonstrado aqui. Basta a música tocar para o espectador entrar imediatamente no clima do gênero western.

Outro ponto muito forte de "The Magnificent Seven" é seu elenco acima da média, liderado pelos carismas de Yul Brynner e Steve McQueen, ambos estrelas em ascensão em Hollywood na época. Os sete pistoleiros contratados para defender a pequena vila são variações do velho mito do cavalheiro solitário e errante (como bem resume uma cena em que eles discutem sobre os prós e contras da vida que levam). O elenco de apoio é excepcionalmente bom, com destaque para Charles Bronson (ainda em sua fase de coadjuvante), Robert Vaughn (que iria virar astro da TV anos depois) e James Coburn (um dos atores que melhor personificou pistoleiros em filmes de faroeste). Produzido pela Mirisch cia, a produção não é muito rica (essa empresa era especializada em fitas B que depois eram distribuídas pelos grandes estúdios como Universal e MGM) mas esse pequeno detalhe não compromete o filme em nenhum momento. Já a direção do veterano John Sturges é eficiente (embora um corte na duração final cairia bem). De qualquer forma não há como negar que para quem gosta de western esse é sem dúvida um filme obrigatório.

Sete Homens e Um Destino (The Magnificent Seven, Estados Unidos, 1960) Direção: John Sturges / Roteiro: William Roberts / Musica: Elmer Bernstein / Elenco: Steve McQueen, Yul Brynner, Charles Bronson, Eli Wallach, Robert Vaughn, James Coburn / Sinopse: Moradores de um pacata vilarejo mexicano pedem ajuda a um grupo de pistoleiros liderados por Chris (Yul Brynner) e Vin (Steve McQueen) para que os protejam do terrível bando de bandidos e assassinos do pistoleiro Calvera (Eli Wallach).

Pablo Aluísio.

segunda-feira, 18 de maio de 2026

Hollywood Boulevard - Rock Hudson - Parte 24

Embora Rock Hudson tivesse jurado nunca mais fazer um filme de faroeste em sua vida, por causa das dificuldades, incômodos de filmar em locação, a poeira do deserto, etc, ele acabaria voltando atrás com sua palavra. Seu velho estúdio, a Universal Pictures, ofereceu um excelente cachê para ele atuar no filme "Inimigos à Força" (Showdown, 1973). O roteiro de fato era muito bom, com direção segura do competente George Seaton. Rock havia deixado muitos amigos ao longo dos anos em que trabalhou na Universal e não conseguiu dizer não. 

Assim ele fez as malas e seguiu viagem para as locações. O filme seria realizado no Novo Mexico, numa região conhecida como Abiquiu. Era um fim de mundo! Nada ao redor, apenas o deserto hostil. Rock não gostou. Ele se arrependeu assim que desceu do trem! Porém pior do que isso foi trabalhar com Dean Martin. Rock nunca havia trabalhado com ele, apenas o conhecia de forma muito superficial de festas em Hollywood. 

Dean Martin havia criado fama ao lado de Jerry Lewis e tinha um sério problema com bebidas. Logo nos primeiros dias de filmagens Rock percebeu que haveria problemas. Martin estava sempre embriagado. Ele não conseguia decorar direito suas falas. Rock sempre odiou bêbados ao longo de sua vida e agora não seria diferente. Foi muito complicado trabalhar ao seu lado. Isso fez com que Rock sentisse falta de um parceiro sério de cena, como John Wayne, com quem ele havia rodado um western anos antes. Wayne era um excelente profissional. Sempre pontual, sempre pronto para as filmagens. Dean Martin era o oposto de tudo isso. Por causa dele o filme estourou o orçamento e levou quase o dobro de dias programados para ser finalizado. 

De volta ao Castelo, Rock trocou figurinhas com seu asssistente pessoal e braço direito Marc. Ele lhe disse: "Fazer esse filme foi uma das piores experiências da minha vida de ator. Tente trabalhar no meio do deserto do Novo Mexico ao lado de um bêbado e você vai entender o que eu passei nessas semanas. Dessa vez é pra valer, nunca mais farei um filme de faroeste! E nunca mais vou trabalhar com Dean Martin, pode ter certeza disso!". As duas promessas seriam cumpridas por Rock nos anos seguintes. 

Pablo Aluísio. 

domingo, 17 de maio de 2026

A Morte da Família Imperial

A Morte da Família Imperial
A queda da família imperial russa durante a Revolução Russa representou o fim definitivo de mais de três séculos de domínio da dinastia Romanov sobre o Império Russo. Nicholas II governava a Rússia desde 1894, mas seu reinado foi marcado por crises políticas, desigualdade social, derrotas militares e crescente insatisfação popular. O império enfrentava enormes problemas econômicos, greves, pobreza extrema entre os camponeses e revoltas constantes nas grandes cidades. A participação desastrosa da Rússia na Primeira Guerra Mundial agravou ainda mais a situação, provocando milhões de mortes, fome e colapso da economia. Em 1917, manifestações populares e rebeliões militares explodiram em Petrogrado, levando à abdicação do czar em março daquele ano. Nicolau II deixou o trono acreditando inicialmente que talvez ainda pudesse salvar a monarquia de alguma forma, mas a situação política rapidamente saiu de controle. O antigo imperador, sua esposa Alexandra Feodorovna e seus cinco filhos passaram a viver sob prisão domiciliar. Entre os filhos estavam as grã-duquesas Olga, Tatiana, Maria e Anastásia, além do herdeiro do trono, Alexei. O destino da família imperial tornava-se cada vez mais incerto em meio ao avanço revolucionário que transformava completamente a Rússia.

Após a tomada do poder pelos bolcheviques liderados por Vladimir Lenin, a situação da antiga família imperial piorou drasticamente. Os revolucionários viam os Romanov como símbolos do antigo regime czarista e temiam que forças contrarrevolucionárias tentassem restaurar a monarquia utilizando Nicolau II como figura política. Inicialmente, a família foi mantida em prisão relativamente confortável no palácio de Tsarskoe Selo, mas posteriormente transferida para Tobolsk, na Sibéria, devido ao agravamento da guerra civil russa. Em 1918, os Romanov foram novamente deslocados, desta vez para a cidade de Ecaterimburgo, nos Montes Urais, onde passaram a viver na chamada Casa Ipatiev. As condições tornaram-se muito mais rígidas naquele local. Guardas revolucionários controlavam todos os movimentos da família, limitando contatos externos e aumentando constantemente a vigilância. Enquanto isso, a Guerra Civil Russa se intensificava entre os bolcheviques e os chamados Exércitos Brancos, formados por grupos monarquistas, liberais e anticomunistas. As forças antibolcheviques aproximavam-se da região de Ecaterimburgo, levantando temores entre os líderes revolucionários de que a família imperial pudesse ser libertada. O governo bolchevique começou então a discutir secretamente o destino definitivo dos Romanov.

Na madrugada de 17 de julho de 1918 ocorreu um dos episódios mais chocantes da história moderna. Execução da Família Romanov marcou o assassinato de Nicolau II, Alexandra, seus cinco filhos e alguns empregados próximos dentro da Casa Ipatiev. Segundo relatos históricos, a família foi acordada durante a noite sob a alegação de que precisariam ser transferidos devido à aproximação das forças inimigas. Eles foram conduzidos ao porão da residência, onde aguardaram por alguns minutos sem compreender exatamente o que estava acontecendo. Pouco depois, um grupo armado liderado por Yakov Yurovsky entrou no local e anunciou rapidamente que o Soviete dos Urais havia decidido executá-los. Em seguida, os soldados abriram fogo contra a família imperial. O massacre foi extremamente caótico e brutal. Algumas das filhas sobreviveram aos primeiros disparos porque joias costuradas em suas roupas funcionaram parcialmente como proteção improvisada contra as balas. Isso levou os executores a utilizarem baionetas e tiros à curta distância para concluir a execução. O episódio ocorreu em meio a enorme tensão política e militar, refletindo o clima violento da Guerra Civil Russa. Os corpos foram removidos secretamente da casa e levados para áreas isoladas, onde tentativas de ocultação foram realizadas pelos bolcheviques.

Durante décadas, o governo soviético evitou divulgar detalhes completos sobre a morte da família imperial. Inicialmente, as autoridades admitiram apenas a execução de Nicolau II, escondendo o assassinato da imperatriz e das crianças. Isso alimentou inúmeros rumores e lendas ao longo do século XX, especialmente sobre uma possível sobrevivência da jovem Grand Duchess Anastasia Nikolaevna. Diversas mulheres chegaram a afirmar publicamente que seriam Anastásia, criando um dos maiores mistérios populares da história contemporânea. Somente após o fim da União Soviética investigações mais completas puderam ser realizadas sobre o caso. Na década de 1990, restos mortais encontrados próximos a Ecaterimburgo foram analisados por especialistas utilizando exames de DNA. Os testes confirmaram que pertenciam à família Romanov e a seus acompanhantes executados em 1918. Posteriormente, restos de Alexei e de uma das irmãs também foram localizados, encerrando grande parte das dúvidas históricas sobre o destino da família imperial. Em 1998, os corpos identificados foram enterrados com honras oficiais na Catedral de Pedro e Paulo, em São Petersburgo, local tradicional de sepultamento dos czares russos. O episódio continua despertando enorme interesse histórico e emocional até os dias atuais. Livros, filmes, documentários e pesquisas continuam explorando os detalhes daquela noite dramática.

A morte da família Romanov tornou-se um símbolo poderoso do colapso do antigo regime imperial russo e da violência revolucionária que marcou o nascimento da União Soviética. Para muitos historiadores, o assassinato representou não apenas a eliminação física da monarquia, mas também uma demonstração da radicalização política extrema ocorrida durante a Guerra Civil Russa. O episódio chocou profundamente governos europeus, especialmente porque Nicolau II possuía laços familiares com diversas casas reais do continente. Ao longo do século XX, a figura dos Romanov passou gradualmente a adquirir um caráter quase lendário, cercado de tragédia, mistério e simbolismo histórico. A Igreja Ortodoxa Russa canonizou Nicolau II e sua família como mártires no início dos anos 2000, aumentando ainda mais o impacto emocional de sua história na Rússia contemporânea. Atualmente, o local da antiga Casa Ipatiev abriga a chamada Igreja sobre o Sangue, construída em homenagem à família imperial assassinada. O destino dos Romanov continua sendo debatido sob diferentes perspectivas políticas e históricas. Alguns veem a execução como consequência brutal inevitável da revolução, enquanto outros a consideram um crime político injustificável contra crianças e civis indefesos. Independentemente da interpretação, a morte de Nicholas II e de sua família permanece como um dos acontecimentos mais dramáticos e impactantes da história do século XX.

Leon Trotsky

Leon Trotsky
Leon Trotsky foi uma das figuras mais importantes, influentes e controversas da história da Revolução Russa e da formação da União Soviética. Nascido em 1879, na atual Ucrânia, então parte do Império Russo, Trotski cresceu em uma família de fazendeiros relativamente próspera e desde jovem demonstrou grande interesse por política e ideias revolucionárias. Durante a juventude, envolveu-se em movimentos marxistas clandestinos que combatiam o regime autoritário do czar russo. Suas atividades políticas resultaram em prisões, perseguições e períodos de exílio na Sibéria, algo comum entre revolucionários russos daquele período. Inteligente, carismático e dono de enorme capacidade de oratória, Trotski rapidamente tornou-se um dos líderes socialistas mais conhecidos da Rússia. Durante os primeiros anos do século XX, passou temporadas na Europa Ocidental, convivendo com outros importantes revolucionários marxistas, incluindo Vladimir Lenin. Inicialmente, Trotski teve divergências políticas com Lenin, mas os dois acabaram se aproximando novamente durante os acontecimentos revolucionários de 1917. Naquele ano, a Rússia mergulhou em crise profunda devido à fome, ao colapso econômico e às derrotas militares na Primeira Guerra Mundial. Trotski tornou-se então peça central no processo revolucionário que transformaria completamente a história do país.

Durante a Revolução Russa, Trotski desempenhou papel decisivo na tomada do poder pelos bolcheviques. Sua habilidade como organizador e estrategista militar foi fundamental para o sucesso da revolução liderada por Lenin. Como presidente do Soviete de Petrogrado, ele ajudou a coordenar a insurreição armada que derrubou o Governo Provisório russo em outubro de 1917. Pouco tempo depois, Trotski assumiu importantes cargos no novo governo soviético, incluindo o comando das negociações de paz com a Alemanha durante o Tratado de Brest-Litovsk. Entretanto, sua contribuição mais famosa ocorreu durante a Guerra Civil Russa, iniciada logo após a revolução. Trotski foi o principal criador e comandante do Exército Vermelho, força militar responsável por defender o novo governo comunista contra diversos inimigos internos e externos. Demonstrando enorme energia e disciplina, ele viajava constantemente em trens blindados pelo território russo, organizando tropas, combatendo rebeliões e impondo rígido controle militar. Sob sua liderança, o Exército Vermelho derrotou os chamados “Exércitos Brancos”, grupos anticomunistas apoiados por potências estrangeiras. A vitória consolidou o poder bolchevique e permitiu a sobrevivência da recém-criada União Soviética. Trotski passou então a ser visto como um dos homens mais poderosos do novo regime comunista.

Apesar de sua importância revolucionária, Trotski acabou entrando em conflito direto com Joseph Stalin após a morte de Lenin, em 1924. A disputa pelo controle da União Soviética transformou-se em uma das mais ferozes lutas políticas da história moderna. Trotski defendia a ideia da “revolução permanente”, acreditando que o socialismo só sobreviveria se a revolução se espalhasse internacionalmente para outros países. Stalin, por outro lado, defendia o conceito de “socialismo em um só país”, priorizando o fortalecimento interno da União Soviética. Além das diferenças ideológicas, Stalin demonstrou enorme habilidade política ao construir alianças dentro do Partido Comunista e isolar seus adversários. Aos poucos, Trotski perdeu espaço dentro do governo soviético e passou a ser acusado de conspirar contra o regime. Em 1927, foi expulso do Partido Comunista e, posteriormente, banido da própria União Soviética. Seu exílio marcou o início de uma longa perseguição internacional promovida por Stalin. Trotski viveu em diversos países, incluindo Turquia, França, Noruega e México, sempre cercado por vigilância, ameaças e tentativas de assassinato. Mesmo distante da União Soviética, continuou escrevendo livros, artigos e críticas ferozes contra o stalinismo.

No exílio, Trotski tornou-se o principal opositor internacional do regime de Stalin. Ele denunciava constantemente os expurgos políticos, as prisões em massa e o autoritarismo implantado na União Soviética durante os anos 1930. Milhares de antigos revolucionários bolcheviques foram presos, executados ou enviados para campos de trabalhos forçados nos famosos Gulags. Trotski acusava Stalin de ter traído os ideais originais da Revolução Russa e transformado o país em uma ditadura burocrática brutal. Mesmo distante de Moscou, sua influência intelectual continuava preocupando o governo soviético. Em 1938, Trotski ajudou a fundar a Quarta Internacional, organização política criada para reunir socialistas revolucionários contrários ao stalinismo e ao capitalismo. Seus livros e análises políticas circularam amplamente em diversos países e influenciaram movimentos de esquerda ao redor do mundo. No México, Trotski recebeu asilo político e passou a viver sob proteção armada devido às ameaças constantes contra sua vida. O pintor mexicano Diego Rivera e a artista Frida Kahlo estiveram entre as personalidades que o apoiaram naquele período. Apesar disso, agentes soviéticos continuavam planejando formas de eliminá-lo. O clima de tensão ao redor de Trotski aumentava a cada ano.

O desfecho da vida de Trotski ocorreu em 1940, no México, quando ele foi assassinado por Ramón Mercader, agente ligado aos serviços secretos soviéticos. O ataque aconteceu dentro da própria residência de Trotski, onde Mercader o golpeou brutalmente com uma picareta de alpinismo. O revolucionário ainda chegou a sobreviver por algumas horas, mas morreu no dia seguinte devido aos ferimentos. Sua morte simbolizou o alcance internacional da perseguição promovida por Stalin contra antigos adversários políticos. Mesmo após sua morte, as ideias de Trotski continuaram exercendo influência sobre movimentos socialistas e revolucionários em vários países. O chamado trotskismo tornou-se uma corrente política própria dentro do marxismo, defendendo internacionalismo revolucionário e oposição ao stalinismo. Até hoje, historiadores debatem intensamente o papel de Trotski na Revolução Russa e nos primeiros anos da União Soviética. Alguns o consideram um dos maiores estrategistas revolucionários do século XX, enquanto outros criticam sua participação em políticas repressivas durante a Guerra Civil Russa. Sua trajetória mistura idealismo revolucionário, disputas de poder, guerra, exílio e tragédia política. Leon Trotsky permanece como uma das figuras mais fascinantes e complexas da história contemporânea.

sábado, 16 de maio de 2026

The Beach Boys - Surfin’ Safari

The Beach Boys - Surfin’ Safari 
Lançado em 1º de outubro de 1962, Surfin’ Safari marcou a estreia oficial de The Beach Boys no mercado fonográfico e apresentou ao mundo a sonoridade ensolarada que rapidamente se tornaria símbolo da juventude californiana dos anos 1960. Liderado criativamente por Brian Wilson, o grupo surgiu em um momento em que o rock and roll começava a se transformar, trazendo uma mistura única de harmonias vocais inspiradas no doo-wop, letras sobre surf, carros e diversão adolescente, além de melodias extremamente acessíveis. Embora o álbum ainda demonstrasse certa simplicidade em comparação às obras-primas que os Beach Boys lançariam nos anos seguintes, ele foi fundamental para estabelecer a identidade musical da banda. Surfin’ Safari ajudou a popularizar o chamado “surf rock”, transformando os Beach Boys em representantes da cultura jovem da Costa Oeste americana. O impacto inicial do disco foi importante não apenas comercialmente, mas também culturalmente, pois apresentou um estilo de vida idealizado que se tornaria um dos símbolos da música pop da década.

A recepção crítica ao álbum foi positiva, ainda que muitos jornalistas enxergassem o grupo inicialmente como um fenômeno juvenil passageiro. A revista Billboard destacou o forte potencial comercial do disco, afirmando que “as harmonias vocais do grupo possuem frescor e energia capazes de conquistar rapidamente o público jovem”. Já a Variety comentou que os Beach Boys “trazem uma abordagem divertida e acessível ao rock adolescente”, elogiando especialmente a faixa-título. No Reino Unido, a NME (New Musical Express) observou que o grupo apresentava “um som distinto e extremamente americano”, embora ainda não demonstrasse o refinamento musical que mais tarde definiria sua carreira. Muitos críticos perceberam no álbum um entusiasmo genuíno e uma forte conexão com o público jovem da época.

A imprensa americana de maior prestígio também comentou o surgimento da banda. O The New York Times observou que os Beach Boys “capturam com eficiência o espírito da adolescência californiana”, destacando a leveza e o apelo popular das canções. O Los Angeles Times elogiou a autenticidade regional do grupo, ressaltando que sua música “traduz a atmosfera praiana do sul da Califórnia de maneira vibrante e comercialmente eficaz”. Já a The New Yorker adotou um tom mais cauteloso, sugerindo que o grupo ainda precisava amadurecer artisticamente, mas reconhecendo o talento de Brian Wilson como compositor e arranjador em ascensão. Essas análises iniciais mostravam que, embora ainda vistos como artistas adolescentes, os Beach Boys começavam a chamar atenção pela qualidade de suas harmonias e pela identidade sonora muito própria.

No aspecto comercial, Surfin’ Safari foi um sucesso considerável para um álbum de estreia. O disco alcançou o Top 40 da Billboard 200, enquanto a faixa-título tornou-se um hit nacional, ajudando a impulsionar as vendas do álbum. Nos Estados Unidos, o disco vendeu centenas de milhares de cópias e consolidou os Beach Boys como uma das novas atrações mais promissoras da música pop americana. O sucesso comercial abriu caminho para uma sequência impressionante de lançamentos nos anos seguintes, durante os quais o grupo rapidamente evoluiria musicalmente e alcançaria fama internacional. Embora ainda distante dos números gigantescos que teriam mais tarde com álbuns como Pet Sounds, Surfin’ Safari foi essencial para lançar a carreira da banda e estabelecer sua presença nas rádios americanas.

Com o passar das décadas, Surfin’ Safari passou a ser visto como um documento histórico importante do início da carreira dos Beach Boys e da cultura jovem americana dos anos 1960. Especialistas reconhecem que, embora o álbum seja relativamente simples em comparação aos trabalhos mais sofisticados da banda, ele contém os elementos fundamentais que definiriam o som do grupo: harmonias vocais ricas, melodias cativantes e uma forte atmosfera ensolarada. Para os fãs, o disco preserva o charme inocente e energético da juventude californiana antes das transformações mais complexas que Brian Wilson levaria à música pop nos anos seguintes. Hoje, Surfin’ Safari permanece como um marco do surf rock e como o ponto de partida de uma das carreiras mais influentes da história da música popular.

The Beach Boys - Surfin’ Safari (1962)
Surfin’ Safari
County Fair
Ten Little Indians
Chug-A-Lug
Little Girl (You’re My Miss America)
409
Surfin’
Heads You Win – Tails I Lose
Summertime Blues
Cuckoo Clock
Moon Dawg
The Shift

Erick Steve. 

Elvis Presley - Kissin’ Cousins

Elvis Presley - Kissin’ Cousins
Lançado em 2 de abril de 1964, Kissin’ Cousins foi mais um álbum de trilha sonora da fase hollywoodiana de Elvis Presley, acompanhando o filme homônimo no qual o cantor interpretava dois personagens diferentes. Durante os anos 1960, Elvis estava profundamente envolvido com sua carreira cinematográfica, e esse período produziu uma série de discos ligados diretamente aos filmes estrelados por ele. Kissin’ Cousins reflete exatamente essa fase: um trabalho leve, descontraído e claramente voltado ao entretenimento popular. Musicalmente, o álbum mistura rock suave, country e canções cômicas, acompanhando o tom divertido do longa-metragem. Embora estivesse distante da ousadia musical de seus primeiros anos no rock and roll, o disco teve importância dentro da estratégia comercial de manter Elvis constantemente presente no cinema e nas paradas. Em uma década marcada pela ascensão da The Beatles e pela transformação da música pop, álbuns como Kissin’ Cousins mostravam Elvis apostando em um modelo seguro e altamente comercial.

A recepção crítica ao álbum foi bastante dividida. A revista Billboard destacou o potencial comercial do disco, afirmando que “o nome Elvis Presley continua sendo garantia de vendas”, além de elogiar a produção limpa e acessível das faixas. Já a Variety observou que o álbum “cumpre sua função como complemento do filme”, mas sugeriu que o material carecia de maior profundidade artística. No Reino Unido, a NME (New Musical Express) comentou que Elvis parecia confortável em sua fórmula cinematográfica, embora alguns críticos da publicação tenham apontado que o cantor estava artisticamente distante da inovação que dominava o cenário musical britânico da época. Ainda assim, a imprensa reconhecia que seu carisma permanecia intacto e que ele continuava sendo um dos artistas mais populares do mundo.

Os grandes jornais americanos também trouxeram análises variadas sobre o projeto. O The New York Times comentou que Elvis “mantém sua habilidade de transformar canções simples em momentos agradáveis”, embora tenha observado que o álbum não apresentava grandes riscos criativos. O Los Angeles Times destacou a atmosfera divertida e informal do disco, afirmando que ele “dialoga diretamente com o público familiar e jovem que acompanha os filmes de Presley”. Já a The New Yorker foi mais crítica, sugerindo que “a fase cinematográfica de Elvis parece priorizar quantidade e apelo comercial acima de ambição musical”. Mesmo assim, muitos jornalistas reconheciam que o artista ainda possuía uma presença vocal marcante e um talento natural para o entretenimento popular.

No aspecto comercial, Kissin’ Cousins foi um sucesso sólido. O álbum alcançou boas posições nas paradas americanas, chegando ao Top 10 da Billboard 200, além de vender centenas de milhares de cópias nos Estados Unidos e em outros mercados internacionais. O filme também ajudou a impulsionar as vendas do disco, seguindo a fórmula já consolidada pela equipe de Elvis ao longo dos anos 1960. Embora não tenha alcançado os números extraordinários de seus maiores sucessos da década anterior, o álbum demonstrou que Elvis ainda era uma força comercial importante em meio às rápidas mudanças do mercado musical. O desempenho financeiro do projeto reforçou a viabilidade da combinação entre cinema e música que dominava sua carreira naquele período.

Com o passar do tempo, Kissin’ Cousins passou a ser visto como um retrato bastante representativo da fase hollywoodiana de Elvis Presley. Especialistas em música frequentemente citam o álbum como exemplo do período em que o cantor priorizou projetos cinematográficos leves e altamente comerciais, afastando-se temporariamente do rock mais inovador que havia ajudado a criar nos anos 1950. Para muitos fãs, porém, o disco possui um charme nostálgico e divertido, associado à imagem descontraída de Elvis no cinema. Embora raramente seja colocado entre seus trabalhos artisticamente mais importantes, Kissin’ Cousins continua sendo lembrado como parte essencial da trajetória de um artista que dominou simultaneamente a música e o cinema popular por boa parte da década de 1960.

Elvis Presley - Kissin’ Cousins (1964)
Kissin’ Cousins
Smokey Mountain Boy
There’s Gold in the Mountains
One Boy, Two Little Girls
Catchin’ On Fast
Tender Feeling
Anyone (Could Fall in Love with You)
Barefoot Ballad
Once Is Enough
Kissin’ Cousins (No. 2)
Echoes of Love
Long Lonely Highway

Erick Steve. 

quinta-feira, 14 de maio de 2026

Cidade Fantasma

Título no Brasil: Cidade Fantasma
Título Original: City of Ghosts
Ano de Lançamento: 2002
País: Estados Unidos
Estúdio: United Artists
Direção: Matt Dillon
Roteiro: Matt Dillon, Barry Gifford
Elenco: Matt Dillon, James Caan, Gérard Depardieu, Stellan Skarsgård, Rose Byrne

Sinopse:
O corretor Jimmy Cremming (Matt Dillon) trabalha em uma empresa de seguros nos Estados Unidos. As coisas se complicam quando a "casa cai". O negócio é fraudulento, criado para aplicar golpes nos clientes. Procurado por policiais e acionado na justiça, Jimmy resolve cair fora dos Estados Unidos, viajando ao distante Camboja, onde pretende encontrar o sócio controlador dessa empresa criada para dar golpes e armar fraudes contra pessoas inocentes. 

Comentários:
Um projeto bem pessoal do ator Matt Dilon. Ele não apenas assinou o roteiro como decidiu assumir a direção do filme. O resultado se revela bem irregular. Começa bem, interessante, prendendo a atenção, mas depois fica perdido, sem saber que caminho seguir. O elenco é muito bom, contando inclusive com um personagem bem curioso interpretado pelo ator Gérard Depardieu. Ele é o dono de um bar fedorento, no melhor estilo "pé sujo". Para complicar ainda mais o sujeito é tão picareta que tem um macaco treinado para roubar turistas estrangeiros. Aliás um ponto negativo desse filme é sua visão "colonialista" do Camboja. Parece que praticamente todos os nativos são bandidos e criminosos! Só que analisando bem, os verdadeiros picaretas são os personagens americanos do filme! Enfim, uma verdadeira região sem lei, onde o que impera mesmo é a velha "Lei da Selva". Salve-se quem puder! 

Pablo Aluísio. 

quarta-feira, 13 de maio de 2026

Cavaleiros do Apocalipse

Título no Brasil: Cavaleiros do Apocalipse
Título Original: Horsemen
Ano de Lançamento: 2009
País: Estados Unidos / Canadá
Estúdio: Platinum Dunes
Direção: Jonas Åkerlund
Roteiro: Dave Callaham
Elenco: Dennis Quaid, Zhang Ziyi, Lou Taylor Pucci, Patrick Fugit

Sinopse:
O filme acompanha o detetive Aidan Breslin (Quaid), um policial emocionalmente abalado pela morte da esposa e pelo distanciamento de seus filhos. Enquanto investiga uma série de assassinatos brutais, ele percebe que os crimes possuem ligações simbólicas com os Quatro Cavaleiros do Apocalipse descritos na Bíblia. À medida que a investigação avança, Breslin mergulha em um universo perturbador de fanatismo, sofrimento e violência extrema, descobrindo conexões pessoais inesperadas com os responsáveis pelos crimes.

Comentários:
Depois de Se7en todos os filmes que usam temas ligados a assassinos em série e justificativas baseadas na religião se tornaram sombras dele. Não tem mais como fugir da comparação. Apesar disso, de soar derivativo e tudo mais, esse filme ainda vale a pena ser conhecido. As cenas de rituais baseadas em textos bíblicos mantém o interesse. Geralmente esses serials killers mergulhados em universos religiosos são extremamente perversos porque acreditam que estão agindo sob as ordens de uma entidade divina superior. Então os freios morais mais mínimos são deixados de lado. É o que chamo de loucura da religião elevado à nona potência. Em relação ao filme em si, a única coisa mais vulnerável a criticar vem justamente da personagem de uma das assassinas. Chatinha e agindo como uma adolescente cheia de birra, ela tira grande parte do impacto que o filme deveria ter. Afinal de contas ter um vilão à altura de um enredo como esse é algo até mesmo básico nesse tipo de filme. 

Pablo Aluísio. 

terça-feira, 12 de maio de 2026

Wyatt Earp

Geralmente as pessoas mistificam certos personagens da história e se aborrecem seriamente quando certas passagens das vidas desses mitos são desmistificadas. Um caso bem exemplificativo disso aconteceu quando Kevin Costner resolver levar para as telas a biografia do lendário xerife do velho oeste, Wyatt Earp. O uso da expressão lendário aqui não é mero enfeite, Earp realmente foi um dos personagens mais conhecidos e celebrados do chamado Oeste Selvagem. Ao lado de seus irmãos e do amigo, o dentista, pistoleiro e tuberculoso Doc Holliday, Wyatt enfrentou uma quadrilha de bandidos no famoso Ok Curral, duelo esse que jamais foi esquecido na vasta mitologia do western americano e que consagrou seu nome para sempre na história dos Estados Unidos. Kevin Costner poderia muito bem apenas endossar a velha lenda mas corajosamente preferiu filmar uma biografia bem mais realista e de acordo com o que realmente aconteceu. O filme, que tem mais de 3 horas de duração, é um primor de qualidade. Na época foi recebido com certas reservas, talvez justamente por ser "real demais".


E afinal, o que tanto aborreceu a alguns segmentos da sociedade ianque? Primeiramente o fato de que certos aspectos da biografia de Earp vieram à tona pela primeira vez no cinema com esse filme. Por exemplo, em todos os filmes que retrataram Wyatt antes ele sempre era mostrado como um homem da lei, acima do bem e do mal. Honesto, correto e incorruptível. A verdade histórica porém não foi bem assim. No filme descobrimos que Wyatt antes de virar xerife teve que fugir de sua terra natal para não ser preso por roubo de cavalos. Isso mesmo, o xerife modelo do oeste americano era na realidade um ladrão de cavalos foragido. Durma-se com um barulho desses. 

Outros aspectos nada lisonjeiros na biografia de Wyatt Earp vão desfilhando pelas cenas: sua dureza com os que o desafiavam, sua fria relação com sua segunda companheira (a primeira esposa faleceu de tifo ainda muito cedo) e os não explicados assassinatos da antiga quadrilha que matou dois dos irmãos Earp. Tudo no filme é retratado de forma corajosa e sem meias palavras. Para quem gosta de história como eu, um roteiro honesto e definitivamente leal à veracidade dos fatos como esse é um prato cheio, um grande prazer. Enfim, Wyatt Earp é item obrigatório para todos aqueles que desejam conhecer a verdade por trás dos mitos do velho oeste, sem enfeites ou fantasias. O velho xerife, mostrado com a veracidade e a velocidade de um colt 45, se revela por inteiro no quadro pintado por Kevin Costner. É a biografia definitiva sobre Wyatt Earp no cinema. Por essa razão se ainda não assistiu, não perca a oportunidade.

Wyatt Earp (Estados Unidos, 1994) Direção: Lawrence Kasdan / Roteiro: Dan Gordon, Lawrence Kasdan / Elenco: Kevin Costner, Dennis Quaid, Gene Hackman / Sinopse: Cinebiografia do famoso xerife e homem da lei Wyatt Earp (Kevin Costner). Ao lado de seus irmãos e do amigo Doc Holliday (Dennis Quaid), Earp se envolveu no famoso duelo do OK Curral, que entrou na história do velho oeste.

Pablo Aluísio.

segunda-feira, 11 de maio de 2026

O Cardeal

O Cardeal
Excelente filme, mas que segue pouco conhecido. Ousaria dizer que foi o melhor filme que assisti do mestre Otto Preminger, aqui em grande forma. Ele realizou não apenas um grande filme, mas também um filme grande! São quase 3 horas de duração, mas que não se tornam cansativas. Os bons filmes resistem a esse tipo de situação. De certa forma, penso que sua longa duração tenha feito com que muitos não encarassem o desafio de assistir ao filme. Então, se assim o fizeram, perderam a oportunidade de assistir a uma bela produção cinematográfica.  

Temos aqui a história de Stephen Fermoyle (Tom Tryon). Americano, nascido numa grande família de imigrantes irlandeses, ele escolhe pelo seminário, se tornando padre em Boston após alguns anos de estudo. Jovem inteligente e estudioso, logo chama atenção de seus superiores que o levam para o Vaticano, onde novamente se destaca por seus textos e teses sobre a história da Igreja Católica. Seu destino parece ser o de entrar para o corpo diplomático da Igreja, mas ele acaba retornando aos Estados Unidos, para unir teoria e prática na vida cotidiana de um sacerdote em contato com a sua comunidade. Afinal entre teoria e prática existe um oceano de diferenças. 

O filme acompanha toda a sua longa caminhada até se tornar um cardeal da cúria romana. Nessa jornada pessoal ele conhece o amor (na pela de uma linda e jovem Romy Schneider), o racismo violento do sul dos Estados Unidos e como prova final de fogo, o surgimento do nazismo, justamente no período em que ele vai a Viena para tomar contato com aquela ideologia nefasta, sob as ordens expressas do Papa. O filme assim não é apenas a história de um homem, mas tambem um resumo, um retrato, do que aconteceu no mundo na primeira metade do século XX. Sob esse ponto de vista, o filme é nada menos do que brilhante. Adorei e recomendo, sem reservas, esse clássico do cinema. 

O Cardeal (The Cardinal, Estados Unidos, Alemanha, Itália, 1963) Direção: Otto Preminger / Roteiro: Robert Dozier, Henry Morton Robinson / Elenco: Tom Tryon, Romy Schneider, Burgess Meredith, John Huston, John Saxon, Carol Lynley / Sinopse: A história de um jovem padre até sua chegada final ao cargo de Cardeal da Igreja Católica. Ao longo de sua vida ele enfrenta a violência do racismo nos Estados Unidos, testemunha o surgimento do nazismo na Europa e precisa escolher entre a vida religiosa ou o amor daquela que se torna sua grande paixão. 

Pablo Aluísio.